sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Soteriologia (a doutrina da salvação)


Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16)
 
UMA PALAVRA AO LEITOR

Durante alguns anos ensinando na Escola Bíblica Dominical minha igreja e em outras denominações evangélicas, percebi que é muito deficitário o conhecimento dos alunos sobre o assunto que ocupa o lugar central na Bíblia Sagrada e no Cristianismo: a salvação espiritual. É bem verdade que todos os cristãos conhecem muito bem a história da crucificação do Filho de Deus em favor dos homens, que “Deus amou o mundo de tal maneira que entregou o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16), mas quando questionados sobre o porquê de Deus chegar a este extremo e convidados a explicar o processo da salvação, os cristãos , na maioria das vezes, ou não sabem ou dão uma resposta muito superficial. Todavia, conhecer profundamente a soteriologia é ter consciência da gravidade do pecado, da terrível situação do homem natural, bem como do amor incomensurável de Deus, amor que não mede sacrifício. Conhecer esta verdade é o mesmo que jogar álcool na chama da gratidão, ou seja, quanto mais conhecermos a história de nossa salvação, mais teremos disposição para sermos agradecidos. Por isso, espera-se que com este trabalho, o leitor dê um salto além do simplesmente dizer que é salvo e possa compreender todos os elementos envolvidos no processo da redenção humana, mediante a obra de Cristo no calvário, para uma gratidão consciente.


INTRODUÇÃO
A doutrina da salvação (soteriologia) ocupa lugar central na Bíblia Sagrada e, por conseguinte, na religião cristã. Por isso é extremamente necessário que a igreja de Cristo a priorize em sua grade de ensino. O desenvolvimento total da revelação de Deus nas Escrituras se dá a partir do fato de que o Criador previu a queda espiritual do homem desde tempos eternos, bem como as suas deletérias consequências, e, movido de imensurável amor, proveu um meio de salvá-lo, o qual foi anunciado pela primeira vez pelo próprio Deus no livro de Gênesis (3.15), permeou todo o Antigo Testamento nos tipos e símbolos dos rituais levíticos e na voz dos profetas, reis e sacerdotes. Na plenitude dos tempos, a promessa de salvação teve seu cabal cumprimento na pessoa bendita de Jesus Cristo.. Toda a revelação escriturística gira em torno desta verdade: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).



  I. A EXTREMA NECESSIDADE DE SALVAÇÃO

Por que a humanidade necessita desesperadamente da salvação espiritual? E como podem satisfazer essa grande necessidade? Estas questões são a porta de entrada para a busca por uma compreensão mais profunda da obra redentora de Cristo. E as respostas a elas só podem ser oferecidas relacionadas à maneira correta de se compreender três verdades bíblicas: 1) o caráter de Deus; 2) a natureza da criação humana; 3) a nocividade do pecado. Como observa o teólogo Daniel B Pecota (in Horton, 1994), se Deus não fosse como a Bíblia nos revela, e não tivéssemos sido criados à sua imagem, e não tivéssemos subsequentemente caído, a salvação, conforme a Bíblia nos descreve, não teria sido possível nem necessária. Por isso o drama da redenção tem como pano de fundo o caráter santo de Deus e a natureza pecaminosa da criação humana.

1. A importância da terminologia para a compreensão do assunto. A terminologia relacionada à soteriologia, empregada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tem importância fundamental para a compreensão dessa doutrina. É corrente no vocabulário cristão o uso das palavras “redenção”, “expiação” e “propiciação”, mas nem sempre atentamos para o real significado das mesmas. Todavia a conceituação correta desses termos carrega toda a dimensão da obra salvífica de Cristo. Redimir, segundo o dicionário Michaelis, significa “libertar do cativeiro mediante pagamento de resgate”, e isso pressupõe uma situação em que um opressor cruel cerceia a liberdade de sua vítima e cobra um preço alto para libertá-la. Expiar significa “reparar (crime ou falta) por meio de penitência ou pena” (o Globo), o que pressupõe uma situação em que um réu, cujo crime não pode ficar sem punição, está sendo submetido ao rigor da lei. Ainda segundo o Michaelis, propiciar significa “tornar propício, favorável, aplacar”, e isso pressupõe uma situação em que o direito de alguém foi violado e, por conseguinte, encontra-se em oposição aberta ao infrator em uma querela judicial.

Na Bíblia, as três palavras acima definidas são frequentemente tradução dos vocábulos hebraicos kãphar e grego hilaskomai. A primeira tornou-se, entre os hebreus, um termo técnico dos rituais de sacrifício de Israel e encontra alta relevância no Dia da Expiação (Lv 16), quando o sumo sacerdote, depois de oferecer um novilho em favor de si mesmo e de toda sua casa, lançava sorte sobre dois bodes, sendo um enviado para o deserto como expiação (16.10) e o outro sacrificado. Em seguida o sacerdote espargia o sangue no animal sacrificado no propiciatório (kappõret) como expiação pelos pecados do povo (16.15-20). Note que a prática de se impor as mãos sobre o sacrifício (Lv 4.15; 1616.21) significava dizer “estou sacrificando isso em meu lugar”, ou seja, como resgate pela minha alma.

O segundo termo (hilaskomai) era usado entre os gregos com o significado de tornar as divindades favoráveis, por meio de sacrifícios que as aplacavam, uma vez que elas não tinham naturalmente boa vontade para com os homens e precisavam ser conquistadas. No uso do Novo Testamento, a ideia de tornar a Divindade favorável é a mesma; porém aqui não encontramos um Deus rancoroso, indisposto para com os humanos. Deus nunca poderia ser conquistado ou propiciado por qualquer ato de iniciativa nossa, mas Ele mesmo, segundo a sua boa vontade, provê o meio pelo qual venha a ser tornar favorável (Hb 2.17).

De posse da compreensão desses termos, vamos analisar, passo a passo, por que a salvação espiritual é tão importante para a criatura humana.

2. A natureza humana foi afetada pelo pecado

2.1 Significado etimológico. A nomenclatura bíblica empregada para referir-se ao pecado é consideravelmente vasta, como cerca de trinta raízes diferentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Em nosso estudo, porém, apenas nos valeremos dos principais vocábulos que mais satisfatoriamente expressam a ideia de pecado.

Hattha: Segundo o dicionário Vine, o substantivo hattha aparece cerca de 293 vezes e em todos os períodos da literatura bíblica e transmite o conceito de pecado que se estende tanto ao desejo pecaminoso, quanto aos atos pecaminosos resultantes dos desejos. Mas a acepção principal de hattha é a que transmite a ideia de errar alguém o alvo (155 vezes), dando a entender, portanto, que o pecador, devido a sua vontade e inteligência pervertidas, não tem condição alguma de atingir o propósito primacial da vida, que é fazer a vontade de Deus.

Hamartia: Palavra de origem grega mais comumente usada para referir-se ao pecado, que correspondente de hatha, tem também o significado original de errar alguém o alvo, o que, numa relação com a doutrina do pecado, denota que o pecador tende naturalmente a errar o alvo final da vida, ou o objetivo para o qual foi criado, da mesma que um arqueiro atira a flecha, mas não acerta o que pretende. Portanto, pecar é desviar do caminho, inicialmente traçado, é todo e qualquer ato de desobediência à Palavra de Deus. É de hamartia que vem o nome da disciplina que estamos estudando: hamartiologia.

2.2 Definição teológica de pecado. Pecado pode ser teológica sinteticamente definido como “falta de conformidade com a lei moral de Deus, em atos, atitudes e natureza (Grudem, 2001). Ou como definiu João: “o pecado é transgressão” (1Jo 3.4). Vale salientar que não se trata apenas de atos reprováveis cometidos, mas de uma predisposição inerente ao gênero humano para transgredir a lei de Deus.

Para uma compreensão mais abrangente da definição acima, faz-se necessário entendermos a doutrina da queda do homem e as suas deletérias consequências. No capitulo 3 do livro de Gênesis, encontra-se o registro da maior tragédia da história humana. Adão e Eva, representantes legítimos de toda a humanidade, induzidos por Satanás, desobedeceram à ordem de Deus, o qual, havendo-os criado, colocou-os no jardim do Éden e ordenou a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 3.16,17). Após deliberada desobediência à ordem divina, aquele primeiro casal percebeu que Deus estava falando sério e as consequências terríveis vieram.


A UNIVERSALIDADE DO PECADO

Frank Charles Thompson, numa análise profunda da carta de Paulo Aos Romanos, explica a teologia paulina, segundo a qual todo ser humano está rodeado de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (caps 1-3) e o muro das tendências pecaminosas e das concupiscências carnais (7. 15-24). Em alguns livros de teologia, os autores usam, respectivamente, as designações culpa herdada e corrupção herdada às verdades supracitadas.

1. Culpa herdada. Em Adão todos os homens são culpados diante de Deus. Este é o teor da teologia paulina na carta aos Romanos, onde o apóstolo dos gentios mostra que os seres humanos estão rodeados de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (1-3) e o muro das tendências pecaminosas e concupiscências carnais (7. 15-24). Segundo Paulo, somos pecadores por herança. No capítulo cinco de Romanos, ele explica o processo pelo qual o pecado de Adão refletiu sobre todos os seus descendentes, dizendo: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

É importante notar que, no capítulo 5, Paulo está fazendo uma comparação entre Adão, representante da raça humana, e Jesus Cristo, representante dos remidos: “Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem, muitos serão feitos justos” (5.19). No versículo 12, Paulo deixa claro que, sendo todos culpados, todos estão debaixo de uma punição severa: a morte.

2. Corrupção herdada. Uma frase bem conhecida no meio cristão diz que “nós não somos pecadores porque pecamos: nós pecamos porque somo pecadores”. Esta máxima resume toda a ideia de corrupção herdada. Os humanos são pecadores por natureza e, portanto, têm uma inclinação natural para fazer o mal. Davi disse: “Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu a minha mãe” (Sl 51.5). O mesmo Davi diz que “os ímpios se alienam desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras (Sl 58.3). Paulo, citando Davi, escreveu na carta Aos Romanos: “Como está escrito: Não há um justo, nenhum sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”(Rm 3.10-12). Esta é a situação do homem natural: está espiritualmente morto (Ef 2.1,5; Cl 2.13), e vive num estado de rebelião constante contra Deus por não conseguir fazer o bem diante Dele (ver Rm 7.15-20).

O evangelista Billy Graham ilustra em termos bem familiares o legado de Adão para a espécie humana:

Cada um de nós aqui esta noite, seja preto, branco, amarelo, vermelho, rico, pobre, qualquer língua que fale, todos estamos relacionados a Adão pelo sangue. É o sangue de Adão que corre nas veias de cada homem, seja ele quem for. E esse sangue que você tem em seu corpo leva consigo uma sentença de morte. (…)Adão se rebelou contra Deus, seu fluxo sanguíneo se envenenou e cada um de nós, como filhos e filhas de Adão, tem o sangue contaminado, e este é o problema do mundo atual – envenenamento no sangue. Nosso sangue se tornou contaminado por uma doença chamada pecado, que nos conduz finalmente à morte. (Graham, Billy. O Desafio, p.32).

3. As deletérias consequências do pecado.

3.1 O pecado impossibilitou a comunhão com Deus. Ao pecarem, a primeira atitude de nossos primeiros pais foi esconder-se de Deus, não podendo mais ter comunhão com Ele. Em contrapartida, Deus os expulsou do jardim de sua presença, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.8, 24). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaías, forma automaticamente uma parede de separação entre um Deus santo e a criatura pecadora (59.2).

3.2 O pecado resultou em morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa instantaneamente a morte espiritual, porque Deus é a vida e a luz dos homens. Morto espiritualmente, o pecador não tem condição sequer de aproximar-se de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3).

3.3 O pecado resultou em morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é o resultado direto da morte espiritual. Procuramos evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não entende é o fato de que a morte é uma sentença proferida pelo próprio Deus, como maldição pelo pecado (Gn 3.19).

3.4 O pecado causa a morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de “segunda morte”, a morte eterna é a extensão da morte espiritual na eternidade. É a eterna separação de Deus, com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física (Hb 9.27).

Obs. Quando Paulo diz que o salário do pecado é a morte (Rm 6.23), ele está se referindo à morte nas três dimensões supracitadas. Vale também salientar que a morte física foi uma porta de escape que o bondoso Deus proveu para o homem, a fim de que este não vivesse eternamente uma vida miserável de pecados; pois mesmo depois da queda, ele poderia comer da árvore da vida e viver eternamente. Deus, porém, o privou do acesso à árvore da vida para que não fizesse tamanho mal contra si mesmo (Gn 3.22,23).Todavia a cessação da existência – o que consideramos um mal necessário –, providenciado como uma porta de escape, ocasiona a morte eterna. Era triste a situação humana. A sua salvação seria um intricado quebra-cabeça. Mas Deus conseguiu montá-lo.

Por enquanto, encerramos esclarecendo a doutrina do pecado, mas pretendemos dar sequência ao estudo pelos próximos dias. Não deixe de acompanhar.



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