sábado, 25 de junho de 2011

Profetas Maiores e Menores

“E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as escrituras” (Lc 24.27).


Desde Moisés até João Batista, levantaram-se muitos profetas em Israel. Alguns não escreveram suas mensagens, os profetas orais; outros deixaram suas profecias e experiências registradas para a posteridade, os profetas literários. Estes últimos encontram-se divididos na Bíblia Sagrada em dois grupos: Profetas Maiores (cinco) e Profetas Menores (doze). Foram classificados assim por Agostinho em razão do volume de seus escritos. Porém, independente de classificação, todos os profetas, orais ou literários, exerceram o seu ministério debaixo da inspiração e autoridade divinas e foram o referencial constante dos ensinadores do Novo Testamento. Amiúde citados por Jesus e por seu apóstolos, estes gigantes da fé lançaram todo o alicerce sobre o qual a Nova Aliança seria edificada. Neste espaço, além de fazermos uma explanação sobre os dois grupos dos profetas literários, apresentaremos um breve estudo sobre o texto de Romanos 9.25-29, onde o apóstolo Paulo menciona os profetas Oseias e Isaías - um do grupo dos Maiores e outro do grupo dos Menores - para defender uma verdade central da fé cristã: o novo povo de Deus seria formado por gentios convertidos ao evangelho e pelo remanescente fiel de Israel, conforme predito pelos dois profetas supracitados.

I. CLASSIFICAÇÃO DOS LIVROS PROFÉTICOS

1. No Cânon Hebraico.

A Bíblia dos judeus é o Antigo Testamento hebraico, chamada por eles de Tanach, sigla que vem das palavras hebraicas Torah, Neviym, Kethuvym, e significam respectivamente Lei, Profetas e Escritos, as três principais divisões do Antigo Testamento. A Torah compõe-se dos cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), todos escritos por Moisés. Os Neviym estão divididos em duas partes: os profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis); e os profetas posteriores (Isaías, Jeremias e Ezequiel mais os doze profetas menores). Os Kethuvym compõe-se da terceira seção e estão subdivididos em três partes, representadas pelos livros poéticos ( Salmos, Provérbios e Jó); os Megilloth, ou Cinco Rolos (Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester); e os Livros Históricos (Daniel, Esdras-Nemias e Crônicas). Como os doze profetas menores formam um só livro, e da mesma forma, os dois livros de Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, e Esdras e Nemias, o Cânon Hebraico somam apenas 24 livros.

Esta disposição da Bíblia hebraica foi ratificada por Jesus no capítulo 24.44 do Evangelho de Lucas. Naquela ocasião, instruindo dois de seus discípulos no caminho para Emaús, o Mestre disse: “Convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés [Torah], e nos Profetas [Neviym], e nos Salmos [ Kethuvym]”.

2. No Cânon Cristão.

O Cânon Cristão corresponde ao Antigo Testamento hebraico mais o Novo Testamento. Em nossa Bíblia, o Antigo Testamento está dividido em quatro grupos: Lei - Parte correspondente aos cinco primeiros livros (Torah hebraico); Livros históricos – que correspondem a 12 livros (Josué, juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Nemias e Ester); Livros poéticos (Jó, Salmo, Provérbios, Eclesiastes e cantares de Salomão); e Os livros proféticos – que estão subdivididos em dois grupos, conforme vemos a seguir.

a) Os Profetas Maiores. Designação usada para identificar o primeiro conjunto de cinco livros dos profetas. São chamados de maiores por causa do volume de seu conteúdo literário, não porque são mais importantes que os demais. São eles: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel.

Isaías e Jeremias profetizaram a partir de Judá, durante um longo período de mais de quarenta anos. O primeiro é considerado o mais ilustre dos profetas literários e também como o profeta messiânico pelo fato de seu livro ser o que mais faz menção do Messias. O segundo, Jeremias intercala sua própria história com a história de seu povo numa sequência que abrange desde o reinado de Josias até o cativeiro babilônico. Jeremias foi perseguido pela casa real em Jerusalém muitas vezes (37.15) e, após a destruição da Cidade Santa, foi levado ao Egito contra a sua vontade. Devido o seu sofrimento intenso durante seu ministério profético, ficou conhecido como o profeta das lágrimas.

Ezequiel e Daniel são os profetas do exílio. Foram levados para Babilônia na primeira deportação. O primeiro profetizou por 22 anos junto ao rio Quebar (1.1; 43.3). Sua mensagem profética prevê a invasão da Terra Santa por Gogue e sua consequente derrota antes da restauração espiritual de Israel. O segundo, Daniel, foi levado muito jovem para Babilônia, serviu diretamente no palácio real. Após a queda de Babilônia, continuou no reino da Pérsia como ministro de e morreu no exílio.

b) Os Profetas Menores. Os Profetas menores do nosso Antigo Testamento estão na mesma sequência do Cânon judaico: Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. A designação Profetas Menores deve-se ao seu pequeno volume literário em comparação aos de Isaías, Jeremias, não se refere a grau de importância dentro do Cânon ou à qualidade da inspiração divina.

Os livros destes profetas levam os nomes de seus respectivos autores, cujos ministérios abrangem o tempo que vai de 800 a 435 a. C. Jonas e Joel são os primeiros profetas literários na ordem cronológica dos Menores, e profetizaram no Reino do Norte. O primeiro viveu na época de Jeroboão II, quando os assírios atormentavam o Reino de Israel. Foi incumbido, contra a sua vontade, de pregar aos assírios, em Nínive, para que estes se arrependessem. Joel é chamado de o profeta pentecostal por ter previsto o derramamento do Espírito Santo para nos últimos dias. É também conhecido como o profeta do Dia do Senhor.

Oseias, Amós Miqueias foram contemporâneos, sendo que os dois primeiros profetizaram Em Israel, e o terceiro em Judá. Junto com Isaías, formaram o quarteto áureo da profecia hebraica (790 – 695).

Com apenas um capítulo, Obadias profetizou a condenação de Edom, porque coligara-se aos caldeus durante o cerco de Jerusalém. Naum é um poema que antecipa o fim do cativeiro assírio cerca de 150 anos depois de Jonas. Habacuque é o registro de sua própria experiência com Deus, enquanto Sofonias, que não é citado no Novo Testamento, prega contra a injustiça, idolatria e hipocrisia, bem como sobre o iminente juízo divino.

Zacarias e Ageu são os profetas pós-cativeiro, os quais se empenharam junto a Zorobabel na reconstrução do templo e, impelidos pelo Espírito do Senhor, despertaram no povo acomodado o interesse pela obra.

II. OSEIAS, O PROFETA MENOR

Oseias foi chamado por Deus para profetizar ao Reino de Israel no reinado de Jeroboão II, quando aquele povo desmoronava espiritualmente nos últimos quarenta anos de sua existência. Quando Oseias começou seu ministério, Israel desfrutava de uma temporária prosperidade econômica e de paz política, que acabariam por produzir um falso senso de segurança. Logo após a morte de Jeroboão II, porém, a nação começa a deteriorar-se, e caminha velozmente à destruição em 722 a. C.

O que muito impressiona neste livro foi a ordem de Deus para Oseias se casasse com uma mulher de prostituição, a fim de exemplificar a infidelidade espiritual de Israel (Os 1.2). Por outro lado, o amor perseverante do profeta por sua mulher adúltera (3.1), serviria de ilustração do amor constante de Deus pelos filhos de Abrão. Deste casamento, o profeta tem três filhos, cujos nomes são sinais proféticos a Israel: Jezreel (Deus espalha), Lo-Ruama (Não compadecida) e Lo-Ami (Não meu povo).

1. Oseias no Novo Testamento. Os apóstolos e discípulos de Jesus fundamentavam suas pregações e ensinos na autoridade dos profetas. Até porque o que estava acontecendo em seus dias era o cumprimento da Lei e dos Profetas (Mt 11.13; Lc 24.44; At 26.22). Eles explicavam fatos curiosos, como a crucificação, o derramamento do Espírito e a conversão dos gentios, recorrendo aos vaticínios de Isaías, Joel, Oseias e outros. O livro de Oseias, especialmente, é muito citado no Novo Testamento. Há referência ao Filho de Deus chamado do Egito (11.1; cf Mt 2.15); ao desejo de Deus de que a misericórdia prevaleça sobre o sacrifício (6.6; cf Mt 9.13); e à vitória de Cristo sobre a morte (13.14; cf 1 Co 15.55).

O apóstolo Paulo menciona os nomes de dois grandes profetas, Oseias e Isaías, no capítulo 9 de Romanos, para explicar a salvação de um remanescente judeu e a inclusão dos gentios na igreja de Cristo. O contexto é formado pelos capítulos 9-11, em que Paulo mostra por que os judeus foram rejeitados e cortados por Deus, bem como por que os gentios foram chamados e eleitos para participar dos benefícios do evangelho. É notável o fato de ele ter citado os dois profetas exatamente na ordem em que aparecem em nossa Bíblia: Isaías, o primeiro livro dos Profestas Maiores, e Oseias, o primeiro dos Profetas menores.

2. A vocação dos gentios na profecia de Oseias

"Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo" (Rm 9.25,26).

Como já tivemos a oportunidade de ver, o terceiro filho do casamento de Oseias com Gômer é Lo-Ami, cujo nome significa “Não meu povo”. Há quem diga que essa criança não era filho legítimo do profeta. Essa situação constrangedora do profeta retrataria mais uma mensagem divina a Israel. Portanto, Lo-Ami denotaria (i) a rejeição de Deus a Israel por todos os seus pecados de idolatria: “E ele disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami, porque vós não sois o meu povo, nem eu serei o vosso Deus” (1.9); e Segundo a interpretação apostólica, (ii) a não participação dos gentios na família de Deus.

Entretanto, o mesmo Deus que rejeitou seu povo, entregando-o mais tarde ao rei da Assíria (2 Rs 17.6ss), promete reverter a situação e recebê-lo novamente como o seu para sempre: “Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que não pode medir-se nem contar-se (…)”. “E a Lo-Ami direi: Tu és meu povo. E ele dirá: Tu és o meu Deus” (2.23).

Note o paradoxo da frase: “Eu direi a Não-meu-povo (Lo- Ami): Tu és meu povo”. Deus reverteria uma situação irreversível enunciada na profecia. O apóstolo Paulo parte dessa compreensão, quando usa o mesmo oráculo para explicar o fato de os gentios estarem ingressando na igreja. Deus agora recebe os gentios, povo que não lhe pertencia (Lo-Ami), como seus filhos: “(...) e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo” (1.10).

Vale ressaltar que as duas referências do livro de Oseias utilizada por Paulo para mostrar a chamada dos gentios referem-se à redenção das tribos do norte de Israel. Por isso ele não está sugerindo que a salvação dos gentios seja o cumprimento direto dessas profecias. Ele apenas aplica o mesmo princípio, segundo o qual Deus reúne pessoas que não eram do seu povo, as que estavam alienadas Dele, para estabelecer uma relação com Ele, através de sua chamada graciosa.

III. ISAÍAS, O PROFETA MAIOR

Também Isaías clamava acerca de israel: ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a terra completando-a e abreviando-a. E como antes disse Isaías: Se o senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma e seríamos semelhantes a Gomorra (Rm 9.27-29).

Isaías profetizou por cerca de cinquenta anos no Reino do Sul durante o reinado de quatro reis: Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Seu ministério se deu no período de expansão do império assírio, do colapso de Israel e do declínio moral e espiritual de Judá. O seu livro é o mais citado no Novo Testamento depois dos Salmos e considerado a obra mais teológica e extensa de todos os livros proféticos do Antigo Testamento. Isaías ficou conhecido como o profeta messiânico ou profeta evangélico, porque de toda a literatura do Velho Testamento, suas profecias contêm as declarações mais plenas e claras sobre Jesus Cristo.

1. Explanação apostólica. No capítulo 9 de Romanos, o apóstolo Paulo cita o profeta Isaías, referindo-se a duas passagens de seu livro – 1.9 e 10.22,23 –, para aludir ao remanescente fiel dos judeus de sua geração, os quais estavam aderindo à fé cristã. Na verdade, nos capítulos 9-11 da carta referida, Paulo trata da eleição de Israel no passado, da sua rejeição do evangelho no presente e da sua salvação futura. Ele estava respondendo a algumas questões levantadas pelos crentes judeus, por exemplo: Como as promessas de Deus a Abraão e seus filhos poderiam permanecer válidas se a nação de Israel, como um todo, não parece ter parte no evangelho?

O apóstolo dos gentios recorre, então, à afirmação de Isaías que diz: “ Se o Senhor dos Exércitos não nos deixara algum remanescente, já como Sodoma seríamos e semelhantes a Gomorra”. O profeta Isaías aludia ao que restaria de Israel e Judá, depois do cativeiro de ambos, como resultado da infinita misericórdia de de Deus e de sua fidelidade com a promessa feita a Abraão. Paulo, por analogia, aplica o vaticínio do profeta a uma parcela de judeus (remanescente fiel) que estava aceitando o evangelho naqueles dias, os quais eram testemunho de que a promessa de Deus não havia falhado, pois ela visava somente o verdadeiro Israel, aqueles que eram fiéis à promessa (Ver Gn 12.1-3; 17.19). A ideia passada tanto por Isaías como por Paulo é que sempre há um Israel dentro de Israel .

Paulo também usa a afirmação de Isaías que diz: “Ainda que os filhos de Israel sejam como a Areia do mar, o remanescente é que será salvo”. A partir desta afirmativa do profeta, Paulo explica que a rejeição de Israel é temporária e parcial, que por fim eles aceitarão a salvação em Cristo. Isso se dará na segundo vinda do Senhor, quando todos os judeus que estiverem vivos – o que Isaías chamou de remanescente – se converterão ao seu Deus (ver Zc 12.10-14).

2. O cumprimento das promessas de Deus. A real intenção de Paulo nos capítulos 9-11 de Romanos é mostrar que mesmo a crônica desobediência dos israelitas durante toda a sua história, bem como as consequentes provações e castigos por que passaram, não anularam a fidelidade de Deus. Muitos judeus da época podiam pensar que tudo o que fora anunciado sobre o futuro glorioso dos filhos de Abraão não passara de falácia. Mas Deus age na história, fazendo com os fatos e até mesmo os erros humanos venham a convergir para o cumprimento de suas promessas. Apesar de a rejeição de Israel e da inclusão dos gentios na família de Deus serem um fato consumado, a promessa feita ao patriarca Abraão, sob juramento (Gn 22.16; Hb 6.13), não falhou, ela se cumprirá no remanescente fiel.

CONCLUSÃO

Todos os profeta, Maiores e Menores, foram inspirados e usados pelo Espírito Santo, independente do volume do livro escrito por cada um deles. Somente pelo conhecimento do ministério destes santos homens, foi possível aos primeiros seguidores de Cristo a compreensão do plano de Deus relacionado a toda a sua criação, mediante a obra expiatória de Cristo.

A lua e a lembrança

Na falta de sono para dormir eu escrevo, ponho no papel tudo o que me passa na cabeça, não importa o tempo, o que aconteceu ou, penso, vai acontecer. Hoje, olho o céu de São Paulo, surpreendentemente iluminado, adornado de estrelas cintilantes que realçam a beleza da deusa lua, lua que não me é estranha, imagino já tê-la visto em algum outro lugar, bem distante daqui, alguma noite no céu pernambucano.

Naquela madrugada, acordei aturdido. O galo do vizinho cantava em alta voz. Era ele quem me acordava todas as manhãs no seu primeiro canto, dizendo que chegara a hora de pegar no batente. Saltei da cama com disposição à beça, abri a janela na lateral direita de casa e olhei o céu todo claro. Na rua ao lado, dava para ver as árvores mais distantes. Já havia pássaros cantando e cachorros latindo. “Meu Deus, o dia amanheceu, perdi a hora”, desesperei. Em fração de minutos, tirei a roupa quentinha que me aconchegara durante aquela noite e pus o andrajo do trabalho: calças, camisa e boné malcheirosos, endurecidos pelo mel da cana queimada. Nem lembro se comi alguma coisa. Devo ter comido.

Saí correndo, descalço, pela “Rua Q da Olaria”, levando comigo apenas a foice, semi-encabada, bem firme na mão para intimidar os vira-latas que, àquela hora, não pensavam duas vezes para morder. Aqui-acolá, uma daquelas pedrinhas pontiagudas me espetava os pés, mas já estava acostumado com tudo e, portanto, não esmorecia.

Precisava passar na casa de Severino, companheiro de todos os dias, acordá-lo com algumas batidas na porta e em seguida pegar a estrada de barro que ia em direção do Engenho São Carlos. Mais alguns passos e lá estava eu, esmurrando a porta do colega. “Severino, Severino, olha a hora”. A mãe dele veio atender e tentou me advertir de que havia alguma coisa errada. Estava certa de que havia acabado de deitar. Perguntou, com cara de espanto, qual era a hora. “O dia já está amanhecendo”, respondi. “Fale para o Severino se apressar, senão não vamos encontrar mais eito para o trabalho”, acrescentei. Dois ovos fritos, distribuídos em dois pãezinhos, ambos jogados no fundo de uma sacola plástica, e o companheiro já estava na rua, a caminho do trabalho.

Seguimos pela rodagem ladeada pelo canavial. O silêncio era assustador. Nenhum assobio, nenhuma daquelas cantigas que ouvíamos todos os dias caminho a fora, normalmente em grande grupo. Comecei, então, a perceber que havia algo errado. Severino, pusilânime, questionou-me por que há mais de uma hora eu dissera à sua mãe que o dia estava amanhecendo e até o momento a noite persistia. Àquela altura do caminho, eu já estava entendendo o que acontecera, mas procurei não esclarecer o engano. Não queria assustá-lo, pois era ainda muito menino, e eu poderia ter sérios problemas com ele naquelas estradas perigosas.  

Enquanto caminhávamos, eu tentava distraí-lo inquirindo sobre seus sonhos. Disse-me que queria ser um grande jogador de futebol um dia, tornar-se famoso, ganhar muito dinheiro e casar com uma mulher bonita. Mas eu não conseguia dar a atenção devida ao que Severino dizia. Estava grilado com o acontecido. Por que o galo, que durante anos havia-me despertado pontualmente, deixou-se enganar pela lua? Por que os pássaros cantavam como se celebrassem os primeiros albores da manhã? Iludiram-se também com a luz da lua ou foram ludibriados pelo cantar do galo? E os cachorros, por que latiam àquela hora, uma vez que costumavam latir apenas ao amanhecer quando os primeiros trabalhadores começavam a passar?

Chegamos finalmente ao canavial, mas o dia nem sonhava em nascer. Depois de permanecermos sentados debaixo dos pés de macaíbas à beira da estrada, ouvimos vozes de pessoas que vinham em nossa direção. Eram moradores do Engenho São Carlos que voltavam de um baile no Camela-futebol-clube, certamente embriagados. Não seria nada seguro permanecermos ali.

Entramos, encolhidos, no canavial fechado, molhados pelo orvalho, e conversamos por mais algumas horas, até que ouvimos o tropel da multidão que descia a ladeira, aproximadamente um quilômetro à frente. Era o povo que todos os dias vinha à labuta conosco, agora sim iluminado pelos primeiros raios do sol. Alentado, olhei para o horizonte e mostrei a Severino, em tom de gozação, a luz frouxa do sol que começava a brilhar no céu daquele dia. A lua que enganou o galo, e os pássaros, e os cachorros, e a nós também tinha finalmente se escondido. Rimos muito. E passamos o dia contando aos colegas de trabalho o ocorrido.

Não muito tempo depois, larguei a vida no canavial e vim para São Paulo. Muitos anos já se passaram, e eu nunca mais tive notícia de Severino. Talvez ainda esteja trabalhando no canavial e more na mesma cidade, na mesma casa, acredito que um pouco mais cauteloso com o cantar do galo. Mas ele pode também ter realizado o seu grande sonho, tornando-se um jogador de futebol. Pensando bem, Severino era tão frágil que talvez nem esteja mais do lado de cá da existência. Mas, caso esteja, em qualquer lugar em que se encontrar, à luz desta mesma lua, deve lembrar exatamente o que eu estou lembrando agora.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

VIVER DÓI

artigos | artigo cientifico
"Cara, nada garante!" foi a mensagem que passou para os telespectadores do Roda Viva o antropólogo Roberto da Matta quando questionado sobre a morte precoce de seu filho por infarto e o sofrimento da esposa acometida pelo mal de Alzheimer. Matta, um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade, arrumou-se na cadeira giratória do estúdio e argumentou que mais cedo ou mais tarde a vida acaba por desfazer a ilusão de que podemos ter o controle das coisas em nossas mãos.

Passei toda a semana pensando nas palavras do antropólogo. Imaginei que a batalha da maioria  das pessoas consiste na tentativa de manter as coisas sob  absoluto controle. Para isso,  confeccionam os mais variados recursos: dinheiro, posição social, influência, cartilhas de auto-ajuda e até a fé religiosa. Queremos que a nossa família se configure de acordo com o modelo que previamente idealizamos, com cônjuges sempre felizes, num relacionamento indissolúvel, e filhos que se tornem os adultos que esperamos - de preferência que escolham a mesma religião e profissão que escolhemos , casem-se, tenham filhos, fiquem por perto e sejam felizes para sempre. Queremos uma vida sempre saudável, com total ausência de doença, e para isso nos valemos dos extraordinários recursos que a ciência médica põe à nossa disposição para silenciar a dor. Queremos a prosperidade financeira a qualquer custo, para isso nos doamos ao trabalho intenso. E assim, formamos um verdadeiro ritual em torno da existência para prever e controlar as suas intempéries. Seguimos um ritual porque no ritual tudo é previsível. E as pessoas querem previsibilidade.

 Mas a vida é mestra em desfazer ilusões, para sorte ou azar nosso. Um dia você se surpreende com tudo funcionando diferente do previsível, e a frustração decorrente traz uma angústia insuportável. Isso porque o modo controlador de ser que caracteriza o homem moderno o acomete de uma baixíssima tolerância à frustração. E somente depois de muito sofrimento, de remar tanto contra a maré, a gente acaba percebendo que não dá conta mesmo, que as condições impostas pela vida, exasperadas pelas exigências da sociedade hodierna,  estão além da capacidade do homem real e termina aceitando que  a vida acontece, independente de tudo e de todos. Não adianta tentar domesticá-la, prendendo-a  numa gaiola, porque ela vai se rebelar mais cedo ou mais tarde, porque ela é selvagem. Como na cancão do Vinícios, a vida tem sempre razão.

O patriarca Jó passou todos os seus dias tentando trazer sua vida sob absoluto controle. Tentava  proteger os bens com guardiões, e os filhos com jejuns e orações prolongados, para que a Divindade os protegesse.  Depois de ver tudo avassalado pela surpresa de uma grande desgraça, Jó chegou à seguinte conclusão: " O que eu temia me veio, e o que receava me aconteceu". Tal como o antropólogo referido no início desse texto, o patriarca  percebeu que não podia controlar tudo o tempo todo e que o escudo da fé às vezes é vazado. Muitas pessoas ainda agem assim: pensam a fé como um escudo hermético contra todas as intempéries que são inerentes à vida. Até suas orações são motivadas pelo medo.

Mas viver dói. Dói pela incerteza do lugar incerto e perigoso onde vivemos. Como diria um poeta do rap, "isso aqui é um campo minado", e a gente não sabe qual pisada será fatal. Mas a gente sabe que precisa pisar neste chão, que é o único que temos, mesmo sabendo que há  incontáveis perigos à espreita. É duro  abrir o jornal todos os dias, ver a TV e ouvir o rádio a cada manhã e ver os grandes distúrbios sociais, a grande violência urbana, com a criminalidade crescente, tudo isso acrescido dos riscos de acidentes, tanto de caráter natural como os de resultado da imperícia e imprudência humanas. E nós, naturalmente, nos encolhemos com medo de enfrentar porque esconder-se atrás de mecanismos de defesa é mais fácil e menos desconfortável. E cada um procura adequar-se à situação e se virar como pode. Os mais abastados utilizam os  dispendiosos recursos que são vendidos como meio de se obter um pouco de segurança: os carros são blindados, os muros das casas são alteados, cercas elétricas e censores instalados, cães ferozes vigiam. Os menos favorecidos apelam para Deus, para os espíritos, os santos e tudo mais que a indústria religiosa dispõe.  Neste clima de insegurança e medo, o terreno se torna fértil para a proliferação das mais diversas ofertas de proteção – seguradora, escolta armada, segurança pessoal e eletrônica, correntes de oração,corpo fechado, etc. Tem até a oferta de proteção de um anjo para o devoto pobre. Todavia, a julgar pelo caos social e emocional em que  a população se encontra, toda a produção de recursos em matéria de segurança se  tem mostrado ineficaz para trazer tranquilidade às pessoas, pelo contrário, tem clarificado mais ainda o clima de medo e desespero.

É o medo que nos leva a querer trazer tudo sob rédeas curtas e ritualizar a vida para que ela fique previsível. Outro dia, assisti o filme "O Buraco", que conta a história de três adolescentes que encontraram no porão de sua nova morada  um buraco mágico, o qual tinha o poder de potencializar e materializar seus medos. A partir do achado, a maneira como a vida deles passou a acontecer era uma reprodução de seus temores. Pois é, o que vemos acontecer na sociedade em geral é reprodução de temores que acometem os indivíduos que a compõem, o medo que potencializa o espectro do mal, e o mal potencializado gera ainda mais medo, num ciclo vicioso. Não que seja errado querer proteger, prever e controlar, não que a gente vá se atirar num abismo sem fundo e se render irremediavelmente à sorte, estou apenas argumentando que quando essas preocupações ultrapassam o limiar, viram doença. Refiro-me a essa preocupação doentia a fim de dizer que a sociedade está doente pelos seus medos.

Por medo, nós:

Construímos muros / e nos fechamos para a experiência.
Destruímos pontes e nos tornamos inacessíveis.
Eletrificamos as cercas ao redor de nós e ficamos intocáveis.
Blindamos a passagem para o nosso interior / e ficamos "inafetáveis".

E assim fechamos as portas para a grandeza do potencial que há em nós, num processo de adoecimento que impede até mesmo Deus de agir em nosso favor. Não podemos esquecer as palavras do Mestre: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo" (Ap 3.20). Notemos que Jesus disse que bate, ele não disse que primeiro se identifica. A minha hermenêutica parece pertinente, ele pode bater e não dizer nada, exigindo do outro lado coragem para abrir e perceber, surpreso, que é o Mestre.  Um professor sugeria que deixássemos a porta sempre entreaberta, que nem a escancarássemos nem a trancássemos. Ele sabia que o medo doentio cerra a entrada da vida, diferente do cuidado saudável, que não escancara, mas deixa a porta entreaberta. Quem fecha totalmente a porta por medo do mal, tranca-a também para a entrada do bem, porque a vida é assim, um estado que varia de hora em hora destinado a gerar crescimento.

Abrir a porta é interagir com a vida, é estar aberto para múltiplas possibilidades, e é aqui que reside a grandeza da existência,  nessa interação com a vida em sua plenitude. Como contraproposta ao conforto do isolamento, a vida oferece o crescimento da exposição, da incerteza dos que já perceberam que nada garante absolutamente.  Foi isso que Jó compreendeu quando, depois da experiência amarga que passou, disse a Deus: “Antes eu ouvia falar de ti, mas agora te veem os meus olhos”. Foi isso que Matta aprendeu com sua experiência amarga. O crescimento é mais importante que o conforto.

Finalizando, a vida humana reside neste tripé: relacionamento, comunicação e movimento. Se faltar uma das pernas, o crescimento é bloqueado e a vida adoece. Então não deixe que o medo doentio impeça seu crescimento, movimente-se, saia da caverna e reconstrua a ponte da acessibilidade, derrube os muros e se exponha à existência, tire a blindagem e permita-se ser afetado, remova a cerca eletrificada e deixe-se ser tocado, abra a porta da casa e BEM VINDO à exuberância da vida. Solte o grito preso na garganta e diga: Estou vivo.

sábado, 14 de maio de 2011

Assembleia de Deus, Cem anos de Pentecostes

1. OS PRIMÓRDIOS DE UMA GRANDE OBRA

1.1 O Movimento da Fé Apostólica. A fundação da igreja Assembleia de Deus no Brasil contextualiza-se no Movimento da Fé Apostólica, iniciado nos EUA no século dezenove por Charles Parham. Este jovem evangelista, cansado do tradicionalismo da igreja de então e despertado pela ação do Espírito Santo, começou a aspirar por uma igreja restaurada aos padrões da igreja primitiva. A partir daí, começou a pregar entusiasticamente, e entre os seus temas preferidos, constavam a experiência do batismo com o Espírito Santo, com a evidência inicial do falar em línguas, e a cura divina. A influência de suas mensagens espalhou-se em várias regiões dos EUA, atraindo adeptos proeminentes à causa do pentecostalismo e mudando definitivamente a configuração da forma de viver a fé daqueles dias.

Conforme exposto por Araújo (2007), Parham proclamava sua mensagem onde quer que tivesse oportunidade: em lares, escolas e igrejas. A maior parte de seu dia e de seus alunos era preenchida por estudos de passagens bíblicas, orações e rogos a Deus para que se cumprisse o conteúdo escriturístico em suas vidas. A ênfase estava na visão do Novo Testamento, o que Parham considerava tratar-se da fé apostólica, mormente na experiência pentecostal de Atos 2. Em janeiro de 1901, após terem buscado a promessa pentecostal com afinco, os seguidores de Parham começaram a falar em outras línguas. Estes alunos, entusiasmados com a experiência arrebatadora da glossolalia, espalharam-se por toda parte, anunciando a mensagem que eles consideravam a restauração da dimensão da fé apostólica. A mão de Deus começou a operar sinais e prodígios, na media em que aqueles crentes anunciavam a atualidade dos dons do Espírito Santo, como aconteceu com Mary arthur, uma doente crônica, que fora curada pela intercessão de Parham. O milagre abriu uma larga porta para este em Galena, lugar onde a senhora curada residia.

A partir da porta que se abriu em Galena, o ministério de Parham caiu na graça do povo, tanto de galenenses como de moradores de cidades circunvizinhas, e milhares de almas se convertiam ao Senhor, e muitos milagres de cura aconteciam.

Em 1905, em companhia de um pregador metodista, Parham fundou uma escola bíblica que formaria uma série de ministros, os quais se tornariam proeminentes no movimento pentecostal, entre eles, Wlliam Seymour, que levaria o movimento para Los Ângeles, o que culminou com o histórico Avivamento da Rua azusa em 1906. Araújo refere-se a explosão do Movimento da Fé apostólica da seguinte dizendo que O movimento espalhou-se rapidamente nas áreas próximas de Kansas, Missouri e Oklahoma. Por volta de 1905, Parham estava no sul do Texas, onde ele iria ter um de seus mais espetaculares sucessos (Araújo, 2007, p. 600).


1.2 O Avivamento da Rua Azusa. O pastor Emílio Conde, na obra que traz a história da Assembleia de Deus, ressalta que “ os historiadores que se ocupam do avivamento Pentecostal no século 20 são unânimes em mencionar a rua Azusa, em Los Angeles, como o centro irradiador de onde o avivamento se espalhou para outras cidades e nações” (Conde, 2000, p. 21).

Já dissemos que entre os alunos da Escola Bíblica fundada por Parham em Ouston estava William Seymour. Este, tendo sido impactado pela mensagem do Movimento da Fé Apostólica, recebeu o convite para levar a mesma mensagem a Los Angeles. Seymour, ainda que contra a vontade de seu mestre, atendeu imediatamente o chamado e, em Los Angeles, além de continuar com o mesmo propósito do Movimento que o contagiou, qual seja: anunciar a restauração da fé que uma vez foi dada aos santos, a unidade cristã, a santificação e o batismo no Espírito Santo com a evidência inicial do falar noutras línguas, Seymour adotou o mesmo nome do Movimento referido: Movimento da Fé Apostólica. Então o movimento que chegou em Los Angeles era o mesmo começado pelo metodista Parham em Kansas, que agora havia chegado a um cantinho de Los Angeles, na Rua Azusa, 312. As manifestações espirituais ocorridas ali entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que tornou-se um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).

Em resposta às orações sinceras dos que ali se congregavam, Jesus começou a batizar crentes com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o avivamento outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com Deus, outros eram apenas curiosos.

Em Azusa, os cultos eram longos e, de forma geral, espontâneos. Nos seus primeiros dias, a música era à capela, embora um ou dois instrumentos fossem tocados. Os cultos incluíam cânticos, testemunhos dados por visitantes ou lidos daqueles que escreviam para a Missão, oração, momento de apelo para pessoas aceitarem a Cristo, apelo à santificação ou ao batismo no Espírito Santo, e, obviamente, pregação. Os sermões normalmente não eram preparados antecipadamente e eram tipicamente espontâneos (…). A oração pelos enfermos era também uma parte frequente nos cultos. Muitos gritavam. Outros ficavam “rindo no espírito” ou “caídos no poder” Algumas vezes havia momentos de prolongado silêncio ou de cânticos em línguas (…). (Araújo, 2007, p. 605).


1.3 Avivamento em Chicago: as chamas de Los Angeles se espalham


De Azusa Street, as chamas do avivamento se espalham por várias cidades, Pensilvânia, Nova Iorque, Ohio e Chicago. Esta última, considerada a segunda cidade da América do Norte, foi intensamente incendiada pelo fogo pentecostal a partir do avivamento deflagrado em Los Angeles (Araújo, 2007).

O grande diferencial do avivamento de Chicago é que todas as denominações aceitaram a mensagem pentecostal. Por conta disso, ministros, pastores de várias denominações, de regiões circunvizinhas, acorriam a Chicago a fim de receberem a efusão do Espírito Santo. Entre estes pastores, destaca-se o nome Gunnar Vingren, da igreja batista sueca do Michigan, o qual, em 1909, em visita a Chicago, recebeu o batismo no Espírito Santo.

Mais tarde, Gunnar Vingren, numa convenção de igrejas batistas, em Chicago, conheceria outro sueco, Daniel Berg, que também havia sido batizado no Espírito Santo, encontro que mudaria a vida de ambos para sempre. No ano seguinte, os dois viajariam para o Brasil com missionário. É aqui, com a vocação destes dois homens, que começa a História das Assembleias de Deus no Brasil, cujo centenário estamos a comemorar.


2. O CHAMADO MISSIONÁRIO DOS PIONEIROS


2.1 Daniel Berg e sua experiência pentecostal. Filho de pais batistas, Daniel Berg nasceu na pequena cidade de Vargon, na Suécia. Tinha 15 anos de idade quando converteu-se ao evangelho e recebeu o batismo em águas na igreja Batista. Em 1902, grandes dificuldades econômicas na Suécia levaram Daniel Berg a deixar seu país e rumar para os Estados Unidos, mais precisamente para a cidade de Boston. Durante os sete anos em que permaneceu na América, Berg viajou por várias cidades estado-unidenses e reviu muitos de seus patrícios que, como ele, haviam fugido da grande depressão financeira sueca. Primeiramente trabalho numa fazenda, depois especializou-se como fundidor.

Em 1909, resolveu voltar para seu país, a fim de rever os pais. Na sua cidade natal, ao procurar seu melhor amigo de infância, Lewis Pethrus, foi informado pela mãe deste que o mesmo estava morando em outra cidade, onde exercia um poderoso ministério de pregação da Palavra. Soube também que Pethrus havia recebido o batismo com o Espírito Santo, o que era novidade para os crentes suecos daquela época. Resolveu, então, visitar o amigo. Ao chegar à igreja Batista de Lidkoping, encontrou-o pregando entusiasticamente a “nova” doutrina pentecostal, e Daniel mostrou-se favorável a ela. Após conversar longas horas com o amigo sobre o assunto, despediu-se dele e voltou para a casa dos pais, de onde, poucos dias depois, viajaria novamente para os Estados Unidos. Na viajem de volta à América, orou insistentemente, pedindo a Deus o batismo com o Espírito Santo. “Ao aproximar-se das pragas norte-americanas, sua oração foi respondida. A partir de então sua vida mudou. Daniel passou a pregar mais a Palavra de Deus e contar seu testemunho a todos” (Araújo, 2007, p. 123).



2.2 Gunnar Vingren e sua experiência pentecostal. Sueco, filho de um jardineiro, Gunnar Vingren nasceu em Ostra Husby, Ostergotland, em 8 de agosto de 1879. Foi instruído desde cedo nas Sagradas Escrituras, sendo que frequentava assiduamente a Escola Bíblica Dominical de sua igreja, da qual o pai era dirigente. Porém aos doze anos , deixou a igreja e permaneceu afastado até os 17 anos, quando outra vez foi chamado por Deus em um culto de vigília de ano novo. No ano seguinte, recebeu o batismo em águas, quando substituiu seu pai na direção da Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista.

Vingren, desde muito cedo, mostrou propensão para a obra missionária, tanto que, ao se informar sobre as necessidades de tribos nativas no exterior, chorava abundantemente, e um dia prometeu a Deus pertencer-Lhe e por-se sempre à sua disposição. Em outra oportunidade, entregou tudo o que tinha como oferta para ajudar um evangelista que seria enviado para a obra missionária. Logo em seguida, ao voltar para casa, ouviu a voz de Deus lhe falar que ele também seria enviado (Araújo, 2007).

Em 1903, Vingren mudou-se para os Estados Unidos, atraído pelas oportunidade que o país da América proporcionava a jovens como ele. O jovem sueco desembarcou em Boston, depois seguiu de trem até Kansas City, à procura da residência de um tio, onde se estabeleceu. Enquanto morou em Kansas, Vingren congregou na igreja Batista sueca dali, e chegou a trabalhar em funções como foguista, porteiro e jardineiro. Mudo-se para Chicago, a fim de ingressar no Seminário Teológico Batista, de onde pavimentou o caminho para a Universidade da mesma igreja. Os estágios da universidade lhe abriram as portas para pregar em congregações Batista de várias cidades, chegando mesmo, no último estágio, a atuar como pastor em Mountain, Michigan. Terminada a faculdade teológica, assumiu o pastorado da Primeira Igreja Batista em Menominee, Michigan, até o início de 1910. Neste interregno, Vingren começou a sentir forte desejo de se encher do Espírito Santo, foi quando viajou para Chicago, a fim de participar da conferência da Primeira Igreja Batista Sueca em Chicago, ocasião em que foi batizado com o Espírito Santo.


2.3 O encontro em Chicago e a chamada para o Brasil. Já batizados com o Espírito Santo e inflamados pelo ardor missionário, Daniel Berg e Gunnar Vingren se conheceram durante uma convenção de igrejas batistas em Chicago no ano de 1909. Foi, sem dúvida, um encontro providenciado por Deus. Os dois trocaram informações e experiências por vários dias, tempo em que se conheceram melhor e revelaram, um ao outro, as próprias aspirações e paixão pela obra de Deus. Até o ano seguinte, Daniel continuou trabalhando em Chicago, numa quitanda, enquanto Vingren pastoreava a Igreja Batista Sueca de South Bend, Indiana. Naquele mesmo ano, o Espírito Santo orientou Daniel Berg a mudar-se para South Band e procurar o pastorVingren. “Irmão Gunnar”, disse Daneil, “Jesus ordenou-me que eu viesse me encontrar com o irmão, para, juntos, louvarmos o seu nome”, ao que Vingren respondeu:”Está bem” (Araújo, 2007, p. 900).

Foi Vingren quem primeiro recebeu a revelação de Deus sobre sua ida ao Brasil, isso  por meio de Adolf Uldin, membro da mesma Igreja Batista (Araújo, 2007). Porém, em um sábado à tarde, em companhia de Daniel, vai  visitar Uldine. Ali, em oração, o poder de Deus se manifestou mais uma vez sobre este último e ele revelou a chamada de Daniel para acompanhar Vingren. Saindo dali, os dois amigos continuaram orando por direção divina, até que lhes foi revelado que deveriam deixar Nova Iorque com destino ao Pará no dia 05 de novembro de 1910.


3. A VIAGEM AO BRASIL E A FUNDAÇÃO DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS


3.1 A viagem a bordo do navio Clement. Inflamados pelo ardor missionário, Daniel Berg e Gunnar Vingren, decididos a atender ao chamado divino, preparam-se para a viagem ao Brasil. O primeiro abandonou o emprego numa quitanda em Chicago e o segundo renunciou ao pastorado da igreja Batista de South Bend. Ao se despedirem da igreja, esta os ajudou com uma oferta que deu para comprar as passagens de ambos até Nova Iorque e, sob a oração dos fiéis, foram em direção ao desconhecido. Saíram na total dependência de Deus, como observado por Conde:

Quando lá chegassem [em Nova Iorque], eles não sabiam como conseguiriam dinheiro para comprar mais duas passagens até o Pará. Porém esse detalhe não os abalou em nada nem os deteve em Chicago à espera de mais recursos. Tinha convicção de que haviam sido convocados por Deus. Portanto, era de total responsabilidade e especialidade de Deus fazer com que os recursos materiais inexistentes necessários à viagem surgissem (Conde, 2000, p. 24).

Em Nova Iorque, o Senhor Jesus usou um comerciante que já conhecia gunnar Vingren para que enviasse uma oferta de noventa dólares ao amigo. O comerciante ia enviar o dinheiro a Chicago, pois não sabia que Vingren estava em Nova Iorque, e qual não foi a sua surpresa quando, em uma das ruas movimentadas dessa metrópoles, dá de cara com o amigo. Noventa dólares era a quantia exata de duas passagens para Belém do Pará na terceira classe do navio Clement. Deus estava confirmando sua vontade na vida dos dois missionários.

No dia 5 de novembro de 1910, os dois missionários embarcaram no navio Clement rumo ao Brasil, mais precisamente Belém do Pará, para uma viagem que duraria 14 dias, tempo suficiente para que eles evangelizassem os tripulantes e passageiros, chegando mesmo a ganharem dois deles para Cristo, com os quais trocariam correspondência posteriormente.

3.2 A chegada ao Pará e a doutrina pentecostal. Em 19 de novembro de 1910, Daniel Berg e Gunnar Vingren pisaram em solo brasileiro. Não entendiam nada da Língua Portuguesa, apenas lembravam que se tratava do mesmo idioma falado por Adolfo Uldin quando este fora usado por Deus para anunciar a chamada de Vingren ao Pará. Seguiram alguns passageiros até à cidade. Mais tarde, enquanto descansavam em um parque, encontraram uma família que tinha viajado com eles e que falava inglês, a qual os levou para o hotel onde estavam hospedados. No hotel, foram informados sobre o pastor metodista Justus Nelson, que era americano, a quem procuraram e encontraram depois de muitas dificuldades. Nelson, informados de que eram crentes batistas, conduziu-os até a Igreja Batista de Belém e os entregou ao pastor daquela igreja, Jerônimo Teixeira de Souza, que falava bem o Inglês. Comunicaram ao dileto pastor suas dificuldades financeiras de moradia no hotel onde estavam e foram convidados por Jerônimo a morarem em sua casa por um preço simbólico. As instalações disponíveis não eram nada confortáveis, mas a necessidade falou mais alto e os dois missionários aceitaram residir em um porão.

Um dos grandes desafios que Berg e Vingren teriam que enfrentar era aprender falar o Português, ainda mais porque não tinham recursos financeiros suficientes para custear aulas para os dois. Tiveram então uma ideia: Berg arrumou emprego de fundidor e começou a custear as aulas do companheiro. Enquanto um trabalhava, o outro estudava. À noite, quando Berg chegava em casa, Vingren lhe ensinava o que havia aprendido. Dessa forma, conseguiram aprender rapidamente o idioma.

2.2.1Celina alburqueque, primeira experiência do batismo pentecostal em solo brasileiro. A despeito da forte oposição de alguns, os missionários continuaram a pregar com unção, eloquência e oração constante. Como resultado o, o poder de Deus começou a se manifestar e o Espírito Santo a trabalhar nos corações de alguns irmãos , os quais creram na verdade do evangelho completo e começaram a buscar o batismo com o Espírito Santo. Entre os primeiros que creram estavam as irmãs Celina Albuquerque e Maria de Nazaré. A primeira, que tinha uma enfermidade nos lábios, o que a impedia de frequentar os cultos na igreja, fora curada por meio da oração de Gunnar Vingren e tornou-se figura histórica por ser a primeira pessoa a ser batizada com o Espírito Santo em solo brasileiro. A segunda, Maria de Nazaré, era companheira de oração da irmã selina e foi a segunda pessoa que experimentou a experiência de falar línguas espirituais.


Emílio Conde conta os fatos que sucederam a esperiência da irmã Celina de maneira que vale a pena registrar aqui:

Logo que amanheceu, a irmã Nazaré apressou-se em ir à casa de João Batista de Carvalho, na Avenida São Jerônimo, 224, para contar as boas novas de que Celina Albuquerque recebera a promessa. Na casa de João Batista, achavam-se reunidos vários irmãos, entre eles Manoel Rodrigues,que até então era diácono da igreja Batista. Mais tarde, o irmão Manoel testemunharia: “Foi naquele momento que passei a crer no batismo do Espírito Santo”.
O acontecido recebeu imediata divulgação. Na igreja Batista, alguns creram, porém outros não se predispuseram a sequer a compreender a doutrina do Espírito Santo, portanto dois partidos estavam criados.
Durante o culto realizado à noite daquele mesmo dia, o ambiente antes só dedicado a louvores a Deus e à pregação de sua Palavra, foi transformado em verdadeiro campo de batalha, com muitas disputas de pontos de vista e duelo de palavras. Alguns crentes, aferrados a um tradicionalismo sem qualquer base bíblica, ameaçavam exaltadamente punir , castigar ou desprezar os partidários da doutrina que tanto caracterizara a Igreja Primitiva e os grandes avivamentos que se sucederam.
Após o culto, vários irmãos resolveram ir à casa da irmã Celina para verificarem pessoalmente o que estava acontecendo. Entre aqueles que foram à Rua Siqueira Mendes, encontrava-se José Plácido da Costa, Antônio Marcondes Garcia e esposa, Antônio Rodrigues e Raimundo Nobre (Conde, 2000, p. 31).

3.3 Nasce a Assembleia de Deus. As experiências pentecostais com línguas estanhas, hinos espirituais e curas era algo que soava muito esquisito para a igreja da época. Reuniam-se os irmãos na casa dos missionários para buscarem ao Senhor em oração e o movimento que provocavam, apesar de ser em local bem reservado, atraía a atenção também de alguns crentes refratários ao novo movimento, gerando muitas discussões. Por conta disso, a Igreja Batista de Belém entrou em efervescência. Na época, a igreja estava praticamente sem pastor e  um obreiro chamado Raimundo Nobre tomou a dianteira do trabalho e propôs uma reunião extraordinária para o dia 13 do mesmo mês, quando aconteceria a cisão definitiva.

A reunião decisiva do dia 13 aconteceu debaixo de ataques de ambos os lados. Raimundo Nobre, que arbitrariamente assumira o púlpito da igreja, disparou contra os “hereges do falso movimento”. O grupo atacado reage com a leitura de Atos 2 e com línguas estranhas faladas principalmente pela irmã Celina. Era uma celeuma total e a sessão se tornou inviável. Foi quando Raimundo Nobre desafiou a todos que se posicionassem em um dos lados. Deveriam ficar de pé todos os que estavam de acordo com a nova seita. Apesar de a esmagadora maioria ser favorável à doutrina pentecostal, apenas dezoito pessoas se levantaram e foram imediatamente excluídos da igreja. Estes irmãos saíram então da Igreja Batista para nunca mais voltar. Isto aconteceu no dia 13 de junho de 1911. *

O pequeno grupo excluído, no dia 18 se junho de 1911, convidou Daniel Berg e Gunnar Vingren a comparecerem à Rua Siqueira Mendes, 67, em Belém. E assim, com 20 pessoas, incluindo-se os dois missionários, reunidas na casa da irmã Celina, fundava-se, o Movimento da Fé Apostólica, que viria a ser registrado oficialmente como Sociedade Evangélica Assembleia de Deus em 11 de janeiro de 1918.


Nos dias que se seguiram, os inimigos do Movimento Pentecostal fizeram de tudo para sufocar a recém-criada igreja, mas a mão de Deus estava sobre ela. Fecho este tópico com o belo relato de Emílio conde sobre as perseguições contra os pentecostais.

"Os acontecimentos que culminaram com a fundação das Assembleias de Deus repercutiram profundamente entre várias denominações evangélicas. Porém, o que sacudiu mais fortemente os chamados crentes históricos foi a atividade eu zelo dos membros da igreja recém-formada. O medo de que a Assembleia de Deus viesse a absorver as demais denominações fez com que estas se reunissem para combater o movimento pentecostal (…).
(…) Alguns ingênuos dispuseram-se a combater o Movimento Pentecostal em seu nascedouro. Para alcançarem esse intento, não escolhiam os meios: calúnia, intriga, delação e até agressão física, tudo era válido. Tudo era usado contra a igreja que acabava de iniciar suas atividades. Chegaram, inclusive, a levar aos jornais a denúncia de que os pentecostais eram uma seita perigosa, tendo como prática o exorcismo. Enfim, alarmaram a população.
Recebendo o violento artigo contra a Assembleia de Deus, A Folha do Norte, antes de publicar, enviou um repórter disfarçado para averiguar o que realmente acontecia nos cultos pentecostais. O repórter, para causar sensação, endossou os termos do artigo, cujo único objetivo era desmoralizar o trabalho do Senhor. A matéria, todavia, acabou por atrair numerosas pessoas para os cultos da nova igreja. Não poderia haver propaganda melhor.
Por fim o citado repórter resolveu agir com imparcialidade (…) e estão aqui as suas reais impressões acerca dos cultos promovidos pela Assembleia de Deus: “Nunca vi uma reunião tão cheia de fé, fervor, sinceridade e alegria entre os crentes”. Essa confissão repercutiu como dinamite entre as denominações históricas. Daí em diante, todos queriam ver o que estava acontecendo; iam, vinham, ficavam e confessavam que Deus, realmente , estava operando entre os pentecostais" (Conde, 2000, p. 34).


4. AS CHAMAS SE ESPALHAM POR TODO TERRITÓRIO NACIONAL


A nova igreja crescia vertiginosamente com o trabalho incansável dos fiéis. Como informa Conde (2000), os crentes eram como uma colmeia de atividade evangelizadora, em que cada membro era um evangelista a testificar a parentes e amigos. Todavia o trabalho estava estabilizado no Pará. Parecia a repetição do que acontecera com a Igreja Primitiva, quando os discípulos do Mestre, apesar de ter recebido a ordem de evangelizar o mundo inteiro, não se ausentavam de Jerusalém.

Gunnar Vingren se encaregou do pastoreio da igreja, enquanto que Daniel Berg se dedicava intensamente ao trabalho de colportagem. Enquanto vendia Bíblias e evangelhos pelas ruas de Belém, evangelizava e visitava casa por casa “e todos os dias, acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Mas e o restante da nação? Como alcançar as extremidades de um país tão vasto como o nosso? A igreja precisava urgentemente de reforço, de homens preparados, abalizados para traçarem estratégias, planejarem rotas de evangelização e que ajudassem os missionários à frente da obra.

Deus novamente tomou providência. Quando os cristão estacionaram em Jerusalém, Ele permitiu que uma grande perseguição os dispersasse, quando a comunidade cristã brasileira patinava no tradicionalismo religioso, Ele inquietou dois missionários pentecostais para nos trazerem as chamas do Espírito Santo, quando parecia que essa chama ia circunscrever-se à Belém do Pará, o Dono da obra começou novamente a inquietar gente de longe. Outros missionários estrangeiros começaram a chegar para fomentar o trabalho. Otto e Andina Nelson, Samuel e Lina Nystron, Frida Vingren, Joel Carlson são todos nomes que se acham no rol de figuras históricas da Assembleia de Deus.

A igreja foi se organizando, ordenando pastores e evangelistas, os quais se juntaram a missionários estrangeiros e, impelidos pelo ardo do Espírito, começaram a levar a massagem completa do evangelho a outros Estados, esforço que culminaria com a fundação de igrejas em todas as regiões do país.

À medida em que a obra ia crescendo, mais missionários chegavam de vários países, suecos, noruegueses, finlandeses e norte-americanos, alguns deles eram mestres na doutrina bíblica e se encarregaram de promover o desenvolvimento doutrinário da igreja neonata. Desenvolveram as lições bíblicas da Escola Dominical, além de periódicos como O Mensageiro da Paz, hinários como Cantor Pentecostal, Harpa Cristã, e publicaram livros e folhetos evangelísticos. Em 1940, funda-se-ia a Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Destacam-se aqui os nomes Frida Vingren, Samuel Nystron, Otto Nelson, Nels Nelson, Joel Carlson, Eurico Bergstém, Orlando Boyer, N. Lawrence Olson, Bernhad Johnson, dentre outros.

Nos dias atuais, pode-se fazer um balanço das conquistas das Assembleias de Deus usando as palavras do pastor Elienai Cabral*: A igreja chegou ao seu primeiro centenário apresentando crescimento vertiginoso, consolidando-se como a maior expressão do pentecostalismo brasileiro. Numa estimativa feita em 2005, com bases em números do Censo Brasileiro, divulgada no jornal Mensageiro da Paz, as Assembleias de Deus teriam chegado a 20 milhões de fiéis espalhados por todo o país em 2010, e representariam 40% dos evangélicos brasileiros ao completar cem anos de fundação. São mais de trinta mil pastores, mais de seis mil igrejas-sede, mais de 2 mil missionários, milhares de obreiros e mais de 100 mil locais de culto nos mais de cinco mil municípios brasileiros.



CONCLUSÃO

Comemorar o Centenário das Assembleias de Deus no Brasil é louvar ao Senhor Jesus pela sua bondosa providência, é homenagear os pioneiros que se doaram à obra missionária, bem como a tantos outros bons obreiros que a eles sucederam, é aludir à maior expressão do pentecostalismo brasileiro, aos seus 20 milhões de fiéis, incluindo mais de trinta mil pastores, 20 mil missionários e milhares de obreiros, além da multidão de salvos que já partiram para o Senhor e aguardam a Primeira Ressurreição. De fato, “a porta que se abriu nunca mais fechou / Deus multiplicou o seu rebanho”.


Bibliografia

Bíblia de Estudo Pentecostal / CPAD.

Conde, Emílio. História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.
Araujo, Isael de. Dicionáio do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
Lições bíblicas O Movimento Pentecostal, CPAD, 2° trimestre de 2011.



















terça-feira, 19 de abril de 2011

Portuário do Caos (M. L. J.)


                          No portuário do caos,
                      Há resquícios de esperança cansada,
                      Há vertigem de seres desbotados
                      E decantação de humanos inumanos.
                     
                      No dissabor das trevas que a luz retarda
                      Olhos brilham assustados,
                      Porque nem tudo é perceptível a eles,
                      Mas no reflexo de uma janela vítrea
                      Versos rasgados
                      Poemas enxovalhados
                      Cartas relidas, rasuradas
                      Ilusões perdidas
                      Fé combalida
                      Flores murcham, inelutavelmente
                      A vida se definha
                      O estro arrefece
                      A razão aliena-se
                      Delira-se sórdida confiança
                      Verte-se sangue verde
                      E pagam-se tributo aos deuses,
                      Tributos escorchantes
                      A seres que não se importam
                      Em esclarecer nossas dúvidas
                      Eles apenas assistem, insuscetíveis,
                      Ao portuário do caos.













domingo, 10 de abril de 2011

Mera Questão Didática


Em estudo de teologia, assim como em outras ramos do saber, há, às vezes, a necessidade de se dividir um objeto de estudo em fatores para se facilitar o aprendizado. Nas ciências humanas, por exemplo, reconhece-se que o homem é biopsicossocial, isto é, ele se compõe das dimensões social, física e psíquica; e há também quem já reconheça neste meio a nossa dimensão espiritual.  Na teologia, compreende-se o ser humano como corpo e alma/espírito. Não que os teólogos neguem outras concepções de homem, estamos apenas dizendo que na antropologia bíblica, matéria que estuda a totalidade do homem, o indivíduo é assim concebido. 

A decomposição dos elementos, seja no estudo do homem ou de qualquer outro assunto, possibilita a clarificação do entendimento. Todavia o risco é perdermos de vista que as dimensões apreendidas no ser humano se complementam,e, portanto, a análise individual dessas dimensões se dá por mera questão didática. Assim sendo, no real, quando sorrimos ou choramos, adoramos, sentimos dores físicas, etc., não imaginamos que uma coisa é ação da alma, outra coisa, ação do espírito e ainda outra é ação do corpo. Toda essa gama de sentimentos é ação do indivíduo completo, sem fragmentação. Ou então, se imaginarmos que o médico cuida do físico do paciente, o psicólogo cuida do psicossocial e o pastor cuida do espiritual, fica a pergunta: quem cuida da totalidade da pessoa ?

Outra grande confusão acontece quando se ensina sobre as duas naturezas de Cristo. A Bíblia mostra que Ele tinha uma natureza divina e outra humana. Na sala de aula, separamos didaticamente as duas naturezas, o Verbo divino e o Filho do Homem. Seria impossível compreender o mistério da encarnação de Deus sem abordar as duas naturezas separadamente. Entretanto o resultado é que muitas vezes encontramos estudantes da Bíblia se confundindo entre o método didático e o conteúdo do ensino, ao classificarem as ações de Cristo em duas categorias: as que ele realizou como homem e as que Ele realizou como Deus. Exemplo: Como homem, Jesus cansou e sentiu fome; como Deus, ele multiplicou os pães e alimentou uma multidão. Isso é muito complicado, pois dá a entender que havia duas pessoas agindo dentro de um corpo, o que não está de forma nenhuma em consonância com a doutrina bíblica. À parte da didática na sala de aula, quem cansou, chorou, curou enfermo, ressuscitou mortos e perdoou pecados não foi esta ou aquela natureza de Cristo, foi a pessoa de Jesus, o homem de Nazaré, o qual, segundo Lucas 4.18, foi ungido pelo Espírito para fazer coisas extraordinárias. Um aluno já perguntou se o Mestre perdoou os pecados do paralítico, no capítulo 5 de Lucas, como Deus ou como homem; ao que o professor respondeus: "Ele perdoou como Jesus".

Estudar a Bíblia sistematicamente exige alguns cuidados, principalmente na hora de transportar o aprendizado para a vida prática. Alguém me questionou se os dons espirituais concedidos por Deus a uma pessoa podem ser tirados, caso a mesma não vele por eles. As pessoas normalmente têm essa dúvida, porque a classificação dos dons, feita por Paulo no capítulo 12 de 1Co passa a impressão de que os dons são pequenas parcelas de virtudes tiradas do poder do Espírito Santo e colocadas dentro do fiel, ou seja, há uma tendência para se coisificar os dons. Todavia não podemos perder de vista que a classificação foi feita por Paulo por mera questão didática. Do contrário, o interprete pode entender que os dons são alguma coisa pronta – pacotes prontos - que vêm do céu e é depositado dentro do crente, capacitando-o a alguma tarefa de ordem espiritual. Sendo assim, ao sair da presença do Senhor, a pessoa será despojada dos presentes que recebeu.

Eu, porém, prefiro entender a operação dos dons do Espírito com o sentido de relacionamento. A Bíblia diz que o Espírito Santo habita em nós e, dentro dessa relação, passamos a ser instrumentos do Espírito, o qual instrumentaliza cada um de forma específica, estes para curar, aqueles para profetizar e ainda outros fazer maravilhas, etc. Posto de outra forma, o que a Bíblia chama de dons espirituais são ações específicas do Espírito por intermédio dos salvos. Essas ações acontecem na vida da pessoa na medida em que ela se relaciona com Deus. Logo, se o relacionamento for cortado pelo pecado, é razoável que as operações sejam interrompidas.

sábado, 9 de abril de 2011

Agora Nós Somos o País da Copa


Sessenta e quatro anos após sediar a quarta copa do mundo de futebol, o Brasil será novamente palco deste grande evento, agora sediando a vigésima copa do mundo em 2014. É um momento de grande expectativa para todos os torcedores deste país já consagrado o país do futebol. Muitos que viram o maracanã ser construído para comportar a Copa de 1950 e tiveram a oportunidade de ver grandes estrelas do futebol se sagrarem para a história já não estão mais conosco, porém alguns ainda relembram aqueles áureos momentos que, infelizmente, acabou em grande decepção quando, em pleno Maracanã, a seleção brasileira sofreu uma derrota de 2 x1 para a seleção do Uruguai na decisão daquele mundial. Mais de duzentos mil torcedores que ali estavam para ver o Brasil ser pela primeira vez campeão do mundo voltaram frustrado para casa. E o que mais machucou foi o fato de que naquela ocasião precisava-se apenas de um empate.

De lá para cá muitas coisas aconteceram no cenário mundial, tanto em relação ao futebol como no âmbito social e político em geral. E essas mudanças precisam ser discutidas, afinal de contas, sediar uma copa do mundo não é só uma questão de ter um bom futebol, mas também uma questão de infraestrutura para acomodar tantas pessoas vindas de todas as partes do mundo. Como então preparar o país para um evento desta grandiosidade? Com  a  palavra as autoridades responsáveis e tmabém os formadores de opinião. Há tantos problemas de infraestrutura que precisam ser resolvidos até 2014 que, segundo a opinião de alguns, será um evento causador de grandes transtornos.

Para começar temos o problema dos estádios de futebol nas cidades principais deste país, os quais não são dos piores, mas falta segurança, conforto e melhor acessibilidade. Muitos deles , segundo a opinião de especialistas do assunto, não têm condição de serem usados nos jogos, principalmente devido ao problema na acessibilidade. O caso mais concreto é o da cidade de São Paulo, cujo principal estádio, o Morumbi, já foi descartado como possibilidade por inspeção da Fifa.. Fica, portanto, a cargo dos administradores públicos apresentar as reformas necessárias ou o projeto de construção de novos estádios nas megalópolis deste país imenso.

Outro problema grave é do transporte. Só para ficar no caso da principal cidade deste país, São Paulo, basta alguns minutos de chuva forte e a cidade para. Os nossos aeroportos viram um caos nos feriadões, quando a demanda aumenta. A malha ferroviária mostra-se insuficiente para transportar mesmo os nossos trabalhadores. Como, então, conseguiremos transportar, com um mínimo de conforto, tantos turistas em dias de semana, quando houver jogo por aqui?

Além dos problemas supracitados, temos outros como a criminalidade, a deficiência no sistema de informações e a falta de profissionais qualificados, principalmente bilíngues, para prestar serviços de qualidade em diversos setores como hospitais, hotéis e lojas.

Mas não podemos só ficar nos problemas. Há muitos ganhos para uma nação que sedia uma Copa do Mundo de Futebol. Além das muitas oportunidades de emprego, vamos mostrar ao mundo o que temos de melhor, nosso povo, história, costumes e pontos turísticos. Sem falar da emoção de ver a nossa seleção mostrar a riqueza de seu futebol em sua própria casa.

Para todos os brasileiros, 2014 será um ano mágico, um marco na história de nosso país e queremos viver intensamente a alegria de ver o espetáculo do nosso futebol, bem aqui, pertinho de nós, quando provavelmente explodirá o grito do hexa, preso há oito anos em nosso peito. Já imaginamos o Maracanã lotado para a decisão final, como muitos tiveram a oportunidade de ver em 1950. Brasil x Uruguai? Esperemos para ver.











sexta-feira, 8 de abril de 2011

Jesus, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem (parte 3)



A MORTE VICÁRIA E A RESSURREIÇAO DE CRISTO


“A penalidade do nosso pecado e rebelião é a morte. Jesus apresentou-se e disse: ‘Eu sofro essa morte’. Quando eu me encontrar na entrada dos céus e me pedirem a senha, sabem o que irei responder? Não irei dizer: ‘Senhor, preguei a grandes multidões’. Não direi: ‘Senhor, li a Bíblia toda’. Não vou dizer: ‘Senhor, casei-me com uma senhora muito crente. Venho confiando nas boas obras dela’. Irei dizer: ‘Senhor, eu apelo para o sangue, porque o sangue de Jesus, o seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (Billy Graham).

1. A morte vicária de Cristo. A morte de Jesus não foi um acidente ou o resultado de uma trama armada pelos judeus contra Ele. Cristo também não morreu como um mártir, definitivamente não. A cruz não foi apenas uma forma dramática de Deus externar a sua repulsa ao pecado e seu incomensurável amor pelos homens, não. A morte na cruz foi o único recurso, totalmente satisfatório, que Deus, em sua infinita sabedoria, encontrou para redimir o homem caído.

A morte de Jesus foi vicária e substitutiva. Assim escreveu o apóstolo Pedro em sua primeira carta: “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus...” (3.18). Ainda o mesmo apóstolo: “Levando ele mesmo em seu corpo os nosso pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (2.24). Ademais, a morte na cruz foi predeterminada (At 2.23), voluntária (Jo 10.17), sacrificial (1 Co 5.7), propiciatória (1 Jo 4.10) e redentora (Gl 4.4,5). Bom, como diz a letra de um hino antigo: “A cruz que ele levou não era sua, era minha, era tua, era de Barrabás”.

2. A ressurreição de Jesus. Alguém disse uma vez: “O Cristianismo não seria mais do que uma religião, como outra qualquer, se cristo não tivesse ressuscitado dentre os mortos”. Perfeito. A ressurreição corporal e física de Jesus é o alicerce da fé que pregamos. Paulo procurou deixar isso bem claro. Escrevendo aos coríntios, disse o apóstolo: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1 Co 15.17).

“Mas agora Cristo ressuscitou”, continua o apóstolo. As provas estão aí para quem quiser ver: a) O sepulcro está vazio (Lc 24.3); b) Jesus apareceu a Maria Madalena, às mulheres, a Pedro, aos dois discípulos no caminho de Emaús, aos discípulos no Cenáculo, a Tomé, a João e depois a todo o grupo (Jo 20.16; Mt 28.5,8, 9; Lc. 24.13,14, 25-27, 30-32; Jo 20.19,26, 29; 1 Co 15.4-7); c) A transformação ocorrida em seus discípulos e nas obras realizadas por eles (At 2; 3; Mc 16.17); d) a descida do Espírito Santo e no testemunho de Pedro no dia de Pentecostes (At 2); etc. O grande problema de muitos críticos da ressurreição é que eles não acreditam em milagres, e essa doutrina depende da realidade do sobrenatural para subsistir. Por mais que o diabo e seus asseclas se esforcem para levar a doutrina da ressurreição ao descrédito, vão sempre se achar diante de um dilema: UM TÚMULO VAZIO.



CONCLUSÃO

Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, somente Jesus pode ser mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2.5). Somente Ele pode fechar o abismo que existe entre um Deus santo e homens pecadores, e uni-los na reconciliação e união salvífica.



Meu amigo "Setembo"


A vida no canavial era dura e humilhante. Todos tínhamos vontade de largar tudo e ir em busca do emprego dos sonhos. Mas naquelas circunstâncias, não havia alternativa à vista. Sonhávamos então. Sonhar não custa nada e, como dizia o poeta, dá ao homem o dom de suportar o mundo nos ombros. “Quem sabe um dia o emprego na cidade grande”. Poderia de ser de faxineiro, ajudante de pedreiro, cobrador de ônibus ou garçom... qualquer coisa que pusesse fim àquela semi-escravidão.

Dentre todos, “Setembo” era o que mais sonhava. Ele era um sujeito forte, muito trabalhador  e muito tagarela também. Ainda não sei a razão por que lhe puseram este apelido – o nono mês do ano sem a letra “r" -; sei dizer, isso sim, que "Setembo" era muito boa gente, apesar das histórias mirabolantes que costumava contar.

Um dia, no final da moagem – colheita da cana-de-açúcar, que acontece de setembro a fevereiro todos os anos –, Setembo, todo entusiasmado, disse-me: “Eu tenho um parente no Recife que está vendo um emprego lá para mim. Quero, desde já, despedir-me. Na próxima moagem, não conte comigo neste inferno.
Fiquei contente pelo amigo: ele estava dando um salto para melhor. Fiquei triste por mim: eu estava perdendo a companhia de todos os dias.

Os seis meses de plantio se passaram. Nesse período, que vai de março a agosto, os trabalhadores, a maioria deles, são demitidos e só voltam ao trabalho na moagem seguinte. Agora, uma nova colheita estava começando. De volta ao canavial, logo no primeiro dia, qual não é a minha surpresa quando dou de cara com Setembo – não sei se para minha alegria ou para minha tristeza.

Oxente, Setembo, e o emprego no Recife? – perguntei, sarcástico.
Ele me olhou de soslaio, soltou uma expiração do mais fundo do peito e desabafou:
É, meu amigo: quem nasceu “pra” ser boi nunca vai ser leão.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Jeus, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem (parte 2)

 OS TRÊS OFÍCIOS DE CRISTO

1. O Profeta que havia de vir. Já no ocaso de seu ministério, Moisés, o protótipo de todos os profetas, vaticina: “O Senhor, vosso Deus, te despertará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis... Eis que lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes fará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18. 15,18). Cerca de 1450 anos depois, do meio de uma multidão, assombrada por ver Jesus de Nazaré ressuscitar o filho de uma viúva, ouve-se essa declaração estupenda: “Um grande profeta se levantou entre nós” (Lc 7.16).

Os Judeus, seguidores de Moisés, não podiam imaginar que o grande legislador de Israel se referia a Cristo, o Salvador do mundo. Para eles, a profecia de Moisés se cumprira em Josué, o que era verossímil. Todavia, Pedro, no capítulo 3 de Atos dos Apóstolos, apresenta Jesus a uma multidão assombrada pela cura de um coxo, como o profeta semelhante a Moisés (vv 22,23). Deixa claro o apóstolo que Jesus foi o real cumprimento dessa profecia.

“Seria natural dizer que Josué cumpriu essa profecia. Josué, o seguidor de Moisés, realmente veio depois deste e foi um grande libertador de seu tempo. Surgiu, porém, outro Josué (na língua hebraica, os nomes Josué e Jesus são idênticos). Os cristãos primitivos reconheciam Jesus como o derradeiro cumprimento da profecia de Moisés” (David R. Nichols [Teologia Sistemática / Edição de Stanley Horton / CPAD / P 308]).

Há realmente muita semelhança entre o ministério de Jesus e Moisés. 1) Moisés foi ungido pelo Espírito (Nm 11.17); Jesus disse: “O Espírito do Senhor está sobre mim e me ungiu...”(Lc 4.18). 2) Moisés introduziu a Antiga Aliança; Jesus introduziu a Nova Aliança. 3) Moisés libertou Israel da escravidão do Egito e estabeleceu o pacto de seu relacionamento com Deus; Jesus libertou seu povo da escravidão do pecado e das garras de Satanás e nos reconduziu a Deus. 4) Moisés conduziu o povo à lei, como o meio de se receber a benção de Deus; Cristo chamava o povo a si mesmo e ao Espírito Santo como meio de se receber a bênção divina (ver Bíblia de Estudo Pentecostal / Nota “Um Profeta”, p 1635).


2. O Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. No AT, o sacerdócio era um dos três ofícios sagrados entre os judeus, e o sacerdote era alguém tomado dentre os homens, constituído a favor dos homens, nas coisas concernentes a Deus para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados (Hb 5.1). Tinha que ser tomado da tribo de Levi, dentre os filhos de Arão, primeiro sumo sacerdote de Israel (Ex 28.1).

Quem era Melquisedeque? Não há na Bíblia muita informação sobre este misterioso personagem, motivo de haver tanta especulação a seu respeito. Todavia temos informação de que ele era rei de paz e de justiça (Hb 7. 1,2) e sacerdote do Deus Altíssimo (Gn 14.18; Hb 7.1). Tais funções lhe conferiam grande dignidade e autoridade, tanto que chegou a abençoar Abraão e receber dízimos deste (Hb 7.4,6). Melquisedeque não tinha genealogia (Hb 7.3) e, por atuar em tempo bem anterior à dispensaçao da Lei, era de uma ordem sacerdotal diferente da de Arão.

Obs. O fato de o sacro escritor dizer que Melquisedeque era sem pai e sem mãe não significa que ele fora gerado de forma especial, que não tivesse parentes, ou que fosse um ser divino. Apenas as Escrituras não mencionam a sua genealogia, lançando muito mistério sobre o seu começo e o seu fim. È desta forma que ele serve como figura do eterno sacerdócio de Cristo.

O sacerdócio de Cristo não é segundo o de Arão, porque este era imperfeito e exercido por homens pecadores. A liturgia, o culto e as ofertas eram apenas sombra das coisas futuras (Hb 10.1; Cl 3.17), portanto ineficientes para aperfeiçoar (Hb 7.11, 19). Outrossim: o sacerdócio arônico foi constituído em grande número de sacerdotes que se sucediam em virtude de serem impedidos pela morte (Hb 7.23). Porém, a semelhança de Melquisedeque, se levantou outro sacerdote (Cristo), “que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível. Porque dele assim se testifica: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7.16,17).

Melquisedeque e seu sacerdócio são uma prefiguração do sacerdócio eterno de Cristo porque 1) Jesus, como Melquisedeque, é anterior a Levi, Arão e todos os sacerdotes levitas, portanto maior do que todos eles; 2) Jesus não era descendente da tribo de Levi e sim da tribo de Judá, da qual ninguém serviu o altar (Hb 7.13,14); 3). As Escrituras não mencionam a genealogia de Melquisedeque, nem diz nada a respeito de seu começo e fim. Por isso ele é tido como um tipo do sacerdócio eterno de Cristo (Hb 7.3). Portanto o sacerdócio de Cristo, sendo diferente da ordem de Arão, é perfeito, como bem explicitou o sacro escritor: “Porque nos convinha que tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus, que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer a cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois, pelos do povo, porque isso fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo” (Hb 7.26,27).


3. O Rei dos reis. Jesus é o legítimo herdeiro do trono de Davi (Is 11.1-10). O seu reino não será jamais destruído, não passará a outro povo, porquanto foi estabelecido para sempre sobre todas as nações (2 Sm 7.12-17; Dn 2.44). Ele recebeu todo o poder nos céus e na terra (Mt 28.18). João O viu, quando estava na ilha chamada Patmos, e O descreveu da maneira que se segue: “... E estava vestido de uma veste salpicada de sangue, e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus. E seguiam-no os exércitos que há no céu em cavalos brancos e vestido de linho fino, branco e puro. E da sua boca saía uma espada aguda, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira do Todo-poderoso. E na veste e na sua coxa tem escrito este nome: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Ap 19.13-16).

domingo, 27 de março de 2011

A VELHA CASA

                                                       
No belo poema Velha Chácara, Manoel Bandeira, absorto nas recordações de sua infância, desabafa: "A casa era por aqui/ Onde? procuro-a e não acho...”. O poeta voltou ao lugar de seus tenros dias, mas, entristecido, percebeu que “a usura fez tábula rasa da velha chácara triste". O progresso que acompanha os anos havia passado por ali e transformado tudo em resíduos de memória.

Com exceção do murmúrio de um antigo riacho, nada mais havia de concreto para avivar as cores das recordações do poeta. E quando não há referências concretas a partir das quais a memória possa retomar o passado, a recordação fica pálida e sem vida. Porém diante do objeto concreto, resíduos e ruínas ganham novos contornos pela excitação da memória que, excitada, tem o potencial de pintar com cores nítidas as lembranças.

Eu, porém, ao voltar ao lugar de meus tenros dias, dei mais sorte que o poeta. Foram quinze anos ausente, além de mais quinze aquela casa já não me servia de morada. Mas, de regresso, eu pude dizer: "A casa ainda está aqui" e nem precisei procurar para encontrá-la. Não só a casa, mas o espaço à sua volta permanece como nos velhos tempos - com pequenas alterações, é claro, pois tudo muda o tempo todo, mas o essencial ainda estava lá. Encontrei algo de concreto para excitar as lembranças. A estrada ladeada pelo oitão da casa e pelo canavial desafiou a nevasca do tempo. Olhei-a até perdê-la de vista e tive a impressão de ver poeira com as marcas dos pés que, na época, calçavam 32. O pé de abacate, imponente, no quintal da casa, encontrava-se lá, inamovível, imperturbável, indiferente. Seus galhos não envelheceram, apenas adquiriram contornos mais grossos. Olhei-o, focado, e vi um menino brincando em seu galhos, e a criança não me parecia estranha. Vale para o pé de fruta-pão as mesmas considerações sobre o abacateiro.

Logo na curva da estrada da frente, o pé de jacas tem a propriedade de ser insuscetível ao vai-e-vem dos anos. Reparei cuidadosamente para ver se as suas folhas verdes ainda eram as mesmas que deixei e, balançadas pelo vento – o mesmo vento? –, pareciam me dizer que sim. Cheguei a ouvir barulhos de crianças brincando à sua sobra.

Logo abaixo, na encosta da montanha, o riacho de sussurro eterno, indesviável de seu percurso, fez reviver um som esquecido nos recônditos mais escuros da memória. Era um som que destoava ligeiramente do murmúrio presente, mas era o mesmo, a mudança ocorrera nas faculdades perceptivas do observador.

Como diria o poeta, a memória está estreitamente fundida com as vozes do antigo riacho, com os olores das flores , com tudo o que está por aí, contido nos objetos. Todos esses elementos concretos, agora confrontados com os sulcos representativos da memória remota, trazem à superfície um mundo rico, exuberante, em cores tão vívidas... e eu não sei se é a paisagem que se transporta para as recordações e toma forma em seus sulcos ou se são as recordações que se projetam na paisagem e a impregnam dos resíduos de felizes tempos que não voltam mais. Nessa fundição não consigo mais me encontrar. É arrebatador.