quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A ATUAÇÃO SOCIAL DA IGREJA

3º trimestre de 2011
Subsídio para lição 10

Leitura bíblica: Isaías 58.6-8,10, 11; Tiago 2.14-17


TEXTO ÁUREO

“[...]Vinde, benditos de meu Pai […], porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedaste-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).

INTRODUÇÃO

A preocupação com o bem-estar de todo ser humano é uma constante na Bíblia Sagrada desde os dias do Antigo Testamento (Lv 23.22; Dt 15.11; Sl 41.1). No Novo Testamento, se evidencia de forma gritante nas ações de Jesus, o qual andou fazendo o bem e libertando todos os oprimidos (Lc 4.18; At 10.38). Finda a sua missão terrena, o Filho de Deus transferiu à sua igreja, como parte de sua missão, o auxílio aos carentes, ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós”, e seus seguidores imediatos não descuidaram de sua responsabilidade social. Portanto a atuação social da igreja, socorrendo os pobres em suas diversas necessidades e promovendo meios de transformação da realidade social, diferente do que pensam muitos, não é um desvio de sua missão, mas parte intrínseca dela. Nos ensinos e ações de Jesus, está patente que seus seguidores têm o dever (não a opção) de minorar o sofrimento humano, considerando o homem em sua totalidade: corpo e alma-espírito. Uma igreja que apenas se importa com a salvação da alma, não atentando para outras necessidades básicas dos indivíduos, sem dúvida é uma igreja alienada de sua real missão.

POBREZA: UMA REALIDADE SEMPRE PRESENTE NO MUNDO



O fenômeno da pobreza é universal e atemporal, presente em todas as nações, apesar de se manifestar mais severamente hoje nos países subdesenvolvidos. Apesar do considerável desenvolvimento econômico mundial nas últimas décadas, de uma conscientização geral por melhor distribuição de renda e das mobilizações de ativistas em países desenvolvidos em favor de nações extremamente pobres, a pobreza ainda atinge proporções dramáticas no cenário mundial. Estima-se que 1 bilhão e 100 milhões de indivíduos vivam em pobreza extrema, passando com menos de um dólar por dia. Cerca de um bilhão de pessoas passam fome e mais de 800 milhões vivem subnutridas. Anualmente, cerca de 18 milhões de vidas são ceifadas por razões relacionadas com à pobreza, sendo a maioria mulheres e crianças. Todos os anos, cerca de 11 milhões de crianças morrem antes de completarem 5 anos. 1

No Brasil, segundo o Censo do IBGE 2010, somam-se 16,27 milhões de pessoas os que vivem em situação de extrema pobreza, o que representa 8,5% da população, numa taxa de extrema pobreza que atinge quase um brasileiro a cada dez”.2 São pessoas sem acesso mínimo a serviços que ofereçam qualidade de vida, como saúde, moradia e educação, sem um mínimo de dignidade.

Esse quadro social pintado no Brasil e no mundo, com desníveis sociais tão perversos, de extremos alarmantes em que alguns enriquecem cada vez mais enquanto muitos vivem à margem da sociedade em total indigência, tenta nos fazer pensar que Deus não se importa, que o mundo está entregue à ganância dos poderosos. Mas Deus se importa tanto que deixou seu representante neste mundo, a igreja, coluna e firmeza da verdade, para denunciar as injustiças e influenciar as sociedades. Ele não está indiferente, Ele está esperando a igreja agir.

MEIOS DE EXERCER A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No livro Ação Social Cristã, o pastor Hélcio da Silva Lessa classifica a responsabilidade social em três categorias: assistência social, serviço social e ação social. Para melhor compreensão da aula, vamos ver sucintamente a definição de cada uma delas.

1) Assistencialismo. Busca atender às necessidades emergentes das pessoas. A pessoa atendida, objeto da ação, encontra-se numa situação de total dependência e, mesmo havendo o suprimento de suas necessidades, as suas carências continuam.

2) Serviço Social. Aqui, a pessoa carente recebe condição para interagir e melhorar sua situação, recuperando a dignidade e confiança. Projetos sociais tendo como alvo o ensino, a orientação, o apoio e a profissionalização promovem a capacitação do indivíduo a fim de que este se torne responsável pela solução de seus problemas.

3) Ação Social. Procura transformar as estruturas da sociedade, buscando a criação de bases mais justas. Neste sentido, é muito importante que seja criada uma consciência cívica no meio evangélico, que leve cristãos aos órgãos públicos que estão diretamente relacionados com a infra-estrutura sócio política do país (do Manual de Ação Social/ Igreja Metodista).

Então, quando falamos de atuação social, isso não se restringe apenas ao campo do assistencialismo (assistência social), mas tem a ver também com educação, saúde, distribuição de renda e emprego.

QUESTÕES SOCIAIS NO ANTIGO TESTAMENTO

Havia na comunidade israelita do antigo Testamento um profundo senso de responsabilidade social. A Palavra de Deus determinava que os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos fossem assistidos e socorridos em suas necessidades básicas (Dt 15.7-10; Lv 19.10; 23.22; Ex 23.11). Vejamos como Deus, que nunca deixou de se preocupar com a dignidade humana, estabeleceu medidas econômicas e sociais para o seu povo, a fim de que os mais abastados assistissem os pobres, visando relações justas entre eles.

1) O ano Sabático (Lv 25.1-17). A cada sete anos, o solo deveria ser liberado para descanso e renovação da terra, os escravos seriam libertados, os endividados, perdoados, os trabalhadores tinham direito a descanso e os pobres tinham o direito de colher para eles mesmos do fruto da terra (23.10,11).

2) A lei do jubileu (Lv 25.8-34). Entre outras coisas, determinava que, a cada cinquenta anos, os escravos seriam libertados, todas as dívidas seriam perdoadas e as terras seriam devolvidas aos seus antigos donos. Essas medidas evitavam a concentração de riquezas (diga-se de terra), promoviam a redistribuição dos meios de produção e evitavam situações extremas de dívidas, pobrezas, desapropriação e miséria.

3) Dízimos e colheitas (Dt 14.22-29; Lv 19.9,10). Os dízimos de toda a produção agrícola se destinavam, entre outras coisas, para o sustento dos órfãos, viúvas e estrangeiros. Em relação a colheita, a Palavra de Deus determinava: “E quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás...” (Lv 23. 22). Tais procedimentos protegiam os estrangeiros e evitavam a pobreza extrema no meio do povo. Rute, nora de Noemi, foi beneficiada por esta lei (Rt 2.2,3).

O NOVO TESTAMENTO E A AÇÃO SOCIAL DA IGREJA

Na palestina do Novo Testamento, a situação sócio-econômica da maioria das pessoas era deplorável. Quando Jesus se tornou notícia na região por seus ensinos milagres, uma turba de necessitados acorria a Ele, a fim de serem ajudados, muitos apenas para matar a fome (Jo 6.26). Eram pobres, enfermos, deficientes físicos, viúvas, crianças, idosos, desamparados, desabrigados e maltratados (Lc 14.13,14).

Destarte, a maior parte dos evangelhos ocupa-se com as ações magnânimas do Mestre de Nazaré. Ele foi, de longe, o maior exemplo de preocupação e auxílio aos necessitados, o que se evidencia tanto em seus ensinos quanto em suas obras. Pedro o apresenta como “aquele que andou fazendo o bem”. Uma de suas ricas parábolas é a do bom samaritano, o bondoso homem que arriscou sua vida para cuidar de um necessitado desconhecido com quem nem o sacerdote nem o levita se importaram (Lc10.25-37). Essa parábola ainda hoje exerce grande influência nas civilizações. Em outra parábola – sobre as ovelhas e os bodes – Jesus se identifica tanto com os pobres a ponto de dizer: “O que vocês fizeram a um destes pequeninos irmãos [os pobres necessitados], a mim o fizeram” (Mt 25.40). Ele Não podia ver os miseráveis sem se compadecer (Mt 9.36; 14.14; 20.34; Mc 10.45). Uma vez, chegou a convidar um homem rico a vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mt 19.21).

“Jesus se preocupou com o homem enquanto unidade bio-psiquica-social-espiritual. Ele curou, ensinou, salvou, consolou e devolveu a muitos a dignidade. Cuidou do ser humano por inteiro. A prática de Jesus segue uma sequência marcada pelo ver, sentir e agir. Nesse sentido, é interessante notar que nos vários encontros de Jesus com as pessoas, indivíduos ou grupos, a ação de Jesus foi marcada por uma completa coerência com seus ensinos. Por isso Pedro apresenta Jesus como ‘aquele que andou fazendo o bem”’.3

Jesus encarnou a plenitude do amor e preocupação de Deus com os pobres tão nitidamente manifesta no Antigo Testamento. A sua compaixão com os miseráveis responde a uma pergunta que é constante no coração de quem sofre: “Deus se importa?” Jesus responde que sim.

Como não poderia ser diferente, a igreja primitiva seguiu o exemplo de Jesus, seu Mestre. A grande sensibilidade de Deste para com as necessidades humanas, vemos agora nas ações daquela primeira comunidade cristã, traduzida no cuidado de uns para com os outros. Após o grande despertamento promovido pela descida do Espírito Santo (At 2), os discípulos do Senhor anunciaram veementemente o Evangelho, o que resultou num crescimento frenético do número de convertidos, os quais se organizaram numa comunidade fiel, calcada na doutrina, na comunhão, fraternidade e oração (At 2.42; 4.31; 5.42). Aqueles discípulos souberam conjugar a prática da evangelização com a prática do serviço social, esta última, parte integrante daquela.

Segundo a narrativa de Lucas, uma ação usual entre os primeiros cristãos era a partilha de bens para atender os mais necessitados (At 2.44,45; 4.34,35). Alguns deles, voluntariamente, vendiam suas propriedades para suprir as necessidades dos mais carentes, como foi o caso de Barnabé (At 4.37). Por isso, “todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum (…), não havia entre eles necessitado algum” (At 2.44; 4.34).

Na medida em que a igreja se expandia por várias regiões distantes, os apóstolos, nas cartas que escreveram às congregações, não descuidaram de incentivar o compromisso social cristão. Paulo trata da liberdade da contribuição (1Co 9.7) e elogia os macedônios por darem na medida de suas posses e ainda acima delas (2 Co 8.3). Tiago fala da assistência aos necessitados como característica inerente à religião pura (Tg 1.27) e condena abertamente os ricos que oprimem os pobres (Tg 5.1-6). João fala do socorro aos necessitados como a materialização da caridade de Deus em nós (1 Jo 3.17,18).

CONCLUSÃO

Há uma frase do famoso orador romano, Cícero, que diz: “É impossível conhecer a verdade e não ser responsabilizado”. A igreja de hoje não poderá alegar ignorância de sua missão, porque esta está muito clara no Livro Sagrado, nos ensinos e ações de Jesus, bem como nas recomendações e exortações dos apóstolos. Nós somos responsáveis.





terça-feira, 26 de julho de 2011

O REINO DE DEUS ATREVÉS DA IGREJA

Por Renato Oliveira


INTRODUÇÃO

Estamos estudando neste trimestre sobre o a Missão integral da Igreja, o reino de Deus esta entre vós. Um assunto muito importante, pois vem nos conscientizar sobre a necessidade da igreja cumprir integralmente suas funções. Aprendemos que Reino de Deus significa o “Senhor intervindo e predominando no mundo, para manifestar seu poder, sua gloria e suas prerrogativas contra o domínio de satanás e a condição atual deste mundo” (Bíblia Pentecostal). Podemos definir também como “a soma de todas as bênçãos, promessas e alianças que o Todo Poderoso destinou aos que recebem a Cristo Jesus”. Logo entendemos que Reino de Deus é algo além da salvação, é Deus revelando-se com poder na execução de todas as suas obras. Partindo deste principio compreendemos que missão integral é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e a fé, para acesso ao Reino de Deus. Posteriormente a pessoa e tudo quanto produz passam a servir aos interesses do Reino de Deus, existindo e funcionando em alinhamento ao caráter perfeito de Deus. No entanto para que haja esta manifestação de poder, domínio e realização das obras descritas na definição do Reino de Deus é necessário ter um agente e para tanto o Senhor Jesus criou uma instituição e comissionou para tal responsabilidade. Logo o Reino de Deus, no presente tempo, deve ser manifestado através da igreja.

1-O REINO DE DEUS E A IGREJA.

1.1-Igreja, representante do Reino.

No antigo testamento o Senhor Deus escolheu e delegou ao povo de Israel a tarefa de fazê-lo ser conhecido diante dos outros povos “E andarei o meio de vós e eu vos serei por Deus, e vós me sereis por povo” (Lv 26.12). Observamos que as manifestações de Deus, do seu poder, autoridade, domínio sempre era manifesta através de Israel. Quando da ocasião da retirado do povo de Israel do Egito o próprio Deus endureceu o coração de faraó para mostrar seu domínio “E eis que endurecei o coração dos egípcios para que entrem nele atrás deles; e eu serei glorificado em Faraó, e em todo o seu exército, e nos seus carros, e nos seus cavaleiros. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor , quando for glorificado em Faraó, e nos seus carros, e nos seus cavaleiros.” (Ex 14.17,18). No novo testamento vemos Jesus Cristo após sua ressurreição vemos delegar a igreja a ser o representante de Deus aqui na terra. Não há outra instituição que deve cumprir este papel, senão a igreja. O termo igreja significa ekkesia, que por sua vez significa Assembleia do povo de Deus, ou seja, corpo místico de Cristo, formado pelos que recebem a Cristo como único e suficiente salvador e também ajuntamento dos fiéis com o objetivo de adorar a Deus. No primeiro caso, temos a igreja invisível, pois somente o Senhor Jesus pode distinguir os verdadeiros dos falsos crentes e isto será manifesto no dia do arrebatamento. No segundo caso temos a igreja visível ou institucional que é representada diante da sociedade politicamente organizada. Observe que quando se trata de ser representante de Deus não se refere a quatro paredes, más de pessoas, pois esta representação não é material e nem política, más sim espiritual. Apóstolo Paulo disse “O reino de Deus não é comida e nem bebida, más justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).

1.2-A igreja é comissionada por Cristo.

Durante seu ministério terreno Jesus pregou o evangelho do Reino, curou as enfermidades e moléstias entre o povo (Mt 4.23) , expulsou demônio (Mt 8.28-32), alimentou os famintos ( Lc 910-17), ressuscitou mortos (Jo 11. 38-45), más também organizou e preparou um grupo de pessoas , homens que eram simples pescadores más que receberam a incumbência de serem pescadores de homens “vinde após mim e eu os farei pescadores de homens” (Mt 4.19). Mesmo sem saber o que o mestre Jesus estava dizendo, deixaram as redes e seguiram-no (Mt 4.20).Observe que desde o princípio a incumbência foi que proclamassem a mensagem do Reino de Deus. Destes simples pescadores nasceu a igreja, sob muito poder e virtude para que a eficácia da pregação do evangelho fosse alcançada “Más recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunha tanto em Jerusalém, como na Judéia e em toda a Samaria e até os confins da terra” (Atos 1.8). O escritor Marcos relata que quando Jesus apareceu aos seus onze discípulos após sua ressurreição disse: “Ide por todo o mundo pregai o evangelho a toda criatura” ”(Mc 16.16) “E estes sinais seguirão ao que crerem em meu nome, expulsarão demônio, falarão em novas línguas; pegarão em serpentes e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes farão dano algum, imporão as mão sobre os enfermos e os curarão”(Mc 16.17-18). Fomos comissionados a gerar uma nova cultura debaixo do senhorio de Cristo Jesus.

1.3-A igreja na sociedade.

Ter convivência com a comunidade sem se envolver-se com as praticas do mundo ou associar-se a ele em suas ações é o maior desafia da igreja dos dias atuais. Jesus disse que somos “luz deste mundo e sal desta terra”. Como luz deste mundo a igreja é como um farol em meio a tanta escuridão. Deus se importa não só com a redenção das almas, más também com a restauração de sua criação. Ele nos chama para sermos agentes não apenas da graça salvadora más também da graça comum. A igreja deve influenciar e envolver e nunca ser influenciada ou ser envolvida pelas coisas deste mundo. A igreja também não pode tomar a postura de ficar neutra, inerte, pois a grande comissão de Jesus foi: “Ide”. É praticamente impossível expandir o Reino de Deus sem interagir com as pessoas, e interagir aqui significa agir com o outro sem perder suas particularidades. A igreja é um agente transformador comissionado pelo Senhor Jesus. É dela a responsabilidade de frear a degradação dos valores na família e na sociedade, de minimizar o sofrimento do povo, principalmente daqueles que mais sofrem, pois foi exatamente isto que fez o nosso Senhor Jesus. Ele era amorosamente amistoso, relacionava com os marginalizados e desprezados, enfermos e oprimidos pelo nosso adversário, seu alvo principal era conduzir o pecador ao Reino de Deus. Enquanto este mundo mergulha no abismo da imoralidade a igreja apresenta a justiça do Reino de Deus como solução; no esfriamento do afeto, compreensão, comunhão e amor a igreja de Cristo exala amor, pois seu Senhor e Rei é amor.

Enquanto a igreja permanecer neste mundo seremos agente da graça de Deus, seremos a fonte de alegria , paz , amor , justiça e esperança.

2. O REINO DE DEUS PRESENTE NA IGREJA

2.1 Na pregação cristocêntrica.

Embora a igreja pode e deve usar de todos os meios legais para expandir o Reino de Deus no mundo atual, tendo sempre a visão total do homem, a mesma não deve deixar de pregar o Cristo ressuscitado. A pregação cristocêntrica deve ser uma das principais características da igreja de Cristo. Pregar a palavra tendo como tema principal Jesus Cristo é ir de encontro à causa de todos os males desta sociedade, que é a falta do conhecimento de Deus e do seu plano de salvação. Ter atividades na igreja é importante, más o que transforma o homem e mantém a igreja edificada e com crescimento quantitativo e principalmente qualitativo é a pregação da palavra tendo como assunto principal Jesus Cristo. Foi por este caminho que a igreja primitiva percorreu e alcançou em pouco tendo muitas almas para o Reino de Deus (Atos 2.36).

Paulo escrevendo a igreja aos Coríntios disse que “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da gloria de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4.4) e o remédio ou antídoto contra esta cegueira é a revelação de Jesus Cristo através da sua palavra. Por estarmos vivendo em um mundo onde a necessidade material a cada dia é mais ardente, multidões estão indo a igreja para sanar esta necessidade e igreja não pode correr o risco de se tornar uma fonte de benção material. O teor da mensagem não pode ter o objetivo de atenuar a aflição da humanidade causada pela escassez material, más de revelar o grande propósito de Deus que é a salvação do homem através de Jesus Cristo. A igreja deve mostrar a humanidade que se buscarmos o Reino de Deus e sua justiça todas as demais coisas o Senhor Jesus garante que nos concederá, ou seja, quem estiver sob o Senhorio do nosso Senhor Jesus terá o cuidado que somente ele pode conceder (Mt 6.25-34).

2.2Na comunhão.

Um dos pilares da missão da igreja aqui neste mundo é promover a comunhão dos que vivem a partir do evangelho (Koinonia). Jesus quando da sua última reunião com seus discípulos antes da sua crucificação disse “um novo mandamento vos dou: “que vos ameis uns aos outros, como eu vós amei, que também vós uns aos outros vos ameis; nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.33.34). Observe que Jesus classificou amor como um mandamento e não um sentimento e única característica que o mundo deve ver em nós e nos classificar como verdadeiro seguidor de Cristo. O amor deve ser a marca distintiva dos seguidores de Cristo e este amor é abnegado e sacrificial e visa o bem do próximo e isto implica em ajudar uns aos outros nas provações, evitar ferir os sentimentos e a reputação uns dos outros e principalmente negar-se a si mesmo para promover o mútuo bem estar. Paulo classifica este amor como uma característica do Fruto do Espírito , uma interessante e ardente busca do bem maior de outra pessoa sem nada querer em troca (Gl 5.22). João chega a dizer que é uma característica do novo nascimento “Amados, amemos uns aos outros , porque o amor de de Deus, e qualquer que ama é nascido de Deus e conheça Deus;aquele que não ama não conhece a Deus , porque Deus é amor”(1 Jo 4.7,8).Por ter uma compreensão errada sobre o texto que Jesus disse “que por se multiplicar a iniquidade , o amor de muitos se esfriará” alguns crentes lamentavelmente estão aceitando e até praticando a falta de amor no meio da igreja assemelhando-se ao mundo. Neste texto Jesus estava se referindo ao aumento incrível da imoralidade, desrespeito ao próximo , rebelião contra Deus e que tudo isto faria minguar o verdadeiro amor, ou seja, todas as práticas do mundo faz o homem afastar-se mais de Deus e por conseguintemente do seu amor . Devemos amar nosso próximo porque é uma característica do fruto do Espirito e que através da nossa comunhão com Deus ,que é amor , o Espirito Santo faz derramar em nossos corações este amor ( Rm 5.5). Amor é a maior marca do cristianismo e a igreja deve ser a fonte inesgotável de amor . O mundo deve ver na igreja este amor manifestado pela comunhão entre os membros do corpo de Cristo e por esta característica ser atraído. O mundo não pode exalar amor, somente a igreja, pois temos a essência de Deus em nós. E este amor não é estático é progressivo, Deus dia-a-dia aperfeiçoa este amor em nós “… Deus está em nós, e em nós é perfeita a sua caridade” (1 Jo 4.12b). A igreja (local) que mais manifesta esta característica é a que mais cresce, pois assim procedeu a igreja primitiva “E perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração; louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo e todo o dia acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2.46,47).

2.3No serviço.

Como já vimos, a igreja na sua missão integral tem a incumbência de expandir o Reino de Deus aqui na terra e isto implica em atender as necessidades espirituais do homem e também em atender as necessidades do próximo. Deus por ser um Deus cuidadoso e zeloso com seus filhos tem o prazer de suprir as necessidades dos mesmos e uns dos meios que este cuidado é manifesto é através da igreja. A igreja primitiva tinha esta preocupação de cuidar uns dos outros, socorrer os necessitados, as viúvas e os desamparados, tanto que instituiu o diaconato com objetivo de escolher pessoas que fossem cheio do Espirito Santo para cuidar das necessidades dos crentes e o resultado foi que “crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé” (Atos 6.7).Logo, estar inserido no Reino de Deus significa estar sob o cuidado de Deus e também da igreja. O Pr. José do prado Veiga, diz que diaconia envolve todo o entendimento social e espiritual da igreja no que concerne ao socorro, ao tratamento, à cura, ao fortalecimento das fraquezas do ser humano, à libertação, a visitação e à pregação da Palavra e muito mais” (Ensinador Cristão Ano 12 – 47). A manifestação do Reino de Deus esta vinculado com o serviço cristão. Tiago trata este assunto com tanta relevância que chega a dizer que a “fé cooperou com as suas obras e que pela fé, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2.22). Tiago estava dizendo que a fé e as obras nunca poderão estar separadas, uma vez que as obras procedem naturalmente da fé. Ele vai mais profundo no assunto quando diz que “o homem é justificado pelas obras” (Tg 2.24).

3 QUEM É O MAIOR NO REINO DE DEUS

3.1O “maior” em humildade.

No inicio do seu ministério terreno Jesus expôs um requisito para aqueles que quisessem segui-lo teria que negar a si mesmo. Negar a nós mesmos não implica somente em sofrer por causa do evangelho de Cristo, más também deixar de lado o egoismo e o orgulho que faz parte da natureza pecaminosa do homem e viver uma vida debaixo do senhorio de Cristo. Por diversas vezes Jesus atacou este mal. Os discípulos de Jesus deixaram manifestaram este desejo de ser maior no Reino de Deus e Jesus ensinou que o maior deve ser em humildade e amor ao próximo. Como vimos o desejo de grandeza esta inserido na natureza do homem e por conta disto é que o homem ao aceitar a Jesus como seu salvador o Espirito Santo começa a gerar nele fruto e uma desta características é a temperança que é o domínio próprio. Infelizmente vemos em nossos dias igrejas locais, departamentos e principalmente entre os obreiros esta ânsia de ser grande ser manifestada , más a grandeza que Deus requer daqueles que desejam viver no Reino Dele é a a humildade. E para ser verdadeiramente humilde e não hipócrita tem que estar sob o domínio de Cristo Jesus “e vivo, não mais eu, más Crito vive em mim” (Gal 2.20). Que o senhorio de Jesus Cristo possa fazer com que nossos anseios sejam mortificados pela graça de Cristo Jesus que em nós é manifesta.

3.2O maior deve ser como uma criança.
Por Renato Oliveira


Uma das características que deve ser manifestado nos seguidores de Cristo é a humildade e para tanto Jesus deixou claro como deve ser o modelo de humildade dos seus súditos. Esta humildade não deve ser algo imposto ou sob uma ordenança de uma liderança eclesiástica, mas deve ser manifestada do interior do homem transformado por Jesus Cristo, ou seja, esta humildade que os filhos de Deus devem manifestar deve ser pura e sincera, e foi por isto que Jesus usou uma Criança como modelo de humildade, pureza e sinceridade.

Ao requerer atos e atitudes como de uma criança, Jesus não estava dizendo que o crente deve ser meninos no entendimento ou na firmeza ou até mesmo no conhecimento da palavra. Jesus estava exigindo que nossos atos e atitudes devem ser sem malicia e Paulo ratificou esta exigência quando disse a igreja de corintios “irmãos não sejais meninos no entendimento, más sede meninos na malicia e adultos no entendimento” ( 1 Co 14.20) . A humildade que procede da temperança do fruto do Espirito faz com que o cristão consiga “ser unânimes e não ambicionar coisas altas, más acomodar nas humildes” (Rm 12.16). Esta acomodação nas coisas humildes como fruto da atuação do Espirito Santo não deixa o cristão na acomodação ou na inércia, más provoca no crente um desejo ardente pela “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

3.3O maior deve ser servos de todos.

Na sua última noite terrena Jesus fez um ato que comoveu todos os discípulos que estava com Ele. O mestre de posse de uma bacia com água começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha que estava cingida ( Jo 13 1-13). E esta atitude não só demostrava o quanto que Ele os amava más também de demonstrar a eles que foram chamados para servirem uns aos outros em humildade. Jesus estava ensinando que a cultura do seu reino é diferente deste mundo. No mundo onde nosso adversário atua ser servo é sinônimo de fraqueza, de inferioridade, más no seu Reino, servir é um sinônimo de grandeza. Ser servo no Reino de Deus constitui em honra. O sábio Salomão disse que “diante da honra vai a humildade” (Pv.15.33). O escritor aos Hebreus diz que todo nosso serviço como servo não é esquecido por Deus (Hb 6.10), e que não precisamos buscar as recompensas neste mundo, pois Deus um dia nós recompensará (Mt 25.23).

CONCLUSÃO

A igreja de Cristo tem a árdua e ao mesmo tempo prazerosa responsabilidade de influenciar este mundo com a cultura e princípios do Reino de Deus. Uma vez que fomos transformados e estamos sob o domínio do Senhorio de Cristo devemos com as nossas atitudes atrair pessoas para o Reino de Deus. O Escritor Charles Colson fez um comentário que vale a pena ser exposto “Como agentes da graça comum de Deus, somos chamados a ajudar a manter e renovar sua criação, a sustentar as instituições formadas da família e da sociedade, buscar a ciência e a sabedoria, curar e ajudar aqueles que sofrem com o resultado da queda” (Charles Colson em E Agora Como Viveremos-CPAP). Que possamos ser impactados por esta vontade de Deus e possamos cumprir fielmente nossa missão como representanto de Deus aqui na terra.


Renato Oliveira é engenheiro, pastor evangélico, membro da Igeja Assembleia de Deus do Belém em São Paulo.





sábado, 25 de junho de 2011

Profetas Maiores e Menores

“E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as escrituras” (Lc 24.27).


Desde Moisés até João Batista, levantaram-se muitos profetas em Israel. Alguns não escreveram suas mensagens, os profetas orais; outros deixaram suas profecias e experiências registradas para a posteridade, os profetas literários. Estes últimos encontram-se divididos na Bíblia Sagrada em dois grupos: Profetas Maiores (cinco) e Profetas Menores (doze). Foram classificados assim por Agostinho em razão do volume de seus escritos. Porém, independente de classificação, todos os profetas, orais ou literários, exerceram o seu ministério debaixo da inspiração e autoridade divinas e foram o referencial constante dos ensinadores do Novo Testamento. Amiúde citados por Jesus e por seu apóstolos, estes gigantes da fé lançaram todo o alicerce sobre o qual a Nova Aliança seria edificada. Neste espaço, além de fazermos uma explanação sobre os dois grupos dos profetas literários, apresentaremos um breve estudo sobre o texto de Romanos 9.25-29, onde o apóstolo Paulo menciona os profetas Oseias e Isaías - um do grupo dos Maiores e outro do grupo dos Menores - para defender uma verdade central da fé cristã: o novo povo de Deus seria formado por gentios convertidos ao evangelho e pelo remanescente fiel de Israel, conforme predito pelos dois profetas supracitados.

I. CLASSIFICAÇÃO DOS LIVROS PROFÉTICOS

1. No Cânon Hebraico.

A Bíblia dos judeus é o Antigo Testamento hebraico, chamada por eles de Tanach, sigla que vem das palavras hebraicas Torah, Neviym, Kethuvym, e significam respectivamente Lei, Profetas e Escritos, as três principais divisões do Antigo Testamento. A Torah compõe-se dos cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), todos escritos por Moisés. Os Neviym estão divididos em duas partes: os profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis); e os profetas posteriores (Isaías, Jeremias e Ezequiel mais os doze profetas menores). Os Kethuvym compõe-se da terceira seção e estão subdivididos em três partes, representadas pelos livros poéticos ( Salmos, Provérbios e Jó); os Megilloth, ou Cinco Rolos (Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester); e os Livros Históricos (Daniel, Esdras-Nemias e Crônicas). Como os doze profetas menores formam um só livro, e da mesma forma, os dois livros de Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, e Esdras e Nemias, o Cânon Hebraico somam apenas 24 livros.

Esta disposição da Bíblia hebraica foi ratificada por Jesus no capítulo 24.44 do Evangelho de Lucas. Naquela ocasião, instruindo dois de seus discípulos no caminho para Emaús, o Mestre disse: “Convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés [Torah], e nos Profetas [Neviym], e nos Salmos [ Kethuvym]”.

2. No Cânon Cristão.

O Cânon Cristão corresponde ao Antigo Testamento hebraico mais o Novo Testamento. Em nossa Bíblia, o Antigo Testamento está dividido em quatro grupos: Lei - Parte correspondente aos cinco primeiros livros (Torah hebraico); Livros históricos – que correspondem a 12 livros (Josué, juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Nemias e Ester); Livros poéticos (Jó, Salmo, Provérbios, Eclesiastes e cantares de Salomão); e Os livros proféticos – que estão subdivididos em dois grupos, conforme vemos a seguir.

a) Os Profetas Maiores. Designação usada para identificar o primeiro conjunto de cinco livros dos profetas. São chamados de maiores por causa do volume de seu conteúdo literário, não porque são mais importantes que os demais. São eles: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel.

Isaías e Jeremias profetizaram a partir de Judá, durante um longo período de mais de quarenta anos. O primeiro é considerado o mais ilustre dos profetas literários e também como o profeta messiânico pelo fato de seu livro ser o que mais faz menção do Messias. O segundo, Jeremias intercala sua própria história com a história de seu povo numa sequência que abrange desde o reinado de Josias até o cativeiro babilônico. Jeremias foi perseguido pela casa real em Jerusalém muitas vezes (37.15) e, após a destruição da Cidade Santa, foi levado ao Egito contra a sua vontade. Devido o seu sofrimento intenso durante seu ministério profético, ficou conhecido como o profeta das lágrimas.

Ezequiel e Daniel são os profetas do exílio. Foram levados para Babilônia na primeira deportação. O primeiro profetizou por 22 anos junto ao rio Quebar (1.1; 43.3). Sua mensagem profética prevê a invasão da Terra Santa por Gogue e sua consequente derrota antes da restauração espiritual de Israel. O segundo, Daniel, foi levado muito jovem para Babilônia, serviu diretamente no palácio real. Após a queda de Babilônia, continuou no reino da Pérsia como ministro de e morreu no exílio.

b) Os Profetas Menores. Os Profetas menores do nosso Antigo Testamento estão na mesma sequência do Cânon judaico: Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. A designação Profetas Menores deve-se ao seu pequeno volume literário em comparação aos de Isaías, Jeremias, não se refere a grau de importância dentro do Cânon ou à qualidade da inspiração divina.

Os livros destes profetas levam os nomes de seus respectivos autores, cujos ministérios abrangem o tempo que vai de 800 a 435 a. C. Jonas e Joel são os primeiros profetas literários na ordem cronológica dos Menores, e profetizaram no Reino do Norte. O primeiro viveu na época de Jeroboão II, quando os assírios atormentavam o Reino de Israel. Foi incumbido, contra a sua vontade, de pregar aos assírios, em Nínive, para que estes se arrependessem. Joel é chamado de o profeta pentecostal por ter previsto o derramamento do Espírito Santo para nos últimos dias. É também conhecido como o profeta do Dia do Senhor.

Oseias, Amós Miqueias foram contemporâneos, sendo que os dois primeiros profetizaram Em Israel, e o terceiro em Judá. Junto com Isaías, formaram o quarteto áureo da profecia hebraica (790 – 695).

Com apenas um capítulo, Obadias profetizou a condenação de Edom, porque coligara-se aos caldeus durante o cerco de Jerusalém. Naum é um poema que antecipa o fim do cativeiro assírio cerca de 150 anos depois de Jonas. Habacuque é o registro de sua própria experiência com Deus, enquanto Sofonias, que não é citado no Novo Testamento, prega contra a injustiça, idolatria e hipocrisia, bem como sobre o iminente juízo divino.

Zacarias e Ageu são os profetas pós-cativeiro, os quais se empenharam junto a Zorobabel na reconstrução do templo e, impelidos pelo Espírito do Senhor, despertaram no povo acomodado o interesse pela obra.

II. OSEIAS, O PROFETA MENOR

Oseias foi chamado por Deus para profetizar ao Reino de Israel no reinado de Jeroboão II, quando aquele povo desmoronava espiritualmente nos últimos quarenta anos de sua existência. Quando Oseias começou seu ministério, Israel desfrutava de uma temporária prosperidade econômica e de paz política, que acabariam por produzir um falso senso de segurança. Logo após a morte de Jeroboão II, porém, a nação começa a deteriorar-se, e caminha velozmente à destruição em 722 a. C.

O que muito impressiona neste livro foi a ordem de Deus para Oseias se casasse com uma mulher de prostituição, a fim de exemplificar a infidelidade espiritual de Israel (Os 1.2). Por outro lado, o amor perseverante do profeta por sua mulher adúltera (3.1), serviria de ilustração do amor constante de Deus pelos filhos de Abrão. Deste casamento, o profeta tem três filhos, cujos nomes são sinais proféticos a Israel: Jezreel (Deus espalha), Lo-Ruama (Não compadecida) e Lo-Ami (Não meu povo).

1. Oseias no Novo Testamento. Os apóstolos e discípulos de Jesus fundamentavam suas pregações e ensinos na autoridade dos profetas. Até porque o que estava acontecendo em seus dias era o cumprimento da Lei e dos Profetas (Mt 11.13; Lc 24.44; At 26.22). Eles explicavam fatos curiosos, como a crucificação, o derramamento do Espírito e a conversão dos gentios, recorrendo aos vaticínios de Isaías, Joel, Oseias e outros. O livro de Oseias, especialmente, é muito citado no Novo Testamento. Há referência ao Filho de Deus chamado do Egito (11.1; cf Mt 2.15); ao desejo de Deus de que a misericórdia prevaleça sobre o sacrifício (6.6; cf Mt 9.13); e à vitória de Cristo sobre a morte (13.14; cf 1 Co 15.55).

O apóstolo Paulo menciona os nomes de dois grandes profetas, Oseias e Isaías, no capítulo 9 de Romanos, para explicar a salvação de um remanescente judeu e a inclusão dos gentios na igreja de Cristo. O contexto é formado pelos capítulos 9-11, em que Paulo mostra por que os judeus foram rejeitados e cortados por Deus, bem como por que os gentios foram chamados e eleitos para participar dos benefícios do evangelho. É notável o fato de ele ter citado os dois profetas exatamente na ordem em que aparecem em nossa Bíblia: Isaías, o primeiro livro dos Profestas Maiores, e Oseias, o primeiro dos Profetas menores.

2. A vocação dos gentios na profecia de Oseias

"Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo" (Rm 9.25,26).

Como já tivemos a oportunidade de ver, o terceiro filho do casamento de Oseias com Gômer é Lo-Ami, cujo nome significa “Não meu povo”. Há quem diga que essa criança não era filho legítimo do profeta. Essa situação constrangedora do profeta retrataria mais uma mensagem divina a Israel. Portanto, Lo-Ami denotaria (i) a rejeição de Deus a Israel por todos os seus pecados de idolatria: “E ele disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami, porque vós não sois o meu povo, nem eu serei o vosso Deus” (1.9); e Segundo a interpretação apostólica, (ii) a não participação dos gentios na família de Deus.

Entretanto, o mesmo Deus que rejeitou seu povo, entregando-o mais tarde ao rei da Assíria (2 Rs 17.6ss), promete reverter a situação e recebê-lo novamente como o seu para sempre: “Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que não pode medir-se nem contar-se (…)”. “E a Lo-Ami direi: Tu és meu povo. E ele dirá: Tu és o meu Deus” (2.23).

Note o paradoxo da frase: “Eu direi a Não-meu-povo (Lo- Ami): Tu és meu povo”. Deus reverteria uma situação irreversível enunciada na profecia. O apóstolo Paulo parte dessa compreensão, quando usa o mesmo oráculo para explicar o fato de os gentios estarem ingressando na igreja. Deus agora recebe os gentios, povo que não lhe pertencia (Lo-Ami), como seus filhos: “(...) e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo” (1.10).

Vale ressaltar que as duas referências do livro de Oseias utilizada por Paulo para mostrar a chamada dos gentios referem-se à redenção das tribos do norte de Israel. Por isso ele não está sugerindo que a salvação dos gentios seja o cumprimento direto dessas profecias. Ele apenas aplica o mesmo princípio, segundo o qual Deus reúne pessoas que não eram do seu povo, as que estavam alienadas Dele, para estabelecer uma relação com Ele, através de sua chamada graciosa.

III. ISAÍAS, O PROFETA MAIOR

Também Isaías clamava acerca de israel: ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a terra completando-a e abreviando-a. E como antes disse Isaías: Se o senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma e seríamos semelhantes a Gomorra (Rm 9.27-29).

Isaías profetizou por cerca de cinquenta anos no Reino do Sul durante o reinado de quatro reis: Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Seu ministério se deu no período de expansão do império assírio, do colapso de Israel e do declínio moral e espiritual de Judá. O seu livro é o mais citado no Novo Testamento depois dos Salmos e considerado a obra mais teológica e extensa de todos os livros proféticos do Antigo Testamento. Isaías ficou conhecido como o profeta messiânico ou profeta evangélico, porque de toda a literatura do Velho Testamento, suas profecias contêm as declarações mais plenas e claras sobre Jesus Cristo.

1. Explanação apostólica. No capítulo 9 de Romanos, o apóstolo Paulo cita o profeta Isaías, referindo-se a duas passagens de seu livro – 1.9 e 10.22,23 –, para aludir ao remanescente fiel dos judeus de sua geração, os quais estavam aderindo à fé cristã. Na verdade, nos capítulos 9-11 da carta referida, Paulo trata da eleição de Israel no passado, da sua rejeição do evangelho no presente e da sua salvação futura. Ele estava respondendo a algumas questões levantadas pelos crentes judeus, por exemplo: Como as promessas de Deus a Abraão e seus filhos poderiam permanecer válidas se a nação de Israel, como um todo, não parece ter parte no evangelho?

O apóstolo dos gentios recorre, então, à afirmação de Isaías que diz: “ Se o Senhor dos Exércitos não nos deixara algum remanescente, já como Sodoma seríamos e semelhantes a Gomorra”. O profeta Isaías aludia ao que restaria de Israel e Judá, depois do cativeiro de ambos, como resultado da infinita misericórdia de de Deus e de sua fidelidade com a promessa feita a Abraão. Paulo, por analogia, aplica o vaticínio do profeta a uma parcela de judeus (remanescente fiel) que estava aceitando o evangelho naqueles dias, os quais eram testemunho de que a promessa de Deus não havia falhado, pois ela visava somente o verdadeiro Israel, aqueles que eram fiéis à promessa (Ver Gn 12.1-3; 17.19). A ideia passada tanto por Isaías como por Paulo é que sempre há um Israel dentro de Israel .

Paulo também usa a afirmação de Isaías que diz: “Ainda que os filhos de Israel sejam como a Areia do mar, o remanescente é que será salvo”. A partir desta afirmativa do profeta, Paulo explica que a rejeição de Israel é temporária e parcial, que por fim eles aceitarão a salvação em Cristo. Isso se dará na segundo vinda do Senhor, quando todos os judeus que estiverem vivos – o que Isaías chamou de remanescente – se converterão ao seu Deus (ver Zc 12.10-14).

2. O cumprimento das promessas de Deus. A real intenção de Paulo nos capítulos 9-11 de Romanos é mostrar que mesmo a crônica desobediência dos israelitas durante toda a sua história, bem como as consequentes provações e castigos por que passaram, não anularam a fidelidade de Deus. Muitos judeus da época podiam pensar que tudo o que fora anunciado sobre o futuro glorioso dos filhos de Abraão não passara de falácia. Mas Deus age na história, fazendo com os fatos e até mesmo os erros humanos venham a convergir para o cumprimento de suas promessas. Apesar de a rejeição de Israel e da inclusão dos gentios na família de Deus serem um fato consumado, a promessa feita ao patriarca Abraão, sob juramento (Gn 22.16; Hb 6.13), não falhou, ela se cumprirá no remanescente fiel.

CONCLUSÃO

Todos os profeta, Maiores e Menores, foram inspirados e usados pelo Espírito Santo, independente do volume do livro escrito por cada um deles. Somente pelo conhecimento do ministério destes santos homens, foi possível aos primeiros seguidores de Cristo a compreensão do plano de Deus relacionado a toda a sua criação, mediante a obra expiatória de Cristo.

A lua e a lembrança

Na falta de sono para dormir eu escrevo, ponho no papel tudo o que me passa na cabeça, não importa o tempo, o que aconteceu ou, penso, vai acontecer. Hoje, olho o céu de São Paulo, surpreendentemente iluminado, adornado de estrelas cintilantes que realçam a beleza da deusa lua, lua que não me é estranha, imagino já tê-la visto em algum outro lugar, bem distante daqui, alguma noite no céu pernambucano.

Naquela madrugada, acordei aturdido. O galo do vizinho cantava em alta voz. Era ele quem me acordava todas as manhãs no seu primeiro canto, dizendo que chegara a hora de pegar no batente. Saltei da cama com disposição à beça, abri a janela na lateral direita de casa e olhei o céu todo claro. Na rua ao lado, dava para ver as árvores mais distantes. Já havia pássaros cantando e cachorros latindo. “Meu Deus, o dia amanheceu, perdi a hora”, desesperei. Em fração de minutos, tirei a roupa quentinha que me aconchegara durante aquela noite e pus o andrajo do trabalho: calças, camisa e boné malcheirosos, endurecidos pelo mel da cana queimada. Nem lembro se comi alguma coisa. Devo ter comido.

Saí correndo, descalço, pela “Rua Q da Olaria”, levando comigo apenas a foice, semi-encabada, bem firme na mão para intimidar os vira-latas que, àquela hora, não pensavam duas vezes para morder. Aqui-acolá, uma daquelas pedrinhas pontiagudas me espetava os pés, mas já estava acostumado com tudo e, portanto, não esmorecia.

Precisava passar na casa de Severino, companheiro de todos os dias, acordá-lo com algumas batidas na porta e em seguida pegar a estrada de barro que ia em direção do Engenho São Carlos. Mais alguns passos e lá estava eu, esmurrando a porta do colega. “Severino, Severino, olha a hora”. A mãe dele veio atender e tentou me advertir de que havia alguma coisa errada. Estava certa de que havia acabado de deitar. Perguntou, com cara de espanto, qual era a hora. “O dia já está amanhecendo”, respondi. “Fale para o Severino se apressar, senão não vamos encontrar mais eito para o trabalho”, acrescentei. Dois ovos fritos, distribuídos em dois pãezinhos, ambos jogados no fundo de uma sacola plástica, e o companheiro já estava na rua, a caminho do trabalho.

Seguimos pela rodagem ladeada pelo canavial. O silêncio era assustador. Nenhum assobio, nenhuma daquelas cantigas que ouvíamos todos os dias caminho a fora, normalmente em grande grupo. Comecei, então, a perceber que havia algo errado. Severino, pusilânime, questionou-me por que há mais de uma hora eu dissera à sua mãe que o dia estava amanhecendo e até o momento a noite persistia. Àquela altura do caminho, eu já estava entendendo o que acontecera, mas procurei não esclarecer o engano. Não queria assustá-lo, pois era ainda muito menino, e eu poderia ter sérios problemas com ele naquelas estradas perigosas.  

Enquanto caminhávamos, eu tentava distraí-lo inquirindo sobre seus sonhos. Disse-me que queria ser um grande jogador de futebol um dia, tornar-se famoso, ganhar muito dinheiro e casar com uma mulher bonita. Mas eu não conseguia dar a atenção devida ao que Severino dizia. Estava grilado com o acontecido. Por que o galo, que durante anos havia-me despertado pontualmente, deixou-se enganar pela lua? Por que os pássaros cantavam como se celebrassem os primeiros albores da manhã? Iludiram-se também com a luz da lua ou foram ludibriados pelo cantar do galo? E os cachorros, por que latiam àquela hora, uma vez que costumavam latir apenas ao amanhecer quando os primeiros trabalhadores começavam a passar?

Chegamos finalmente ao canavial, mas o dia nem sonhava em nascer. Depois de permanecermos sentados debaixo dos pés de macaíbas à beira da estrada, ouvimos vozes de pessoas que vinham em nossa direção. Eram moradores do Engenho São Carlos que voltavam de um baile no Camela-futebol-clube, certamente embriagados. Não seria nada seguro permanecermos ali.

Entramos, encolhidos, no canavial fechado, molhados pelo orvalho, e conversamos por mais algumas horas, até que ouvimos o tropel da multidão que descia a ladeira, aproximadamente um quilômetro à frente. Era o povo que todos os dias vinha à labuta conosco, agora sim iluminado pelos primeiros raios do sol. Alentado, olhei para o horizonte e mostrei a Severino, em tom de gozação, a luz frouxa do sol que começava a brilhar no céu daquele dia. A lua que enganou o galo, e os pássaros, e os cachorros, e a nós também tinha finalmente se escondido. Rimos muito. E passamos o dia contando aos colegas de trabalho o ocorrido.

Não muito tempo depois, larguei a vida no canavial e vim para São Paulo. Muitos anos já se passaram, e eu nunca mais tive notícia de Severino. Talvez ainda esteja trabalhando no canavial e more na mesma cidade, na mesma casa, acredito que um pouco mais cauteloso com o cantar do galo. Mas ele pode também ter realizado o seu grande sonho, tornando-se um jogador de futebol. Pensando bem, Severino era tão frágil que talvez nem esteja mais do lado de cá da existência. Mas, caso esteja, em qualquer lugar em que se encontrar, à luz desta mesma lua, deve lembrar exatamente o que eu estou lembrando agora.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

VIVER DÓI

artigos | artigo cientifico
"Cara, nada garante!" foi a mensagem que passou para os telespectadores do Roda Viva o antropólogo Roberto da Matta quando questionado sobre a morte precoce de seu filho por infarto e o sofrimento da esposa acometida pelo mal de Alzheimer. Matta, um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade, arrumou-se na cadeira giratória do estúdio e argumentou que mais cedo ou mais tarde a vida acaba por desfazer a ilusão de que podemos ter o controle das coisas em nossas mãos.

Passei toda a semana pensando nas palavras do antropólogo. Imaginei que a batalha da maioria  das pessoas consiste na tentativa de manter as coisas sob  absoluto controle. Para isso,  confeccionam os mais variados recursos: dinheiro, posição social, influência, cartilhas de auto-ajuda e até a fé religiosa. Queremos que a nossa família se configure de acordo com o modelo que previamente idealizamos, com cônjuges sempre felizes, num relacionamento indissolúvel, e filhos que se tornem os adultos que esperamos - de preferência que escolham a mesma religião e profissão que escolhemos , casem-se, tenham filhos, fiquem por perto e sejam felizes para sempre. Queremos uma vida sempre saudável, com total ausência de doença, e para isso nos valemos dos extraordinários recursos que a ciência médica põe à nossa disposição para silenciar a dor. Queremos a prosperidade financeira a qualquer custo, para isso nos doamos ao trabalho intenso. E assim, formamos um verdadeiro ritual em torno da existência para prever e controlar as suas intempéries. Seguimos um ritual porque no ritual tudo é previsível. E as pessoas querem previsibilidade.

 Mas a vida é mestra em desfazer ilusões, para sorte ou azar nosso. Um dia você se surpreende com tudo funcionando diferente do previsível, e a frustração decorrente traz uma angústia insuportável. Isso porque o modo controlador de ser que caracteriza o homem moderno o acomete de uma baixíssima tolerância à frustração. E somente depois de muito sofrimento, de remar tanto contra a maré, a gente acaba percebendo que não dá conta mesmo, que as condições impostas pela vida, exasperadas pelas exigências da sociedade hodierna,  estão além da capacidade do homem real e termina aceitando que  a vida acontece, independente de tudo e de todos. Não adianta tentar domesticá-la, prendendo-a  numa gaiola, porque ela vai se rebelar mais cedo ou mais tarde, porque ela é selvagem. Como na cancão do Vinícios, a vida tem sempre razão.

O patriarca Jó passou todos os seus dias tentando trazer sua vida sob absoluto controle. Tentava  proteger os bens com guardiões, e os filhos com jejuns e orações prolongados, para que a Divindade os protegesse.  Depois de ver tudo avassalado pela surpresa de uma grande desgraça, Jó chegou à seguinte conclusão: " O que eu temia me veio, e o que receava me aconteceu". Tal como o antropólogo referido no início desse texto, o patriarca  percebeu que não podia controlar tudo o tempo todo e que o escudo da fé às vezes é vazado. Muitas pessoas ainda agem assim: pensam a fé como um escudo hermético contra todas as intempéries que são inerentes à vida. Até suas orações são motivadas pelo medo.

Mas viver dói. Dói pela incerteza do lugar incerto e perigoso onde vivemos. Como diria um poeta do rap, "isso aqui é um campo minado", e a gente não sabe qual pisada será fatal. Mas a gente sabe que precisa pisar neste chão, que é o único que temos, mesmo sabendo que há  incontáveis perigos à espreita. É duro  abrir o jornal todos os dias, ver a TV e ouvir o rádio a cada manhã e ver os grandes distúrbios sociais, a grande violência urbana, com a criminalidade crescente, tudo isso acrescido dos riscos de acidentes, tanto de caráter natural como os de resultado da imperícia e imprudência humanas. E nós, naturalmente, nos encolhemos com medo de enfrentar porque esconder-se atrás de mecanismos de defesa é mais fácil e menos desconfortável. E cada um procura adequar-se à situação e se virar como pode. Os mais abastados utilizam os  dispendiosos recursos que são vendidos como meio de se obter um pouco de segurança: os carros são blindados, os muros das casas são alteados, cercas elétricas e censores instalados, cães ferozes vigiam. Os menos favorecidos apelam para Deus, para os espíritos, os santos e tudo mais que a indústria religiosa dispõe.  Neste clima de insegurança e medo, o terreno se torna fértil para a proliferação das mais diversas ofertas de proteção – seguradora, escolta armada, segurança pessoal e eletrônica, correntes de oração,corpo fechado, etc. Tem até a oferta de proteção de um anjo para o devoto pobre. Todavia, a julgar pelo caos social e emocional em que  a população se encontra, toda a produção de recursos em matéria de segurança se  tem mostrado ineficaz para trazer tranquilidade às pessoas, pelo contrário, tem clarificado mais ainda o clima de medo e desespero.

É o medo que nos leva a querer trazer tudo sob rédeas curtas e ritualizar a vida para que ela fique previsível. Outro dia, assisti o filme "O Buraco", que conta a história de três adolescentes que encontraram no porão de sua nova morada  um buraco mágico, o qual tinha o poder de potencializar e materializar seus medos. A partir do achado, a maneira como a vida deles passou a acontecer era uma reprodução de seus temores. Pois é, o que vemos acontecer na sociedade em geral é reprodução de temores que acometem os indivíduos que a compõem, o medo que potencializa o espectro do mal, e o mal potencializado gera ainda mais medo, num ciclo vicioso. Não que seja errado querer proteger, prever e controlar, não que a gente vá se atirar num abismo sem fundo e se render irremediavelmente à sorte, estou apenas argumentando que quando essas preocupações ultrapassam o limiar, viram doença. Refiro-me a essa preocupação doentia a fim de dizer que a sociedade está doente pelos seus medos.

Por medo, nós:

Construímos muros / e nos fechamos para a experiência.
Destruímos pontes e nos tornamos inacessíveis.
Eletrificamos as cercas ao redor de nós e ficamos intocáveis.
Blindamos a passagem para o nosso interior / e ficamos "inafetáveis".

E assim fechamos as portas para a grandeza do potencial que há em nós, num processo de adoecimento que impede até mesmo Deus de agir em nosso favor. Não podemos esquecer as palavras do Mestre: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo" (Ap 3.20). Notemos que Jesus disse que bate, ele não disse que primeiro se identifica. A minha hermenêutica parece pertinente, ele pode bater e não dizer nada, exigindo do outro lado coragem para abrir e perceber, surpreso, que é o Mestre.  Um professor sugeria que deixássemos a porta sempre entreaberta, que nem a escancarássemos nem a trancássemos. Ele sabia que o medo doentio cerra a entrada da vida, diferente do cuidado saudável, que não escancara, mas deixa a porta entreaberta. Quem fecha totalmente a porta por medo do mal, tranca-a também para a entrada do bem, porque a vida é assim, um estado que varia de hora em hora destinado a gerar crescimento.

Abrir a porta é interagir com a vida, é estar aberto para múltiplas possibilidades, e é aqui que reside a grandeza da existência,  nessa interação com a vida em sua plenitude. Como contraproposta ao conforto do isolamento, a vida oferece o crescimento da exposição, da incerteza dos que já perceberam que nada garante absolutamente.  Foi isso que Jó compreendeu quando, depois da experiência amarga que passou, disse a Deus: “Antes eu ouvia falar de ti, mas agora te veem os meus olhos”. Foi isso que Matta aprendeu com sua experiência amarga. O crescimento é mais importante que o conforto.

Finalizando, a vida humana reside neste tripé: relacionamento, comunicação e movimento. Se faltar uma das pernas, o crescimento é bloqueado e a vida adoece. Então não deixe que o medo doentio impeça seu crescimento, movimente-se, saia da caverna e reconstrua a ponte da acessibilidade, derrube os muros e se exponha à existência, tire a blindagem e permita-se ser afetado, remova a cerca eletrificada e deixe-se ser tocado, abra a porta da casa e BEM VINDO à exuberância da vida. Solte o grito preso na garganta e diga: Estou vivo.

sábado, 14 de maio de 2011

Assembleia de Deus, Cem anos de Pentecostes

1. OS PRIMÓRDIOS DE UMA GRANDE OBRA

1.1 O Movimento da Fé Apostólica. A fundação da igreja Assembleia de Deus no Brasil contextualiza-se no Movimento da Fé Apostólica, iniciado nos EUA no século dezenove por Charles Parham. Este jovem evangelista, cansado do tradicionalismo da igreja de então e despertado pela ação do Espírito Santo, começou a aspirar por uma igreja restaurada aos padrões da igreja primitiva. A partir daí, começou a pregar entusiasticamente, e entre os seus temas preferidos, constavam a experiência do batismo com o Espírito Santo, com a evidência inicial do falar em línguas, e a cura divina. A influência de suas mensagens espalhou-se em várias regiões dos EUA, atraindo adeptos proeminentes à causa do pentecostalismo e mudando definitivamente a configuração da forma de viver a fé daqueles dias.

Conforme exposto por Araújo (2007), Parham proclamava sua mensagem onde quer que tivesse oportunidade: em lares, escolas e igrejas. A maior parte de seu dia e de seus alunos era preenchida por estudos de passagens bíblicas, orações e rogos a Deus para que se cumprisse o conteúdo escriturístico em suas vidas. A ênfase estava na visão do Novo Testamento, o que Parham considerava tratar-se da fé apostólica, mormente na experiência pentecostal de Atos 2. Em janeiro de 1901, após terem buscado a promessa pentecostal com afinco, os seguidores de Parham começaram a falar em outras línguas. Estes alunos, entusiasmados com a experiência arrebatadora da glossolalia, espalharam-se por toda parte, anunciando a mensagem que eles consideravam a restauração da dimensão da fé apostólica. A mão de Deus começou a operar sinais e prodígios, na media em que aqueles crentes anunciavam a atualidade dos dons do Espírito Santo, como aconteceu com Mary arthur, uma doente crônica, que fora curada pela intercessão de Parham. O milagre abriu uma larga porta para este em Galena, lugar onde a senhora curada residia.

A partir da porta que se abriu em Galena, o ministério de Parham caiu na graça do povo, tanto de galenenses como de moradores de cidades circunvizinhas, e milhares de almas se convertiam ao Senhor, e muitos milagres de cura aconteciam.

Em 1905, em companhia de um pregador metodista, Parham fundou uma escola bíblica que formaria uma série de ministros, os quais se tornariam proeminentes no movimento pentecostal, entre eles, Wlliam Seymour, que levaria o movimento para Los Ângeles, o que culminou com o histórico Avivamento da Rua azusa em 1906. Araújo refere-se a explosão do Movimento da Fé apostólica da seguinte dizendo que O movimento espalhou-se rapidamente nas áreas próximas de Kansas, Missouri e Oklahoma. Por volta de 1905, Parham estava no sul do Texas, onde ele iria ter um de seus mais espetaculares sucessos (Araújo, 2007, p. 600).


1.2 O Avivamento da Rua Azusa. O pastor Emílio Conde, na obra que traz a história da Assembleia de Deus, ressalta que “ os historiadores que se ocupam do avivamento Pentecostal no século 20 são unânimes em mencionar a rua Azusa, em Los Angeles, como o centro irradiador de onde o avivamento se espalhou para outras cidades e nações” (Conde, 2000, p. 21).

Já dissemos que entre os alunos da Escola Bíblica fundada por Parham em Ouston estava William Seymour. Este, tendo sido impactado pela mensagem do Movimento da Fé Apostólica, recebeu o convite para levar a mesma mensagem a Los Angeles. Seymour, ainda que contra a vontade de seu mestre, atendeu imediatamente o chamado e, em Los Angeles, além de continuar com o mesmo propósito do Movimento que o contagiou, qual seja: anunciar a restauração da fé que uma vez foi dada aos santos, a unidade cristã, a santificação e o batismo no Espírito Santo com a evidência inicial do falar noutras línguas, Seymour adotou o mesmo nome do Movimento referido: Movimento da Fé Apostólica. Então o movimento que chegou em Los Angeles era o mesmo começado pelo metodista Parham em Kansas, que agora havia chegado a um cantinho de Los Angeles, na Rua Azusa, 312. As manifestações espirituais ocorridas ali entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que tornou-se um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).

Em resposta às orações sinceras dos que ali se congregavam, Jesus começou a batizar crentes com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o avivamento outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com Deus, outros eram apenas curiosos.

Em Azusa, os cultos eram longos e, de forma geral, espontâneos. Nos seus primeiros dias, a música era à capela, embora um ou dois instrumentos fossem tocados. Os cultos incluíam cânticos, testemunhos dados por visitantes ou lidos daqueles que escreviam para a Missão, oração, momento de apelo para pessoas aceitarem a Cristo, apelo à santificação ou ao batismo no Espírito Santo, e, obviamente, pregação. Os sermões normalmente não eram preparados antecipadamente e eram tipicamente espontâneos (…). A oração pelos enfermos era também uma parte frequente nos cultos. Muitos gritavam. Outros ficavam “rindo no espírito” ou “caídos no poder” Algumas vezes havia momentos de prolongado silêncio ou de cânticos em línguas (…). (Araújo, 2007, p. 605).


1.3 Avivamento em Chicago: as chamas de Los Angeles se espalham


De Azusa Street, as chamas do avivamento se espalham por várias cidades, Pensilvânia, Nova Iorque, Ohio e Chicago. Esta última, considerada a segunda cidade da América do Norte, foi intensamente incendiada pelo fogo pentecostal a partir do avivamento deflagrado em Los Angeles (Araújo, 2007).

O grande diferencial do avivamento de Chicago é que todas as denominações aceitaram a mensagem pentecostal. Por conta disso, ministros, pastores de várias denominações, de regiões circunvizinhas, acorriam a Chicago a fim de receberem a efusão do Espírito Santo. Entre estes pastores, destaca-se o nome Gunnar Vingren, da igreja batista sueca do Michigan, o qual, em 1909, em visita a Chicago, recebeu o batismo no Espírito Santo.

Mais tarde, Gunnar Vingren, numa convenção de igrejas batistas, em Chicago, conheceria outro sueco, Daniel Berg, que também havia sido batizado no Espírito Santo, encontro que mudaria a vida de ambos para sempre. No ano seguinte, os dois viajariam para o Brasil com missionário. É aqui, com a vocação destes dois homens, que começa a História das Assembleias de Deus no Brasil, cujo centenário estamos a comemorar.


2. O CHAMADO MISSIONÁRIO DOS PIONEIROS


2.1 Daniel Berg e sua experiência pentecostal. Filho de pais batistas, Daniel Berg nasceu na pequena cidade de Vargon, na Suécia. Tinha 15 anos de idade quando converteu-se ao evangelho e recebeu o batismo em águas na igreja Batista. Em 1902, grandes dificuldades econômicas na Suécia levaram Daniel Berg a deixar seu país e rumar para os Estados Unidos, mais precisamente para a cidade de Boston. Durante os sete anos em que permaneceu na América, Berg viajou por várias cidades estado-unidenses e reviu muitos de seus patrícios que, como ele, haviam fugido da grande depressão financeira sueca. Primeiramente trabalho numa fazenda, depois especializou-se como fundidor.

Em 1909, resolveu voltar para seu país, a fim de rever os pais. Na sua cidade natal, ao procurar seu melhor amigo de infância, Lewis Pethrus, foi informado pela mãe deste que o mesmo estava morando em outra cidade, onde exercia um poderoso ministério de pregação da Palavra. Soube também que Pethrus havia recebido o batismo com o Espírito Santo, o que era novidade para os crentes suecos daquela época. Resolveu, então, visitar o amigo. Ao chegar à igreja Batista de Lidkoping, encontrou-o pregando entusiasticamente a “nova” doutrina pentecostal, e Daniel mostrou-se favorável a ela. Após conversar longas horas com o amigo sobre o assunto, despediu-se dele e voltou para a casa dos pais, de onde, poucos dias depois, viajaria novamente para os Estados Unidos. Na viajem de volta à América, orou insistentemente, pedindo a Deus o batismo com o Espírito Santo. “Ao aproximar-se das pragas norte-americanas, sua oração foi respondida. A partir de então sua vida mudou. Daniel passou a pregar mais a Palavra de Deus e contar seu testemunho a todos” (Araújo, 2007, p. 123).



2.2 Gunnar Vingren e sua experiência pentecostal. Sueco, filho de um jardineiro, Gunnar Vingren nasceu em Ostra Husby, Ostergotland, em 8 de agosto de 1879. Foi instruído desde cedo nas Sagradas Escrituras, sendo que frequentava assiduamente a Escola Bíblica Dominical de sua igreja, da qual o pai era dirigente. Porém aos doze anos , deixou a igreja e permaneceu afastado até os 17 anos, quando outra vez foi chamado por Deus em um culto de vigília de ano novo. No ano seguinte, recebeu o batismo em águas, quando substituiu seu pai na direção da Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista.

Vingren, desde muito cedo, mostrou propensão para a obra missionária, tanto que, ao se informar sobre as necessidades de tribos nativas no exterior, chorava abundantemente, e um dia prometeu a Deus pertencer-Lhe e por-se sempre à sua disposição. Em outra oportunidade, entregou tudo o que tinha como oferta para ajudar um evangelista que seria enviado para a obra missionária. Logo em seguida, ao voltar para casa, ouviu a voz de Deus lhe falar que ele também seria enviado (Araújo, 2007).

Em 1903, Vingren mudou-se para os Estados Unidos, atraído pelas oportunidade que o país da América proporcionava a jovens como ele. O jovem sueco desembarcou em Boston, depois seguiu de trem até Kansas City, à procura da residência de um tio, onde se estabeleceu. Enquanto morou em Kansas, Vingren congregou na igreja Batista sueca dali, e chegou a trabalhar em funções como foguista, porteiro e jardineiro. Mudo-se para Chicago, a fim de ingressar no Seminário Teológico Batista, de onde pavimentou o caminho para a Universidade da mesma igreja. Os estágios da universidade lhe abriram as portas para pregar em congregações Batista de várias cidades, chegando mesmo, no último estágio, a atuar como pastor em Mountain, Michigan. Terminada a faculdade teológica, assumiu o pastorado da Primeira Igreja Batista em Menominee, Michigan, até o início de 1910. Neste interregno, Vingren começou a sentir forte desejo de se encher do Espírito Santo, foi quando viajou para Chicago, a fim de participar da conferência da Primeira Igreja Batista Sueca em Chicago, ocasião em que foi batizado com o Espírito Santo.


2.3 O encontro em Chicago e a chamada para o Brasil. Já batizados com o Espírito Santo e inflamados pelo ardor missionário, Daniel Berg e Gunnar Vingren se conheceram durante uma convenção de igrejas batistas em Chicago no ano de 1909. Foi, sem dúvida, um encontro providenciado por Deus. Os dois trocaram informações e experiências por vários dias, tempo em que se conheceram melhor e revelaram, um ao outro, as próprias aspirações e paixão pela obra de Deus. Até o ano seguinte, Daniel continuou trabalhando em Chicago, numa quitanda, enquanto Vingren pastoreava a Igreja Batista Sueca de South Bend, Indiana. Naquele mesmo ano, o Espírito Santo orientou Daniel Berg a mudar-se para South Band e procurar o pastorVingren. “Irmão Gunnar”, disse Daneil, “Jesus ordenou-me que eu viesse me encontrar com o irmão, para, juntos, louvarmos o seu nome”, ao que Vingren respondeu:”Está bem” (Araújo, 2007, p. 900).

Foi Vingren quem primeiro recebeu a revelação de Deus sobre sua ida ao Brasil, isso  por meio de Adolf Uldin, membro da mesma Igreja Batista (Araújo, 2007). Porém, em um sábado à tarde, em companhia de Daniel, vai  visitar Uldine. Ali, em oração, o poder de Deus se manifestou mais uma vez sobre este último e ele revelou a chamada de Daniel para acompanhar Vingren. Saindo dali, os dois amigos continuaram orando por direção divina, até que lhes foi revelado que deveriam deixar Nova Iorque com destino ao Pará no dia 05 de novembro de 1910.


3. A VIAGEM AO BRASIL E A FUNDAÇÃO DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS


3.1 A viagem a bordo do navio Clement. Inflamados pelo ardor missionário, Daniel Berg e Gunnar Vingren, decididos a atender ao chamado divino, preparam-se para a viagem ao Brasil. O primeiro abandonou o emprego numa quitanda em Chicago e o segundo renunciou ao pastorado da igreja Batista de South Bend. Ao se despedirem da igreja, esta os ajudou com uma oferta que deu para comprar as passagens de ambos até Nova Iorque e, sob a oração dos fiéis, foram em direção ao desconhecido. Saíram na total dependência de Deus, como observado por Conde:

Quando lá chegassem [em Nova Iorque], eles não sabiam como conseguiriam dinheiro para comprar mais duas passagens até o Pará. Porém esse detalhe não os abalou em nada nem os deteve em Chicago à espera de mais recursos. Tinha convicção de que haviam sido convocados por Deus. Portanto, era de total responsabilidade e especialidade de Deus fazer com que os recursos materiais inexistentes necessários à viagem surgissem (Conde, 2000, p. 24).

Em Nova Iorque, o Senhor Jesus usou um comerciante que já conhecia gunnar Vingren para que enviasse uma oferta de noventa dólares ao amigo. O comerciante ia enviar o dinheiro a Chicago, pois não sabia que Vingren estava em Nova Iorque, e qual não foi a sua surpresa quando, em uma das ruas movimentadas dessa metrópoles, dá de cara com o amigo. Noventa dólares era a quantia exata de duas passagens para Belém do Pará na terceira classe do navio Clement. Deus estava confirmando sua vontade na vida dos dois missionários.

No dia 5 de novembro de 1910, os dois missionários embarcaram no navio Clement rumo ao Brasil, mais precisamente Belém do Pará, para uma viagem que duraria 14 dias, tempo suficiente para que eles evangelizassem os tripulantes e passageiros, chegando mesmo a ganharem dois deles para Cristo, com os quais trocariam correspondência posteriormente.

3.2 A chegada ao Pará e a doutrina pentecostal. Em 19 de novembro de 1910, Daniel Berg e Gunnar Vingren pisaram em solo brasileiro. Não entendiam nada da Língua Portuguesa, apenas lembravam que se tratava do mesmo idioma falado por Adolfo Uldin quando este fora usado por Deus para anunciar a chamada de Vingren ao Pará. Seguiram alguns passageiros até à cidade. Mais tarde, enquanto descansavam em um parque, encontraram uma família que tinha viajado com eles e que falava inglês, a qual os levou para o hotel onde estavam hospedados. No hotel, foram informados sobre o pastor metodista Justus Nelson, que era americano, a quem procuraram e encontraram depois de muitas dificuldades. Nelson, informados de que eram crentes batistas, conduziu-os até a Igreja Batista de Belém e os entregou ao pastor daquela igreja, Jerônimo Teixeira de Souza, que falava bem o Inglês. Comunicaram ao dileto pastor suas dificuldades financeiras de moradia no hotel onde estavam e foram convidados por Jerônimo a morarem em sua casa por um preço simbólico. As instalações disponíveis não eram nada confortáveis, mas a necessidade falou mais alto e os dois missionários aceitaram residir em um porão.

Um dos grandes desafios que Berg e Vingren teriam que enfrentar era aprender falar o Português, ainda mais porque não tinham recursos financeiros suficientes para custear aulas para os dois. Tiveram então uma ideia: Berg arrumou emprego de fundidor e começou a custear as aulas do companheiro. Enquanto um trabalhava, o outro estudava. À noite, quando Berg chegava em casa, Vingren lhe ensinava o que havia aprendido. Dessa forma, conseguiram aprender rapidamente o idioma.

2.2.1Celina alburqueque, primeira experiência do batismo pentecostal em solo brasileiro. A despeito da forte oposição de alguns, os missionários continuaram a pregar com unção, eloquência e oração constante. Como resultado o, o poder de Deus começou a se manifestar e o Espírito Santo a trabalhar nos corações de alguns irmãos , os quais creram na verdade do evangelho completo e começaram a buscar o batismo com o Espírito Santo. Entre os primeiros que creram estavam as irmãs Celina Albuquerque e Maria de Nazaré. A primeira, que tinha uma enfermidade nos lábios, o que a impedia de frequentar os cultos na igreja, fora curada por meio da oração de Gunnar Vingren e tornou-se figura histórica por ser a primeira pessoa a ser batizada com o Espírito Santo em solo brasileiro. A segunda, Maria de Nazaré, era companheira de oração da irmã selina e foi a segunda pessoa que experimentou a experiência de falar línguas espirituais.


Emílio Conde conta os fatos que sucederam a esperiência da irmã Celina de maneira que vale a pena registrar aqui:

Logo que amanheceu, a irmã Nazaré apressou-se em ir à casa de João Batista de Carvalho, na Avenida São Jerônimo, 224, para contar as boas novas de que Celina Albuquerque recebera a promessa. Na casa de João Batista, achavam-se reunidos vários irmãos, entre eles Manoel Rodrigues,que até então era diácono da igreja Batista. Mais tarde, o irmão Manoel testemunharia: “Foi naquele momento que passei a crer no batismo do Espírito Santo”.
O acontecido recebeu imediata divulgação. Na igreja Batista, alguns creram, porém outros não se predispuseram a sequer a compreender a doutrina do Espírito Santo, portanto dois partidos estavam criados.
Durante o culto realizado à noite daquele mesmo dia, o ambiente antes só dedicado a louvores a Deus e à pregação de sua Palavra, foi transformado em verdadeiro campo de batalha, com muitas disputas de pontos de vista e duelo de palavras. Alguns crentes, aferrados a um tradicionalismo sem qualquer base bíblica, ameaçavam exaltadamente punir , castigar ou desprezar os partidários da doutrina que tanto caracterizara a Igreja Primitiva e os grandes avivamentos que se sucederam.
Após o culto, vários irmãos resolveram ir à casa da irmã Celina para verificarem pessoalmente o que estava acontecendo. Entre aqueles que foram à Rua Siqueira Mendes, encontrava-se José Plácido da Costa, Antônio Marcondes Garcia e esposa, Antônio Rodrigues e Raimundo Nobre (Conde, 2000, p. 31).

3.3 Nasce a Assembleia de Deus. As experiências pentecostais com línguas estanhas, hinos espirituais e curas era algo que soava muito esquisito para a igreja da época. Reuniam-se os irmãos na casa dos missionários para buscarem ao Senhor em oração e o movimento que provocavam, apesar de ser em local bem reservado, atraía a atenção também de alguns crentes refratários ao novo movimento, gerando muitas discussões. Por conta disso, a Igreja Batista de Belém entrou em efervescência. Na época, a igreja estava praticamente sem pastor e  um obreiro chamado Raimundo Nobre tomou a dianteira do trabalho e propôs uma reunião extraordinária para o dia 13 do mesmo mês, quando aconteceria a cisão definitiva.

A reunião decisiva do dia 13 aconteceu debaixo de ataques de ambos os lados. Raimundo Nobre, que arbitrariamente assumira o púlpito da igreja, disparou contra os “hereges do falso movimento”. O grupo atacado reage com a leitura de Atos 2 e com línguas estranhas faladas principalmente pela irmã Celina. Era uma celeuma total e a sessão se tornou inviável. Foi quando Raimundo Nobre desafiou a todos que se posicionassem em um dos lados. Deveriam ficar de pé todos os que estavam de acordo com a nova seita. Apesar de a esmagadora maioria ser favorável à doutrina pentecostal, apenas dezoito pessoas se levantaram e foram imediatamente excluídos da igreja. Estes irmãos saíram então da Igreja Batista para nunca mais voltar. Isto aconteceu no dia 13 de junho de 1911. *

O pequeno grupo excluído, no dia 18 se junho de 1911, convidou Daniel Berg e Gunnar Vingren a comparecerem à Rua Siqueira Mendes, 67, em Belém. E assim, com 20 pessoas, incluindo-se os dois missionários, reunidas na casa da irmã Celina, fundava-se, o Movimento da Fé Apostólica, que viria a ser registrado oficialmente como Sociedade Evangélica Assembleia de Deus em 11 de janeiro de 1918.


Nos dias que se seguiram, os inimigos do Movimento Pentecostal fizeram de tudo para sufocar a recém-criada igreja, mas a mão de Deus estava sobre ela. Fecho este tópico com o belo relato de Emílio conde sobre as perseguições contra os pentecostais.

"Os acontecimentos que culminaram com a fundação das Assembleias de Deus repercutiram profundamente entre várias denominações evangélicas. Porém, o que sacudiu mais fortemente os chamados crentes históricos foi a atividade eu zelo dos membros da igreja recém-formada. O medo de que a Assembleia de Deus viesse a absorver as demais denominações fez com que estas se reunissem para combater o movimento pentecostal (…).
(…) Alguns ingênuos dispuseram-se a combater o Movimento Pentecostal em seu nascedouro. Para alcançarem esse intento, não escolhiam os meios: calúnia, intriga, delação e até agressão física, tudo era válido. Tudo era usado contra a igreja que acabava de iniciar suas atividades. Chegaram, inclusive, a levar aos jornais a denúncia de que os pentecostais eram uma seita perigosa, tendo como prática o exorcismo. Enfim, alarmaram a população.
Recebendo o violento artigo contra a Assembleia de Deus, A Folha do Norte, antes de publicar, enviou um repórter disfarçado para averiguar o que realmente acontecia nos cultos pentecostais. O repórter, para causar sensação, endossou os termos do artigo, cujo único objetivo era desmoralizar o trabalho do Senhor. A matéria, todavia, acabou por atrair numerosas pessoas para os cultos da nova igreja. Não poderia haver propaganda melhor.
Por fim o citado repórter resolveu agir com imparcialidade (…) e estão aqui as suas reais impressões acerca dos cultos promovidos pela Assembleia de Deus: “Nunca vi uma reunião tão cheia de fé, fervor, sinceridade e alegria entre os crentes”. Essa confissão repercutiu como dinamite entre as denominações históricas. Daí em diante, todos queriam ver o que estava acontecendo; iam, vinham, ficavam e confessavam que Deus, realmente , estava operando entre os pentecostais" (Conde, 2000, p. 34).


4. AS CHAMAS SE ESPALHAM POR TODO TERRITÓRIO NACIONAL


A nova igreja crescia vertiginosamente com o trabalho incansável dos fiéis. Como informa Conde (2000), os crentes eram como uma colmeia de atividade evangelizadora, em que cada membro era um evangelista a testificar a parentes e amigos. Todavia o trabalho estava estabilizado no Pará. Parecia a repetição do que acontecera com a Igreja Primitiva, quando os discípulos do Mestre, apesar de ter recebido a ordem de evangelizar o mundo inteiro, não se ausentavam de Jerusalém.

Gunnar Vingren se encaregou do pastoreio da igreja, enquanto que Daniel Berg se dedicava intensamente ao trabalho de colportagem. Enquanto vendia Bíblias e evangelhos pelas ruas de Belém, evangelizava e visitava casa por casa “e todos os dias, acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Mas e o restante da nação? Como alcançar as extremidades de um país tão vasto como o nosso? A igreja precisava urgentemente de reforço, de homens preparados, abalizados para traçarem estratégias, planejarem rotas de evangelização e que ajudassem os missionários à frente da obra.

Deus novamente tomou providência. Quando os cristão estacionaram em Jerusalém, Ele permitiu que uma grande perseguição os dispersasse, quando a comunidade cristã brasileira patinava no tradicionalismo religioso, Ele inquietou dois missionários pentecostais para nos trazerem as chamas do Espírito Santo, quando parecia que essa chama ia circunscrever-se à Belém do Pará, o Dono da obra começou novamente a inquietar gente de longe. Outros missionários estrangeiros começaram a chegar para fomentar o trabalho. Otto e Andina Nelson, Samuel e Lina Nystron, Frida Vingren, Joel Carlson são todos nomes que se acham no rol de figuras históricas da Assembleia de Deus.

A igreja foi se organizando, ordenando pastores e evangelistas, os quais se juntaram a missionários estrangeiros e, impelidos pelo ardo do Espírito, começaram a levar a massagem completa do evangelho a outros Estados, esforço que culminaria com a fundação de igrejas em todas as regiões do país.

À medida em que a obra ia crescendo, mais missionários chegavam de vários países, suecos, noruegueses, finlandeses e norte-americanos, alguns deles eram mestres na doutrina bíblica e se encarregaram de promover o desenvolvimento doutrinário da igreja neonata. Desenvolveram as lições bíblicas da Escola Dominical, além de periódicos como O Mensageiro da Paz, hinários como Cantor Pentecostal, Harpa Cristã, e publicaram livros e folhetos evangelísticos. Em 1940, funda-se-ia a Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Destacam-se aqui os nomes Frida Vingren, Samuel Nystron, Otto Nelson, Nels Nelson, Joel Carlson, Eurico Bergstém, Orlando Boyer, N. Lawrence Olson, Bernhad Johnson, dentre outros.

Nos dias atuais, pode-se fazer um balanço das conquistas das Assembleias de Deus usando as palavras do pastor Elienai Cabral*: A igreja chegou ao seu primeiro centenário apresentando crescimento vertiginoso, consolidando-se como a maior expressão do pentecostalismo brasileiro. Numa estimativa feita em 2005, com bases em números do Censo Brasileiro, divulgada no jornal Mensageiro da Paz, as Assembleias de Deus teriam chegado a 20 milhões de fiéis espalhados por todo o país em 2010, e representariam 40% dos evangélicos brasileiros ao completar cem anos de fundação. São mais de trinta mil pastores, mais de seis mil igrejas-sede, mais de 2 mil missionários, milhares de obreiros e mais de 100 mil locais de culto nos mais de cinco mil municípios brasileiros.



CONCLUSÃO

Comemorar o Centenário das Assembleias de Deus no Brasil é louvar ao Senhor Jesus pela sua bondosa providência, é homenagear os pioneiros que se doaram à obra missionária, bem como a tantos outros bons obreiros que a eles sucederam, é aludir à maior expressão do pentecostalismo brasileiro, aos seus 20 milhões de fiéis, incluindo mais de trinta mil pastores, 20 mil missionários e milhares de obreiros, além da multidão de salvos que já partiram para o Senhor e aguardam a Primeira Ressurreição. De fato, “a porta que se abriu nunca mais fechou / Deus multiplicou o seu rebanho”.


Bibliografia

Bíblia de Estudo Pentecostal / CPAD.

Conde, Emílio. História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.
Araujo, Isael de. Dicionáio do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
Lições bíblicas O Movimento Pentecostal, CPAD, 2° trimestre de 2011.