sexta-feira, 20 de abril de 2012

Guia de seitas e religiões

Resenha

Guias de seitas e religiões, uma visão panorâmica é de autoria de Bruce Bickel e Stan Jantz, com participação especial do dr. Craig Hazen, foi publicado originalmente em 1952, com o título em Inglês Bruce & Stand' Guide to Cults, Religious, and Spiritual beliefs, e publicado no Brasil pela CPAD.


RESUMO

Trata-se de um livro de Religiões Comparadas, com a síntese das principais religiões, seitas e crenças espirituais do mundo, todas classificandas conforme similitudes e diferenças em quatro grupos: 1)Religiões Monoteístas; 2)Crenças mescladas; 3)Religiões filosóficas e 4) Crenças ateístas. O capítulo que encerra o livo - Paticando sua religião - consiste em orientações ao leitor. Todo o conteúdo se distribui em 12 capítulos correspondentes aos nomes das religiões apresentadas pelos autores. No final de cada capítulo, é feito um contraste entre as principais doutrinas apresentadas com a Bíblia sagrada e sugerida uma série de obras sobre a religião abordada para o leitor que porventura queira se aprofundar no assunto.

Na primeira parte estão as três grandes religiões monoteístas: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Sobre o Cristianismo, primeiramente são mostradas algumas de suas similitudes e diferenças em relação às outras religiões, principalmente em relação às outras duas grandes religiões monoteístas. O que as três tem em comu é que são monoteístas e têm um ancestral bem comu, Abraão. Porém o grande difeencial do Cristianismo é o fato de que o seu fundador, Jesus Cristo, é reconhecido como o Filho de Deus, totalmente igual a Deus. Como os autores são cristãos, este capítulo é uma verdadeira apologia ao Cristianismo, começando com o enaltecimento de seu fundador e a defesa de suas doutrinas basilares.

O Judaísmo é a segunda religião monoteísta tratada aqui. A origem desta religião remonta ao patriarca Abraão, cuja história está registrada no primeiro livro da Bíblia. Abraão deixou sua terra idólatra e politeísta, na Mesopotâmia, para servir a um único Deus numa terra a ele prometida por esta Dividade, na Palestina, onde seria ricamente abençoado e pai de multidões. Dos seus descendentes faria parte o Messias, promessa também feita a Abraão no Gênesis e cujo cumprimento os judeus ainda estão esperando. Partindo da origem desta religião, temos uma visão panorâmica de toda a sua história, passando pela instituição das leis e tradições que a fundamentam, principalmente Os Dez Mandamentos que, segundo a Bíblia, foram ditados pelo Próprio Deus a Moisés, o grande legislador de Israel. Estas leis e tradições estão compiladas na principal literatura do judaísmo, a Torá. Como as demais grandes religiões, o Judaísmo também sofreu algumas divisões e, por isso, apresenta na atualidade várias facções, sendo as principais: os judeus ortodoxos, os judeus reformistas e os judeus conservadores, cada uma com suas peculiaridades, todas bem discriminadas pelos autores. No fechamento deste capítulo, há uma síntese das principais crenças do Judaísmo sobre Deus, a humanidade, pecado, moral, adoração e salvação.

O Islamismo aparece por último neste grupo monoteísta.. A forma de abordagem neste capítulo é similar aos dois anteriores. A história desta religião é remontada à Arábia Saudita do século 7, onde nascera seu fundador, Maomé. Nascido em um família aristocrata, ficou órfão logo cedo e, após ter perdido também o avô, foi morar com um tio, por meio de quem Maomé poderia ter desenvolvido alguma sensibilidade espiritual. Os habitantes da região onde Maomé cresceu adoravam vários deuses, apesar da presença considerável das religiões judaica e cristã naquela localidade. Segundo a tradição, Maomé teria-se casado com uma comerciante e foi morar em Meca, onde se desiludiu com as práticas politeístas e idólatras. Um dia, Maomé estava assentado numa caverna quando o anjo Gabriel teria aparecido para ele e lhe entregado uma visão de Alá (Deus para os islâmicos). Dois anos após receber as revelações, Maomé recitou-as aos seu discípulos que as escreveram e compilaram num livro chamado Alcorão, a principal literatura do Islamismo. A persistente disseminação das revelações de Maomé faria do Islamismo a segunda maior religião do mundo na atualidade.

Na parte dois, são apresentadas as crenças mescladas. Os autores as denominam assim porque são segmentos religiosos que pegam alguns princípios do Cristianismo e, a seguir, mesclam com algumas crenças próprias, distintas e divergentes da doutrina cristã tradicional. Depois de uma introdução em que diferenciam seita de facção e mostram dez características que identificam uma seita, Bickel e Jantz apontam três segmentos religiosos se encaixariam nas características de uma seita: Mormonismo, Testemunhas de Jeová e Ciências da Mente.

Para falar sobre os mórmons, a metodologia da abordagem segue como na primeira parte, quando se discorreu sobre as religiões monoteístas. Primeiro temos uma breve história da igreja dos mórmons, cuja fundação se deu em 1830 por Joseph Smith que teria recebido uma revelação de Deus Pai e de Deus Filho afirmando que todas as outras igrejas eram adulteração. Segundo Smith, o anjo Moroni apareceu a ele e lhe revelou a localização de duas placas de ouro que continham o registro do verdadeiro evangelho, e em cujas revelações se fundamenta todo o sistema de crença dos mórmons. Por isso, para Smith, o Livro dos Mórmons é a correta revelação de Deus para o mundo por se tratar do livro mais correto e completo da terra. As suas crenças básicas incluem algumas ideias bizarras sobre Deus – Deus não é eterno e nem Todo-poderoso –; sobre Jesus – este seria o fruto da relação sexual de Deus Pai com a Mãe Deus, o primeiro de muitos filhos, irmão de Lúcifer, também casou-se e teve muitos filhos. O capítulo referido é fechado com uma confrontação entre os principais pontos doutrinários da Igreja dos Mórmons e a Bíblia Sagrada.

Na sequência, o assunto é a Sociedade Torre de Vigia, ou mais precisamente As Testemunhas de Jeová. São apresentados a história, o perfil, a forma de governo, as principais literaturas e crenças deste grupo religioso. Com cerca de seis milhões de testemunhas em duzentos e trinta países do mundo, esta ceita foi fundada por Charles Russell em Pittsburg, em 1872, depois que ele se tornou cético em relação a algumas doutrinas apregoadas pela igreja de então. Hoje são uma organização bem estruturada, sob o auspício da Sociedade torre de Vigia e Tratados. A literatura de controle das testemunhas de Jeová são a Bíblia na Tradução do Novo Mundo e as revistas doutrinárias Despertai e A Sentinela. Embora este grupo se identifique como cristão, rejeita muitas das fundamentais doutrinas do Cristianismo, como a Trindade, a divindade de Cristo e a salvação por meio da morte de Jesus Cristo na cruz.

A última seita aqui classificada são as chamadas Ciências da Mente, que se apresenta em três segmentos: Ciência Cristã, Escola da Unidade do Cristianismo e a Igreja Unida da Ciência Religiosa. Segundo os autores, trata-se de uma escola que resultou do casamento entre o iluminismo europeu e o deísmo norte-americano. Utilizando-se da filosofia, da ciência e da religião de uma forma totalmente diferente, esta escola enfatizava o processo da cura mental cujo precursor foi Phineas Quimby (1802-1866), o fundador do movimento Novo Pensamento. Quimby era estudante de hipnose e acreditava que as doenças se originavam na mente, eram consequência de crenças falsas, podendo ser curadas por meio da mera sugestão. Como se percebe facilmente, não é uma religião como as que já vimos até aqui, trata-se de um princípio impessoal da mente, uma visão panteísta, segundo a qual Deus é apenas uma força de vida universal ou uma ideia infinita. Logo, a vida de Deus e a vida dos seres humanos são a mesma coisa e, portanto, o homem é Deus. Apesar de terem fundadores diferentes, as três ramificações supramencionadas podem traçar suas raízes às crenças do Novo Pensamento de Quimby e compartilham três crenças básicas: 1) Deus é um princípio impessoal; 2) A mente divina é tudo o que é real; 3) O mundo material não existe, pois é apenas uma parte da mente divina. Isso é o básico sobre estas seitas. Os autores resumem a história particular de cada uma delas, mostrando perfis, crenças, dados estatísticos e o seu ponto de vista sobre as principais doutrinas do Cristianismo.

Na terceira parte, são apresentadas as religiões filosóficas. Os autores as denominam assim porque, diferentemente daquelas estudadas até aqui, há menor ênfase na doutrina formal de Deus, o foco volta-se para os aspectos internos humanos. As doutrinas rígidas sobre Deus dão lugar a abordagens do pensamento e do foco interno pelo qual uma pessoa pode transcender a existência material.

A primeira dessas religiões é o Induísmo, a terceira maior religião do mundo, a qual não tem um fundador específico nem um evento histórico que marque o seu início. Esta religião não apresenta um credo ou doutrina única, compõe-se de um entremeado de crenças oriundas da cultura indu. A ideia central é que seus adeptos libertem-se do mundo material para unir-se com a realidade final, ou com o todo universal. Os indus são panteístas, politeístas e acreditam na reencarnação e na essência da unidade espiritual da humanidade. As suas escrituras mais importantes são Os Vedas , compostos por um período que se estendeu por mais de mil anos. Adoram especialmente três deuses: Brama, Vishnu e Shiva, a cujo trabalho estão os sacerdotes brâmanes, que galgaram o topo da ordem religiosa e social e estabeleceram o sistema de castas. O pensamento central do Induísmo é que a plenitude de vida consiste em a alma individual se unir com a alma universal, o que só se pode conseguir através da reencarnação e do carma. Hoje, o Hinduísmo soma cerca 13% da população mundial, num total de 790 milhões em todo o mundo, e se expressa por meio de práticas bem conhecidas entre nós, como ioga, meditação e misticismo.

A segunda religião deste grupo é o Budismo que iniciou-se no século VI, quando o príncipe Sidarta Gautama abandonou seu estilo de vida palacial, de estilo extravagante e totalmente isolado do mundo, e foi confrontado com a dura realidade da vida. Sidarta, então, iniciou uma vida de austeridade em busca de uma iluminação espiritual que lhe trouxesse verdadeira satisfação, busca que consumiu seis anos de sua vida. Finalmente ele vivenciou um grande despertar que lhe trouxe a compreensão de que o verdadeiro conhecimento estava no caminho do meio, entre os extremos da autonegação e da autoindulgência, verdade que o tornou o iluminado,ou Buda, como passaria a ser chamado a partir de então.

O Budismo tem muita similaridade com o Hinduísmo. Além de ter-se desenvolvido na Índia, acredita na reencarnação, sendo que em cada encarnação, o indivíduo alcançaria um nível mais alto de compreensão até que finalmente possa alcançar o nirvana. É dedicada uma prática intensa à meditação, com o objetivo de encontrar a natureza espiritual no interior do indivíduo. Os budistas seguem as quatro verdades nobres que articuladas por Buda, reconhecendo que a vida resume-se em sofrimento ocasionado por nossa própria agência e anseio, porém o sofrimento pode ser sobrepujado, quando a pessoa segue o caminho nobre Óctuplo (processo de oito passos apresentado por Buda), transcende a ganância e alcança o estado de nirvana, que é a realização da verdade e da compreensão final. Essa religião tem mais de 350 milões de adeptos no mundo todo e é a mais prevalecente em países do sudoeste da Ásia, na China, no Japão e na Coreia.

No último capítulo desta seção, são apresentadas três religiões peculiares. Elas são peculiares porque, além de emprestarem muitos princípios umas das outras, diferenciam-se muito de tudo o que já vimos até aqui. Parecem mais filosofia do que religião. Elas não se baseiam na reverência ou prestação de contas a um ser divino ou a uma figura de autoridade por meio de códigos de conduta; ensinam responsabilidade pessoal em um contexto que parece mais social do que religioso. São basicamente um sistema de pensamentos sobre comportamento moral, relacionamentos pessoais, arte, teatro e forma física.

A primeira é o confucionismo, fundada por Confúcio, cuja ênfase recai no comportamento moral e virtuoso. Confúcio teria desenvolvido seu pensamento à guisa de crítica à sociedade de sua época, famosa pela ausência de civilidade e moral bastante flexível. Ele acreditava que, se aquela sociedade não fosse colocada em cheque, iria se deteriorar em selvageria, por isso considerou que a sua missão era manter viva a ideia da conduta digna e graciosa. O foco do Confucionismo é o significada vida e a suprema valorização do relacionamento marido/mulher, pais/filhos, entre os irmãos e amigos, assim como do governo com seus cidadãos.

O Taoismo, segunda religião deste grupo, tem uma íntima relação com o confucionismo. A diferença está em que, enquanto o primeiro foca a moralidade e a civilidade sociais, o segundo preocupa-se com o mundo da natureza. O objetivo de toda pessoa que professa esta fé é tornar-se um com o Tao, traduzido por O “Caminho”. Acredita-se o fundador do Taoismo tenha sido Laozi, contemporâneo de Confúcio. Preocupado com a brutalidade, que crescia à medida em que os governantes locais lutavam para conquistar seus vizinhos e oponentes, montou um boi e fugiu para as montanhas do oeste. No caminho, teria sido confrontado por místicos que lhe pediram para que escrevesse sua sabedoria e ensinamentos. Foi então que ele escreveu o livro Daodejing, principal livro do Taoísmo. Assim que Laozi compôs sua obra, desapareceu e nunca mais foi visto. Seus adeptos reverenciam e adoram o poder e a força energética da natureza, ressaltam a importância do indivíduo e afirmam que todo indivíduo é parte integrante da natureza. Acreditam ainda que, assim como devemos permitir que a natureza siga o seu próprio curso, devemos deixar que os indivíduos sigam sua próprias inclinações, livres de obrigações impostas, pois as pessoas são compassivas por natureza e que naturalmente demonstrariam compaixão aos outros se lhes fosse permitido seguir seu curso natural.
O Xintoísmo, terceira religião deste grupo, começou no Japão em cerca de 500 a. C. como uma mistura de adoração à natureza, de cultos da fertilidade e de técnicas de divinização. É uma religião politeísta e não tem um conceito de Deus Criador, também não dispõe de texto sagrado, sobretudo foca o aqui-e-agora, uma vez que não acreditam em nenhuma  vida após a morte. Os seus deuses estão em toda a natureza, e as práticas de adoração a estas divindades são mais importantes do que a crença real nelas.

A quarta parte do livro em apreço trata das crenças ateístas. São chamadas assim porque, apesar de algumas delas terem nuances de espiritualidade, dispensam totalmente a ideia de Deus. Os autores começam pelo Movimento Nova Era, movimento definido como mistura híbrida das forças espirituais, sociais e políticas, englobando a sociologia, teologia, as ciências físicas, a medicina, a antropologia, a história, o movimento do potencial humano, os esportes e a ficção científica. O termo Nova Era encerra uma visão utópica que descreve uma época de harmonia e progresso humano. Trata-se da Era de Aquário que diz respeito ao primeiro signo do zodíaco. Como já observado, é uma ideologia que permeia todas as camadas sociais, não tem declaração de crenças definida, não há fundador, nem uma igreja central ou matriz e, tampouco, uma estrutura formal. Para os adeptos deste movimento, estamos numa nova época, do descobrir a si mesmo, da consciência espiritual, da iluminação pessoal e da unidade global. Caracteriza-se especialmente pelo sincretismo religioso, monismo, panteísmo, divinização da humanidade, transformação radical das tradições e a crença em uma nova ordem mundial. Eles misturam práticas de várias religiões e crenças antigas como o hinduísmo, budismo, taoísmo, gnosticismo, ocultismo e espiritismo. Atualmente, só no continente americano, existem cerca de doze milhões de participantes deste movimento e há mais de três mil editoras que publicam livros sobre a Nova Era e o ocultismo.

O último capítulo desta seção trata do ateísmo, darwinismo e naturalismo. É intrigante que em um livro sobre as principais religiões e crenças do mundo, haja um capítulo sobre o ateísmo, mas os autores se justificam dizendo que todos os ateístas têm uma religião: a do não-Deus. O título engloba naturalismo e darwinismo porque, segundo os autores, o movimento ateísta cresceu e se solidificou na esteira da Teoria da Evolução de Charles Darwin, a qual jogou o mundo acadêmico e científico a partir de então em um naturalismo radical que dispensa qualquer realidade sobrenatural. Hoje estima-se que 20% da população mundial façam parte desse movimento, com predominio nas áreas acadêmicas, políticas e jornalísticas.

Por fim, no capítulo O que fazemos com o que acreditamos, há uma apologia ao Cristianismo, onde os autores assumem e reforçam a sua identidade cristã e apresenta dicas importantes para aqueles que se interessam por estudar as grandes religiões do mundo e evangelizar os seus adeptos. As principais dicas orientam o leitor a conhecer profundamente a sua própria crença antes de começar a estudar a crença dos outros, em seguida a conhecer o que os outros acreditam, afim de que possa, finalmente, estar pronto para explicar aos outros em que ele acredita.

COMENTÁRIO
Guia de Seitas e Religiões se diferencia positivamente de outros livros desta natureza pela clareza e concisão somadas à abordagem bem-humorada dos autores. Ler sobre os entremeados de crenças e costumes das grandes religiões do mundo pode não ser estimulante para o leitor leigo e se mostrar enfadonho para quem leu várias obras sobre o assunto e percebeu que não há muita diferença de conteúdo entre elas. Acredito que Stan e Jantz, conscientes desta realidade, resolveram fazer diferente, escrevendo uma obra de fácil compreensão a partir de ilustrações interessantes, por exemplo quando comparam o movimento Nova Era a uma cebola com suas várias camadas. Os quadros ilustrativos, espalhados por todo o livro, como A voz do professor, Comentários dos autores, Veja também, Saiba mais, Boa pergunta, ajudam muito o leitor na compreensão do assunto e lhe confere novo ânimo toda vez que se encontra diante de alguns pontos mais difíceis das religiões analisadas.

Talvez o fato de os autores terem mostrado, desde o início, a sua identidade cristã feche as portas para leitores de outras religiões, por isso um pouco de neutralidade seria muito importante em uma obra que se destina a um público tão vasto e diverso, considerando que todas as pessoas se encaixam perfeitamente nas categorias religiosas referidas. A não ser que tivessem inicialmente um objetivo apologético, o que deveria estar claro no prólogo do livro, eles poderiam ter sido mais discretos em relação às suas convicções religiosas, impedindo que ela se limitasse apenas ao público cristão.

Entretanto, estamos falando de um livro riquíssimo, que vai além de uma análise sobre religiões e fala de espiritualidade. Espiritualidade e religião são coisas diferentes. Enquanto que a primeira é o foco em coisas espirituais e no mundo espiritual, ao invés de coisas terrenas e físicas, a segunda é um conjunto de crenças e rituais que objetiva colocar seus seguidores em um relacionamento correto com a divindade, seja lá o que esta divindade signifique.


OS AUTORES
Bruce Bickel é advogado, mora em Fresno, Califórnia, é professor e membro da diretoria de coradores do Westmont College.

Stan Jantz é consultor de marketing, mora em Fresno. Stan está muito envolvido como as atividades em sua igreja e atua junto à diretoria de curadores da Universidade de Biola.


























quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Perfil de Três Reis

Resenha

Livro voltado para o ensinamento prático a partir na análise e exploração dos perfis e das experiências de vida de três figuras bem importantes da história da nação Israel: Saul, o primeiro rei da nação referida; Davi, sucessor de Saul no trono; e Absalão, filho de Davi que, por um momento, usurpou o trono de seu pai. O autor divide a obra em duas partes. Na primeira, aborda os dois primeiros personagens, o rei Saul e Davi, o homem que fora ungido por Deus para suceder-lhe no trono, bem como a relação conturbada entre eles. Na segunda, Saul sai de cena e a atenção se volta para o agora rei de Israel, Davi, e o seu subversivo filho Absalão.  

Edwards inicia pela história de Davi, retomando os dias tenros em que o filho de Jessé ainda pastorava o rebanho do pai. Destacam-se a solidão em que vivia enquanto, isolado de todos, cuidava diligentemente daqueles animais, e a maneira como usou aqueles momentos para aprofundar sua comunhão com Deus por meio do louvor incessante que saia de seus lábios. Também é levantada a possibilidade de que foi ali, na solidão, que o futuro rei aprendeu a manejar a funda como ninguém, habilidade que seria muito importante em um momento crucial de sua vida.

De pastor de ovelhas para o ungido rei. Segundo a ideia desenvolvida no livro, a devoção daquele pastor chamou de tal modo a atenção de Deus que foi escolhido por Este para ser pastor do grande rebanho de Israel, unção que ficou a cargo do profeta Samuel. Logo após receber a unção, Davi é comissionado por seu pai para levar comida aos seus irmãos no acampamento do exército de Israel, onde tem o primeiro contato com as tropas do rei Saul e com a realidade da guerra.

A partir de então entra em cena o rei Saul, segundo o autor, o instrumento usado por Deus para preparar o "infante" Davi para a grande missão que lhe esperava. Tudo começa quando Davi é convidado para tocar seu instrumento musical a fim de acalmar a alma de Saul, um rei enlouquecido e doente de ciúmes a ponto de repelir violentamente qualquer rumor de ameaça ao seu trono. E Davi começou, com o passar do tempo, a parecer uma ameaça para Saul, o que resultou em muita perseguição, ameaça e tentativa de morte contra o ex pastor de ovelhas.

Agora, as lições apreendidas pelo autor dos perfis de Saul e Davi são entremeadas com o desenrolar da própria história. E ressalta-se o fato de Saul não reconhecer que era Deus quem deveria decidir o destino do trono de Israel e não a sua lança, a qual arremessou contra Davi algumas vezes. O reconhecimento que faltava em Saul marcará o perfil de Davi por toda sua vida, ou seja, desde cedo, o filho de Jessé reconhecerá que cabia a Deus conduzi-lo ou não ao trono de Israel, o que o poupou de perpetrar qualquer violência vingativa contra Saul. Apesar de ter consciência dos atos insanos do rei, de sofrer várias tentativas de assassinato, Davi não deixava de reconhecer que Saul havia sido ungido por Deus e, portanto, cabia somente ao Senhor o direito de depô-lo. Tanto é que, nas ocasiões em que teve a oportunidade de acabar com a vida de Saul, preferiu poupá-lo. Então, uma das idéias centrais do livro é este reconhecimento de que Deus é quem determina e dirige o destino do seu povo, e nós precisamos aprender com Davi a reconhecer tal realidade.

No capítulo 15, é descrita a personalidade paradoxal de Saul. Paradoxal porque, no registro de sua história de vida, são inescapáveis suas impressionantes prerrogativas, como aquele que foi ungido por Deus, filho de excelente família, libertador de Israel, vencedor de muitas guerras, batizado com o Espírito Santo, porém, apesar de tudo isso, um homem corroído pela inveja, ciumento e irascível. A intenção do autor do livro em apreço parece ser demonstrar, com o exemplo deste monarca, que essas características podem fazer parte de uma mesma pessoa. Ademais, pretende mostrar a diferença entre homens dotados e homens quebrantados, contrastando Saul e Davi. Edwards considera que aqueles que são ungidos por Deus podem ser ou da ordem de Saul – os dotados, revestidos exteriormente – ou da ordem Davi – os quebrantados, revestidos interiormente. O contraste entre os dois monarcas é realçado no capítulo 17 onde o autor descreve um diálogo fictício entre um ex soldado de Davi e um neto deste, ocasião em que o soldado relata a maneira peculiar de governar do segundo rei de Israel que priorizava uma vida de submissão a Deus  e desprovida de qualquer autoritarismo. No diálogo está resumidamente implícita a maneira como Davi chegou ao trono sem fazer uso da violência um só momento.

Na segunda parte do livro, segundo a perspectiva do autor, a história parece se repetir, agora com Davi no lugar de rei e tendo seu trono ameaçado por um usurpador, seu próprio filho Absalão.  É importante notar que, no momento, Davi estava no mesmo lugar do rei Saul quando este o via como ameaça ao seu reino; por outro lado, Absalão estava na mesma posição de Davi quando representava uma ameaça ao trono de Saul. Cabia, portanto, ao rei de Israel escolher entre agir como Saul agira uma vez contra ele a fim de defender seu trono ou deixar a cargo de Deus de quem seria o reino. Era uma questão de ser coerente ou não com os princípios de sua mocidade. O que é mais notável nesta parte do livro são os diálogos altamente instrutivos imaginados pelo autor entre Davi e algumas figuras importantes de seu reinado. Nos colóquios, ora ele era instado a repelir violentamente a rebelião de Absalão, ora era instruído com o exemplo de homens como Moisés a deixar Deus resolver a situação. E o livro termina com a questão sobre a decisão de Davi em aberto. O importante, porém, é atentar para o princípio essencial que o autor quer ensinar nos diálogos que criou: que há homens segundo Davi e homens segundo Saul, porém discernir entre uma classificação e outra é muito difícil, senão impossível, só Deus conhece perfeitamente quem é quem.

Perfil de três reis é uma obra admirável pelo estilo simples do autor e pela clareza com que aborda assunto tão profundo. Sinceramente nunca tinha lido um livro que apresentasse lições tão importantes a partir dos três homens referidos nesta obra. Lições como desprendimento, resignação e confiança absoluta nos desígnio de Deus estão presentes em todo o livro. Outrossim, fiquei maravilhado com o tratado sobre as nuances da natureza humana apreendias pelo autor a partir dos personagens estudados.

Introdução à Filosofia

Resumo

Livro: Introdução a Filosofia, Uma Perspectiva Cristã.
Autoria: Norman L. Geisler e Paul D. Feinbeerg.
Publicado no Brasil pela editora Vida Nova.

 
Obra que objetiva analisar os fundamentos da filosofia numa perspectiva cristã. Os autores discutem as questões filosóficas de há muito debatidas e lançam luz sobre algumas controvérsias que pairam entre filósofos modernos. Poderíamos mesmo dizer que se trata de uma obra de cunho apologético, porque se destaca de outras desta natureza, pelo fato de que os pilares da filosofia são examinados a partir de uma ótica cristã, com refutações ao que contrasta com essa visão,  todavia sem desconsiderar a grande importância da filosofia entre as ciências humanas e o reconhecimento de que o pensamento filosófico pode contribuir de modo relevante à compreensão teológica.

Divisão do livro: Introdução à filosofia/ O que é o conhecimento? / O que é a realidade?/ O que é a realidade ulterior?/ O que é bom ou certo? Nos capítulos que se distribuem por entre essas seções, são discutidas as principais questões de que se ocupa a filosofia e que englobam seis áreas do conhecimento humano: ética, estética, política, metafísica, lógica e epistemologia.

Na primeira seção, são apresentadas as disciplinas, a metodologia, as ferramentas e os desafios da filosofia. Os autores, antes de darem uma definição para o termo filosofia, fazem uma consideração sobre a dificuldade de tal tarefa, dificuldade que se deve ao desacordo entre os filósofos no tocante à questão sobre de que efetivamente a filosofia se ocupa. A partir desta reflexão, são apresentadas duas abordagens da filososfia: a filosofia analítica e a especulativa. Após a explicação da natureza das duas abordagens, vemos as objeções levantadas pelos estudiosos do assunto sobre cada uma delas, elencadas as principais características da pesquisa filosófica e aquilatada a real importância da filosofia como um instrumento que possibilita uma compreensão da sociedade e uma libertação de preconceitos.

O capítulo três trata dos métodos da filosofia, os mecanismos de que se valeram e ainda se valem os filósofos para chegarem à verdade sobre os fenômenos. Primeiramente os métodos do mundo antigo: a maiêutica de Sócrates e o método dedutivo de Aristóteles; em seguida os métodos modernos e contemporâneos: o método indutivo de Bacon e os métodos existencial e fenomenológico de Kierkegaard e Husserl, respectivamente.

Na sequência, o leitor tem diante de si as ferramentas da filosofia (os argumentos). São apresentadas a definição, natureza e importância dos argumentos, chamados de a ferramenta indispensável dos filósofos.
E encerra-se a primeira parte com considerações dos autores sobre os desafios da filosofia ante as grandes questões da existência e sobre o grande desafio que esta ciência representa para os cristãos.

A segunda parte trata da natureza do conhecimento (epistemologia). Inicialmente são abordadas duas questões: O que é o conhecimento? e Podemos conhecer? Essas questões dão ensejo à análise e crítica  do Ceticismo - de David Hume e Immanuel Kant. a questão seguinte é como podemos conhecer? São apresentados cinco veículos capazes de transportar o indivíduo ao saber prático ou mesmo teórico: a fé, o subjetivismo, o racionalismo, o empirismo e o pragmatismo, e feita uma avaliação destes canais para o conhecimento com os prós e contras atinentes a cada um deles.

Outras três questões levantadas nesta parte são: A certeza é possível?/ Como percebemos o mundo externo?/ Como são justificadas as crenças? Em função da primeira pergunta, são apresentados os tipos de certeza (apodítica, psicológica, convencional, pragmática) e os tipos de conhecimentos (os mandamentos morais, o conhecimento acerca do mundo externo, a autoconsciência, o conhecimento lógico e matemático), cada ponto de vista com sua peculiaridade e principais representantes.

A segunda pergunta dessa série - como percebemos o mundo externo? – destina-se a saber se aquilo que percebemos retém sua existência independente do olhar do observador, ou não. Há três posições filosóficas que se propõem a resolver esta questão. O realismo, o dualismo e o idealismo. O primeiro sustenta que os objetos existem independentes de um observador. O segundo defende que existem duas ordens distintas e independentes na existência: as ideias, que são impressões ou atos dos sentidos, e o mundo independente e externo que inferimos como sendo a causa dos dados dos sentidos percebidos por nossas consciências. O idealismo sustenta que os objetos, principalmente os materiais, não podem existir independentes de alguma consciência deles. São apresentados os mais eminentes defensores de cada uma das posições e as objeções a cada uma delas.

A terceira questão - como são justificadas as crenças? – investiga a maneira como justificamos nossas alegações de conhecimento. Aparecem, então, duas estruturas de justificativa epistemológicas: a fundamentação e o coerentismo.  A primeira afirma que há uma estrutura de conhecimento, cujos fundamentos, embora sustentem todo o resto, não precisam de apoio algum, pois são por si só justificadas. O segundo defende que inexistem crenças epistemologicamente anteriores ou básicas, auto-sustentáveis, o que há é uma teia de crenças que se relacionam e que se sustentam apenas dentro desta relação, sendo que as crenças que encontram-se mais no centro da teia são mais dificilmente abandonadas.

A parte três da obra referida traz a questão: o que é realidade? Primeiramente se discute um dos problemas mais persistentes na filosofia, se a realidade é una ou múltipla.  Quatro teorias propõem resposta a esta pergunta: monismo, pluralismo, o modelo de Plotino e o modelo cristão da Trindade. Para a primeira teoria, cujo representante maior foi o filósofo grego antigo Parmênides, toda a realidade é una. A segunda, em contraposição ao monismo, argumenta pela multiplicidade da realidade. Para a terceira, cujo  representante foi o  filósofo grego Plotino, toda a multiplicidade e todo ser fluem de uma unidade ulterior. Por último, o modelo cristão da Trindade, com a ideia de um só Deus em três pessoas, concilia unidade e multiplicidade ao afirmar que, na Deidade, há tanto a pluralidade (de pessoas), como a unidade (de essência).

Outra questão é sobre o relacionamento entre a mente e o corpo. As teorias que tratam desse assunto estão organizadas em duas categorias: as teorias monistas e as teorias dualistas. A primeira categoria engloba o materialismo, o qual propõe que o homem é apenas o seu corpo; o idealismo, que advoga que a mente e suas percepções são a única coisa que existe; a teoria do aspecto duplo, segundo a qual o físico e o mental são simplesmente aspectos diferentes de alguma coisa que, em si mesma, não é nem físico nem mental. A segunda categoria engloba o interacionismo, que defende que a mente e o corpo agem casualmente um sobre o outro, sendo que eventos mentais podem causar eventos corporais e vice-versa; o paralelismo, que sustenta que a mente e o corpo são correlacionados de maneira sistemática, mas que não há interação direta ou indireta entre os dois; o ocasionalismo, que propõe que Deus é o único elo entre a mente e o corpo; o epifenomenalismo, que sustenta que há um relacionamento ou interação causal que vai numa só direção, do corpo para a mente, sendo que os eventos físicos têm efeitos mentais, mas não ao contrário.

Na sequência, levanta-se a questão da liberdade. O desafio é responder à pergunta: O homem é livre? A resposta negativa vem do determinismo, entendimento de que todos os eventos, inclusive o comportamento humano, são governados por leis que os determinam inexoravelmente. Em antagonismo ao determinismo, encontramos o indeterminismo simples e o livre arbítrio. O primeiro advoga a ideia de liberdade total das ações humanas, as quais não dependem de nenhuma causa externa. O segundo tenta vencer as dificuldades tanto do indeterminismo quanto do determinismo, advogando a ideia de que o homem é um ser auto-determinate, ou seja, as nossas ações livres nem são causadas por outras ações nem estão sem causa, são causadas por si mesmas.

No capítulo 14, os autores discutem a questão O homem sobrevive à morte? São colocadas duas posições: 1) os mortalistas defendem que o ser humano é mortal, entre cujos defensores está a figura de David Hume; 2) os imortalistas, cujos argumentos em favor da imortalidade da alma humana se mostram bem diversos, entre os quais está o argumento da doutrina do homem sombra, a qual defende que a pessoa real é um homem sombra ou pessoa mínima, suficientemente humano e corpóreo para que os problemas perenes da identificação e da individuação possam ser vencidos. O homem sombra é suficientemente incorpóreo e imaterial para escapar ileso do corpo terrestre comum quando é enterrado. A riqueza especial deste capítulo é a presença de vários nomes do pensamento cristão, como Tertuliano e Tomás de Aquino.

O capítulo 15 se propõe a responder à pergunta Existem outras mentes? Aqui somos primeiramente apresentados ao Argumento da analogia, cujos adeptos advogam que, a partir de nossa própria mente, observamos que há um correlacionamento entre nossos estados mentais, de um lado, e de nosso estado físico e/ou comportamentais de outro; também há outros corpos como o nosso, e que exibem os mesmos comportamentos. Logo, por analogia, compreende-se que estados mentais como aqueles que experimentamos estão associados com outros corpos, da mesma maneira que o nosso estado mental é associado com o nosso corpo, o que prova que existem outras mentes além da nossa. Em contraposição ao argumento da analogia aparecem o Behaviorismo, que defende que todas as atitudes mentais ou as expressões psicológicas são plenamente redutíveis ao comportamento ou a estados físicos, e os pontos de vista de filósofos como Wittgenstein e Strawson, os quais, cada um ao seu modo, rechaçam o ceticismo acerca da existência de outras mentes.

No último capítulo desta seção, a questão levantada é O que é a verdade?, Há várias teorias para responder essa pergunta: Teoria da Coerência da Verdade, Teoria Pragmática, Teoria do desempenho da Verdade e a Teoria da correspondência da Verdade. Os autores explicam essas teorias, mostram os pensadores que as defendem e expõem os pontos fracos e fortes de cada uma.

A quarta parte deste livro – O Que é a Realidade Ulterior – começa com a questão do relacionamento entre a fé e a razão, ou qual delas é fonte fidedigna do conhecimento. Os autores apresentam quatro concepções sobre este impasse que tem desafiado pensadores de todos os tempos: 1) A Revelação Somente, teoria defendida por Kierkegaard e Karl Barth, os quais, cada um ao seu modo, argumentavam que a mente humana, por si só, é incapaz de descobrir o conhecimento divino; 2) A Razão Somente propõe que a verdade só pode ser descoberta pela razão, cujo grupo de defensores inclui Kant e Spinoza; 3) A Razão sobre a Revelação considera tanto a razão quanto a revelação como fontes fidedignas de conhecimento, sendo, porém, a primeira sobreposta à segunda; 4) A Revelação Acima da Razão considera que a razão e a revelação não são excludentes, mas a revelação se sobrepõe a razão, defendida por Tertuliano e Cornelius Van Til; 5) A Revelação e a Razão, teoria que propõe que há um inter-relacionamento entre a razão e a revelação, defendida por Santo Agostinho e Tomás de Aquino.

Os outros capítulos subsequentes se desenvolvem a partir de quatro perguntas relacionadas a Pessoa de Deus: O que se quer dizer com “Deus”? Deus existe? Como podemos falar acerca de Deus? Podemos ter experiência com Deus? Para a primeira pergunta, os autores mostram várias concepções sobre a Pessoa Divina, como o Teísmo, o Deísmo, o Panteísmo e o Paneteísmo. Em relação à segunda pergunta, temos vários argumentos de pensadores teístas, ateus e agnósticos, em favor da existência ou não-existência de Deus, ou da falta de capacidade humana para saber se Deus existe ou não (agnosticismo). Defensores do ponto de vista teísta, os autores dão uma resposta a partir da perspectiva cristão às outras teorias divergentes.

Na terceira pergunta – como podemos falar acerca de Deus? – pretende-se investigar como, sendo Deus finito, e a nossa linguagem finita, seria possível a comunicação com Ele. Três concepções procuram resolver o impasse: 1) A Conversa Sobre Deus é Equívoca – advoga que um Deus infinito sempre transcende a capacidade de linguagem finita e que, portanto, a conversa acerca de Deus não descreve a maneira que Ele é, apenas descreve aquilo que Ele não é ou o que ele faz; 2) Conversa Unívoca Acerca de Deus – defende que só podemos saber a verdade acerca de Deus se os termos que aplicamos a Ele tiverem o mesmo significado quando atribuímos os mesmos termos às pessoas, caso contrário, o Agnosticismo será o resultado. Na quarta questão, os autores definem o que é uma experiência religiosa, diferenciam uma experiência religiosa de outras experiências, mostram os ataques de alguns filósofos a essas experiências e apresentam meios de se verificar se a experiência religiosa é ou não real.

A última seção – O Que é Bom ou Certo? – se propõe a discutir quatro questões: O que é certo? Como sabemos o que é certo? O certo é universal? Os deveres morais conflitam às vezes? O relacionamento entre regras e resultados. Para a primeira questão, primeiramente são apresentas as concepções não cristãs: o certo é definido em termos de poder; a moralidade é costume; o homem é a medida; a raça tem razão; o certo é a moderação; não existe certo; o certo é o que traz prazer. Em seguida vem a concepção cristã de certo e errado, a qual está ancorada na natureza imutável de um Deus de perfeito amor e justiça(sic), cujo caráter santo Ele revelou de duas maneiras: no seu mundo natural e através das Escrituras. Portanto, para a visão cristã, a revelação de Deus e de sua vontade é o padrão final do que é certo e do que é errado.

Na resposta à segunda questão, primeiramente são examinadas as teorias não cristãs: justificativas pelos resultados, entre cujos defensores encontra-se William James; justificativa pela autoridade divina, resposta simplista de algumas religiões que, diante da pergunta “como posso saber o que é ceto?” , normalmente respondem que “Deus disse assim”.

Na segunda questão aparecem duas abordagens no tocante à Ética: a que se centraliza nas regras (deontológica) e a que se centraliza na finalidade (teleológica). A partir daí, esboçam-se duas teoria: a dos que defendem que o ceto é determinado pelos resultados(utilitarismo), e os que defendem um relacionamento entre o certo e o resultados. Esta última posição rechaça a primeira ao advogar que tanto as regras quantos os resultados desempenham um papel fundamental num esquema ético compreensivo. Os autores desta obra concordam com esta última teoria.

No capítulo 26, ao discutirem a questão sobre se o certo é universal ou não, os autores apresentam duas posições antagônicas: o relativismo, ideia de que os princípios éticos têm uma aplicação local e normalmente mudam com o passar do tempo, ou seja, são relativos a tempo, circunstância e localidade. Em contraposição, apresenta-se o conceito universal do certo, entendimento segundo o qual há princípios que são para todas as pessoas, em todas as épocas. Na conclusão dos autores, “a negação de todo valor absoluto é mal-sucedida e inconsistente”, e, para os cristãos, “as normas éticas universais estão ancoradas no caráter imutável de Deus”.

Por fim, no último capítulo do livro em apreço, os autores discutem a questão dos deveres morais, se eles podem às vezes conflitarem entre si, apresentando três conceitos sobre o assunto: 1) o conceito da terceira via, segundo o qual sempre há uma saída moral de cada dilema ético; 2) o conceito do mal menor, que sustenta que há alguns dilemas morais genuínos em que as duas alternativas estão erradas, então a pessoa é obrigada a cometer o mal menor; 3) o conceito do bem maior, que significa obedecer à lei superior, conforme é revelada por Deus nas Escrituras. Os autores estão de acordo com esta última posição.

Comentário

Introdução à filosofia, uma perspectiva cristã é uma obra que vem suprir uma grande necessidade dos cristãos deste século do conhecimento. As muitas concepções de vida , de homem e de Deus têm se difundido por todas as camadas sociais, principalmente nas escolas, interferindo na forma de se posicionar no mundo de todas as pessoas. Tentar se proteger numa redoma hermética não funciona, porque esta é a realidade que temos e não podemos romper com ela. A saída, portanto, é usar lentes bíblicas para fazer a leitura presseletiva de todas as informações que nos são passadas.

Além disso a obra se destaca em relação a outras que já li do mesmo gênero, primeiro pela forma clara e sintética que Geisler e Feinberg usam para abordar a disciplina complexa da filosofia, segundo pelo fato de fazer uma leitura das grandes questões filosóficas por intermédio de lentes cristãs. Por isso mesmo, acho que deveria ser de leitura obrigatória para todos os estudantes da Bíblia.


Os autores

NORMAN L. GEISLER é professor de Teologia Sistemática no Seminário Teológico de Dallas e presidente da Divisão de Filosofia da Religião na Trinity Evangelical Divinity School. Recebeu o seu MA da Faculdade de Wheaton e seu Ph.D. Da Universidade de Loyola. Ele já tem vários volumes publicados em português, incluindo Ética cristã e Introdução à filosofia: uma perspectiva cristã (Vida Nova) e, em co-autoria, Resposta às seitas (CPAD), Reencarnação (Mundo Cristão) e Amar é sempre certo (Candeia).

PAUL D. FEINBERG é professor de Teologia Bíblica e Sistemática na Trinity Evangelical Divinity School. Recebeu os graus de BD e de ThM só Seminário Teológico Talbot e o MA em Teologia Sistemática no Seminário Teológico de Dallas.

A Arte de Pregar

Resenha

O livro A arte de pregar é de autoria do pastor Robson Moura Marinho e foi publicado em 1999 pela editora Mundo Cristão. Livro voltado para o ramo da homilética, tem como público-alvo pregadores e ensinadores da Palavra de Deus.

Robson Monteiro, através de sua vasta experiência no campo da comunicação e pregação, apresenta técnicas importantes para uma comunicação com eficiência e sugere passos importantes para a elaboração de sermões. É uma verdadeira caminhada com o leitor por entre os meandros da pregação, com o fim de auxiliá-lo na tarefa difícil de elaborar e pregar uma mensagem bíblica, e se destina tanto para pregadores iniciantes como para os mais experientes.

O livro está dividido em três partes, dentro das quais se distribuem 17 capítulos, acrescidos de um apêndice. Na primeira seção, de apenas dois capítulos, o autor faz comentários sobre o que ele chama de o milagre da pregação, que consiste no fato de Deus, um ser perfeito, usar o homem, imperfeito, com o propósito de comunicar a sua mensagem. O leitor é advertido de que as técnicas apresentadas são comprovadas e aprovadas pela experiência, mas que não são suficientes para fazer de alguém um exímio pregador: “é imprescindível a unção do Espírito Santo”, afirma. Essa afirmação está embasada na experiência de homens como Moisés e Isaías que, num primeiro momento se sentiram incapazes de apregoar a mensagem divina, apesar de serem homens altamente letrados. Ao final do primeiro capítulo acha-se um comentário apaixonado sobre o poder miraculoso das palavras e sobre a importância de o comunicador manejá-las bem.

Em um segundo momento, como uma estratégia para realçar o valor do estudo da homilética, o autor, numa linguagem bem humorada, discrimina alguns tipos de sermão, os quais, segundo ele mesmo, servem apenas para atrapalhar o culto, referindo-se a alguns deles como “sermão sedativo”, “sermão insípido”, “sermão óbvio”, “sermão indiscreto”, etc., cada um deles acompanhado de sua devida conceituação e explanação.

A segunda seção é iniciada com uma diferenciação entre oratória sacra e oratória secular. O autor aborda o surgimento de ambas as modalidades, remontando aos antigos filósofos e oradores gregos, passando por Cícero, em Roma, pelos cristãos primitivos, pelos reformadores e avivadores de séculos recentes e chegando até os nossos dias. É apresentada uma classificação geral da oratória (acadêmica, forense, política, sagrada e popular) com seus elementos (eficiência, retórica e eloqüência). O autor contrasta a fase antiga da oratória, em que ser um bom orador significava falar bonito e com frases enfeitadas, com a fase atual, quando o mais importante não é o volume ou o enfeite, mas o conteúdo e a forma.

A partir do capítulo 5, o foco se volta para a própria pessoa do pregador. Primeiramente são apresentadas as qualidades indispensáveis ao bom orador, como entusiasmo, determinação, inspiração, sensibilidade, imaginação e criatividade; qualidades que, todavia, não imuniza o pregador contra o espectro do medo. O autor observa que é natural sentir medo e, se bem canalizado, o medo pode ser um forte aliado e dá dicas importantes sobre como lidar com este sentimento que tem levado muitos comunicadores à frustração. Orientações como “lembre-se de que você não é o único”, “aproveite seu medo” “mantenha pensamentos positivos”, etc. antecedem uma explicação sobre a psicologia do medo, com destaque para a Janela de Johari, que consiste numa janela com quatro vidraças, cada uma com um rótulo identificador, indicando a maneira pela qual as pessoas administram a personalidade perante os outros.

Ainda focado na pessoa do pregador, Robson ressalta a importância da auto-imagem do mesmo, alertando que nos trinta minutos de sermão, tudo o que acontece no púlpito influi na comunicação da mensagem, sendo, portanto, de vital importância o cuidado com a expressão corporal, a respiração, a entonação da voz, o olhar e a expressão fisionômica.

A partir do capítulo 7, o foco é o sermão propriamente dito. Numa linguagem bem-humorada, Robson orienta a evitar aquele sermão comumente conhecido como “salada de frutas”. Para isso, nada mais acertado do que orientá-lo na forma correta de esboçar um sermão, valendo-se, sobretudo, de exemplos práticos. Ele delineia os passos gradativos para o esboço e apresenta um estudo minucioso sobre cada uma de suas partes componentes: introdução, desenvolvimento e conclusão.

Nos capítulos 10, 11 e 12, os quais encerram a segunda parte do livro, são apresentadas dicas sobre como pregar o que interessa, com estilo e recursos interessantes. Essas orientações pretendem ser um antídoto contra sermões desinteressantes que, na visão do autor, produzem apenas ouvintes desinteressados. São orientações práticas como “conheça seu objetivo”, “conheça seus ouvintes” e “conheça profundamente o assunto pregado”.

Na última seção, o autor ressalta a importância da Bíblia Sagrada como fonte insubstituível da pregação. Para isso, ele apresenta uma visão panorâmica da Palavra de Deus através dos tempos, desde os dias dos antigos hebreus, passando pelo Novo Testamento, pelos pais apostólicos, reformadores, até os grandes pregadores de séculos recentes.

Por fim, o autor se debruça sobre os tipos de sermão: temático, expositivo e textual, orientando na organização e apresentação de cada modalidade e assinalando as vantagens e desvantagens atinentes a cada um deles. Esta seção finaliza com sugestão para que o pregador aplique o sermão no dia-a-dia das pessoas, com a apresentação de passos necessários para uma boa aplicação.

A Arte de pregar é um excelente recurso para pregadores, pastores e ministros em geral, principalmente nestes tempos em que tanto se tem pregado, porém com tão pouca eficiência. Ouvi alguém dizer que o sermão ideal deve ser como minissaia, justo, curto e provocante. Neste livro, de forma bem-humorada, clara e descomplicada, Robson Marinho delineia o caminho para se conseguir tal objetivo, e o melhor: com base na sua vasta experiência no assunto.

Já li alguns livros sobre homilética e confesso que boa parte deles consistia em definições longas e complicadas, desprovida de praticidade. Porém em A arte de pregar, o escritor vai direto ao assunto, valendo-se de exemplos preciosos colhidos dentro de sua própria experiência. Assim, ele consegue despertar nos leitores o prazer pela pregação de qualidade, como também inspirar naqueles que já estão há algum tempo envolvidos neste ministério o desejo de se esmerarem no ministério da pregação.

Já li duas vezes A arte de pregar e indico a todos os que realmente têm interesse pelo sermão de qualidade. Ao ler este livro, o leitor ampliará o seu deleite pela pregação e será motivado a pôr em práticas preciosos ensinamentos de quem entende muito bem do assunto.

Robson Moura Marinho é mestre em Teologia e pós-graduado em Psicologia Organizacional pela Faculdade Brasileira de Recursos humanos; doutor em Filosofia nas áreas de Comunicação e Educação pela Andrews Universit, Michigan; foi editor da Casa Publicadora Brasileira e já escreveu vários textos para programas evangelísticos pela TV. Como educador, foi diretor de escola de ensino fundamental e professor universitário de Oratória e Homilética, entre outras disciplinas. Já pastorou muitas igrejas no Brasil.



























sexta-feira, 9 de março de 2012

IGUAIS E DIFERENTES

"Eu sou assim porque foi o único meio que encontrei de não sucumbir aos meus fantasmas. Quando que as pessoas vão entender isso?" L. R. Lima.
Os dois moravam no mesmo bairro, porém em situações bem diferentes. Um era dado ao álcool e outras drogas, meio que achou para lidar com as agruras da vida. O outro, religioso aplicado, buscava alívio na fé. Tinham origens bem parecidas, sofriam de males parecidos – ambos enfrentaram preconceito, discriminação e desprezo – todavia fizeram escolhas diferentes.

Escolhas distintas, caminhos distintos. Quase todos os dias, um metia-se num terno pomposo e, em direção à igreja, encontrava o outro assentado na calçada em frente ao rancho que o abrigava, quase sempre bêbado ou drogado. Às vezes, quando tinha oportunidade, o crente cumprimentava o bêbado com o polegar da mão direita, inquirindo se tudo ia bem. O outro lado também levantava o polegar direito afirmando que sim, que tudo estava bem.

Por que causas semelhantes remetem para caminhos tão opostos? Isso é o que nunca entendi. Um perdeu o pai em tenros dias, não teve a oportunidade de estudar, era de aparência sofrível, o que lhe causava não pouca revolta; revolta, aliás, exacerbada pelas mazelas sociais de uma sociedade preconceituosa. Subempregos, salário miserável, raríssimas oportunidades, depois desemprego, desrespeito, incompreensão e exclusão. Eis os principais fatores que o levaram à desgraça. Acredite-se ou não, são quase os mesmos fatores que levaram o outro a Deus.

A avidez de um pela igreja, na busca desesperada por consolo, rendeu-lhe uma posição assinalada na instituição eclesiástica, o que lhe exigiu comportamento cada vez mais sociável. A avidez do outro pelas drogas, também na busca insaciável por alívio, redeu-lhe maneiras cada vez mais anti-sociais, lançando-o num processo acelerado de degradação. Como se vê, tinham tudo em comum, mas eram totalmente diferentes.

Nas vezes em que o terno de um se encontrava com os farrapos do outro, este último não conseguia disfarçar o desconforto, a vergonha, o sentimento de inferioridade e o respeito que nutria por aquele que, segundo ele, tinha escolhido o caminho de Deus, protegido da Divindade. Na verdade, nutria verdadeira devoção pelo de terno. Acenava com a mão após baixar a cabeça e soltava um meio sorriso que revelava dentes mal cuidados. Quando a bebida o deixava mais exaltado, tinha coragem de pedir oração em seu favor.

Via o outro como um santo, a julgar pela escolha "certa" que fez,  incapaz de nutrir as mesmas paixões que ele nutria, de curtir as mesmas canções que ele curtia e de ser afetado pelos mesmos pensamentos e sentimentos que lhe afetavam. Estaria enganado? O "santo", não raramente, se admirava da liberdade dele, imaginava como seria soltar as amarras, despir-se da fantasia, deixar o palco e sentir a mesma adrenalina que corria no sangue do outro.

Uma noite, o santo que o esfarrapado via no de terno encontrou-se com o demônio que a comunidade do de terno via no esfarrapado. Ele estava jogado, maltrapilho, numa calçada, engolindo avidamente um copo de sei lá o quê, bêbado, drogado, e cantava, a plenos pulmões, uma canção do Raul Seixas que dizia "Eu sou a luz das estrelas/ Eu sou a cor do luar / Eu sou as coisas da vida / Eu sou o medo de amar..." Quando o crente se aproximou, ele estava terminando a parte que dizia: “Eu sou o medo do fraco, a força da imaginação, o blefe do jogador, eu...”  Ao perceber o outro, começou a diminuir o tom da voz até deixar a canção suspensa no ar, no último verso, e o olhou com olhar tímido e encurralado como que esperando uma censura, talvez um convite para visitar a igreja e mudar de vida. Aproximei-me mais, e estas palavras que saíram de minha boca quebraram quase um minuto de nosso silêncio: “Eu sou, eu fui, eu vou”, para completar a estrofe da canção. Ele sorriu condescendentemente. O seu sorriso parecia  denunciar aquela sua compreensão momentânea de que éramos mais parecidos do que ele imaginava. 

Segui meu caminho pensando nos complementos que faltavam aos verbos que encerravam a canção. É o quê? Foi o quê? Vai para onde? A canção termina com tudo em aberto, sem os complementos que os verbos exigem, aventando uma infinitude de possibilidades. Assim era eu. Assim era ele. Assim é todo mundo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O cristão e as redes sociais




Às vezes fico me perguntando como os nossos pais conseguiram passar sem a Internet. Entendo que antes do surgimento desse universo virtual, as pessoas eram mais dispersas e solitárias. A Internet estreitou os limites do mundo e diminuiu a distância entre os indivíduos, nações e culturas. Talvez aquele plano humano da Torre de Babel, frustrado pelo próprio Deus, de querer que as pessoas vivessem todas próximas umas das outras, num único conglomerado,  esteja mais perto de ser atingido agora com o advento da Internet e o surgimento das redes sociais.

Sou da geração da transição pré/pós Internet e posso afirmar que nós já sentimos mais saudade, solidão e nostalgia. Aqueles colegas da escola primária que nunca mais vimos, que destino lhes coube? E aquele parente que mudou de nossa cidade e nunca mais apareceu? E aqueles que deixamos na cidade de onde partimos e nunca mais voltamos? Aquela antiga professora do ginásio, os irmãos de nossa antiga igreja, o pastor de nossa conversão, o primeiro professor da Escola Bíblica Dominical... A gente se surpreendia perguntando: Onde andará? O que será que aconteceu? Será que ainda vive? Hoje, por meio da Internet, é possível reencontrar grande parte deles. Não é fantástico?

Pelas redes sociais, eu sei que a Patrícia mora em Brasília e trabalha numa loja de roupa, é casada e não tem filhos. A Maria, menina que amei na adolescência, está também em Brasília, casada, cheia de filhos e  muito bem financeiramente. O Bau mora em Recife; o Biu, em Ipojuca; a professora Lia vive em Nossa Senhora do Ó. E não é que encontrei meu primeiro professor da Escola Bíblica Dominical? Ele permanece na cidade de Camela (PE), onde morei, e tem um blog do qual sou seguidor. O mundo se transformou em algo como uma cidadela do interior onde todos sabem de todos.

Tive meu primeiro contato com a internet em 1998. Inicialmente, o  uso se limitava a receber e enviar e-mails e fazer algumas pesquisas pelo Yahoo. Os relacionamentos se davam nas salas de bate-papo, onde todo mundo via a conversa de todo mundo, e toda conversa começava com a pergunta: “Quer tecer?” Tornei-me viciado em comprar livros nas livrarias online, porque eu já gostava de comprar livros, e agora, à distância de um clique, a compulsão aumentou. Eu comprei tantos títulos que não conseguia mais acomodá-los em casa e tenho vários que nunca li. Estava na promoção, eu clicava e comprava. No início, quando eu ainda era solteiro, as pulsões sexuais aumentaram quando percebi que mulheres esculturais estavam à distância de um clique e foi difícil permanecer casto, mas resisti. Além de comprar livros compulsivamente, eu lia poesias de Bocage e Fernando Pessoa;  de vez em quando, confesso, batia alguns papos e era convidado a dar um clique num link com uma mulher bonita em trajes sensuais, o que procurava ignorar. Eu pensava: “Que mundo fantástico”!

Um dia, alguém me apresentou um recurso chamado blog e disse que, através dele, eu podia compartilhar meus pensamentos, textos, fotos e atividades com o mundo todo. Topei. Cara, foi muito bacana! Tirei aqueles pensamentos registrados em agendas velhas, mofadas no fundo de um baú, e os enviei para o mundo. Começaram a chegar os primeiros comentários e, através da ferramenta do blog chamada Estatística, pude ver que pessoas de quatro continentes estavam lendo o que eu escrevia no meu quarto de dormir. Russos, italianos, africanos, indonésios, canadenses, norteamericanos, etc. Eu pensava: “Gente, que loucura é essa”? Isso potencializava umaa  vocação para a escrita. 

Depois alguém me apresentou um recurso que me possibilitava conversar sem que a minha conversa fosse vista por todos, e eu ingressei no msn. Outro dia, abri meu e-mail e estava lá o convite de alguém para que eu fosse seu amigo em alguma coisa chamada Orkut. A curiosidade me levou a aceitar o convite. Quando acessei, pronto, o mundo havia dado um giro de 180 graus. A vida nunca mais seria a mesma. As redes sociais apareceram para revolucionar o mundo. Orkut, Twitter, Facebook, My Space, Ning, Haboo, Sonico, Linkedin, Foursquare, bado...  É rede social que não acaba mais. Os recursos que essas mídias colocaram à disposição das pessoas, com a facilidade do acesso à internet, provocaram uma revolução social de proporções imensuráveis. Alguém disse que é a maior revolução depois da Revolução Industrial. E agora, com a facilidade de uso da internet pelo celular, as pessoas estão conectadas 24 horas.


 As redes sociais tornaram-se numa correnteza que a tudo arrasta, tornando impossível evitá-las. Estar continuamente conectado é um estilo de vida. E os cristãos, como podemos compreender tudo isso? Aguns me perguntam se as redes sociais são um empecilho à vida da igreja ou um poderoso recurso à disposição dela. Sabemos que há igrejas resistentes a essas novas mídias, que criticam ferrenhamente os que as usam por acharem que elas corrompem e manipulam as massas. Mas que opinião poderíamos emitir a este respeito à luz da Palavra de Deus?

Jesus , orando em favor de seus seguidores, pediu ao Pai: “Pai, não te rogo que os tires do mundo, mas os livres do mal.” Este mundo a que Jesus se referiu abrange aspectos geográfico, social e cultural. E ele adquire faces diversas, de acordo com a época em que se vive. Sem dúvida, o mundo do tempo de Jesus era bem diferente do nosso, mas a oração dele ainda continua valendo. Nós estamos neste mundo para influenciá-lo com os recursos que recebemos de Deus, mas para isso, é preciso estar presente em todos os seguimentos sociais;  fugir dele é tão danoso quanto se deixar sucumbir por ele. Já diz o surrado ditado que quem não se envolve não se desenvolve.

Por que alguns têm tanta dificuldade para entender isso? Como observa Caleb Gardner, "em diferentes momentos do século passado, dissemos “não” para o rádio, a televisão e o cinema. Hoje, muitos de nós estão na iminência de rejeitar as mídias sociais da mesma forma. Em minha opinião, isso é um erro que poderia trazer um alto custo à Igreja, prejudicando sua relevância". Ora, a igreja precisa acompanhar a evolução do mundo, potencializar e aperfeiçoar seus recursos, para que façam frente a uma sociedade em mudança acelerada. A igreja precisa entrar lá, a liderança, os pastores , etc., e se valer dessas ferrametnas para fomentar a obra missionária, evangelizar os de perto e os de longe, semear esperança e promover o Reino de Deus; e o mais importante: adicionar o sal do evangelho neste enorme caldeirão de cultura que é a Internet.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Prosperidade em o Novo Testamento

Antes de me lançar numa análise bíblica sobre o conceito de prosperidade no Novo Testamento, a fim de contrastar com o conceito de prosperidade predatoriamente capitalista e consumista da sociedade  hodierna, preciso considerar que, de alguma maneira, somos todos condicionados pelos padrões estabelecidos socialmente e damos nossa contribuição para a construção da realidade que nos cerca; não estamos isentos do processo.  E cada sociedade, à sua época, desenvolve os seus próprios padrões de comportamento. Na época em que iniciou-se o Novo Testamento, o estado de pobreza do mundo era alarmante, bem diferente do momento de excessiva produção de riqueza do mundo de hoje. As pessoas normalmente viviam pouco, afetadas por vários tipos de moléstias incuráveis, constantemente sob opressão de todo tipo e com parcos recursos para lidarem com elas. Por isso que a mensagem de esperança que Jesus começou a pregar caiu em terreno fértil, e as pessoas abraçaram desesperadamente a mensagem do Reino de Deus, que garantia dias melhores na eternidade, a fim de darem sentido para as agruras da existência.

Na contramão do entendimento de muitos judeus da época, de que riqueza era sinal da bênção de Deus, enquanto pobreza era a evidência de falta de fé e desaprovação divina, Jesus começou a apresentar um evangelho em que os pobres são bem-aventurados (Mt 5.3), em que os ricos dificilmente entrarão no Reino de Deus (Lc 18.24,25) e que desestimulava o acúmulo de bens terrenos em favor do acúmulo de um tesouro no céu (Mt 6.19). De fato, para Jesus, a vida de um homem não consistia na abundância de bens que possuía (Lc 12.15), esclarecendo que há um valor intrínseco na vida humana que a faz preciosa em si mesma. Por isso, o Mestre orienta os seus seguidores a renunciarem ao desejo de acumularem bens terrenos, optando por viverem sobriamente aqui, para terem um tesouro no céu (Mt 6.19). Ademais, como observado no comentário da Bíblia Pentecostal (p.1547), Jesus compreende a riqueza como um obstáculo quase intransponível à salvação e ao discipulado (Mt 19.24; 13.22), além de poder enganar o coração com um senso fantasioso de segurança (Mt 12.15ss; 13.22) e exigir total lealdade do coração de quem a possui (Mt 6.21). Isso caiu como o estouro de uma bomba nos ouvidos da época, princialmente dos ricos opressores, e conferiu lenitivo aos pobres que se sentiam desamparados por tudo e todos.

É claro que as palavras de Jesus eram bem direcionadas. Ele não estava condenando indiscriminadamente as riquezas, mas primeiramente martelando o conceito falso de riqueza disseminado na época; segundo, libertando os pobre da ideia opressora de que pobreza tem ligação com maldição divina e incutindo neles uma maravilhosa esperança ao mostrar que, independente de qualquer situação, eles eram objetos do amor de Deus e poderiam ser muito úteis no seu Reino ; terceiro, convidando pessoas a se alistarem no serviço de promoção do Reino de Deus, as quais, caso aceitassem o desafio, padeceriam toda sorte de oposição e perseguição do mundo de então, porém teriam como recompensa um glorioso galardão no céu (Mt 5.11,12; 10.22). Muitos cristãos da época aceitaram de tal maneira o desafio de Jesus que não só renunciaram à busca natural pelos bens deste mundo, mas também se desfizeram das riquezas que possuíam para promoverem o Reino de Deus (At 4.35,36).

Os apóstolos, seguindo o exemplo de seu Mestre, foram ainda mais contundentes na condenação da cobiça pelos bens materiais, enfatizaram as tentações próprias das riquezas e os riscos de se deixar dominar por elas; chegaram mesmo a desestimular a busca pelos tesouros deste mundo. Paulo, na segunda carta a Timóteo, comenta que os que querem ser ricos caem em tentação e laços que acabam por levar à ruína, e adverte que o amor ao dinheiro é raiz de toda espécie de males, inclusive a causa de muitos abandonarem a fé (ver 1 Tm 6.9,10). Também o apóstolo Tiago denuncia a prática comum dos ricos que exploram os pobres e lembra aos cristãos que Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino de Deus (ver Tg 2.5,6).

Então, a prosperidade que apresentada no Novo Testamento não consiste em realização material, promoção social e crescimento econômico ou poder aquisitivo, mas numa vida de desprendimento que promova a inteira comunhão com Deus e o amor sacrificial ao próximo. É ter a paz de Cristo, que excede a todo entendimento (Fl 4.7), poder descansar na sua palavra, na certeza de que tudo contribuirá para o bem daqueles que o amam. É se apropriar da posição que, nele, nós estamos: abençoados com toda sorte de bênçãos nos lugares celestiais (Ef 1.3). O comentário do pastor José Gonçalves a este respeito é muito pertinente: “Se para o homem moderno, prosperar implica galgar os degraus do sucesso e da fama, para a Bíblia tais coisas não têm valor algum. Aliás, ela até incentiva a perda desses bens” (Fl 3.7,8; Lc 18.22; 192,8).


Prosperidade tem a ver com futuridade. Sabemos que todos estamos neste mundo por um brevíssimo tempo, um ínfimo tempo se comparado à eternidade para a qual voaremos um dia. A Bíblia não garante a ninguém uma vida isenta de sofrimento e privações aqui, muito pelo contrário, ela assinala que passaremos por aflições (Jo 16.33). Aliás, a história do homem sobre a terra é uma história de sofrimento. Como dizia um pensador, “nascemos chorando, e todos os dias nos mostram o porquê”. Porém temos a promessa de que haverá um estado de plena felicidade para aqueles que fizerem a vontade de Deus (Ts 4.17; 2 Co 5.8; 2 Tm 4.8), o que nos possibilita a enfrentar com coragem e esperança todas as intempéries da vida, sabendo que a nossa leve e momentânia tribulação produz para nós um peso de glória mui excelente (2 Co 4.16,17). Ser próspero é se apropriar dessas promessas e viver uma esperança tão viva que nos possibilite experimentar, já aqui, os gozos da eternidade. As coisa que o ouvido não viu, o olho não viu e não subiu ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam (1 Co 2.9).

Quando comparo  este ensino neotestamentário com a maneira como a igreja se comporta hoje, fico sobremodo perturbado, porque, a julgar pela importância que se dá às finanças e ao acúmulo de bens materiais na atualidade, ou Jesus exagerou no seu ensino (e eu duvido que Ele tenha feito isso), ou aquelas instruções apostólicas eram algo restrito ao mundo de então e cabe, portanto, flexibilização que acompanha as mudanças sociais, ou a gente está andando na contramão da Bíblia. Por favor, gostaria que você, ao terminar de ler este texto, deixasse sua opinião, porque eu também preciso de uma resposta.

Obs. Não deixe de acompanhar, durante esta semana, mais comentário que acrescentaremos a este texto.
         Leia a crônica  São as finanças, estúpido.  que é uma crítica bem humorada ao comportamento consumista da sociedade, inclusive da igreja.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os Frutos da Obediência na Vida de Israel

Quando os filhos de Abraão se libertaram do Egito, eram politica, social e espiritualmente como uma criança (Os 11.1-3), com grandes dificuldades no tocante à maneira correta de se conduzir e se relacionar com Deus, entre si e com as nações em sua volta. Por isso, dependiam absolutamente do cuidado de Deus, como um infante depende dos cuidados dos pais. Como uma criança, Israel precisava de estreitos limites em suas ações (Ex 19,20).

Foi na Aliança firmada no Sinai que Deus atestou Israel como seu povo peculiar , externou sua intenção de abençoá-lo ricamente e expôs as diretrizes em que os eleitos deveriam conduzir suas vidas. A Aliança era clara sobre como Israel deveria proceder em relação a Deus, prenunciava ricas bênçãos em resultado da obediência e maldições terríveis caso desobedecessem, o que Israel aceitou prontamente. Era uma relação que tinha viés contratual, diferente de todas as outras alianças já firmadas entre o Senhor e os predecessores de Israel. No caso de Abraão, por exemplo, Deus prometeu abençoá-lo e, para isso, cobrou obediência e fé, mas não prevê punições tão severas no caso de suas exigências não serem cumpridas. De fato, ao analisar a partir de Gênesis 15, vemos se tratar de decisão unilateral em que Deus promete abençoar Abraão simplesmente, diferente da Aliança do Sinai, que se dá por meio de um acordo entre duas partes. A quebra da Aliança resultaria em punições. É que, apesar de Deus amar Israel com indescritível amor, aquele povo não era adulto para uma relação baseada no amor, gratidão e liberdade, tanto é que, em todo o Antigo Testamento, Deus sempre prometeu um tempo em que se relacionaria de maneira diferente com o seu povo, não a partir da observação de regras externas, mas de uma espontaneidade resultante da implantação da Lei no coração (Jr 31.31-33).

Nos quarenta anos de peregrinação no deserto, Israel protagonizou uma história triste de desobediência e consequentes punições. De toda aquela geração que saíra do Egito, apenas Josué e Calebe conseguiram entrar na terra da promessa, todos os demais pereceram no trajeto Em razão de seus pecados. Todavia, enquanto palmilharam nas areias quentes do deserto e no frio intenso da noite, aqueles israelitas nunca deixaram de ver o cuidado amoroso de Deus com eles, fruto de sua infinita misericórdia. Agora Israel está na fronteira de Canaã para possuir a terra prometida. O grande líder Moisés está a um passo da morte. Ele já sabe que não vai conseguir entrar na Nova Terra. Precisa fazer um discurso de despedida para aquela geração que nascera durante a peregrinação desértica e que, agora, vai se estabelecer em Canaã. Moisés vai trazer à memória deles a bondosa intenção de Deus em relação a eles, as experiências amargas durante a peregrinação, pontuar o que podiam aprender de tudo, os amargos resultados da desobediência e os frutos salutares da obediência ao Senhor. É disso que trata o livro de Deuteronômio. É disso que trata a aula de hoje.
 
I. OBEDIÊNCIA, UM FIRME FUNDAMENTO

1. Deus fala e quer ser ouvido. Quando encontramos Deus exigindo obediência do seu povo na Bíblia, não imaginemos um Deus caprichoso que gosta de criar regras e impô-las a subalternos, a fim de mostrar quem tem o poder e a autoridade, de maneira nenhuma. Imaginemos, sim, um Deus cujo desejo é promover e preservar o bem-estar físico, social, emocional e espiritual de suas criaturas, bem como o de relacionar-se pessoalmente com elas. Mas somente Ele conhece os procedimentos necessários e a maneira correta de vivermos para que seus objetivos em relação a nós sejam atingidos, o que resultará numa vida ricamente abençoada aqui e na eternidade. Rick Warren compara Deus a um inventor de um equipamento cuja utilidade correta pode ser achada somente no manual do fabricante que o acompanha.1 Por isso, ler e obedecer o manual é condição imprescindível para a preservação do mesmo. Somos criaturas complexas criadas por Deus e tudo o que carecemos para a felicidade estão exarados nas Sagradas Escrituras. Portanto, obedecer a Deus é uma exigência de Seu amor e santidade (Lv 11.14; Jo 14.15), condição intransigente para uma vida abençoada.

Por isso, Moisés introduz as promessas de bênçãos do capítulo 28 com a expressão “se ouvires a voz do Senhor teu Deus”, oração que permeia todo o livro de Deuteronômio, esclarecendo o princípio fundamental da obediência, segundo o qual todas as bênçãos do Senhor estão fundamentadas na sua Palavra e disponíveis somente para os que se propõem a obedecê-la. Sendo assim, não adianta inventar novas técnicas de ser abençoado ou dar aquele “jeitinho” tradicional: “Se não andarmos segundo esta Palavra, nunca veremos a alva” (ver Is 8.20).

2. A obediência e suas reais motivações. “Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas ao Senhor e que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para teu bem” (Dt 10.12,13).

Repetidas vezes, Deus ressaltou que a obediência à sua Palavra deveria se motivar no amor a Ele e na expressão de corações agradecidos (ver Dt 4.29). Note em Deuteronômio que o chamado à obediência frequentemente aparece precedido por uma reflexão sobre o cuidado de Deus e do seu desejo de ser amado por seu povo. Aliás, amar o Senhor é o primeiro mandamento com promessa (Dt 6.5; Mt 22.37). Ademais, devemos obedecer-lhe por ser este o dever de todos os homens, como observou Salomão (Ec 12. 13), e porque há grande recompensa nisso (Sl 19.11). Difícil foi levar Israel a este entendimento. Mais tarde, muitos iriam enveredar pelo caminho da idolatria, e boa parte dos que obedeceriam o fariam por meras formalidades religiosas externas , o que levou o próprio Deus a se queixar muitas vezes (Is 29.13). Obedecer é uma atitude louvável. Mas com que motivação estamos obedecendo? Não esqueçamos que Deus conhece e considera as intenções por trás dos atos.

II. DESOBEDIÊNCIA, A CAUSA DA MALDIÇÃO

1. A quebra da aliança. “Será, porém, que, se não deres ouvido à voz do Senhor, teu Deus […], então sobre ti virão todas estas maldições e te alcançarão: [...]” (Dt 28.15ss). As pragas descritas no capítulo 28 de Deuteronômio causam arrepios a qualquer leitor e incluem horrores sociais e morais, doenças físicas e psicológicas, tudo previsto para acontecer na comunidade israelita caso quebrassem a aliança desobedecendo a Deus. Como já comentei acima, era uma ralação bem contratual: as ricas bênçãos já estavam previstas e viriam automaticamente em caso de obediência, mas, por outro lado, as maldições viriam naturalmente caso os mandamentos divinos fossem infringidos. Era a lei da retribuição, tanto no sentido positivo quanto no negativo.

2. A maldição da idolatria. A idolatria é o pecado mais grave cometido contra Deus. Este pecado consiste em atribuir a outrem a honra que é só Dele (ver Is 42.8). A nação de Israel foi constante e severamente advertida a este respeito, porém incorria frequentemente no absurdo da idolatria e só deixou definitivamente de praticá-lo depois do Cativeiro Babilônico. Existem várias maneiras de se praticar idolatria, aberta ou sutilmente, porém a mais atual é praticada pelos adeptos da Teologia da Prosperidade e consiste em “tirar Deus do seu lugar de Soberano”, querendo fazer Dele um meio para se atingir um fim. Ou seja, Deus não é buscado pelo que é , como um fim em si mesmo, mas é buscado para se atingir um fim qualquer que, nesta lógica, teria mais importância que Ele. Essa teologia é blasfema e deve ser rechaçada, porque oferece a ideia de um Deus instrumentalizado.

III. A OBEDIÊNCIA E SUAS LIÇÕES

1. A Bênção como instrumento de proteção. Enquanto obedecessem a Deus, a bênção do Senhor protegeria Israel contra doenças, pragas, pestes e contra todos os seus inimigos (28.7). Porém a proteção prometida por Deus precisa ser cuidadosamente analisada, para ser compreendida dentro de todo o Contexto Escriturístico, para não lançar o devoto na fantasia de que o temor a Deus pode ser usado como um escudo hermético contra todos os males inerentes a esta vida. Primeiramente consideremos que as promessas de Deuteronômio 28, da maneira como estão definidas ali, só podem se restringir àquela nação, para aquele momento, pois a Bíblia inteira é categórica em afirmar que os justos não estão isentos de provações (Sl 34.19; Jo 16.33). E também se imaginarmos que Deus contemplará com todas aquelas bênçãos aos que obedecem à Sua Palavra, estaremos pressupondo que as terríveis maldições do mesmo capítulo acometerão, hoje, aos desobedientes, e não é o que temos visto. Aliás, mesmo naquela época, havia nações, como o Egito por exemplo, que, apesar de serem pagãs e idólatras, eram muito prósperas.

Decerto que os que andam em desobediência a Deus estão debaixo de sua justa indignação e sofrerão consequências terríveis (Rm 1.18), porém não é possível precisar a dimensão disso nem dizer que acontecerá nesta vida. O que temos visto no presente século é que tudo sucede a todos do mesmo jeito; e mesmo situações intrigantes em que, muitas vezes, ímpios prosperam na sua impiedade, e justos perecem na sua justiça, como já acontecia nos tempos de Salomão (Ec 8.14; 9.1,2) e de Asafe (Sl 73). Porém, no Novo Testamento, temos a maravilhosa promessa de Jesus que compara quem ouve e pratica sua Palavra ao homem sensato que edificou sua casa sobre a rocha, resistente contra todos os vendavais da vida (Mt 7.24,25). Em contrapartida, o Mestre compara os que não Lhe obedecem ao homem insensato que edificou sua casa na areia, a qual não tardará a ruir (Mt 7.26,27).

2. No período tribal e monárquico. Após a morte de Josué, uma nova geração que não conhecia experiencialmente ao Senhor começou a andar segundo os seus próprios caminhos e cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos (Jz 2.10,11; 21.25). O Livro dos Juízes começa o período tribal e registra cerca de 325 anos em que a história de Israel transita entre períodos de desobediência ao Senhor, o que resultava em punições por meio de nações opressoras, e períodos de arrependimento nacional com a consequente intervenção divina para livrá-los de seu inimigos. Os juízes, homens que Deus levantava para livrar Israel, funcionavam como chefes militares e magistrados civis.

No período monárquico, mormente a partir do final do reino de Salomão, Israel vive um tempo de intensa idolatria e injustiças sociais, é quando entra em evidência um intenso ministério profético. Como observa o pastor José Gonçalves, os profetas bradavam ao povo e aos governantes num combate ferrenho contra os pecados sociais e religiosos de Israel, pois, para eles, nenhuma prosperidade era legítima se fosse alcançada às custas dos menos favorecidos (Is 58.7)2.

Nos dias atuais, com a vergonhosa concentração de renda que assola o nosso país e o mundo, em que as injustiças sociais são gritantes, a missão da igreja não deve se circunscrever à pregação do evangelho, mas também precisa denunciar as injustiças sociais como grandes promotoras de bolsões de pobreza e atraidoras da indignação divina.

3. A falsa ideia sobre maldição. O ensino heterodoxo da “maldição hereditária” tornou-se uma epidemia no meio evangélico brasileiro e tem sido duramente combatido por renomados apologistas da fé. Hoje, não tem a mesma força de antes, mas ainda continua aí. A ideia central desse ensino é a crença de que alguma maldição não quebrada seria a causa da falta de prosperidade na vida do crente, sendo, portanto, necessária uma libertação plena através de rituais inventados para este fim - em alguns casos, chega-se a recorrer à regressão psicológica ou espiritual. O texto áureo dos defensores da ideia é Êxodo 20.5 onde Deus afirma que visita a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração. Este ensino tem gerado muita paranoia em em alguns cristãos. Qualquer coisa de ruim que acontece na vida, vão procurar uma maldição como provável causa. Entre os renomados contestadores dessa heresia, está o pastor Ricardo Gondim, cuja refutação transcrita abaixo nos basta.

Uma das mais insidiosas heresias que tem surgido nas igrejas nesses últimos dias diz respeito à quebra de maldições familiares. Acredita-se que os pecados, alianças e padrões estabelecidos pelos antepassados podem exercer maldições sobre filho, netos até a terceira ou quarta geração. Alguns,mais cautelosos, quebram regressão regredindo até a décima geração. O texto mais usado é Êxodo 20.5 […]. Ora, se é Deus quem age, visitando a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração, como se quebra a maldição de Deus? Certamente não é com uma repreensão verbal. A maldição da lei foi quebrada na cruz do Calvário e todos os que se apropriam da vitória de Cristo ficam livres de todos os débitos que tinham acumulados contra eles (Cl 2.14-15). (Ricardo Gondim. O Evangelho da Nova Era, apud Gonçalves, Josué. A Prosperidade à Luz da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 44).

CONCLUSÃO

O mundo onde habitamos é um grande campo de possibilidades para todas as pessoas: coisas ruins ou boas podem nos acontecer a qualquer momento. A Bíblia, porém, não nos dá respaldo para afirmamos que o sofrimento é sempre resultado de desobediência e maldição nem que prosperidade material é sempre sinal de bênção de Deus. O que temos visto no presente século é que tudo sucede a todos do mesmo jeito; e mesmo situações intrigantes em que, muitas vezes, ímpios prosperam na sua impiedade, e justos perecem na sua justiça, como já acontecia nos tempos de Salomão (Ec 8.14; 9.1,2) e de Asafe (Sl 73). Porém, no Novo Testamento, temos a maravilhosa promessa de Jesus que compara quem ouve e pratica sua Palavra ao homem sensato que edificou sua casa sobre a rocha, resistente contra todos os vendavais da vida (Mt 7.24,25). Em contrapartida, o Mestre compara os que não Lhe obedecem ao homem insensato que edificou sua casa na areia, a qual não tardará a ruir (Mt 7.26,27).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Na encruzilhada Vieira de Morais – Gil Eanes*

O dia de hoje é um rol de normalidades que acontecem mecanicamente, assim como o de ontem, anteontem e daí por diante. A única coisa que aparece nova é a motivação para a crônica de cada dia, não o ato em si, porque escrever sobre qualquer coisa já virou algo corriqueiro, mas refiro-me ao movimento da percepção afinada em busca do inusual que se esconde no prosaico. Escrever crônica é este movimento ocular para além da superfície; nas palavras de Sabino, “é buscar o pitoresco e o irrisório no cotidiano de cada um, ou de nós mesmos”. Deveras, encontrar o pitoresco nos fatos cotidianos é a arte de atribuir aos fatos o pitoresco de nossas próprias interpretações. Nossas próprias interpretações: é só isso que aparece como novidade.

Sete da manhã. Estou numa guarita malcheirosa de um prédio da Telefônica para trocar a farda da empresa por minhas próprias roupas e encerrar mais uma noite longa de trabalho. Seu Nélson, companheiro que todas as manhãs tem a incumbência de me soltar, ainda não chegou; aliás, de há muito tempo, ele só chega atrasado. Faz um frio danado. O vento gélido entra pelas frestas da janela à minha frente. Eu já estou aqui há bastante tempo, imóvel, sem coragem para me trocar, parado em frente à pequena janela que propicia boa visão da Rua Vieira de Moraes. Olho as pessoas passarem, apressadas, transitando na encruzilhada Vieira/Gil Eanes, todas bem agasalhadas, trajando casacos de frio, algumas de meias e toucas, andam apressadamente como que fugindo de algum mal e logo se dispersam em várias direções na busca dos mais diversos objetivos. Juntam-se e se dispersam. Não se cumprimentam, não parecem se importar com o destino uns dos outros, ou porque são indiferentes mesmo ou porque, no fundo, já sabem aonde levarão os caminhos que todos palmilham. O curioso é que, dali a algumas horas, a maior parte deles voltará pelo mesmo caminho e no dia seguinte todo o processo se repetirá, e nos dias posteriores, como se estivessem andando em círculo. Aliás, viver é isso mesmo: este andar em círculo que começa e termina no mesmo ponto da estrada.

O que vejo é uma diminuta parcela da enorme máquina de trabalho que produz e movimenta a riqueza da imponente Cidade de São Paulo. Massa automatizada, heterogênica e disforme, não se define por esta ou aquela nacionalidade e naturalidade. É possível, em uma única encruzilhada, ver representações de todas as partes do Brasil e outras regiões do mundo. Aliás, Se eu tivesse a capacidade de diferenciar os transeunte pelas características locais de cada um , apontaria brasileiros de todos os cantos deste grande país no cruzamento Vieira/Gil Eanes: nordestinos, sulistas, gente do Leste e do Oeste , identificáveis por seus traços peculiares. Mas o intrigante é que, ao mesmo tempo que se podem distinguir na individualidade, misturam-se e se perdem no coletivo, como no paradoxo “pessoas impessoais”, de sorte que somente por grande esforço, pode-se apreender que aquele indivíduo é jovem , velho, homem ou mulher; e esta senhora arrastando uma criança , e aquele senhor de pasta na mão, e aquele cidadão de bengala. A atenção involuntária só vê massa. Os indivíduos são traços quase imperceptíveis de uma grande figura geométrica.

O que significa este caminhar em círculo? Será que o indivíduo que se perde na massa tem alguma importãncia e faz qualquer diferença? Não gosto de perder a oportunidade de lembrar o sábio Salomão. Foi ele quem disse, há cerca de três mil anos, ao atentar para o absurdo da existência : “Vaidade de vaidade, tudo é vaidade. Que proveito o homem tem de todo o seu trabalho que faz debaixo do sol, se uma geração vai e a outra vem, mas a terra para sempre permanece?”. Parece-me que o sábio tinha razão, porque, neste ciclo inevitável de vida, células se transformam, se debelam e morrem; e essa geração que transita a encruzilhada Vieira-Gil dará lugar a outra geração que por sua vez dará lugar a outra e outras... Mas, por hora, todos preferem se ocupar desse corre-corre para não dar conta disso.

Absorto nesses pensamentos, sou despertado pelo ranger da porta da guarita. Seu Nélson chegara para me libertar das agruras de mais uma noite de trabalho. Daqui a pouco, eu também me juntarei à massa, para logo me dispersar. Também sou parte.


* Viera de Moraes e Gil Eanes são duas ruas da Cidade de São Paulo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Psicologia hospitalar - Relação com a hospitalização

Durante todo um ano letivo em que atuei como estagiário do curso de Psicologia no Hospital São Paulo, prestando atendimento psicológico a pacientes do setor de ortopedia, fui especialmente despertado pela curiosidade de analisar como se dá a relação dos pacientes com a hospitalização, dos elementos envolvidos nesta relação e de como essa relação depende não somente dos recursos da instituição hospitalar, mas também, e principalmente, do repertório de recursos que os pacientes trazem de suas próprias vivências, como visão de mundo, história de vida, estrutura familiar, religiosidade, etc., e como esse recursos ajudam ou prejudicam na relação com a hospitalização e interferem no enfrentamento da doença. O interesse em escrever sobre o assunto em apreço me surgiu a partir da percepção de diferenças gritantes que percebi entre as reações à doença e ao ambiente hospitalar de diversos pacientes que atendi, bem como nas implicações dessas reações na adesão ao tratamento e consequente recuperação.

A experiência com estes pacientes e as discussões sobre suas reações ao internamento com alguns profissionais da equipe interdisciplinar ampliaram a minha compreensão sobre a necessidade de olhar além do doente e do ambiente hospitalar para atingir a integralidade do indivíduo. Resolvi olhar o tema em apreço sob três perspectivas: 1) As implicações da doença e da hospitalização na vida do sujeito; 2) O repertório de recursos internos do doente como facilitador ou inibidor de sua relação com a hospitalização e enfrentamento da doença; 3) Estratégicas psicoterápicas.


1. As implicações da doença e da hospitalização na vida do sujeito

Primeiramente, deve-se considerar que o ambiente hospitalar é desconcertante e gerador de muita ansiedade, independente de qual seja a estrutura do indivíduo hospitalizado. Como observa Fighera e Viero (2005), a internação hospitalar pode contribuir para o sentimento de ruptura com a vida diária e como a perda da autonomia do paciente […], implicando numa série de sentimentos de desconforto e propiciando um processo de despersonalização. Há ansiedade pela incerteza, tanto relacionada à doença como ao desenrolar do tratamento, e pela sensação de solidão, impotência e desesperança, temor e auto-desvalorização. Feridas emocionais mal cicatrizadas podem se abrir e fantasmas persecutórios podem se agigantar, dificultando o engajamento no tratamento e o enfrentamento da situação.

Em segundo lugar, consideremos que a qualidade do atendimento hospitalar pode encorajar ou desencorajar a boa relação do paciente com a hospitalização, uma vez que cuidar do doente demanda trabalho diligente de uma equipe multidisciplinar, a fim de que o indivíduo tenha acolhimento integral nos aspectos médicos, subjetivos e sociais.

Para Silva, Garcia e Farias (1990), as dificuldades de adaptação [ao ambiente hospitalar] acontecem no momento em que o paciente não é atendido adequadamente em suas necessidades básicas, agravando com isso as sensações de isolamento e angústia pré-existentes. Portanto, nem sempre a relação ruim do paciente com a hospitalização deve-se à própria estrutura deste, mas pode ter origem na precariedade do serviço prestado.

Em terceiro lugar, não podemos desconsiderar que a qualidade e intensidade das reações dos indivíduos à hospitalização tendem a variar conforme as características das doenças e suas implicações psicológicas no comportamento do indivíduo. Há diagnósticos que são avassaladores e, portanto, lançam o indivíduo numa prostração total, podendo ativar mecanismos de defesa próprios da situação de luto e da natureza da enfermidade – entre esses mecanismos estão o de negação, que pode levar o paciente a negar a realidade da situação; minimização, que pode levar a reduzir a gravidade da doença; e pensamento mágico, que o faz acreditar que um ritual reverterá seu quadro – isso nos leva a ponderar que nem todo otimismo e engajamento correspondem à realidade, alguns têm origem patológica.

Sendo assim, um passo importante para se analisar a relação do paciente como a hospitalização e seu consequente engajamento no enfrentamento da doença consiste em lançar o olhar sobre aspectos objetivos da hospitalização e natureza da enfermidade, como os considerados acima.

2. O repertório de recursos internos como facilitador ou inibidor da relação paciente/hospitalização.

Fongaro e Sebastiani (2000), ao proporem um roteiro de avaliação psicológica aplicada ao hospital geral, abordam a importância do levantamento de dados sobre a estrutura psicodinâmica da personalidade da pessoa (tendências biófilas ou necrófilas), bem como de sua história de vida, considerando que o sujeito doente não se circunscreve a um diagnóstico, prognóstico ou técnicas de intervenção, mas sim de indivíduos doentes. Um olhar atento para historicidade deste indivíduo dará a perspectiva da relação ser-em-si e ser-no mundo, o que possibilitará a compreensão do conteúdo latente e manifesto das queixas do paciente.

A partir da perspectiva aclarada pelos autores supramencionados, durante os atendimentos ao pacientes do setor de ortopedia, permiti-me lançar o olhar para além do doente, da hospitalização, dos sintomas e natureza da doença, para alcançar o indivíduo contextualizado e então compreender a dinâmica singular do paciente na relação com a hospitalização. Notei em dois pacientes que atendi uma bagagem de recursos internos que trouxeram para a internação que se somaram aos recursos do hospital; esses pacientes se agigantavam diante da situação (um fala da religiosidade e estrutura familiar, outro se vale do vasto conhecimento, de sonhos ainda não realizados, etc.) e demonstravam ótima relação com a hospitalização, que se traduzia no bom convívio tanto com os colegas de quarto, como com a equipe multidisciplinar de saúde.

Em contrapartida, atendi três pacientes que apresentavam uma pobreza muito grande de recursos internos, com discurso muito objetivante e um sistema imunológico prejudicado por profundas feridas emocionais, o que os lançava numa vala de desmotivação, dependentes dos recursos hospitalares somente. A relação com a hospitalização era precária, aliás, havia recomendação da equipe médica para que se prestasse atendimento psicológico especial àqueles pacientes. Lancei-me numa verdadeira caminhada com esses pacientes por entre suas vivências para tentar descobrir a razão da dificuldade de relacionamento na situação hospitalar e de adesão ao tratamento, e descobri uma paisagem nada motivadora de famílias desbaratadas, relacionamentos pessoais ruins, características anti-sociais, descrença na vida e ausência de espiritualidade.

3. Estratégia psicoterápica

A partir da experiência acima referida, comecei a aquilatar o real valor do psicólogo no contexto hospitalar, assinalando que ao psicoterapeuta cabe resgatar a integralidade do indivíduo, perdida no recorte de sua condição de doente hospitalizado, que tende a reduzi-lo a mero conjunto de sintomas, reaver a historicidade de suas vivências, distinguir e avaliar os pontos positivos e negativos que possam influenciar na relação com a hospitalização e na consequente adesão ao tratamento, bem como fortalecer aspectos positivos, levando o paciente a ressignificar suas vivências de maneira que favoreça o enfrentamento da situação e o torne corresponsável no processo de restauração de sua saúde.

Conclusão

Um dia, um médico, ao comentar sobre uma paciente, exclamou: “É impressionante a força e entusiamo que ela tem ante as adversidades, o que ajuda muito no combate à doença”. Passei a pensar nessa afirmação em cada atendimento que fazia. Os recursos internos dos pacientes são, de fato, um forte aliado dos recursos hospitalares no combate à doença.  Feitas essas considerações, podemos discorrer sobre a importância da boa relação com a hospitalização no enfrentamento da doença e da consequente recuperação, bem como sobre o quanto o repertório interno que o indivíduo traz de fora do hospital, o que abrange sua maneira de significar o mundo e as suas vivências, pode ser um poderoso aliado ou inibidor dos recursos hospitalares no enfrentamento da doença, o que pressupõe que o tratamento do doente, além da objetividade dos recursos tecnicos-medicinais, envolve repertório muito grande de recursos subjetivos.

Bibliografia

♦Fongaro e Sebastiani, RW. Roteiro de Avaliação Psicológica Aplicado ao Hospital Geral . In: ANGERAMI, Camon (org). E a Psicologia Entrou no Hospital. São Paulo: Pioneira, 2000.

♦FIGHERA, Jossiele; VIERO, Eliani Venturini. Vivências do paciente com relação ao procedimento cirúrgico: fantasias e sentimentos mais presentes. Rev. SBPH, Rio de Janeiro, v 8, n. 2, Dec 2005.

♦Silva, M.L.; Garcia, E. & Farias, F. (1990). A Doença - Aspectos Psicossociais e Culturais - Manifestações e Significados Para a Equipe de Saúde. Revista Enfoque, 18 (2), 31-33.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

VELHA CHÁCARA

 


Manuel Bandeira


A casa era por aqui...

Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
Mas o menino ainda existe.