domingo, 19 de dezembro de 2010

"São as finanças, estúpido"

artigos | artigo cientifico
Hoje precisei entrar numa agência bancária para pagar contas. Já há algum tempo eu não fazia isso. Trata-se de uma agência da periferia de um desses bancos populares que, por distar quilômetros de distância de outras agências mais próximas, recebe todos os moradores da região. Logo na entrada, as pessoas se apinham tetando convencer a porta automática de que a sua presença não representa perigo. Para isso expõem tudo o que trazem nas bolsas, sob os olhares curiosos de outros clientes. Os guardas, impassíveis, observam com olhar perscrutador. Parece que todo mundo desconfia de todo mundo. Abro minha mochila e retiro as chaves de casa, uma caneta e o celular, o que logo convence a porta de que sou boa gente.

Enquanto espero na fila, fico olhando o movimento frenético das pessoas. Clientes se misturam com funcionários - do próprio banco ou prestadores de serviço - uns pedindo e outros fornecendo informações. Homens trajando uniformes verde-escuros, com um malote não mão, entram, assustados, como se fugindo ou acautelando-se de um mal invisível. Há os que falam no celular o tempo todo, e alguns usam fones tão diminutos para tal que mal se pode perceber que estão usando o celular, apenas os vemos falando sozinhos. Fico imaginando que há alguns anos, na cidade onde eu nasci, falar sozinho era, para as pessoas daquela localidade, um dos sintomas da loucura. Hoje este preconceito já não existe. Qualquer pessoa pode jogar palavras ao vento, ainda que em lugares propícios à loucura, frequentados por gente de estado psicológico comprometido, a primeira hipótese levantada é a de que está falando no celular. E alguns conseguem traduzir muito bem os sentimentos e reproduzir situações no tom da voz e nos gestos que apresentam enquanto conversam com o outro, distante, por meio do aparelho sem fio. Uns traduzem indignação, gritando, outros reproduzem momentos de discussões e brigas, gesticulando, contraindo a musculatura do rosto, e há também os que externam paixões e desejos sexuais reprimidos, afrouxando o tom da voz. E cada um conversa aparentemente sozinho, sem interlocutor à vista. À primeira compreensão, são monólogos, permeados por pausas, as quais, desconfia-se, são determinadas pelo momento em que o outro lado está falando. Há algum tempo, um professor de Psicopatologia pediu aos seus alunos que tirassem uma foto em qualquer lugar que passasse a ideia de loucura. Ocorreu-me que aquele era o cenário propício.

Mas todos aqui têm algo em comum: acertar sua situação financeira, pagar suas contas. Os atendentes, os atendidos, os que sacam dos caixas, os que pagam aos caixas, os vigilantes que entram com sacolas vazias e saem com as mesmas cheias de dinheiro, todos convergem para o mesmo fim: resolver a situação financeira, ou seja, pagar as contas. Lembro-me do slogan que, em 1992, viabilizou a eleição de Clintom à presidência dos Estados Unidos: “É a economia, estúpido”. É esta Economia (com “E” maiúsculo mesmo), que se promove como personificada, autônoma, onipotente, que determina o jeito de viver das pessoas. Parece que ela está numa posição transcendental, independente, enquanto que todos os mortais dependemos desesperadamente dela.

De repente uma cena absurdamente contrastante me salta aos olhos. Uma senhora de aproximadamente 65 anos começa uma conversa que me soa familiar. Volto a atenção para o que ela está dizendo, e tudo o mais que acontece vira pano de fundo. Ela está tentando evangelizar o seu colega de fila, um senhor que aparenta a mesma idade dela, enquanto uma outra senhora, impaciente, observa. A evangelizante diz, virada para o lado oposto da fila, que o único jeito de salvar a alma é aceitar Jesus como único e suficiente salvador. A fila anda, enquanto a mulher, absorta na sua mensagem, era avisada por alguém que a fila andou e ela devia acompanhar. A senhora se corrige e continua insistindo. O seu ouvinte parece já impaciente, não contra-argumenta, mas esboça inquietação. “Tem que aproveitar enquanto a porta da graça está aberta”, insiste a mulher. “Depois que o Espírito Santo sair daqui, não tem mais jeito” continua. O alvo direto daquele sermão olha para os caixas, um dos quais logo o chamará, como quem vendo neles a tábua de salvação, enquanto que a mulher se apressa, sabendo que tem pouco tempo, uma vez que logo ela também será chamada por um dos caixas. Lembro-me de tê-la ouvido pronunciar a última frase ao seu evangelizando: “a porta da graça vai se fechar”, quando o caixa número 2 acendeu a luzinha, pondo fim ao sermão e libertando o ouvinte.

Que cena desoladora, deprimente... uma mulher empreendendo toda a sua força para anunciar o maravilhoso evangelho, mensagem que não cai bem em um ambiente como este. Aliás, em que ambiente a mensagem da salvação cai bem hoje em dia? Que contraste: as pessoas tentando pagar suas contas, fazer empréstimos, resolver suas vidas aqui e agora, e alguém falando de salvação da alma e vida eterna! De que mundo era aquela admirável senhora? Em que igreja ela deve congregar? Será que não percebeu ainda que as pessoas de nossa sociedade capitalista não querem salvação para a alma? Elas querem é pagar suas contas, as contas pelos recursos e conforto do mundo moderno. E ela não percebeu ainda que até mesmo a igreja já se conscientizou disso e adaptou o discurso, empurrando a mensagem salvífica para o escanteio?

Voltando ao slogan que elegeu Clínton, fico pensando: na sociedade hodierna, não é a salvação da alma nem a esperança de vida eterna... são as finanças,estúpido (a).

Voltei para casa lembrando a pergunta milenar de Jesus: “Quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?”












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