sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma pequena consideração sobre o bem e o mal.

Ultimante tenho me debruçado sobre alguns princípios da filosofia estoica. Acho que tenho me conduzido pela reflexão ocasionada por grandes perdas e revezes sofridos: lutas, luto,doença, perseguição, frustração etc. Gosto da compreensão estoica de mundo, apesar de nem sempre concordar com ela. 


Entre os conceitos dessa filosofia, vejo com simpatia o princípio da Apatia: qualidade do homem justo e sábio de não resistir à vontade do Logos, princípio divino que a tudo determina com justiça e perfeição absoluta. Para os estoicos, o mundo é ordenado com perfeição, de maneira que todas as coisas acabam contribuindo para um propósito final. Dessa forma, considera-se que, numa perspectiva cósmica, o mal, em absoluto, não existe. Não, não estou dizendo que concordo com qualquer determinismo na ordem do mundo e nas ações humanas, nem que não existe o mal, isso tiraria de nós a responsabilidade por nossos atos. Apenas pego carona em parte do pensamento estoico para dizer que não dá para julgar, de imediato, se qualquer coisa que acontece pode ser reputado como um grande bem ou um grande mal. 

Numa perspectiva cósmica ou mesmo eterna, que circunstâncias poderiam ser  reputadas como um bem ou um mal para nós?  A gente não sabe. Por isso os estoicos nos orientam a que procuremos não sofrer tanto com as circunstâncias. Ou seja: conservar ceta apatia em relação aos acontecimentos. A orientação está de acordo com a declaração tranquilizadora de Jesus que diz: "O que faço, vocês não intendem agora, mas entenderão depois". Aliás, as recomendações bíblicas, principalmente neotestamentárias, vão nesse sentido, às quais também tenho recorrido. Retomando as palavras de Jesus, e
sse "depois", quanto tempo leva? Não sabemos.

Lendo a história de José do Egito, o hebreu que foi cruelmente vendido como escravo pelos irmãos, por causa da predileção que Jacó, o pai, tinha por ele, uma verdade me saltou das páginas.  Vi que o amor e cuidado exagerados de Jacó por José (um suposto grande bem) podiam lhe oferecer uma túnica de várias cores e uma posição de liderança em casa. A inveja dos irmãos ( suposto grande mal) lhe conduziu ao trono do Egito. Cara, a vida é muito louca. Não estou justificando as ações malévolas de seus irmãos nem jogando no demérito o amor de seu pai, só estou dizendo para a gente sofrer menos querendo compreender essas coisas que acontecem. Temos uma tendência a julgar precipitadamente as peripécias da vida. 

Lembro-me de um paciente que me contava as peripécias da vida com muita graça e sabedoria, apesar de eu saber que havia sofrimento. Um dia, lhe propus que a vida era um livro com capítulos ruins e bons e fiz a seguinte pergunta: "Quando você está lendo o livro de sua vida, em que capítulos você costuma empacar, nos capítulos ruins ou nos bons?" Ele deu um meio sorriso e respondeu: "Josafá, ruim é café com sal, coisa que não tem nenhum proveito. Agora no tocante ao que me acontece, não tem como eu definir se é um bem ou um mal". Antes que eu pensasse, ele completou: "O capítulo final do livro ainda não foi escrito".  

terça-feira, 28 de novembro de 2017

De que serviria um mundo sem a graça do evangelho?

Às vezes fico me perguntando como os nossos pais conseguiram viver sem INTERNET e essas tecnologias modernas, da mesma forma que também me questiono como que os nossos antepassados distantes conseguiram viver em um mundo sem o EVANGELHO e a graça que ele opera. Tenho a impressão de que o mundo sem INTERNET era solitário e vazio. Um mundo sem o EVANGELHO seria horroroso.
Li no livro Maravilhosa Graça, do Piliph Yancey, sobre alguém que disse ter saído da igreja porque viu ali pouca graça, mas que voltou para a igreja porque não conseguiu achar graça em lugar nenhum. Perfeito. Somente a igreja é portadora do Evangelho da graça, missão que lhe foi outorgada por Cristo. Mas claro que não estou me referindo essencialmente a denominações, a prédios, não, refiro-me à comunidade cristã espalhada por todo o mundo, mas que ganha visibilidade nas igrejas locais. Somente a igreja tem essa mensagem de um Deus que nos amou a tal ponto de ele mesmo decidir nos salvar pelos seus próprios méritos, não havendo nada de meritório em nós. Essa graça se espalha mundo afora naquilo que alguém denominou nuanças de graça divina sobre um mundo caído, tendo a comunidade dos santos como canalizadora. 
Em certa ocasião alguém questionou: "Para que serve uma cidade se nela não há uma escola ou uma igreja?" Eu pergunto: Para que serviria um mundo sem a GRAÇA  do EVANGELHO? 

sábado, 27 de maio de 2017

Saber ilimitado ou vaidade?

Sempre vi com alguma desconfiança esses intelectuais que opinam excessivamente sobre uma infinidade de assuntos e têm respostas e opiniões assertivas para todos os fenômenos, esses cujas opiniões não têm espaço para expressões como "eu não sei" ou "tenho dúvidas" ou "não falo porque não é da minha alçada".  

Outro dia, olhando esses vídeos virais da internet, em que pessoas bem conceituadas, intelectualmente falando, opinam sobre tudo e todos. voltei a atenção para alguns professores que têm uma opinião “segura” e fechada sobre todos os assuntos acerca  dos quais são questionados, assuntos que vão desde religião até politica nacional e internacional, passando, entre uma coisa e outra, por refugiados, cracolândia, corrupção, felicidade, amor, igrejas neo-pentecostais etc.

        É impressionante o saber desses que a mídia chama de "professor". Tudo bem, não há como não se espantar com a capacidade de armazenamento de memória deles. Citam fatos e nomes históricos, recentes e distantes, fazem referências às teorias mais diversas, nos campos da filosofia, psicologia, sociologia, teologia e política como se estivessem lendo numa enciclopédia. Se você correr para o Google a fim de conferir a veracidade do que estão citando, vai encontrar tudo de acordo com o que disseram. Porém o que me causa espécie é o fato de que esses caras sabem opinar seguramente sobre tudo, o bem e o mal, com possibilidade zero de serem sequer questionados por seus interlocutores. Eles sabem se Dória acertou ou não com a invasão da cracolândia, se o presidente acertou ou não recorrendo ao exército para proteger o patrimônio público de manifestantes enraivecidos, se a decisão do juiz foi ou não acertada em relação ao réu, se Jesus era ou não o Filho de Deus, se a virgem Maria casou ou não virgem e se Maomé deixou ou não descendentes.
  
Meu Deus, é possível saber de tudo o tempo todo com tanta certeza? Ou esses caras são iluminados e estão alumiando multidões com a sua luz ou já perderam, de há muito, os limites da vaidade humana, a  ponto de não terem mais bom senso para reconhecerem que, diante de alguns assuntos, melhor recorrer a especialistas da área do que sair por aí falando sobre coisas que não conhecem só porque a massa ignara aplaude. Entre uma coisa e outra, permito-me o benefício da dúvida.

Lembrei-me do pastor Ezequiel, homem simples e sábio. Eu estava ministrando uma aula de teologia uma vez, e ele era um dos meus alunos voluntários. Confesso que me empolguei na aula. Falei de tudo que me veio à cabeça com convicção e assertividade que a segurança do momento me permitiu. Respondi todas as perguntas que os alunos fizeram e não dei margem para réplica. Senti-me senhor do saber.

No final da aula, pastor Ezequiel se aproximou com o jeito que lhe é peculiar, parabenizou-me pela aula e sussurrou-me que eu havia cometido apenas um erro na ministração. E completou que o grande erro que um professor pode cometer é achar que somente ele sabe das coisas, que toda a sua plateia é ignorante ou menos sapiente. Antes que eu digerisse isso, ele emendou: “Cuidado, tem muita gente boa te ouvindo”. Santo remédio.

Bom, é o que tenho pensado ultimamente ouvindo esses caras que têm resposta para tudo.