domingo, 5 de março de 2017

Oseias: quando o povo adoece e quando Deus decide curá-lo

          Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Os 6.1-3). 

INTRODUÇÃO

           Oseias começou a profetizar nos últimos anos do reinado de Jeroboão II e terminou no começo do governo do rei Ezequias. Foi o único profeta do Reino do Norte que teve sua profecia escrita e o último profeta deste reino.  
Foi uma época de instabilidade política, crise social e religiosa, Israel desceu aos mais baixos níveis de corrupção moral e espiritual: adoração profana dos cananeus, edificou imagens de escultura e fundição, queimou suas crianças nas chamas do baalismo e lançou-se na abominável prática da prostituição cultual. É nessa conjuntura que Deus levanta o profeta Oseias para mostrar o quanto Deus ama o seu povo, apesar de sua rebeldia e obstinação.
O Reino do Norte reino durou 253 anos, 09 dinastias, 19 reis. Nenhum deles foi piedoso e a maioria teve morte violenta.

I. A doença espiritual de Israel
Em todo o volume do livro de Oseias, encontram-se espalhados os sintomas que caracterizam a morbidade espiritual da nação, os quais estão ajuntados a seguir.

Sintomas:
►Esquecimento de Deus (2.13). Tem sempre um substituto para ele.
►Falta de conhecimento (4.1).
►Falta de verdade (4.1).
►Incontinência (o vinho, o mosto) tirava a inteligência (4.11).
►Indiferença.
►Simpatia por sacrifício e holocausto em lugar de juízo e misericórdia (6.6).
►Os reis e príncipes tinham programado os ouvidos para se alegrarem com a mentira dos súditos (7.3).
►Ingenuidade, pomba enganada, sem entendimento (7.11).
►Dá fruto para si mesmo (10.1).
►Ingratidão (11.1).

Todavia, não obstantes os sintomas supracitados sejam graves, o pior de tudo era o não reconhecimento da doença por parte de Israel (Israel era orgulhoso). Comparando-se com Judá, esta nação irmã tinha lampejos de arrependimento que redundaram em algumas reformas espirituais. Mas Israel adoeceu de maneira irreversível.  Seu orgulho o fazia entender que estava tudo bem. Estavam como a igreja de Laodiceia: achavam que estavam ricos, fartos, e que podiam prescindir dos cuidados de Deus (Ap 3.22).

II. Iniciativa divina de sarar Israel. Alguém já comentou que no livro de Jó Deus parece assentado no banco de réus; em Oseias ele aparece no divã, olhando para Israel e perguntando: “Como pode?”
Ele está clinicando a chaga moral e espiritual de Israel e colhendo nenhum resultado. Ele usa inicialmente três métodos de despertamento de consciência:

1. Deus verbaliza a situação de Israel. Advertência por meio da palavra falada, o ministério dos profetas. Mas quando se está com a consciência cauterizada, não adianta a eloquência do sermão, todas as palavras bonitas se perdem ao vento.  

2. Deus dramatiza para chamar a atenção Israel. O casamento de Oseias com uma mulher da vida duvidosa, por ordem divina, é um retrato da gravidade da situação. Essa mulher, após ter se casado com o profeta, comete infidelidade conjugal indo após seus amantes. Da mesma forma, Yahweh estava se sentido como um marido traído. Parece uma ilustração melodramática? Pode ser. Mas Deus queria chamar a atenção do seu povo. Mas a insensibilidade de Israel não lhe permitia ser atraído por este gesto impressionante de amor divino.

3. A disciplina corretiva. Israel seria duramente punido pela sua rebelião contumaz. Seus filhos seriam levados como cativos para a Assíria de onde nunca mais voltariam, e onde seriam definitivamente curados da idolatria. A disciplina aparece ilustrada nos nomes dos três filhos de Oseias com sua mulher infiel.

Jezreel – Deus espalhará. Israel espalhado entre as nações.
Ló Ruama – Não compadecida. Cessou o tempo da compaixão, o castigo já estava determinado.
Ló Ami – Não meu povo. Aquela nação fora rejeitada por causa da obstinação na idolatria.  
                                                                                       
III. Yahweh é o restaurador de seu povo (Os 6).

1. Um último e desesperado apelo para que Israel volte ao Senhor.
          “Vinde e tornemos para o Senhor” (6.1). A princípio, uma excelente decisão, o que tem conexão com o versículo 15 do capítulo anterior: “Então voltarei ao meu lugar até que eles admitam sua culpa. E eles buscarão a minha face; em sua necessidade eles me buscarão ansiosamente” (5.15). Trata-se, ao que tudo indica, de um apelo do profeta, ao qual o povo não atenderá. Mas a verdade gritante do texto é que a cura só começa com um retorno ao curador e que somente o Senhor pode restaurar o seu povo.
                        
2. O médico que fere para curar.
          Porque ele despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Deus é soberano e vai trazer seu povo a si ainda que use, se preciso, o remédio mais amargo. Ele não desiste. Por isso, entendemos que Ele tem objetivos mesmo nas feridas abertas naquelas que são objetos de seu amor. Mesmo quando Ele fere, faz por amor.A reflexão nos leva aos seguinte enunciados:

Deus é médico de corpo, de alma de espírito. O salmista diz que ele conhece a nossa estrutura... (Sl 103.14).  Ele  é o Senhor que sara (Ex 15. 26), de todas as enfermidades.  
►A cura começa com a manifestação de sintomas e termina com um retorno ao curador. Então é Deus quem começa. Como posto por Jó,  é ele quem abre a ferida, mas ele mesmo a trata; ele fere, mas com suas próprias mãos pode curar (Jó 5.18).
►Uma pessoa ou nação  nunca mais será a mesma após ter uma ferida aberta e fechada pela mão de Deus. Ele mexe nas entranhas.
►Deus, às vezes, tem uma maneira peculiar e paradoxal de curar: ele sara ferindo.  A lição primordial aqui é que Deus fere para curar. Como diria um pensador: “O caminho da cura pode ser a doença”.

3. Um tempo para a cura acontecer. Depois de dois dias nos dará vida; ao terceiro dia nos ressuscitará e viveremos diante dele [...]. Somente depois de manifestados os sintomas, forçado um arrependimento, sarada a ferida, Ele nos dará vida, e só assim...  Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.

4. O conhecimento de Deus como resultado da cura
Não se trata de um conhecimento técnico e intelectual, é conhecimento experimental. Tem a ver com comunhão, fé, obediência e adoração. A falta de conhecimento denunciada pelo profeta significa falta de fidelidade e de temor a Deus.

5. A fidelidade de Deus (v. 3). “Como a alva será a sua saída, e Ele a nós virá como a chuva serôdia que rega a terra. Tão certo como a aurora anuncia a chegada de um novo dia, assim sairá Yahweh para restaurar o seu povo”.

CONCLUSÃO

Oseias nos ensina que a fidelidade de Deus é sempre maior que a capacidade do homem de pecar. Que o Senhor restaura o seu povo, ainda que tenha que usar o remédio mais amargo. Ele faz por amor. “Ele despedaça e sara, faz a ferida e a ligará”.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Sobre a condição humana e a misericórdia de Deus

Hoje, falando para um grupo de jovens, consideramos o quanto a condição humana é desesperadora e o quanto é grande a misericórdia divina. A gente precisa se apropriar dessa verdade, reconhecendo esta nossa condição e apelando para o grande amor de Deus, para nos libertar de um perfeccionismo obsessivo que nos fizeram acreditar ser o meio para um grau inatingível de pureza. Não que a gente não deva primar por viver de forma correta, mas é que o tentar viver uma vida correta não pode descambar para uma aversão doentia àquilo que nós mesmos somos,sentimento muito em voga no universo religioso-cristão. Dentro dessa perspectiva inatingível de santidade, se pisarmos na bola, não faltará castigo divino.

Há pessoas que compreendem o Criador do universo como se ele fosse uma daquelas divindades belicosas gregas, com raios nas mãos para, num surto de mau humor, massacrar os humanos. Não consigo imaginar uma Divindade assim por uma simples razão: que louvor teria Deus em subir ao pódio por ganhar uma luta contra mim?  Acho que qualquer pessoa ganharia de mim sem muita dificuldade. A glória na luta está em se nocautear um adversário à altura. Quem estaria à altura de Deus? "Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele? Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se reto me disser, então, me declarará perverso" (Jó 9.19, 20).

Essa divindade belicosa, em guerra com os humanos, é uma criação da igreja influenciada pela mitologia pagã, mormente a grega. Acredito em um Deus justo sim, que não tem o culpado por inocente, mas sem essa predisposição alardeada por alguns para confrontar e abater seres humanos cuja condição é tão miserável. Aliás, Jesus apresentou este Deus nas páginas do Novo Testamento, que nós podemos chamar de Pai nosso, um Deus que espera ansiosamente pelo filho pródigo-ingrato que arrebentou o coração do Pai quando preferiu o mundo a Sua casa. Quando o pródigo retorna, este Pai corre e pula no pescoço do filho numa explosão de alegria (Lc 15.11 ss). 

Por isso que Jesus exalta a súplica humilde do publicano e censura, por outro lado, a oração do autoconfiante fariseu (Lc 18.9). Enquanto este agradecia orgulhosamente por não ser como os demais homens, aquele esmurrava o próprio peito em reconhecimento das próprias misérias e pedindo misericórdia ao Pai. O que caracteriza a oração do publicano é reconhecimento do que Deus é em relação a nós,  e do que nós somos em relação a Deus. É a oração sincera do desespero com a própria condição. Ela não chega a ser pensada e articulada, ela explode do peito, rasga a gargante e ecoa. Vai na mesma direção da Súplica cearense, do compositor Gordurinha, uma das mais belas orações de todos os tempos: [...] "Senhor, eu 'pidi' para o sol se esconder um 'tiquinho'/ 'Pidi' 'pra' chover, mas chover de mansinho / 'Pra' ver se nascia uma planta no chão [...]". Relata o desespero do agricultor por uma chuva que nunca vem e o seu lancinante desabafo diante de uma Divindade que não responde, sem meias palavras. 

Por falar em orações belas, porque tiradas do fundo de um coração sincero que conhece a própria condição desesperadora e se joga nos braços da misericórdia divina, transcrevo abaixo uma das preces mais lindas que já vi, talvez só perca para o salmo 51. Chama-se confiança na misericórdia divina, do poeta português Bocage. O poeta, no desespero de não conseguir vencer a si mesmo, aos próprios sentimentos e pensamentos, à beira do precipício moral (porém ainda lutando contra si), apela para a compaixão de um Deus justo, misericordioso e bom, conhecedor profundo da complicada condição humana. Cada verso ecoa fragilidade versus misericórdia. 

Confiança na misericórdia divina

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada.

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza:
Fingem-Te então com ímpeto, e braveza
Erguendo contra nós a destra armada.

Ó almas sem acordo, e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!… Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.

Bocage


  

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A PROVISÃO DE DEUS NO MONTE DO SACRIFÍCIO

INTRODUÇÃO

O capítulo 22 do livro de Gênesis relata, de forma dramática, a experiência mais difícil da vida de Abraão. O patriarca foi provado no limite de sua capacidade quando Deus lhe ordenou que oferecesse seu filho Isaque em holocausto.  Sua fé, amor e obediência seriam testados como o ouro no forno, revelando muito mais da grandiosidade deste homem e do caráter providencial de seu Deus. O resultado dessa extrema prova de Abraão que o levou a cunhar uma das expressões mais bonitas da Bíblia, o que viraria ditado em Israel depois dele, ditado para ser evocado em tempos difíceis: Deus proverá. Na aula de hoje, extrairemos preciosas lições a partir de três verdades factuais no episódio de Moriá: A primeira é a prova suprema da fé e obediência de Abraão; a segunda é a teologia da providência divina; a terceira é a constatação de que existe uma ponte entre o Moriá e o Calvário.

I.                    FÉ PARA SUBIR O MONTE DO SACRIFÍCIO

1. Abraão é provado. 

E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui (Gn 22:1).

Lloyd Ogilvie, ao discorrer sobre a história de Abraão, divide didaticamente a vida deste patriarca em três fases: 1) uma chamada à fé, 2) o exercício dessa fé e 3) a prova definitiva dessa fé. A terceira fase foi o mais severo teste na vida de Abrão. Após longos anos de amizade com Deus, das muitas experiências de livramentos miraculosos, da constante insistência divina para que Abraão cresse na promessa de que teria um filho por meio do qual se cumpriria a promessa de que Abraão seria pai de multidões, depois do cumprimento dessa promessa na gravidez de uma Sara estéril e idosa, com o posterior nascimento de Isaque, estranhamente Deus ordena a Abraão que suba o monte do sacrifício para imolar seu filho em holocausto. Nestas lancinantes palavras:

“Tome o seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali em holocausto num dos montes que lhe indicarei” (Gn 22.2).

Fico imaginando as indagações que permearam a cabeça do velho Abraão. O que significa isso? Pedir-se-ia tamanho sacrifício de alguém? Deus também compactua com as práticas de sacrifício humano dos cananeus? Incorreria o Senhor num contrassenso, pedindo em sacrifício aquele que é o cumprimento da promessa que me fez?  A dilaceração emocional, a confusão psíquica e o desafio à fé eram demais para suportar. Todavia, Abraão vai, contrariando toda lógica humana, obedecer a ordem divina, dando prova de sua inquestionável fidelidade e devoção ao Seu Amigo e legará com seu ato a beleza e grandiosidade de uma afirmação reveladora  de uma das mais belas manifestações nominais de Deus: YHWHjireh, ou seja, O Senhor Proverá.

Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos (Gn 22:7,8).

Você pode notar que Abraão não entendia nada do que estava acontecendo, mas ele se guiava pela convicção de que Deus tinha controle absoluto da situação e proveria todas as coisas ao seu tempo. Esta é a natureza da fé que leva a subir ao monte do sacrifício. Esta fé é também uma provisão-presente de Deus. Nas palavras de Lloyd Ogilvie:

Abraão e Sarai teriam um filho. Abraão achou muito difícil acreditar em tal coisa. Sua idade já atingia a casa dos cem anos, e a de Sarai, a dos 90 anos. Foi então que o Senhor que lhe providenciou um presente, que é dado com liberalidade a todos os que ousam arriscar-se: o dom da fé.[1]

2. Um pedido que beira o limite da capacidade humana. Qual o limite da capacidade e fé de um crente para lidar com as duras provações da vida? Qual o potencial que ainda guardamos após acharmos que não podemos mais? A experiência de Abraão lança luz sobre essas questões fundamentais da vida de fé. Deus estava pedindo o que ele tinha de mais importante (seu único filho), para que ele oferecesse da forma mais dilacerante possível (holocausto), em circunstância totalmente confusa (Isaque era o cumprimento da promessa). Deus deu um presente e depois o pediu de volta.

Ouvi alguém dizer que Deus gosta de exercitar grande fé por meio de grandes provas. Como posto pelo pastor Elienai Cabral, a prova a que Abraão foi submetido fez com que ele chegasse ao máximo de sua capacidade espiritual e emocional. [2] Mas Deus não permite que seu servo seja tentado acima de sua capacidade (1Co 10.13). Quando ele pede é porque sabe que o fiel tem condição de dar. Quando prova, faz porque sabe que o crente tem condição de suportar. Ele sempre providencia o escape em companhia da tentação.

II.                PROVA NO MONTE DO SACRIFÍCIO

1. Amor, obediência e fé no monte do sacrifício. Abraão foi provado em três aspectos de seu caráter em relação a Deus: amor, fé e obediência. Primeiramente em relação ao seu amor a Deus. Ele amava o Senhor acima de todas as coisas? Será que Isaque, filho de sua velhice, tinha um lugar proeminente em seu coração? Havia, porventura, o patriarca esquecido que a sua amizade com Deus precedia o amor que tinha pelo filho? O grande desafio da prova de Abraão era mostrar para Deus e para ele mesmo o que era o centro de sua vida. Mais tarde, o grande mandamento da lei seria: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento” (Lc 10:27). 

O segundo elemento era a obediência do patriarca que estava sendo testada. Obediência é um ato que envolve reconhecimento de dependência, de soberania e senhorio do outro a quem se deve obediência. Nem sempre entendemos ou concordamos com a ordem recebida, mas somos movidos pelo princípio de que o servo obedece, porque teme, ama e confia no seu Senhor. O velho Abraão não compreendeu nada, estava confuso, o coração fora traspassado pelo pedido de Deus, mas ele não tinha alternativa, só podia obedecer.

Em terceiro lugar, o pedido divino era a prova definitiva da fé de Abraão. O patriarca já havia vacilado na fé em alguns momentos. Quando desceu ao Egito, pôs em risco a integridade de Sarai dizendo que ela era sua irmã e não esposa. Posteriormente, atropelou o plano de Deus para a sua vida, tendo um filho com sua escrava Hagar, imaginando que a promessa se cumpriria por meio deste filho ilegítimo. Mas as  experiências o haviam feito crescer e amadurecer na fé, pois em todos os momentos, as intervenções de Deus o salvaram. Por fim, o que parecia impossível e irrisório aconteceu: Deus lhe deu um filho na velhice. Tudo isso contribuiu para a percepção do patriarca de que Deus é absolutamente confiável. Agora, diante da ordem divina para imolar o seu filho, Abraão não podia vacilar. Mesmo não compreendendo, mesmo dilacerado, diante da aparente confusão e paradoxo, precisava confiar que o Eterno sabia o que estava fazendo, que tudo fazia parte do plano. E aí vale ressaltar que a verdadeira fé resulta em obediência. Tiago afirma que Abraão foi justificado por este ato de obediência (Tg 2.21).

2. O clímax da prova. A viagem até a região de Moriá durou cerca de três dias. Quantos pensamentos, quantas indagações, angústias permeavam o coração de Abraão a cada passo do caminho. Quanto clamor silencioso por uma intervenção de Deus. “Abraão, era só um teste, pode voltar”. Mas nada da voz divina. Finalmente a chegada ao local indicado. A separação dos moços que o acompanhavam. A justificativa que usou para aquela separação.

“Eu e o jovem vamos subir para adorar e depois tornaremos a vocês”. Adorar naqueles idos primitivos significava fazer um culto que envolvia sacrifícios cruentos. Um rito em que a garganta de Isaque seria cortada, seu corpo despedaçado, os pedaços do corpo seriam arrumados sobre a lenha e queimados até virar cinzas.

Agora somente pai e filho começam a subir o monte em silêncio. “E tomou Abraão a lenha do holocausto, pô-la sobre Isaque, seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos” (Gn 22:6).

De repente, Isaque quebra o silêncio com a pergunta mais dilacerante que um filho poderia fazer a um pai naquele momento. Acostumado ver a maneira como os sacrifícios de animais aconteciam, percebeu, inocentemente, que havia alguma coisa errada: “Meu pai! eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” (Gn 22:7). 

Acredito que Abraão respondeu como que impensadamente. É aquela resposta que vem do coração e não da mente. Ele não teria coragem de dizer ao menino que ele, o filho, seria o sacrifício. Era pedir demais para um pai. Então sua resposta saiu automática, dramática, das entranhas de um coração permeado por confiança, perplexidade e angústia: “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Gn 22:8).

Costumo chamar de “uma resposta para quando não se tem reposta”. Como uma frase que virou praticamente um mantra no meio cristão: “Deus sabe de todas as coisas”.  A gente fala isso quando está dilacerado pela dor da perda, sem entender nada do que está acontecendo. Champlin observa que os intérpretes judeus consideram que Abraão falou como profeta, pois sabia no seu subconsciente que Isaque seria poupado, enquanto que outros entendem que Abraão falou em tom de desespero, como se quisesse dizer: “Logo descobrirás, meu filho, que tu mesmo serás o sacrifício”.

3. O momento decisivo da prova. Às vezes acontece de a gente está indo para algum lugar, mas não querer chegar. Enquanto caminhava monte acima, ainda havia um resquício de esperança em Abraão de que uma intervenção radical de Deus poria fim àquela caminhada horrorosa, que ele não chegaria ao lugar crítico e dramático do sacrifício. Mas cada passo encurtada a distância e, numa proporção inversa, sua angústia e ansiedade cresciam. Finalmente chegaram. Vai começar o ritual horrendo. O pai prepara o altar, arruma a lenha, amarra o filho querido sobre o mesmo, examina o cutelo reluzente e o move ao alto, para finalmente descer sobre o pescoço do menino. Os animais do sacrifício eram amarrados para que não fugissem, mas Isaque não ofereceu nenhuma resistência. Naquele último segundo, pareceu, de fato, ao velho patriarca que a esperança de uma intervenção divina que permeou seu coração durante todo o macabro trajeto acabara ali. Mas eis que, no último momento, no limite, na linha tênue entre a morte e a vida, surge a intervenção de YHWHjireh, o Senhor que provê. Com que excepcional graça o sacro escritor narra a intervenção divina!

Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde os céus, e disse: Abraão, Abraão! E ele disse: Eis-me aqui. Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho. Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho. E chamou Abraão o nome daquele lugar: o Senhor proverá; donde se diz até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá. (Gn 22:11-14).

Consigo imaginar o rosto de Abrão. A explosão. O êxtase. A prostração depois de uma pressão quase insuportável. É como se a ficha houvesse caído: “Ah, era isso! No fundo eu sabia”. Será mesmo que Abraão sabia que nunca fora a intenção de Deus que um ato tão horrendo fosse executado? Claro que ele não sabia. E é nisso que reside o fato de que a sua fé foi provada no limite de sua capacidade. Mas, o que dá mais graça ainda à história é que, no fundo, ele sabia. A vida com Deus é assim mesmo, meio paradoxal: é “um não saber consciente” misturado com “um saber que procede do coração”.

III.             JESUS, O CORDEIRO DE DEUS NO MONTE DO SACRIFÍCIO

Havia uma cruz no coração de Deus quando ele interveio em favor de em favor de Abraão e curou a síndrome do pecado através do sacrifício de Jesus Cristo na cruz.[3]

Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se (Jo 8:56).

1. O sacrifício do Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Existe uma ponte entre o Moriá e o Calvário. O escritor aos hebreus afirma que os rituais do Antigo Testamento eram sombra da realidade futura (Hb 8.5. 10.1). Na verdade, tudo apontava para Cristo, o assunto central das Escrituras. No caso específico aqui estudado, Deus tinha um propósito muito grande em submeter Abraão àquela experiência dramática: queria retratar o drama da cruz, ou seja, o sacrifício de seu Filho, Jesus, no monte Calvário em favor da humanidade (Jo 3.16). Ademais, há os que acreditam que a resposta de Abraão a Isaque foi profética. Sendo assim, Deus cumpriu o “Deus proverá” de Abraão no Calvário, quando proveu o Salvador.

Moriá é um tipo do Calvário. Abraão é uma figura do Pai eterno levando seu único Filho, Jesus, para o sacrifício. Isaque é uma figura do Filho de Deus que, calado, deixou-se conduzir ao local do sacrifício. Há quem diga que Isaque é também uma figura da humanidade poupada, substituída na morte do Cordeiro de Deus. O animal preso pelas pontas é figura da provisão de Deus, que providenciou o Cordeiro para morrer em nosso lugar. Por isso dizemos que o sacrifício de Cristo foi vicário. Decerto, a grande diferença que separa Moriá – a sombra, do Calvário – a realidade concreta, é que o filho de Abraão foi poupado, mas o Filho de Deus não. O que ele não permitiu a Abraão fazer, ele mesmo o fez, conforme atesta Ogilvie:

“Acima de tudo, nossa atenção se volta para outro monte: o Calvário. Ali, Deus fez o que era na realidade impossível. Ele deu o seu próprio Filho como sacrifício pelos pecados de todos os povos, em todas as gerações. O que Ele não exigiu de Abraão exigiu de si mesmo, oferecendo Jesus para que pudéssemos conhecer o seu supremo amor e perdão.”  [4]
2. A justificação e reconciliação mediante o sacrifício do Cordeiro. Toda a teologia veterotestamentária aponta na direção de um Cordeiro que seria morto para propiciação pelos pecados. Essa teologia já está em Gênesis, quando Deus mata um animal para, de sua pele, providenciar vestes para Adão e Eva (3.8,21). Porém a figura de um cordeiro sacrificado como parte do drama da redenção humana remonta à páscoa (Ex 121-13), quando Deus veria o sangue aspergido nos umbrais das portas dos filhos de Israel e “passaria por cima” (livraria da morte) daqueles protegidos pela sua marca; ou mais precisamente no dia da Expiação (Lv 16), quando o sacerdote impunha as mãos sobre o sacrifício e, simbolicamente, transferia a culpa dos filhos de Israel para o mesmo.

A figura do animal morto como meio de expiação no Antigo Testamento é transferida a Cristo no Novo. João Batista disse que Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Paulo se refere a Jesus como a nossa páscoa (1 Co 5.7). Pedro declara que fomos redimidos “com o sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pe 1.19). Felipe explica a um eunuco que a passagem de Isaías, que tratava de um servo que seria levado como um cordeiro ao matadouro, era uma referência a Cristo (At 8. 26ss). Nas regiões celestiais, o Leão da tribo de Judá é louvado como o Cordeiro que fora morto (Ap 5.9). Portanto, por meio do sangue de Cristo, fomos reconciliados, perdoados e justificados (Rm 5.1). Jesus é a providência de Deus no Calvário. 

CONCLUSÃO

Moriá só pode ser compreendido olhando-se para o Calvário. No primeiro monte, Deus providenciou um animal para morrer em lugar de Isaque. No segundo, Deus proveu o Cordeiro, seu próprio Filho, para morrer em favor da humanidade. Há uma ponte entre Moriá e o Calvário.  




[1] OGILVIE, Lloyd John. O Senhor do Impossível. São Paulo: Vida, 2009. P. 25.
[2] In Revista CPAD (professor): O Deus de toda a provisão. 4º trimestre 2016, p. 29.
[3] OGILVIE, Lloyd John. O Senhor do Impossível. São Paulo: Vida, 2009, p. 33.
[4] Ibidem.