domingo, 27 de março de 2011

A VELHA CASA

                                                       
No belo poema Velha Chácara, Manoel Bandeira, absorto nas recordações de sua infância, desabafa: "A casa era por aqui/ Onde? procuro-a e não acho...”. O poeta voltou ao lugar de seus tenros dias, mas, entristecido, percebeu que “a usura fez tábula rasa da velha chácara triste". O progresso que acompanha os anos havia passado por ali e transformado tudo em resíduos de memória. Com exceção do murmúrio de um antigo riacho, nada mais havia de concreto para avivar as cores das recordações. E quando não há referências concretas a partir das quais a memória possa retomar o passado, a recordação fica pálida e sem vida. Porém diante do objeto concreto, resíduos e ruínas ganham novos contornos pela excitação da memória, a qual, excitada, tem o potencial de pintar com cores nítidas as lembranças.

Eu dei mais sorte que o poeta. Foram quinze anos ausente, além de mais quinze que a casa já não me servia de morada; mas, de regresso, eu pude dizer: A casa ainda está aqui, e não precisei procurar para encontrá-la. Não só a casa, mas o espaço à sua volta permanece como nos velhos tempos - com pequenas alterações, é claro, pois tudo muda o tempo todo, mas o essencial ainda estava lá. Encontrei algo de concreto para excitar as lembranças. A estrada ladeada pelo oitão da casa e pelo canavial desafiou a nevasca do tempo. Olhei-a até perdê-la de vista e tive a impressão de ver poeira com as marcas dos pés que, na época, calçavam 32. O pé de abacate, imponente, no quintal da casa, encontrava-se lá, inamovível, imperturbável, indiferente. Seus galhos não envelheceram, apenas adquiriram contornos mais grossos. Olhei-o, focado, e vi um menino brincando em seu galhos, e a criança não me parecia estranha. Vale para o pé de fruta-pão as mesmas considerações sobre o abacateiro.

Logo na curva da estrada da frente, o pé de jacas tem a propriedade de ser insuscetível ao vai-e-vem dos anos. Reparei cuidadosamente para ver se as suas folhas verdes ainda eram as mesmas que deixei e, balançadas pelo vento – o mesmo vento? –, pareciam me dizer que sim. Cheguei a ouvir barulhos de crianças brincando à sua sobra.

Logo abaixo, na encosta da montanha, o riacho de sussurro eterno, indesviável de seu percurso, fez reviver um som esquecido nos recoônditos mais escuros da memória. Era um som que destova ligeiramente do murmúrio presente, mas era o mesmo, a mudança ocorrera nas faculdades perceptivas do observador.

Como diria o poeta, a memória está estreitamente fundida com as vozes do antigo riacho, com os olores das flores , com tudo o que está por aí, contido nos objetos. Todos esses elementos concretos, agora confrontados com os sulcos representativos da memória remota, trazem à superfície um mundo rico, exuberante, em cores tão vívidas... e eu não sei se é a paisagem que se transporta para as recordações e toma forma em seus sulcos ou se são as recordações que se projetam na paisagem e a impregnam dos resíduos de felizes tempos que não voltam mais. Nessa fundição não consigo mais me encontrar. É arrebatador.