quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A ATUAÇÃO SOCIAL DA IGREJA

3º trimestre de 2011
Subsídio para lição 10

Leitura bíblica: Isaías 58.6-8,10, 11; Tiago 2.14-17


TEXTO ÁUREO

“[...]Vinde, benditos de meu Pai […], porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedaste-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).

INTRODUÇÃO

A preocupação com o bem-estar de todo ser humano é uma constante na Bíblia Sagrada desde os dias do Antigo Testamento (Lv 23.22; Dt 15.11; Sl 41.1). No Novo Testamento, se evidencia de forma gritante nas ações de Jesus, o qual andou fazendo o bem e libertando todos os oprimidos (Lc 4.18; At 10.38). Finda a sua missão terrena, o Filho de Deus transferiu à sua igreja, como parte de sua missão, o auxílio aos carentes, ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós”, e seus seguidores imediatos não descuidaram de sua responsabilidade social. Portanto a atuação social da igreja, socorrendo os pobres em suas diversas necessidades e promovendo meios de transformação da realidade social, diferente do que pensam muitos, não é um desvio de sua missão, mas parte intrínseca dela. Nos ensinos e ações de Jesus, está patente que seus seguidores têm o dever (não a opção) de minorar o sofrimento humano, considerando o homem em sua totalidade: corpo e alma-espírito. Uma igreja que apenas se importa com a salvação da alma, não atentando para outras necessidades básicas dos indivíduos, sem dúvida é uma igreja alienada de sua real missão.

 
POBREZA: UMA REALIDADE SEMPRE PRESENTE NO MUNDO

O fenômeno da pobreza é universal e atemporal, presente em todas as nações, apesar de se manifestar mais severamente hoje nos países subdesenvolvidos. Apesar do considerável desenvolvimento econômico mundial nas últimas décadas, de uma conscientização geral por melhor distribuição de renda e das mobilizações de ativistas em países desenvolvidos em favor de nações extremamente pobres, a pobreza ainda atinge proporções dramáticas no cenário mundial. Estima-se que 1 bilhão e 100 milhões de indivíduos vivam em pobreza extrema, passando com menos de um dólar por dia. Cerca de um bilhão de pessoas passam fome e mais de 800 milhões vivem subnutridas. Anualmente, cerca de 18 milhões de vidas são ceifadas por razões relacionadas com à pobreza, sendo a maioria mulheres e crianças. Todos os anos, cerca de 11 milhões de crianças morrem antes de completarem 5 anos. 1

No Brasil, segundo o Censo do IBGE 2010, somam-se 16,27 milhões de pessoas os que vivem em situação de extrema pobreza, o que representa 8,5% da população, numa taxa de extrema pobreza que atinge quase um brasileiro a cada dez”.2 São pessoas sem acesso mínimo a serviços que ofereçam qualidade de vida, como saúde, moradia e educação, sem um mínimo de dignidade.

Esse quadro social pintado no Brasil e no mundo, com desníveis sociais tão perversos, de extremos alarmantes em que alguns enriquecem cada vez mais enquanto muitos vivem à margem da sociedade em total indigência, tenta nos fazer pensar que Deus não se importa, que o mundo está entregue à ganância dos poderosos. Mas Deus se importa tanto que deixou seu representante neste mundo, a igreja, coluna e firmeza da verdade, para denunciar as injustiças e influenciar as sociedades. Ele não está indiferente, Ele está esperando a igreja agir.

MEIOS DE EXERCER A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No livro Ação Social Cristã, o pastor Hélcio da Silva Lessa classifica a responsabilidade social em três categorias: assistência social, serviço social e ação social. Para melhor compreensão da aula, vamos ver sucintamente a definição de cada uma delas.

1) Assistência Social. O que é conhecido como assistencialismo ou paternalismo, busca atender às necessidades emergentes das pessoas. A pessoa atendida, objeto da ação, encontra-se numa situação de total dependência e, mesmo havendo o suprimento de suas necessidades, as suas carências continuam.

2) Serviço Social. Aqui, a pessoa carente recebe condição para interagir e melhorar sua situação, recuperando a dignidade e confiança. Projetos sociais tendo como alvo o ensino, a orientação, o apoio e a profissionalização promovem a capacitação do indivíduo a fim de que este se torne responsável pela solução de seus problemas.

3) Ação Social. Procura transformar as estruturas da sociedade, buscando a criação de bases mais justas. Neste sentido, é muito importante que seja criada uma consciência cívica no meio evangélico, que leve cristãos aos órgãos públicos que estão diretamente relacionados com a infra-estrutura sócio política do país (do Manual de Ação Social/ Igreja Metodista).

Então, quando falamos de atuação social, isso não se restringe apenas ao campo do assistencialismo (assistência social), mas tem a ver também com educação, saúde, distribuição de renda e emprego.

QUESTÕES SOCIAIS NO ANTIGO TESTAMENTO

Havia na comunidade israelita do antigo Testamento um profundo senso de responsabilidade social. A Palavra de Deus determinava que os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos fossem assistidos e socorridos em suas necessidades básicas (Dt 15.7-10; Lv 19.10; 23.22; Ex 23.11). Vejamos como Deus, que nunca deixou de se preocupar com a dignidade humana, estabeleceu medidas econômicas e sociais para o seu povo, a fim de que os mais abastados assistissem os pobres, visando relações justas entre eles.

1) O ano Sabático (Lv 25.1-17). A cada sete anos, o solo deveria ser liberado para descanso e renovação da terra, os escravos seriam libertados, os endividados, perdoados, os trabalhadores tinham direito a descanso e os pobres tinham o direito de colher para eles mesmos do fruto da terra (23.10,11).

2) A lei do jubileu (Lv 25.8-34). Entre outras coisas, determinava que, a cada cinquenta anos, os escravos seriam libertados, todas as dívidas seriam perdoadas e as terras seriam devolvidas aos seus antigos donos. Essas medidas evitavam a concentração de riquezas (diga-se de terra), promoviam a redistribuição dos meios de produção e evitavam situações extremas de dívidas, pobrezas, desapropriação e miséria.

3) Dízimos e colheitas (Dt 14.22-29; Lv 19.9,10). Os dízimos de toda a produção agrícola se destinavam, entre outras coisas, para o sustento dos órfãos, viúvas e estrangeiros. Em relação a colheita, a Palavra de Deus determinava: “E quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás...” (Lv 23. 22). Tais procedimentos protegiam os estrangeiros e evitavam a pobreza extrema no meio do povo. Rute, nora de Noemi, foi beneficiada por esta lei (Rt 2.2,3).

O NOVO TESTAMENTO E A AÇÃO SOCIAL DA IGREJA

Na palestina do Novo Testamento, a situação sócio-econômica da maioria das pessoas era deplorável. Quando Jesus se tornou notícia na região por seus ensinos milagres, uma turba de necessitados acorria a Ele, a fim de serem ajudados, muitos apenas para matar a fome (Jo 6.26). Eram pobres, enfermos, deficientes físicos, viúvas, crianças, idosos, desamparados, desabrigados e maltratados (Lc 14.13,14).

Destarte, a maior parte dos evangelhos ocupa-se com as ações magnânimas do Mestre de Nazaré. Ele foi, de longe, o maior exemplo de preocupação e auxílio aos necessitados, o que se evidencia tanto em seus ensinos quanto em suas obras. Pedro o apresenta como “aquele que andou fazendo o bem”. Uma de suas ricas parábolas é a do bom samaritano, o bondoso homem que arriscou sua vida para cuidar de um necessitado desconhecido com quem nem o sacerdote nem o levita se importaram (Lc10.25-37). Essa parábola ainda hoje exerce grande influência nas civilizações. Em outra parábola – sobre as ovelhas e os bodes – Jesus se identifica tanto com os pobres a ponto de dizer: “O que vocês fizeram a um destes pequeninos irmãos [os pobres necessitados], a mim o fizeram” (Mt 25.40). Ele Não podia ver os miseráveis sem se compadecer (Mt 9.36; 14.14; 20.34; Mc 10.45). Uma vez, chegou a convidar um homem rico a vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mt 19.21).

“Jesus se preocupou com o homem enquanto unidade bio-psiquica-social-espiritual. Ele curou, ensinou, salvou, consolou e devolveu a muitos a dignidade. Cuidou do ser humano por inteiro. A prática de Jesus segue uma sequência marcada pelo ver, sentir e agir. Nesse sentido, é interessante notar que nos vários encontros de Jesus com as pessoas, indivíduos ou grupos, a ação de Jesus foi marcada por uma completa coerência com seus ensinos. Por isso Pedro apresenta Jesus como ‘aquele que andou fazendo o bem”’.3

Jesus encarnou a plenitude do amor e preocupação de Deus com os pobres tão nitidamente manifesta no Antigo Testamento. A sua compaixão com os miseráveis responde a uma pergunta que é constante no coração de quem sofre: “Deus se importa?” Jesus responde que sim.

Como não poderia ser diferente, a igreja primitiva seguiu o exemplo de Jesus, seu Mestre. A grande sensibilidade de Deste para com as necessidades humanas, vemos agora nas ações daquela primeira comunidade cristã, traduzida no cuidado de uns para com os outros. Após o grande despertamento promovido pela descida do Espírito Santo (At 2), os discípulos do Senhor anunciaram veementemente o Evangelho, o que resultou num crescimento frenético do número de convertidos, os quais se organizaram numa comunidade fiel, calcada na doutrina, na comunhão, fraternidade e oração (At 2.42; 4.31; 5.42). Aqueles discípulos souberam conjugar a prática da evangelização com a prática do serviço social, esta última, parte integrante daquela.

Segundo a narrativa de Lucas, uma ação usual entre os primeiros cristãos era a partilha de bens para atender os mais necessitados (At 2.44,45; 4.34,35). Alguns deles, voluntariamente, vendiam suas propriedades para suprir as necessidades dos mais carentes, como foi o caso de Barnabé (At 4.37). Por isso, “todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum (…), não havia entre eles necessitado algum” (At 2.44; 4.34).

Na medida em que a igreja se expandia por várias regiões distantes, os apóstolos, nas cartas que escreveram às congregações, não descuidaram de incentivar o compromisso social cristão. Paulo trata da liberdade da contribuição (1Co 9.7) e elogia os macedônios por darem na medida de suas posses e ainda acima delas (2 Co 8.3). Tiago fala da assistência aos necessitados como característica inerente à religião pura (Tg 1.27) e condena abertamente os ricos que oprimem os pobres (Tg 5.1-6). João fala do socorro aos necessitados como a materialização da caridade de Deus em nós (1 Jo 3.17,18).

CONCLUSÃO

Há uma frase do famoso orador romano, Cícero, que diz: “É impossível conhecer a verdade e não ser responsabilizado”. A igreja de hoje não poderá alegar ignorância de sua missão, porque esta está muito clara no Livro Sagrado, nos ensinos e ações de Jesus, bem como nas recomendações e exortações dos apóstolos. Nós somos responsáveis.