domingo, 27 de janeiro de 2013

O jogador da vida

Ele nunca ganhara dinheiro algum no jogo e era muito consciente de suas pouquíssimas possibilidades de ganhar. Jogava pelo prazer da disputa, pela adrenalina das partidas acirradas e pela sensação extasiante de matar, de vez em quando, uma partida. Adorava olhar a cara de apreensão dos adversários que, à espera da última carta, seguravam, ligeiramente trêmulos, as nove cartas na mão, engenhosamente organizadas.

Entre as partidas que acertava e as que perdia, dizia com certa resignação ou cinismo, havia um prejuízo financeiro irreparável. Repetia que as cartas nunca foram favoráveis a ele e gostava de se referir ao que chamava de deuses da sorte e do azar, os quais pelejavam em favor de seus pupilos e contra seus desafetos no jogo. Mas era do tipo que, lá no recôndito da alma, tinha a impressão, ainda que pálida, de que um dia a persistência vence os deuses, o azar, e a vida dá uma virada.

Gostava de comparar o jogo à própria vida, ou a vida ao próprio jogo. “Tantas vezes a gente espera um ais de copa e se decepciona ao se deparar com um ais de ouro. E novamente se tem um vislumbre de um ais vermelho, e a gente confia que agora é o ais de copa tão esperado, mas, por ironia do destino, repete-se o que a gente não deseja, e mesmo diante da probabilidade duas vezes maior de acerto, dá errado”. “Mas nem tudo é negativo na vida”, ele continuava, “ o jogo também surpreende positivamente com cartas inesperadas que se encaixam entre duas outras, numa brecha apertadíssima, para formar uma sequência de jogo que, no pife, chamamos de jogo seguido. E quantas vezes, sem esperança de matar o jogo por depender de um única carta, somos surpreendidos pela sua repentina aparição na mesa e a vida retoma alento. Para ele, aí reside a graça do jogo, essas surpresas desconcertantes de tanta semelhança com a vida. Assim era ele: só conseguia explicar a vida por meio do baralho, ou gostava de explicar o baralho por meio da vida, sei lá, era tão viciado no jogo que a vida e as cartas se confundiam.

Mas ele contava uma história muito engraçada quando alguma coisa saía errado na vida - na dele e na dos outros. Era uma história fantasiosa demais para ser verdadeira, mas eu via sinceridade em seus olhos toda vez que contava. E o que mais importava não era a verossimilhança do caso, era a perfeição da ilustração. Dizia que um dia, num jogo que durou a noite inteira, não ganhou uma partida sequer e, àquela altura, todo o suor de uma semana de trabalho tinha-lhe escapado por entre as cartas. Eram cinco horas da manhã e ele disputava a última partida com o único dinheiro que restava, partida que decidiria se ele voltaria a pé para casa ou pegaria um táxis. “Todo jogador de pife sabe que juntam-se dois baralhos para que quatro pessoas possam jogar, e que a junção de dois baralhos resulta na repetição de cada uma das cartas: duas damas de espada, duas de copa, dois sete de espada, dois de copa, e assim sucessivamente. "Porém um jogo não pode ser formado por cartas repetidas”, ele explicava aos iniciantes. A aposta da última partida era o último dinheiro que ele tinha, se perdesse, teria que andar dez quilômetros, se ganhasse, pelo menos poderia pegar um táxis.

Disse que estava com duas damas na mão: uma vermelha (de copa) e outra preta (de espada), esperando outra dama vermelha ou preta para matar o jogo, com a vantagem de que qualquer dama que caísse sobre a mesa ou que ele puxasse do baralho não poderia se repetir, pois ambas as damas, de copa e de espada, que formavam pares repetidos com as que ele tinha na mão, já haviam passado pela mesa e não podiam voltar. E ele contou com graça que, àquela altura, pensando na possibilidade de ir a pé para casa, depois da exaustão daquela noite insone, com o agravante de ter perdido todo o dinheiro, puxou, devagar, uma carta do baralho pela pontinha, repetindo aquele ritual que os que jogamos chamamos de chorinho, um apelo quase supersticioso para que a carta atenda à necessidade do momento, e vislumbrou a pontinha de uma dama vermelha. Pronto, era a carta que ele precisava, pois como não poderia se repetir a dama de copa, aquela era indubitavelmente a dama de ouro, carta com que ele bateria o jogo.

E ele terminava sua história com um tom de cinismo nobre, de uma resignação filosófica: “Puxei a carta com arrogância, na certeza inabalável de que era a dama de ouro e, para minha surpresa, era a dama de copa. Havia alguma coisa errada com aquele baralho, com a minha vida, com a vida enfim, mas nem questionei, pois àquela hora, nada importava mais. Eu teria que andar das cinco até às oito da manhã para chegar em casa".

Incrédulo no tocante à história - apesar da convicção desenhada em seu rosto quase não deixar chance para a dúvida - perguntei qual foi sua reação quando viu a carta “impossivelmente” repetida. Ele disse que olhou para cima, como que para o vazio, soltou um sorriso cínico, deu uma banana para o ar e murmurou por entre os lábios um “dane-se”. Depois vinha a parte mais importante. Ele aplicava aquela experiência à vida, dizendo que "há momentos na vida em que somente o cinismo nos possibilita dar conta da realidade, das ironias do destino, da galhofa dos deuses. É preciso rir muito, ser elegantemente cínico e fazer piadas da própria desventura se não quiser enlouquecer.