terça-feira, 9 de abril de 2013

Marcos Feliciano versus LGBT - Tieta Explica



"No fundo, no fundo, todo mundo tem um segredinho escondido, uma mania, uma tara", diz a personagem de Tieta no vídeo acima. Concordo. Nelson Rodrigues pensava de maneira parecida quando disse que se as pessoas ficassem de repente sabendo dos segredos umas das outras, ninguém se olharia na rua. A bem da verdade, a fala de Nelson sinaliza uma separação entre a vida pública e a vida privada. Na vida privada, se guardam os desejos e fantasias que os princípios sociais, acordados entre os cidadãos, pelo menos pela maioria, não permitem ao indivíduo expor publicamente. Se de repente, recebêssemos de qualquer poder supremo a liberdade para fazer o que quiséssemos publicamente, sem as barreiras levantadas pelos princípios sociais fundamentados no bom senso, a civilização não aguentaria por muito tempo o resultado das loucuras de nossas fantasias. Acho que foi o que Freud quis dizer em O MAL ESTAR DA CIVILIZAÇÃO.

Mas a gente imagina que pode tudo e julga os fatos apressadamente, influenciado pelas próprias fantasias. Tendemos a achar que  são nossos próprios desejos que nos constituem pessoas de direito - direito a satisfação dos desejos. A personagem do vídeo acima critica a sociedade por esta não aceitar que todo mundo siga seus impulsos e faça o que a natureza manda. Ao que seu interlocutor responde: "Mas não pode ser assim; imagina como seria se todo mundo saísse por aí segundo seus impulsos". É uma questão que propicia profundas reflexões: Como seria se todo mundo desse vazão aos próprios instintos?

A reivindicação irresponsável da satisfação do desejo individual ( ou de uma minoria) pode se constituir num atentado à civilização. Freud, que já citamos acima, fala de dois princípios que motiva e inibe as ações humanas: o princípio do prazer versus o princípio da realidade. O primeiro nos move a satisfação de nossos desejos e fantasias, o segundo nos impõe os limites levantados pelos princípios e padrões sociais. E o pai da psicanálise conclui que as imposições a que somos submetidos são grandes geradoras de angústias, mas, por outro lado, se não fossem essas imposições contendoras dos instintos humanos, a civilização desapareceria.

 Com base no exposto acima, eu pergunto, será que a gente pode sair por aí divulgando e realizando aos quatro ventos os segredos e fantasias que carregamos sob a alegação de respeito às diferenças e de  que os padrões socialmente estabelecidos são apenas uma construção social e podem ser mudados a qualquer momento sem uma reflexão profunda e séria sobre os possíveis resultados de tais mudanças?  Acho que o surgimento do pastor Marcos Feliciano no cenário político, com suas ideias tachadas de homofóbicas, deveria propiciar uma reflexão profunda que nos abrisse os olhos primeiro sobre os males do preconceito por um lado, e por outro, sobre os excessos de nossas liberdades, fantasias e desejos egoístas. Estas questões são  importantes demais para serem tratadas de maneira puramente apaixonante e inescrupulosa.

Sou contra todo tipo de discriminação e preconceito, pois a história já nos ensinou alguma coisa sobre seus resultados horríveis, mas também vejo com repulsa e muita preocupação os excessos das paixões e fantasias que alguns defendem em nome de uma pretensa liberdade cujo exercício põe em xeque  padrões morais secularmente constituídos, sobre os quais a própria civilização está fundamentada. 

É bem verdade que muita gente não tem ideia das feridas provocadas pelo preconceito. Mas muita gente também não tem ideia da importância dos valores morais para a sustentabilidade de uma sociedade, bem como da importância de se sacrificar as fantasias individuais em favor do coletivo. Acho que as pessoas podem fazer o que quiserem com sua própria vida, e já falei isso para alguns amigos gays que considero pessoas maravilhosas,  desde que estejam conscientes de que terão que lidar com limitações impostas pelos padrões e princípios sociais que, quando elas nasceram, já estavam em evidência por aqui. Sou a favor de que toda pessoa seja respeitada na sua individualidade, incluindo aí suas fantasias, desejos, paixões e opção sexual. No entanto, isso não tem nada a ver com transformar essas fantasias em padrões sociais a qualquer custo, à revelia da opinião de uma maioria.

Perguntaram para mim o que eu achava dessa briga entre ativistas gays e evangélicos representados pelo pastor Marcos Feliciano, quem tinha razão nesta disputa. Lembrei então de ter lido em algum lugar, faz muito tempo, sobre um jornalista que perguntou para um estadista o que ele tinha a dizer sobre a histórica revolução por que havia passado seu país. O estadista respondeu que era muito cedo para se fazer uma avaliação. Detalhe: já haviam se passado cinquenta anos. Pois é, algumas coisas levam muito tempo para mudar, e os resultados inequívocos de algumas mudanças levam muito tempo para aparecer.  O futuro vai dizer quem tinha razão nesta briga, pena que não estaremos aqui para ver.

domingo, 7 de abril de 2013

Um pouco de filosofia versus teologia

A negação da doutrina do pecado no existencialismo de Sartre

Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês cujo pensamento influenciou fortemente a cultura ocidental do século XX, um dos principais ícones do Existencialismo, acreditava que tudo o que existe vem à existência contingencialmente, ou seja, sem razão ou propósito predefinido, prolonga-se por causa da fraqueza e morre por acaso.

"A existência precede a essência" é a frase que tornou-se uma espécie de emblema do Existencialismo sartriano. Para compreender melhor o que significa, precisamos compreender bem o significado de essência. Essência é o que faz com que uma coisa seja o que é - e não outra coisa. Exemplificando, temos que a essência de de uma mesa é o ser próprio da mesa, sua natureza íntima que faz com que ela seja mesa e não cadeira. Há algo intrínseco nela que, indiferente de ser de madeira, fórmica ou vidro, pequena ou grande, a identifica como mesa. A partir deste entendimento, no texto O existencialismo é um humanismo, Sartre usa como exemplo um objeto qualquer, fabricado a partir da concepção da mente humana, algo como um livro, alicate, um corta papel, etc. Neles, diferente do que acontece com o homem, a essência precede a existência, porque primeiramente foram concebidos com um propósito previamente definido e somente depois da sua concepção, estes objetos vieram a existir. É dessa forma que a cultura judaico-cristã entende a existência humana, ou seja, um Deus Criador concebeu um modelo de criatura e, como sua mente o concebeu, o executou, como o artífice que corta o papel para dar forma a uma figura.. Sendo assim, segundo a cosmovisão judaico-cristã, o homem teria uma natureza humana encontrada igualmente em todos os homens, ou seja, apesar de todas as pessoas serem diferentes umas das outas, todas possuem um núcleo em comum: uma natureza humana. Dentro dessa concepção, seria a essência que precederia a existência.

A ideia de uma essência determinante do que somos permeou toda a filosofia moderna ocidental desde descartes. Mas o existencialismo sartriano vem na contramão desta visão afirmando que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define como alguma coisa pelas escolhas que fizer. Ou seja, o homem primeiramente não é nada, ou é apenas uma massa de modelar, informe, e só será alguma coisa depois, da maneira como a si próprio se fizer, seguindo seu próprio projeto. Destarte, segundo a filosofia da existência, não há uma natureza humana comum a todas as pessoas, visto que não há Deus para concebê-la. 

Em relação aos valores universais, cuja origem a cosmovisão judaico-cristã atribui a um Deus pessoal , justo  e santo, Sartre defendia que os valores não são nem nunca foram dados ao homem previamente, mas cabe a  ele criá-los. Para isso se utiliza da frase de Dostoiévski, Se Deus não existe, tudo é permitido (em Os irmãos Karamazov) para afirmar uma autonomia absoluta do homem para criar seus próprios valores, em oposição à ideia de valores universais preestabelecidos, e para negar a existência de qualquer realidade sobrenatural. Portanto, a negação da existência de um Deus pessoal  exclui a crença em valores sagrados e universais preestabelecidos, o que por sua vez elimina qualquer ideia de pecado e de culpa. 

Outra questão interessante discutida no existencialismo é o fenômeno da morte. Para Sartre, a morte deixa a vida órfã de qualquer sentido. São dele estas palavras: "A morte é a nadificação dos nossos projetos, a certeza de que um nada total nos espera". Com base nesse pressuposto, Sartre conclui que a existência é um absurdo e que tudo não passa de uma paixão inútil: "Se nós temos de morrer, a nossa vida não tem sentido, porque os problemas não têm qualquer solução", concepção retratada no seu famoso romance sartriano  A náusea. 

Portanto, a ideia de que a existência precede a essência, de que os princípios morais que regem o comportamento humano são criação do próprio homem e de que a morte tira qualquer sentido da vida  se soma  a uma tentativa histórica de desacreditar as principais doutrinas da Bíblia.