domingo, 7 de abril de 2013

Um pouco de filosofia versus teologia

A negação da doutrina do pecado no existencialismo de Sartre

Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês cujo pensamento influenciou fortemente a cultura ocidental do século XX, um dos principais ícones do Existencialismo, acreditava que tudo o que existe vem à existência contingencialmente, ou seja, sem razão ou propósito predefinido, prolonga-se por causa da fraqueza e morre por acaso.

"A existência precede a essência" é a frase que tornou-se uma espécie de emblema do Existencialismo sartriano. Para compreender melhor o que significa, precisamos compreender bem o significado de essência. Essência é o que faz com que uma coisa seja o que é - e não outra coisa. Exemplificando, temos que a essência de de uma mesa é o ser próprio da mesa, sua natureza íntima que faz com que ela seja mesa e não cadeira. Há algo intrínseco nela que, indiferente de ser de madeira, fórmica ou vidro, pequena ou grande, a identifica como mesa. A partir deste entendimento, no texto O existencialismo é um humanismo, Sartre usa como exemplo um objeto qualquer, fabricado a partir da concepção da mente humana, algo como um livro, alicate, um corta papel, etc. Neles, diferente do que acontece com o homem, a essência precede a existência, porque primeiramente foram concebidos com um propósito previamente definido e somente depois da sua concepção, estes objetos vieram a existir. É dessa forma que a cultura judaico-cristã entende a existência humana, ou seja, um Deus Criador concebeu um modelo de criatura e, como sua mente o concebeu, o executou, como o artífice que corta o papel para dar forma a uma figura.. Sendo assim, segundo a cosmovisão judaico-cristã, o homem teria uma natureza humana encontrada igualmente em todos os homens, ou seja, apesar de todas as pessoas serem diferentes umas das outas, todas possuem um núcleo em comum: uma natureza humana. Dentro dessa concepção, seria a essência que precederia a existência.

A ideia de uma essência determinante do que somos permeou toda a filosofia moderna ocidental desde descartes. Mas o existencialismo sartriano vem na contramão desta visão afirmando que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define como alguma coisa pelas escolhas que fizer. Ou seja, o homem primeiramente não é nada, ou é apenas uma massa de modelar, informe, e só será alguma coisa depois, da maneira como a si próprio se fizer, seguindo seu próprio projeto. Destarte, segundo a filosofia da existência, não há uma natureza humana comum a todas as pessoas, visto que não há Deus para concebê-la. 

Em relação aos valores universais, cuja origem a cosmovisão judaico-cristã atribui a um Deus pessoal , justo  e santo, Sartre defendia que os valores não são nem nunca foram dados ao homem previamente, mas cabe a  ele criá-los. Para isso se utiliza da frase de Dostoiévski, Se Deus não existe, tudo é permitido (em Os irmãos Karamazov) para afirmar uma autonomia absoluta do homem para criar seus próprios valores, em oposição à ideia de valores universais preestabelecidos, e para negar a existência de qualquer realidade sobrenatural. Portanto, a negação da existência de um Deus pessoal  exclui a crença em valores sagrados e universais preestabelecidos, o que por sua vez elimina qualquer ideia de pecado e de culpa. 

Outra questão interessante discutida no existencialismo é o fenômeno da morte. Para Sartre, a morte deixa a vida órfã de qualquer sentido. São dele estas palavras: "A morte é a nadificação dos nossos projetos, a certeza de que um nada total nos espera". Com base nesse pressuposto, Sartre conclui que a existência é um absurdo e que tudo não passa de uma paixão inútil: "Se nós temos de morrer, a nossa vida não tem sentido, porque os problemas não têm qualquer solução", concepção retratada no seu famoso romance sartriano  A náusea. 

Portanto, a ideia de que a existência precede a essência, de que os princípios morais que regem o comportamento humano são criação do próprio homem e de que a morte tira qualquer sentido da vida  se soma  a uma tentativa histórica de desacreditar as principais doutrinas da Bíblia. 

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