sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Soteriologia (a doutrina da salvação)


Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16)
 
UMA PALAVRA AO LEITOR

Durante alguns anos ensinando na Escola Bíblica Dominical minha igreja e em outras denominações evangélicas, percebi que é muito deficitário o conhecimento dos alunos sobre o assunto que ocupa o lugar central na Bíblia Sagrada e no Cristianismo: a salvação espiritual. É bem verdade que todos os cristãos conhecem muito bem a história da crucificação do Filho de Deus em favor dos homens, que “Deus amou o mundo de tal maneira que entregou o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16), mas quando questionados sobre o porquê de Deus chegar a este extremo e convidados a explicar o processo da salvação, os cristãos , na maioria das vezes, ou não sabem ou dão uma resposta muito superficial. Todavia, conhecer profundamente a soteriologia é ter consciência da gravidade do pecado, da terrível situação do homem natural, bem como do amor incomensurável de Deus, amor que não mede sacrifício. Conhecer esta verdade é o mesmo que jogar álcool na chama da gratidão, ou seja, quanto mais conhecermos a história de nossa salvação, mais teremos disposição para sermos agradecidos. Por isso, espera-se que com este trabalho, o leitor dê um salto além do simplesmente dizer que é salvo e possa compreender todos os elementos envolvidos no processo da redenção humana, mediante a obra de Cristo no calvário, para uma gratidão consciente.


INTRODUÇÃO
A doutrina da salvação (soteriologia) ocupa lugar central na Bíblia Sagrada e, por conseguinte, na religião cristã. Por isso é extremamente necessário que a igreja de Cristo a priorize em sua grade de ensino. O desenvolvimento total da revelação de Deus nas Escrituras se dá a partir do fato de que o Criador previu a queda espiritual do homem desde tempos eternos, bem como as suas deletérias consequências, e, movido de imensurável amor, proveu um meio de salvá-lo, o qual foi anunciado pela primeira vez pelo próprio Deus no livro de Gênesis (3.15), permeou todo o Antigo Testamento nos tipos e símbolos dos rituais levíticos e na voz dos profetas, reis e sacerdotes. Na plenitude dos tempos, a promessa de salvação teve seu cabal cumprimento na pessoa bendita de Jesus Cristo.. Toda a revelação escriturística gira em torno desta verdade: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).



  I. A EXTREMA NECESSIDADE DE SALVAÇÃO

Por que a humanidade necessita desesperadamente da salvação espiritual? E como podem satisfazer essa grande necessidade? Estas questões são a porta de entrada para a busca por uma compreensão mais profunda da obra redentora de Cristo. E as respostas a elas só podem ser oferecidas relacionadas à maneira correta de se compreender três verdades bíblicas: 1) o caráter de Deus; 2) a natureza da criação humana; 3) a nocividade do pecado. Como observa o teólogo Daniel B Pecota (in Horton, 1994), se Deus não fosse como a Bíblia nos revela, e não tivéssemos sido criados à sua imagem, e não tivéssemos subsequentemente caído, a salvação, conforme a Bíblia nos descreve, não teria sido possível nem necessária. Por isso o drama da redenção tem como pano de fundo o caráter santo de Deus e a natureza pecaminosa da criação humana.

1. A importância da terminologia para a compreensão do assunto. A terminologia relacionada à soteriologia, empregada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tem importância fundamental para a compreensão dessa doutrina. É corrente no vocabulário cristão o uso das palavras “redenção”, “expiação” e “propiciação”, mas nem sempre atentamos para o real significado das mesmas. Todavia a conceituação correta desses termos carrega toda a dimensão da obra salvífica de Cristo. Redimir, segundo o dicionário Michaelis, significa “libertar do cativeiro mediante pagamento de resgate”, e isso pressupõe uma situação em que um opressor cruel cerceia a liberdade de sua vítima e cobra um preço alto para libertá-la. Expiar significa “reparar (crime ou falta) por meio de penitência ou pena” (o Globo), o que pressupõe uma situação em que um réu, cujo crime não pode ficar sem punição, está sendo submetido ao rigor da lei. Ainda segundo o Michaelis, propiciar significa “tornar propício, favorável, aplacar”, e isso pressupõe uma situação em que o direito de alguém foi violado e, por conseguinte, encontra-se em oposição aberta ao infrator em uma querela judicial.

Na Bíblia, as três palavras acima definidas são frequentemente tradução dos vocábulos hebraicos kãphar e grego hilaskomai. A primeira tornou-se, entre os hebreus, um termo técnico dos rituais de sacrifício de Israel e encontra alta relevância no Dia da Expiação (Lv 16), quando o sumo sacerdote, depois de oferecer um novilho em favor de si mesmo e de toda sua casa, lançava sorte sobre dois bodes, sendo um enviado para o deserto como expiação (16.10) e o outro sacrificado. Em seguida o sacerdote espargia o sangue no animal sacrificado no propiciatório (kappõret) como expiação pelos pecados do povo (16.15-20). Note que a prática de se impor as mãos sobre o sacrifício (Lv 4.15; 1616.21) significava dizer “estou sacrificando isso em meu lugar”, ou seja, como resgate pela minha alma.

O segundo termo (hilaskomai) era usado entre os gregos com o significado de tornar as divindades favoráveis, por meio de sacrifícios que as aplacavam, uma vez que elas não tinham naturalmente boa vontade para com os homens e precisavam ser conquistadas. No uso do Novo Testamento, a ideia de tornar a Divindade favorável é a mesma; porém aqui não encontramos um Deus rancoroso, indisposto para com os humanos. Deus nunca poderia ser conquistado ou propiciado por qualquer ato de iniciativa nossa, mas Ele mesmo, segundo a sua boa vontade, provê o meio pelo qual venha a ser tornar favorável (Hb 2.17).

De posse da compreensão desses termos, vamos analisar, passo a passo, por que a salvação espiritual é tão importante para a criatura humana.

2. A natureza humana foi afetada pelo pecado

2.1 Significado etimológico. A nomenclatura bíblica empregada para referir-se ao pecado é consideravelmente vasta, como cerca de trinta raízes diferentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Em nosso estudo, porém, apenas nos valeremos dos principais vocábulos que mais satisfatoriamente expressam a ideia de pecado.

Hattha: Segundo o dicionário Vine, o substantivo hattha aparece cerca de 293 vezes e em todos os períodos da literatura bíblica e transmite o conceito de pecado que se estende tanto ao desejo pecaminoso, quanto aos atos pecaminosos resultantes dos desejos. Mas a acepção principal de hattha é a que transmite a ideia de errar alguém o alvo (155 vezes), dando a entender, portanto, que o pecador, devido a sua vontade e inteligência pervertidas, não tem condição alguma de atingir o propósito primacial da vida, que é fazer a vontade de Deus.

Hamartia: Palavra de origem grega mais comumente usada para referir-se ao pecado, que correspondente de hatha, tem também o significado original de errar alguém o alvo, o que, numa relação com a doutrina do pecado, denota que o pecador tende naturalmente a errar o alvo final da vida, ou o objetivo para o qual foi criado, da mesma que um arqueiro atira a flecha, mas não acerta o que pretende. Portanto, pecar é desviar do caminho, inicialmente traçado, é todo e qualquer ato de desobediência à Palavra de Deus. É de hamartia que vem o nome da disciplina que estamos estudando: hamartiologia.

2.2 Definição teológica de pecado. Pecado pode ser teológica sinteticamente definido como “falta de conformidade com a lei moral de Deus, em atos, atitudes e natureza (Grudem, 2001). Ou como definiu João: “o pecado é transgressão” (1Jo 3.4). Vale salientar que não se trata apenas de atos reprováveis cometidos, mas de uma predisposição inerente ao gênero humano para transgredir a lei de Deus.

Para uma compreensão mais abrangente da definição acima, faz-se necessário entendermos a doutrina da queda do homem e as suas deletérias consequências. No capitulo 3 do livro de Gênesis, encontra-se o registro da maior tragédia da história humana. Adão e Eva, representantes legítimos de toda a humanidade, induzidos por Satanás, desobedeceram à ordem de Deus, o qual, havendo-os criado, colocou-os no jardim do Éden e ordenou a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 3.16,17). Após deliberada desobediência à ordem divina, aquele primeiro casal percebeu que Deus estava falando sério e as consequências terríveis vieram.


A UNIVERSALIDADE DO PECADO

Frank Charles Thompson, numa análise profunda da carta de Paulo Aos Romanos, explica a teologia paulina, segundo a qual todo ser humano está rodeado de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (caps 1-3) e o muro das tendências pecaminosas e das concupiscências carnais (7. 15-24). Em alguns livros de teologia, os autores usam, respectivamente, as designações culpa herdada e corrupção herdada às verdades supracitadas.

1. Culpa herdada. Em Adão todos os homens são culpados diante de Deus. Este é o teor da teologia paulina na carta aos Romanos, onde o apóstolo dos gentios mostra que os seres humanos estão rodeados de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (1-3) e o muro das tendências pecaminosas e concupiscências carnais (7. 15-24). Segundo Paulo, somos pecadores por herança. No capítulo cinco de Romanos, ele explica o processo pelo qual o pecado de Adão refletiu sobre todos os seus descendentes, dizendo: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

É importante notar que, no capítulo 5, Paulo está fazendo uma comparação entre Adão, representante da raça humana, e Jesus Cristo, representante dos remidos: “Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem, muitos serão feitos justos” (5.19). No versículo 12, Paulo deixa claro que, sendo todos culpados, todos estão debaixo de uma punição severa: a morte.

2. Corrupção herdada. Uma frase bem conhecida no meio cristão diz que “nós não somos pecadores porque pecamos: nós pecamos porque somo pecadores”. Esta máxima resume toda a ideia de corrupção herdada. Os humanos são pecadores por natureza e, portanto, têm uma inclinação natural para fazer o mal. Davi disse: “Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu a minha mãe” (Sl 51.5). O mesmo Davi diz que “os ímpios se alienam desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras (Sl 58.3). Paulo, citando Davi, escreveu na carta Aos Romanos: “Como está escrito: Não há um justo, nenhum sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”(Rm 3.10-12). Esta é a situação do homem natural: está espiritualmente morto (Ef 2.1,5; Cl 2.13), e vive num estado de rebelião constante contra Deus por não conseguir fazer o bem diante Dele (ver Rm 7.15-20).

O evangelista Billy Graham ilustra em termos bem familiares o legado de Adão para a espécie humana:

Cada um de nós aqui esta noite, seja preto, branco, amarelo, vermelho, rico, pobre, qualquer língua que fale, todos estamos relacionados a Adão pelo sangue. É o sangue de Adão que corre nas veias de cada homem, seja ele quem for. E esse sangue que você tem em seu corpo leva consigo uma sentença de morte. (…)Adão se rebelou contra Deus, seu fluxo sanguíneo se envenenou e cada um de nós, como filhos e filhas de Adão, tem o sangue contaminado, e este é o problema do mundo atual – envenenamento no sangue. Nosso sangue se tornou contaminado por uma doença chamada pecado, que nos conduz finalmente à morte. (Graham, Billy. O Desafio, p.32).

3. As deletérias consequências do pecado.

3.1 O pecado impossibilitou a comunhão com Deus. Ao pecarem, a primeira atitude de nossos primeiros pais foi esconder-se de Deus, não podendo mais ter comunhão com Ele. Em contrapartida, Deus os expulsou do jardim de sua presença, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.8, 24). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaías, forma automaticamente uma parede de separação entre um Deus santo e a criatura pecadora (59.2).

3.2 O pecado resultou em morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa instantaneamente a morte espiritual, porque Deus é a vida e a luz dos homens. Morto espiritualmente, o pecador não tem condição sequer de aproximar-se de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3).

3.3 O pecado resultou em morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é o resultado direto da morte espiritual. Procuramos evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não entende é o fato de que a morte é uma sentença proferida pelo próprio Deus, como maldição pelo pecado (Gn 3.19).

3.4 O pecado causa a morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de “segunda morte”, a morte eterna é a extensão da morte espiritual na eternidade. É a eterna separação de Deus, com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física (Hb 9.27).

Obs. Quando Paulo diz que o salário do pecado é a morte (Rm 6.23), ele está se referindo à morte nas três dimensões supracitadas. Vale também salientar que a morte física foi uma porta de escape que o bondoso Deus proveu para o homem, a fim de que este não vivesse eternamente uma vida miserável de pecados; pois mesmo depois da queda, ele poderia comer da árvore da vida e viver eternamente. Deus, porém, o privou do acesso à árvore da vida para que não fizesse tamanho mal contra si mesmo (Gn 3.22,23).Todavia a cessação da existência – o que consideramos um mal necessário –, providenciado como uma porta de escape, ocasiona a morte eterna. Era triste a situação humana. A sua salvação seria um intricado quebra-cabeça. Mas Deus conseguiu montá-lo.

Por enquanto, encerramos esclarecendo a doutrina do pecado, mas pretendemos dar sequência ao estudo pelos próximos dias. Não deixe de acompanhar.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Salvação, a maior de todas as promessas bíblicas

E ela conceberá e dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1.21)

A gloriosa promessa da salvação feita por Deus à humanidade é a maior e mais importante dentre todas as da Bíblia Sagrada, é a chave que abre a porta para a concretização de todas as demais promessas divinas. Foi proferida pela primeira vez pelo próprio Deus no livro de Gênesis (3.15), permeia todo o Antigo Testamento nos tipos e símbolos dos rituais levíticos e na voz dos profetas, reis e sacerdotes. Na plenitude dos tempos, a promessa de salvação teve seu cabal cumprimento na pessoa bendita de Jesus Cristo (Jo 3.16) e tem sido anunciada pela igreja no decorrer dos séculos. É uma excelente oportunidade discorrer sobre esse assunto tão enriquecedor.


A RAZÃO DA PROMESSA

Para entendermos satisfatoriamente a promessa de salvação, sua razão e necessidade, faz-se necessário entendermos a queda do homem e as sua deletérias conseqüências. Afinal de contas, Deus nos promete salvar de quê? Vejamos. No capitulo 3 do livro de Gênesis, encontra-se o registro da maior tragédia da história humana. Adão e Eva, representantes de toda a humanidade, induzidos por Satanás, desobedeceram a ordem de Deus, o qual, havendo-os criado, colocou-os no jardim do Éden e ordenou a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 3.16,17). Após desobedecer a ordem divina, aquele primeiro casal percebeu que Deus estava falando sério e as conseqüências terríveis vieram.

1.Separação de Deus/ perda da comunhão com Ele. Ao pecarem, a primeira atitude de Adão e Eva foi esconder-se de Deus, não podendo mais se relacionar com Ele por causa do pecado. Como contrapartida, o Senhor os expulsou do jardim do Éden, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.23). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaias, é uma parede de separação entre o Deus santo e o homem pecador (59.2).

2. Morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa, instantaneamente, a morte espiritual. Morto espiritualmente, o homem não tem condição de se aproximar de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3). Acreditamos, como a grande maioria dos pensadores cristãos, que a sentença dada por Deus a Adão – a de que morreria se pecasse – alude diretamente à morte espiritual, uma vez que este não morreu fisicamente logo após ter pecado, mas somente depois de muitos anos (Gn 5.3-5).

3. Morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é resultado direto da morte espiritual. Procuramos sempre evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não quer aceitar é o fato de que ela é o resultado direto do pecado de Adão, uma sentença proferida pelo próprio Deus: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3.19).

4 Morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de a segunda morte, a morte eterna é a expansão e continuação, na eternidade, da morte espiritual. É a eterna separação de Deus com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física.

Obs. Não deixe de atentar para a reação em cadeia que o pecado provoca, num processo que começa com a separação de Deus e culmina com a morte eterna.

Diante de um quadro tão deplorável como o descrito acima, a maior e mais premente necessidade do homem seria salvar-se das conseqüências horrendas do pecado; mas ele não teria recursos próprios para isso, estando, portanto, eternamente condenado. Por esta razão, Deus, no seu infinito amor, resolveu usar os seus recursos, provendo um meio pelo qual o homem pudesse ser salvo. Depois de pronunciar uma dura sentença sobre o homem, a mulher e a serpente, o Criador vaticina: “E porei inimizade entre ti [a serpente] e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Anunciava-se pela primeira vez a o plano da redenção. O diabo, que dera um grande golpe derrubando o primeiro homem, mais tarde sofreria um golpe fatal desferido por outro Homem.

Obs. Atente para a definição grifada acima. A promessa de salvação diz respeito ao meio projetado por Deus, através do qual o homem pudesse ser liberto de todos os males resultantes do pecado.


ORIGEM DA PROMESSA

Consoante a infinita sabedoria de Deus, a salvação humana se daria por meio de um Cordeiro. Em Apocalipse 13.8, João diz que muitos há cujos nomes não estão escritos no livro do cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Esta afirmação remonta ao livro de Gênesis, quando Adão e Eva, como resultado da desobediência ao Criador, perceberam que estavam nus; teceram, então, roupas de folhas de figueira, a fim de cobrirem as suas vergonhas. O Senhor, porém, matou um animal, rasgou sua pele e dela teceu roupas para o casal envergonhado (Gn 3.21). Pela primeira vez, sangue estava sendo derramado, e Deus estava querendo dizer que o derramamento de sangue seria o único meio para a redenção, ou seja: “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb .22; cf Lv 17.11). A era dos tipos estava-se iniciando ali e permearia todo o Antigo Testamento, quando centenas de milhares de animais seriam sacrificados (Gn 22.13; Ex 12.3-13; Lv cap 16), com um único propósito: apontar para o momento da encarnação do verdadeiro Cordeiro de Deus que, centenas de anos mais tarde, seria decantado por João Batista, quando este, vendo Jesus aproximar-se do Jordão, exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

Deus foi justo e imparcial na aplicação da pena pelo pecado (Gn 3.15-21), mas manifestou, sem medida, a sua misericórdia ao prover o meio para a salvação de todos os homens, o Cordeiro santo, exaltado em Ap 5. 9. “E cantavam um novo cântico dizendo: digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação”.


O PROPÓSITO DA PROMESSA

A promessa divina da salvação compreende um tríplice propósito.

1. Redenção. Redimir significa livrar da escravidão mediante o pagamento de um preço. Na antiguidade, os prisioneiros de guerra podiam ser soltos mediante o pagamento de um preço, o qual era chamado de resgate (gr lytron). Da mesma sorte, os escravos poderiam ser soltos mediante um processo de resgate.

Entre os hebreus, temos uma idéia de redenção em Ex 21.28-30. Se o boi perigoso de alguém se soltasse e chifrasse uma pessoa, levando-a à morte, segundo a lei, o boi e seu dono seriam mortos por apedrejamento. No entanto, como não se tratava de um homicídio doloso, era imposto um resgate (heb kõpher) ao dono do boi, o qual podia pagar certa soma em dinheiro e assim redimir a sua vida.

Vemos que a idéia comum nos três possíveis casos acima é a de aquisição de liberdade mediante o pagamento de um preço. Isso tem uma aplicação espiritual. Jesus disse que todo o que comete pecado é escravo do pecado (Jo 8.34). Paulo disse ser, ele mesmo, alguém carnal vendido sob o pecado (Rm 7.14), como também lembrou aos cristãos romanos que, outrora, eles haviam sido escravos do pecado (Rm. 6,17). Como conseqüência da escravidão do pecado, os homens estão debaixo de uma sentença de morte (Rm 6.23). Tão deplorável situação grita por uma redenção. Foi exatamente isto que Deus propôs na promessa de salvação: a redenção pelo sangue de Cristo. Sim, o sangue do Cordeiro de Deus foi o preço da redenção, conforme atesta Paulo: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue” (Ef 1.7) / “Sendo pois justificados pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24).

2. A restauração da comunhão entre Deus e os homens. Deus criou o homem para andar na sua presença e ter comunhão com Ele. Todavia, o resultado imediato da sua transgressão foi a separação entre criatura e Criador, com a conseqüente perda da comunhão entre ambos. Isso está evidente na atitude imediata de Adão e Eva ao se esconderem de Deus por entre as árvores, logo após terem desobedecido a ordem divina. O Senhor, então, os lançou fora do jardim do Éden (Gn 3.23), o lugar da sua presença. A queda não causou apenas a quebra de comunhão entre criatura e Criador, mas até mesmo uma inimizade entre ambos. Foi o que Tiago declarou na sua carta universal (Tg 4.4). No entanto, a promessa assegurava que a parede de separação seria derrubada e a inimizade desfeita pelo sangue da cruz de Cristo (Cl 1.20; Rm 5.1). Como bem se expressou o sacro poeta: Sim, Jesus amou-me/ com amor buscou-me/ Ele mesmo restaurou-me a Deus/ Com seu sangue restaurou-me a Deus (Harpa Cristã, 156).

3. A segurança de vida eterna. Como já tivemos a oportunidade de ver supra, a drástica conseqüência do pecado é a morte (espiritual,física e eterna). Mas a promessa de salvação mediante o sacrifício substituto de Cristo compreende a vida eterna para todos quantos o aceitam, conforme enuncia o texto áureo da Bíblia: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).


TRAGETÓRIA DA PROMESSA

1. A promessa através da Bíblia. As páginas do Antigo Testamento são pródigas na apresentação da promessa de salvação, utilizando-se especialmente de dois tipos de linguagem:a tipologia e a profecia falada.

a) Tipologia bíblica. A tipologia é o estudo das figuras e símbolos da Bíblia (os tipos), com os quais Deus procura mostrar, por meio de coisas terrestres, as coisas espirituais. Geralmente constituído de pessoa, coisa ou evento, um TIPO é um meio usado por Deus para comunicar verdades divinas, através de ilustrações e figuras, e aponta para o futuro, quando ocorrerá a manifestação da verdade prefigurada – o ANTITIPO. No que tange à salvação, a tipologia bíblica veterotestamentaria é riquíssima, abrangendo tanto a obra da salvação quanto a pessoa do Salvador, que a executou. Vejamos alguns exemplos no Pentateuco.

•O sacrifício de Isaque (Gn 22.1-13). Era um pai oferecendo um filho em sacrifício, mas aparece um carneiro substituto e é oferecido em lugar do filho. Compare com Jo 3.16.

•O Êxodo - saído do povo de Israel do Egito (Ex 12.37-51). O Egito tipifica o mundo; Faraó, Satanás; Moises, Jesus, o libertador; a passagem pelo mar, a libertação da escravidão (cf Lc 9.28-32).

•A Páscoa. Note ainda que na noite que precedeu a saída dos filhos de Israel do Egito, quando foi celebrada a primeira páscoa, cada uma das famílias israelitas foi protegida da morte através do sangue de um cordeiro – o cordeiro pascal. Mais tarde Paulo diria que Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1 Co 5.7b).

•Os rituais do culto levíticos/ o dia da expiação (Lv cap 16). Não entraremos em detalhes sobre a forma como eram realizadas as cerimônias levíticas - isso o leitor pode ver na referencia supracitada -, apenas queremos salientar que milhares de animais eram sacrificados todo ano pelos hebreus como expiação pelos pecados. Tudo isso era sombra das coisas futuras (He 10.1) e apontava para o cordeiro de Deus que seria sacrificado definitivamente para expiar o pecado do mundo (cf Hb caps 8-10).

•O levantamento da serpente no deserto (Nm 21.4-9). Naquela ocasião, os filhos de Israel estavam sendo atacados por serpentes venenosas e muitos deles morreram. Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de metal e a levantasse no meio do povo, a fim de que todos os que fossem picados olhassem para aquela serpente e fossem sarados. Mais tarde, Jesus diria: “E como Moises levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.14,15).

Há muito mais pessoas, eventos e objetos no AT que prefiguram cristo e a sua obra redentora - o maná que caiu do céu, a água que brotou da rocha, o tabernáculo com os seus pertences, o sumo sacerdote, o sacerdócio de Melquisedeque, Josué, o livramento de Raabe por intermédio de um fio escarlate em sua janela, a saga do casamento de Rute com Boaz, etc. Para o nosso estudo, todavia, que não tem a pretensão de ser extenso, os casos exarados acima são suficientes.

b) A profecia falada ou predições diretas. Após anunciar a salvação pelos seus próprios lábios, o Senhor Deus, através dos profetas, começou a revelar o caminho mediante o qual o Messias executaria o seu glorioso projeto. Este caminho, traçado por entre as páginas do Antigo Testamento, é, na íntegra, concretizado no Novo. Vejamos.

•O próprio Deus anuncia, pela primeira vez, o Salvador (Gn 3.15).

•Ele nasceria de um virgem (Is 7.14), na cidade de Belém (Mq 5.2). Cumprimento: Mt 1.18-25; 2.4-6.

•Seria o próprio Deus (Is 7.14; 9.6). Cumprimento: Mt 1.18ss.

•Seu nome seria “Salvador” (=Jesus) (Is 49:1-8; 63:8): cumprido em Mt 1:21;

•Ele entraria triunfalmente em Jerusalém (Zc 9. 9). Cumprimento: Mt 21.1-4.

•Seria traído por seu amigo e vendido por trinta moedas de prata (Sl 41. 9; Zc 11.12). Cumprimento: Mt 26.14,15.

•Ele tomaria sobre si as nossas enfermidades, carregaria as nossas dores, seria ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades (Is 53.4,5). Cumprimento: Lc caps 22,23.

•Iria como um cordeiro mudo ao matadouro (Is 53.7). Cumprimento: Mc 15.3.

•Seria humilhado e morto de forma brutal (Sl 22). Cumprimento: Jo cap 19.

•O Salvador ressuscitaria, subiria ao céu, assentar-se-ia à direita de Deus e derramaria o seu Espírito sobre os seus discípulos (Sl 16. 9,10; 24.7-9; 110.1; Jl 2.28). Cumprimento: Mt 28.1-10; At 1. 9-11; 2.1-13; Hb 1.13).

O que acabamos de descrever acima são apenas algumas profecias referentes ao Salvador e a sua esplêndida salvação, pois seria impossível citar todas elas - são mais de duas mil predições, sendo a maior parte no Livro dos Salmos e no profeta Isaías. Se tivesse que resumir todas em apenas uma, eu diria que “o povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu a luz” (Is 9.2).

2. Promessa concretizada. “O Novo Testamento está oculto no Velho Testamento, e o Antigo Testamento é revelado no Novo”. Agostinho foi muito feliz em enunciar essa frase. Tudo o que fora predito em relação à salvação no Antigo Testamento teve seu cabal cumprimento no Novo. Na plenitude dos tempos, aparece o Cordeiro de Deus, que foi morto desde a fundação do mundo, a Semente da mulher, para remir os pecadores (qv Gl 4.4,5). O evangelista Mateus é cuidadoso em começar o seu evangelho com a genealogia de Jesus, retratando a sua linhagem ancestral até Abraão, passando por Davi e Judá, e isso fez a fim de demonstrar aos judeus que realmente se tratava do Messias, pois estava previsto que ele seria descendente de Davi (2 Sm 7.12-19; Jr 23.5), bem como de Judá (Gn 4y.10) e Abraão (Gn 12.3).

Creio não ser necessário detalhar aqui a forma precisa como cada fato descrito no Novo Testamento cumpriu as profecias e os tipos do Antigo, pois o leitor pode ter uma visão panorâmica disso no subtópico anterior. Basta aqui o registro feito por Lucas no capítulo 24 de seu Evangelho. Jesus, depois de ressuscitar, encontrou dois dos seus discípulos, incrédulos e entristecidos, no caminho de Emaús, porque o Mestre havia morrido. “E ele lhes disse:Ó néscios e tardos de coração para crê tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na glória?” (vv 25,26). Lucas completa: “E, começando por Moisés [o Pentateuco] e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (v 27). Jesus é, segundo Ele mesmo, a concretização de toda a lei e dos profetas, a salvação do Senhor manifestada na plenitude dos tempos.


ABRANGÊNCIA DA PROMESSA

1. O caráter peculiar da promessa.  A promessa de salvação não se constitui de um complexo conceito teológico que mais serve para afastar o homem de Deus do que Dele o aproxima, mas trata-se do recomeço de um relacionamento com Deus que foi perdido lá no Éden. Uma vez religado à comunhão com o Criador, o homem passa a desfrutar, gradativamente, de todas as bênçãos que o Senhor, originalmente, pretendia para a sua especial criatura.

Como ensina o pastor Geremias de Couto:

“A salvação implica, portanto, viver continuamente na presença de Deus, experimentar sua graça aqui e agora e permanecer desfrutando de comunhão perfeita quando chegarmos ao céu. Desse modo, o contínuo e crescente relacionamento com Deus é o ponto culminante da promessa da salvação”.“Este relacionamento começa a partir do momento em que livremente reconhecemos a promessa e aceitamos a Cristo como o meio de nossa reconciliação com Deus (Os 6.3; Rm 5.8-11). É o instante em que somos justificados (Rm 5.1), regenerados (Tt 3.5) e nos tornamos santos, segundo Deus (1 Co 1.2; Fl 1.1) e, ao mesmo tempo, buscamos, segundo a Palavra, a santificação diária pelo poder da graça de Deus (Rm 6.1-22; 2 Co 6.14-18). Fujamos, portanto, de todo e qualquer movimento que retira a eficácia da maravilhosa promessa da salvação em Cristo para pô-la em ritos que nada mais são do que fruto de corações vaidosos e arrogantes” (página 24 da revista de mestre).

2. O caráter universal da promessa. A promessa da salvação inclui-se no grupo das promessas gerais (ver a lição 1) , porque foi feita a todos indistintamente. Eis por que o Senhor ordenou que o Evangelho da salvação fosse pregado em todo o mundo, a todos os povos (Mt 28.19; Mc 16.15; At 1.8). Na carta aos romanos, Paulo diz que assim como pela ofensa de adão veio o juízo sobre todos os homens para a condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação (5.18; grifo nosso). Foi este o projeto salvífico de Deus: que, assim como todos os habitantes da terra foram representados por Adão na sua queda espiritual, também todos seriam representados por Cristo no seu ato de justiça (1 Jo 2.2; 2 Co 5.14; Hb 2. 9; Rm 5.12,17,18).

A argumentação usada acima não é, em absoluto, a validação da doutrina universalista, a qual sustenta que todos os homens serão salvos, independente de qual seja sua posição em relação a Deus. Os universalistas dizem que seria impossível um Deus de amor lançar homens no inferno. Mas Paulo, na carta aos romanos, diz: “Pois esperamos no Deus vivo, que é Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” (4.10; grifo nosso). Deduzimos daí que a promessa de salvação está efetivamente à disposição de todos, mas só pode ser aplicada, de forma experimental, àqueles que crêem e a aceitam.


CONCLUSÃO

Uuma vez alcançado pela maravilhosa promessa de salvação, o crente se torna receptáculo de todas as demais promessas de Deus e vive continuamente um intimo relacionamento com Ele. Como bem escreveu Paulo aos efésios, "bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (1.3). A propósito: você já é salvo?


BIBLIOLOGIA

Bíblia de Estudo pentecostal/ CPAD.
Lições bíblicas CPAD/ As promessas de Deus para sua vida (4º trim, 2007).
HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2001
O Novo Dicionário da Bíblia. Editado por R. Shedd. São Paulo: Vida Nova, 1995.
GRUDEN, Wayne A. Manual de teologia sistemática. São Paulo: Editora Vida, 2001.
SILVA, Antonio Gilberto da. Manual da Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.