quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

"Ao Deus desconhecido" / Paulo na cidade de Sócrates




CIRCUNSTÂNCIA QUE PROPICIARAM A PREGAÇÃO DE PAULO EM ATENAS

1. Paulo empreende sua segunda viagem missionária na companhia de Silas após a Assembleia de Jerusalém, começando pela Síria e Filícia, onde confirma algumas igrejas já instaladas ali. Depois passa por Derbe e Listra, onde encontra pela primeira vez o crente Timóteo, que Paulo circuncida e leva consigo.

Em seguida, o trio de evangelistas vai a Trôade, passando antes pela Frígia e pela Galácia, onde foram impedidos pelo Espírito Santo de pregarem o evangelho. De Trôade, vem a revelação para que Paulo e seus companheiros vão à Macedônia, o que fizeram, passando pela Samotrácia, logo depois Neápolis, e chegaram a Filipos, onde aconteceu a libertação de uma pitonisa, a conversão de Lídia e do carcereiro.

De Filipos, foram para Tessalônica, passando por Anfílopes e Apolônia. Em Tessalônica, Paulo prega numa sinagoga de judeus por três sábados, resultando num bom número de conversos. Mas judeus invejosos denunciaram-no ao governador dizendo que “aqueles que alvoroçam o mundo chegaram até nós”, o que forçou uma fuga para a Bereia.

Tendo os judeus de Tessalônica informação de que Paulo estava apregoando Jesus na Bereia, foram em busca dele, obrigando alguns irmãos bereanos a fugirem com Paulo para o mar. Porém Timóteo e Silas ficaram na Bereia. Então os que acompanhavam Paulo o levaram até Atenas, navegando pelo mar da Bereia. Ele ficaria ali apenas para esperar Silas e Timóteo que estavam atrasados em dois dias, antes de seguir viagem.

2. Paulo ficou perturbado ao ver a situação espiritual e moral de Atenas

Antenas era o centro intelectual do mundo de então, a cidade de Sócrates, Platão e Aristóteles. Apesar de não ostentar mais as glórias de outros tempos, ainda era objeto de admiração e devoção, principalmente dos governante romanos.

Paulo estava muito cansado e precisava descansar, mas resolveu dar uma volta pelas ruas da cidade de Sócrates. Na medida em que caminhava pelas ruas, o que ele via o deixava perturbado, indignado, horrorizado, irado. Paulo sentiu-se desafiado com o que viu. Ele viu a corrupção moral e as centenas de ídolos de Atenas.

Como observou o reverendo Billy Graham, numa mensagem pregada no Madison Square Garden, “os antigos divinizavam suas paixões. Baco era a deificação do desejo. Vênus e Afrodite eram as deificações do sexo. Marte e Júpiter representavam o instinto de luta, eram os deuses da guerra. Hoje, o homem superou a imagem de Baco, mas ainda é governado por seus apetites. O templo de Vênus já não existe, mas ainda somos dominados pelas paixões. Dispensamos Marte como fruto da superstição, mas os deuses da guerra ainda estão conosco, e o home continua lutando. Assim, todos os velhos deuses ainda estão por aí”.

Matthew Henry estaca que havia mais ídolos em Atenas que em toda a Grécia reunida. Todo deus estranho que lhes fosse recomendado, eles o aceitavam e lhe concediam um templo e um altar, de modo que eles tinham quase tantos deuses quanto homens. Mesmo quando o império romano se tornou cristão, Atenas continuou idólatra. E Henry continua destacando que onde a cultura humana mais floresceu, foi onde a idolatria mais abundou, o que endossa as palavras de Paulo na carta aos romanos: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” ( 1.22).

O povo era influenciado à idolatria mais horrorosa por sacerdotes pagãos vendidos ás próprias conveniências, e permanecia neste estado de ignorância devido ao silêncio dos filósofos que se mostravam indiferentes, tanto aos deuses, quanto à idolatria do povo.

3. Capacidade de se horrorizar

A Bíblia diz que Paulo se horrorizou ao ver a situação de Atenas. Ele se sentiu desafiado. E esta é uma das características de Paulo que me prendem a atenção: a sensibilidade para se horrorizar. Os atenienses estavam anestesiados pela prática constante da idolatria e imoralidade, anestesia pela exposição constante ao vício, por séculos de tradição. Temo que a exposição contínua aos pecados de nossos dias tire de nós a capacidade de se horrorizar com o mal. Tudo o que temos é essa capacidade de se sensibilizar. E é essa capacidade que nos move à ação, na tentativa de mudar o estado de coisas.

Nós estamos vivendo dias de anestesiamento. Estamos muito embevecidos com os movimentos espirituais e com o crescimento desse movimento e não conseguimos ver a real situação do mundo a nossa volta. Estamos como os discípulos no monte da transfiguração. Eles disseram: ”Senhor, aqui está tudo muito bom. Vamos fazer cabanas para nós e fiquemos por aqui”. Ou então como observa Marvin Stone:

Encolhemos, indiferentes, os ombros diante de quase tudo. Seguimos adiante e buscamos a próxima emoção. É como se já tivéssemos ultrapassado o ponto de fazer distinção e de nos importarmos. Finalmente alcançamos um consenso de indiferença.

A Bíblia diz que Jesus viu uma multidão perdida como ovelhas sem pastor e se comoveu. Eu confesso que às vezes me comovo e me perturbo com o que vejo.

Ao olharmos grandes cidades como a cidade de São Paulo, é muito difícil não sentir-se desafiado, vendo a obsessão do sexo, o incentivo á exacerbação da sexualidade infantil, os narcóticos que escravizam crianças, adolescentes e jovens, os apetites desenfreados, o consumismo, o materialismo, (usando uma frase do Billy Graham), todas essas coisas que a sociedade moderna tem transformado em deuses.

Temo que a exposição constante a essas coisas nos leve a vê-las como algo natural, tirando de nós a capacidade de horrorizar.

4. Então Paulo começou a pregar nas ruas

A pregação precisa ser motivada por um particular estado de espírito, pela comoção resultante da percepção de uma profunda necessidade do indivíduo, da comunidade, da sociedade. Pregar por pregar, ou então pelo interesse de divulgar e defender as próprias ideias, é teatralização e mercenarismo.

Ao se sentir consternado com a situação de Atenas, Paulo abriu mão do descanso e começou a pregar. Ele disputava com todos os que encontrava em seu caminho: nas sinagogas, nas praças e nas ruas. Ele dizia: Atenção atenienses e residentes, trago-lhes uma excelente mensagem: Jesus Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. Ele é a luz do mundo. Quem o segue não andará em trevas. Ele pode trazer luz à vida e à cidade de vocês.

A maioria deles não dava importância à sua pregação, principalmente os da sinagoga. Sendo então evitado pelos judeus, Paulo seguiu o costume helênico e começou pregar aos transeuntes. “Jesus Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”.

Alguns intelectuais o olharam com desprezo, acharam graça e zombaram dele. “É um falastrão, um santarrão que não sabe o que está dizendo”, comentaram outros. Ainda outros pensavam que Paulo era um pregador de deuses estranhos e que anunciava um casal de divindades: Jesus e Anastásia, palavra grega para ressurreição. Mas havia alguns membros da Academia que ficaram curiosos e quiseram ouvir a Paulo. Queriam saber o que ele tinha a dizer. E não é sem propósito que Lucas ressalta que os epicureus e os estoicos estavam lá e contendiam com Paulo.

OS ILUSTRES OUVINTES DE PAULO

1. Os epicureus acreditavam que o universo não foi criado por ninguém, que a vida veio à existência por acaso, num universo mecânico, e que a morte põe fim a tudo. Concebiam a divindade como alguém despreocupado e indiferente a tudo o que diz respeito ao mundo, distante demais da terra para ter interesse nas ações humanas e, portanto, em vão se faziam orações e sacrifícios a ele. Segundo o epicurismo, não havia critério divino algum para diferenciar entre o bem e o mal, então os humanos não tinham o que temer nem esperar em relação ao futuro, nem castigo nem recompensa. Para eles, os deuses eram perfeitamente felizes, devendo ser este o alvo principal da vida dos humanos. Por isso viam os prazeres como o supremo bem da vida. Notem que o cristianismo vem na contramão ensinando a que renunciemos a nós mesmos.

À luz do precedente, pode-se reconhecer por que havia filósofos epicureus entre aqueles que passaram a conversar polemicamente com Paulo, na praça do mercado em Atenas, e que disseram: “O que é que este paroleiro quer contar?” “Ele parece ser publicador de deidades estrangeiras.” (At 17:17, 18) A filosofia dos epicureus, com a sua ideia de “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”, negava a esperança da ressurreição ensinada pelos cristãos no seu ministério. — 1Co 15:32. ( ver Biblioteca Online da Torre de Vigia).

2. Os estoicos descartavam totalmente a ideia de um Deus pessoal e defendiam que todas as cosia eram parte integrante de uma divindade impessoal, de onde emanava também a alma humana. Criam na propriedade da alma de sobreviver à morte do indivíduo, porém esta mesma alma sobrevivente seria reabsorvida à deidade. Sustentavam ainda que, para alcançar a verdadeira felicidade, o homem precisava raciocinar para compreender as leis que governam o universo e se harmonizar com elas. Seguindo as leis da natureza, portanto, o indivíduo era considerado virtuoso e seria capaz de atingir um nível de indiferença à dor e ao prazer, independente de quaisquer condições ou circunstâncias. Adaptar-se as leis naturais significava entender e aceitar que o destino governa as contingências humanas, e o homem pode fazer pouco ou nada para mudar o estado de coisas.

Como os epicureus, os estoicos reputavam como absurda a ideia de ressurreição dos mortos, o que nos faz entender o motivo por que chamaram Paulo de paroleiro e anunciador de divindades estrangeiras quando o ouviram pregar sobre Jesus e a ressurreição. Di-ze que se consideravam os melhores dos homens e se entregavam tanto à soberba da vida quanto os epicureus aos prazeres. Notem que o cristianismo vem na contramão, ensinando que a humildade é o caminho da exaltação. O cristianismo nos ensina a que refutemos toda confiança em nós mesmos para que Cristo seja tudo em todos (Cl 3.11).

O SERMÃO NO AERÓPAGO

1. Ponto de partida do sermão: o Deus insondável, criador, sustentador e Senhor do universo.

No Areópago Paulo vai adaptar o discurso ao ambiente intelectual. Sua mensagem tem endereço certo. Ele vai começar apresentando um Deus pessoal, em contraponto à impessoalidade da divindade de seus ilustres ouvintes. E ele o faz a partir da única coisa que ele percebe em comum entre aqueles pagãos e o cristianismo: o Deus insondável (ou desconhecido). E ele vai apresentar este Deus tendo como pano de fundo uma teologia natural, numa consideração acerca da origem do universo que os gregos atribuía ao acaso.

A adoração do Antigo Testamento está permeada por uma teologia natural que argumenta a ideia de um Deus grande, infinitamente sábio, que formou tudo o que existe, e cuja criação testemunha contra os ímpios.

Tu só és Senhor. Tu fizeste os céus, e o céu dos céus; a terra e tudo o que nela há, os mares e tudo o que neles há; e tu os preservas a todos com vida; e o exército do céu te adora (Ne 9.6).

Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparastes; quem é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? (Sl 8.3,4).

Os céus manifestam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem e sem fala, ouvem-se as suas vozes (Sl 19. 1-4).


Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas; foi aquele que faz sair o exército delas segundo o seu número; ele as chama a todas pelos seus nomes; por causa da grandeza das suas forças, e porquanto é forte em poder, nenhuma delas faltará (Is 40.26).

2. Uma teologia da dependência total como contraponto à ideia de que Deus não se importa com os assuntos humanos e que a felicidade depende do próprio homem, Paulo apresenta a teologia da dependência total, a qual está exarada nas páginas da Bíblia Sagrada:

“Ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas (...), porque nele vivemos nos movemos e existimos” (At 17.25, 28).

“Todos esperam de ti que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lhes tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respirarão, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.27).

3. Um Deus que toma, Ele mesmo, a iniciativa de se revelar. "(...) para que buscassem ao Senho, se porventura tateando o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós" (At 17.27).

4. Uma teologia da inter-relação de todos os homens em resposta ao orgulho étnico dos gregos. "(...) e de um só fez todas as gerações dos homens para habitar a face da terra". Todos estamos relacionados a Adão pelo sangue, logo todos somos pecadores. Deus não divide os homens entre ricos e pobres, letrados e indoutos, preto e branco, bonito e feio. Para Deus todos são pecadores e precisam da redenção que há em Cristo Jesus.

5. Deus há de julgar o mundo por meio do varão que destinou. Notem que Deus julga o mundo tendo como fundamento a crucificação e ressurreição de seu Filho. Deus suportou os pecados da ignorância dos ímpios até o dia em que uma grande luz brilhou na escuridão e Alguém disse: “Eu sou a luz do mundo” Jo 8.12). Agora não há mais lugar para a ignorância, por isso se diz que a manifestação de Cristo é para a elevação de muitos, porém pedra de tropeço para outros. "Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse" (Is 28.16). 

5.1 O tempo da ignorância. Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todos os lugares, que se arrependam, porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-os dos mortos (At 17.30,31). 

5.2 Deus há de julgar o mundo tendo como fundamento a crucificação e ressurreição de seu Filho. A ressurreição é a prova incontestável que Deus há de julgar o mundo e o supremo argumento da justiça de divina. Doravante, todos os planos de Deus para a humanidade, bem como o seu trato com os homens têm como base a ressurreição de Jesus. O que seria daqueles intelectuais que não criam em ressurreição se tudo o que hoje existe e o que se estenderá pela eternidade afora só acha sentido neste fato: Jesus ressuscitou e está vivo para sempre.

Continua...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dúvidas sobre o fim do mundo

Assisti certa vez uma versão do filme Sansão e Dalila, onde o verdadeiro herói não foi o poderoso Sansão, que derrubou, com sua estupenda força, o templo de Dagom e subjugou seus inimigos. O herói foi um filisteu que garantiu a continuação da semente de seu povo por meio de um conselho que deu ao seu jovem filho.

Na hora em que levaram Sansão para o Templo de Dagom, todos começaram a zombar dele, céticos quanto à possibilidade de aquele homem, agora cego e "sem forças", fazer-lhes algum mal. Quando Sansão pediu ao moço que o conduzia para que o levasse à coluna principal do prédio, os que o ouviram multiplicaram as vaias. Mas um homem, dos filisteus, chamou seu jovem filho e disse-lhe: "Quando Sansão chegar à coluna, esteja fora do templo,  e se ouvir ruídos, fuja para bem longe". O moço olhou o velho pai com olhar de dó, como que percebendo nele os primeiros sinais de caduquice, e perguntou: "O senhor acredita mesmo nesse boato ridículo de que um homem cego e agora sem forças pode derrubar sozinho este templo?" Ao que o pai respondeu: "Não, meu filho, não acredito, apenas tenho dúvida, e, na dúvida, prefiro que você fique fora do templo".

O filme acaba com a imagem de um jovem caminhando sozinho no deserto e uma voz de fundo dizendo: E assim a semente dos filisteus não foi extirpada da terra, porque entre eles havia um homem que duvidava.

Muitas pessoas, no decorrer da história,  têm preconizado um fim dramático para o nosso mundo, e alguns chegam mesmo a ousadia de estipularem datas para o evento, causando pavor em meia dúzia de crédulos -a última delas   para o dia 21/12/2002, com base em interpretação do calendário maia. Sinceramente não creio nessas previsões malucas, muito menos em datas estipuladas por "profetas do fim", mas, às vezes, só em pensar neste mundo sendo tragado por um cataclismo, me dá um gelo na barriga. Penso que esse frio na barriga é indicador de um filete de dúvida que persiste, apesar da absurdez da história. Logo, como aquele filisteu do filme, sempre achei que, na dúvida, é melhor colocar as barbas de molho. Quem sabe um dia a história relatará: "E assim a raça humana não pereceu, porque lá em São Paulo havia um homem que duvidava".

"Os tolos estão cheios de certeza. Os sábios estão cheios de dúvida." (não lembro bem quem foi que disse).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O que já não faz sentido

Acho que quase todas as pessoas têm o costume de guardar um amontoado de coisas em algum canto da casa. Imaginam que tais coisas podem ser úteis um dia, ou então lembram bons momentos distantes, ou porque simplesmente acham-se incapazes de se livrar delas por causa do fascínio que exercem. Assim, há quem faça coleção de chaves, cartões de aniversário, cartas, canetas, cadernos e agendas antigos, ferramentas gastas, etc. Antes que me esqueça, acrescento a essa lista os textos, documentos e recortes de jornais que são as coisas que sou viciado em guardar. Guardo-os com a mais sincera intenção de relê-los um dia.

Mas o danado é que o espaço vai se apertando e o tempo se exaurindo na medida em que o acúmulo anoso dos objetos de nossa devoção se expande, forçando a gente a fazer uma limpeza de vez em quando. Não que um dia o espaço nos falte totalmente, pois o imagino infinito, mas porque, à semelhança da memória do computador, quanto mais espaço livre tivermos, mais agilidade teremos na execução de tarefas. Em relação ao tempo, não posso dizer o mesmo, pois o tempo fica mais escasso na proporção inversa em que aumentam as velas em nosso bolo de aniversário.

Foi com esse pensamento que resolvi rever todos aqueles textos que guardei ao longo dos anos no fundo da gaveta com a intenção de retomá-los sabe-se lá quando. Passei um por um, apreensivo pela seleção que teria que fazer, determinando o que ficaria e o que iria embora. O resultado foi surpreendente: joguei quase todos fora. Primeiramente porque conclui não haver mais tempo para retomá-los, pois tenho menos dias para gastar e, por conseguinte, preciso focar o que é rigorosamente essencial. Segundo, percebi que a maioria daqueles escritos, que já li com tanto entusiasmo, já não fazia sentido para mim. Ou eu não fazia mais sentido para eles. E pensar que há poucos anos, eu não abriria mão desses textos por nada. Mas agora foi tão fácil jogá-los. Os textos eram os mesmos, dos mesmos autores, sobre aquelas mesmas circunstâncias e temas, mas eu era outra pessoa.

Nossos baús e bagagens não se restringem a coisas apenas. Nós também guardamos pensamentos, sentimentos e emoções que cavaram sulcos profundos na alma. Conservamos lembranças de pessoas e de momentos que não queremos esquecer, porque exercem um fascínio muito grande sobre nosso espírito. Mas ,semelhante à limpeza que precisamos fazer, às vezes, em relação às coisas guardadas, há uma necessidade de, vez por outra, nos desprendermos de algumas lembranças, sentimentos e emoções, bagagens que apenas ocupam espaço, visto que não será mais possível retomá-las. E isso também por uma questão de tempo e de sentido.

Acredito que toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor, com juras eternas de lealdade, quando houve a necessidade de mudar de uma cidade para outra. Mas o tempo passa e, quando volta, não consegue mais se relacionar como antes, tudo é tão estranho. Isso acontece porque as pessoas mudaram, principalmente por causa do contato de uma das partes com novos ambientes e relações, e torna-se impossível retomar a convivência do jeito que já fora. Já dizia um filósofo que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio nem da mesma pessoa.

A mudança do indivíduo acarreta mudanças significativas em todas as suas relações e tira todas as coisas de sua posição original, alterando toda a realidade à sua volta. É a partir dessa compreensão que podemos discutir a questão do significado inconstante de tudo o que existe. A questão sobre o sentido da vida com todas as suas nuances é muito abordada na psicologia. A existência é uma roda que gira o tempo todo, tirando e trocando tudo de lugar. E neste vai-e-vem, tudo o que existe troca de papel, assume novas roupagens e muda de significado para os elementos relacionados. Logo, na dinâmica da vida, o que um dia foi importante pode deixar de sê-lo e o que era irrelevante pode vir a assumir valor fundamental, mas tudo dentro de um processo que quase nunca acontece de forma clara para nós. É necessário, portanto, discernimento para avaliar, de acordo com o momento, qual o grau de importância que não somente as coisas, mas também as relações ainda têm para a vida. Somente assim, podemos nos desprender de tudo que já não tem sentido para propiciar uma vida fluida e feliz e buscar novos caminhos, novos significados, num exercício de seleção que evitará o acúmulo de resíduos que servem apenas para ocupar espaço e obstruir o sistema, causando preocupações desnecessárias. Ouvi de uma professora que " a gente se agarra a sentidos fixos para não dar conta da angústia". Penso que agarrar-se a sentidos fixos é não reconhecer que algo, outrora muito significativo, pode estar destituído de importância hoje.

Finalizando, para uma vida feliz, precisamos entender que é próprio das coisas e das relações, na roda do tempo, adquirirem novos significados. Desse modo, umas deixam de fazer sentido para nós, enquanto que outras, outrora sem importância, passam a fazer sentido. Nós mudamos o tempo todo, alterando a compreensão e visão que temos de tudo, por isso, todo mundo precisa de vez em quando desprender-se das coisas, relações e comportamentos que deixaram de fazer sentido para a vida, que já foram muito importantes um dia, mas que, com o passar dos anos, foram destituídos do significado inicial e agora são apenas entulhos impedindo a absorção de novas experiências que resultem em novas possibilidades.

Cara, é preciso ter desprendimento e humildade.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Soteriologia (a doutrina da salvação)


Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16)
 
UMA PALAVRA AO LEITOR

Durante alguns anos ensinando na Escola Bíblica Dominical minha igreja e em outras denominações evangélicas, percebi que é muito deficitário o conhecimento dos alunos sobre o assunto que ocupa o lugar central na Bíblia Sagrada e no Cristianismo: a salvação espiritual. É bem verdade que todos os cristãos conhecem muito bem a história da crucificação do Filho de Deus em favor dos homens, que “Deus amou o mundo de tal maneira que entregou o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16), mas quando questionados sobre o porquê de Deus chegar a este extremo e convidados a explicar o processo da salvação, os cristãos , na maioria das vezes, ou não sabem ou dão uma resposta muito superficial. Todavia, conhecer profundamente a soteriologia é ter consciência da gravidade do pecado, da terrível situação do homem natural, bem como do amor incomensurável de Deus, amor que não mede sacrifício. Conhecer esta verdade é o mesmo que jogar álcool na chama da gratidão, ou seja, quanto mais conhecermos a história de nossa salvação, mais teremos disposição para sermos agradecidos. Por isso, espera-se que com este trabalho, o leitor dê um salto além do simplesmente dizer que é salvo e possa compreender todos os elementos envolvidos no processo da redenção humana, mediante a obra de Cristo no calvário, para uma gratidão consciente.


INTRODUÇÃO
A doutrina da salvação (soteriologia) ocupa lugar central na Bíblia Sagrada e, por conseguinte, na religião cristã. Por isso é extremamente necessário que a igreja de Cristo a priorize em sua grade de ensino. O desenvolvimento total da revelação de Deus nas Escrituras se dá a partir do fato de que o Criador previu a queda espiritual do homem desde tempos eternos, bem como as suas deletérias consequências, e, movido de imensurável amor, proveu um meio de salvá-lo, o qual foi anunciado pela primeira vez pelo próprio Deus no livro de Gênesis (3.15), permeou todo o Antigo Testamento nos tipos e símbolos dos rituais levíticos e na voz dos profetas, reis e sacerdotes. Na plenitude dos tempos, a promessa de salvação teve seu cabal cumprimento na pessoa bendita de Jesus Cristo.. Toda a revelação escriturística gira em torno desta verdade: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).



  I. A EXTREMA NECESSIDADE DE SALVAÇÃO

Por que a humanidade necessita desesperadamente da salvação espiritual? E como podem satisfazer essa grande necessidade? Estas questões são a porta de entrada para a busca por uma compreensão mais profunda da obra redentora de Cristo. E as respostas a elas só podem ser oferecidas relacionadas à maneira correta de se compreender três verdades bíblicas: 1) o caráter de Deus; 2) a natureza da criação humana; 3) a nocividade do pecado. Como observa o teólogo Daniel B Pecota (in Horton, 1994), se Deus não fosse como a Bíblia nos revela, e não tivéssemos sido criados à sua imagem, e não tivéssemos subsequentemente caído, a salvação, conforme a Bíblia nos descreve, não teria sido possível nem necessária. Por isso o drama da redenção tem como pano de fundo o caráter santo de Deus e a natureza pecaminosa da criação humana.

1. A importância da terminologia para a compreensão do assunto. A terminologia relacionada à soteriologia, empregada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tem importância fundamental para a compreensão dessa doutrina. É corrente no vocabulário cristão o uso das palavras “redenção”, “expiação” e “propiciação”, mas nem sempre atentamos para o real significado das mesmas. Todavia a conceituação correta desses termos carrega toda a dimensão da obra salvífica de Cristo. Redimir, segundo o dicionário Michaelis, significa “libertar do cativeiro mediante pagamento de resgate”, e isso pressupõe uma situação em que um opressor cruel cerceia a liberdade de sua vítima e cobra um preço alto para libertá-la. Expiar significa “reparar (crime ou falta) por meio de penitência ou pena” (o Globo), o que pressupõe uma situação em que um réu, cujo crime não pode ficar sem punição, está sendo submetido ao rigor da lei. Ainda segundo o Michaelis, propiciar significa “tornar propício, favorável, aplacar”, e isso pressupõe uma situação em que o direito de alguém foi violado e, por conseguinte, encontra-se em oposição aberta ao infrator em uma querela judicial.

Na Bíblia, as três palavras acima definidas são frequentemente tradução dos vocábulos hebraicos kãphar e grego hilaskomai. A primeira tornou-se, entre os hebreus, um termo técnico dos rituais de sacrifício de Israel e encontra alta relevância no Dia da Expiação (Lv 16), quando o sumo sacerdote, depois de oferecer um novilho em favor de si mesmo e de toda sua casa, lançava sorte sobre dois bodes, sendo um enviado para o deserto como expiação (16.10) e o outro sacrificado. Em seguida o sacerdote espargia o sangue no animal sacrificado no propiciatório (kappõret) como expiação pelos pecados do povo (16.15-20). Note que a prática de se impor as mãos sobre o sacrifício (Lv 4.15; 1616.21) significava dizer “estou sacrificando isso em meu lugar”, ou seja, como resgate pela minha alma.

O segundo termo (hilaskomai) era usado entre os gregos com o significado de tornar as divindades favoráveis, por meio de sacrifícios que as aplacavam, uma vez que elas não tinham naturalmente boa vontade para com os homens e precisavam ser conquistadas. No uso do Novo Testamento, a ideia de tornar a Divindade favorável é a mesma; porém aqui não encontramos um Deus rancoroso, indisposto para com os humanos. Deus nunca poderia ser conquistado ou propiciado por qualquer ato de iniciativa nossa, mas Ele mesmo, segundo a sua boa vontade, provê o meio pelo qual venha a ser tornar favorável (Hb 2.17).

De posse da compreensão desses termos, vamos analisar, passo a passo, por que a salvação espiritual é tão importante para a criatura humana.

2. A natureza humana foi afetada pelo pecado

2.1 Significado etimológico. A nomenclatura bíblica empregada para referir-se ao pecado é consideravelmente vasta, como cerca de trinta raízes diferentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Em nosso estudo, porém, apenas nos valeremos dos principais vocábulos que mais satisfatoriamente expressam a ideia de pecado.

Hattha: Segundo o dicionário Vine, o substantivo hattha aparece cerca de 293 vezes e em todos os períodos da literatura bíblica e transmite o conceito de pecado que se estende tanto ao desejo pecaminoso, quanto aos atos pecaminosos resultantes dos desejos. Mas a acepção principal de hattha é a que transmite a ideia de errar alguém o alvo (155 vezes), dando a entender, portanto, que o pecador, devido a sua vontade e inteligência pervertidas, não tem condição alguma de atingir o propósito primacial da vida, que é fazer a vontade de Deus.

Hamartia: Palavra de origem grega mais comumente usada para referir-se ao pecado, que correspondente de hatha, tem também o significado original de errar alguém o alvo, o que, numa relação com a doutrina do pecado, denota que o pecador tende naturalmente a errar o alvo final da vida, ou o objetivo para o qual foi criado, da mesma que um arqueiro atira a flecha, mas não acerta o que pretende. Portanto, pecar é desviar do caminho, inicialmente traçado, é todo e qualquer ato de desobediência à Palavra de Deus. É de hamartia que vem o nome da disciplina que estamos estudando: hamartiologia.

2.2 Definição teológica de pecado. Pecado pode ser teológica sinteticamente definido como “falta de conformidade com a lei moral de Deus, em atos, atitudes e natureza (Grudem, 2001). Ou como definiu João: “o pecado é transgressão” (1Jo 3.4). Vale salientar que não se trata apenas de atos reprováveis cometidos, mas de uma predisposição inerente ao gênero humano para transgredir a lei de Deus.

Para uma compreensão mais abrangente da definição acima, faz-se necessário entendermos a doutrina da queda do homem e as suas deletérias consequências. No capitulo 3 do livro de Gênesis, encontra-se o registro da maior tragédia da história humana. Adão e Eva, representantes legítimos de toda a humanidade, induzidos por Satanás, desobedeceram à ordem de Deus, o qual, havendo-os criado, colocou-os no jardim do Éden e ordenou a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 3.16,17). Após deliberada desobediência à ordem divina, aquele primeiro casal percebeu que Deus estava falando sério e as consequências terríveis vieram.


A UNIVERSALIDADE DO PECADO

Frank Charles Thompson, numa análise profunda da carta de Paulo Aos Romanos, explica a teologia paulina, segundo a qual todo ser humano está rodeado de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (caps 1-3) e o muro das tendências pecaminosas e das concupiscências carnais (7. 15-24). Em alguns livros de teologia, os autores usam, respectivamente, as designações culpa herdada e corrupção herdada às verdades supracitadas.

1. Culpa herdada. Em Adão todos os homens são culpados diante de Deus. Este é o teor da teologia paulina na carta aos Romanos, onde o apóstolo dos gentios mostra que os seres humanos estão rodeados de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (1-3) e o muro das tendências pecaminosas e concupiscências carnais (7. 15-24). Segundo Paulo, somos pecadores por herança. No capítulo cinco de Romanos, ele explica o processo pelo qual o pecado de Adão refletiu sobre todos os seus descendentes, dizendo: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

É importante notar que, no capítulo 5, Paulo está fazendo uma comparação entre Adão, representante da raça humana, e Jesus Cristo, representante dos remidos: “Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem, muitos serão feitos justos” (5.19). No versículo 12, Paulo deixa claro que, sendo todos culpados, todos estão debaixo de uma punição severa: a morte.

2. Corrupção herdada. Uma frase bem conhecida no meio cristão diz que “nós não somos pecadores porque pecamos: nós pecamos porque somo pecadores”. Esta máxima resume toda a ideia de corrupção herdada. Os humanos são pecadores por natureza e, portanto, têm uma inclinação natural para fazer o mal. Davi disse: “Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu a minha mãe” (Sl 51.5). O mesmo Davi diz que “os ímpios se alienam desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras (Sl 58.3). Paulo, citando Davi, escreveu na carta Aos Romanos: “Como está escrito: Não há um justo, nenhum sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”(Rm 3.10-12). Esta é a situação do homem natural: está espiritualmente morto (Ef 2.1,5; Cl 2.13), e vive num estado de rebelião constante contra Deus por não conseguir fazer o bem diante Dele (ver Rm 7.15-20).

O evangelista Billy Graham ilustra em termos bem familiares o legado de Adão para a espécie humana:

Cada um de nós aqui esta noite, seja preto, branco, amarelo, vermelho, rico, pobre, qualquer língua que fale, todos estamos relacionados a Adão pelo sangue. É o sangue de Adão que corre nas veias de cada homem, seja ele quem for. E esse sangue que você tem em seu corpo leva consigo uma sentença de morte. (…)Adão se rebelou contra Deus, seu fluxo sanguíneo se envenenou e cada um de nós, como filhos e filhas de Adão, tem o sangue contaminado, e este é o problema do mundo atual – envenenamento no sangue. Nosso sangue se tornou contaminado por uma doença chamada pecado, que nos conduz finalmente à morte. (Graham, Billy. O Desafio, p.32).

3. As deletérias consequências do pecado.

3.1 O pecado impossibilitou a comunhão com Deus. Ao pecarem, a primeira atitude de nossos primeiros pais foi esconder-se de Deus, não podendo mais ter comunhão com Ele. Em contrapartida, Deus os expulsou do jardim de sua presença, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.8, 24). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaías, forma automaticamente uma parede de separação entre um Deus santo e a criatura pecadora (59.2).

3.2 O pecado resultou em morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa instantaneamente a morte espiritual, porque Deus é a vida e a luz dos homens. Morto espiritualmente, o pecador não tem condição sequer de aproximar-se de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3).

3.3 O pecado resultou em morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é o resultado direto da morte espiritual. Procuramos evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não entende é o fato de que a morte é uma sentença proferida pelo próprio Deus, como maldição pelo pecado (Gn 3.19).

3.4 O pecado causa a morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de “segunda morte”, a morte eterna é a extensão da morte espiritual na eternidade. É a eterna separação de Deus, com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física (Hb 9.27).

Obs. Quando Paulo diz que o salário do pecado é a morte (Rm 6.23), ele está se referindo à morte nas três dimensões supracitadas. Vale também salientar que a morte física foi uma porta de escape que o bondoso Deus proveu para o homem, a fim de que este não vivesse eternamente uma vida miserável de pecados; pois mesmo depois da queda, ele poderia comer da árvore da vida e viver eternamente. Deus, porém, o privou do acesso à árvore da vida para que não fizesse tamanho mal contra si mesmo (Gn 3.22,23).Todavia a cessação da existência – o que consideramos um mal necessário –, providenciado como uma porta de escape, ocasiona a morte eterna. Era triste a situação humana. A sua salvação seria um intricado quebra-cabeça. Mas Deus conseguiu montá-lo.

Por enquanto, encerramos esclarecendo a doutrina do pecado, mas pretendemos dar sequência ao estudo pelos próximos dias. Não deixe de acompanhar.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Salvação, a maior de todas as promessas bíblicas

E ela conceberá e dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1.21)

A gloriosa promessa da salvação feita por Deus à humanidade é a maior e mais importante dentre todas as da Bíblia Sagrada, é a chave que abre a porta para a concretização de todas as demais promessas divinas. Foi proferida pela primeira vez pelo próprio Deus no livro de Gênesis (3.15), permeia todo o Antigo Testamento nos tipos e símbolos dos rituais levíticos e na voz dos profetas, reis e sacerdotes. Na plenitude dos tempos, a promessa de salvação teve seu cabal cumprimento na pessoa bendita de Jesus Cristo (Jo 3.16) e tem sido anunciada pela igreja no decorrer dos séculos. É uma excelente oportunidade discorrer sobre esse assunto tão enriquecedor.


A RAZÃO DA PROMESSA

Para entendermos satisfatoriamente a promessa de salvação, sua razão e necessidade, faz-se necessário entendermos a queda do homem e as sua deletérias conseqüências. Afinal de contas, Deus nos promete salvar de quê? Vejamos. No capitulo 3 do livro de Gênesis, encontra-se o registro da maior tragédia da história humana. Adão e Eva, representantes de toda a humanidade, induzidos por Satanás, desobedeceram a ordem de Deus, o qual, havendo-os criado, colocou-os no jardim do Éden e ordenou a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 3.16,17). Após desobedecer a ordem divina, aquele primeiro casal percebeu que Deus estava falando sério e as conseqüências terríveis vieram.

1.Separação de Deus/ perda da comunhão com Ele. Ao pecarem, a primeira atitude de Adão e Eva foi esconder-se de Deus, não podendo mais se relacionar com Ele por causa do pecado. Como contrapartida, o Senhor os expulsou do jardim do Éden, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.23). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaias, é uma parede de separação entre o Deus santo e o homem pecador (59.2).

2. Morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa, instantaneamente, a morte espiritual. Morto espiritualmente, o homem não tem condição de se aproximar de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3). Acreditamos, como a grande maioria dos pensadores cristãos, que a sentença dada por Deus a Adão – a de que morreria se pecasse – alude diretamente à morte espiritual, uma vez que este não morreu fisicamente logo após ter pecado, mas somente depois de muitos anos (Gn 5.3-5).

3. Morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é resultado direto da morte espiritual. Procuramos sempre evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não quer aceitar é o fato de que ela é o resultado direto do pecado de Adão, uma sentença proferida pelo próprio Deus: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3.19).

4 Morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de a segunda morte, a morte eterna é a expansão e continuação, na eternidade, da morte espiritual. É a eterna separação de Deus com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física.

Obs. Não deixe de atentar para a reação em cadeia que o pecado provoca, num processo que começa com a separação de Deus e culmina com a morte eterna.

Diante de um quadro tão deplorável como o descrito acima, a maior e mais premente necessidade do homem seria salvar-se das conseqüências horrendas do pecado; mas ele não teria recursos próprios para isso, estando, portanto, eternamente condenado. Por esta razão, Deus, no seu infinito amor, resolveu usar os seus recursos, provendo um meio pelo qual o homem pudesse ser salvo. Depois de pronunciar uma dura sentença sobre o homem, a mulher e a serpente, o Criador vaticina: “E porei inimizade entre ti [a serpente] e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Anunciava-se pela primeira vez a o plano da redenção. O diabo, que dera um grande golpe derrubando o primeiro homem, mais tarde sofreria um golpe fatal desferido por outro Homem.

Obs. Atente para a definição grifada acima. A promessa de salvação diz respeito ao meio projetado por Deus, através do qual o homem pudesse ser liberto de todos os males resultantes do pecado.


ORIGEM DA PROMESSA

Consoante a infinita sabedoria de Deus, a salvação humana se daria por meio de um Cordeiro. Em Apocalipse 13.8, João diz que muitos há cujos nomes não estão escritos no livro do cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Esta afirmação remonta ao livro de Gênesis, quando Adão e Eva, como resultado da desobediência ao Criador, perceberam que estavam nus; teceram, então, roupas de folhas de figueira, a fim de cobrirem as suas vergonhas. O Senhor, porém, matou um animal, rasgou sua pele e dela teceu roupas para o casal envergonhado (Gn 3.21). Pela primeira vez, sangue estava sendo derramado, e Deus estava querendo dizer que o derramamento de sangue seria o único meio para a redenção, ou seja: “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb .22; cf Lv 17.11). A era dos tipos estava-se iniciando ali e permearia todo o Antigo Testamento, quando centenas de milhares de animais seriam sacrificados (Gn 22.13; Ex 12.3-13; Lv cap 16), com um único propósito: apontar para o momento da encarnação do verdadeiro Cordeiro de Deus que, centenas de anos mais tarde, seria decantado por João Batista, quando este, vendo Jesus aproximar-se do Jordão, exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

Deus foi justo e imparcial na aplicação da pena pelo pecado (Gn 3.15-21), mas manifestou, sem medida, a sua misericórdia ao prover o meio para a salvação de todos os homens, o Cordeiro santo, exaltado em Ap 5. 9. “E cantavam um novo cântico dizendo: digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação”.


O PROPÓSITO DA PROMESSA

A promessa divina da salvação compreende um tríplice propósito.

1. Redenção. Redimir significa livrar da escravidão mediante o pagamento de um preço. Na antiguidade, os prisioneiros de guerra podiam ser soltos mediante o pagamento de um preço, o qual era chamado de resgate (gr lytron). Da mesma sorte, os escravos poderiam ser soltos mediante um processo de resgate.

Entre os hebreus, temos uma idéia de redenção em Ex 21.28-30. Se o boi perigoso de alguém se soltasse e chifrasse uma pessoa, levando-a à morte, segundo a lei, o boi e seu dono seriam mortos por apedrejamento. No entanto, como não se tratava de um homicídio doloso, era imposto um resgate (heb kõpher) ao dono do boi, o qual podia pagar certa soma em dinheiro e assim redimir a sua vida.

Vemos que a idéia comum nos três possíveis casos acima é a de aquisição de liberdade mediante o pagamento de um preço. Isso tem uma aplicação espiritual. Jesus disse que todo o que comete pecado é escravo do pecado (Jo 8.34). Paulo disse ser, ele mesmo, alguém carnal vendido sob o pecado (Rm 7.14), como também lembrou aos cristãos romanos que, outrora, eles haviam sido escravos do pecado (Rm. 6,17). Como conseqüência da escravidão do pecado, os homens estão debaixo de uma sentença de morte (Rm 6.23). Tão deplorável situação grita por uma redenção. Foi exatamente isto que Deus propôs na promessa de salvação: a redenção pelo sangue de Cristo. Sim, o sangue do Cordeiro de Deus foi o preço da redenção, conforme atesta Paulo: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue” (Ef 1.7) / “Sendo pois justificados pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24).

2. A restauração da comunhão entre Deus e os homens. Deus criou o homem para andar na sua presença e ter comunhão com Ele. Todavia, o resultado imediato da sua transgressão foi a separação entre criatura e Criador, com a conseqüente perda da comunhão entre ambos. Isso está evidente na atitude imediata de Adão e Eva ao se esconderem de Deus por entre as árvores, logo após terem desobedecido a ordem divina. O Senhor, então, os lançou fora do jardim do Éden (Gn 3.23), o lugar da sua presença. A queda não causou apenas a quebra de comunhão entre criatura e Criador, mas até mesmo uma inimizade entre ambos. Foi o que Tiago declarou na sua carta universal (Tg 4.4). No entanto, a promessa assegurava que a parede de separação seria derrubada e a inimizade desfeita pelo sangue da cruz de Cristo (Cl 1.20; Rm 5.1). Como bem se expressou o sacro poeta: Sim, Jesus amou-me/ com amor buscou-me/ Ele mesmo restaurou-me a Deus/ Com seu sangue restaurou-me a Deus (Harpa Cristã, 156).

3. A segurança de vida eterna. Como já tivemos a oportunidade de ver supra, a drástica conseqüência do pecado é a morte (espiritual,física e eterna). Mas a promessa de salvação mediante o sacrifício substituto de Cristo compreende a vida eterna para todos quantos o aceitam, conforme enuncia o texto áureo da Bíblia: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).


TRAGETÓRIA DA PROMESSA

1. A promessa através da Bíblia. As páginas do Antigo Testamento são pródigas na apresentação da promessa de salvação, utilizando-se especialmente de dois tipos de linguagem:a tipologia e a profecia falada.

a) Tipologia bíblica. A tipologia é o estudo das figuras e símbolos da Bíblia (os tipos), com os quais Deus procura mostrar, por meio de coisas terrestres, as coisas espirituais. Geralmente constituído de pessoa, coisa ou evento, um TIPO é um meio usado por Deus para comunicar verdades divinas, através de ilustrações e figuras, e aponta para o futuro, quando ocorrerá a manifestação da verdade prefigurada – o ANTITIPO. No que tange à salvação, a tipologia bíblica veterotestamentaria é riquíssima, abrangendo tanto a obra da salvação quanto a pessoa do Salvador, que a executou. Vejamos alguns exemplos no Pentateuco.

•O sacrifício de Isaque (Gn 22.1-13). Era um pai oferecendo um filho em sacrifício, mas aparece um carneiro substituto e é oferecido em lugar do filho. Compare com Jo 3.16.

•O Êxodo - saído do povo de Israel do Egito (Ex 12.37-51). O Egito tipifica o mundo; Faraó, Satanás; Moises, Jesus, o libertador; a passagem pelo mar, a libertação da escravidão (cf Lc 9.28-32).

•A Páscoa. Note ainda que na noite que precedeu a saída dos filhos de Israel do Egito, quando foi celebrada a primeira páscoa, cada uma das famílias israelitas foi protegida da morte através do sangue de um cordeiro – o cordeiro pascal. Mais tarde Paulo diria que Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1 Co 5.7b).

•Os rituais do culto levíticos/ o dia da expiação (Lv cap 16). Não entraremos em detalhes sobre a forma como eram realizadas as cerimônias levíticas - isso o leitor pode ver na referencia supracitada -, apenas queremos salientar que milhares de animais eram sacrificados todo ano pelos hebreus como expiação pelos pecados. Tudo isso era sombra das coisas futuras (He 10.1) e apontava para o cordeiro de Deus que seria sacrificado definitivamente para expiar o pecado do mundo (cf Hb caps 8-10).

•O levantamento da serpente no deserto (Nm 21.4-9). Naquela ocasião, os filhos de Israel estavam sendo atacados por serpentes venenosas e muitos deles morreram. Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de metal e a levantasse no meio do povo, a fim de que todos os que fossem picados olhassem para aquela serpente e fossem sarados. Mais tarde, Jesus diria: “E como Moises levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.14,15).

Há muito mais pessoas, eventos e objetos no AT que prefiguram cristo e a sua obra redentora - o maná que caiu do céu, a água que brotou da rocha, o tabernáculo com os seus pertences, o sumo sacerdote, o sacerdócio de Melquisedeque, Josué, o livramento de Raabe por intermédio de um fio escarlate em sua janela, a saga do casamento de Rute com Boaz, etc. Para o nosso estudo, todavia, que não tem a pretensão de ser extenso, os casos exarados acima são suficientes.

b) A profecia falada ou predições diretas. Após anunciar a salvação pelos seus próprios lábios, o Senhor Deus, através dos profetas, começou a revelar o caminho mediante o qual o Messias executaria o seu glorioso projeto. Este caminho, traçado por entre as páginas do Antigo Testamento, é, na íntegra, concretizado no Novo. Vejamos.

•O próprio Deus anuncia, pela primeira vez, o Salvador (Gn 3.15).

•Ele nasceria de um virgem (Is 7.14), na cidade de Belém (Mq 5.2). Cumprimento: Mt 1.18-25; 2.4-6.

•Seria o próprio Deus (Is 7.14; 9.6). Cumprimento: Mt 1.18ss.

•Seu nome seria “Salvador” (=Jesus) (Is 49:1-8; 63:8): cumprido em Mt 1:21;

•Ele entraria triunfalmente em Jerusalém (Zc 9. 9). Cumprimento: Mt 21.1-4.

•Seria traído por seu amigo e vendido por trinta moedas de prata (Sl 41. 9; Zc 11.12). Cumprimento: Mt 26.14,15.

•Ele tomaria sobre si as nossas enfermidades, carregaria as nossas dores, seria ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades (Is 53.4,5). Cumprimento: Lc caps 22,23.

•Iria como um cordeiro mudo ao matadouro (Is 53.7). Cumprimento: Mc 15.3.

•Seria humilhado e morto de forma brutal (Sl 22). Cumprimento: Jo cap 19.

•O Salvador ressuscitaria, subiria ao céu, assentar-se-ia à direita de Deus e derramaria o seu Espírito sobre os seus discípulos (Sl 16. 9,10; 24.7-9; 110.1; Jl 2.28). Cumprimento: Mt 28.1-10; At 1. 9-11; 2.1-13; Hb 1.13).

O que acabamos de descrever acima são apenas algumas profecias referentes ao Salvador e a sua esplêndida salvação, pois seria impossível citar todas elas - são mais de duas mil predições, sendo a maior parte no Livro dos Salmos e no profeta Isaías. Se tivesse que resumir todas em apenas uma, eu diria que “o povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu a luz” (Is 9.2).

2. Promessa concretizada. “O Novo Testamento está oculto no Velho Testamento, e o Antigo Testamento é revelado no Novo”. Agostinho foi muito feliz em enunciar essa frase. Tudo o que fora predito em relação à salvação no Antigo Testamento teve seu cabal cumprimento no Novo. Na plenitude dos tempos, aparece o Cordeiro de Deus, que foi morto desde a fundação do mundo, a Semente da mulher, para remir os pecadores (qv Gl 4.4,5). O evangelista Mateus é cuidadoso em começar o seu evangelho com a genealogia de Jesus, retratando a sua linhagem ancestral até Abraão, passando por Davi e Judá, e isso fez a fim de demonstrar aos judeus que realmente se tratava do Messias, pois estava previsto que ele seria descendente de Davi (2 Sm 7.12-19; Jr 23.5), bem como de Judá (Gn 4y.10) e Abraão (Gn 12.3).

Creio não ser necessário detalhar aqui a forma precisa como cada fato descrito no Novo Testamento cumpriu as profecias e os tipos do Antigo, pois o leitor pode ter uma visão panorâmica disso no subtópico anterior. Basta aqui o registro feito por Lucas no capítulo 24 de seu Evangelho. Jesus, depois de ressuscitar, encontrou dois dos seus discípulos, incrédulos e entristecidos, no caminho de Emaús, porque o Mestre havia morrido. “E ele lhes disse:Ó néscios e tardos de coração para crê tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na glória?” (vv 25,26). Lucas completa: “E, começando por Moisés [o Pentateuco] e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (v 27). Jesus é, segundo Ele mesmo, a concretização de toda a lei e dos profetas, a salvação do Senhor manifestada na plenitude dos tempos.


ABRANGÊNCIA DA PROMESSA

1. O caráter peculiar da promessa.  A promessa de salvação não se constitui de um complexo conceito teológico que mais serve para afastar o homem de Deus do que Dele o aproxima, mas trata-se do recomeço de um relacionamento com Deus que foi perdido lá no Éden. Uma vez religado à comunhão com o Criador, o homem passa a desfrutar, gradativamente, de todas as bênçãos que o Senhor, originalmente, pretendia para a sua especial criatura.

Como ensina o pastor Geremias de Couto:

“A salvação implica, portanto, viver continuamente na presença de Deus, experimentar sua graça aqui e agora e permanecer desfrutando de comunhão perfeita quando chegarmos ao céu. Desse modo, o contínuo e crescente relacionamento com Deus é o ponto culminante da promessa da salvação”.“Este relacionamento começa a partir do momento em que livremente reconhecemos a promessa e aceitamos a Cristo como o meio de nossa reconciliação com Deus (Os 6.3; Rm 5.8-11). É o instante em que somos justificados (Rm 5.1), regenerados (Tt 3.5) e nos tornamos santos, segundo Deus (1 Co 1.2; Fl 1.1) e, ao mesmo tempo, buscamos, segundo a Palavra, a santificação diária pelo poder da graça de Deus (Rm 6.1-22; 2 Co 6.14-18). Fujamos, portanto, de todo e qualquer movimento que retira a eficácia da maravilhosa promessa da salvação em Cristo para pô-la em ritos que nada mais são do que fruto de corações vaidosos e arrogantes” (página 24 da revista de mestre).

2. O caráter universal da promessa. A promessa da salvação inclui-se no grupo das promessas gerais (ver a lição 1) , porque foi feita a todos indistintamente. Eis por que o Senhor ordenou que o Evangelho da salvação fosse pregado em todo o mundo, a todos os povos (Mt 28.19; Mc 16.15; At 1.8). Na carta aos romanos, Paulo diz que assim como pela ofensa de adão veio o juízo sobre todos os homens para a condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação (5.18; grifo nosso). Foi este o projeto salvífico de Deus: que, assim como todos os habitantes da terra foram representados por Adão na sua queda espiritual, também todos seriam representados por Cristo no seu ato de justiça (1 Jo 2.2; 2 Co 5.14; Hb 2. 9; Rm 5.12,17,18).

A argumentação usada acima não é, em absoluto, a validação da doutrina universalista, a qual sustenta que todos os homens serão salvos, independente de qual seja sua posição em relação a Deus. Os universalistas dizem que seria impossível um Deus de amor lançar homens no inferno. Mas Paulo, na carta aos romanos, diz: “Pois esperamos no Deus vivo, que é Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” (4.10; grifo nosso). Deduzimos daí que a promessa de salvação está efetivamente à disposição de todos, mas só pode ser aplicada, de forma experimental, àqueles que crêem e a aceitam.


CONCLUSÃO

Uuma vez alcançado pela maravilhosa promessa de salvação, o crente se torna receptáculo de todas as demais promessas de Deus e vive continuamente um intimo relacionamento com Ele. Como bem escreveu Paulo aos efésios, "bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (1.3). A propósito: você já é salvo?


BIBLIOLOGIA

Bíblia de Estudo pentecostal/ CPAD.
Lições bíblicas CPAD/ As promessas de Deus para sua vida (4º trim, 2007).
HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2001
O Novo Dicionário da Bíblia. Editado por R. Shedd. São Paulo: Vida Nova, 1995.
GRUDEN, Wayne A. Manual de teologia sistemática. São Paulo: Editora Vida, 2001.
SILVA, Antonio Gilberto da. Manual da Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

sábado, 17 de novembro de 2012

A importância da oração


“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim se sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.16).


A oração é o único canal de comunicação pelo qual o crente pode desenvolver um relacionamento íntimo com Deus. Sua importância pode ser avaliada na ênfase com que os santos homens da Bíblia a abordaram, tanto praticando como ensinando, sendo Jesus o principal deles. Estes santos nos legaram a lição de que falar com Deus é uma dádiva inestimável que não pode ser preterida sem sérios prejuízos para a vida cristã. Nesta oportunidade buscaremos o real valor da oração, explicar a ação do Espírito Santo no processo de comunicação com Deus e promover a conscientização de que ao nos aproximarmos do Pai celeste, devemos adotar uma postura honesta, reverente e confiante.


O VALOR DA ORAÇÃO

A importância que tem a comunicação para as relações humanas tem a oração para o relacionamento com Deus. Na Bíblia Sagrada, a importância da prática da oração pode ser mensurada nas experiências que grandes vultos daz fé tiveram com Deus em oração, bem como pelos benefícios que receberam.

1. Oração, comunhão e intimidade com Deus.

Não podemos esquecer nunca a equação: a comunhão é fruto do relacionamento. O relacionamento só acontece na comunicação. A oração é o único meio de comunicação com Deus. J. R. Lima

“Comunhão” é o vínculo que une duas pessoas diferentes, é ter algo em comum. Pode referir-se a bens, opiniões, modo de vida, de sentir e agir. Mas viver em comunhão pressupõe a ideia de relacionamentos interpessoais, intermediados pelo processo de comunicação. O resultado de um relacionamento constante entre duas pessoas é a intimidade cada vez mais estreita entre elas. Por isso acredito que o significado mais profundo de oração deva encontrar-se no termo “relacionamento”. A oração é o único meio de comunicação com Deus pelo qual o homem se chega a Ele e se mantém num relacionamento contínuo, em que ambos, criatura e Criador, se afetam mutuamente. Devo dizer que a oração é o diálogo mais íntimo e apaixonante entre duas pessoas, que se caracterizar pelo esforço de cada uma das partes por expor seu coração e captar o coração do outro, por desvelar seus pensamentos e apreender, no contra fluxo, os pensamentos do outro, num vai-e-vem de pensamentos e sentimentos que resulta em novos pensamentos e sentimentos, na medida em que se cruzam, e afeta irreversivelmente as partes envolvidas.

Destarte,quem deseja conhecer a Deus não pode descuidar do exercício da oração. Somente ir à igreja e cumprir a risca os compromissos ministeriais e religiosos não basta. Como observa Warren, “você jamais cultivará um relacionamento íntimo com Deus apenas indo à igreja uma vez por semana […]. Uma amizade com Deus é construída ao partilharmos com Ele todas as nossas experiências”.1 Por isso o conselho do apóstolo Paulo: “Orai sem cessar” (1Ts 5.17). Isso não significa necessariamente estar sempre engajado em retiros espirituais. “Você pode manter uma conversa contínua e ilimitada com Deus ao longo do dia, conversando sobre o que quer que você esteja fazendo ou pensando no momento. […] significa conversar com Deus enquanto faço compras, trabalho ou realizo qualquer outra tarefa diária”.2 Em contrapartida, acontece um desvelamento constante de Deus para a alma que o busca (Sl 55.17).

Portanto, “estreitar a comunhão com Deus” significa conhecê-lo cada vez mais experiencialmente, num relacionamento diário, e isso não se faz simplesmente através do estudo sistemático da Bíblia ou de outros meios, somente por intermédio da oração. Como disse o profeta Oseias: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor”. E este é o propósito final de Deus para os seus filhos, que nos aproximemos cada vez mais Dele, como acontecia no jardim do Éden, quando Adão tinha perfeita comunhão com o Criador, pois ambos se comunicavam constantemente (Gn 2.15; 3.8).

Em toda a Bíblia Sagrada, vamos encontrar exemplos de homens que gozaram de íntima comunhão com Deus por meio da oração: Enoque, quando estava com 65 anos, passou a ter comunhão com o Senhor, através da oração. A cada dia, ele se aproximava mais e mais do seu Criador. Trezentos anos depois, não foi mais visto, pois o Senhor o tomou para si (Gn 5.24).

Moisés passava horas a fio com Deus e falava com Ele face a face, como qualquer fala com o seu amigo (Ex 33.11). Este relacionamento devia-se ao fato de que Moisés vivia totalmente dedicado aos propósitos e vontade divinos. Ele compartilhava dos próprios sentimentos de Deus, a ponto de padecer quando Ele padecia e de entristecer-se quando Deus ficava entristecido (Ex 32.19).

Abraão tinha tanta comunhão com Deus que travava diálogos extensos com Ele (Gn 18.23-33) e foi chamado por Este de meu amigo (Is 41.8). Daniel, chamado de homem mui amado e desejado (Dn 9.23;10.11,19) costumava orar três vezes ao dia (Dn 6.10).

Lembro-me de ter ouvido o pastor da maior igreja da Coreia do Sul, David Yonggi Cho, afirmar que, se tivesse que dizer uma última palavra aos seus ouvintes, ele lhes diria: “Orem”. Não foi essa a mesma mensagem que Moisés, Davi, Jesus, Paulo e tantos outros heróis da fé nos transmitiram com o seu exemplo de vida?. O que estamos esperando então? Comecemos a orar agora.

2. Oração e ações de graça

Ações de graça são expressões gerais de gratidão a Deus por todas as Suas realizações em nossa vida, passadas, presentes ou mesmo futuras. Nesta atitude, o fiel faz menção daquilo que o Senhor fez em seu favor, salienta os dons recebidos, os quais constitui-se prova cabal do amor individual que o Pai celeste dedica a cada um de seus filhos. As páginas sagradas estão repletas de exemplos de piedosos homens que nunca descuidaram da importância do agradecimento:

Os salmistas

“Louvarei com cânticos o nome de Deus e exaltarei com ações de graças” (Sl 69.30).
“Cantai ao Senhor com ações de graças” (Sl 147.7).
“Perseverai na oração, vigiando com ações de graças” (Cl 4.2).

O apóstolo Paulo

"[…] dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 1.8).
“Perseverai na oração, vigiando com ações de graças” (Cl 4.2).

O próprio Jesus

"Então Jesus tomou os pães, deu graças e os repartiu entre os que estavam assentados, tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes" (João 6:11) .

"Pai, eu te agradeço porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves, mas disse isso por causa do povo que está aqui, para que creia que tu me enviaste." (João 11:41-42).

Portanto a orientação bíblica é que entremos na presença do Senhor com ações de graça: “Entrai pelas portas Dele com ações de graças, e em seus átrios com louvor, rendei-lhe graças e louvai ao seu nome” (Sl 100.5); e também: “Em tudo dai graças” (1Ts 5.18). Acredito que razões não faltam para sermos agradecidos – na prosperidade, reconhecemos que todas as bênçãos vêm de Deus; na adversidade, sabemos que Deus pode tirar algo bom daquilo que julgamos ruim. Essas verdades foram sintetizadas por August Ludwig Storm no poema que se segue:


Graças dou por esta esta vida, pelo bem que revelou
Graças dou pelo futuro e por tudo que passou.
Pelas bênçãos derramadas, pelo amor pela aflição,
Pelas graças reveladas, graças dou pelo perdão.

Graças pelo azul celeste e por nuvens que há também;
Pelas rosas do caminho e os espinhos que elas têm.
Pelas noites desta vida, pela estrela que brilhou,
Pela prece respondida e a esperança que falhou..

Pela cruz e o sofrimento e, afinal, ressurreição;
Pelo amor que é sem medida, pela paz no coração;
Pela lágrima vertida, e o consolo que é sem par,
Pelo dom da eterna vida,sempre graça hei de dar.


COMO DEVEMOS CHEGAR A DEUS EM ORAÇÃO

1. Reverentemente. A maneira como nós apreendemos uma pessoa determina a nossa forma de se relacionar com ela. Já vimos em outras lições que Deus é Pai, o que nos encoraja a irmos a Ele como filhos. A Bíblia ensina que Deus é também Senhor, o que exige de nós a postura de servos. Ele é ainda o Criador, o que exige de nós a postura de criaturas. Em suma, tudo o que Deus é em relação a nós, exige em contrapartida uma postura de reverência diante Dele. Por isso as nossas palavras na oração devem ser delimitadas por uma atitude de respeito, obediência e gratidão. Afinal de contas, encontramo-nos diante Daquele a quem é devida toda honra, glória, louvor e exaltação , o Santo, Eterno, Todo-poderoso, justo e bom.

Outrossim, somente o reconhecimento grandeza de Deus revela as limitações e fraquezas humanas, um antídoto contra a soberba. Como bem observou o pastor Eliezer Silva, “A reverência voluntária a Deus e o seu santo temor em nós sufocam o orgulho , que é tão comum no homem e muitas vezes se encontra disfarçado extremamente nele, mas latente em seu interior”. 1

2. Honestamente. Ser honesto é proceder com decência, dignidade e compostura. O pastor Eliezer Silva foi feliz ao dizer que “quando o crente, convicto pelo Espírito Santo, e segundo a Palavra de Deus, arrependido confessa seus pecados, erros, faltas e fraquezas, os impedimentos são removidos para Deus agir em seu favor”.2 Para Deus, um coração honesto é aquele que reconhece as suas fraquezas e erros, e não busca meios nebulosos de escondê-los. Aliás, a honestidade é a virtude que marcou os profetas e salmistas. Como observa Yancey, “nos salmos aprendi que tenho o direito de levar a Deus qualquer tipo de sentimentos que tenha em relação a Ele. Não preciso disfarçar meus fracassos nem tentar limpar minha podridão; é bem melhor levar essas fraquezas a Deus, pois só Ele tem o poder de curá-las”.3 A Bíblia afirma que o crente torna-se alvo das misericórdia divinas, quando desnuda a sua alma perante Aquele que se compraz em perdoar o coração arrependido (Pv 28.13). Li em algum lugar que Deus ouve mais pessoas honestas do que pessoas “santas”. Temos um exemplo disso na parábola sobre o fariseu e o publicano (Lc 18.9-14), em que a sinceridade do publicano em pedir misericórdia pela sua condição de pecador contrastava com a hipocrisia do fariseu ao dizer que era justo. E Jesus conta que Deus atentou para a oração do publicando e desprezou a do fariseu.

O servo do Senhor, sempre que recorrer a Deus em oração, precisa estar no mesmo espírito do salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eteno” (Sl 139).

3. Confiantemente. A confiança em Deus é a admissão de nossas limitações e o reconhecimento de Seu poder ilimitado, bem como de seu caráter santo, justo e bom. Só se pode confiar em alguém a partir do conhecimento sólido de seu caráter e potencial, conhecimento que só se consegue dentro de um relacionamento estreito e permanente. Ao entrarmos na presença do Pai celeste, precisamos estar cônscios de que Ele nos ama (Sl 145.9), nunca nos perde de vista, preocupa-se com cada detalhe de nossas vidas e é galardoador dos que O buscam (Hb 11.6). O Senhor já nos deu uma prova gritante de que é confiável quando entregou o Seu Filho por nós: “Aquele que nem mesmo o seu próprio filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas” (Rm 8.23). “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.6).


CONCLUSÃO

A plenitude da vida cristã reside numa vida de constante oração. Somente por meio do hábito de orar é possível ao homem desenvolver um relacionamento íntimo com Deus e se agigantar diante dos problemas da vida. Vivemos numa época em que a igreja discursa muito e ora pouco. Mas nosso pedido ao Pai das luzes é que esta lição, repleta de princípios e exemplos maravilhosos de homens que entregaram a vida no altar da oração - pois a entendiam como uma necessidade premente - já tenha começado a nos pôr de joelho.

A importância da oração II

Os ensinos e exemplo de Jesus ressaltam o valor da oração

"E Jesus contou-lhes uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer (...)." Lc 18.1

O ministério de Jesus foi marcado por um exemplo singular de oração. Do início ao fim de sua vida, Ele ressalta a importância da prática de conversar com Deus, primeiramente através de sua própria vida de constante oração (Mt 14.22-25), segundo, por meio de abundante ensino aos seus seguidores sobre por que eles deveriam orar (Mt 26.41), como eles deveriam orar (Lc 6.9-13) e o que deveriam evitar na oração (Lc 6.5-13).

Em Lucas 11.5-8, o Mestre cita uma curiosa parábola, conhecida como a do amigo importuno, onde o tema central é a oração. Uma pessoa vai à casa do amigo, à meia-noite, pedir três pães emprestados; e conclui dizendo: “se o amigo não se levantar para atender, levando em conta a amizade, o fará por causa da importunação, atendendo prontamente”. O mesmo Lucas, no capítulo 18 de seu evangelho, afirma que “[Jesus] contou-lhes uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer” para introduzir a história de uma viúva pobre que, sentido-se injustiçada, pede justiça a um juiz iníquo que, a princípio não lhe deu importância, mas, devido a persistência da viúva, a socorreu, a fim de se livrar da importunação dela.

No tocante à sua própria experiência de oração, vemos que o Mestre, antes da difícil tarefa de escolher seus apóstolos, subiu ao monte e passou toda a noite em oração. Quando o dia raiou, Ele se levantou, e, além de escolher os doze apóstolos” (Lc 6.12,13), curou muitos enfermos (vv. 17-19) e pregou seus sermões mais conhecidos (vv. 20-49).

Antes de ir ao Calvário, Jesus orou insistentemente em favor de seus discípulos (Jo 17.1,9,20). Horas depois, na iminência de encarar a crucificação, o Filho de Deus subiu ao monte das Oliveiras, como costumava fazer, e lá no Guetsêmani, orou fervorosamente, submetendo-se à vontade do Pai (Lc 22.39-42).

Numa situação difícil, diante do sepulcro de Lázaro, morto há quatro dias, Jesus orou ao Pai, agradecendo-Lhe por sempre o haver ouvido (Jo 11.41,42). Jesus não tomava decisões importantes de improviso, nem apelava para os critérios humanos, de sorte que, do início ao fim de seu ministério, temos Nele um exemplo marcante de oração.

Lembro-me de ter ouvido o pastor da maior igreja da Coreia do Sul, David Yonggi Cho, afirmar que, se tivesse que dizer uma última palavra aos seus ouvintes, ele lhes diria: “Orem”. Não foi essa mesma mensagem que o homem de Nazaré nos transmitiu com o seu exemplo de vida?

PENSE NISTO: Se a oração não fosse tão importante, Jesus não a teria enfatizado tanto.

A importância da oração III

A oração e a ação do Espírito Santo na vida do crente

Toda vez que orava, o Espírito vinha ajudar-me a orar, tomando minha linguagem coreana e substituindo-a por uma linguagem celestial que eu jamais aprendera. Sabia que o meu espírito se tornara um com o Espírito Santo, e eu podia orar durante uma hora inteira ou mais com a maior facilidade.    David Yonggi Cho.

O Espírito Santo é o intercessor que nos socorre na oração. A comunicação entre o Deus infinito e a criatura finita seria impossível se não fosse a intervenção da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É Ele quem nos guia neste processo, inspirando e comunicando vida às nossas orações, de forma a expressarmos ao Pai celeste os profundos sentimentos de nossos corações, inexprimíveis pelos recursos humanos. Se o Consolador não nos ajudasse a falar com Deus, nossas preces seriam como as dos fariseus, totalmente desprovidas de vida. Por isso é importante que, ao entrar na presença de Deus em oração, o crente esteja consciente de que não está sozinho, pois a Bíblia ensina que temos um intercessor, o qual orienta-nos a falar com o Pai celeste e intervém em nosso favor com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26).

Precisamos considerar que as nossas orações são motivadas por uma montanha russa de emoções. Também po ação de graças e louvores, mas principalmente por embate (Gn 32.24-31), conflitos internos (Sl 73.16,17) e confronto com forças espirituais (Dn 10.12,13). Às vezes traduz uma tentativa desesperada de apaziguar o conflito entre a carne e o espírito, ou a procura de proteção e armadura contra as hostes espirituais da maldade (Ef 6.12ss), até mesmo a busca de força para conformar a própria vontade à vontade de Deus (Lc 22.41,42).

O escritor Philip Yancey apreende esse estado de espírito flutuante em seu comentário sobre as orações no livro dos Salmos:

O livro de Salmos dá exemplos de pessoas comuns, lutando freneticamente para harmonizar a crença que nutrem a respeito de Deus com o que estão experimentando no dia a dia. […] Este livro contém os diários angustiantes de pessoas que queriam crer num Deus bom, amoroso e fiel, enquanto o mundo continuava desabando à sua volta.
Em momentos assim, o Espírito Santo nos assiste em nossas orações: “Da mesma maneira também os Espírito ajuda as nossas fraquezas, porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Normalmente períodos de grandes aflições redundam em experiências profundas para o crente, quando ele sente bem de perto a ação intercessória do Consolador.

Nos momentos derradeiros do ministério de Cristo, Ele confortou os seus discípulos, garantido que eles não estariam sozinhos depois de sua partida, mas haveria de enviar o Espírito Santo, o qual – disse Jesus – “habita convosco e estará em vós” (1Jo 14.17). Depois da ressurreição, o Senhor Jesus cumpriu a promessa integralmente quando assoprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).

Finalizando, o crente salvo em Jesus é templo do Espírito Santo (1Co 6.19). Isso significa uma intimidade que excede em profundidade qualquer outra relação humana, porque o que está em nós conhece todas as nossas necessidades, anseios, pensamentos, falhas, sentimentos, desejos, frustrações e intenções, e é Sua ação que promove as características de Cristo em nós (Gl 5.22-25), renovando o nosso entendimento e nos conformando à boa, perfeita e agradável vontade (ver Rm 122).

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ruídos na comunicação com o céu

Um esforço por atingir o coração de Deus

Antes, Deus fala uma e duas vezes, porém ninguém atenta para isso (Jó 33.14).
 Dia desses, li uma algo que impactou minha vida. Alguém escreveu: “Ore, não até que Deus te ouça, mas até que você possa ouvir a Deus”. A frase estava sobreposta a um pano de fundo formado pela imagem de uma criança africana esquelética, e mais do que pela frase em si, fiquei maravilhado com a MENSAGEM transmitida através da correspondência perfeita entre a imagem de fundo e a sugestão ATÉ QUE VOCÊ POSSA OUVIR A DEUS.

Impressionei-me primeiramente porque isso diz muito acerca daquele que é o destinatário de nossas orações. Foi como se, de repente, eu houvesse descoberto que, como nós, Deus tem um coração onde residem vontades, sentimentos e emoções, tem seus próprios pensamentos, compreensão de vida e visão de mundo, e, por conseguinte, deve ter seu próprio sonho para este mesmo mundo, o qual deseja compartilhar com pessoas e realizá-lo através delas.

Segundo, pus-me a refletir sobre a natureza da oração e repensar o processo pelo qual ela ocorre. Penso que a maioria dos cristãos se comporta no processo da oração como num monólogo em que são expressos os próprios sentimentos, emoções, vontades, pensamentos e necessidades a um expectador sem voz, indiferente em relação a comunicar, como contrapartida, seus pensamentos, sentimentos e vontade, mas apenas desejoso de ver e ouvir o espetáculo do outro lado. Neste caso, Deus é expectador que apenas se emociona e reage às expressões do coração do fiel, porém sem meios de lhe transmitir, pela mesma linha de comunicação, os desejos e pensamentos de seu próprio coração.

Acho que a oração é o diálogo mais íntimo e apaixonante entre duas pessoas, e um diálogo íntimo e apaixonante deve caracterizar-se pelo esforço de cada uma das partes por expor seu coração e captar o coração do outro, por desvelar seus pensamentos e apreender, no contra-fluxo,  os pensamentos do outro, num vai-e-vem de pensamentos e sentimentos, o que resulta em novos pensamentos e sentimentos, na medida em que se cruzam, e afeta irreversivelmente as partes envolvidas. Mas não é assim que comumente acontece na oração. Habitualmente apressamo-nos em desnudar um coração egoísta diante de Deus, sem nenhuma preocupação em atingir o coração dele, em acessar seus sentimentos e apreender os seus pensamentos acerca da realidade.

Atingir o coração de Deus. Acessar os sentimentos de Deus. Apreender os pensamentos de Deus. Sinceramente, eu nunca tinha parado para analisar a dimensão e profundidade disso. Quais os pensamentos de Deus acerca da realidade que o cerca? E como Ele se sente ao contemplar a realidade e pensar sobre ela? A partir de seu pensar e sentir, o que Ele deseja comunicar? O que pretende fazer? E por meio de quem? Será que o que tem sido feito em nome de Deus por aqueles que se intitulam seus representantes atuais corresponde, de fato, à expressão da vontade divina? Será que estas afirmações que temos ouvido amiúde: Deus disse, Deus determinou, Deus orientou, Deus prometeu, mesmo que às vezes pronunciadas por pessoas bem intencionadas, são, de fato, expressões da vontade de Deus? Ou estamos num tempo de fortes ruídos na comunicação entre terra e céu? Tenho um amigo que, sempre que saímos do culto de uma grande igreja, me desconcerta com esta pergunta: "E se não for nada disso que Deus quer?"

Estudando o processo de comunicação verbal, percebendo os meios que o possibilitam e as barreiras que podem dificultá-lo, pus-me a pensar se a comunicação com o céu se daria a partir de mecanismos semelhantes e se também estaria sujeita a interferências parecidas. Questionei-me se poderia acontecer de eventualmente a linha de transmissão entre céu e terra sofrer interferências capazes de distorcer as mensagens enviadas e exigir grande esforço dos interlocutores para se entenderem mutuamente. Pode até parecer maluquice minha, mas ultimamente tenho sido afetado por uma desconfiança persistente de que Deus tem feito um esforço “tremendo” para se comunicar com o que ainda chamamos de igreja, porém com pouco resultado. Desconfio que até mesmo sua mensagem escrita, em grande parte, tem sido distorcida por fortes ruídos na comunicação.
Como se daria satisfatoriamente a comunicação entre o finito e o infinito, entre o temporal e o eterno?  Abrindo uma ilustração dentro da comunicação humana, imagine se você pudesse voltar no tempo cinco séculos e conversar com alguém daquela época sobre o mundo de hoje. Você e seu interlocutor estariam diante de barreiras quase intransponíveis, como a cultura, tempo, visão e compreensão de mundo diferentes. Você, de uma cultura supostamente mais evoluída, que talvez já tenha pego aulas de antropologia para entender o indivíduo em seu próprio meio, época e cultura, poderia até compreender tudo o que fosse comunicado pelo seu interlocutor, mas ele teria sérias dificuldades para compreender você. Imagino que ficaria mesmo escandalizado se ouvisse de sua boca tudo o que acontece por aqui hoje. Você quereria falar sobre muitas coisas empolgantes, mas pensaria duas vezes antes ao perceber que o outro lado estaria de antemão fechado para acreditar em muito do que você quereria dizer. Sendo assim, para que a comunicação fosse o menos prejudicada possível, ou você teria que se submeter a rigorosa adaptação comunicativa, o que empobreceria bastante o processo de comunicação, ou seu interlocutor teria que passar por uma espécie de desarmamento, de desnudamento, para permitir suficiente abertura para o novo que você tivesse para comunicar. Ou seja, suspender os próprios conceitos, razão, idéias, para se deixar tocar, influenciar e direcionar pelo outro, o que requereria dele confiança, desprendimento, renúncia, humildade e confiança. Numa terceira opção, as duas coisas poderiam ser feitas em conjunto, havendo adaptações de ambas as partes.

Pois bem, aplicando a ilustração no que estamos discutindo, Deus está anos luz tanto à nossa frente como atrás de nós na história, porque sua mente abarca passado, presente e futuro, constituindo-se num ponto de encontro onde se cruzam as culturas de todas as épocas, com seus conceitos, ideias e tabus os mais diversos. Para se comunicar com o humano, ou Ele se submete a uma adaptação rigorosa ou exige de nós uma abertura confiante, humildade, reconhecimento das próprias limitações, suspensão dos próprios conceitos e tabus, o que chamamos de processo de desarmamento cognitivo. Isso é fé.  

Penso que, de nossa parte, precisamos  passar por um processo de desarmamento que facilite nossa comunicação com o céu para que Deus diga o que Ele, de fato, quer dizer e não o que queremos ouvir; expresse o que Ele verdadeiramente pensa e sente sobre determinada situação e sobre nós mesmos e não o que queremos que Ele pense ou sinta. Precisamos de abertura confiante para a expressão da vontade de Deus. Até porque a Bíblia nos diz que os nossos pensamentos são uns, os de Deus são outros; os nossos sentimentos são uns, os de Deus quase sempre são outros; a nossa compreensão é uma, a de Deus quase sempre é outra; nossa vontade quase nunca é a vontade de Deus. Por isso que o escritor sagrado nos orienta a que apresentemos nossa vida consagrada a Deus para, só assim, experimentarmos sua boa, perfeita e agradável vontade (Rm 12.1,2). O que seria este consagrar-se a Deus senão chegar diante Dele aberto, receptivo e esvaziado para receber, sem reservas, aquilo que Ele tem a dizer? 

Segundo a Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Criado à imagem e semelhança divina, o homem herdou de Deus também esse desejo de criar segundo a própria semelhança, e então, no decorrer dos séculos, sempre tentou imitar o Criador no ato de criar-segundo-a-própria-semelhança, e conseguiu, quando muito, a capacidade de formatar segundo à própria semelhança. É sintomático no humano que cada um quer formatar o outro à sua própria imagem. Temos uma tendência a sugerir que o outro deva pensar como nós, sentir como nós e enxergar o mundo como nós enxergamos. Como se isso não bastasse, começaram a construir um Deus à imagem e semelhança humana. Projetamos em Deus nossa forma de pensar, sentir, fazer e compreender o mundo. De sorte que vamos a Deus, determinando de antemão, o que ele deve pensar, como deve sentir, como deve compreender o mundo e o que tem que fazer. Ou seja: Deus somos nós mesmos. 

O lado negativo da história da igreja mostra uma tendência de projetar em Deus também a nossa maneira preconceituosa de compreender as pessoas e o mundo. Por isso, desconfio que muito do que é apregoado nas igrejas como sendo a expressão última da vontade de Deus nada mais é do que expressão das vaidades humanas, do desejo doentio de poder e manipulação das massas, projetados em uma divindade deslocada de seu lugar, criada à imagem e semelhança de homens presunçosos (ver 2 Tm 3.1-9).

Quase sempre as nossas orações são movidas pelo desejo de que Deus nos ouça e nos faça algum favor. Por isso abundamos em preces rápidas e sem pausa, apressados em descarregar as nossas solicitudes aos pés da Divindade. E Deus nos ouve, porque a linha de comunicação que vai daqui para lá é boa. Ele consegue ouvir e entender até o filho do corvo pedindo comida (Jó 38.41). Porém, o segredo, o mais importante é que nós estejamos abertos para ouvir o que Ele tem a dizer, abertos à revelação de sua soberana vontade. E é aqui que reside a dificuldade, porque a linha que transmite a comunicação de lá para cá vai encontrar grandes bloqueios, por causa de nossas limitações. Deus anseia por uma oportunidade de nos falar, porém nossas distrações internas e externas quase sempre abafam a voz do céu antes que ela chegue a nós.

Até que Você possa ouvir a Deus...

Deus tem sua própria vontade. Paulo disse que devemos apresentar os nossos corpos em sacrifícios vivos para que possamos experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12.2).

Deus tem seus próprios pensamentos acerca da realidade. Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e os meus caminhos são mais altos que os vossos caminhos (Is 55.8,9).

Em relação aos sentimentos, às vezes encontramos Deus como se estivesse no divã, querendo abrir seu coração com alguém. "Espantai-vos disso, ó céus, ficai estupefato. O meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retém as águas" (Is 2.12,13).

Barreiras na comunicação com o céu 

Sendo assim, Deus deseja comunicar seu Ser conosco, mas as barreiras na comunicação não permitem. Seleciono abaixo algumas dessas barreiras.


Seletividade: O interlocutor só atenta para ouvir o que é do seu interesse ou o que coincide com a sua opinião. Consciente ou (quase sempre) inconscientemente, ele condiciona os ouvidos para captar apenas o que lhe cai bem. Há um sistema defensivo nos humanos que vai sempre na direção de evitar tudo o que causa desconforto e, por outro lado, orienta na direção do que parece confortável. É por isso que a Bíblia diz que Deus fala uma e duas vezes, e ninguém atenta para isso. É insuportável para nós ouvirmos alguém dizer que precisamos mudar de hábitos, reavaliar conceitos e abrir mão de coisas que não fazem mais sentido, ainda que esse alguém seja Deus. Por isso levantamos barreiras, porque não queremos entrar em contado com nós mesmos, com a realidade nua e crua, por medo de sofrer, ou então por orgulho. 

Na Bíblia, temos o caso do rei Acabe, cujos profetas, todos cuidadosamente selecionados por ele, só falavam o que o monarca queria ouvir. Qualquer voz destoante, como a do profeta Micaías, não era bem-vinda, não podia ser de Deus, porque Acabe tinha condicionado os ouvidos para ouvir só o que lhe era conveniente. O espírito de Acabe continua agindo na história do povo de Deus, principalmente nos dias hodiernos, quando vivencia-se uma fé de conveniência, cujos pregoeiros estudam cuidadosamente o que os fiéis querem ouvir, para inflar seus egos com promessas infundadas atribuídas falsamente a Deus.

Preconceito: A percepção indevida das diferenças socioculturais, raciais, religiosas, hierárquicas, entre outras. Como isso aqui é muito abrangente, vamos fazer um recorte, referindo-nos ao preconceito engendrado pelas crenças. Há pessoas que estão tão arraigadas a um sistema de crendice que tudo o que destoa dela deve ser imediatamente rechaçado como mentira inaceitável. São tão confiantes que não se dão sequer ao trabalho de ponderar, comparar os fundamentos desse ou daquele conceito.

Jesus teve muito trabalho com os fariseus de seu tempo, cuja tradição servia de barreira entre seus ouvidos e a voz de Deus.  Todavia, o caso bíblico mais emblemático é o de Pedro. No capítulo oito de Atos, este apóstolo quase se recusou a obedecer a uma ordem divina por entender que a mensagem do céu se chocava com uma crendice de Israel. É bem provável que, inicialmente, ele nem tenha aceitado que a voz vinha mesmo do céu. Ou seja, se não está de acordo com tudo o que aprendi, só pode ser do diabo e não de Deus. A ordem era para que ele tomasse alguns animais, impuros segundo a crença judaica, e comesse. Pedro disse: “Senhor, não posso comer, nunca comi coisa imunda”. Deus disse: “Quem te falou que é imunda? Eu sei o que estou fazendo, se eu mandei matar e comer, mata e come”. A visão e a ordem apontavam para o desejo de Deus de salvar os gentios, que os judeus consideravam imundos, e que logo Pedro deveria visitar o gentio Cornélio a fim de evangelizá-lo. Mais tarde Pedro precisou dar explicação à igreja sobre o fato de ter ido à casa de Cornélio. Ele deve ter pensado: “Senhor, vou ficar mal perante a tradição religiosa”. Imagino Deus lhe dizendo: “Que importa o que vai dizer a tradição religiosa, se eu mandei ir lá, vá”.

Para aqueles que consideram meu texto subversivo, “defendo-me dizendo que congrego na mesma igreja há quase vinte anos, nunca a desabonei e sei da importância que a denominação tem para o crente, mas também sei que o Reino de Deus não se resume a templos, denominações e tradições eclesiásticas: o Reino de Deus pode ser dois ou três reunidos em nome de Cristo. É a irmã Maria junto com a irmã Francisca reunidas em algum lugar, numa campanha de oração, e Deu revelando a sua vontade para tirar o mundo do eixo” e desbaratar tradições humanas que bloqueiam a promoção de Seu Reino.

Tradicionalismo. Parece que foi Cipriano de Cartago quem disse: "Às vezes, uma antiga tradição não passa de um antigo erro." Ademais disso, há costumes que já fizeram muito sentido, mas que deixaram de fazer com o tempo. Todavia alguns se agarram à tradição apenas por uma questão de conveniência, porque o viver segundo preceitos e preconceitos confere status e, em nome de manter um status, sacrificam a verdade descoberta no altar da conveniência. Foi assim que os fariseus se comportaram em relação à verdade de Deus materializada no ministério de Jesus. Trocaram o ministério persuasivo do mestre pela tradição vazia de seus pais e ficaram surdos para as boas novas que Deus queria comunicar (ver Mc 7.1-13).

Espírito de religiosidade. O espírito de religiosidade é o resultado desta equação: zelo de Deus + orgulho = religiosidade. Na verdade onde se lê zelo de Deus, leia-se zelo por uma tradição cujo cumprimento confere status. As pessoas buscam se promover de muitas formas, entre essas formas, diferenciando-se das demais por meio de sacrifícios que as façam superiores. Os fariseus do tempo de Jesus se achavam diferentes dos outros homens, tanto de sua própria nação como dos gentios. Seu orgulho era tão grande que não permitia uma abertura para a revelação gritante de Deus por meio dos ensinos e milagres realizados por Jesus (ver Mc 3.1ss).

Coração endurecido. Em Marcos 8.14-21, vemos que os próprios discípulos de Jesus não conseguiam entendê-lo, porque tinham o coração endurecido, o que resultou numa reprimenda do mestre: "E Jesus, percebendo a discussão, perguntou-lhes: Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem percebem? O coração de vocês está endurecido. Vocês têm olhos, mas não veem? Têm ouvidos, mas não ouvem? (17-19). 

Continua...