sábado, 25 de junho de 2011

Profetas Maiores e Menores

“E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as escrituras” (Lc 24.27).


Desde Moisés até João Batista, levantaram-se muitos profetas em Israel. Alguns não escreveram suas mensagens, os profetas orais; outros deixaram suas profecias e experiências registradas para a posteridade, os profetas literários. Estes últimos encontram-se divididos na Bíblia Sagrada em dois grupos: Profetas Maiores (cinco) e Profetas Menores (doze). Foram classificados assim por Agostinho em razão do volume de seus escritos. Porém, independente de classificação, todos os profetas, orais ou literários, exerceram o seu ministério debaixo da inspiração e autoridade divinas e foram o referencial constante dos ensinadores do Novo Testamento. Amiúde citados por Jesus e por seu apóstolos, estes gigantes da fé lançaram todo o alicerce sobre o qual a Nova Aliança seria edificada. Neste espaço, além de fazermos uma explanação sobre os dois grupos dos profetas literários, apresentaremos um breve estudo sobre o texto de Romanos 9.25-29, onde o apóstolo Paulo menciona os profetas Oseias e Isaías - um do grupo dos Maiores e outro do grupo dos Menores - para defender uma verdade central da fé cristã: o novo povo de Deus seria formado por gentios convertidos ao evangelho e pelo remanescente fiel de Israel, conforme predito pelos dois profetas supracitados.

I. CLASSIFICAÇÃO DOS LIVROS PROFÉTICOS

1. No Cânon Hebraico.

A Bíblia dos judeus é o Antigo Testamento hebraico, chamada por eles de Tanach, sigla que vem das palavras hebraicas Torah, Neviym, Kethuvym, e significam respectivamente Lei, Profetas e Escritos, as três principais divisões do Antigo Testamento. A Torah compõe-se dos cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), todos escritos por Moisés. Os Neviym estão divididos em duas partes: os profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis); e os profetas posteriores (Isaías, Jeremias e Ezequiel mais os doze profetas menores). Os Kethuvym compõe-se da terceira seção e estão subdivididos em três partes, representadas pelos livros poéticos ( Salmos, Provérbios e Jó); os Megilloth, ou Cinco Rolos (Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester); e os Livros Históricos (Daniel, Esdras-Nemias e Crônicas). Como os doze profetas menores formam um só livro, e da mesma forma, os dois livros de Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, e Esdras e Nemias, o Cânon Hebraico somam apenas 24 livros.

Esta disposição da Bíblia hebraica foi ratificada por Jesus no capítulo 24.44 do Evangelho de Lucas. Naquela ocasião, instruindo dois de seus discípulos no caminho para Emaús, o Mestre disse: “Convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés [Torah], e nos Profetas [Neviym], e nos Salmos [ Kethuvym]”.

2. No Cânon Cristão.

O Cânon Cristão corresponde ao Antigo Testamento hebraico mais o Novo Testamento. Em nossa Bíblia, o Antigo Testamento está dividido em quatro grupos: Lei - Parte correspondente aos cinco primeiros livros (Torah hebraico); Livros históricos – que correspondem a 12 livros (Josué, juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Nemias e Ester); Livros poéticos (Jó, Salmo, Provérbios, Eclesiastes e cantares de Salomão); e Os livros proféticos – que estão subdivididos em dois grupos, conforme vemos a seguir.

a) Os Profetas Maiores. Designação usada para identificar o primeiro conjunto de cinco livros dos profetas. São chamados de maiores por causa do volume de seu conteúdo literário, não porque são mais importantes que os demais. São eles: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel.

Isaías e Jeremias profetizaram a partir de Judá, durante um longo período de mais de quarenta anos. O primeiro é considerado o mais ilustre dos profetas literários e também como o profeta messiânico pelo fato de seu livro ser o que mais faz menção do Messias. O segundo, Jeremias intercala sua própria história com a história de seu povo numa sequência que abrange desde o reinado de Josias até o cativeiro babilônico. Jeremias foi perseguido pela casa real em Jerusalém muitas vezes (37.15) e, após a destruição da Cidade Santa, foi levado ao Egito contra a sua vontade. Devido o seu sofrimento intenso durante seu ministério profético, ficou conhecido como o profeta das lágrimas.

Ezequiel e Daniel são os profetas do exílio. Foram levados para Babilônia na primeira deportação. O primeiro profetizou por 22 anos junto ao rio Quebar (1.1; 43.3). Sua mensagem profética prevê a invasão da Terra Santa por Gogue e sua consequente derrota antes da restauração espiritual de Israel. O segundo, Daniel, foi levado muito jovem para Babilônia, serviu diretamente no palácio real. Após a queda de Babilônia, continuou no reino da Pérsia como ministro de e morreu no exílio.

b) Os Profetas Menores. Os Profetas menores do nosso Antigo Testamento estão na mesma sequência do Cânon judaico: Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. A designação Profetas Menores deve-se ao seu pequeno volume literário em comparação aos de Isaías, Jeremias, não se refere a grau de importância dentro do Cânon ou à qualidade da inspiração divina.

Os livros destes profetas levam os nomes de seus respectivos autores, cujos ministérios abrangem o tempo que vai de 800 a 435 a. C. Jonas e Joel são os primeiros profetas literários na ordem cronológica dos Menores, e profetizaram no Reino do Norte. O primeiro viveu na época de Jeroboão II, quando os assírios atormentavam o Reino de Israel. Foi incumbido, contra a sua vontade, de pregar aos assírios, em Nínive, para que estes se arrependessem. Joel é chamado de o profeta pentecostal por ter previsto o derramamento do Espírito Santo para nos últimos dias. É também conhecido como o profeta do Dia do Senhor.

Oseias, Amós Miqueias foram contemporâneos, sendo que os dois primeiros profetizaram Em Israel, e o terceiro em Judá. Junto com Isaías, formaram o quarteto áureo da profecia hebraica (790 – 695).

Com apenas um capítulo, Obadias profetizou a condenação de Edom, porque coligara-se aos caldeus durante o cerco de Jerusalém. Naum é um poema que antecipa o fim do cativeiro assírio cerca de 150 anos depois de Jonas. Habacuque é o registro de sua própria experiência com Deus, enquanto Sofonias, que não é citado no Novo Testamento, prega contra a injustiça, idolatria e hipocrisia, bem como sobre o iminente juízo divino.

Zacarias e Ageu são os profetas pós-cativeiro, os quais se empenharam junto a Zorobabel na reconstrução do templo e, impelidos pelo Espírito do Senhor, despertaram no povo acomodado o interesse pela obra.

II. OSEIAS, O PROFETA MENOR

Oseias foi chamado por Deus para profetizar ao Reino de Israel no reinado de Jeroboão II, quando aquele povo desmoronava espiritualmente nos últimos quarenta anos de sua existência. Quando Oseias começou seu ministério, Israel desfrutava de uma temporária prosperidade econômica e de paz política, que acabariam por produzir um falso senso de segurança. Logo após a morte de Jeroboão II, porém, a nação começa a deteriorar-se, e caminha velozmente à destruição em 722 a. C.

O que muito impressiona neste livro foi a ordem de Deus para Oseias se casasse com uma mulher de prostituição, a fim de exemplificar a infidelidade espiritual de Israel (Os 1.2). Por outro lado, o amor perseverante do profeta por sua mulher adúltera (3.1), serviria de ilustração do amor constante de Deus pelos filhos de Abrão. Deste casamento, o profeta tem três filhos, cujos nomes são sinais proféticos a Israel: Jezreel (Deus espalha), Lo-Ruama (Não compadecida) e Lo-Ami (Não meu povo).

1. Oseias no Novo Testamento. Os apóstolos e discípulos de Jesus fundamentavam suas pregações e ensinos na autoridade dos profetas. Até porque o que estava acontecendo em seus dias era o cumprimento da Lei e dos Profetas (Mt 11.13; Lc 24.44; At 26.22). Eles explicavam fatos curiosos, como a crucificação, o derramamento do Espírito e a conversão dos gentios, recorrendo aos vaticínios de Isaías, Joel, Oseias e outros. O livro de Oseias, especialmente, é muito citado no Novo Testamento. Há referência ao Filho de Deus chamado do Egito (11.1; cf Mt 2.15); ao desejo de Deus de que a misericórdia prevaleça sobre o sacrifício (6.6; cf Mt 9.13); e à vitória de Cristo sobre a morte (13.14; cf 1 Co 15.55).

O apóstolo Paulo menciona os nomes de dois grandes profetas, Oseias e Isaías, no capítulo 9 de Romanos, para explicar a salvação de um remanescente judeu e a inclusão dos gentios na igreja de Cristo. O contexto é formado pelos capítulos 9-11, em que Paulo mostra por que os judeus foram rejeitados e cortados por Deus, bem como por que os gentios foram chamados e eleitos para participar dos benefícios do evangelho. É notável o fato de ele ter citado os dois profetas exatamente na ordem em que aparecem em nossa Bíblia: Isaías, o primeiro livro dos Profestas Maiores, e Oseias, o primeiro dos Profetas menores.

2. A vocação dos gentios na profecia de Oseias

"Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo" (Rm 9.25,26).

Como já tivemos a oportunidade de ver, o terceiro filho do casamento de Oseias com Gômer é Lo-Ami, cujo nome significa “Não meu povo”. Há quem diga que essa criança não era filho legítimo do profeta. Essa situação constrangedora do profeta retrataria mais uma mensagem divina a Israel. Portanto, Lo-Ami denotaria (i) a rejeição de Deus a Israel por todos os seus pecados de idolatria: “E ele disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami, porque vós não sois o meu povo, nem eu serei o vosso Deus” (1.9); e Segundo a interpretação apostólica, (ii) a não participação dos gentios na família de Deus.

Entretanto, o mesmo Deus que rejeitou seu povo, entregando-o mais tarde ao rei da Assíria (2 Rs 17.6ss), promete reverter a situação e recebê-lo novamente como o seu para sempre: “Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que não pode medir-se nem contar-se (…)”. “E a Lo-Ami direi: Tu és meu povo. E ele dirá: Tu és o meu Deus” (2.23).

Note o paradoxo da frase: “Eu direi a Não-meu-povo (Lo- Ami): Tu és meu povo”. Deus reverteria uma situação irreversível enunciada na profecia. O apóstolo Paulo parte dessa compreensão, quando usa o mesmo oráculo para explicar o fato de os gentios estarem ingressando na igreja. Deus agora recebe os gentios, povo que não lhe pertencia (Lo-Ami), como seus filhos: “(...) e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo” (1.10).

Vale ressaltar que as duas referências do livro de Oseias utilizada por Paulo para mostrar a chamada dos gentios referem-se à redenção das tribos do norte de Israel. Por isso ele não está sugerindo que a salvação dos gentios seja o cumprimento direto dessas profecias. Ele apenas aplica o mesmo princípio, segundo o qual Deus reúne pessoas que não eram do seu povo, as que estavam alienadas Dele, para estabelecer uma relação com Ele, através de sua chamada graciosa.

III. ISAÍAS, O PROFETA MAIOR

Também Isaías clamava acerca de israel: ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a terra completando-a e abreviando-a. E como antes disse Isaías: Se o senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma e seríamos semelhantes a Gomorra (Rm 9.27-29).

Isaías profetizou por cerca de cinquenta anos no Reino do Sul durante o reinado de quatro reis: Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Seu ministério se deu no período de expansão do império assírio, do colapso de Israel e do declínio moral e espiritual de Judá. O seu livro é o mais citado no Novo Testamento depois dos Salmos e considerado a obra mais teológica e extensa de todos os livros proféticos do Antigo Testamento. Isaías ficou conhecido como o profeta messiânico ou profeta evangélico, porque de toda a literatura do Velho Testamento, suas profecias contêm as declarações mais plenas e claras sobre Jesus Cristo.

1. Explanação apostólica. No capítulo 9 de Romanos, o apóstolo Paulo cita o profeta Isaías, referindo-se a duas passagens de seu livro – 1.9 e 10.22,23 –, para aludir ao remanescente fiel dos judeus de sua geração, os quais estavam aderindo à fé cristã. Na verdade, nos capítulos 9-11 da carta referida, Paulo trata da eleição de Israel no passado, da sua rejeição do evangelho no presente e da sua salvação futura. Ele estava respondendo a algumas questões levantadas pelos crentes judeus, por exemplo: Como as promessas de Deus a Abraão e seus filhos poderiam permanecer válidas se a nação de Israel, como um todo, não parece ter parte no evangelho?

O apóstolo dos gentios recorre, então, à afirmação de Isaías que diz: “ Se o Senhor dos Exércitos não nos deixara algum remanescente, já como Sodoma seríamos e semelhantes a Gomorra”. O profeta Isaías aludia ao que restaria de Israel e Judá, depois do cativeiro de ambos, como resultado da infinita misericórdia de de Deus e de sua fidelidade com a promessa feita a Abraão. Paulo, por analogia, aplica o vaticínio do profeta a uma parcela de judeus (remanescente fiel) que estava aceitando o evangelho naqueles dias, os quais eram testemunho de que a promessa de Deus não havia falhado, pois ela visava somente o verdadeiro Israel, aqueles que eram fiéis à promessa (Ver Gn 12.1-3; 17.19). A ideia passada tanto por Isaías como por Paulo é que sempre há um Israel dentro de Israel .

Paulo também usa a afirmação de Isaías que diz: “Ainda que os filhos de Israel sejam como a Areia do mar, o remanescente é que será salvo”. A partir desta afirmativa do profeta, Paulo explica que a rejeição de Israel é temporária e parcial, que por fim eles aceitarão a salvação em Cristo. Isso se dará na segundo vinda do Senhor, quando todos os judeus que estiverem vivos – o que Isaías chamou de remanescente – se converterão ao seu Deus (ver Zc 12.10-14).

2. O cumprimento das promessas de Deus. A real intenção de Paulo nos capítulos 9-11 de Romanos é mostrar que mesmo a crônica desobediência dos israelitas durante toda a sua história, bem como as consequentes provações e castigos por que passaram, não anularam a fidelidade de Deus. Muitos judeus da época podiam pensar que tudo o que fora anunciado sobre o futuro glorioso dos filhos de Abraão não passara de falácia. Mas Deus age na história, fazendo com os fatos e até mesmo os erros humanos venham a convergir para o cumprimento de suas promessas. Apesar de a rejeição de Israel e da inclusão dos gentios na família de Deus serem um fato consumado, a promessa feita ao patriarca Abraão, sob juramento (Gn 22.16; Hb 6.13), não falhou, ela se cumprirá no remanescente fiel.

CONCLUSÃO

Todos os profeta, Maiores e Menores, foram inspirados e usados pelo Espírito Santo, independente do volume do livro escrito por cada um deles. Somente pelo conhecimento do ministério destes santos homens, foi possível aos primeiros seguidores de Cristo a compreensão do plano de Deus relacionado a toda a sua criação, mediante a obra expiatória de Cristo.

A lua e a lembrança

Na falta de sono para dormir, eu escrevo, ponho no papel tudo o que me passa na cabeça, não importa o tempo, o que aconteceu ou, penso, vai acontecer. Hoje, olho o céu de São Paulo, surpreendentemente iluminado, adornado de estrelas cintilantes que realçam a beleza da deusa lua, esta lua que não me é estranha, imagino já tê-la visto em algum outro lugar, um lugar bem distante daqui, alguma noite no céu pernambucano.

Naquela madrugada, acordei aturdido. O galo do vizinho cantava em alta voz. Era ele quem me acordava todas as manhãs no seu primeiro canto, dizendo-me que chegara a hora de pegar no batente. Saltei da cama com disposição à beça, abri a janela na lateral direita de casa e olhei o céu todo claro. Na rua ao lado, dava para ver as árvores mais distantes. Já havia pássaros cantando e cachorros latindo. “Meu Deus, o dia amanheceu, perdi a hora”, desesperei. Em fração de minutos, tirei a roupa quentinha que me aconchegara durante aquela noite e pus o andrajo do trabalho: calças, camisa e boné malcheirosos, endurecidos pelo mel da cana queimada. Nem lembro se comi alguma coisa. Devo ter comido.

Saí correndo, descalço, pela “Rua Q da Olaria”, levando comigo apenas uma foice, semi-encabada, bem sustentada na mão direita para intimidar os vira-latas que, àquela hora, não pensavam duas vezes para morder. Aqui-acolá, uma daquelas pedrinhas pontiagudas me espetava os pés, mas já estava acostumado com tudo e, portanto, não esmorecia. Precisava passar na casa de Severino, companheiro de todos os dias, acordá-lo com algumas batidas na porta e em seguida pegar a estrada de barro que ia em direção do Engenho São Carlos.

Mais alguns passos e lá estava eu, esmurrando a porta do colega. “Severino, Severino, olha a hora”. A mãe dele veio me atender e tentou me advertir de que havia alguma coisa errada. Estava certa de que havia acabado de deitar-se. Perguntou, com cara de espanto, qual era a hora. “O dia já está amanhecendo”, respondi. “Fale para o Severino se apressar, senão não vamos encontrar mais eito para o trabalho”, acrescentei. Dois ovos fritos, distribuídos em dois pãezinhos, ambos jogados no fundo de uma sacola plástica, e o companheiro já estava na rua, a caminho do trabalho.

Seguimos pela rodagem ladeada pelo canavial. O silêncio era assustador. Nenhum assobio, nenhuma daquelas cantigas que comunmente ouvíamos todos os dias quando íamos ao trabalho, normalmente em grande grupo. Comecei, então, a perceber que havia alguma coisa errada. Severino, pusilânime, questionou-me por que há mais de uma hora, eu dissera à sua mãe que o dia estava amanhecendo, e até o momento a noite persistia. Àquela altura do caminho, eu já estava entendendo o que acontecera, mas procurei não esclarecer o engano. Não queria assustá-lo, pois era ainda muito menino, e eu poderia ter sérios problemas com ele naquelas estradas perigosas.  

Enquanto caminhávamos, eu tentava distraí-lo inquirindo sobre seus sonhos. Disse-me que queria ser um grande jogador de futebol algum dia, tornar-se famoso, ganhar muito dinheiro e casar-se com uma mulher bonita. Mas eu não conseguia focar a atenção em nada do que Severino dizia. Estava grilado com o acontecido. Por que o galo, que durante anos havia-me despertado pontualmente, deixou-se enganar pela lua? Por que os pássaros cantavam como se celebrassem os primeiros albores da manhã? Iludiram-se também com a luz da lua ou foram ludibriados pelo cantar do galo? E o cachorros, por que latiam àquela hora, uma vez que costumavam latir apenas ao amanhecer, quando os primeiros trabalhadores começavam a passar?

Chegamos finalmente ao canavial, mas o dia nem sonhava em nascer. Depois de permanecermos assentados debaixo dos pés de macaíbas à beira da estrada, ouvimos vozes de pessoas que vinham em nossa direção. Eram moradores do Engenho São Carlos que voltavam de um baile no Camela-futebol-clube, certamente muitos deles embriagados. Não seria nada seguro ficarmos no lugar onde estávamos.

Entramos, encolhidos, no canavial fechado, molhado pelo orvalho, e conversamos por mais algumas horas, até que ouvimos o tropel da multidão que descia a ladeira, aproximadamente um quilômetro à frente. Era o povo que todos os dias vinha à labuta conosco, agora iluminado pelos primeiros raios do sol. Alentado, olhei para o horizonte e mostrei a Severino, em tom de gozação, a luz frouxa do sol que começava a brilhar no céu daquele dia. A lua que enganou o galo, e os pássaros, e os cachorros, e a nós também tinha finalmente se escondido. Rimos à beça. E passamos o dia contando aos colegas de trabalho o ocorrido.

Não muito tempo depois, larguei a vida no canavial e vim para São Paulo. Muitos anos já se passaram, e eu nunca mais tive notícia de Severino. Talvez ainda esteja trabalhando no canavial e resida na mesma casa em Camela, acredito que um pouco mais cauteloso com o cantar do galo. Mas ele pode também ter realizado o seu grande sonho, tornando-se um grande jogador de futebol. Pensando bem, Severino era tão frágil que talvez nem esteja mais do lado de cá da existência. Mas, caso esteja, em qualquer lugar em que se encontrar, à luz desta mesma lua, deve lembrar exatamente o que eu estou lembrando agora.