sábado, 27 de maio de 2017

Saber ilimitado ou vaidade?

Sempre vi com certo grau de desconfiança esses intelectuais que opinam excessivamente sobre uma infinidade de assuntos e que têm respostas e opiniões assertivas para todos os fenômenos, esses cujas opiniões não têm espaço para expressões como "eu não sei" ou "tenho dúvidas" ou "não falo porque não é da minha alçada".  

Outro dia, parei para ver esses vídeos virais da internet, pessoas bem conceituadas intelectualmente falando sobre tudo e todos. A atenção se voltou mais para alguns professores que têm uma opinião “segura” e fechada sobre todos os assuntos sobre os quais são questionados. Assunto que vão desde religião até politica nacional e internacional, passando entre uma coisa e outra por refugiados, cracolândia, corrupção, felicidade, amor, igrejas neo-pentecostais etc.

        Fico impressionado com o saber desses que a mídia chama de professores. Eles citam fatos e nomes históricos, recentes e distantes, fazem referências às teorias mais diversas, nos campos da filosofia, psicologia, sociologia, teologia e política como se estivessem lendo numa enciclopédia. Se você correr para o Google a fim de conferir a veracidade do que estão citando, vai encontrar tudo de acordo com o que disseram. É impressionante. Porém o que me causa espécie é o fato de que esses caras sabem opinar seguramente sobre tudo, o bem e o mal. Eles sabem se o Dória acertou ou não com a invasão da cracolândia, se o presidente acertou ou não recorrendo ao exército para proteger o patrimônio público de manifestantes enraivecidos, se a decisão do juiz foi ou não acertada em relação ao réu, se Jesus era ou não o Filho de Deus e se Maomé deixou ou não descendentes.
  
Meu Deus, é possível saber de tudo o tempo todo com tanta certeza? Ou esses caras são iluminados e estão aluminando multidões com a sua luz ou já perderam, de há muito, os limites da vaidade humana, a  ponto de não terem mais bom senso para reconhecerem que, diante de alguns assuntos, melhor recorrer a especialistas da área do que sair por aí falando sobre coisas que não conhecem só porque a massa ignara aplaude. Entre uma coisa e outra, permito-me o benefício da dúvida.

Lembrei-me do pastor Ezequiel, homem simples e sábio. Eu estava ministrando uma aula de teologia uma vez, e ele era um dos meus alunos voluntários. Confesso que me empolguei na aula. Falei de tudo que me veio à cabeça com convicção e assertividade. Respondi todas as perguntas que os alunos fizeram e não dei margem para réplica. Senti-me senhor do saber.

No final da aula, pastor Ezequiel se aproximou com o jeito que lhe é peculiar, parabenizou-me pela aula e sussurrou-me que eu havia cometido apenas um erro na ministração. E completou que o grande erro que um professor pode cometer é achar que somente ele sabe das coisas, que toda a sua plateia é ignorante ou menos sapiente. Antes que eu digerisse isso, ele emendou: “Cuidado, tem muita gente boa te ouvindo”. Santo remédio.

Bom, é o que tenho pensado ultimamente ouvindo esses caras que têm resposta para tudo. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Questões sempre inquietantes




Gosto muito dessas tirinhas de Luís Fernando Veríssimo. Na verdade, gosto de tudo o que este autor escreve. O senso crítico e reflexivo de sua abordagem da realidade, além de muito engraçado, desperta reflexões profundas. Ler Veríssimo é uma maneira divertida de se angustiar.

As personagens da tirinha, as cobras, são personagens irreverentes que questionam tudo e fazem de tudo. Deus, o universo, as pessoas, tudo enfim são objetos e sujeitos de sua reflexão e crítica. Nas tirinhas em apreço, gosto de ver a ilustração do quanto nós, humanos, somos irremediavelmente curiosos acerca de tudo, incluindo as questões metafísicas, como a origem de todas as coisas. Desde o homem mais primitivo até o homem moderno, a inquietação e curiosidade com a origem, propósito e sentido da vida estão evidentes.  A necessidade de resposta criou os vários mitos cosmogônicos, as teorias filosóficas e científicas, tudo muito insatisfatórios para dar conta dessa curiosidade insaciável. 

O cosmos nos impressiona, paralisa, desperta questionamentos e busca por sua origem. Todavia, parece tratar-se de uma realidade que foge à compreensão por causa das limitações estruturais de nossa mente. Pensando na grande sacada de Kant acerca da teoria do conhecimento, segundo quem só conseguimos conhecer a partir de estruturas mentais que nos limitam a tempo e espaço, entendemos que a humanidade viverá pelo tempo que lhe convier com essas questões cujas respostas esbarram nas limitações e nossos recursos epistemológicos. Ademais, as tirinhas mostram que nós temos uma capacidade muito grande de abstração, de desenvolver teorias e dar respostas evasivas ao mistério insondável –  por exemplo, a resposta do personagem dizendo que a vida é este hiato de perplexidade entre dois vazios, apenas dando conta de aspectos da multiplicidade da existência, ou uma forma de poetizar a realidade inapreensível pelos meios literais, e aí acho que o mito mostra-se mais satisfatório para tal propósito. 

Noto também que, na tirinha acima, há um retorno à mesma pergunta inicial, depois da incompletude e insatisfação da resposta, ou seja, voltamos sempre a mesma questão depois das respostas insatisfatórias acerca do mistério. Por fim, vemos que questões ontológicas são coisas nossas, que nos perturbam e fascinam, pois o mundo irracional e/ ou inanimado, como as estrelas, não se importam nem se alteram com isso. Acho que foi Francis Bacon que disse que  Galileu fez muito bem em ter renunciado às suas ideias heliocêntricas para escapar com vida, afinal de contas, tivesse sido sacrificado pela Inquisição  por persistir em afirmar suas descobertas, em nada teria alterado a ordem das coisas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A ORAÇÃO DE PAULO PELOS EFÉSIOS (3.16)

Em Efésios tudo é muito superlativo, tipo... do tamanho de Deus.
“O evangelho não é simplesmente uma doutrina, nem um mero padrão de vida; o evangelho proporciona riquezas em medida incalculável.” Davidson, 1997: 1258.

I. VISÃO PANORÂMICA DE EFÉSIOS

1. A cidade de Éfeso: Uma das maiores cidades do império romano, capital da província da Ásia Menor. Cidade próspera por ser portuária e está na rota comercial do império romano, considerada o banco da Ásia. Entre as suas construções estava o templo da deusa Diana ou Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo. A prostituição era prática comum nos rituais dos cultos. Havia em Éfeso uma rica biblioteca e um teatro com lugar para 25 mil pessoas assentadas. Era, portanto, uma cidade singular no mundo antigo.

2. A igreja de Éfeso: Fundada por Paulo por ocasião de sua primeira visita, na sua segunda viagem missionária (At 18.19; 19.1). Paulo ficou lá por dois anos, e aquela igreja tornou-se em centro missionário para o apóstolo (At 19.10). Paulo deixou Éfeso após sua pregação prejudicar o comércio das imagens de Diana (At 19) e consequente perseguição. Timóteo, Apolo, Áquila e Priscila trabalharam naquela igreja (At 18.18). Diz-se que o apóstolo João também exerceu ministério naquela igreja.

3. A epístola aos Efésios: Escrita no período em que Paulo estava preso em Roma (At 28.16, 31; Ef 4.1; 6.20). É um dos picos elevados da revelação bíblica, ocupa lugar único entre as epístolas de Paulo.

II. RIQUEZAS E BÊNÇÃOS NA CARTA AOS EFÉSIOS

1. Riquezas em Cristo. O conteúdo dessa epístola ressalta a profundidade das riquezas de Deus à disposição da igreja. Cristo é a fonte de toda a sorte de bênçãos: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos tornou ricos em Jesus Cristo...” (1.2).  

Paulo fala de riqueza para uma igreja fundada numa cidade considerada o banco da Ásia, dando ênfase à riqueza incalculável à disposição da igreja, mas que esta ainda não conhecia e, por não conhecer, não se apropriava da mesma. E se não se apropriava é porque faltava profundidade de experiência com o Espírito Santo.

A palavra riqueza e correlatos permeiam toda a epístola e têm a ver com suprimento abundante, com a suprema qualidade daquilo que nos é outorgado EM CRISTO. O que nos é outorgado está nas palavras e expressões chaves do livro.

Palavras chave: riquezas, herança, herdeiros e coerdeiros, plenitude, encher, abundância, suprimento graça, glória e mistérios.

Em Efésios tudo é muito superlativo, do tamanho de Deus: você lê: riqueza da graça de Deus, abundantes riquezas da sua graça, abundância para conosco, possessão de Deus, riqueza da glória de sua herança nos santos, sobre-excelente grandeza de seu poder em nós, riquíssimo em misericórdia pelo seu muito amor com que nos amou, riquezas insondáveis, multiforme sabedoria, altura, largura, comprimento e profundidade, cheios de toda a plenitude de Deus, muito mais abundantemente mais...

Essas palavras e expressões são os tijolos do edifício teológico neotestamentário cuja fundação é Cristo.

2. A natureza e dimensão das bênçãos. Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (1.2).  

A abrangência das bênçãos é que temos toda a sorte de bênçãos do Espírito. O Espírito Santo que nos habita canaliza todas as bênçãos do Pai para nós por meio do Filho.

Bênção de Deus, o Pai. Ele nos escolheu (EF 1.4-6).

Bênçãos de Deus, o Filho: Ele nos remiu, nos perdoou e nos revelou a vontade de Deus e nos fez sua herança e nos constituiu seus coerdeiros (Ef 1.7-12).

Bênçãos de Deus Espírito Santo: Ele nos selou e nos deu o penhor (Ef 1.13.14).

A esfera de nossas bênçãos é nas regiões celestiais. Isso porque a vida cristã gira em torno do céu: sua cidadania está no céu (Fl 3.20), seu nome está escrito no céu (Lc 10.20), seu Pai está no céu (Cl 3.1), seu Cristo está entronizado no céu, estamos assentados em lugares celestiais (2.6) e a sua batalha não é conta o sangue, mas sim contra os principados e potestades nos lugares celestiais.

III. UMA ORAÇÃO ARDENTE PARA QUE OS EFÉSIOS ENTEnDAM E SE APROPRIEM DAS RIQUEZAS DE CRISTO

1. Uma oração precedida por outra oração. Na primeira oração Paulo ora para que O Espírito Santo ilumine a mente para que os crentes consigam perceber uma realidade que está para além das limitações da mente humana.

Ele não vai pedir que Deus lhes dê aquilo que eles não têm, mas para que Deus lhes revele aquilo que já possuem. Paulo ora para que os crentes não só entendam isso, mas também se apropriem e sintam... sejam realmente ricos.

2. Oração de joelhos  (3.14). De joelhos é rendição, humilhação, reconhecimento de impotência... É desespero de causa.

2.1 De joelhos por uma vida com poder no íntimo (3.16), para que, segundo as riquezas de sua glória, sejais corroborados com poder pelo Espírito no homem interior. (eso anthropon).

Paulo pede “segundo a riqueza de Deus”... é muita coisa. Riqueza em glória é mais ainda. Note que tanto na primeira como na segunda oração, Paulo roga pela ação do Espírito no coração, na primeira pede o conhecimento, na segunda, pede o poder.  Conhecimento e poder no íntimo.

Sejam corroborados: (1) robustecidos, enrijecido, fortalecido nesta verdade; (2) confirmar a existência ou a verdade de; dar provas de; comprovar.

Paulo pede que essas coisas aconteçam no íntimo. É lá no íntimo, onde tudo começa. O segredo é ser mobilizado pelo ES no íntimo. Você pode até fazer alguma coisa por formalidade, obrigação ou conveniência, mas não haverá constância em vc.

O que é o íntimo ou homem interior? Fico me perguntando o que Paulo queria dizer com “homem interior”, ou o que a Bíblia quer dizer quando fala do “íntimo da pessoa”, ou mesmo o que no geral a ciência diz sobre o íntimo? Seria algum lugar inacessível pelos recursos humanos? Seria a alma, a consciência, o espírito, o inconsciente de Freud? Não sei. O que eu sei é que se trata de um lugar onde somente o ES pode penetrar. É o lugar onde tem origem todas as motivações.

“Em Efésios 3.16, o homem interior é a pessoa real, a entidade espiritual que é fortalecida com poder, por meio do Espírito Santo. Nessa referência também está incluída a mente, o intelecto, o que faz desse versículo um paralelo parcial com Rm 12.2, onde se lê que deveríamos ser transformados mediante a renovação da nossa mente. O homem interior também é o homem moral essencial, ou seja, a natureza moral que precisa ser transformada pelo pode do Espírito segundo se vê em Mt 5.48, Rm 7.22, Gl 5.22,23. O homem interior também corresponde à natureza emotiva de cada pessoa”. Champlin, 2015: 151.

2.2 De joelho pela apropriação da habitação de Cristo no coração (3.17). Para que Cristo habite pela fé em vossos corações, a fim de, estando arraigados e fundados em amor...

Arraigar, habitar e alicerçar são palavras que envolvem força e profundidade  do Espírito. Arraigar tem a ver com raízes profundas; habitar tem a ver com sentir-se em casa; alicerçar fala de fundamentos.

Cristo não pode ser apenas um hóspede. Cristo tem que ser a essência da vida, a razão, o sentido. Existe um coração batendo em meu coração: o coração de Cristo.

2.3 De joelhos pela compreensão e apropriação da plenitude do amor de Cristo (18,19). Poderdes perfeitamente compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo que excede todo o entendimento.

Compreensão e plenitude. Compreensão passa a ideia de tomar algo para si. É compreender para sentir. A gente não consegue apreender a compreensão do infinito amor de Cristo pela nossa capacidade mental, cognitiva, Paulo diz que excede todo entendimento, por isso, somente pela ação do Espírito Santo em nós.

No que tange à plenitude, Deus deseja que o experimentemos em plenitude, isto é, ser cheio de Deus. E o Espírito Santo é o meio pelo qual alcançamos essa plenitude.

3. Deus é poderoso para fazer mais que isso (3.20). Aquele que é poderoso para fazer mais tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos segundo o seu poder que em nós opera.


domingo, 5 de março de 2017

Oseias: quando o povo adoece e quando Deus decide curá-lo

          Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Os 6.1-3). 

INTRODUÇÃO

           Oseias começou a profetizar nos últimos anos do reinado de Jeroboão II e terminou no começo do governo do rei Ezequias. Foi o único profeta do Reino do Norte que teve sua profecia escrita e o último profeta deste reino.  
Foi uma época de instabilidade política, crise social e religiosa, Israel desceu aos mais baixos níveis de corrupção moral e espiritual: adoração profana dos cananeus, edificou imagens de escultura e fundição, queimou suas crianças nas chamas do baalismo e lançou-se na abominável prática da prostituição cultual. É nessa conjuntura que Deus levanta o profeta Oseias para mostrar o quanto Deus ama o seu povo, apesar de sua rebeldia e obstinação.
O Reino do Norte reino durou 253 anos, 09 dinastias, 19 reis. Nenhum deles foi piedoso e a maioria teve morte violenta.

I. A doença espiritual de Israel
Em todo o volume do livro de Oseias, encontram-se espalhados os sintomas que caracterizam a morbidade espiritual da nação, os quais estão ajuntados a seguir.

Sintomas:
►Esquecimento de Deus (2.13). Tem sempre um substituto para ele.
►Falta de conhecimento (4.1).
►Falta de verdade (4.1).
►Incontinência (o vinho, o mosto) tirava a inteligência (4.11).
►Indiferença.
►Simpatia por sacrifício e holocausto em lugar de juízo e misericórdia (6.6).
►Os reis e príncipes tinham programado os ouvidos para se alegrarem com a mentira dos súditos (7.3).
►Ingenuidade, pomba enganada, sem entendimento (7.11).
►Dá fruto para si mesmo (10.1).
►Ingratidão (11.1).

Todavia, não obstantes os sintomas supracitados sejam graves, o pior de tudo era o não reconhecimento da doença por parte de Israel (Israel era orgulhoso). Comparando-se com Judá, esta nação irmã tinha lampejos de arrependimento que redundaram em algumas reformas espirituais. Mas Israel adoeceu de maneira irreversível.  Seu orgulho o fazia entender que estava tudo bem. Estavam como a igreja de Laodiceia: achavam que estavam ricos, fartos, e que podiam prescindir dos cuidados de Deus (Ap 3.22).

II. Iniciativa divina de sarar Israel. Alguém já comentou que no livro de Jó Deus parece assentado no banco de réus; em Oseias ele aparece no divã, olhando para Israel e perguntando: “Como pode?”
Ele está clinicando a chaga moral e espiritual de Israel e colhendo nenhum resultado. Ele usa inicialmente três métodos de despertamento de consciência:

1. Deus verbaliza a situação de Israel. Advertência por meio da palavra falada, o ministério dos profetas. Mas quando se está com a consciência cauterizada, não adianta a eloquência do sermão, todas as palavras bonitas se perdem ao vento.  

2. Deus dramatiza para chamar a atenção Israel. O casamento de Oseias com uma mulher da vida duvidosa, por ordem divina, é um retrato da gravidade da situação. Essa mulher, após ter se casado com o profeta, comete infidelidade conjugal indo após seus amantes. Da mesma forma, Yahweh estava se sentido como um marido traído. Parece uma ilustração melodramática? Pode ser. Mas Deus queria chamar a atenção do seu povo. Mas a insensibilidade de Israel não lhe permitia ser atraído por este gesto impressionante de amor divino.

3. A disciplina corretiva. Israel seria duramente punido pela sua rebelião contumaz. Seus filhos seriam levados como cativos para a Assíria de onde nunca mais voltariam, e onde seriam definitivamente curados da idolatria. A disciplina aparece ilustrada nos nomes dos três filhos de Oseias com sua mulher infiel.

Jezreel – Deus espalhará. Israel espalhado entre as nações.
Ló Ruama – Não compadecida. Cessou o tempo da compaixão, o castigo já estava determinado.
Ló Ami – Não meu povo. Aquela nação fora rejeitada por causa da obstinação na idolatria.  
                                                                                       
III. Yahweh é o restaurador de seu povo (Os 6).

1. Um último e desesperado apelo para que Israel volte ao Senhor.
          “Vinde e tornemos para o Senhor” (6.1). A princípio, uma excelente decisão, o que tem conexão com o versículo 15 do capítulo anterior: “Então voltarei ao meu lugar até que eles admitam sua culpa. E eles buscarão a minha face; em sua necessidade eles me buscarão ansiosamente” (5.15). Trata-se, ao que tudo indica, de um apelo do profeta, ao qual o povo não atenderá. Mas a verdade gritante do texto é que a cura só começa com um retorno ao curador e que somente o Senhor pode restaurar o seu povo.
                        
2. O médico que fere para curar.
          Porque ele despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Deus é soberano e vai trazer seu povo a si ainda que use, se preciso, o remédio mais amargo. Ele não desiste. Por isso, entendemos que Ele tem objetivos mesmo nas feridas abertas naquelas que são objetos de seu amor. Mesmo quando Ele fere, faz por amor.A reflexão nos leva aos seguinte enunciados:

Deus é médico de corpo, de alma de espírito. O salmista diz que ele conhece a nossa estrutura... (Sl 103.14).  Ele  é o Senhor que sara (Ex 15. 26), de todas as enfermidades.  
►A cura começa com a manifestação de sintomas e termina com um retorno ao curador. Então é Deus quem começa. Como posto por Jó,  é ele quem abre a ferida, mas ele mesmo a trata; ele fere, mas com suas próprias mãos pode curar (Jó 5.18).
►Uma pessoa ou nação  nunca mais será a mesma após ter uma ferida aberta e fechada pela mão de Deus. Ele mexe nas entranhas.
►Deus, às vezes, tem uma maneira peculiar e paradoxal de curar: ele sara ferindo.  A lição primordial aqui é que Deus fere para curar. Como diria um pensador: “O caminho da cura pode ser a doença”.

3. Um tempo para a cura acontecer. Depois de dois dias nos dará vida; ao terceiro dia nos ressuscitará e viveremos diante dele [...]. Somente depois de manifestados os sintomas, forçado um arrependimento, sarada a ferida, Ele nos dará vida, e só assim...  Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.

4. O conhecimento de Deus como resultado da cura
Não se trata de um conhecimento técnico e intelectual, é conhecimento experimental. Tem a ver com comunhão, fé, obediência e adoração. A falta de conhecimento denunciada pelo profeta significa falta de fidelidade e de temor a Deus.

5. A fidelidade de Deus (v. 3). “Como a alva será a sua saída, e Ele a nós virá como a chuva serôdia que rega a terra. Tão certo como a aurora anuncia a chegada de um novo dia, assim sairá Yahweh para restaurar o seu povo”.

CONCLUSÃO

Oseias nos ensina que a fidelidade de Deus é sempre maior que a capacidade do homem de pecar. Que o Senhor restaura o seu povo, ainda que tenha que usar o remédio mais amargo. Ele faz por amor. “Ele despedaça e sara, faz a ferida e a ligará”.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Sobre a condição humana e a misericórdia de Deus

Hoje, falando para um grupo de jovens, consideramos o quanto a condição humana é desesperadora e o quanto é grande a misericórdia divina. A gente precisa se apropriar dessa verdade, reconhecendo esta nossa condição e apelando para o grande amor de Deus, para nos libertar de um perfeccionismo obsessivo que nos fizeram acreditar ser o meio para um grau inatingível de pureza. Não que a gente não deva primar por viver de forma correta, mas é que o tentar viver uma vida correta não pode descambar para uma aversão doentia àquilo que nós mesmos somos,sentimento muito em voga no universo religioso-cristão. Dentro dessa perspectiva inatingível de santidade, se pisarmos na bola, não faltará castigo divino.

Há pessoas que compreendem o Criador do universo como se ele fosse uma daquelas divindades belicosas gregas, com raios nas mãos para, num surto de mau humor, massacrar os humanos. Não consigo imaginar uma Divindade assim por uma simples razão: que louvor teria Deus em subir ao pódio por ganhar uma luta contra mim?  Acho que qualquer pessoa ganharia de mim sem muita dificuldade. A glória na luta está em se nocautear um adversário à altura. Quem estaria à altura de Deus? "Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele? Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se reto me disser, então, me declarará perverso" (Jó 9.19, 20).

Essa divindade belicosa, em guerra com os humanos, é uma criação da igreja influenciada pela mitologia pagã, mormente a grega. Acredito em um Deus justo sim, que não tem o culpado por inocente, mas sem essa predisposição alardeada por alguns para confrontar e abater seres humanos cuja condição é tão miserável. Aliás, Jesus apresentou este Deus nas páginas do Novo Testamento, que nós podemos chamar de Pai nosso, um Deus que espera ansiosamente pelo filho pródigo-ingrato que arrebentou o coração do Pai quando preferiu o mundo a Sua casa. Quando o pródigo retorna, este Pai corre e pula no pescoço do filho numa explosão de alegria (Lc 15.11 ss). 

Por isso que Jesus exalta a súplica humilde do publicano e censura, por outro lado, a oração do autoconfiante fariseu (Lc 18.9). Enquanto este agradecia orgulhosamente por não ser como os demais homens, aquele esmurrava o próprio peito em reconhecimento das próprias misérias e pedindo misericórdia ao Pai. O que caracteriza a oração do publicano é reconhecimento do que Deus é em relação a nós,  e do que nós somos em relação a Deus. É a oração sincera do desespero com a própria condição. Ela não chega a ser pensada e articulada, ela explode do peito, rasga a gargante e ecoa. Vai na mesma direção da Súplica cearense, do compositor Gordurinha, uma das mais belas orações de todos os tempos: [...] "Senhor, eu 'pidi' para o sol se esconder um 'tiquinho'/ 'Pidi' 'pra' chover, mas chover de mansinho / 'Pra' ver se nascia uma planta no chão [...]". Relata o desespero do agricultor por uma chuva que nunca vem e o seu lancinante desabafo diante de uma Divindade que não responde, sem meias palavras. 

Por falar em orações belas, porque tiradas do fundo de um coração sincero que conhece a própria condição desesperadora e se joga nos braços da misericórdia divina, transcrevo abaixo uma das preces mais lindas que já vi, talvez só perca para o salmo 51. Chama-se confiança na misericórdia divina, do poeta português Bocage. O poeta, no desespero de não conseguir vencer a si mesmo, aos próprios sentimentos e pensamentos, à beira do precipício moral (porém ainda lutando contra si), apela para a compaixão de um Deus justo, misericordioso e bom, conhecedor profundo da complicada condição humana. Cada verso ecoa fragilidade versus misericórdia. 

Confiança na misericórdia divina

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada.

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza:
Fingem-Te então com ímpeto, e braveza
Erguendo contra nós a destra armada.

Ó almas sem acordo, e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!… Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.

Bocage