sábado, 20 de dezembro de 2014

Visão panorâmica do protestantismo brasileiro

Josafá R. Lima

A chegada do protestantismo ao Brasil está primeiramente relacionada aos grandes fluxos migratórios de pessoas vindas da Europa, estimuladas por uma série de questões, mas principalmente políticas e religiosas, que caracterizaram o início do século 15. Com as grandes navegações que caracterizaram o século 15 e as brigas e perseguições religiosas que também tumultuaram a Europa de então, muitas pessoas deixaram sua pátria debaixo de perseguição e carregando seus sonhos de viver em paz numa nova terra, onde pudessem trabalhar, reconstruir suas vidas e professar livremente a sua fé. 

Dentro deste contexto, o Brasil é um país que tem muito para contar, pois, após ser descoberto, por causa de suas riquezas naturais e de suas grandes possibilidades econômicas, habitantes de muitos países Europeus se dirigiram para esta terra, estimulados, em muitos casos pelo próprio governo de sua nação, com fins de explorarem as riquezas brasileiras. Cada um trazia sua fé protestante de seus países de origem. E assim, o Protestantismo foi se espalhando na terra brasileira.

Inicialmente, os protestantes tiveram muita oposição do catolicismo, que era a igreja soberana no Brasil, haja vista que, conta-se, o acesso ao serviço público era negado aos protestantes , bem como o reconhecimento legal ao casamento, por serem atribuições da Igreja Católica, além de que só os mortos católicos tinham direito de ser legalmente sepultados.

As questões políticas continuaram por longos anos a influenciar a disseminação do protestantismo no Brasil, tanto é que em 1824, por causa das restrições feitas pela Inglaterra ao tráfico negreiro brasileiro, houve uma necessidade de se encontrar mão de obra não-escrava que substituísse os negros nas fazendas, foi então que um grande leva de luteranos migrou para o Brasil.

Vale salientar que, na medida em que mais protestantes iam chegando, ainda que por outras razões que não o espírito missionário, certa aceitação ia sendo imposta. Com o passar dos anos, outros protestantes foram chegando, agora já com um objetivo evangelístico-missionário, como o caso do pastor presbiteriano James Cooly Fletcher, enviado pela Sociedade Bíblica Americana em 1851. Posteriormente, acontece também a chegada do casal Robert e Sara Kelly ao Rio de Janeiro, que organizou uma igreja que de à luz o trabalho de ensino que muitos evangélicos consideram a fundação da Escola Bíblica Dominical no Brasil.

Registre-se ainda que em 15 de outubro de 1882 foi iniciado a primeira igreja batista brasileira, em Salvador. Esta igreja foi iniciada a partir de um evangelismo de missão, diferente do protestantismo que chegou por aqui embalado por questões políticas, a partir de movimentos migratórios (evangelismo de migração), que resvalaria paulatinamente  para motivações missionárias.

E enquanto o protestantismo se disseminava lentamente no Brasil, um movimento que os crentes pentecostais de hoje chamam de O Grande Avivamento varria a América do Norte, o Movimento Pentecostal. O Pentecostalismo é considerado uma grande visitação de Deus por aqueles que acreditam que o fenômeno do falar em línguas, como resultado do batismo com o Espírito Santo, conforme aconteceu em no capítulo 2 do livro de Atos, é para os crentes de todos os tempos, ou seja, acreditam na atualidade do batismo com o Espírito Santo.

O Movimento Pentecostal começou a espalhar suas influências por lugares distantes, haja vista que dois missionários suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, que experimentaram o avivamento em terra norte-americana, vieram ao Brasil em 1910 e começaram, no estado do Pará, o que se considera hoje o início do Pentecostalismo no Brasil.

O Pentecostalismo pareceu se adaptar bem a realidade brasileira, começou a atingir pessoas e regiões que dificilmente as igrejas tradicionais conseguiriam, houve muitas discórdias entre os tradicionais e pentecostais. Algumas igrejas tradicionais importantes começaram a perceber que o Pentecostalismo era uma tendência e precisavam, portanto, fazer algumas mudanças nas suas liturgias para, de alguma maneira, “fazerem frente a este movimento”, isso foi muito importante para a rápida disseminação do evangelho no Brasil.


Alguns aspectos positivos e negativos

          O protestantismo brasileiro, abrangendo tanto os protestantes tradicionais como os pentecostais e neo pentecostais, é hoje uma força que, de há muito já saiu das fronteiras religiosas e descambou para um movimento político-social que tem influenciado todas as áreas da nação brasileira. Vejo isso como algo, até certo ponto, positivo, pois uma nação precisa de uma consciência moral oriunda da fé professada pela maioria de seus cidadãos. O ponto negativo é que o nosso protestantismo, desde que foi importado da Europa e, posteriormente, dos Estados Unidos, como Movimento Pentecostal, não conseguiu ainda se despir da roupagem que recebeu daquelas nações e continua sendo um protestantismo à moda americana. Uma grande necessidade da igreja brasileira é responder, em matéria de fé, às questões de nosso povo, de acordo como a nossa realidade. 

         Em relação ao Movimento Pentecostal, é o grande responsável por este boom dos evangélicos no Brasil. Hoje somos um número consideravelmente grande, e não seria assim se dependêssemos sempre da maneira tradicional de vivenciar a fé das igrejas tradicionais. Outrossim, o Pentecostalismo deu o ponto de partida para um evangelho mais adaptado à nossa realidade, porém, com o passar do tempo, acabou resvalando para outro extremo: com seu grande poder de adaptação e absorção das culturas regionais, deu à luz movimentações estranhas aos padrões bíblicos, com a cara dos cultos afrodescendentes, além de se de adaptar-se demais ao capitalismo selvagem de nossos tempos, criando uma mercantilização da fé. Hoje, é a grande crítica que se faz a este movimento.


Para finalizar , vale uma palavra sobre a importância dos batistas. Sua origem aqui no Brasil, desde a igreja fundada na Colônia de Santa Bárbara, a partir dum evangelismo de imigração, passando mais tarde pela igreja em Salvador, e toda a sua história de dedicação ao evangelismo em solo brasileiro, sua ênfase no ensino teológico, tudo isso tem um poso enorme no estabelecimento e crescimento do Protestantismo no Brasil. Além de que, é bom não esquecer, que a história do Pentecostalismo no Brasil passa obrigatoriamente pela igreja batista.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O prenúncio do tempo do fim

Josafá R. Lima

Leitura bíblica: Daniel 8.1,3-11

“E disse: Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque ela se exercerá no determinado tempo do fim” (Dn 19).
  
No capítulo 8 de seu livro, o profeta Daniel registra uma de suas visões sobrenaturais acerca do destino dos reinos do mundo e do fim dos tempos. O profeta vê um carneiro de dois chifres, forte e implacável contra seus adversários.  Mas depois surge um bode com um chifre enorme entre os olhos, ataca furiosamente o carneiro e o destrói.

Após a vitória contra o carneiro, e tendo crescido muitíssimo, o chifre do bode é quebrado e quatro outros chifres surgem no seu lugar. De um dos quatro novos chifres, surge um pequeno chifre, que logo cresce para fazer coisas espantosas e abomináveis.  

Ambos os animais representam dois grandes impérios mundiais: respectivamente o império medo-persa e o império grego, que surgiriam no cenário mundial após a ruína do império babilônico.  A visão repete parcialmente a revelação que fora feita ao profeta no capítulo sete, quando ele viu quatro animais, os quais representavam quatro impérios mundiais, entre os quais, os impérios persa e grego. Porém agora, nesta visão, a riqueza de detalhes sobre os dois impérios referidos é impressionante, além de que lança luz sobre eventos proféticos do fim dos tempos, entre eles, o personagem histórico Antíoco IV Epifânio, cuja ação ultrajante contra o povo de Deus o habilita como um tipo do Anticristo (ver Dan 11; Mt 24.15; 2Ts 2.3-12). 


I. O CARNEIRO, UMA FIGURA DO IMPÉRIO MEDO-PERSA

E levantei os meus olhos e vi, e eis que um carneiro estava diante do rio, o qual tinha duas pontas, e as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra; e a mais alta subiu por último (Dn 8.3).

Os detalhes desta profecia são de impressionantes quando comparados com os relatos do surgimento e queda das nações referidas. Vamos recorrer ao relato do historiador Antonio Pedro, no livro História Antiga e Medieval, onde relata a decadência do império babilônico que possibilitou a ascensão do império medo-persa representado pela visão do carneiro.

Depois da morte de Nabucodonosor, o império babilônico começou a entrar em decadência. Os sacerdotes passaram a exercer grande poder, diminuindo a autoridade do rei. Ao mesmo tempo, as fronteiras começaram a ser ameaçadas pelos persas e medos, que se uniram. A Babilônia acabou sendo conquistado pelo famoso rei persa Ciro, o grande, em 539 a. C. (Pedro, 1985, p. 50).  

Começava o domínio do império representado pelo carneiro da visão profética.

Os dois chifres do carneiro representam os dois povos unidos neste império, os medos e os persas. Note que o profeta afirma que as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra, sendo que a ponta mais alta subiu por último. Isso daria a entender, como proposto pelo pastor Cabral (2014), que Ciro, o grande, teria substituído a Dario no governo do império. Este último, rei medo, teria recebido o governo por ocasião da morte de Belsazar, com a idade de 62 anos. (5. 30,31) (Douglas, 1995).
           
Na verdade, não há evidência histórica de que um suposto Dario tenha antecedido Ciro como rei de Babilônia. Por isso, existem muitas controvérsias acerca do tal rei Dario interposto entre os reinados de Belsazar e a ascensão Ciro. O Dario da história é um rei persa, Dario I, ou o grande, sucessor de Cambises, que governou entre 521 e 486. C. (Douglas, 1995).
            
O Dario contemporâneo de Daniel, que não deve ser confundido com o rei Dario citado em Daniel 9.1, talvez tenha governado sob as ordens de Ciro, o fundador do império persa. Alguns teólogos, no entanto, o identificam com o próprio Ciro; outros acreditam ter sido ele um governador descendente dos medos, conhecido como Gubaru (Gardner, 1995).
           
Todavia, à parte as controvérsias, a narrativa de Daniel tem toda a aparência de escrito histórico genuíno e, na ausência de muitos registros históricos sobre este período, não há razão pela qual a história não deva ser aceita. (Douglas, 1995).
  
II. O BODE DA VISÃO PROFÉTICA, UMA FIGURA DO IMPÉRIO GREGO

[...] eis que um bode vinha do Ocidente sobre toda a terra, mas sem tocar no chão; e aquele bode tinha uma ponta notável entre os olhos; [...] dirigiu-se ao carneiro de duas pontas e correu contra ele com grande ímpeto da sua força. [...] e feriu o carneiro e lhe quebrou as duas pontas.

Uma leitura comparativa da narrativa da queda do império persa, representado pelo carneiro de duas pontas, e ascensão do império Greco-macedônico, ilustrado pelo bode impetuoso, prende a atenção novamente na precisão impressionante da profecia. Vejamos a narrativa de Antonio Pedro.  

A tomada do estreito de Bósforo e Dardanelos no Mar Negro pelas forças persas prejudicou o intenso comércio grego na região. Grande parte do trigo consumido na Grécia era produzida por suas colônias nas margens do mar Negro, agora nas mãos dos Persas. Os gregos estavam, portanto, com seus interesses prejudicados pelo domínio dos persas na região.

Havia uma espécie de tensão entre várias cidades gregas e o império persa. Esta tensão se transformou em longa guerra depois que os persas reprimiram violentamente a rebelião da cidade grega de Mileto, na Ásia Menor.

Em 490, o exército de Dario tentou invadir a Grécia, mas foi derrotado pelos gregos na famosa batalha de Maratona. Depois da morte de Dario, o império persa passou a ser governado por seu filho Xerxes, que continuou a campanha contra a Grécia. Novamente os persas foram derrotados na batalha naval de Salamina, em 478-479 a. C.
Com uma derrota após outra, os persas foram obrigados a se retirar e a reconhecer a supremacia grega no mar Egeu e na Ásia Menor (Lídia).

Aproveitando-se das derrotas persas frente aos gregos, várias satrapias se revoltaram contra o longo domínio do império. Internamente a luta pelo poder era cada vez mais violenta. Os persas, no entanto, logo retomaram sua influência sobre a Ásia Menor durante a guerra entre Esparta e Atenas, a chamada guerra do Peloponeso. Mas algum tempo depois, Dario III, um dos últimos sucessores do império, foi assassinado e, em 330 a. C., todo o império caiu nas mãos de Alexandre Magno e passou a fazer parte do império grego-macedônico (Pedro, 1985, p. 72).

O bode da visão profética tinha, de fato, triunfado sobre o carneiro.  

1.  A grande ponta do bode, uma figura de Alexandre Magno.

E o bode se engrandeceu em grande maneira; mas, estando na sua maior força, aquela grande ponta foi quebrada (Dn 8.8).

Alexandre Magno, filho de Felipe, rei macedônico, conquistou, com grande velocidade (sem toca no chão) o mundo conhecido em seus dias. Vejamos uma apreciável narração histórica sobre suas proezas.

Alexandre já havia exercido o governo interinamente durante a ausência de seu pai Filipe. Também, demonstrado suas qualidades militares durante a batalha de Queronésia, quando os gregos foram derrotados pelo exercito macedônio.
Logo que assumiu o poder, teve de enfrentar forte oposição de outros pretendentes, principalmente de seus irmãos. Com o auxílio dos generais Antípatro e Parmenion, Alexandre elimino seus adversários e imediatamente foi reconhecido como chefe da liga de Corinto.

Um dos primeiros problemas que Alexandre teve que enfrentar foi dos tebanos. O jovem rei atacou rapidamente os rebeldes, destruindo totalmente a cidade de Tebas e transformando seus habitantes em escravos.

A Pérsia, depois das derrotas frente aos gregos, recomeçou sua política expansionista, recuperando quase toda a costa menor e varais ilhas do mar Egeu. No período em que Alexandre iniciou seu governo, o rei da Pérsia era Dario III.

Na primavera do ano 334 a. C., um exercito composto de gregos e, principalmente de macedônios, iniciou uma guerra contra a Pérsia, invadindo o helesponto (estreito do mar negro). A vitória do exercito de Alexandre foi rápida. Os gregos da Ásia Menor recebiam Alexandre como o grande libertador do domínio persa. Em pouco tempo, toda a Ásia Menor encontrava-se sobre o seu domínio.

Em seguida Alexandre marchou sobre a Fenícia, enquanto o exercito de Dario III batia em retirada. Somente a cidade de Tiro resistiu, durante sete meses, as forças de Alexandre, depois dos quais também caiu em poder do jovem conquistador.

O Egito era, sem dúvida, um dos mais ricos domínios do império persa, o que levou Alexandre a invadi-lo. No ano 332 a. C., fundou no delta do rio Nilo, a cidade de Alexandria, que se transformou no mais importante centro comercial de todo Mediterrâneo.

Alexandre tinha grande habilidade para tratar os povos que ia dominando. O Egito, por exemplo, era administrado pelos próprios egípcios, mas o comando militar ficava nas mãos de militares macedônios.

A derrota definitiva dos persas deu-se em Gaugamela, na Mesopotâmia, no ano 331 a. C. Apesar da superioridade numérica do exercito persa, os soldados macedônios os venceram novamente. A partir daí o império dos Aquemênida deixou de existir.
Para consolidar o seu domínio sobre o império persa, Alexandre, em rápida e violenta marcha, tomou as mais importantes capitais do império Aquemênida: Susa, Persépolis e Parsagadas. Persépolis foi totalmente destruída como vingança da destruição da cidade de Antenas, praticado mais de 1000 anos antes.

O território conquistado por Alexandre em dez anos de expansão atingia proporções enormes: ia desde o Helesponto até o rio Indus; desde o Cáucaso até a Núbia, no Egito. (Pedro, 1985, ps. 135-138).

2. Mas aquela grande ponta foi quebrada estando na sua grande força.

Em junho de 324 a. C., depois de passar dez dias sofrendo as consequências de uma febre, Alexandre Magno morreu, aos 33 anos de idade, sem deixar organizado um claro sistema de sucessão. Seus generais passaram então a disputar o poder do vasto império deixado pelo conquistador. (Pedro, 1985, p. 138).
       
A profecia de Daniel estava se cumprindo literalmente apenas 200 anos depois (A visão aconteceu em 551 a. C.). (Nigh, 1995).

 3. E no lugar da grande ponta, surgiram quatro também notáveis pontas (8.8)
Depois de lutas ferrenhas entre os súditos de Alexandre pelo poder, seu império foi dividido em quatro grandes regiões: a Mesopotâmia, o Egito, a Ásia Menor e a Grécia, governadas por reis diferentes, ex-generais do exército de Alexandre, que deram origem a 4 dinastias: Ptolomeu tinha o Egito, Palestina e parte de Síria; Cassandro dominava Macedônia com soberania nominal sobre Grécia; Lisímaco tinha Trácia e uma grande parte do Ásia Menor; e Seleuco possuía a maior parte do que tinha sido o Império Persa: parte do Ásia Menor, o norte de Síria, Mesopotâmia. Começava civilização helenística.

III. ANTÍOCO EPIFÂNIO, O PROTÓTIPO DO ANTICRISTO

1. De uma das quatro pontas surgiu um chifre pequeno

“E de uma das pontas, surgiu uma ponta mui pequena, a qual cresceu muito para o meio-dia, e para o oriente, e para a terra formosa. E se engrandeceu até o exército do céu; e a alguns dos exércitos das estrelas deitou por terra e os pisou e se engrandeceu até ao príncipe do exército; e por ele foi tirado o contínuo sacrifício, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra” (8.9-11).

Coube à região formada pela Mesopotâmia e a Síria a administração da dinastia Selêucida, entre cujos representantes, sobressai-se a figura de Antíoco IV Epifânio, que governou o reino selêucida de175 a164, cujo caráter maligno e procedimento histórico de opressão contra os judeus encontram correspondência perfeita na profecia de Daniel:

Em 168 a. C., Epifânio tentou invadir o Egito. Esta iniciativa terminou em fiasco. Ele quis compensar-se conquistando o reino de Jerusalém. Milhares de Judeus foram decapitados. Epifânio profanou o templo. Realizou oferta de um porco sobre o altar. Depois derramou o sangue por todo o templo de Deus. Acabou com os postos de sacerdócio e vendeu centenas de judeus à escravidão. (Nigh, 1995). 

2. A visão é para o tempo do fim. Daniel fez um grande esforço para entender o significado da visão e somente pôde entendê-la por meio da explicação do anjo Gabriel. Gabriel disse que a visão era para o tempo do fim. De acordo com o calendário profético, “o tempo do fim” diz respeito ao período entre o final do exílio e a segunda vinda.

De acordo com a elucidação feita por Gabriel, O cumprimento histórico em Antíoco Epifânio é uma figura do que virá. Dos quatro reinos surgidos dos espólios de Alexandre, surgirá um rei feroz de semblante e entendido em enigma (Dn 8.23).

“No final do reinado deles, quando a rebelião dos ímpios tiver chegado ao máximo, surgirá um rei de duro semblante, mestre em astúcia. Ele se tornará muito forte, mas não pelo seu próprio poder. Provocará devastações terríveis e será bem sucedido em tudo quanto fizer. Destruirá os homens poderosos e o povo santo. Com o intuito de prosperar, ele enganará a muitos e se considerará superior aos outros. Destruirá muitos dos que nele confiam e se insurgirá contra o Príncipe dos príncipes. Apesar disso, ele será destruído,mas não pelo poder dos homens” (Dn 8 23-25).

Apesar de a profecia acerca do chifre pequeno que cresceu ter tido cumprimento histórico em Antíoco IV Epifânio, está claro que o mesmo não corresponde a todos os predicados descritos na profecia supramencionada. Portanto, o cumprimento cabal da visão se dará com a aparição do Anticristo, no final dos tempos. Veja  Dn 7.7,8; 1Jo 2.22; 2Ts 2.3,8; Mt 24.15; Ap 19.20 e note que os detalhes da profecia corresponde precisamente a este personagem escatológico.

CONCLUSÃO

O livro de Daniel foi encerrado em 535 a. C. A profecia do capítulo 8 teve seu cumprimento histórico mais de 300 anos depois. Esta profecia, entre tantas outras distribuídas no mesmo livro e por toda a Bíblia Sagrada, somente confirma a verdade exarada pelo mesmo profeta em apreço: O altíssimo tem o domínio sobre os reinos dos homens e o dá a quem quer (Dn 4.17). Ele é o soberano Senhor da História.

BIBLIOGRAFIA

PEDRO, Antonio. História antiga e medieval. São Paulo: Editora Moderna, 1985.
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 1999.
JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990.
DOUGLAS, J.D. (org.). O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
NIGH, Kepler. Manual de estudos proféticos. São Paulo: Editora Vida, 1995.
A Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus.
Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
Bíblia de Estudo DAKE. CPAD / Atos, 2009.
Bíblia de Estudo Arqueológico. Editora Vida.
CABRAL, Elienai. Integridade Moral e Espiritual, o legado espiritual de Daniel para a igreja atual. Lições bíblicas, 4º trimestre de 2014. Riso de Janeiro: CPAD, 2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Por que as igrejas se dividem?

Josafá R. Lima

A igreja, no decorrer de sua história, sempre foi marcada por cisões, pelos mais variados motivos. Inicialmente um grupo de judeus rompe com as amarras do judaísmo e funda aquela que se tornaria a maior de todas as religiões, o cristianismo. Esta nova religião, mais tarde (século XI), representada pela Igreja Católica Romana divide-se em duas igrejas independentes: a de Roma e a de Constantinopla, no evento que se convencionou chamar de O Grande Cisma ou Cisma do Oriente, que pôs a Igreja Católica de um lado e a Igreja Ortodoxa de outro. No século XVI, a igreja romana passa pelo cisma da reforma luterana que origina o Protestantismo. Umas das grandes igrejas que se originaria do movimento protestante é a Igreja Batista, cuja origem parece  remontar a certa influência anabatista. Foi por meio de um cisma dentro desta igreja em solo brasileiro que surgiu a maior igreja evangélica no Brasil, a Assembleia de Deus. Vários cismas dentro da Assembléia de Deus e em outras denominações derivadas deram origem a muitas grandes denominações, como a Universal do Reino de Deus, a igreja Deus é Amor e Igreja Internacional da Graça.

Olhando de uma perspectiva puramente religioso-denominacional, a gente tende a acreditar que por rebeldia, ingratidão, vaidade e orgulho, dissidentes da "verdade", como costumam ensinar as lideranças afetadas pelas cisões, acabam abandonando suas igrejas-mães e começando novos trabalhos na condição de eternos rebelados. Não estou querendo dizer que não haja estes sentimentos presentes nas divisões, ingredientes das paixões humanas. Normalmente estes dissidentes são excluídos e demonizados por suas ações facciosas. Com o tempo, alguns são deles são absolvidos e reconhecidos pelas grandes igrejas que constroem, outros nem tanto. Verdade é que somente o tempo é capaz de revelar a natureza de algumas motivaçõesHoje, ao olharmos a estrutura da igreja Assembleia de Deus, por exemplo, a gente nem imagina que ela surgiu de um ato, na época, de rebelião. Isso porque ninguém escapa de, no calor do momento, fazer uma leitura tendenciosa das coisas, numa compreensão de que a igreja é uma instituição totalmente divina e que discordar de sua tradição e doutrina, principalmente se for a nossa igreja, constitui-se mexer na menina dos olhos de Deus. Raramente se faz uma leitura dos fenômenos que acontecem na igreja, levando-se em conta os contextos histórico, social, psicológico da instituição dita sagrada.

Destarte, num primeiro momento, diante da pergunta Por que a igreja se divide?, que dá título a este texto,sou tentado a atribuir o motivo puramente às paixões humanas: vaidade, insubmissão, ingratidão e sede incontível de poder. A esta segunda pergunta: “Como a igreja se divide?”, a gente tende a particulariza a resposta, normalmente contando um caso de um “ato de rebelião” acontecido contra nossa própria denominação.  Durante algum tempo, olhei essas cisões nas igrejas (assim mesmo, no plural, porque estou falando de denominações) por meio das lentes que recebi de minha própria denominação, como sendo atos de rebelião contra a igreja divinamente instituída. Um amigo tentou me abrir os olhos mostrando alguns dos resultados benéficos dessas cisões, principalmente no sentido de democratização da religiosidade, com a quebra do monopólio da verdade e da fé por grandes denominações e o aumento das opções de estilos de liturgias e tradições  para os fiéis, além do expressivo aumento do número de pessoas alcançadas pela mensagem do evangelho difundida por novas e criativas igrejas. Outro amigo tentou me explicar a inevitabilidade desses embates e cisões religiosos por meio de uma leitura sociológica e psicológica, ou me dando uma aula sobre dinâmica de grupo, mas ainda assim me mantive fechado para a compreensão. O texto apresentado a seguir abriu-se-me uma compreensão diferente do fenômeno que ora tratamos. É claro que não dá conta da complexidade das cisões religiosas, como já me advertiu um leitor, mas explica muita coisa. 

O texto é de Antonio Gouvêa Mendonça e traz o título A experiência religiosa e a institucionalização da religião. Mendonça usa dois conceitos: o conceito de sagrado selvagem-  sagrado dominado e conceito de cisão, ambos concebidos por Roger Bastide, como forma de discutir 1) a possibilidade de se viver uma religiosidade à parte dos compromissos institucionais; e 2) os movimentos, as mutações e as cisões no interior das religiões instituídas. Aqui faremos uso mais expressivamente do primeiro conceito, o sagrado selvagem-sagrado dominado.


A teoria do sagrado selvagem e o sagrado dominado

Segundo o pensamento bastideano, o sagrado selvagem é a manifestação do sagrado de forma natural, bruta, sem as interferências das interpretações teológicas, sem o aprisionamento dogmático. É o encontro direto do indivíduo com Deus, sem as interferências das instituições, como no caso da experiência de Moisés no Monte Sinai, ou no fenômeno do Dia de Pentecostes. Fazendo um paralelo com a fenomenologia heideggeriana, é uma experiência com a coisa em si, natural, bruta, antes do pensar e refletir que distorcem o significado original do fenômeno.

Todavia, com o tempo, a revelação direta, natural e bruta normalmente passa por um processo de institucionalização que aprisiona o sagrado e, por  meio de seu aprisionamento, o sagrado selvagem passa a ser um sagrado dominado. Segundo Bastide, este é o processo que dá origem a novas instituições religiosas. É o sagrado aprisionado pela reflexão e teologização, canalizado pela dogmatização, como um rio que não pode sair de seu leito, demandando liberação. A igreja, portanto, ou qualquer outras religião instituída, é o local de relacionamento com uma correnteza represada. A dinâmica é a seguinte: primeiramente alguém ou um grupo tem uma experiência marcante com o sagrado, de forma bruta, uma revelação de Deus, leva adiante esta experiência por meio da institucionalização, porém, na medida em que o sagrado se torna frio nas instituições religiosas, novamente irrompe ou recria-se o sagrado quente, ou sagrado selvagem, que novamente volta a se institucionalizar e entrar num estado de arrefecimento até novamente passar por uma efervescência (é assim que novas igrejas aparecem no cenário).

Bastide parte de Durkheim, para quem a religião surge nos estados de efervescência social, em que o tempo do sagrado interrompe o tempo profano das atividades sociais e econômicas,  e conclui que os estados de efervescência religiosa não são duráveis, e que é a partir dessas quedas na efervescência do sagrado que a religião instituída se desenvolve como gestora da experiência do sagrado, como administradora, por meio de suas liturgias e atribuições burocráticas, a igreja instituída procura impedir novas irrupções do sagrado que confronte a ortodoxia institucional.


Três momentos da experiência religiosa, segundo Bastide

Mendonça (2004) traduz o pensamento de Bastide em três momentos da experiência religiosa:

1) a experiência fundante / hierofania: irrupção do sagrado, um fenômeno que se apresenta ao indivíduo e constitui nele uma experiência fundante e transformadora, ou mesmo mantenedora de uma forma de religião.

2) A institucionalização ou formação da religião. Acontece a teologização da experiência fundante com a fé pensada e dogmatizada. 

3) Os mecanismos de transformação e manutenção da instituição. O pêndulo vai se movimentar entre reformadores que anseiam por um retorno ao sagrado selvagem e reacionário que lutam pela manutenção da ordem institucional vigente. 

Então, de acordo com a teoria em apreço, toda religião surge de uma experiência fundante, a experiência de alguém com o sagrado de forma “selvagem”, sem a domesticação posterior da religião institucional. O exemplo mais expressivo é a experiência de Moisés na sarça ardente que já citamos acima, quando recebeu a ordem de Deus para libertar seu povo do cativeiro egípcio, o que, de alguma forma, culminaria com a fundação da religião judaica. Após a experiência fundante, acontece a institucionalização que consiste, entre outras coisas, no controle do sagrado. Entre um fator e outro, operam os movimentos de mudanças e reformas.
  
Com a institucionalização, o sagrado selvagem torna-se frio ou o sagrado dominado, o que acontece no campo da dogmatização e intelectualização do ambiente religioso. Neste campo, estão os líderes eclesiásticos cuja missão é preservar a tradição e trazer a instituição sob controle.  Neste trânsito entre o sagrado selvagem e o sagrado dominado, estão os agentes transformadores que são os místicos e profetas. Toda instituição religiosa tem seus místicos, os quais são vistos com desconfiança pelos conservadores da tradição. Os movimentos de reforma, com suas “heresias”, são expressões sociais do desejo de volta ao passado vibrante e efervescente de deuses sonhados (Mendonça, 2004).

Os místicos, profetas, inovadores, pregadores avivalistas estão num movimento constante de busca por um retorno aos primórdios que é uma maneira de definir avivamento espiritual. Seria  algo como, na teoria de Bastide, uma volta ao sagrado quente a partir da liberação do sagrado que fora domesticado na institucionalização?  Grandes movimentos que sacudiram as igrejas e geraram muitas cisões no meio delas, por exemplo, a reforma protestante e o histórico Avivamento da Rua Azusa, consistiram num clamor pelo retorno à maneira primitiva de entender e viver a fé.  

Destarte, essa movimentação dos místicos e profetas por liberar o sagrado normalmente acontece debaixo de oposição ferrenha, que, na igreja católica, acontece de forma mais amena, pois estes são pouco a pouco submetidos, mas não excluídos, porém no protestantismo são logo excluídos das igrejas. Os excluídos formam logo outras denominações e consagram seus próprios pastores. Assim, novas igrejas surgem a partir de uma experiência fundante que este ou aquele crente teve  de dentro de sua própria igreja  ( um despertamento espiritual), e essas novas igrejas vão esfriar e represar o sagrado quente até que ele irrompa novamente por meio da experiência de outros crentes. 

CONCLUSÃO

Sendo assim, as novas denominações, ou mesmo as divisões surgem dentro deste movimento constante de aprisionamento e liberação parcial do sagrado, ou dentro desta lei que rege o caminho da experiência do sagrado à instituição religiosa. E quanto mais rígida for a instituição, mais estará sujeita a estas irrupções e divisões.


BIBLIOGRAFIA

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. “A experiência religiosa e a institucionalização da religião” in: Revista de estudos avançados. 18 (52), 2004, pgs. 29-46.
REGA, Lourenço Stelio. "A oferta como geradora de demanda no mercado religioso - uma avaliação da Igreja Universal do Reino de Deus à luz da Teoria da Escolha Racional" In Revista Teológica. São Paulo, Ano 7, nº 8.2011, págs. 13-36.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O que vale a pena

Josafá R. Lima

... e, no final, você finalmente percebe que esta fagulha breve da existência só terá valido a pena se você ousou se permitir, atirar-se, perder-se nos labirintos das potencialidades ainda ignoradas, movido pelo desafio da experiência desconhecida à frente.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A estranheza do reencontro

Josafá R. Lima

Toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor, com juras eternas de lealdade, mas aí o tempo passou e, no reencontro, a relação trava, tudo parece estranho, falta assunto. É, as pessoas mudam o tempo todo, e a interação, da forma que era antes, torna-se impossível. Já dizia um filósofo que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio, nem da mesma pessoa. Eis a razão por que o reencontro não desperta mais os mesmos sentimentos, os mesmos olhares, as mesmas emoções, o mesmo acelerar de coração, o mesmo enrubescer da face. Não, não é que o outro está estranho: na verdade, já não se trata de quem foi um dia. Prazer em conhecer! Você está diante de outra pessoa.