sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O prenúncio do tempo do fim

Josafá R. Lima

Leitura bíblica: Daniel 8.1,3-11

“E disse: Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque ela se exercerá no determinado tempo do fim” (Dn 19).
  
No capítulo 8 de seu livro, o profeta Daniel registra uma de suas visões sobrenaturais acerca do destino dos reinos do mundo e do fim dos tempos. O profeta vê um carneiro de dois chifres, forte e implacável contra seus adversários.  Mas depois surge um bode com um chifre enorme entre os olhos, ataca furiosamente o carneiro e o destrói.

Após a vitória contra o carneiro, e tendo crescido muitíssimo, o chifre do bode é quebrado e quatro outros chifres surgem no seu lugar. De um dos quatro novos chifres, surge um pequeno chifre, que logo cresce para fazer coisas espantosas e abomináveis.  

Ambos os animais representam dois grandes impérios mundiais: respectivamente o império medo-persa e o império grego, que surgiriam no cenário mundial após a ruína do império babilônico.  A visão repete parcialmente a revelação que fora feita ao profeta no capítulo sete, quando ele viu quatro animais, os quais representavam quatro impérios mundiais, entre os quais, os impérios persa e grego. Porém agora, nesta visão, a riqueza de detalhes sobre os dois impérios referidos é impressionante, além de que lança luz sobre eventos proféticos do fim dos tempos, entre eles, o personagem histórico Antíoco IV Epifânio, cuja ação ultrajante contra o povo de Deus o habilita como um tipo do Anticristo (ver Dan 11; Mt 24.15; 2Ts 2.3-12). 


I. O CARNEIRO, UMA FIGURA DO IMPÉRIO MEDO-PERSA

E levantei os meus olhos e vi, e eis que um carneiro estava diante do rio, o qual tinha duas pontas, e as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra; e a mais alta subiu por último (Dn 8.3).

Os detalhes desta profecia são de impressionantes quando comparados com os relatos do surgimento e queda das nações referidas. Vamos recorrer ao relato do historiador Antonio Pedro, no livro História Antiga e Medieval, onde relata a decadência do império babilônico que possibilitou a ascensão do império medo-persa representado pela visão do carneiro.

Depois da morte de Nabucodonosor, o império babilônico começou a entrar em decadência. Os sacerdotes passaram a exercer grande poder, diminuindo a autoridade do rei. Ao mesmo tempo, as fronteiras começaram a ser ameaçadas pelos persas e medos, que se uniram. A Babilônia acabou sendo conquistado pelo famoso rei persa Ciro, o grande, em 539 a. C. (Pedro, 1985, p. 50).  

Começava o domínio do império representado pelo carneiro da visão profética.

Os dois chifres do carneiro representam os dois povos unidos neste império, os medos e os persas. Note que o profeta afirma que as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra, sendo que a ponta mais alta subiu por último. Isso daria a entender, como proposto pelo pastor Cabral (2014), que Ciro, o grande, teria substituído a Dario no governo do império. Este último, rei medo, teria recebido o governo por ocasião da morte de Belsazar, com a idade de 62 anos. (5. 30,31) (Douglas, 1995).
           
Na verdade, não há evidência histórica de que um suposto Dario tenha antecedido Ciro como rei de Babilônia. Por isso, existem muitas controvérsias acerca do tal rei Dario interposto entre os reinados de Belsazar e a ascensão Ciro. O Dario da história é um rei persa, Dario I, ou o grande, sucessor de Cambises, que governou entre 521 e 486. C. (Douglas, 1995).
            
O Dario contemporâneo de Daniel, que não deve ser confundido com o rei Dario citado em Daniel 9.1, talvez tenha governado sob as ordens de Ciro, o fundador do império persa. Alguns teólogos, no entanto, o identificam com o próprio Ciro; outros acreditam ter sido ele um governador descendente dos medos, conhecido como Gubaru (Gardner, 1995).
           
Todavia, à parte as controvérsias, a narrativa de Daniel tem toda a aparência de escrito histórico genuíno e, na ausência de muitos registros históricos sobre este período, não há razão pela qual a história não deva ser aceita. (Douglas, 1995).
  
II. O BODE DA VISÃO PROFÉTICA, UMA FIGURA DO IMPÉRIO GREGO

[...] eis que um bode vinha do Ocidente sobre toda a terra, mas sem tocar no chão; e aquele bode tinha uma ponta notável entre os olhos; [...] dirigiu-se ao carneiro de duas pontas e correu contra ele com grande ímpeto da sua força. [...] e feriu o carneiro e lhe quebrou as duas pontas.

Uma leitura comparativa da narrativa da queda do império persa, representado pelo carneiro de duas pontas, e ascensão do império Greco-macedônico, ilustrado pelo bode impetuoso, prende a atenção novamente na precisão impressionante da profecia. Vejamos a narrativa de Antonio Pedro.  

A tomada do estreito de Bósforo e Dardanelos no Mar Negro pelas forças persas prejudicou o intenso comércio grego na região. Grande parte do trigo consumido na Grécia era produzida por suas colônias nas margens do mar Negro, agora nas mãos dos Persas. Os gregos estavam, portanto, com seus interesses prejudicados pelo domínio dos persas na região.

Havia uma espécie de tensão entre várias cidades gregas e o império persa. Esta tensão se transformou em longa guerra depois que os persas reprimiram violentamente a rebelião da cidade grega de Mileto, na Ásia Menor.

Em 490, o exército de Dario tentou invadir a Grécia, mas foi derrotado pelos gregos na famosa batalha de Maratona. Depois da morte de Dario, o império persa passou a ser governado por seu filho Xerxes, que continuou a campanha contra a Grécia. Novamente os persas foram derrotados na batalha naval de Salamina, em 478-479 a. C.
Com uma derrota após outra, os persas foram obrigados a se retirar e a reconhecer a supremacia grega no mar Egeu e na Ásia Menor (Lídia).

Aproveitando-se das derrotas persas frente aos gregos, várias satrapias se revoltaram contra o longo domínio do império. Internamente a luta pelo poder era cada vez mais violenta. Os persas, no entanto, logo retomaram sua influência sobre a Ásia Menor durante a guerra entre Esparta e Atenas, a chamada guerra do Peloponeso. Mas algum tempo depois, Dario III, um dos últimos sucessores do império, foi assassinado e, em 330 a. C., todo o império caiu nas mãos de Alexandre Magno e passou a fazer parte do império grego-macedônico (Pedro, 1985, p. 72).

O bode da visão profética tinha, de fato, triunfado sobre o carneiro.  

1.  A grande ponta do bode, uma figura de Alexandre Magno.

E o bode se engrandeceu em grande maneira; mas, estando na sua maior força, aquela grande ponta foi quebrada (Dn 8.8).

Alexandre Magno, filho de Felipe, rei macedônico, conquistou, com grande velocidade (sem toca no chão) o mundo conhecido em seus dias. Vejamos uma apreciável narração histórica sobre suas proezas.

Alexandre já havia exercido o governo interinamente durante a ausência de seu pai Filipe. Também, demonstrado suas qualidades militares durante a batalha de Queronésia, quando os gregos foram derrotados pelo exercito macedônio.
Logo que assumiu o poder, teve de enfrentar forte oposição de outros pretendentes, principalmente de seus irmãos. Com o auxílio dos generais Antípatro e Parmenion, Alexandre elimino seus adversários e imediatamente foi reconhecido como chefe da liga de Corinto.

Um dos primeiros problemas que Alexandre teve que enfrentar foi dos tebanos. O jovem rei atacou rapidamente os rebeldes, destruindo totalmente a cidade de Tebas e transformando seus habitantes em escravos.

A Pérsia, depois das derrotas frente aos gregos, recomeçou sua política expansionista, recuperando quase toda a costa menor e varais ilhas do mar Egeu. No período em que Alexandre iniciou seu governo, o rei da Pérsia era Dario III.

Na primavera do ano 334 a. C., um exercito composto de gregos e, principalmente de macedônios, iniciou uma guerra contra a Pérsia, invadindo o helesponto (estreito do mar negro). A vitória do exercito de Alexandre foi rápida. Os gregos da Ásia Menor recebiam Alexandre como o grande libertador do domínio persa. Em pouco tempo, toda a Ásia Menor encontrava-se sobre o seu domínio.

Em seguida Alexandre marchou sobre a Fenícia, enquanto o exercito de Dario III batia em retirada. Somente a cidade de Tiro resistiu, durante sete meses, as forças de Alexandre, depois dos quais também caiu em poder do jovem conquistador.

O Egito era, sem dúvida, um dos mais ricos domínios do império persa, o que levou Alexandre a invadi-lo. No ano 332 a. C., fundou no delta do rio Nilo, a cidade de Alexandria, que se transformou no mais importante centro comercial de todo Mediterrâneo.

Alexandre tinha grande habilidade para tratar os povos que ia dominando. O Egito, por exemplo, era administrado pelos próprios egípcios, mas o comando militar ficava nas mãos de militares macedônios.

A derrota definitiva dos persas deu-se em Gaugamela, na Mesopotâmia, no ano 331 a. C. Apesar da superioridade numérica do exercito persa, os soldados macedônios os venceram novamente. A partir daí o império dos Aquemênida deixou de existir.
Para consolidar o seu domínio sobre o império persa, Alexandre, em rápida e violenta marcha, tomou as mais importantes capitais do império Aquemênida: Susa, Persépolis e Parsagadas. Persépolis foi totalmente destruída como vingança da destruição da cidade de Antenas, praticado mais de 1000 anos antes.

O território conquistado por Alexandre em dez anos de expansão atingia proporções enormes: ia desde o Helesponto até o rio Indus; desde o Cáucaso até a Núbia, no Egito. (Pedro, 1985, ps. 135-138).

2. Mas aquela grande ponta foi quebrada estando na sua grande força.

Em junho de 324 a. C., depois de passar dez dias sofrendo as consequências de uma febre, Alexandre Magno morreu, aos 33 anos de idade, sem deixar organizado um claro sistema de sucessão. Seus generais passaram então a disputar o poder do vasto império deixado pelo conquistador. (Pedro, 1985, p. 138).
       
A profecia de Daniel estava se cumprindo literalmente apenas 200 anos depois (A visão aconteceu em 551 a. C.). (Nigh, 1995).

 3. E no lugar da grande ponta, surgiram quatro também notáveis pontas (8.8)
Depois de lutas ferrenhas entre os súditos de Alexandre pelo poder, seu império foi dividido em quatro grandes regiões: a Mesopotâmia, o Egito, a Ásia Menor e a Grécia, governadas por reis diferentes, ex-generais do exército de Alexandre, que deram origem a 4 dinastias: Ptolomeu tinha o Egito, Palestina e parte de Síria; Cassandro dominava Macedônia com soberania nominal sobre Grécia; Lisímaco tinha Trácia e uma grande parte do Ásia Menor; e Seleuco possuía a maior parte do que tinha sido o Império Persa: parte do Ásia Menor, o norte de Síria, Mesopotâmia. Começava civilização helenística.

III. ANTÍOCO EPIFÂNIO, O PROTÓTIPO DO ANTICRISTO

1. De uma das quatro pontas surgiu um chifre pequeno

“E de uma das pontas, surgiu uma ponta mui pequena, a qual cresceu muito para o meio-dia, e para o oriente, e para a terra formosa. E se engrandeceu até o exército do céu; e a alguns dos exércitos das estrelas deitou por terra e os pisou e se engrandeceu até ao príncipe do exército; e por ele foi tirado o contínuo sacrifício, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra” (8.9-11).

Coube à região formada pela Mesopotâmia e a Síria a administração da dinastia Selêucida, entre cujos representantes, sobressai-se a figura de Antíoco IV Epifânio, que governou o reino selêucida de175 a164, cujo caráter maligno e procedimento histórico de opressão contra os judeus encontram correspondência perfeita na profecia de Daniel:

Em 168 a. C., Epifânio tentou invadir o Egito. Esta iniciativa terminou em fiasco. Ele quis compensar-se conquistando o reino de Jerusalém. Milhares de Judeus foram decapitados. Epifânio profanou o templo. Realizou oferta de um porco sobre o altar. Depois derramou o sangue por todo o templo de Deus. Acabou com os postos de sacerdócio e vendeu centenas de judeus à escravidão. (Nigh, 1995). 

2. A visão é para o tempo do fim. Daniel fez um grande esforço para entender o significado da visão e somente pôde entendê-la por meio da explicação do anjo Gabriel. Gabriel disse que a visão era para o tempo do fim. De acordo com o calendário profético, “o tempo do fim” diz respeito ao período entre o final do exílio e a segunda vinda.

De acordo com a elucidação feita por Gabriel, O cumprimento histórico em Antíoco Epifânio é uma figura do que virá. Dos quatro reinos surgidos dos espólios de Alexandre, surgirá um rei feroz de semblante e entendido em enigma (Dn 8.23).

“No final do reinado deles, quando a rebelião dos ímpios tiver chegado ao máximo, surgirá um rei de duro semblante, mestre em astúcia. Ele se tornará muito forte, mas não pelo seu próprio poder. Provocará devastações terríveis e será bem sucedido em tudo quanto fizer. Destruirá os homens poderosos e o povo santo. Com o intuito de prosperar, ele enganará a muitos e se considerará superior aos outros. Destruirá muitos dos que nele confiam e se insurgirá contra o Príncipe dos príncipes. Apesar disso, ele será destruído,mas não pelo poder dos homens” (Dn 8 23-25).

Apesar de a profecia acerca do chifre pequeno que cresceu ter tido cumprimento histórico em Antíoco IV Epifânio, está claro que o mesmo não corresponde a todos os predicados descritos na profecia supramencionada. Portanto, o cumprimento cabal da visão se dará com a aparição do Anticristo, no final dos tempos. Veja  Dn 7.7,8; 1Jo 2.22; 2Ts 2.3,8; Mt 24.15; Ap 19.20 e note que os detalhes da profecia corresponde precisamente a este personagem escatológico.

CONCLUSÃO

O livro de Daniel foi encerrado em 535 a. C. A profecia do capítulo 8 teve seu cumprimento histórico mais de 300 anos depois. Esta profecia, entre tantas outras distribuídas no mesmo livro e por toda a Bíblia Sagrada, somente confirma a verdade exarada pelo mesmo profeta em apreço: O altíssimo tem o domínio sobre os reinos dos homens e o dá a quem quer (Dn 4.17). Ele é o soberano Senhor da História.

BIBLIOGRAFIA

PEDRO, Antonio. História antiga e medieval. São Paulo: Editora Moderna, 1985.
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 1999.
JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990.
DOUGLAS, J.D. (org.). O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
NIGH, Kepler. Manual de estudos proféticos. São Paulo: Editora Vida, 1995.
A Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus.
Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
Bíblia de Estudo DAKE. CPAD / Atos, 2009.
Bíblia de Estudo Arqueológico. Editora Vida.
CABRAL, Elienai. Integridade Moral e Espiritual, o legado espiritual de Daniel para a igreja atual. Lições bíblicas, 4º trimestre de 2014. Riso de Janeiro: CPAD, 2014.

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