terça-feira, 23 de setembro de 2014

Por que as igrejas se dividem?

Josafá R. Lima

A igreja, no decorrer de sua história, sempre foi marcada por cisões, pelos mais variados motivos. Inicialmente um grupo de judeus rompe com as amarras do judaísmo e funda aquela que se tornaria a maior de todas as religiões, o cristianismo. Esta nova religião, mais tarde (século XI), representada pela Igreja Católica Romana divide-se em duas igrejas independentes: a de Roma e a de Constantinopla, no evento que se convencionou chamar de O Grande Cisma ou Cisma do Oriente, que pôs a Igreja Católica de um lado e a Igreja Ortodoxa de outro. No século XVI, a igreja romana passa pelo cisma da reforma luterana que origina o Protestantismo. Umas das grandes igrejas que se originaria do movimento protestante é a Igreja Batista, cuja origem parece  remontar a certa influência anabatista. Foi por meio de um cisma dentro desta igreja em solo brasileiro que surgiu a maior igreja evangélica no Brasil, a Assembleia de Deus. Vários cismas dentro da Assembléia de Deus e em outras denominações derivadas deram origem a muitas grandes denominações, como a Universal do Reino de Deus, a igreja Deus é Amor e Igreja Internacional da Graça.

Olhando de uma perspectiva puramente religioso-denominacional, a gente tende a acreditar que por rebeldia, ingratidão, vaidade e orgulho, dissidentes da "verdade", como costumam ensinar as lideranças afetadas pelas cisões, acabam abandonando suas igrejas-mães e começando novos trabalhos na condição de eternos rebelados. Não estou querendo dizer que não haja estes sentimentos presentes nas divisões, ingredientes das paixões humanas. Normalmente estes dissidentes são excluídos e demonizados por suas ações facciosas. Com o tempo, alguns são deles são absolvidos e reconhecidos pelas grandes igrejas que constroem, outros nem tanto. Verdade é que somente o tempo é capaz de revelar a natureza de algumas motivaçõesHoje, ao olharmos a estrutura da igreja Assembleia de Deus, por exemplo, a gente nem imagina que ela surgiu de um ato, na época, de rebelião. Isso porque ninguém escapa de, no calor do momento, fazer uma leitura tendenciosa das coisas, numa compreensão de que a igreja é uma instituição totalmente divina e que discordar de sua tradição e doutrina, principalmente se for a nossa igreja, constitui-se mexer na menina dos olhos de Deus. Raramente se faz uma leitura dos fenômenos que acontecem na igreja, levando-se em conta os contextos histórico, social, psicológico da instituição dita sagrada.

Destarte, num primeiro momento, diante da pergunta Por que a igreja se divide?, que dá título a este texto,sou tentado a atribuir o motivo puramente às paixões humanas: vaidade, insubmissão, ingratidão e sede incontível de poder. A esta segunda pergunta: “Como a igreja se divide?”, a gente tende a particulariza a resposta, normalmente contando um caso de um “ato de rebelião” acontecido contra nossa própria denominação.  Durante algum tempo, olhei essas cisões nas igrejas (assim mesmo, no plural, porque estou falando de denominações) por meio das lentes que recebi de minha própria denominação, como sendo atos de rebelião contra a igreja divinamente instituída. Um amigo tentou me abrir os olhos mostrando alguns dos resultados benéficos dessas cisões, principalmente no sentido de democratização da religiosidade, com a quebra do monopólio da verdade e da fé por grandes denominações e o aumento das opções de estilos de liturgias e tradições  para os fiéis, além do expressivo aumento do número de pessoas alcançadas pela mensagem do evangelho difundida por novas e criativas igrejas. Outro amigo tentou me explicar a inevitabilidade desses embates e cisões religiosos por meio de uma leitura sociológica e psicológica, ou me dando uma aula sobre dinâmica de grupo, mas ainda assim me mantive fechado para a compreensão. O texto apresentado a seguir abriu-se-me uma compreensão diferente do fenômeno que ora tratamos. É claro que não dá conta da complexidade das cisões religiosas, como já me advertiu um leitor, mas explica muita coisa. 

O texto é de Antonio Gouvêa Mendonça e traz o título A experiência religiosa e a institucionalização da religião. Mendonça usa dois conceitos: o conceito de sagrado selvagem-  sagrado dominado e conceito de cisão, ambos concebidos por Roger Bastide, como forma de discutir 1) a possibilidade de se viver uma religiosidade à parte dos compromissos institucionais; e 2) os movimentos, as mutações e as cisões no interior das religiões instituídas. Aqui faremos uso mais expressivamente do primeiro conceito, o sagrado selvagem-sagrado dominado.


A teoria do sagrado selvagem e o sagrado dominado

Segundo o pensamento bastideano, o sagrado selvagem é a manifestação do sagrado de forma natural, bruta, sem as interferências das interpretações teológicas, sem o aprisionamento dogmático. É o encontro direto do indivíduo com Deus, sem as interferências das instituições, como no caso da experiência de Moisés no Monte Sinai, ou no fenômeno do Dia de Pentecostes. Fazendo um paralelo com a fenomenologia heideggeriana, é uma experiência com a coisa em si, natural, bruta, antes do pensar e refletir que distorcem o significado original do fenômeno.

Todavia, com o tempo, a revelação direta, natural e bruta normalmente passa por um processo de institucionalização que aprisiona o sagrado e, por  meio de seu aprisionamento, o sagrado selvagem passa a ser um sagrado dominado. Segundo Bastide, este é o processo que dá origem a novas instituições religiosas. É o sagrado aprisionado pela reflexão e teologização, canalizado pela dogmatização, como um rio que não pode sair de seu leito, demandando liberação. A igreja, portanto, ou qualquer outras religião instituída, é o local de relacionamento com uma correnteza represada. A dinâmica é a seguinte: primeiramente alguém ou um grupo tem uma experiência marcante com o sagrado, de forma bruta, uma revelação de Deus, leva adiante esta experiência por meio da institucionalização, porém, na medida em que o sagrado se torna frio nas instituições religiosas, novamente irrompe ou recria-se o sagrado quente, ou sagrado selvagem, que novamente volta a se institucionalizar e entrar num estado de arrefecimento até novamente passar por uma efervescência (é assim que novas igrejas aparecem no cenário).

Bastide parte de Durkheim, para quem a religião surge nos estados de efervescência social, em que o tempo do sagrado interrompe o tempo profano das atividades sociais e econômicas,  e conclui que os estados de efervescência religiosa não são duráveis, e que é a partir dessas quedas na efervescência do sagrado que a religião instituída se desenvolve como gestora da experiência do sagrado, como administradora, por meio de suas liturgias e atribuições burocráticas, a igreja instituída procura impedir novas irrupções do sagrado que confronte a ortodoxia institucional.


Três momentos da experiência religiosa, segundo Bastide

Mendonça (2004) traduz o pensamento de Bastide em três momentos da experiência religiosa:

1) a experiência fundante / hierofania: irrupção do sagrado, um fenômeno que se apresenta ao indivíduo e constitui nele uma experiência fundante e transformadora, ou mesmo mantenedora de uma forma de religião.

2) A institucionalização ou formação da religião. Acontece a teologização da experiência fundante com a fé pensada e dogmatizada. 

3) Os mecanismos de transformação e manutenção da instituição. O pêndulo vai se movimentar entre reformadores que anseiam por um retorno ao sagrado selvagem e reacionário que lutam pela manutenção da ordem institucional vigente. 

Então, de acordo com a teoria em apreço, toda religião surge de uma experiência fundante, a experiência de alguém com o sagrado de forma “selvagem”, sem a domesticação posterior da religião institucional. O exemplo mais expressivo é a experiência de Moisés na sarça ardente que já citamos acima, quando recebeu a ordem de Deus para libertar seu povo do cativeiro egípcio, o que, de alguma forma, culminaria com a fundação da religião judaica. Após a experiência fundante, acontece a institucionalização que consiste, entre outras coisas, no controle do sagrado. Entre um fator e outro, operam os movimentos de mudanças e reformas.
  
Com a institucionalização, o sagrado selvagem torna-se frio ou o sagrado dominado, o que acontece no campo da dogmatização e intelectualização do ambiente religioso. Neste campo, estão os líderes eclesiásticos cuja missão é preservar a tradição e trazer a instituição sob controle.  Neste trânsito entre o sagrado selvagem e o sagrado dominado, estão os agentes transformadores que são os místicos e profetas. Toda instituição religiosa tem seus místicos, os quais são vistos com desconfiança pelos conservadores da tradição. Os movimentos de reforma, com suas “heresias”, são expressões sociais do desejo de volta ao passado vibrante e efervescente de deuses sonhados (Mendonça, 2004).

Os místicos, profetas, inovadores, pregadores avivalistas estão num movimento constante de busca por um retorno aos primórdios que é uma maneira de definir avivamento espiritual. Seria  algo como, na teoria de Bastide, uma volta ao sagrado quente a partir da liberação do sagrado que fora domesticado na institucionalização?  Grandes movimentos que sacudiram as igrejas e geraram muitas cisões no meio delas, por exemplo, a reforma protestante e o histórico Avivamento da Rua Azusa, consistiram num clamor pelo retorno à maneira primitiva de entender e viver a fé.  

Destarte, essa movimentação dos místicos e profetas por liberar o sagrado normalmente acontece debaixo de oposição ferrenha, que, na igreja católica, acontece de forma mais amena, pois estes são pouco a pouco submetidos, mas não excluídos, porém no protestantismo são logo excluídos das igrejas. Os excluídos formam logo outras denominações e consagram seus próprios pastores. Assim, novas igrejas surgem a partir de uma experiência fundante que este ou aquele crente teve  de dentro de sua própria igreja  ( um despertamento espiritual), e essas novas igrejas vão esfriar e represar o sagrado quente até que ele irrompa novamente por meio da experiência de outros crentes. 

CONCLUSÃO

Sendo assim, as novas denominações, ou mesmo as divisões surgem dentro deste movimento constante de aprisionamento e liberação parcial do sagrado, ou dentro desta lei que rege o caminho da experiência do sagrado à instituição religiosa. E quanto mais rígida for a instituição, mais estará sujeita a estas irrupções e divisões.


BIBLIOGRAFIA

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. “A experiência religiosa e a institucionalização da religião” in: Revista de estudos avançados. 18 (52), 2004, pgs. 29-46.
REGA, Lourenço Stelio. "A oferta como geradora de demanda no mercado religioso - uma avaliação da Igreja Universal do Reino de Deus à luz da Teoria da Escolha Racional" In Revista Teológica. São Paulo, Ano 7, nº 8.2011, págs. 13-36.
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