sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A missão social da igreja

“Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o Senhor o livrará no dia do mal” (Sl 41.1).

O engajamento da igreja no serviço social, socorrendo os pobres em suas diversas necessidades, diferente do que pensam muitos, não é um desvio de sua missão, mas parte intrínseca dela. Segundo podemos inferir da Palavra de Deus, a igreja tem a obrigação (não a opção) de minorar o sofrimento humano, seguindo assim o exemplo de seu grande Mestre (At 10. 38, Lc 4.18; ver Tg 1.27). Muito boa esta oportunidade em que trataremos da responsabilidade social da igreja de Cristo.


MEIOS DE SE EXERCER A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No livro Ação Social Cristã, o pr. Hélcio da Silva Lessa classifica a responsabilidade social em três categorias: assistência social, serviço social e ação social. Para melhor compreensão da aula, vamos ver sucintamente a definição de cada uma delas.


Assistencialismo. Conhecido como assistencialismo ou paternalismo, busca atender às necessidades emergentes das pessoas. A pessoa atendida, objeto da ação, encontra-se numa situação de total dependência e, mesmo havendo o suprimento de suas necessidades, as suas carências continuam.

Serviço Social. Aqui, a pessoa carente recebe condição para interagir e melhorar sua situação, recuperando a dignidade e confiança. Projetos sociais tendo como alvo o ensino, a orientação, o apoio, a profissionalização promovem a capacitação do indivíduo a fim de que este se torne responsável pela solução de seus problemas.

Ação Social. Procura transformar as estruturas da sociedade, buscando a criação de bases mais justas. Neste sentido, é muito importante que seja criada uma consciência cívica no meio evangélico, que leve cristãos aos órgãos públicos que estão diretamente relacionados com a infra-estrutura sócio política do país (do Manual de Ação Social/ Igreja Metodista).


A BÍBLIA E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No Antigo Testamento (Dt 15.10,11). Havia na comunidade israelita do antigo Testamento um profundo senso de responsabilidade social como resultado da obediência à Palavra de Deus que determinava que os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos fossem assistidos e socorridos em suas necessidades básicas (Dt 15.7-10; Lv 19.10; 23.22; Ex 23.11). Vejamos como Deus, que nunca deixou de se preocupar com a dignidade humana, estabeleceu medidas econômicas e sociais para o seu povo, visando relações justas entre eles.

O ano sabático (Lv 25.1-17). A cada sete anos, o solo deveria ser liberado para descanso e renovação da terra, os escravos seriam libertados, os endividados, perdoados e os trabalhadores tinham direito a descanso. Outrossim: os pobres tinham o direito de colher por si mesmo do fruto da terra (23.10,11).

A lei do jubileu (Lv 25.8-34). Entre outras coisas, determinava que, a cada cinqüenta anos, (1) os escravos seriam libertados; (2) todas as dívidas seriam perdoadas; (3) as terras seriam devolvidas aos seus antigos donos. Essas medidas evitavam a concentração de riquezas (diga-se de terra), promoviam a redistribuição dos meios de produção e evitavam situações extremas de dívidas, pobrezas, desapropriação e miséria.

Dízimos e colheitas (Dt 14.22-29; Lv 19.9,10). Os dízimos de toda a produção agrícola se destinavam, entre outras coisas, para o sustento dos órfãos, viúvas e estrangeiros. Em relação a colheita, a palavra de Deus determinava: “E quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás...” (Lv 23. 22). Tais procedimentos protegiam os estrangeiros e evitavam a pobreza extrema no meio do povo. Rute, nora de Noemi, foi beneficiada por esta lei (Rt 2.2,3).


No Novo Testamento (Mt 26.11; Gl 2.10). Na palestina do Novo Testamento, a situação sócio-econômica da maioria das pessoas era deplorável. É tanto que os necessitados acorriam, aos borbotões, à presença do homem de Nazaré, a fim de serem ajudados, muitos apenas para matar a fome (Jo 6.26). Eles eram pobres, enfermos, deficientes físicos, viúvas, crianças, idosos, desamparados, desabrigados e maltratados (Lc 14.13,14).

O exemplo de Jesus. Jesus foi, sem dúvida, o maior exemplo de preocupação e auxílio aos necessitados. Seus ensinos e obras o demonstraram. Uma de suas ricas parábolas é a do bom samaritano, o bondoso homem que arriscou sua vida para cuidar de um necessitado desconhecido, com quem nem o sacerdote nem o levita se importaram (Lc 10.25-37). Essa parábola ainda hoje exerce grande influência nas civilizações. Em outra parábola – sobre as ovelhas e os bodes – Jesus se identifica tanto com os pobres a ponto de dizer: “O que vocês fizeram a um destes pequeninos irmãos [os pobres necessitados], a mim o fizeram” (Mt 25.40). Ele Não podia ver os miseráveis sem se compadecer (Mt 9.36; 14.14; 20.34; Mc 10.45). Uma vez, chegou a convidar um homem rico a vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mt 19.21).

Jesus encarnou o amor e preocupação de Deus com os pobres tão nitidamente manifesta no Antigo Testamento. A sua compaixão com os miseráveis responde a uma pergunta que é constante no coração de quem sofre: “Deus se importa?” Jesus responde que sim.

“Jesus se preocupou com o homem enquanto unidade física-psiquica-espiritual. Ele curou, ensinou, salvou, consolou. Cuidou do ser humano por inteiro, rejeitando totalmente a visão grega que valoriza a dimensão espiritual em detrimento da material. A prática de Jesus segue uma seqüência marcada pelo ver, sentir e agir. Nesse sentido, é interessante notar que nos vários encontros de Jesus com as pessoas, indivíduos ou grupos, a ação de Jesus foi marcada por uma completa coerência com seus ensinos. Por isso Pedro apresenta Jesus como ‘aquele que andou fazendo o bem”’ (Manual de Ação Social / Igreja Metodista Livre / www.metodistalivre.org.br).

O exemplo da igreja primitiva. Ainda que vamos tratar mais detalhadamente sobre a igreja primitiva no próximo tópico, vale acrescentar aqui que aquela igreja seguiu em tudo o exemplo de Jesus no seu cuidado para com os necessitados. Segundo a narrativa de Lucas, uma ação usual entre os primeiros cristãos era a partilha de bens para atender os mais necessitados (At 2.44,45; 4.34,35). Alguns irmãos, voluntariamente, vendiam suas propriedades para suprir as necessidades dos mais carentes. Por isso, “todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum... não havia entre eles necessitado algum” (At 2.44; 4.34).

O incentivo apostólico. Os apóstolos, nas cartas que escreveram às várias congregações, também incentivaram o compromisso social cristão. Paulo trata da liberdade da contribuição (I Co 9.7) e elogia os macedônios por darem na medida de suas posses e ainda acima delas (II C 8.3). Tiago fala da assistência aos necessitados como característica inerente à religião pura (Tg 1.27) e condena abertamente os ricos que oprimem os pobres (Tg 5.1-6). João fala do socorro aos necessitados como a materialização da caridade de Deus em nós (1 Jo 3.17,18).

A IGREJA PRIMITIVA E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

Como não poderia ser diferente, a igreja primitiva seguiu o exemplo de Jesus, seu Mestre. A grande sensibilidade de Jesus para com as necessidades humanas, vemo-la agora nas ações daquela primeira comunidade cristã, traduzida no cuidado de uns para com os outros. Após o grande despertamento promovido pela descida do Espírito Santo (At 2), os discípulos do Senhor anunciaram veementemente o Evangelho, o que resultou num crescimento frenético do número de fiéis, os quais se organizaram numa comunidade fiel, calcada na doutrina, na comunhão, fraternidade e oração (At 2.42; 4.31; 5.42). Aqueles discípulos souberam conjugar a prática da evangelização com a prática do serviço social, esta última, parte integrante daquela.

Doutrina dos apóstolos. “E perseveravam na doutrina dos apóstolos”. Compreende-se por “doutrina dos apóstolos” o conjunto de ensinamentos que Jesus passou para os doze apóstolos nos seus três anos de ministério. O Espírito santo estaria encarregado de fazê-los lembrar de tudo o que ouviram (Jo 14.26). Nos seus últimos dias de ministério terreno, a ênfase de Cristo recai sobre dois assuntos imprescindíveis à vida da igreja: evangelização e amor ao próximo (Mc 16.15-19; Mt 28.18,19; Lc 24.47,48; Jo 13.12-15; 34,35; 15.12,17). Foi nessa doutrina que a igreja perseverou, o que é a causa do seu extraordinário êxito.

Comunhão. Lucas nos conta que os primeiros discípulo de Cristo “perseveravam na comunhão...e era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (At 2.42, 44-46; 4.32-35). Comunhão significa partilhar juntos do mesmo propósito. Como bem expressou o comentarista da lição em apreço, “ [comunhão] é relacionamento íntimo e fraternal entre os irmãos”. Essa foi uma marca da igreja primitiva, que se traduzia na forte sensibilidade dos crentes pelas necessidades uns dos outros.

Solidariedade. “E perseveravam no partir do pão”. *Em Atos 2.42, pode referir-se tanto às refeições comuns quanto à ceia do Senhor. Era costume, entre os judeus, representar a comunhão entre as pessoas, segurando com as mãos o pão e partido-o em pedaços, em vez de corta-lo (Lc 22.19; 1 Co 11.24). Era um ato de fraternidade e solidariedade entre irmãos. Essa prática sugere a necessidade de a igreja partilhar, por meio do serviço social, o pão material com os necessitados.

Oração. “E perseveravam na oração”. Os crentes primitivos estavam juntos também em oração. Eles estavam em um mesmo espírito, fé e amor, por isso havia uma assídua participação nas reuniões de oração. A oração em conjunto também é uma maneira de desfrutar da comunhão. Os crente podem orar pelos problemas da comunidade à sua volta e pelas necessidades uns dos outros. Essa era uma prática constante na igreja primitiva.

* Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º trimestre: 2007.


IGREJA E SENSO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL.

Para a igreja primitiva, atender às necessidades dos mais pobres não era uma opção, era uma necessidade. O amor de Deus, derramado no coração dos crentes, os constrangia. No entender do apóstolo João, “Conhecemos a caridade nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar o seu coração, como estará nele a caridade de Deus?” (1 Jo 3.16,17). Logo, a o senso de responsabilidade social daquela igreja não era o resultado de plebiscito que optou por assim fazer, mas era o resultado de valores espirituais e morais profundamente arraigados naquela comunidade cristã.

A igreja era caridosa (At 2.45). A caridade é o amor em ação. É o fruto do Espírito (Gl 4.22). A igreja era - e ainda deveria ser - a materialização do amor de Deus. Lucas nos conta que aqueles primeiros crentes “vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade”. Era muito mais que palavras. Era ação. O apóstolo João, mais tarde, lembraria aqueles dias na sua carta universal, ao dizer: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Alguém disse certa vez que as pessoas podem até duvidar daquilo que você diz, mas nunca daquilo que você faz. A igreja daqueles dias era uma igreja que fazia, por isso caía na graça de todo o povo (At 2.47).

Consciência das necessidades materiais dos cristãos (At 11.27-30). Lucas relata a profecia de Ágabo acerca da grande fome que viria sobre todo o mundo, o que, de fato, ocorreu no governo de Cláudio César entre 45 e 54 d.C. Esse fato também é relatado pelo historiador judeu Flávio Josefo. Agora, a igreja de Jerusalém padecia de grande necessidade. A igreja de Antioquia não perde tempo. Está consciente de suas das necessidades de seus irmãos e de suas responsabilidades. Por mãos de Paulo e Barnabé, os discípulos antioquenses mandaram, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos em Jerusalém. Em outras passagens bíblicas, vemos Paulo levantando ofertas na Acaia e na Galácia para suprir as necessidades daqueles irmãos (Rm 15.26; 1 Co 16.1-3).

A igreja primitiva cumpria sua missão social. * A igreja não apenas pregava o Evangelho, mas também atendia àqueles que necessitavam de socorro físico e material. Os seguintes princípios devem nortear o serviço social da igreja:

Mutualidade – isto é, ser generoso, recíproco, solidário.

Responsabilidade – trata-se de privilégio e não obrigação (2 Co 8.4; 9.7).

Proporcionalidade – contribuição de acordo com as possibilidades individuais (2 Co 9.6,7).

* Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º trimestre: 2007.


CONCLUSÃO

A preocupação com o bem-estar da pessoa humana é uma constante na Palavra de Deus, desde os dias do Antigo Testamento (Lv 23.22; Dt 15.11; Sl 41.1). No Novo Testamento, se evidencia de forma gritante nas ações de Jesus, o qual andou fazendo o bem e libertando todos os oprimidos (Lc 4.18; At 10.38). Finda a sua missão terrena, o Filho de Deus transferiu à sua igreja, como parte de sua missão, o cuidado com os pobres ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós”. Uma igreja que apenas se importa com a salvação da alma, não atentando para as outras necessidades básicas dos pecadores, sem dúvida é uma igreja que não tem consciência de sua real missão.


BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Estudo Pentecostal/ CPAD.

Gianastacio, Vanderlei/ Uma igreja que faz e acontece: responsabilidade social, cidadania e serviço à luz do Novo Testamento/ São Paulo: Vida Nova, 2006.

Kennedy, D. James / E se Jesus não tivesse nascido? / Editora Vida.

Stott, John / Evangelização e Responsabilidade Social / São Paulo, ABU, 1983.

O Novo Dicionário da Bíblia/ Editado por J. D. Douglas/ Vida Nova.

Manual de Ação Social da Igreja Metodista Livre / Editado por Yuri Kikuti, Vera Takamura e pra. Kátia Okada.

Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º trimestre: 2007.

Lições Bíblicas CPAD/ Comentário da carta aos Romanos/ 2º trimestre: 1998.

Lições Bíblicas CPAD/ Atos, o padrão para a igreja da última hora/ 3º trimestre: 1996.
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