sábado, 25 de fevereiro de 2017

Sobre a condição humana e a misericórdia de Deus

Hoje, falando para um grupo de jovens, consideramos o quanto a condição humana é desesperadora e o quanto é grande a misericórdia divina. A gente precisa se apropriar dessa verdade, reconhecendo esta nossa condição e apelando para o grande amor de Deus, para nos libertar de um perfeccionismo obsessivo que nos fizeram acreditar ser o meio para um grau inatingível de pureza. Não que a gente não deva primar por viver de forma correta, mas é que o tentar viver uma vida correta não pode descambar para uma aversão doentia àquilo que nós mesmos somos,sentimento muito em voga no universo religioso-cristão. Dentro dessa perspectiva inatingível de santidade, se pisarmos na bola, não faltará castigo divino.

Há pessoas que compreendem o Criador do universo como se ele fosse uma daquelas divindades belicosas gregas, com raios nas mãos para, num surto de mau humor, massacrar os humanos. Não consigo imaginar uma Divindade assim por uma simples razão: que louvor teria Deus em subir ao pódio por ganhar uma luta contra mim?  Acho que qualquer pessoa ganharia de mim sem muita dificuldade. A glória na luta está em se nocautear um adversário à altura. Quem estaria à altura de Deus? "Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele? Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se reto me disser, então, me declarará perverso" (Jó 9.19, 20).

Essa divindade belicosa, em guerra com os humanos, é uma criação da igreja influenciada pela mitologia pagã, mormente a grega. Acredito em um Deus justo sim, que não tem o culpado por inocente, mas sem essa predisposição alardeada por alguns para confrontar e abater seres humanos cuja condição é tão miserável. Aliás, Jesus apresentou este Deus nas páginas do Novo Testamento, que nós podemos chamar de Pai nosso, um Deus que espera ansiosamente pelo filho pródigo-ingrato que arrebentou o coração do Pai quando preferiu o mundo a Sua casa. Quando o pródigo retorna, este Pai corre e pula no pescoço do filho numa explosão de alegria (Lc 15.11 ss). 

Por isso que Jesus exalta a súplica humilde do publicano e censura, por outro lado, a oração do autoconfiante fariseu (Lc 18.9). Enquanto este agradecia orgulhosamente por não ser como os demais homens, aquele esmurrava o próprio peito em reconhecimento das próprias misérias e pedindo misericórdia ao Pai. O que caracteriza a oração do publicano é reconhecimento do que Deus é em relação a nós,  e do que nós somos em relação a Deus. É a oração sincera do desespero com a própria condição. Ela não chega a ser pensada e articulada, ela explode do peito, rasga a gargante e ecoa. Vai na mesma direção da Súplica cearense, do compositor Gordurinha, uma das mais belas orações de todos os tempos: [...] "Senhor, eu 'pidi' para o sol se esconder um 'tiquinho'/ 'Pidi' 'pra' chover, mas chover de mansinho / 'Pra' ver se nascia uma planta no chão [...]". Relata o desespero do agricultor por uma chuva que nunca vem e o seu lancinante desabafo diante de uma Divindade que não responde, sem meias palavras. 

Por falar em orações belas, porque tiradas do fundo de um coração sincero que conhece a própria condição desesperadora e se joga nos braços da misericórdia divina, transcrevo abaixo uma das preces mais lindas que já vi, talvez só perca para o salmo 51. Chama-se confiança na misericórdia divina, do poeta português Bocage. O poeta, no desespero de não conseguir vencer a si mesmo, aos próprios sentimentos e pensamentos, à beira do precipício moral (porém ainda lutando contra si), apela para a compaixão de um Deus justo, misericordioso e bom, conhecedor profundo da complicada condição humana. Cada verso ecoa fragilidade versus misericórdia. 

Confiança na misericórdia divina

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada.

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza:
Fingem-Te então com ímpeto, e braveza
Erguendo contra nós a destra armada.

Ó almas sem acordo, e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!… Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.

Bocage


  
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