segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ruídos na comunicação com o céu

Um esforço por atingir o coração de Deus

Antes, Deus fala uma e duas vezes, porém ninguém atenta para isso (Jó 33.14).
 Dia desses, li uma algo que impactou minha vida. Alguém escreveu: “Ore, não até que Deus te ouça, mas até que você possa ouvir a Deus”. A frase estava sobreposta a um pano de fundo formado pela imagem de uma criança africana esquelética, e mais do que pela frase em si, fiquei maravilhado com a MENSAGEM transmitida através da correspondência perfeita entre a imagem de fundo e a sugestão ATÉ QUE VOCÊ POSSA OUVIR A DEUS.

Impressionei-me primeiramente porque isso diz muito acerca daquele que é o destinatário de nossas orações. Foi como se, de repente, eu houvesse descoberto que, como nós, Deus tem um coração onde residem vontades, sentimentos e emoções, tem seus próprios pensamentos, compreensão de vida e visão de mundo, e, por conseguinte, deve ter seu próprio sonho para este mesmo mundo, o qual deseja compartilhar com pessoas e realizá-lo através delas.

Segundo, pus-me a refletir sobre a natureza da oração e repensar o processo pelo qual ela ocorre. Penso que a maioria dos cristãos se comporta no processo da oração como num monólogo em que são expressos os próprios sentimentos, emoções, vontades, pensamentos e necessidades a um expectador sem voz, indiferente em relação a comunicar, como contrapartida, seus pensamentos, sentimentos e vontade, mas apenas desejoso de ver e ouvir o espetáculo do outro lado. Neste caso, Deus é expectador que apenas se emociona e reage às expressões do coração do fiel, porém sem meios de lhe transmitir, pela mesma linha de comunicação, os desejos e pensamentos de seu próprio coração.

Acho que a oração é o diálogo mais íntimo e apaixonante entre duas pessoas, e um diálogo íntimo e apaixonante deve caracterizar-se pelo esforço de cada uma das partes por expor seu coração e captar o coração do outro, por desvelar seus pensamentos e apreender, no contra-fluxo,  os pensamentos do outro, num vai-e-vem de pensamentos e sentimentos, o que resulta em novos pensamentos e sentimentos, na medida em que se cruzam, e afeta irreversivelmente as partes envolvidas. Mas não é assim que comumente acontece na oração. Habitualmente apressamo-nos em desnudar um coração egoísta diante de Deus, sem nenhuma preocupação em atingir o coração dele, em acessar seus sentimentos e apreender os seus pensamentos acerca da realidade.

Atingir o coração de Deus. Acessar os sentimentos de Deus. Apreender os pensamentos de Deus. Sinceramente, eu nunca tinha parado para analisar a dimensão e profundidade disso. Quais os pensamentos de Deus acerca da realidade que o cerca? E como Ele se sente ao contemplar a realidade e pensar sobre ela? A partir de seu pensar e sentir, o que Ele deseja comunicar? O que pretende fazer? E por meio de quem? Será que o que tem sido feito em nome de Deus por aqueles que se intitulam seus representantes atuais corresponde, de fato, à expressão da vontade divina? Será que estas afirmações que temos ouvido amiúde: Deus disse, Deus determinou, Deus orientou, Deus prometeu, mesmo que às vezes pronunciadas por pessoas bem intencionadas, são, de fato, expressões da vontade de Deus? Ou estamos num tempo de fortes ruídos na comunicação entre terra e céu? Tenho um amigo que, sempre que saímos do culto de uma grande igreja, me desconcerta com esta pergunta: "E se não for nada disso que Deus quer?"

Estudando o processo de comunicação verbal, percebendo os meios que o possibilitam e as barreiras que podem dificultá-lo, pus-me a pensar se a comunicação com o céu se daria a partir de mecanismos semelhantes e se também estaria sujeita a interferências parecidas. Questionei-me se poderia acontecer de eventualmente a linha de transmissão entre céu e terra sofrer interferências capazes de distorcer as mensagens enviadas e exigir grande esforço dos interlocutores para se entenderem mutuamente. Pode até parecer maluquice minha, mas ultimamente tenho sido afetado por uma desconfiança persistente de que Deus tem feito um esforço “tremendo” para se comunicar com o que ainda chamamos de igreja, porém com pouco resultado. Desconfio que até mesmo sua mensagem escrita, em grande parte, tem sido distorcida por fortes ruídos na comunicação.
Como se daria satisfatoriamente a comunicação entre o finito e o infinito, entre o temporal e o eterno?  Abrindo uma ilustração dentro da comunicação humana, imagine se você pudesse voltar no tempo cinco séculos e conversar com alguém daquela época sobre o mundo de hoje. Você e seu interlocutor estariam diante de barreiras quase intransponíveis, como a cultura, tempo, visão e compreensão de mundo diferentes. Você, de uma cultura supostamente mais evoluída, que talvez já tenha pego aulas de antropologia para entender o indivíduo em seu próprio meio, época e cultura, poderia até compreender tudo o que fosse comunicado pelo seu interlocutor, mas ele teria sérias dificuldades para compreender você. Imagino que ficaria mesmo escandalizado se ouvisse de sua boca tudo o que acontece por aqui hoje. Você quereria falar sobre muitas coisas empolgantes, mas pensaria duas vezes antes ao perceber que o outro lado estaria de antemão fechado para acreditar em muito do que você quereria dizer. Sendo assim, para que a comunicação fosse o menos prejudicada possível, ou você teria que se submeter a rigorosa adaptação comunicativa, o que empobreceria bastante o processo de comunicação, ou seu interlocutor teria que passar por uma espécie de desarmamento, de desnudamento, para permitir suficiente abertura para o novo que você tivesse para comunicar. Ou seja, suspender os próprios conceitos, razão, idéias, para se deixar tocar, influenciar e direcionar pelo outro, o que requereria dele confiança, desprendimento, renúncia, humildade e confiança. Numa terceira opção, as duas coisas poderiam ser feitas em conjunto, havendo adaptações de ambas as partes.

Pois bem, aplicando a ilustração no que estamos discutindo, Deus está anos luz tanto à nossa frente como atrás de nós na história, porque sua mente abarca passado, presente e futuro, constituindo-se num ponto de encontro onde se cruzam as culturas de todas as épocas, com seus conceitos, ideias e tabus os mais diversos. Para se comunicar com o humano, ou Ele se submete a uma adaptação rigorosa ou exige de nós uma abertura confiante, humildade, reconhecimento das próprias limitações, suspensão dos próprios conceitos e tabus, o que chamamos de processo de desarmamento cognitivo. Isso é fé.  

Penso que, de nossa parte, precisamos  passar por um processo de desarmamento que facilite nossa comunicação com o céu para que Deus diga o que Ele, de fato, quer dizer e não o que queremos ouvir; expresse o que Ele verdadeiramente pensa e sente sobre determinada situação e sobre nós mesmos e não o que queremos que Ele pense ou sinta. Precisamos de abertura confiante para a expressão da vontade de Deus. Até porque a Bíblia nos diz que os nossos pensamentos são uns, os de Deus são outros; os nossos sentimentos são uns, os de Deus quase sempre são outros; a nossa compreensão é uma, a de Deus quase sempre é outra; nossa vontade quase nunca é a vontade de Deus. Por isso que o escritor sagrado nos orienta a que apresentemos nossa vida consagrada a Deus para, só assim, experimentarmos sua boa, perfeita e agradável vontade (Rm 12.1,2). O que seria este consagrar-se a Deus senão chegar diante Dele aberto, receptivo e esvaziado para receber, sem reservas, aquilo que Ele tem a dizer? 

Segundo a Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Criado à imagem e semelhança divina, o homem herdou de Deus também esse desejo de criar segundo a própria semelhança, e então, no decorrer dos séculos, sempre tentou imitar o Criador no ato de criar-segundo-a-própria-semelhança, e conseguiu, quando muito, a capacidade de formatar segundo à própria semelhança. É sintomático no humano que cada um quer formatar o outro à sua própria imagem. Temos uma tendência a sugerir que o outro deva pensar como nós, sentir como nós e enxergar o mundo como nós enxergamos. Como se isso não bastasse, começaram a construir um Deus à imagem e semelhança humana. Projetamos em Deus nossa forma de pensar, sentir, fazer e compreender o mundo. De sorte que vamos a Deus, determinando de antemão, o que ele deve pensar, como deve sentir, como deve compreender o mundo e o que tem que fazer. Ou seja: Deus somos nós mesmos. 

O lado negativo da história da igreja mostra uma tendência de projetar em Deus também a nossa maneira preconceituosa de compreender as pessoas e o mundo. Por isso, desconfio que muito do que é apregoado nas igrejas como sendo a expressão última da vontade de Deus nada mais é do que expressão das vaidades humanas, do desejo doentio de poder e manipulação das massas, projetados em uma divindade deslocada de seu lugar, criada à imagem e semelhança de homens presunçosos (ver 2 Tm 3.1-9).

Quase sempre as nossas orações são movidas pelo desejo de que Deus nos ouça e nos faça algum favor. Por isso abundamos em preces rápidas e sem pausa, apressados em descarregar as nossas solicitudes aos pés da Divindade. E Deus nos ouve, porque a linha de comunicação que vai daqui para lá é boa. Ele consegue ouvir e entender até o filho do corvo pedindo comida (Jó 38.41). Porém, o segredo, o mais importante é que nós estejamos abertos para ouvir o que Ele tem a dizer, abertos à revelação de sua soberana vontade. E é aqui que reside a dificuldade, porque a linha que transmite a comunicação de lá para cá vai encontrar grandes bloqueios, por causa de nossas limitações. Deus anseia por uma oportunidade de nos falar, porém nossas distrações internas e externas quase sempre abafam a voz do céu antes que ela chegue a nós.

Até que Você possa ouvir a Deus...

Deus tem sua própria vontade. Paulo disse que devemos apresentar os nossos corpos em sacrifícios vivos para que possamos experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12.2).

Deus tem seus próprios pensamentos acerca da realidade. Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e os meus caminhos são mais altos que os vossos caminhos (Is 55.8,9).

Em relação aos sentimentos, às vezes encontramos Deus como se estivesse no divã, querendo abrir seu coração com alguém. "Espantai-vos disso, ó céus, ficai estupefato. O meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retém as águas" (Is 2.12,13).

Barreiras na comunicação com o céu 

Sendo assim, Deus deseja comunicar seu Ser conosco, mas as barreiras na comunicação não permitem. Seleciono abaixo algumas dessas barreiras.


Seletividade: O interlocutor só atenta para ouvir o que é do seu interesse ou o que coincide com a sua opinião. Consciente ou (quase sempre) inconscientemente, ele condiciona os ouvidos para captar apenas o que lhe cai bem. Há um sistema defensivo nos humanos que vai sempre na direção de evitar tudo o que causa desconforto e, por outro lado, orienta na direção do que parece confortável. É por isso que a Bíblia diz que Deus fala uma e duas vezes, e ninguém atenta para isso. É insuportável para nós ouvirmos alguém dizer que precisamos mudar de hábitos, reavaliar conceitos e abrir mão de coisas que não fazem mais sentido, ainda que esse alguém seja Deus. Por isso levantamos barreiras, porque não queremos entrar em contado com nós mesmos, com a realidade nua e crua, por medo de sofrer, ou então por orgulho. 

Na Bíblia, temos o caso do rei Acabe, cujos profetas, todos cuidadosamente selecionados por ele, só falavam o que o monarca queria ouvir. Qualquer voz destoante, como a do profeta Micaías, não era bem-vinda, não podia ser de Deus, porque Acabe tinha condicionado os ouvidos para ouvir só o que lhe era conveniente. O espírito de Acabe continua agindo na história do povo de Deus, principalmente nos dias hodiernos, quando vivencia-se uma fé de conveniência, cujos pregoeiros estudam cuidadosamente o que os fiéis querem ouvir, para inflar seus egos com promessas infundadas atribuídas falsamente a Deus.

Preconceito: A percepção indevida das diferenças socioculturais, raciais, religiosas, hierárquicas, entre outras. Como isso aqui é muito abrangente, vamos fazer um recorte, referindo-nos ao preconceito engendrado pelas crenças. Há pessoas que estão tão arraigadas a um sistema de crendice que tudo o que destoa dela deve ser imediatamente rechaçado como mentira inaceitável. São tão confiantes que não se dão sequer ao trabalho de ponderar, comparar os fundamentos desse ou daquele conceito.

Jesus teve muito trabalho com os fariseus de seu tempo, cuja tradição servia de barreira entre seus ouvidos e a voz de Deus.  Todavia, o caso bíblico mais emblemático é o de Pedro. No capítulo oito de Atos, este apóstolo quase se recusou a obedecer a uma ordem divina por entender que a mensagem do céu se chocava com uma crendice de Israel. É bem provável que, inicialmente, ele nem tenha aceitado que a voz vinha mesmo do céu. Ou seja, se não está de acordo com tudo o que aprendi, só pode ser do diabo e não de Deus. A ordem era para que ele tomasse alguns animais, impuros segundo a crença judaica, e comesse. Pedro disse: “Senhor, não posso comer, nunca comi coisa imunda”. Deus disse: “Quem te falou que é imunda? Eu sei o que estou fazendo, se eu mandei matar e comer, mata e come”. A visão e a ordem apontavam para o desejo de Deus de salvar os gentios, que os judeus consideravam imundos, e que logo Pedro deveria visitar o gentio Cornélio a fim de evangelizá-lo. Mais tarde Pedro precisou dar explicação à igreja sobre o fato de ter ido à casa de Cornélio. Ele deve ter pensado: “Senhor, vou ficar mal perante a tradição religiosa”. Imagino Deus lhe dizendo: “Que importa o que vai dizer a tradição religiosa, se eu mandei ir lá, vá”.

Para aqueles que consideram meu texto subversivo, “defendo-me dizendo que congrego na mesma igreja há quase vinte anos, nunca a desabonei e sei da importância que a denominação tem para o crente, mas também sei que o Reino de Deus não se resume a templos, denominações e tradições eclesiásticas: o Reino de Deus pode ser dois ou três reunidos em nome de Cristo. É a irmã Maria junto com a irmã Francisca reunidas em algum lugar, numa campanha de oração, e Deu revelando a sua vontade para tirar o mundo do eixo” e desbaratar tradições humanas que bloqueiam a promoção de Seu Reino.

Tradicionalismo. Parece que foi Cipriano de Cartago quem disse: "Às vezes, uma antiga tradição não passa de um antigo erro." Ademais disso, há costumes que já fizeram muito sentido, mas que deixaram de fazer com o tempo. Todavia alguns se agarram à tradição apenas por uma questão de conveniência, porque o viver segundo preceitos e preconceitos confere status e, em nome de manter um status, sacrificam a verdade descoberta no altar da conveniência. Foi assim que os fariseus se comportaram em relação à verdade de Deus materializada no ministério de Jesus. Trocaram o ministério persuasivo do mestre pela tradição vazia de seus pais e ficaram surdos para as boas novas que Deus queria comunicar (ver Mc 7.1-13).

Espírito de religiosidade. O espírito de religiosidade é o resultado desta equação: zelo de Deus + orgulho = religiosidade. Na verdade onde se lê zelo de Deus, leia-se zelo por uma tradição cujo cumprimento confere status. As pessoas buscam se promover de muitas formas, entre essas formas, diferenciando-se das demais por meio de sacrifícios que as façam superiores. Os fariseus do tempo de Jesus se achavam diferentes dos outros homens, tanto de sua própria nação como dos gentios. Seu orgulho era tão grande que não permitia uma abertura para a revelação gritante de Deus por meio dos ensinos e milagres realizados por Jesus (ver Mc 3.1ss).

Coração endurecido. Em Marcos 8.14-21, vemos que os próprios discípulos de Jesus não conseguiam entendê-lo, porque tinham o coração endurecido, o que resultou numa reprimenda do mestre: "E Jesus, percebendo a discussão, perguntou-lhes: Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem percebem? O coração de vocês está endurecido. Vocês têm olhos, mas não veem? Têm ouvidos, mas não ouvem? (17-19). 

Continua...
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