quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma pérola entre as futilidades da TV brasileira


Entendo o dilema de quem costuma ficar até altas horas da noite em frente à televisão, com o controle remoto na mão, passando de emissora em emissora, a fim de encontrar alguma coisa interessante para ver antes do sono chegar. Reconheço, pela própria experiência, que achar algum programa edificante na TV aberta é uma busca difícil. Mas nem tudo está perdido. Se você faz parte desse quadro de caçadores de pérolas televisivas, indico o programa “Provocações”, apresentado na TV Cultura, por Antônio Abujamra, que vai ao ar todas as terças-feiras às 23:00h.

Criado pelo parceiro de Abujamra, Gregório Bacio, na década de 90 (na verdade, estreou em 2000), o programa tem como finalidade, nas palavras do próprio apresentador, “lembrar às pessoas que existem outros na vida”, diversos outros, espaços e cenários possíveis. É um canal aberto para o pluralismo e a liberdade de expressão, que enaltece a democracia.

O programa se divide em quatro quadros que se entremeiam durante a apresentação. Inicialmente, Abujamra entrevista o convidado, o qual pode vir das mais diversas classes sociais, para discorrer sobre os mais complexos assuntos (vida, morte, religião, política, literatura, etc.), todos a partir das lentes subjetivas do entrevistado. Aquela coisa bem fenomenológica de que o mundo que existe é um mundo diferente para cada observador. A conversa é totalmente desprovida de censura e mostra-se recheada de franqueza. Porque a lógica é provocar, levar o outro a externar os seus mais recônditos sentimentos relacionados às nuances da existência, bem como aguçar o espírito crítico do telespectador.

Ali, diante do olhar perspicaz de Abujamra, já foram provocados expressividades nacionais como Juca Kfouri, Roberto Freire, Paulo Autran, João Sayad, bem como outros personagens não muito conhecidos, ex morador de rua, médicos e escritores cujos nomes não nos daremos ao trabalho de citar por acreditarmos serem totalmente desconhecidos do leitor. Na parte final desse quadro, o apresentador pede para seu convidado olhar para uma câmera à sua frente e dizer tudo o que já desejara falar, mas que, por algum motivo, foi impedido, ou a “enforcar-se na corda da liberdade”. Foi em um desses momentos que vi Miguel Arraes externar sentimentos em relação ao Brasil até então inimagináveis para mim.

No segundo quadro, chamado “Vozes de Rua” um repórter sai pelos logradouros públicos de diversas cidades do Brasil, entrevistando pessoas das mais diversas classes sociais e estilos de vida (médicos, advogados, motoristas, domésticas, prostitutas, moradores de rua, pregadores do evangelho). Enfim, para ser abordado, basta estar no caminho do repórter. Essa diversidade de alvos e as diferentes visões de mundo que emergem das conversas traduzem perfeitamente a temática do programam: existe o outro.

No último quadro – Textos e Poesias – o apresentador recita textos de autores consagrados da literatura universal, o que enriquece imensamente o repertório cultural do telespectador. E o melhor é que muitos desses textos, que poderiam ser de difícil compreensão para um leitor iniciante, são adaptados numa linguagem bem compreensível.

Perdido em meio a tantas futilidades que a televisão brasileira tem produzido, o telespectador pode achar uma verdadeira pérola – PROVOCAÇÕES –, um programa enriquecedor e edificante, um convite ao enforcamento na corda da liberdade.
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