sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Respondendo às respostas da vida

"Orgulho, preconceito, intolerância, pavio curto...  essas coisas que nos impedem de descobrir o que há de melhor em nós,o que há melhor no outro, o que há de melhor na vida."   J. R. Lima.  

“De que maneira você responde às respostas que a vida te dá?” Comecei perguntando assim para aquela plateia curiosa. Percebi que quase ninguém entendeu. Reforcei que uma das grandes questões da vida é como reagimos, ou respondemos, às respostas que a vida concede às nossas buscas e expectativas. Notei que ainda havia gente boiando. “Há pessoas que respondem positivamente a uma resposta negativa. Outras respondem negativamente a uma resposta positiva. E ainda outros são negativos em todos os sentidos. (Não que as pessoas sejam determinantemente assim, elas podem mudar, tanto é que me propus pregar esta mensagem).

Ao perceber que não conseguiria ser entendido por meio de frases e conceitos, expliquei com dois casos extraídos da Bíblia. O primeiro é o caso de Naamã (2 Rs 5). Era um general do rei da Síria que, apesar de todas as suas condecorações, era leproso. Um dia disseram a ele que se fosse até a presença do profeta Eliseu, em Samaria, este o curaria de sua lepra. Prontamente Naamã se paramentou com tudo o que precisava para a viagem, inclusive com presentes caros para o profeta, e partiu. Estava disposto a qualquer sacrifício pela cura.

Estava ainda a uma distância considerável da casa de Eliseu, quando, sabendo  que Naamã estava vindo, o profeta mandou dizer-lhe que nem precisava chegar à sua casa, apenas fosse ao rio Jordão e mergulhasse sete vezes. “Nossa, não pensei que fosse tão fácil assim”, Naamã poderia ter pensado. Mas, pelo contrário, se encheu de furor, pois pensou que o profeta estava de brincadeira com ele e resmungou que lá na Síria tinha rios mais limpos que o Jordão. E começou a voltar para casa.

Pense comigo: a gente até entende a perplexidade de Naamã, não sou tão simplório a ponto de não entender, mas que o profeta facilitou muito a vida dele, disso a gente não pode discordar. Então, a sua perplexidade o levou a responder de maneira altamente negativa a uma resposta que parece ter sido positiva da parte do profeta.

        Neste mesmo caso aparece o servo de Naamã. Já de volta, decepcionado pelo caminho, o general leproso ouve o servo pedindo a oportunidade de falar-lhe. Concedida a oportunidade, disse-lhe: “Meu senhor, se o profeta tivesse pedido alguma coisa extremamente difícil, o senhor não faria para se ver livre desse mal?” Ao ouvir um sim de Naamã, o servo continuou: “Então, ele apenas ordenou que o senhor mergulhasse no Jordão sete vezes, custa tentar?” Ainda bem que Naamã ouviu o conselho. Voltou curado para casa.

Note que o servo de Naamã respondeu de forma altamente positiva à mesma resposta que o general respondeu de forma negativa. A retribuição foi a cura de seu senhor, além de algumas benesses que recebeu posteriormente, é claro.  

A esta altura, as pessoas já estavam entendendo. Continuei então. O segundo caso, narrado também na Bíblia, é o de Ana (1 Sm 1). O grande sonho de sua vida era ser mãe, mas era estéril. Em um dia de culto, desceu à igreja e começou, em grande amargura, a tão somente balbuciar uma oração, de maneira incompreensível. O sacerdote Eli aproximou-se e, interpretando-a mal, ordenou estupidamente que ela parasse de entrar no culto bêbada. “Estúpido, desviado”, xingariam alguns crentes. Bem que Eli merecia. Mas Ana respondeu: “Não, meu senhor, a tua serva não está bêbada, ela apenas está falando da angústia de sua alma perante o Senhor”.

Note a reação altamente positiva de Ana a uma atitude tão negativa, mortífera, do sacerdote. Ela viu agora a oportunidade não só de falar a Deus, mas também ao sacerdote, em um momento propício a causar forte comoção neste. Ainda bem que Eli corrigiu a tempo. Ele disse: “Vá em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição”. Poucos dias depois, Ana apareceu grávida. A resposta altamente positiva de Ana a uma resposta altamente negativa do sacerdote eliciou neste último outra resposta altamente positiva.

Acho que a gente poderia construir com isso uma fórmula matemática para vida. Porque se a gente quiser, de falto, alcançar alguns objetivos que traçamos para vida, precisamos agora nos despir do orgulho, intolerância e pavio curto e ir com muita humildade e persistência ao objeto de nosso desejo.

O povo estava começando a gostar do assunto. Então repetimos: Uma das grandes questões da vida é como respondemos às respostas que a vida nos dá.


Os exemplos e personagens que apresentamos acima são apenas amadores, aspirantes, que abrem o show para o grande referencial no assunto tratado. Falo da mulher cananeia (Mt 15).  Aquela que tinha uma filha terrivelmente endemoniada e foi buscar Jesus.  Vou contar sobre ela em breve. 

sábado, 20 de dezembro de 2014

Visão panorâmica do protestantismo brasileiro

Josafá R. Lima

A chegada do protestantismo ao Brasil está primeiramente relacionada aos grandes fluxos migratórios de pessoas vindas da Europa, estimuladas por uma série de questões, mas principalmente políticas e religiosas, que caracterizaram o início do século 15. Com as grandes navegações que caracterizaram o século 15 e as brigas e perseguições religiosas que também tumultuaram a Europa de então, muitas pessoas deixaram sua pátria debaixo de perseguição e carregando seus sonhos de viver em paz numa nova terra, onde pudessem trabalhar, reconstruir suas vidas e professar livremente a sua fé. 

Dentro deste contexto, o Brasil é um país que tem muito para contar, pois, após ser descoberto, por causa de suas riquezas naturais e de suas grandes possibilidades econômicas, habitantes de muitos países Europeus se dirigiram para esta terra, estimulados, em muitos casos pelo próprio governo de sua nação, com fins de explorarem as riquezas brasileiras. Cada um trazia sua fé protestante de seus países de origem. E assim, o Protestantismo foi se espalhando na terra brasileira.

Inicialmente, os protestantes tiveram muita oposição do catolicismo, que era a igreja soberana no Brasil, haja vista que, conta-se, o acesso ao serviço público era negado aos protestantes , bem como o reconhecimento legal ao casamento, por serem atribuições da Igreja Católica, além de que só os mortos católicos tinham direito de ser legalmente sepultados.

As questões políticas continuaram por longos anos a influenciar a disseminação do protestantismo no Brasil, tanto é que em 1824, por causa das restrições feitas pela Inglaterra ao tráfico negreiro brasileiro, houve uma necessidade de se encontrar mão de obra não-escrava que substituísse os negros nas fazendas, foi então que um grande leva de luteranos migrou para o Brasil.

Vale salientar que, na medida em que mais protestantes iam chegando, ainda que por outras razões que não o espírito missionário, certa aceitação ia sendo imposta. Com o passar dos anos, outros protestantes foram chegando, agora já com um objetivo evangelístico-missionário, como o caso do pastor presbiteriano James Cooly Fletcher, enviado pela Sociedade Bíblica Americana em 1851. Posteriormente, acontece também a chegada do casal Robert e Sara Kelly ao Rio de Janeiro, que organizou uma igreja que de à luz o trabalho de ensino que muitos evangélicos consideram a fundação da Escola Bíblica Dominical no Brasil.

Registre-se ainda que em 15 de outubro de 1882 foi iniciado a primeira igreja batista brasileira, em Salvador. Esta igreja foi iniciada a partir de um evangelismo de missão, diferente do protestantismo que chegou por aqui embalado por questões políticas, a partir de movimentos migratórios (evangelismo de migração), que resvalaria paulatinamente  para motivações missionárias.

E enquanto o protestantismo se disseminava lentamente no Brasil, um movimento que os crentes pentecostais de hoje chamam de O Grande Avivamento varria a América do Norte, o Movimento Pentecostal. O Pentecostalismo é considerado uma grande visitação de Deus por aqueles que acreditam que o fenômeno do falar em línguas, como resultado do batismo com o Espírito Santo, conforme aconteceu em no capítulo 2 do livro de Atos, é para os crentes de todos os tempos, ou seja, acreditam na atualidade do batismo com o Espírito Santo.

O Movimento Pentecostal começou a espalhar suas influências por lugares distantes, haja vista que dois missionários suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, que experimentaram o avivamento em terra norte-americana, vieram ao Brasil em 1910 e começaram, no estado do Pará, o que se considera hoje o início do Pentecostalismo no Brasil.

O Pentecostalismo pareceu se adaptar bem a realidade brasileira, começou a atingir pessoas e regiões que dificilmente as igrejas tradicionais conseguiriam, houve muitas discórdias entre os tradicionais e pentecostais. Algumas igrejas tradicionais importantes começaram a perceber que o Pentecostalismo era uma tendência e precisavam, portanto, fazer algumas mudanças nas suas liturgias para, de alguma maneira, “fazerem frente a este movimento”, isso foi muito importante para a rápida disseminação do evangelho no Brasil.


Alguns aspectos positivos e negativos

          O protestantismo brasileiro, abrangendo tanto os protestantes tradicionais como os pentecostais e neo pentecostais, é hoje uma força que, de há muito já saiu das fronteiras religiosas e descambou para um movimento político-social que tem influenciado todas as áreas da nação brasileira. Vejo isso como algo, até certo ponto, positivo, pois uma nação precisa de uma consciência moral oriunda da fé professada pela maioria de seus cidadãos. O ponto negativo é que o nosso protestantismo, desde que foi importado da Europa e, posteriormente, dos Estados Unidos, como Movimento Pentecostal, não conseguiu ainda se despir da roupagem que recebeu daquelas nações e continua sendo um protestantismo à moda americana. Uma grande necessidade da igreja brasileira é responder, em matéria de fé, às questões de nosso povo, de acordo como a nossa realidade. 

         Em relação ao Movimento Pentecostal, é o grande responsável por este boom dos evangélicos no Brasil. Hoje somos um número consideravelmente grande, e não seria assim se dependêssemos sempre da maneira tradicional de vivenciar a fé das igrejas tradicionais. Outrossim, o Pentecostalismo deu o ponto de partida para um evangelho mais adaptado à nossa realidade, porém, com o passar do tempo, acabou resvalando para outro extremo: com seu grande poder de adaptação e absorção das culturas regionais, deu à luz movimentações estranhas aos padrões bíblicos, com a cara dos cultos afrodescendentes, além de se de adaptar-se demais ao capitalismo selvagem de nossos tempos, criando uma mercantilização da fé. Hoje, é a grande crítica que se faz a este movimento.


Para finalizar , vale uma palavra sobre a importância dos batistas. Sua origem aqui no Brasil, desde a igreja fundada na Colônia de Santa Bárbara, a partir dum evangelismo de imigração, passando mais tarde pela igreja em Salvador, e toda a sua história de dedicação ao evangelismo em solo brasileiro, sua ênfase no ensino teológico, tudo isso tem um poso enorme no estabelecimento e crescimento do Protestantismo no Brasil. Além de que, é bom não esquecer, que a história do Pentecostalismo no Brasil passa obrigatoriamente pela igreja batista.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O prenúncio do tempo do fim

Josafá R. Lima

Leitura bíblica: Daniel 8.1,3-11

“E disse: Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque ela se exercerá no determinado tempo do fim” (Dn 19).
  
No capítulo 8 de seu livro, o profeta Daniel registra uma de suas visões sobrenaturais acerca do destino dos reinos do mundo e do fim dos tempos. O profeta vê um carneiro de dois chifres, forte e implacável contra seus adversários.  Mas depois surge um bode com um chifre enorme entre os olhos, ataca furiosamente o carneiro e o destrói.

Após a vitória contra o carneiro, e tendo crescido muitíssimo, o chifre do bode é quebrado e quatro outros chifres surgem no seu lugar. De um dos quatro novos chifres, surge um pequeno chifre, que logo cresce para fazer coisas espantosas e abomináveis.  

Ambos os animais representam dois grandes impérios mundiais: respectivamente o império medo-persa e o império grego, que surgiriam no cenário mundial após a ruína do império babilônico.  A visão repete parcialmente a revelação que fora feita ao profeta no capítulo sete, quando ele viu quatro animais, os quais representavam quatro impérios mundiais, entre os quais, os impérios persa e grego. Porém agora, nesta visão, a riqueza de detalhes sobre os dois impérios referidos é impressionante, além de que lança luz sobre eventos proféticos do fim dos tempos, entre eles, o personagem histórico Antíoco IV Epifânio, cuja ação ultrajante contra o povo de Deus o habilita como um tipo do Anticristo (ver Dan 11; Mt 24.15; 2Ts 2.3-12). 


I. O CARNEIRO, UMA FIGURA DO IMPÉRIO MEDO-PERSA

E levantei os meus olhos e vi, e eis que um carneiro estava diante do rio, o qual tinha duas pontas, e as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra; e a mais alta subiu por último (Dn 8.3).

Os detalhes desta profecia são de impressionantes quando comparados com os relatos do surgimento e queda das nações referidas. Vamos recorrer ao relato do historiador Antonio Pedro, no livro História Antiga e Medieval, onde relata a decadência do império babilônico que possibilitou a ascensão do império medo-persa representado pela visão do carneiro.

Depois da morte de Nabucodonosor, o império babilônico começou a entrar em decadência. Os sacerdotes passaram a exercer grande poder, diminuindo a autoridade do rei. Ao mesmo tempo, as fronteiras começaram a ser ameaçadas pelos persas e medos, que se uniram. A Babilônia acabou sendo conquistado pelo famoso rei persa Ciro, o grande, em 539 a. C. (Pedro, 1985, p. 50).  

Começava o domínio do império representado pelo carneiro da visão profética.

Os dois chifres do carneiro representam os dois povos unidos neste império, os medos e os persas. Note que o profeta afirma que as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra, sendo que a ponta mais alta subiu por último. Isso daria a entender, como proposto pelo pastor Cabral (2014), que Ciro, o grande, teria substituído a Dario no governo do império. Este último, rei medo, teria recebido o governo por ocasião da morte de Belsazar, com a idade de 62 anos. (5. 30,31) (Douglas, 1995).
           
Na verdade, não há evidência histórica de que um suposto Dario tenha antecedido Ciro como rei de Babilônia. Por isso, existem muitas controvérsias acerca do tal rei Dario interposto entre os reinados de Belsazar e a ascensão Ciro. O Dario da história é um rei persa, Dario I, ou o grande, sucessor de Cambises, que governou entre 521 e 486. C. (Douglas, 1995).
            
O Dario contemporâneo de Daniel, que não deve ser confundido com o rei Dario citado em Daniel 9.1, talvez tenha governado sob as ordens de Ciro, o fundador do império persa. Alguns teólogos, no entanto, o identificam com o próprio Ciro; outros acreditam ter sido ele um governador descendente dos medos, conhecido como Gubaru (Gardner, 1995).
           
Todavia, à parte as controvérsias, a narrativa de Daniel tem toda a aparência de escrito histórico genuíno e, na ausência de muitos registros históricos sobre este período, não há razão pela qual a história não deva ser aceita. (Douglas, 1995).
  
II. O BODE DA VISÃO PROFÉTICA, UMA FIGURA DO IMPÉRIO GREGO

[...] eis que um bode vinha do Ocidente sobre toda a terra, mas sem tocar no chão; e aquele bode tinha uma ponta notável entre os olhos; [...] dirigiu-se ao carneiro de duas pontas e correu contra ele com grande ímpeto da sua força. [...] e feriu o carneiro e lhe quebrou as duas pontas.

Uma leitura comparativa da narrativa da queda do império persa, representado pelo carneiro de duas pontas, e ascensão do império Greco-macedônico, ilustrado pelo bode impetuoso, prende a atenção novamente na precisão impressionante da profecia. Vejamos a narrativa de Antonio Pedro.  

A tomada do estreito de Bósforo e Dardanelos no Mar Negro pelas forças persas prejudicou o intenso comércio grego na região. Grande parte do trigo consumido na Grécia era produzida por suas colônias nas margens do mar Negro, agora nas mãos dos Persas. Os gregos estavam, portanto, com seus interesses prejudicados pelo domínio dos persas na região.

Havia uma espécie de tensão entre várias cidades gregas e o império persa. Esta tensão se transformou em longa guerra depois que os persas reprimiram violentamente a rebelião da cidade grega de Mileto, na Ásia Menor.

Em 490, o exército de Dario tentou invadir a Grécia, mas foi derrotado pelos gregos na famosa batalha de Maratona. Depois da morte de Dario, o império persa passou a ser governado por seu filho Xerxes, que continuou a campanha contra a Grécia. Novamente os persas foram derrotados na batalha naval de Salamina, em 478-479 a. C.
Com uma derrota após outra, os persas foram obrigados a se retirar e a reconhecer a supremacia grega no mar Egeu e na Ásia Menor (Lídia).

Aproveitando-se das derrotas persas frente aos gregos, várias satrapias se revoltaram contra o longo domínio do império. Internamente a luta pelo poder era cada vez mais violenta. Os persas, no entanto, logo retomaram sua influência sobre a Ásia Menor durante a guerra entre Esparta e Atenas, a chamada guerra do Peloponeso. Mas algum tempo depois, Dario III, um dos últimos sucessores do império, foi assassinado e, em 330 a. C., todo o império caiu nas mãos de Alexandre Magno e passou a fazer parte do império grego-macedônico (Pedro, 1985, p. 72).

O bode da visão profética tinha, de fato, triunfado sobre o carneiro.  

1.  A grande ponta do bode, uma figura de Alexandre Magno.

E o bode se engrandeceu em grande maneira; mas, estando na sua maior força, aquela grande ponta foi quebrada (Dn 8.8).

Alexandre Magno, filho de Felipe, rei macedônico, conquistou, com grande velocidade (sem toca no chão) o mundo conhecido em seus dias. Vejamos uma apreciável narração histórica sobre suas proezas.

Alexandre já havia exercido o governo interinamente durante a ausência de seu pai Filipe. Também, demonstrado suas qualidades militares durante a batalha de Queronésia, quando os gregos foram derrotados pelo exercito macedônio.
Logo que assumiu o poder, teve de enfrentar forte oposição de outros pretendentes, principalmente de seus irmãos. Com o auxílio dos generais Antípatro e Parmenion, Alexandre elimino seus adversários e imediatamente foi reconhecido como chefe da liga de Corinto.

Um dos primeiros problemas que Alexandre teve que enfrentar foi dos tebanos. O jovem rei atacou rapidamente os rebeldes, destruindo totalmente a cidade de Tebas e transformando seus habitantes em escravos.

A Pérsia, depois das derrotas frente aos gregos, recomeçou sua política expansionista, recuperando quase toda a costa menor e varais ilhas do mar Egeu. No período em que Alexandre iniciou seu governo, o rei da Pérsia era Dario III.

Na primavera do ano 334 a. C., um exercito composto de gregos e, principalmente de macedônios, iniciou uma guerra contra a Pérsia, invadindo o helesponto (estreito do mar negro). A vitória do exercito de Alexandre foi rápida. Os gregos da Ásia Menor recebiam Alexandre como o grande libertador do domínio persa. Em pouco tempo, toda a Ásia Menor encontrava-se sobre o seu domínio.

Em seguida Alexandre marchou sobre a Fenícia, enquanto o exercito de Dario III batia em retirada. Somente a cidade de Tiro resistiu, durante sete meses, as forças de Alexandre, depois dos quais também caiu em poder do jovem conquistador.

O Egito era, sem dúvida, um dos mais ricos domínios do império persa, o que levou Alexandre a invadi-lo. No ano 332 a. C., fundou no delta do rio Nilo, a cidade de Alexandria, que se transformou no mais importante centro comercial de todo Mediterrâneo.

Alexandre tinha grande habilidade para tratar os povos que ia dominando. O Egito, por exemplo, era administrado pelos próprios egípcios, mas o comando militar ficava nas mãos de militares macedônios.

A derrota definitiva dos persas deu-se em Gaugamela, na Mesopotâmia, no ano 331 a. C. Apesar da superioridade numérica do exercito persa, os soldados macedônios os venceram novamente. A partir daí o império dos Aquemênida deixou de existir.
Para consolidar o seu domínio sobre o império persa, Alexandre, em rápida e violenta marcha, tomou as mais importantes capitais do império Aquemênida: Susa, Persépolis e Parsagadas. Persépolis foi totalmente destruída como vingança da destruição da cidade de Antenas, praticado mais de 1000 anos antes.

O território conquistado por Alexandre em dez anos de expansão atingia proporções enormes: ia desde o Helesponto até o rio Indus; desde o Cáucaso até a Núbia, no Egito. (Pedro, 1985, ps. 135-138).

2. Mas aquela grande ponta foi quebrada estando na sua grande força.

Em junho de 324 a. C., depois de passar dez dias sofrendo as consequências de uma febre, Alexandre Magno morreu, aos 33 anos de idade, sem deixar organizado um claro sistema de sucessão. Seus generais passaram então a disputar o poder do vasto império deixado pelo conquistador. (Pedro, 1985, p. 138).
       
A profecia de Daniel estava se cumprindo literalmente apenas 200 anos depois (A visão aconteceu em 551 a. C.). (Nigh, 1995).

 3. E no lugar da grande ponta, surgiram quatro também notáveis pontas (8.8)
Depois de lutas ferrenhas entre os súditos de Alexandre pelo poder, seu império foi dividido em quatro grandes regiões: a Mesopotâmia, o Egito, a Ásia Menor e a Grécia, governadas por reis diferentes, ex-generais do exército de Alexandre, que deram origem a 4 dinastias: Ptolomeu tinha o Egito, Palestina e parte de Síria; Cassandro dominava Macedônia com soberania nominal sobre Grécia; Lisímaco tinha Trácia e uma grande parte do Ásia Menor; e Seleuco possuía a maior parte do que tinha sido o Império Persa: parte do Ásia Menor, o norte de Síria, Mesopotâmia. Começava civilização helenística.

III. ANTÍOCO EPIFÂNIO, O PROTÓTIPO DO ANTICRISTO

1. De uma das quatro pontas surgiu um chifre pequeno

“E de uma das pontas, surgiu uma ponta mui pequena, a qual cresceu muito para o meio-dia, e para o oriente, e para a terra formosa. E se engrandeceu até o exército do céu; e a alguns dos exércitos das estrelas deitou por terra e os pisou e se engrandeceu até ao príncipe do exército; e por ele foi tirado o contínuo sacrifício, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra” (8.9-11).

Coube à região formada pela Mesopotâmia e a Síria a administração da dinastia Selêucida, entre cujos representantes, sobressai-se a figura de Antíoco IV Epifânio, que governou o reino selêucida de175 a164, cujo caráter maligno e procedimento histórico de opressão contra os judeus encontram correspondência perfeita na profecia de Daniel:

Em 168 a. C., Epifânio tentou invadir o Egito. Esta iniciativa terminou em fiasco. Ele quis compensar-se conquistando o reino de Jerusalém. Milhares de Judeus foram decapitados. Epifânio profanou o templo. Realizou oferta de um porco sobre o altar. Depois derramou o sangue por todo o templo de Deus. Acabou com os postos de sacerdócio e vendeu centenas de judeus à escravidão. (Nigh, 1995). 

2. A visão é para o tempo do fim. Daniel fez um grande esforço para entender o significado da visão e somente pôde entendê-la por meio da explicação do anjo Gabriel. Gabriel disse que a visão era para o tempo do fim. De acordo com o calendário profético, “o tempo do fim” diz respeito ao período entre o final do exílio e a segunda vinda.

De acordo com a elucidação feita por Gabriel, O cumprimento histórico em Antíoco Epifânio é uma figura do que virá. Dos quatro reinos surgidos dos espólios de Alexandre, surgirá um rei feroz de semblante e entendido em enigma (Dn 8.23).

“No final do reinado deles, quando a rebelião dos ímpios tiver chegado ao máximo, surgirá um rei de duro semblante, mestre em astúcia. Ele se tornará muito forte, mas não pelo seu próprio poder. Provocará devastações terríveis e será bem sucedido em tudo quanto fizer. Destruirá os homens poderosos e o povo santo. Com o intuito de prosperar, ele enganará a muitos e se considerará superior aos outros. Destruirá muitos dos que nele confiam e se insurgirá contra o Príncipe dos príncipes. Apesar disso, ele será destruído,mas não pelo poder dos homens” (Dn 8 23-25).

Apesar de a profecia acerca do chifre pequeno que cresceu ter tido cumprimento histórico em Antíoco IV Epifânio, está claro que o mesmo não corresponde a todos os predicados descritos na profecia supramencionada. Portanto, o cumprimento cabal da visão se dará com a aparição do Anticristo, no final dos tempos. Veja  Dn 7.7,8; 1Jo 2.22; 2Ts 2.3,8; Mt 24.15; Ap 19.20 e note que os detalhes da profecia corresponde precisamente a este personagem escatológico.

CONCLUSÃO

O livro de Daniel foi encerrado em 535 a. C. A profecia do capítulo 8 teve seu cumprimento histórico mais de 300 anos depois. Esta profecia, entre tantas outras distribuídas no mesmo livro e por toda a Bíblia Sagrada, somente confirma a verdade exarada pelo mesmo profeta em apreço: O altíssimo tem o domínio sobre os reinos dos homens e o dá a quem quer (Dn 4.17). Ele é o soberano Senhor da História.

BIBLIOGRAFIA

PEDRO, Antonio. História antiga e medieval. São Paulo: Editora Moderna, 1985.
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 1999.
JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990.
DOUGLAS, J.D. (org.). O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
NIGH, Kepler. Manual de estudos proféticos. São Paulo: Editora Vida, 1995.
A Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus.
Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
Bíblia de Estudo DAKE. CPAD / Atos, 2009.
Bíblia de Estudo Arqueológico. Editora Vida.
CABRAL, Elienai. Integridade Moral e Espiritual, o legado espiritual de Daniel para a igreja atual. Lições bíblicas, 4º trimestre de 2014. Riso de Janeiro: CPAD, 2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Por que as igrejas se dividem?

Josafá R. Lima

A igreja, no decorrer de sua história, sempre foi marcada por cisões, pelos mais variados motivos. Inicialmente um grupo de judeus rompe com as amarras do judaísmo e funda aquela que se tornaria a maior de todas as religiões, o cristianismo. Esta nova religião, mais tarde (século XI), representada pela Igreja Católica Romana, divide-se em duas igrejas independentes: a de Roma e a de Constantinopla, no evento que se convencionou chamar de O Grande Cisma ou Cisma do Oriente, que pôs a Igreja Católica de um lado e a Igreja Ortodoxa de outro. No século XVI, a igreja romana passa pelo cisma da reforma luterana que origina o Protestantismo. Umas das grandes igrejas que se originaria do movimento protestante é a Igreja Batista, cuja origem parece  remontar a certa influência anabatista. Foi por meio de um cisma dentro desta igreja em solo brasileiro que surgiu a maior igreja evangélica no Brasil, a Assembleia de Deus. Vários cismas dentro da Assembléia de Deus e em outras denominações derivadas deram origem a muitas grandes denominações, como a Universal do Reino de Deus, a igreja Deus é Amor e Igreja Internacional da Graça.

Olhando de uma perspectiva puramente religioso-denominacional, a gente tende a acreditar que por rebeldia, ingratidão, vaidade e orgulho, dissidentes da "verdade", como costumam ensinar as lideranças afetadas pelas cisões, acabam abandonando suas igrejas-mãe e começando novos trabalhos na condição de eternos rebelados (não estou querendo dizer que não haja estes sentimentos presentes nas divisões, ingredientes das paixões humanas). Normalmente estes dissidentes são excluídos e demonizados por suas ações facciosas. Com o tempo, alguns deles são absolvidos e reconhecidos pelas grandes igrejas que constroem, outros nem tanto. Verdade é que somente o tempo é capaz de revelar a natureza de algumas motivaçõesHoje, ao olharmos a estrutura da igreja Assembleia de Deus, por exemplo, a gente nem imagina que ela surgiu de um ato, na época, de rebelião. Isso porque ninguém escapa de, no calor do momento, fazer uma leitura tendenciosa das coisas, numa compreensão de que a igreja é uma instituição totalmente divina e que discordar de sua tradição e doutrina, principalmente se for a nossa igreja, constitui-se mexer na menina dos olhos de Deus. Raramente se faz uma leitura dos fenômenos que acontecem na igreja, levando-se em conta os contextos histórico, social, psicológico da instituição dita sagrada.

Destarte, num primeiro momento, diante da pergunta Por que a igreja se divide?, que dá título a este texto,sou tentado a atribuir o motivo puramente às paixões humanas: vaidade, insubmissão, ingratidão e sede incontida de poder. A uma segunda pergunta: “Como a igreja se divide?”, a gente tende a particulariza a resposta, normalmente contando um caso de um “ato de rebelião” acontecido contra nossa própria denominação.  Durante algum tempo, olhei essas cisões nas igrejas (assim mesmo, no plural, porque estou falando de denominações) por meio das lentes que recebi de minha própria denominação, como sendo atos de rebelião contra a igreja divinamente instituída. Um amigo tentou me abrir os olhos mostrando alguns dos resultados benéficos dessas cisões, principalmente no sentido de democratização da religiosidade, com a quebra do monopólio da verdade e da fé por grandes denominações e o aumento das opções de estilos de liturgias e tradições  para os fiéis, além do expressivo aumento do número de pessoas alcançadas pela mensagem do evangelho difundida por novas e criativas igrejas. Outro amigo tentou me explicar a inevitabilidade desses embates e cisões religiosos por meio de uma leitura sociológica e psicológica, ou me dando uma aula sobre dinâmica de grupo, mas ainda assim me mantive fechado para a compreensão. O texto apresentado a seguir abriu-me uma compreensão diferente do fenômeno que ora tratamos. É claro que não dá conta da complexidade das cisões religiosas, como já me advertiu um leitor, mas explica muita coisa. 

O texto é de Antonio Gouvêa Mendonça e traz o título A experiência religiosa e a institucionalização da religião. Mendonça usa dois conceitos: o conceito de sagrado selvagem-  sagrado dominado e conceito de cisão, ambos concebidos por Roger Bastide, como forma de discutir 1) a possibilidade de se viver uma religiosidade à parte dos compromissos institucionais; e 2) os movimentos, as mutações e as cisões no interior das religiões instituídas. Aqui faremos uso mais expressivamente do primeiro conceito, o sagrado selvagem-sagrado dominado.


A teoria do sagrado selvagem e o sagrado dominado

Segundo o pensamento bastideano, o sagrado selvagem é a manifestação do sagrado de forma natural, bruta, sem as interferências das interpretações teológicas, sem o aprisionamento dogmático. É o encontro direto do indivíduo com Deus, sem as interferências das instituições, como no caso da experiência de Moisés no Monte Sinai, ou no fenômeno do Dia de Pentecostes. Fazendo um paralelo com a fenomenologia de Edmund Husserl, é uma experiência com a coisa em si, natural, bruta, antes do pensar e refletir que distorcem o significado original do fenômeno.

Todavia, com o tempo, a revelação direta, natural e bruta normalmente passa por um processo de institucionalização que aprisiona o sagrado e, por  meio de seu aprisionamento, o sagrado selvagem passa a ser um sagrado dominado. Segundo Bastide, este é o processo que dá origem a novas instituições religiosas. É o sagrado aprisionado pela reflexão e teologização, canalizado pela dogmatização, como um rio que não pode sair de seu leito, demandando liberação. A igreja, portanto, ou qualquer outra religião instituída, é o local de relacionamento com uma correnteza represada. A dinâmica é a seguinte: primeiramente alguém ou um grupo tem uma experiência marcante com o sagrado, de forma bruta, uma revelação de Deus. Em seguida, leva adiante esta experiência por meio da institucionalização. Porém, na medida em que o sagrado se torna frio nas instituições religiosas, novamente irrompe ou recria-se o sagrado quente, ou sagrado selvagem, que novamente volta a se institucionalizar e entrar num estado de arrefecimento até novamente passar por uma efervescência (é assim que novas igrejas aparecem no cenário).

Bastide parte de Durkheim, para quem a religião surge nos estados de efervescência social, em que o tempo do sagrado interrompe o tempo profano das atividades sociais e econômicas,  e conclui que os estados de efervescência religiosa não são duráveis, e que é a partir dessas quedas na efervescência do sagrado que a religião instituída se desenvolve como gestora da experiência do sagrado, como administradora, por meio de suas liturgias e atribuições burocráticas, a igreja instituída procura impedir novas irrupções do sagrado que confronte a ortodoxia institucional.


Três momentos da experiência religiosa, segundo Bastide

Mendonça (2004) traduz o pensamento de Bastide em três momentos da experiência religiosa:

1) a experiência fundante / hierofania: irrupção do sagrado, um fenômeno que se apresenta ao indivíduo e constitui nele uma experiência fundante e transformadora, ou mesmo mantenedora de uma forma de religião.

2) A institucionalização ou formação da religião. Acontece a teologização da experiência fundante com a fé pensada e dogmatizada. 

3) Os mecanismos de transformação e manutenção da instituição. O pêndulo vai se movimentar entre reformadores que anseiam por um retorno ao sagrado selvagem e reacionário que lutam pela manutenção da ordem institucional vigente. 

Então, de acordo com a teoria em apreço, toda religião surge de uma experiência fundante, a experiência de alguém com o sagrado de forma “selvagem”, sem a domesticação posterior da religião institucional. O exemplo mais expressivo é a experiência de Moisés na sarça ardente que já citamos acima, quando recebeu a ordem de Deus para libertar seu povo do cativeiro egípcio, o que, de alguma forma, culminaria com a fundação da religião judaica. Após a experiência fundante, acontece a institucionalização que consiste, entre outras coisas, no controle do sagrado. Entre um fator e outro, operam os movimentos de mudanças e reformas.
  
Com a institucionalização, o sagrado selvagem torna-se frio ou o sagrado dominado, o que acontece no campo da dogmatização e intelectualização do ambiente religioso. Neste campo, estão os líderes eclesiásticos cuja missão é preservar a tradição e trazer a instituição sob controle.  Neste trânsito entre o sagrado selvagem e o sagrado dominado, estão os agentes transformadores que são os místicos e profetas. Toda instituição religiosa tem seus místicos, os quais são vistos com desconfiança pelos conservadores da tradição. Os movimentos de reforma, com suas “heresias”, são expressões sociais do desejo de volta ao passado vibrante e efervescente de deuses sonhados (Mendonça, 2004).

Os místicos, profetas, inovadores, pregadores avivalistas estão num movimento constante de busca por um retorno aos primórdios que é uma maneira de definir avivamento espiritual. Seria  algo como, na teoria de Bastide, uma volta ao sagrado quente a partir da liberação do sagrado que fora domesticado na institucionalização?  Grandes movimentos que sacudiram as igrejas e geraram muitas cisões no meio delas, por exemplo, a reforma protestante e o histórico Avivamento da Rua Azusa, consistiram num clamor pelo retorno à maneira primitiva de entender e viver a fé.  

Destarte, essa movimentação dos místicos e profetas por liberar o sagrado normalmente acontece debaixo de oposição ferrenha, que, na igreja católica, acontece de forma mais amena, pois estes são pouco a pouco submetidos, mas não excluídos, porém no protestantismo são logo excluídos das igrejas. Os excluídos formam logo outras denominações e consagram seus próprios pastores. Assim, novas igrejas surgem a partir de uma experiência fundante que este ou aquele crente teve  de dentro de sua própria igreja  ( um despertamento espiritual), e essas novas igrejas vão esfriar e represar o sagrado quente até que ele irrompa novamente por meio da experiência de outros crentes. 

CONCLUSÃO

Sendo assim, as novas denominações, ou mesmo as divisões surgem dentro deste movimento constante de aprisionamento e liberação parcial do sagrado, ou dentro desta lei que rege o caminho da experiência do sagrado à instituição religiosa. E quanto mais rígida for a instituição, mais estará sujeita a estas irrupções e divisões.


BIBLIOGRAFIA

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. “A experiência religiosa e a institucionalização da religião” in: Revista de estudos avançados. 18 (52), 2004, pgs. 29-46.
REGA, Lourenço Stelio. "A oferta como geradora de demanda no mercado religioso - uma avaliação da Igreja Universal do Reino de Deus à luz da Teoria da Escolha Racional" In Revista Teológica. São Paulo, Ano 7, nº 8.2011, págs. 13-36.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O que vale a pena

Josafá R. Lima

... e, no final, você finalmente percebe que esta fagulha breve da existência só terá valido a pena se você ousou se permitir, atirar-se, perder-se nos labirintos das potencialidades ainda ignoradas, movido pelo desafio da experiência desconhecida à frente.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A estranheza do reencontro

Josafá R. Lima

Toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor, com juras eternas de lealdade, mas aí o tempo passou e, no reencontro, a relação trava, tudo parece estranho, falta assunto. É, as pessoas mudam o tempo todo, e a interação, da forma que era antes, torna-se impossível. Já dizia um filósofo que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio, nem da mesma pessoa. Eis a razão por que o reencontro não desperta mais os mesmos sentimentos, os mesmos olhares, as mesmas emoções, o mesmo acelerar de coração, o mesmo enrubescer da face. Não, não é que o outro está estranho: na verdade, já não se trata de quem foi um dia. Prazer em conhecer! Você está diante de outra pessoa.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O teimoso e o perseverante

Josafá R. Lima

É preciso discernimento para perceber que alguns meios que estamos usando para atingir certo fim atrasarão muito a chegada, ou mesmo a inviabilizarão, e então ter desprendimento e coragem para buscar outros caminhos mais viáveis que levarão ao mesmo lugar, desde que sejam legítimos”. Foi a partir desta ideia que um amigo me contou, recentemente, a diferença entre o teimoso e o perseverante. Ele sentou-se comigo e mandou preparar um suco natural de laranja propício àquela tarde quente e, enquanto sugávamos o líquido fresco, ele dizia que tanto o teimoso quanto o perseverante tem um alvo, ou seja, um lugar determinado para chegar, mas a grande diferença é que o perseverante considera as várias possibilidades para atingir seu objetivo, podendo transitar entre uma e outra, dependendo do grau de dificuldade encontrado, enquanto o teimoso não consegue enxergar mais que uma possibilidade. Achei muito interessante e fui para casa pensando sobre o assunto.

Mais tarde, ensinando aos crentes de minha igreja, fiz referência às palavras do pastor Marcelo Barbosa para falar sobre o vasto campo de possibilidades que a vida proporciona. Neste vasto universo de possibilidades, muitos são os trajetos que podem conduzir ao mesmo alvo, e a gente só precisa ter maleabilidade para buscar as alternativas mais adequadas sempre que percebermos que o meio por que estamos buscando algo atingiu um grau tão alto de dificuldades que não mais vale a pena persistir nele. Acrescentei que para o perseverante, o trajeto e o alvo são complementares, porém diferentes; para o teimoso, todavia, uma coisa é parte integrante da outra. Por isso que há momentos em que o primeiro muda a rota, apesar de persistir no mesmo alvo, pois sabe que mudança de rota não significa necessariamente mudança de objetivo, enquanto que o segundo não vê a possibilidade de mudar uma coisa sem alterar a outra.

Quantas pessoas, acalentando um sonho, palmilham há anos o mesmo caminho, vendo suas chances se limitarem cada vez mais, porém teimam em andar por uma estrada íngreme, desconsiderando todos os outros trajetos que lhe poderão conduzir ao mesmo lugar. São escravos de velhos hábitos e de antigos padrões. Já dizia o poeta: “Morre lentamente quem se torna escravo dos hábitos, repetindo todos os dias o mesmo percurso”. Não significa mudar todo momento a direção ou buscar atalhos aparentemente fáceis, mas ter uma visão aguçada para perceber quando não dá mais para insistir numa direção e precisamos pegar um desvio na estrada. As ferramentas se desgastam pelo uso, e o apego a ferramentas gastas torna-se um grande desperdício de energia.

O apóstolo João, no capítulo cinco de seu evangelho, registra a história de um paralítico que, há 38 anos, esperava um milagre á beira de um tanque chamado Betesda (casa de misericórdia). Havia na região uma história segundo a qual um anjo descia em certo tempo e agitava aquelas águas, e a primeira pessoa que mergulhasse no tanque, após a agitação das águas, seria curada de qualquer enfermidade. Não sabemos com que frequência o anjo descia, ou se descia de fato, o que temos de concreto é que aquele paralítico nunca conseguiu a graça de ser o primeiro a entrar nas águas agitadas pelo anjo, porque sempre que ele tentava, descia alguém antes dele. Suas chances diminuíam com a idade, sua tristeza não tinha fim, seu tempo de espera era indefinido e o resultado incerto. 

O paralítico de Betesda concentrou toda sua vida na expectativa da cura por meio do fenômeno do tanque. Ele estabeleceu um fluxo rigoroso em que a felicidade passava pela cura, e a cura passava terminantemente pelas águas de Betesda. Era uma pessoa extremamente centrada naquela única possibilidade, a ponto de se tornar distraída em relação a toda a vida que se passava ao redor. Convém ressaltar que uma pessoa distraída não é alguém sem objetivo ou disperso, trata-se de uma pessoa extremamente focada em um objetivo, a ponto de todo o resto desaparecer do campo de visão. É assim que um aluno em dias de provas e o estudante que vai prestar o concurso público esquecem até a senha do banco que usa há anos, ou a noiva que, com a proximidade da data do casamento, esquece a panela no fogo ou o ferro de passar roupas ligado.

João conta que Jesus se aproximou daquele homem e, sabendo que estava assim há trinta e oito anos, perguntou-lhe se queria ficar curado. Mas o paralítico estava tão focado nas águas de Betesda e, por conseguinte, tamanha era sua distração ao que se passava à sua volta, que ele não conseguiu atentar para a graça majestosa no olhar daquele que lhe falava. Sua resposta é sintomática de uma alma engessada e distraída. Ele se queixou, primeiramente de que não tinha ninguém por ele e, segundo, de não conseguir entrar nas águas. Como já fizemos referência acima, ele estabeleceu um fluxo: a água é agitada – alguém o mete no tanque – ele recebe a cura. Tudo o que fugisse disso não mereceria atenção. Ele não considerava nenhum outro meio para cura, além das águas de Betesda, nem mesmo este encontro privilegiado com o Filho de Deus. Jesus o curou por misericórdia.

Muitos estão numa luta inglória, porque não conseguem separar o alvo que estão buscando do caminho em que estão trilhando, e mesmo que os obstáculos à frente tornem-se intransponíveis para os recursos que possuem, teimam em prosseguir, porque não conseguem enxergar as múltiplas vias que a vida proporciona para se chegar a um mesmo lugar, possibilidades, aliás, muito bem exploradas pelo sábio perseverante que, ao perceber que a estrada em que está não faz mais sentido, busca uma trilha, vai ampliando sua rota até atingir o alvo de sua vida.

As águas vão contornando os obstáculos até que desaguam no mar. Há muitos caminhos para o mesmo destino e, desde que sejam legítimos, podemos e devemos escolher os mais viáveis.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Deus, esta realidade infinita

Hoje, conversando com um amigo teólogo que não simpatiza com a ideia da possibilidade de uma aproximação entre a criatura e o Criador à parte da igreja, argumentei que a igreja, apesar de ser a principal agência do Reino de Deus na terra, não pode comportar a plenitude de Deus. Ela é um canal por onde Deus frui para o mundo, mas por demais estreito para comportar o borbotar de graças que sempre respinga para fora, espalhando nuances de graças sobre todo o mundo. 
Aprendi, depois de algum tempo, que Deus é uma realidade que está para além da religião, para além além da igreja, para além dos dogmas...  que Ele respeita o recorte dele que faço para dar conta de um infinito que só por meio do recorte dou conta, mas Deus está para além de tudo isso. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sobre vontade e livre arbítrio

Josafá R. Lima

O homem é livre porque tem vontade e pode, pela própria vontade, escolher entre as várias possibilidades diante de si, isso é fato. Mas o que determina a vontade do indivíduo? Por que que gosto de Português e não de Matemática? Por que gosto de café puro e não com leite? Por que sou cristão e não ateu ou agnóstico? Por que penso a realidade assim e não do jeito do outro? Por que sou demasiadamente hétero? Será que existem algumas escolhas que fazemos na vida, pelas quais somos censurados ou aplaudidos, e que não são, a bem da verdade, legítimas e livres escolhas, mas que forças misteriosas ou naturais nos forçaram a agir daquela maneira e fomos vitimizados pelo engano de achar que somos os próprios responsáveis por tecer a história de nossa vida? Tenho me debatido com essas questões ultimamente.

Se por um lado a ideia de liberdade tem a ver com a faculdade de escolher segundo a própria vontade, arcando, é claro, cada um com as consequências de suas escolhas, por outro lado, a vontade não pode ter origem no nada, ela é determinada por muitos e variados fatores que dão origem a muitas e variadas vontades. Então, se posso escolher de acordo com minha vontade, sou livre, mas se considero que minha vontade é determinada por fatores que desconheço, visto que escapam a minha vontade consciente, sou escravo. Sendo assim, a liberdade só é possível superficialmente, no nível da consciência e da nossa própria conceituação do termo, até onde vai o limite de nosso saber.

Gosto muito da mitologia grega, porque nos oferece uma resposta simples à questão que ora levanto: os deuses gostam de brincar com o destino dos homens, ou seja, os deuses gostam de inventar destino. É assim que Homero se sobressai entre outros escritores por ressaltar em sua literatura essas peripécias dos deuses, principalmente em Odisseu, personagem mitológico que, ao regressar da guerra de Troia para sua pátria, virou brinquedo das divindades enquanto navegava com seus homens. Ele teria dia e hora determinados para chegar e, portanto, tudo o que acontecesse no trajeto, inclusive suas próprias escolhas, bem como a de seus homens, seria um meio de atender aos caprichos dos habitantes do Olimpo. Confesso que tenho observado alguns acontecimentos em minha vida e na vida de pessoas próximas que causam a impressão de que estamos aqui apenas atendendo aos caprichos de divindades, e estas divindades podem ser, como já expuseram muitos pensadores, Deus, o ambiente, o bio-psiquismo, a pressão social ou todos estes fatores juntos. 

Não foram poucos os pensadores se debateram com a questão da livre arbítrio versus determinismo. Alguns questionaram seriamente o pretenso livre-arbítrio humano e atribuíram nossas ações a algum determinismo, sejam de ordem social, biopsíquico ou espiritual - alguns bem radicais, outros nem tanto. Os deterministas naturais acham sua maior expressão em Skinner, pensador que defendia que tudo o que fazemos e somos é invariavelmente determinado pelo ambiente. Skinner defende exaltadamente sua ideia determinista no texto o O Mito da Liberdade. Para ele, nossos desejos, vontades, escolhas e comportamentos são apenas respostas do organismo animal aos estímulos do ambiente físico e social, sendo que aqueles comportamentos que são reforçados tendem a ser perpetuar, gerando os hábitos e a forma como indivíduos e sociedade se configuram. 

Outro grupo de pensadores bem expressivos, porém não tão radicais como Skinner, inclui a figura de Sigmund Freud. O pai da psicanálise atribuía todo o comportamento humano a uma junção de forças inconscientes do aparelho psíquico e eventos fortuitos que, como a própria palavra sugere, fogem totalmente ao controle da vontade e decisões humanas. Para Freud, nós não somos tão senhores de nossa casa assim como pensamos.

Como bom cristão que tento ser, tendo a desenvolver mecanismos de defesa para fazer frente a estes questionadores da liberdade humana e também para preservar a ideia cristã de livre arbítrio e consequente responsabilidade diante de Deus e dos homens pelas escolhas que, consciente e deliberadamente, tomo na vida. Nesta ideia se sustenta todo conceito de pecado, perdão e redenção. Tais mecanismos de defesa se insurgem também contra minhas próprias incertezas e questionamentos, este fantasma da dúvida que me assalta sempre que analiso acontecimentos intrigantes em minha volta. Vejo pessoas cometerem as maiores loucuras, impulsionadas por sentimentos aparentemente indomáveis. Tentado a imaginar que fizeram aquela escolha para as suas vidas, contraponho-me a mim mesmo, rebatendo que ninguém, consciente e deliberadamente, abraçaria uma situação tão deplorável. Mas, na dúvida, prefiro continuar no meio da incerteza, a fim de me valer do benefício da dúvida diante do tribunal de minha consciência. 

Mas consola-me olhar e ver entre teólogos cristãos expressivos aqueles que também lançaram um olhar de questionamento sobre essa pretensa liberdade. Entre os maiores estão Calvino e Edwards. O primeiro concebeu a ideia de uma salvação espiritual totalmente determinista que alcança um grupo de eleitos contemplados desde a eternidade e, por outro lado, uma perdição determinista para os reprovados desde os tempos eternos. Pressupõe-se que este predeterminismo vai gerenciar todos os acontecimentos da vida das pessoas de forma a convergir de forma coerente e auto-explicativa para o destino delas. Edwards não foi tão radical quanto Calvino, mas , ao tentar conciliar livre arbítrio com soberania divina, criou um embaraço ao apregoar que o homem tem vontade e, a partir de sua vontade, faz escolhas livres, mas toda a sua vontade é causada por Deus.

Voltamos, então, às questões levantadas no início de nosso texto: Se a vontade é causada por alguma coisa que não seja a própria vontade, onde está o livre arbítrio? Bom, não tenho respostas. E as questões continuam em discussão. Somos mesmos livres? Se somos, qual o grau de nossa liberdade? Se nossa liberdade é mesmo limitada, por Deus, pelo ambiente, pelos padrões sociais ou qualquer outro fator, isso é, de fato, liberdade? 

 Um dia você acorda com uns questionamentos estranhos! Bate uma vontade de transgredir, de ser você... Tudo bem, você pode dizer NÃO para a sua vontade transgressora ou entregar-se a ela, e isso é livre arbítrio. Mas que influências determinaram a sua vontade de dizer NÃO ou SIM? Sei lá, melhor parar. Parece que Freud, Skinner, Calvino, Edwards e outros DETERMINISTAS voltam, às vezes, do além para assombrar a gente. "