domingo, 20 de março de 2011

Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (parte 1)


“Lembra-te de que Jesus Cristo, que é da descendência de Davi, ressuscitou dos mortos, segundo o meu evangelho” (2 Tm 2.8).

Jesus Cristo é a figura central de toda a teologia cristã. Segundo esta mesma teologia, Ele era plenamente Deus e plenamente homem. E assim será sempre. Será que a Bíblia Sagrada dá suporte a essa definição com material tão satisfatório a ponto de  não deixar dúvida?  Vejamos.

A igreja pós apostólica teve grande dificuldade para chegar a um entendimento comum a respeito da pessoa de Cristo, mormente no que diz respeito às suas duas naturezas (divina e humana). Decerto, era lugar comum entre os pais da recém constituída igreja que, para levar a efeito a salvação da raça humana, Jesus tinha que ser verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Mas, a partir desse entendimento comum, começaram a surgir tentativas de explicar às mentes humanas o que os cristãos queriam dizer ao confessarem que o homem Jesus comportava em sua única pessoa as naturezas divina e humana. Tais tentativas, ainda que bem intencionadas, resultaram em formulações e argumentos obscuros e inconsequentes sobre o Filho de Deus, mergulhando a igreja em um oceano de controvérsias.

1. Principais controvérsias cristológicas
1.1Apolinarismo. Apolinário, bispo de Laodicéia, ensinava que a pessoa única de Cristo possuía um corpo humano, mas não uma mente humana ou um espírito humano. Para ele, o espírito e a mente de Cristo provinham da natureza divina do Filho de Deus.

1.2 Nestorianismo. Nestório, que se tornou bispo de Constantinopla em 428 d.C., ensinava, segundo os seus acusadores, a existência de duas pessoas separadas em Cristo, uma humana e uma divina.

1.3. Eutiquismo (monofisismo). Êutico (378-454 d.C.), um velho monge de Constantinopla, apregoava a idéia de que Cristo possuía uma só natureza. Segundo ele, a natureza humana de Cristo foi tomada e absorvida pela natureza divina, de modo que ambas as naturezas foram mudadas, resultando em uma terceira natureza.

A igreja responde a essas e outras controvérsias sobre a pessoa de Cristo em Calcedônia, em um concílio eclesiástico que ficou conhecido como Concílio de Calcedônia. Ali, em 451 d.C., os líderes eclesiásticos combateram as heresias supracitadas com uma afirmação cristológica que ficou conhecida como Definição de Calcedônia. “A definição de Calcedônia é considerada o padrão da ortodoxia do ensino bíblico a respeito da pessoa de Cristo desde aquela época por todos os grandes ramos do Cristianismo: o catolicismo, o protestantismo e a ortodoxia oriental”.

Registramos aqui a Definição de Calcedônia, a fim de enriquecer e facilitar a compreensão da lição de hoje.

Fiéis aos santos pais, todos nós ensinamos unanimemente que o nosso Senhor Jesus Cristo é um só mesmo Filho, igualmente perfeito na Divindade e igualmente perfeito na humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, que consiste de alma e corpo racionais, consubstancial com o Pai na divindade e igualmente consubstancial conosco na humanidade, semelhante a nós em todas as coisas, à exceção do pecado, gerado pelo Pai antes de todos os séculos no tocante à sua divindade e assim também nesses últimos dias por nós e por nossa salvação, foi gerado pela virgem Maria (Theotokos), no que diz respeito à sua humanidade; um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, revelado em duas naturezas sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação; a diferença de natureza não pode ser eliminada de formal alguma pela união, mas as propriedades de cada natureza são preservadas e reunidas em uma só pessoa (prosopon) e uma só hipostasis, não separada ou dividida em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, Unigênito, Verbo divino, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas do passado e o próprio Jesus Cristo nos ensinaram a seu respeito e o credo dos nossos pais nos transmitiu.

2. A Encarnação do Verbo de Deus.

Que o Filho de Deus assumiu a forma humana é uma realidade que permeia toda a Bíblia Sagrada. Foi este o meio que Deus, na sua infinita sabedoria, proveu para reconciliar consigo o homem caído (2 Co 5.19). Diz-nos as Escrituras que o Verbo se fez carne (Jo 1.14), tendo sido gerado pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem (Mt 1. 20, 22), após ter-se esvaziado de sua glória (Fl 2.7).

2.1 Jesus, o Verbo de Deus. O apóstolo João, no prólogo de seu evangelho, usa o termo verbo (gr logos) para referir-se a Cristo, ao dizer: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (1.1). O apóstolo reveste o termo de um significado todo especial, muito diferente do significado comum da época, para descrever a procedência divina de Cristo.

A palavra grega logos origina-se de lego (eu falo), e pode significar, basicamente, palavra, explicação, princípio ou razão. Todavia, o uso do termo foi abundantemente empregado por teólogos e filósofos, tanto judeus como gregos, com os mais variados significados.

Entre os gregos, Logos era a lei racional que governa o universo (Heráclito); o princípio da inteligência no universo (Anaxágoras); o princípio de toda racionalidade no universo (os estóicos); Platão o chamava de nous (mente).

Entre os judeus, Logos, tradução da palavra hebraica dãbhãr, cuja raiz pode significar aquilo que está por trás, é a auto-revelação de Deus através de Moisés e dos profetas, podendo designar tanto visões isoladas e oráculos como o conteúdo total da revelação inteira, especialmente o Pentateuco. A Palavra possui um poder semelhante ao de Deus, o qual a profere (Is 55.11) e efetua a sua vontade sem qualquer resistência.

Filo, filósofo judeu, influenciado tanto pelo AT como pelo pensamento helênico, ampliou o sentido de Logos, e lhe deu um lugar central em seu esquema teológico. Filo entendeu Logos como a imagem de Deus, que era distinta de Deus e um intermediário entre Deus e o mundo.

Para João, o Logos era Deus. Enquanto os gregos consideravam o Logos um princípio racional e impessoal, João lhe atribui a qualidade de um ser pessoal, ao atribuir-lhe pronomes pessoais (ele, v 2; nele, v 4). Para os gregos, soaria um absurdo. Ainda, segundo João, indo na contracorrente do pensamento grego, o Logos se fez carne (1.14). Para os gregos, a carne era maligna (gnosticismo), ou quase maligna (platonismo). Então um Logos feito carne era loucura para os gregos (1Co 1.23,24).

Alguns têm entendido que a expressão inicial do Evangelho de João tem ligação direta com o termo dãbhãr, do AT, ou com os ensinos rabínicos concernentes à Torah, a pesar de que o conceito que os judeus tinham de dãbhãr não era o de um ser pessoal, diferenciado do Deus supremo. João, todavia, descreve o Logos como uma existência distinta e pessoal de um ser real específico.O que João nos ensina no prólogo de seu evangelho é que a Palavra possui uma unidade semelhante com Deus e uma semelhante distinção entre si mesma e Deus. De acordo com João, tanto a atividade criativa como a atividade sustentadora do universo e a atividade reveladora para com os homens se atribuem ao Logos, entendimento que só vai encontrar um paralelo nos ensinos filônicos.

É importante frisar que nesse capítulo magno de seu evangelho, o apóstolo João faz coro com muitas outras passagens que atestam a divindade de Cristo (Jo 8.58; 10.30; Fl 2. 5-7; Mt 1.23, etc.).

2.2 O esvaziamento de Cristo. O apóstolo Paulo, na carta aos filipenses, diz que Cristo, “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (2.6,7). Muitos fazem confusão sobre essa passagem, dizendo que Cristo abriu mão de sua divindade. Isso é inconcebível, pois o Verbo é essencialmente divino e nunca poderia deixar de sê-lo. Imagine o meu leitor adotando uma criança e registrando-a como seu filho. A partir de então, essa criança irá apresentar-se e viver como seu filho, mas essencialmente não pode deixar de ser filho de seu pai biológico. Ela poderá ser privada de todos os privilégios, poderes e direitos que eventualmente poderia ter, caso tivesse vivido com seus verdadeiros pais, mas a essência não muda: as características de seus verdadeiros pais estão ali, dentro dela. Assim, Jesus, pela sua própria natureza, era, é e sempre Deus. O esvaziamento significa que Ele, voluntariamente, abriu mão de sua glória (Jo 17.4), posição (Jo 5.30), riqueza (2Co 8.9), direito (Lc 22.27), uso de prerrogativas divinas (Jo 5.19; 8.28) e em tudo se fez semelhante a nós, à exceção do pecado.

No esvaziamento, Jesus tornou-se ser humano completo. A sua humanidade está indubitavelmente demonstrada 1) na sua ascendência humana (Gl 4.4; Mt1.18); 2) na sua natureza humana completa, incluindo corpo, alma e espírito (Mt 26.12,38; Lc 23.46); 3) nas suas necessidades e sentimentos humanos – ele sentiu fome, sede, tristeza profunda, dor e cansaço (Jo 4.6; 11.35; 19.28; Mt 8.24; 26.38; 21.18; Lc 22.44); 4) nas limitações de seus conhecimentos (Mc 13.32); 5); na sua morte – Ele era tão humano que morreu (Mc 15.37).

2.3  A concepção virginal do Filho de Deus. Ao tratarmos da humanidade de Jesus, não podemos deixar de considerar a maneira miraculosa de sua concepção, o que se convencionou chamar de nascimento virginal.

A Bíblia afirma claramente que Jesus foi concebido no ventre da virgem Maria por obra miraculosa do Espírito Santo. Assim registrou Mateus no capitulo primeiro de seu evangelho: “Foi assim o nascimento de Jesus: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo” (vv 24,25). Em seguida o anjo do Senhor disse a José, que estava comprometido com Maria: “ José, filho de Davi, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo” (v 20). E Mateus continua: “Ao acordar, José fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua esposa. Mas não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito, e pôs-lhe o nome de Jesus” (vv 24,25).

Muito provavelmente pelo fato de Maria ter concebido Jesus ainda virgem, e assim ter permanecido até ao dia do nascimento do menino, é que se denominou chamar nascimento virginal a circunstância miraculosa em que o Filho de Deus surgiu para o mundo. Todavia, apenas nesse caso, a gestação de Maria se diferencia do comum das gestações. Todo o restante do processo gestatório aconteceu normalmente. Maria carregou o Filho de Deus no ventre durante nove meses, precisou de cuidados especiais adequados a uma mulher grávida, sentiu os sintomas próprios de uma gravidez e, finalmente, deu à luz o Salvador do mundo, sentindo, pela primeira vez, as dores do parto.

Há muitas objeções à doutrina da concepção virginal. Muitos críticos não conseguem achar significação nesse fato bíblico. Por que razão Deus enviaria Jesus dessa maneira insólita?

Do que podemos depreender das Escrituras, Deus não faz nada sem propósito. A concepção virginal de Cristo não foi um mero fato, mas tem implicações teológicas profundas. Primeiro, foi o cumprimento de uma profecia (Is 7.14); segundo, foi o meio que Deus, na sua infinita sabedoria, proveu para a) mostrar que a salvação só pode vir do Senhor, sem nenhuma intervenção humana; b) tornar possível a união da plena divindade com a plena humanidade em uma só pessoa; c) tornar possível a verdadeira humanidade de Cristo sem o pecado original.

Gostaríamos de esgotar o assunto neste espaço, mas devido a amplidão do tema e a exiguidade do tempo, daremos sequência em outra oportunidade.

sábado, 19 de março de 2011

Olhos que veem (homenagem)



"Tenho andado com pessoas cujos olhos estão cheios de luz,entretanto nada veem. Não veem nada nos bosques, nos homens, ou no céu; nada na luta, nada nos livros, nada nos esportes, nada nas ruas. A imagem da alma delas, através deste mundo encantado é um ermo árido."


A frase acima é da educadora americana, surda e muda, Helen Keler, que você está vendo ao lado. Trata-se de uma crítica à falta de sensibilidade dos olhos de seu tempo para apreenderem a beleza na simplicidade da vida. Considero também um prenúncio da insuscetibilidade humana de nossos dias. Vivemos uma época de humanos automatizados - a robotização do ser. Os seres alienados deste século de consumo focalizam tanto as coisas que a sociedade consumista determina como importantes que inevitavelmente deixam escapar a graça do espetáculo da própria vida. A graça de contemplar um lindo pôr-de-sol, pássaros cantando ao amanhecer, o sorriso inocente de uma criança, ou as cores do arco-iris no céu. A vida humana se resumiu em um computador num quarto isolado, conectado com um mundo de quartos isolados.

Amo a poesia, principalemte as crônicas poéticas. O olhar do cronista está sobre o inusual, o imperceptível pelos olhos comuns. Ele enxerga pelas janelas da alma e mostra a vida desnuda, sem adereço, porém bela, naturalmente bela; faz um retorno às coisas mesmas e se permite estar com elas,num relacionamento cúmplice, como nesta crônica maravilhosa de FERNANDO SABINO.


A Última Crônica


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Grande FERNANDO SABINO!





quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Elias, um caso bíblico de depressão

Parte II

No capítulo 19 de 1°Reis, encontramos o exemplo bíblico mais forte de uma pessoa profundamente deprimida. Essa pessoa é nada menos do que o grande profeta Elias, o qual desabou acometido de uma depressão que podemos classificar como severa. Os sintomas manifestados no profeta indicam uma prostração total, da qual ele não poderia sair sem ajuda de outrem. Tanto é que, somente depois da interferência divina, ele consegue recobrar as forças e caminhar até o monte Horebe.

Carrenho (2007) diagnostica os sintomas do profeta Elias como depressão após o sucesso, afirmando que diante de um desafio, o corpo passa a produzir um excesso de adrenalina para que a pessoa dê conta de executar todo o seu plano até ver o desafio cumprido. E então encerrada a tarefa, cessa a produção de adrenalina, trazendo para o corpo uma prostração e um cansaço que levam tempo para a recuperação.

I.  O GATILHO PARA A INSTAURAÇÃO DE QUADRO DEPRESSIVO


No capítulo 18 do primeiro livro dos Reis, há o registro de três vitórias espetaculares do profeta Elias. Primeiro, ele matou 450 profetas de Baal após desafiar todo o Israel a servir ao Senhor. O desafio consistia em dois sacrifícios, um para os profetas de Baal, outro para o profeta Elias. Clamando cada parte ao seu respectivo deus, o que respondesse com fogo era o verdadeiro Deus. Após exterminar os profetas falsos, Elias prediz uma grande chuva (não chovia em Israel por três anos e meio) e vai ao monte Carmelo orar pelo advento da mesma. Tendo ainda avisado a Acabe, rei de Israel, que se apressasse para não ser apanhado pelo temporal, é tomado de uma força sobrenatural, a ponto de correr diante do carro do rei até chegar em Jezreel.
 
Era só vitória na vida do profeta. Sendo assim, era natural que ele imaginasse que todo o Israel se convertesse ao seu Deus, que a oposição do rei e da rainha Jezabel fosse quebrada e que houvesse – eu imagino – até uma aceitação de sua pessoa como o verdadeiro profeta do Senhor. Saiu tudo ao contrário do que Elias imaginara. O rei Acabe relata a Jezabel tudo o que Elias havia feito aos profetas de Baal, e a rainha, simpatizante dos profetas exterminados, ameaça Elias de morte. Foi o suficiente para o profeta desabar.

II. CAUSAS DA DEPRESSÃO DE ELIAS

1. Oposição obstinada. Veja que depois de tudo o que Elias havia realizado em nome do Senhor, ainda assim o coração do rei e da rainha não se compungiu, antes continuaram em ferrenha oposição ao profeta. É desesperador quando notamos que, quanto mais laboramos para minar a resistência dos recalcitrantes, mais o coração deles se endurece. É como se o nosso trabalho tivesse um efeito contrário. Não é de admirar que encontremos nas páginas sagradas grande contingente de profetas deprimidos (1 Rs 22.22-28; Hc 1.3; Jr 20.7) , isso porque a missão deles era convencer o povo de seus erros, mas o coração obstinado do povo se opunha cada vez mais a eles.

2. Frustração. Ser frustrado é ser enganado em sua expectativa. Foi isso o que aconteceu com o profeta Elias. Esperava que o resultado de seu árduo trabalho fosse a conversão total de Israel. Quando lutamos intensamente por um objetivo e não conseguimos atingi-lo, é como se a vida perdesse a razão, e então a depressão bate à porta. Afundado na sua grande frustração, Elias perdera a vontade de viver: “toma agora minha vida, pois não sou melhor do que os meus pais” (1 Rs 19.4). Gosto de uma frase de Gilberto Amado que diz: “Ao lançar a semente, sem ver crescer a planta no solo árido, o braço do semeador se fatiga”. Não são poucas as pessoas em nosso meio que entraram em um processo profundo de depressão por não verem o reconhecimento e o bom resultado de seu trabalho.

3. Esgotamento físico e emocional. Depois de uma batalha intensa, era natural que o profeta estivesse exausto física, emocional e espiritualmente. Ele havia confrontado os profetas de Baal, passado um tempo em intensa oração, corrido à frente do carro do rei e percorrido mais de 150 quilômetros para fugir de Jezabel. Na há organismo que aguente. Note que, tão logo ele orou pedindo a morte, deitou-se debaixo de uma árvore e adormeceu profundamente.

Vale lembrar o que disse a esse respeito a psicóloga Esther Carrenho, o que já foi citado acima: “Normalmente, diante de um desafio, o corpo passa a produzir um excesso de adrenalina para que a pessoa dê conta de executar todo o seu plano até ver o desafio cumprido. Uma vez que a tarefa está encerrada, a produção de adrenalina também cessa, trazendo para o corpo uma prostração e um cansaço de tal forma que algumas pessoas demoram alguns dias para se recuperarem novamente”.

3. Medo inconsequente. O medo natural é um mecanismo de defesa da vida. No caso de Elias, todavia, tratava-se de um temor inconsequente. Ele não teve medo quando enfrentou Acabe. Não teve medo quando confrontou 850 profetas pagãos no monte Carmelo. Mas agora, inexplicavelmente, estava todo assombrado ante as ameaças de Jezabel. Seria coerente supor que um homem tão destemido como este não se intimidasse. Porém a Bíblia mostra que Elias teve medo e fugiu para escapar com vida.

III. SINTOMAS

1. Desorientação e confusão: incoerência. Quando se está nas profundezas do desespero e da derrota, perde-se o contato com a realidade. O homem que fugiu para escapar com vida ora a Deus pedindo a morte. Ora, se Elias queria realmente morrer, por que não permaneceu em Jezreel. Jezabel teria feito o serviço. Esther Carrenho observa: “Nem sempre há lógica no comportamento do deprimido. O esforço em convencê-lo pela lógica nem sempre traz resultados positivos, exatamente porque a depressão pode jogar a pessoa numa grande confusão que não faz sentido para ninguém” (Carrenho, Esther. Depressão: tem luz no fim do túnel. São Paulo: Editora Vida, 2007, p 184).

2. Desejo de morrer. Elias se recolhe sob um pé de zimbro e pede a morte. Encontramos na Bíblia Sagrada homens como Jó, Moisés e Jonas fazendo o mesmo pedido. Sem dúvida alguma, é um sintoma comum a todos os deprimidos.

3. Autodepreciação. Elias lembra os seus antepassados, os quais foram mortos pelo fato de serem profetas, e diz: “não sou melhor que eles”. Ou seja, qual o valor deles, qual o resultado de seu trabalho? Sou tão indigno e desprezível quanto eles.

4. Alteração do sono. Uma pessoa deprimida normalmente dorme de mais ou de menos. No caso de Elias, ele dormiu de mais. O profeta só consegue acordar quando alguém lhe toca trazendo-lhe alimento; mesmo assim, após comer, o profeta volta a dormir.

5. Inapetência (alteração nos hábitos alimentares). Na pessoa em estado depressivo crônico normalmente acontece alterações nos hábitos alimentares, quando tanto pode ocorrer a falta de apetite como o comer exageradamente. No caso do profeta, ele não se preocupou nem um pouco em providenciar sua alimentação, só queria dormir, e só comeu quando o anjo lhe trouxe alimento.

6. Autocomiseração. Elias passa a ter uma visão distorcida de si mesmo como alguém injustiçado e, consequentemente, como um pobre coitado. Quando, já em Horebe, o Senhor lhe pergunta: “O que fazes aqui, Elias?” Ele responde: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, o Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram tua aliança, quebraram teus altares, e mataram teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

IV. REAÇÕES NATURAIS DE UM DEPRIMIDO

1. Fugir. Fugir é a reação de alguém que se acha impotente para encarar uma situação. Não significa necessariamente a locomoção de um lugar para outro distante e desconhecido, e sim uma fuga da realidade perturbadora. No caso de Elias, ele fugiu, literalmente, por não se achar capaz de confrontar Jezabel. Davi, vivenciando um quadro depressivo, externa o desejo de fugir de um problema com as seguintes palavras: “Pelo que disse: Ah! Quem me dera asas com de pomba! Voaria, e estaria em descanso. Eis que fugiria para longe, e pernoitaria no deserto” (Sl 55.6,7).

2. Esconder-se. Uma pessoa deprimida normalmente quer ficar sozinha, isolar-se, cortar relacionamentos e comunhão; aliás, não há nada mais difícil para uma pessoa deprimida do que conseguir relacionar-se bem com as pessoas. Temos lidado com alguns irmãos e amigos que evitam encontros nas ruas, mudando de caminho, não atendem o telefone e diminuem drasticamente a frequência nos lugares aonde normalmente iam. Foi assim com Elias. Logo após a ameaça de Jezabel, ele deixou a companhia de seu moço e procurou um lugar ermo para se esconder. Se você conhece alguém que está se comportando assim, compreenda que essa pessoa nunca precisou tanto de sua ajuda. Há um lugar espiritual mais seguro do que qualquer recanto deste mundo: “Porque no dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão, no oculto do seu tabernáculo me esconderá, pôr-me-á sobre uma rocha” (Sl 27.5). Veja essa outra pérola: “Tu és o lugar em que me escondo/ Tu me preservas da angústia/ Tu me cinges de alegres cantos de livramento” (Sl 32.7).

3. Desistir. O desejo de morrer é o extremo da desistência. São muitas as pessoas que, diante da imaturidade emocional ou de autoconceito diminuído, apresentam uma apatia pela vida. Quando uma pessoa diz “eu quero morrer”, ela está dizendo que desiste de tudo, pois nada mais faz sentido. Foi o que aconteceu com Elias no deserto, quando disse: “Já basta, ó Senhor: toma agora a minha vida...” (1 Rs 19.4).

V.  A CURA PELA INTERVENÇÃO DIVINA

Deus curou Elias contemplando e suprindo a sua necessidade bio-psico-social-espiritual. Primeiro compreendeu que Elias precisava dormir muito (19.5), pois estava exausto. Em seguida, providenciou que o seu profeta se alimentasse (19.6), o que Elias fez para logo em seguida voltar a dormir. 

          Depois  que o profeta se alimentou bem e dormiu o tudo que precisava para repor as energias , o Senhor proveu suprimentos miraculosos para o copro do profeta. Note que a segunda comida que o anjo trouxe não era igual a primeira. Da segunda porção diz-se que "com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites.

        Após o suprimento da alimentação e do sono e de energético, Deus tomou providência para para mudar Elias de um ambiente estressante para um lugar saudável, pois o mesmo foi conduzido até Horebe (19.8), monte de Deus. Em Horebe, tem-se início uma fase realmente psicoterapêutica. A presença confortante de Deus e sua intervenção terapêutica propiciam a Elias recursos para sair da depressão.

       Depois de tudo, Deus põe seus ouvidos a disposição de Elias - um espaço para a fala. O que fazes aqui, Elias? – perguntou o Senhor. Pronto. O profeta desaguou seu coração de todas as suas queixas. Falar sobre o que sente é a essência da terapia. Quase sempre a cura começa pela escuta e acolhimento do outro.

     Após o desabafo, deu-se a intervenção divina, reorientando os pensamentos disfuncionais e reeditando as falsas crenças. O desabafo de Elias propiciou que Deus o trouxesse de volta ao mundo real, curando sua visão distorcida e superdimensionada da realidade enfrentada por ele, primeiramente mostrando que ele não estava sozinho, que havia sete mil fiéis arrostando perigos parecidos. Segundo, clarificou que seu ministério não tinha acabado. É isso.



BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, Makilim Nunes. Suicídio e Depressão: Atualizações. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 2004.
JAMISON, Kay R. Quando a noite cai: entendendo a depressão e o suicídio. Rio de Janeiro: Gryphus, 2010.  
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.
----------. Religião, psicopatologia e saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Enciclopédia de medicina e sexo/ Editora Maltese.
STONE, Howard W. Depressão e esperança. São Paulo: Paulus, 2010.
▪CARRENHO, Ester. Depressão: tem luz no fim do túnel. São Paulo: Vida, 2007.
▪KEMP, Judith. Depressão e graça. São Paulo: Vida, 2001.
▪YOUSSEF, Michael. Se Deus está no controle, por que minha vida está desse jeito? São Paulo: Vida, 2003.
▪Revista ÉPOCA/ nº 259/ maio de 2003
▪Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Depressão e luz no fundo do túnel

                                                                 

"A depressão paralisa todas as forças vitais que nos fazem humanos, deixando em troca um estado árido, desesperante e entorpecido. E uma condição estéril, fatigante e agitada, sem esperança ou capacidade; um mundo que é [...] abafado e sem saídas.  Todos os apoios estão perdidos; todas as coisas são sóbrias e vazias de sentimento. ." Kay Redfield
O horror da depressão profunda e a desesperança que costuma acompanhá-la são difíceis de ser imaginados por aqueles que nunca vivenciaram. Idem

“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença” (Sl 42.5).

 
ESTATÍSTICAS ALARMANTES

Lembro-me de ter lido uma matéria da revista ÉPOCA informando que a época em que estamos vivendo é considerada "a era da melancolia", dado o número cada vez maior de pessoas deprimidas. A interação de vários fatores sociais, psicológicos e biológicos, como guerras, epidemias, desemprego, drogas, divórcio, violência generalizada, incerteza, estresse e doenças físicas, tem sido determinante para que a depressão seja considerada um caso de saúde pública e o mal do século 21.

Em seu livro “Depressão: tem luz no fim do túnel”, a psicóloga Esther Carrenho cita um artigo da associação médica americana que sugere que o homem hodierno tem sofrido mais com o resultado da depressão do que de qualquer outra doença que já tenha afetado a humanidade. Tamanha é a gravidade do problema que, segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão é hoje a quarta maior causa de incapacitação ao trabalho e ficará na segunda posição  até 2020. De acordo com Baptista (2004), de todas as pessoas que são afastadas de seus compromissos profissionais/educacionais, 12% o são em razão de diagnóstico de depressão, o que provoca grandes prejuízos econômicos às sociedades.

As estatísticas são atualizadas continuamente e trazem números cada vez mais alarmantes. Estudo realizado pela OMS recentemente (2012) por conta do Dia mundial da Saúde Mental, deu conta de que mais de 350 milhões de pessoas no mundo sofrem atualmente de desordem depressiva e que mais de 5% da população mundial foram afetados por esse mal em 2011. Em 2030, informa ainda a OMS, a depressão será o maior problema de saúde do planeta, chegando a superar os problemas de câncer e de outras doenças infecciosas. Aproxima-se de um milhão o número de pessoas que se suicidam anualmente por causa de transtornos depressivos , o que equivale a 50% do casos de suicídios. 

Todavia, apesar de a depressão ser considerada o mal de nosso tempo, há indícios de que homens de todos os tempos tenham  sido acometidos por esta patologia. Na Bíblia, por exemplo, vemos homens como Davi, Jó, Moisés e Elias vivenciando sintomas  indicadores de um quadro depressivo. E tantos poetas, artistas e filósofos no decorrer da história deixaram impregnada nas suas obras a expressão de corações profundamente deprimidos, muitos dos quais chegaram ao extremo de darem cabo da própria vida. 

Alguns dos grandes obstáculos ao combate da depressão  são os seguintes: a ignorância acerca do assunto, pois a maioria das pessoas não veem como uma doença, pensando se tratar de mera tristeza, falta de coragem e falta de fé, isso agravado pelos tabus de uma sociedade moderna que exalta um triunfalismo tal que parece não ter lugar para pessoas emocional e mentalmente doentes / falta de oportunidades, pois o acesso da pessoa comum a tratamentos psicológicos e psiquiátricos ainda é muito precário em países como o Brasil / e em grande parte dos caos, rejeição ou recusa do próprio indivíduo enfermo. 

Por conta destes obstáculos, muitas pessoas que poderiam ter uma qualidade de vida bem melhor passam a vida toda amargando um sofrimento mental-emocional e física por falta de tratamento, o que acarreta prejuízos incalculáveis, no trabalho, na família e nos relacionamentos em geral. 

Mas afinal de conta, o que é este mal que tem vitimado pessoas de todos os tempos e se exacerbado em nossos dias? Quais as suas causas e sintomas? Como podemos vencê-lo ou ajudar suas vítimas? São essas as questões que propomos abordar no trabalho que segue.


O QUE É DEPRESSÃO

Recorro a Baptista (2004) para esclarecer que a depressão tem sido discutida por várias teorias no decorrer da história, desde a ideia da Bile negra, um fluído básico do corpo que, emitido em excesso, causaria depressão, passando também pela ideia de possessão demoníaca até chegar no desenvolvimento das explicações atuais segundo as quais a depressão tem a ver com desordem em alguns neurotransmissores responsáveis pelo estado de humor, sendo os principais a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. 

É consenso entre os especialistas em saúde mental, entre eles o doutor Marco André Mezzasalma, que a depressão é uma doença que afeta o indivíduo como um todo, altera desde o sono e o apetite, passando pela disposição física, e terminando nas alterações psicológicas como diminuição da auto-estima e da autoconfiança, conferindo um tom cinzento e pessimista a tudo o que a pessoa percebe, sente e faz. Ela pode durar de semanas a anos, e pode aparecer simultaneamente a outras doenças ou pode ser desencadeada por situações estressantes, ou até mesmo pode aparecer do nada, sem motivo aparente.

É claro que a definição acima, ainda que consensual entre os especialistas do assunto, mostra-se superficial quando comparada aos horrores, desespero e desesperança que caracterizam o sofrimento que somente uma pessoa que já viveu uma crise depressiva tem ideias claras do que seja . A distinta psicóloga Kay Redfield, que tem um profundo histórico de doença maníaco-depressiva, refere-se aos sintomas da depressão como horror privado, resistente a qualquer esclarecimento e definição forçados. Na sua compreensão, um especialista pode detectar os sintomas e medicar o paciente, mas nunca ter clara noção das agonias que a pessoa sente. Kay Redfield esforça-se por dar uma definição mais prática e sintomática de depressão a partir da descrição de suas próprias agonias:

“Nas suas formas graves, a depressão paralisa todas as forças vitais que nos fazem humanos, deixando em troca um estado árido, desesperante e entorpecido. E uma condição estéril, fatigante e agitada, sem esperança ou capacidade; um mundo que é [...] abafado e sem saídas. A vida é exangue, sem pulso e ainda assim, capaz de permitir horror e dores sufocantes. Todos os apoios estão perdidos; todas as coisas são sóbrias e vazias de sentimento. A derrapagem para a futilidade é de início gradual, depois completa. O raciocínio, tão profundamente, afetado pela depressão quanto o ânimo, é mórbido, confuso e entorpecedor. É também vacilante, ruminativo, indeciso e autopunitivo. O Corpo tem ossos fracos; não há vontade; não merece um esforço e nada afinal parece valer a pena. O sono é fragmentado, esquivo e consumidor. Como um gás instável, uma exaustão irritável penetra em cada fenda de pensamento e ação.”
 
Ou seja, a depressão, na sua forma mais grave, é o ápice do desespero que não permite a mínima fagulha de esperança. "Todos os apoios estão perdidos", e na percepção do deprimido, a vida se resume aos males do presente que se acumularão aos males do futuro, como nas palavras do poeta Bocage : Curto mil males, e entre sombras noto/ Outros com que me espera ao longe o fado. Por isso que a ideia de suicídio se apresenta ao deprimido como a única possibilidade de alívio.

Bom, do que já lemos até aqui, podemos constatar que depressão não é uma simples tristeza, como alguns imaginam. A tristeza é apenas um dos sintomas que a depressão possui. O problema é que, devido a saturação da palavra depressão e de outras correlatas, hoje as pessoas não dizem mais que estão tristes, mas que estão deprimidas; não dizem mais que têm medo, mas que estão com fobia; não dizem que estão cansadas, mas estressadas”. A palavra tristeza vai pouco a pouco caindo em desuso. Por isso, faz-se importante reconhecer os sintomas que, invariavelmente, caracterizam um quadro depressivo para não confundirmos depressão com uma simples tristeza. Vale salientar também o fato de que não existe um quadro único para todas as pessoas deprimidas, mas existe uma variação tão grande de quadros quanto o número de pessoas afetadas.


SINTOMAS

Os sintomas da depressão são muitos e variados. Vão desde sensação persistente de tristeza, passando por padrões de pensamentos pessimistas e alterações nas sensações corporais, até sintomas psicóticos como delírio e alucinações. A presença no indivíduo de qualquer um do sintomas listados abaixo não significa necessariamente um caso de depressão,  mas a persistência da maioria deles por mais de duas semanas é forte indicador da instauração de um quadro depressivo e sinaliza a necessidade de se buscar ajuda.

1. Sintomas afetivos

►Autodesvalorização, sentimento de inutilidade.
►Perda do interesse ou prazer em atividades anteriormente prazerosas.
►Tristeza persistente, choro fácil e/ou frequente.
►Apatia (indiferença afetiva - tanto faz como tanto fez).
►Sentimento de tédio, aborrecimento crônico.
►Desejo de morrer, idéias suicidas.
►Inquietação, irritabilidade.
►Desânimo, sentimento de desespero, desesperança.

2. Sintomas somáticos

►Distúrbio no sono:  insônia, despertar matinal precoce com sonolência excessiva.
►Distúrbio nos hábitos alimentares: perda ou aumento do apetite como consequente emagrecimento ou ganho de peso.
►Cansaço, fadiga excessiva, sensação de corpo pesado.
►Dores físicas persistentes que não respondem a tratamentos (Ex. dores de cabeça, distúrbios digestivos).
►Diminuição do desejo sexual, bem como da resposta sexual (disfunção erétil, orgasmo retardado, etc.).

3. Sintomas psicomotores

►Letargia; ou
►Agitação.

4. Sintomas psicológicos

►Autocomiseração, baixa auto-estima.
►Espírito crítico excessivo, pessimismo.
►Dificuldade para concentrar-se.
►Indecisão, insegurança.
►Desinteresse, apatia.
►Sensação de vazio.
►Ideia de arrependimento com sentimento de culpa exagerado.

Nos casos de gravidade extrema, há ocorrências de sintomas psicóticos: delírio de ruína ou culpa (podem ocorrer auto-punições); delírio hipocondríaco (mania de doença) ou de perseguição; alucinações visuais e auditivas com conteúdo depreciativo (por exemplo, ouvir vozes e ver vultos).


CAUSAS

Considerado um transtorno de ordem multifatorial, são muitas as variáveis responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento da depressão. Mas nem todos os fatores desencadeante são bem definidos. Muitos permanecem desconhecidos. Mas sabemos que há fatores biológicos, genéticos e neuroquímicos, fatores de peso na síndrome depressiva, e causas ambientais, psicológicas, emocionais dentre muitas outras.  Ester Carrenho joga ênfase sobre a predisposição genética e as alterações de funções cerebrais. No tocante à causa genética, ela observa: “A causa genética está relacionada à hereditariedade, embora a maioria dos estudiosos pareça deter-se mais nas outras causas de depressão, porque ainda se discute se filhos de pais depressivos serão também depressivos simplesmente porque herdaram um gene depressivo ou porque aprenderam a ser depressivos em função do ambiente em que foram criados”.

A predisposição psíquica do indivíduo também pode favorecer o desenvolvimento do estado depressivo: padrões de pensamento negativo, culpas, mágoa, ressentimento, desejos e necessidades intensamente reprimidos, excesso de introversão, dependência e outros.

O estresse também é apontado como causa de depressão. Muitas pessoas, vivendo em uma cidade grande como São Paulo, têm se submetido às mais intensas e desgastantes atividades, de sorte que não param para ouvir o sinal de alerta do corpo, informando que os limites estão sendo ultrapassados. A necessidade de sobrevivência e mesmo as necessidades emocionais levam os indivíduos a viverem em situações em que o organismo é submetido a ambientes inadequados à vida. Por isso alguns entram em exaustão e daí vários distúrbios podem ocorrer, físicos , emocionais ou psíquicos.

Acrescente-se ainda que a maneira insalubre como a nossa sociedade se configura, favorecendo uma concorrência acirrada entre os indivíduos por espaço em detrimento do espírito cooperativo, a forma individualista de ser em detrimento do coletivo, a falta de absolutos moriais e éticos que lança as pessoas num espiral de incertezas, a abertura para uma infinitude de possibilidades que insta o indivíduo a ter que fazer suas próprias escolhas e ser o responsável pelos resultados, tudo isso coopera para um ambiente adoecedor. Makilim Baptista adverte sobre a implosão de valores essenciais como a amizade e respeito que têm sido deixados de lado por um sociedade coisificada, obcecada pelo ideal de negócios, consumo e mercado, uma sociedade adoeciada em seus princípios.
Em um mundo em que tudo pode ser comprado, negociado ou barganhado, parece que as pessoas perderam a noção de alguns fenômenos que são incomensuráveis, como o amor, o carinho, a amizade e o respeito, que podem ser considerados como componentes fundamentais da saúde mental. Talvez devêssemos pensar que uma sociedade doente nos seus princípios acaba favorecendo a seus integrantes uma falsa ideia de sanidade mental. *
Há ainda outros desencadeantes, como opressão social, solidão, oposição, frustração, medo e angústia. Outras causas são secundárias, dentre elas, algumas enfermidades clínicas como câncer, esclerose múltipla, doença de Alzheimer, disfunção da tiroide, diabetes e artrite que, associadas ao uso de determinados medicamentos podem ser apontadas como fatores desencadeadores.


COMO AJUDAR UMA PESSOA DEPRIMIDA

Como educadores cristãos, algumas vezes somos procurados por pessoas, principalmente membros da igreja, profundamente deprimidas, e demonstramos impaciência para ouvir a pessoa; por outro lado, nos apressamos em prescrever alguns versículos bíblicos, lançamos algumas palavras otimistas, frases de efeito, e pensamos que já cumprimos a nossa parte. Não deveria ser assim. A ajuda às pessoas deprimidas é um trabalho que exige paciência, compreensão, acolhimento e acompanhamento que deve ser feito em equipe. Um conselheiro atento primeiramente ouve com atenção as queixas de seu "paciente", ora com a pessoa e pela pessoa, demonstrando interesse pela vida dela, e então, em parceria com a mesma, busca as possíveis saídas. Dependendo da gravidade do caso, é extremamente importante analisar se há alguma causa fisiológica ou alterações de funções cerebrais que poderiam desencadear a síndrome depressiva, e isso só pode ser feito orientando-a a procurar um médico especializado. Este procedimento também ajudará a verificar se a depressão não está interferindo na saúde física do indivíduo. É sabido que algumas doenças físicas e determinados medicamentos podem desencadear um quadro depressivo. Somente o médico pode, através de exames clínicos e físicos, verificar o equilíbrio hormonal e químico do paciente. Não esqueça, o processo de cura começa com bons ouvidos, passando por empatia, aceitação, acolhimento e, em último caso, medicação.


COMO VENCER A DEPRESSÃO

Não temos a pretensão de prescrever uma receita pronta para curar o mal da depressão, isso seria ignorar a singularidade de cada caso, bem como a variação de gravidades dos quadros depressivos. Aliás, o que de pior se pode fazer para uma pessoa deprimida é simplificar a situação dela, fazendo generalizações e apresentando saídas mágicas. O que orientamos a seguir são passos importantes que servem para evitar o agravamento da doença e possibilitar a restauração paulatina da saúde.

1. Não se isole, compartilhe sua dor com pessoas de sua confiança. Uma pessoa deprimida normalmente quer ficar sozinha, isolar-se, cortar relacionamentos e comunhão. Aliás, não há nada mais difícil para uma pessoa deprimida do que conseguir relacionar-se pessoalmente. Temos lidado com alguns irmãos e amigos que evitam encontros nas ruas, mudando de caminho, não atendem o telefone e diminuem drasticamente a frequência nos lugares aonde normalmente vão. Todavia, isolar-se é a decisão mais desacertada que alguém pode tomar quando está deprimido, pois este é o momento quando mais se precisa de companhia.

Não é surpresa a constatação de uma pesquisa sobre suicídio que mostrou um índice maior de tentativa de suicídio na zona rural do que na zona urbana, sugerindo que na vida isolada do campo, além da pequena probabilidade de suporte social e cuidado com a saúde mental, o isolamento social pode ser um fator de grande risco para o agravamento da doença mental e consequentemente para o suicídio (Grandin et al. (2001).

O ser humano é um ser gregário e, portanto, isolado torna-se vulnerável aos perigos das próprias imaginações e fantasmas, uma vez que a solidão joga o foco do indivíduo para dentro de si mesmo. Foi Rubem Alves quem disse que, no silêncio, quando os bichos de fora silenciam, os bichos de dentro começam a uivar. É assim que acontece com a pessoa que fecha a porta para o mundo, imediatamente ela começa a ser confrontada com seus próprios fantasmas, os quais são sempre agigantados pela visão distorcida de mundo sintomática da depressão. É necessário que alguém com uma visão de fora pacientemente aclare a realidade e oriente sobre procedimentos a serem tomados, como procurar ajuda profissional por exemplo.

O caso do profeta Elias é bem emblemático. No momento em que mais precisava de companhia, ele escolheu ficar sozinho. É isso o que muitos têm feito. Como observa o pastor Michael Yosef, um dos propósitos de se estar ativo na igreja é a comunhão mútua, encorajamento e confirmação da Palavra de Deus. Somos membros de um corpo, feitos para trabalhar juntos. Precisamos uns dos outros. Portanto, se você está tentando se virar sozinho no meio dessas densas trevas, pare agora. Jesus não foi sozinho ao Monte das Oliveiras na noite de sua agonia. Ele levou consigo Pedro, Tiago e João. O Mestre contava tanto com eles que se incomodou ao encontrá-los dormindo (Mt 26.36-46). O apóstolo Paulo era um homem que não dispensava o auxílio de bons amigos com quem compartilhava as suas aflições e tribulações (2 Co 2.13; 7.6; Cl 4.7-14). O exercício da verdadeira amizade é uma terapia eficientíssima. Às vezes bastam dois ouvidos dispostos para levantar o deprimido.

2. Procure ajuda profissional especializada

"Quando a tristeza toma conta de tudo e a vida se torna um fardo insuportável, procure ajuda psiquiátrica para saber se há necessidade de psicoterapia e medicamentos (...). Não deixe para mais tarde. Não descuide de sua saúde mental."[1] Dr. Dráuzio Varella.

Todo processo de cura começa com o reconhecimento da doença, que mobiliza à procura de auxílio especializado.  Saiba que depressão é uma doença e seu tratamento exige um trabalho em equipe multiprofissional. Um paciente testemunhou: “Eu mesmo já sofri terrivelmente deste mal e me curei quando entendi que estava doente e que precisava urgentemente de cuidados de profissionais especializados. Compreendi que não era frescura, moleza, uma simples tristeza ou mesmo as consequências passageiras de alguma perda ou frustração, como alguns imaginavam. Também percebi que a oração do pastor, o apoio da família e a conversa com bons amigos, apesar de muito importantes, não bastavam para dar conta de meu tormento. Era mesmo uma doença como qualquer outra, e como tal, exigia cuidados médicos”.

É verdade que vivemos num mundo gerador de angústia e desespero, e o angustiar-se diante das intempéries da existência é prova de que estamos vivos e sentimos a vida, mas também é verdade que carregamos em nossas entranhas a capacidade de superação, resiliência, que mobiliza ao prosseguimento com a própria vida. Portanto se as angústias tomarem proporções tão profundas e duradoras a ponto de inviabilizar a própria vida, procure ajuda de um psiquiatra e/ou psicólogo urgentemente.

3. A importância da espiritualidade Talvez você não seja cristão, não vai à igreja, mas pode ser que você acredite em alguma realidade transcendental, num poder sobre-humano. E mesmo que você seja ateu, com meu sincero respeito, o que importa agora, não é? Nas trincheiras, a fé é uma necessidade vital. Como disse alguém, não existem ateus nas trincheiras. Coloque sua descrença à prova e desafie este "suposto" Deus a revelar-se a você.

3.1 Confie firmemente no caráter bondoso de Deus.  Àqueles que acreditam em Deus, quero dizer que todas as pessoas estão sujeitas a deprimir-se, cristão ou não. O apóstolo Paulo, nas várias cartas que escreveu às igrejas de sua época, fala de suas crises depressivas, principalmente na carta que escreveu aos efésios, quando estava preso. Em Co 1.8, o apóstolo diz que fora agravado de tal forma, mais do que podia suportar, ao ponto que chegou a desesperar da vida. Temos muitos outros casos como os de Moisés, Elias, Davi (Sl 22) e Asafe (Sl 73). Nós somos homens como eles, sujeitos às mesmas paixões, e hoje somos submetidos a pressões ainda maiores. Como aqueles homens fizeram no passado, é imprescindível que confiemos firmemente em Deus. Ele é poderoso para guardar a nossa mente sã. Isaías, lá do rol dos heróis da fé, manda-nos uma receita: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti, porque ele confia em ti; confiai no Senhor perpetuamente, porque o Senhor Deus é uma rocha eterna” (Is 26.3,4).

Entregue sua vida e o seu futuro a Deus, como José o fez. Apesar das contrariedades sofridas pelo filho de Jacó, ele não deixou de acreditar que o Senhor estava no controle de tudo e que guiaria sua nau por entre as vagas revoltas. Dependendo da gravidade do caso, a pessoa deprimida não tem condição de gerir sua própria vida, tomar decisões importantes e não sabe para onde está indo a embarcação de sua vida. Ele apenas se vê envolto em uma nuvem espessa de incertezas. Por isso, Pedro nos aconselha a que lancemos sobre Ele [Deus] toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós (1 Pe 5.7).

3.2 Recorra ao poder da oração. Eu não acredito que exista terapia mais eficaz do que a oração para trazer cura e alívio ao coração abatido. É bem verdade que se trata de prática intimamente relacionada à espiritualidade, mas tem implicações em todos os seguimentos da vida do sujeito e provoca mudanças de ordem emocional, psíquica e até física, porque um ambiente emocional saudável reflete no funcionamento do corpo. "Um coração alegre aformoseia o rosto".

Lendo a Bíblia, principalmente nos salmos, vamos encontrar homens afundados em aflições rasgando a sua alma perante o Senhor (Sl 22; 86; 88), o maior de todos os psicólogos. O maior exemplo, sem dúvida, é o de Jesus que, em indescritível agonia, clamava intensamente ao Pai, que o podia confortar (Mt 26.36-46). Atente para a promessa de Deus no Salmo 50: "E invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás" (v 15).

Um amigo, em grande aflição, perguntou-me se a oração tem o poder de mudar qualquer situação. Respondi-lhe que num sentido objetivo não, mas num sentido subjetivo sim. Ao perceber sua cara de quem não entendeu, expliquei que nem sempre é possível mudar a realidade objetiva em nossa volta, mas a oração muda o sujeito, levando-o a conferir um significado diferente à realidade. A oração, como a boa psicoterapia, altera a visão que o indivíduo tem sobre os fatos. E a mudança de visão do indivíduo sobre os fatos vai alterar a sua ação sobre a realidade. Quando a nossa leitura da situação muda, a partir de uma transformação profunda que aconteceu em nós, a realidade externa também já não é a mesma. Na vida, mazelas como preconceitos, discriminação, disparidade social, doenças, violência, injustiça, etc. serão sempre uma realidade presente. Como diz um poeta: "A gente reza, ora, chora, e continuam sempre os mesmos problemas". Mas o olhar e a disposição do indivíduo sobre toda essa realidade farão toda a diferença.  
Ore!

4. A importância das ações preventivas – hábitos saudáveis. A gente poderia acrescentar muitas outras orientações, algumas de caráter preventivo, como mudanças de hábito, cuidado com a saúde, o que consiste, entre outras coisas, numa alimentação saudável, prática de exercício físico, dormir bem e reservar tempo para laser. As cobranças e pressões da vida moderna são insuportáveis, e o organismo começa a se ressentir, alarmando que precisamos mudar. De tanto expor nossa saúde a ambientes e rotina insalubres, acabamos por adoecer. Como dizia o poeta: o sol queima se você ficar exposto por muito tempo. São orientações e mudanças que se podem obter a partir de um acompanhamento por uma equipe de saúde multidisciplinar.  




[1]   In http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/v/depressao-atinge-350-milhoes-de-pessoas-no-mundo/2411751/. Acesso em 03/07/2017.     

* Baptista, Makilim Nunes. Suicídio e Depressão: Atualizações. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 2004, p. 10. 

Veja outros textos relacionados ao assunto
A depressão do profeta Elias
Como vencer a depressão
Saiba que depressão é uma doença e tem tratamento
O que realmente importa 
Viver dói
O que não faz mais sentido
Lidando com medo

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma vida solitária

James Allan Francis

Ele nasceu em um vilarejo desconhecido, o filho de uma camponesa. Cresceu em outro vilarejo onde trabalhou em uma carpintaria até completar trinta anos. Então, durante três anos, foi um pregador itinerante. Nunca escreveu um livro. Nunca ocupou uma posição. Nunca teve uma família ou uma casa. Não freqüentou a faculdade. Nunca conheceu uma cidade grande. Não se afastou sequer trezentos quilômetros do lugar onde nasceu. Não fez nada do que normalmente acompanha o poder. Não tinha credenciais, era simplesmente ele.

Tinha apenas 33 anos quando toda a opinião pública se voltou contra ele. Seus amigos fugiram e um deles chegou a negá-lo. Foi entregue a seus inimigos e passou pelo escárnio de um julgamento. Foi crucificado entre dois ladrões.

Quando estava morrendo, seus executores disputavam por suas roupas, suas únicas propriedades neste mundo. Quando morreu, foi sepultado em um túmulo emprestado por um amigo misericordioso. Vinte séculos se passaram, e hoje ele é a figura central da raça humana.

Todos os exércitos que já marcharam, todas as frotas navais que já navegaram, todos os parlamentos que já existiram e todos os reis que já reinaram, colocados juntos, não influenciaram a vida do homem como essa vida solitária.



domingo, 19 de dezembro de 2010

"São as finanças, estúpido"

artigos | artigo cientifico
Hoje precisei entrar numa agência bancária para pagar contas. Já há algum tempo eu não fazia isso. Trata-se de uma agência da periferia de um desses bancos populares que, por distar quilômetros de distância de outras agências mais próximas, recebe todos os moradores da região. Logo na entrada, as pessoas se apinham tetando convencer a porta automática de que a sua presença não representa perigo. Para isso expõem tudo o que trazem nas bolsas, sob os olhares curiosos de outros clientes. Os guardas, impassíveis, observam com olhar perscrutador. Parece que todo mundo desconfia de todo mundo. Abro minha mochila e retiro as chaves de casa, uma caneta e o celular, o que logo convence a porta de que sou boa gente.

Enquanto espero na fila, fico olhando o movimento frenético das pessoas. Clientes se misturam com funcionários - do próprio banco ou prestadores de serviço - uns pedindo e outros fornecendo informações. Homens trajando uniformes verde-escuros, com um malote não mão, entram, assustados, como se fugindo ou acautelando-se de um mal invisível. Há os que falam no celular o tempo todo, e alguns usam fones tão diminutos para tal que mal se pode perceber que estão usando o celular, apenas os vemos falando sozinhos. Fico imaginando que há alguns anos, na cidade onde eu nasci, falar sozinho era, para as pessoas daquela localidade, um dos sintomas da loucura. Hoje este preconceito já não existe. Qualquer pessoa pode jogar palavras ao vento, ainda que em lugares propícios à loucura, frequentados por gente de estado psicológico comprometido, a primeira hipótese levantada é a de que está falando no celular. E alguns conseguem traduzir muito bem os sentimentos e reproduzir situações no tom da voz e nos gestos que apresentam enquanto conversam com o outro, distante, por meio do aparelho sem fio. Uns traduzem indignação, gritando, outros reproduzem momentos de discussões e brigas, gesticulando, contraindo a musculatura do rosto, e há também os que externam paixões e desejos sexuais reprimidos, afrouxando o tom da voz. E cada um conversa aparentemente sozinho, sem interlocutor à vista. À primeira compreensão, são monólogos, permeados por pausas, as quais, desconfia-se, são determinadas pelo momento em que o outro lado está falando. Há algum tempo, um professor de Psicopatologia pediu aos seus alunos que tirassem uma foto em qualquer lugar que passasse a ideia de loucura. Ocorreu-me que aquele era o cenário propício.

Mas todos aqui têm algo em comum: acertar sua situação financeira, pagar suas contas. Os atendentes, os atendidos, os que sacam dos caixas, os que pagam aos caixas, os vigilantes que entram com sacolas vazias e saem com as mesmas cheias de dinheiro, todos convergem para o mesmo fim: resolver a situação financeira, ou seja, pagar as contas. Lembro-me do slogan que, em 1992, viabilizou a eleição de Clintom à presidência dos Estados Unidos: “É a economia, estúpido”. É esta Economia (com “E” maiúsculo mesmo), que se promove como personificada, autônoma, onipotente, que determina o jeito de viver das pessoas. Parece que ela está numa posição transcendental, independente, enquanto que todos os mortais dependemos desesperadamente dela.

De repente uma cena absurdamente contrastante me salta aos olhos. Uma senhora de aproximadamente 65 anos começa uma conversa que me soa familiar. Volto a atenção para o que ela está dizendo, e tudo o mais que acontece vira pano de fundo. Ela está tentando evangelizar o seu colega de fila, um senhor que aparenta a mesma idade dela, enquanto uma outra senhora, impaciente, observa. A evangelizante diz, virada para o lado oposto da fila, que o único jeito de salvar a alma é aceitar Jesus como único e suficiente salvador. A fila anda, enquanto a mulher, absorta na sua mensagem, era avisada por alguém que a fila andou e ela devia acompanhar. A senhora se corrige e continua insistindo. O seu ouvinte parece já impaciente, não contra-argumenta, mas esboça inquietação. “Tem que aproveitar enquanto a porta da graça está aberta”, insiste a mulher. “Depois que o Espírito Santo sair daqui, não tem mais jeito” continua. O alvo direto daquele sermão olha para os caixas, um dos quais logo o chamará, como quem vendo neles a tábua de salvação, enquanto que a mulher se apressa, sabendo que tem pouco tempo, uma vez que logo ela também será chamada por um dos caixas. Lembro-me de tê-la ouvido pronunciar a última frase ao seu evangelizando: “a porta da graça vai se fechar”, quando o caixa número 2 acendeu a luzinha, pondo fim ao sermão e libertando o ouvinte.

Que cena desoladora, deprimente... uma mulher empreendendo toda a sua força para anunciar o maravilhoso evangelho, mensagem que não cai bem em um ambiente como este. Aliás, em que ambiente a mensagem da salvação cai bem hoje em dia? Que contraste: as pessoas tentando pagar suas contas, fazer empréstimos, resolver suas vidas aqui e agora, e alguém falando de salvação da alma e vida eterna! De que mundo era aquela admirável senhora? Em que igreja ela deve congregar? Será que não percebeu ainda que as pessoas de nossa sociedade capitalista não querem salvação para a alma? Elas querem é pagar suas contas, as contas pelos recursos e conforto do mundo moderno. E ela não percebeu ainda que até mesmo a igreja já se conscientizou disso e adaptou o discurso, empurrando a mensagem salvífica para o escanteio?

Voltando ao slogan que elegeu Clínton, fico pensando: na sociedade hodierna, não é a salvação da alma nem a esperança de vida eterna... são as finanças,estúpido (a).

Voltei para casa lembrando a pergunta milenar de Jesus: “Quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?”












quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma pérola entre as futilidades da TV brasileira


Entendo o dilema de quem costuma ficar até altas horas da noite em frente à televisão, com o controle remoto na mão, passando de emissora em emissora, a fim de encontrar alguma coisa interessante para ver antes do sono chegar. Reconheço, pela própria experiência, que achar algum programa edificante na TV aberta é uma busca difícil. Mas nem tudo está perdido. Se você faz parte desse quadro de caçadores de pérolas televisivas, indico o programa “Provocações”, apresentado na TV Cultura, por Antônio Abujamra, que vai ao ar todas as terças-feiras às 23:00h.

Criado pelo parceiro de Abujamra, Gregório Bacio, na década de 90 (na verdade, estreou em 2000), o programa tem como finalidade, nas palavras do próprio apresentador, “lembrar às pessoas que existem outros na vida”, diversos outros, espaços e cenários possíveis. É um canal aberto para o pluralismo e a liberdade de expressão, que enaltece a democracia.

O programa se divide em quatro quadros que se entremeiam durante a apresentação. Inicialmente, Abujamra entrevista o convidado, o qual pode vir das mais diversas classes sociais, para discorrer sobre os mais complexos assuntos (vida, morte, religião, política, literatura, etc.), todos a partir das lentes subjetivas do entrevistado. Aquela coisa bem fenomenológica de que o mundo que existe é um mundo diferente para cada observador. A conversa é totalmente desprovida de censura e mostra-se recheada de franqueza. Porque a lógica é provocar, levar o outro a externar os seus mais recônditos sentimentos relacionados às nuances da existência, bem como aguçar o espírito crítico do telespectador.

Ali, diante do olhar perspicaz de Abujamra, já foram provocados expressividades nacionais como Juca Kfouri, Roberto Freire, Paulo Autran, João Sayad, bem como outros personagens não muito conhecidos, ex morador de rua, médicos e escritores cujos nomes não nos daremos ao trabalho de citar por acreditarmos serem totalmente desconhecidos do leitor. Na parte final desse quadro, o apresentador pede para seu convidado olhar para uma câmera à sua frente e dizer tudo o que já desejara falar, mas que, por algum motivo, foi impedido, ou a “enforcar-se na corda da liberdade”. Foi em um desses momentos que vi Miguel Arraes externar sentimentos em relação ao Brasil até então inimagináveis para mim.

No segundo quadro, chamado “Vozes de Rua” um repórter sai pelos logradouros públicos de diversas cidades do Brasil, entrevistando pessoas das mais diversas classes sociais e estilos de vida (médicos, advogados, motoristas, domésticas, prostitutas, moradores de rua, pregadores do evangelho). Enfim, para ser abordado, basta estar no caminho do repórter. Essa diversidade de alvos e as diferentes visões de mundo que emergem das conversas traduzem perfeitamente a temática do programam: existe o outro.

No último quadro – Textos e Poesias – o apresentador recita textos de autores consagrados da literatura universal, o que enriquece imensamente o repertório cultural do telespectador. E o melhor é que muitos desses textos, que poderiam ser de difícil compreensão para um leitor iniciante, são adaptados numa linguagem bem compreensível.

Perdido em meio a tantas futilidades que a televisão brasileira tem produzido, o telespectador pode achar uma verdadeira pérola – PROVOCAÇÕES –, um programa enriquecedor e edificante, um convite ao enforcamento na corda da liberdade.