segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

TRATANDO DA ANSIEDADE


Lançando sobre ele toda a ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. 1 Pedro 5.7.

Não andeis ansiosos quanto à vossa vida. Mateus 6.25.

A ansiedade no coração deixa o homem abatido, mas uma boa palavra o alegra. Provérbios 12.25.

INTRODUÇÃO

Estamos mesmo vivendo numa Era de Ansiedade. A interação de vários fatores sociais, psicológicos e biológicos, como guerras, epidemias, desemprego, drogas, divórcio, violência generalizada, incerteza, estresse e doenças físicas, tecnologia acelerada, mudanças vertiginosas tem sido determinante para que um número cada vez maior de pessoas desenvolva quadros doentios de ansiedade e outras doenças psicológicas.

Segundo a OMS, pelo mundo 264 milhões de pessoas sofrem com transtornos de ansiedade, uma média de 3,6%. O número representa uma alta de 15% em comparação a 2005.

O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta 5,8% da população. Pesam nesse cenário, dizem especialistas, fatores socioeconômicos, como pobreza e desemprego, e ambientais, como o estilo de vida em grandes cidades. (Estadão).  No total, 18,6 milhões de brasileiros viviam com algum transtorno de ansiedade em 2015 e 11,5 milhões de pessoas, com depressão no País (Isto é).

É interessante notar que a ansiedade é um mal que tem acometido as pessoas de todos os tempos, em algumas regiões mais (acho que é o caso do Ocidente), em outras menos; em algumas épocas, mais do que em outra. A Bíblia trata da questão da ansiedade em muitas de suas páginas. No capítulo seis de Mateus, Jesus nos adverte sobre o pecado de viver em função dos bens materiais e chama a atenção para as tristes consequências da cobiça que lança as pessoas numa ansiedade sufocante. O Mestre fala sobre a inutilidade de viver dessa maneira. Vejamos a aula que o maior Mestre deu sobre o assunto.

I.                   O QUE É ANSIEDADE

Sinônimos: angústia
A ansiedade é um estado emocional de inquietude, medo e perturbação do Sistema Nervoso Central.

Perturbação psíquica caracterizada por um estado quase constante e permanente de inquietação, preocupação, angústia, intranquilidade, desassossego e medo que provoca um mal estar e uma tensão constante. A pessoa está sempre numa tensão constante e com "medo de algo" que ela não conhece nem sabe definir.

Uma pessoa ansiosa se sente intranquila, num mal estar que ela não consegue definir nem controlar. Este estado de espírito altera negativamente a vida da pessoa e leva-a a afastar-se da realidade á sua volta, acabando muitas vezes por prejudicar a sua vida e os seus relacionamentos. Mudança de emprego, de casa, casamento, etc. ou qualquer situação que implique mudança podem criar um estado de grande ansiedade e agitação na pessoa que sofre de ansiedade.

Todo mundo é ansioso em certo grau, porque ansiedade é naturalmente um mecanismo de defesa, por isso que o termo original (no gr. merimnaō), em Mt 6.25 traduzido por "cuidadoso" (ARC) e "ansioso" (ARA), significa "estar indevidamente preocupado", "ter ansiedade" ou "estar em ansiedade desnecessária". Nos versículos 25-27, Jesus apresenta a inutilidade desta emoção, mas em 28-33 ensina a confiar na graça diária de Deus para a provisão das necessidades e cura da inútil ansiedade.

A ansiedade é uma emoção normal do ser humano, comum ao se enfrentar algum problema no trabalho, antes de uma prova ou diante de decisões difíceis do dia a dia. No entanto, a ansiedade excessiva pode se tornar uma doença, ou melhor, um distúrbio de ansiedade.
II.                   CAUSAS DA ANSIEDADE

Não se sabe ao certo por que algumas pessoas são mais propensas à ansiedade descontrolada do que outras. Alguns dos fatores que podem estar envolvidos nisso são:

●Genética, ou seja, histórico familiar de transtornos de ansiedade.

●Mentalidade ou modelo de pensamento, ou seja, a forma como a pessoa estrutura seus pensamentos ou linhas de raciocínio e, consequentemente, encara as situações do dia a dia. 

●Doenças físicas: Problemas cardiovasculares, como as arritmias cardíacas,

●Doenças hormonais, como hipertireoidismo.

●Abuso de drogas, álcool ou medicações como os benzodiazepínicos.

●Sociais e ambientais: Cuidados excessivos com a vida e com o acúmulo de bens materiais; dívidas insolúveis, saúde, mudanças bruscas, imprevisibilidade, as excessivas pressões sociais de nossos dias, passar por algum evento traumático ou estressante.

●Espirituais: Fé vacilante.
A ansiedade começa onde termina a fé, e a fé termina onde começa a ansiedade.
●Emocionais: Medo, insegurança, desesperança, incerteza, cobiça.


 Perspectivas teóricas.

Segundo a perspectiva existencial, a ansiedade se origina da nossa percepção da possibilidade de que poderíamos deixar de existir e da responsabilidade por tomar decisões que trarão consequências de longa duração para nossa existência ou ser. Diz-se que as pessoas estão enfrentando uma crise existencial quando elas chegam a um ponto de virada em suas vidas e devem tomar uma decisão sobre a direção a tomar – e determinar se há sentido verdadeiro para elas em qualquer direção. Holmes, 1997.

Na perspectiva da teoria psicanalítica, a ansiedade resulta de conflitos intrapsíquicos, nesta equação: conflito – ansiedade – defesa – sintomas. Segundo Freud, os conflitos mais importantes são aqueles entre as nossas necessidades biológicas e as restrições impostas sobre as satisfações, ou seja, entre o que desejamos fazer e o que a nossa consciência nos diz que devemos.


III.                SINTOMAS DA ANSIEDADE
Sintomas psicológicos da ansiedade
  • Constante tensão ou nervosismo
  • Sensação de que algo ruim vai acontecer
  • Problemas de concentração
  • Medo constante
  • Descontrole sobre os pensamentos, principalmente dificuldade em esquecer o objeto de tensão.
  • Preocupação exagerada em comparação com a realidade
  • Problemas para dormir
  • Irritabilidade
  • Agitação dos braços e pernas.
Sintomas físicos da ansiedade
  • Dor ou aperto no peito e aumento das batidas do coração
  • Respiração ofegante ou falta de ar
  • Aumento do suor
  • Tremores nas mãos ou outras partes do corpo
  • Sensação de fraqueza ou cansaço
  • Boca seca
  • Mãos e pés frios ou suados
  • Náusea
  • Tensão muscular
  • Dor de barriga ou diarreia.
 IV. JESUS APRESENTA OITO RAZÕES PARA EVITAR A ANSIEDADE (Mt 6).
1. A vida humana é mais que a parte física e, por isso, merece mais consideração do que os desejos pelas coisas físicas podem fornecer (v.25).
A gente precisa parar para ouvir Jesus mais atentamente. Ele não nos proibiu de possuir as coisas e de lutar por elas. Mas ele disse que a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui. A vida tem um valor intrínseco. Isso, antes de ser declarado na Constituição, é declarado na Bíblia.
Gosto muito das palavras do poeta que diz: “Não importa qual a cor de um homem, como ele se veste, de onde vem, dentro de um castelo ou de um barraco, ele é alguém” (Roberto Carlos). Ou então: “Acabei com tudo, escapei com vida.” Isso dá a entender que a vida tem um valor intrínseco.  
2. Deus, que cuida de animais inferiores como as aves, que não fazem provisão alguma para si, certamente cuidará de nós (v.26).
A Bíblia registra que Deus ouve o grito do filho do corvo pedindo alimento (Jó 38.41).
3. A ansiedade não altera as condições da vida e nem aumenta a sua duração (v.27).
Parece muito com o princípio estoico da independência: O homem não pode modificar coisa alguma, mas pode controlar suas emoções e reações. Nisso reside a independência das vicissitudes da vida humana.
4. Deus que outorga vestes às flores, que nem sabem raciocinar, certamente que providenciará as necessidades de seus filhos (v.28).
5. Em relação à ansiedade pelas coisas físicas, os seguidores de Cristo devem ter uma atitude diferente da dos gentios (v.32).
6. O Pai celestial conhece perfeitamente a nossa necessidade (v.32).
7. A busca do Reino de Deus e de sua justiça, por si mesma, garante o recebimento das coisas menos importantes (v.33).
8. A ansiedade por sua própria natureza é inútil e só acrescenta maior dose de sofrimento à vida diária (v.34).

V. COMO EVITAR A ANSIEDADE

A ansiedade não terá lugar em nossas vidas quando dermos prioridade a Deus, especialmente nas seguintes situações.

1. Trazer Deus para o centro da vida.  Isso quer dizer que Ele é o Senhor de sua vida. A gente não pode servir a dois senhores (6.24).

2. Dedicar a vida a um propósito que esteja para além da vida.

Buscai, pois, em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Mateus 6.31-33.

A vida sem um propósito eterno é como a luz de uma vela, isolada, fadada a extinguir-se em si mesma, curta demais e sem significado. Nas palavras do poeta dedicadas ao seu ídolo: “Parece-me que você viveu sua vida como uma vela ao vento” (Elton John, em tributo a Marilyn Monroe). Pois bem, a falta de sentido é um forte gerador de ansiedade.

Qual o propósito da minha vida? A gente precisa fazer um recorte do que quer ser e o que vai fazer para não se perder em comparações intermináveis e angustiantes com os outros.

3. Procure ter uma postura crítica acerca das coisas em cuja busca você se deixa consumir.  

Isso está implícito na advertência “Olhai para”: os lírios do campo, as aves dos céus, dando a entender “compare”, “preste atenção”, “não se deixe enganar”.

Olhai por vós mesmos, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e aquele dia vos sobrevenha de improviso como um laço (Lc 21.34).

Li acerca de um homem que chegou à Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, e começou a olhar para cima e apontar alguma coisa. Imediatamente alguém se aproximou e perguntou o que ele estava vendo. Ao que ele responde: “Você não consegue ver, não é possível”. O outro, com vergonha de dizer que não via, começou também a olhar e apontar. Em pouco tempo, havia uma multidão olhando e apontando, o quê, ninguém sabe. Assim mesmo são as pessoas hoje em dia. Estão em busca de coisas que elas nem sabem bem o que são e qual seriam o significado dessas coisas em suas vidas. Falta postura crítica.

3.2 De que realmente você necessita?

Aprendi que, se você não consegue ser feliz com poucas coisas, não conseguirá ser feliz com muitas coisas. Pepe Mujica.

Ouvi alguns testemunhos de pessoas que passaram pela experiência horrível do câncer e sobreviveram. Invariavelmente elas dizem que o grande aprendizado que tiraram da experiência é o quanto precisam de pouco para viver. Que a vida é mais importante que todas as coisas. Jesus disse que a vida é maior que tudo isso que buscamos.

Lamentavelmente vivemos uma época em que as pessoas sofrem de um mal que Schopenhauer definiu como desejo sem posse e posse sem gozo.  Ou seja, não conseguem desfrutar o que conquistaram por causa do desejo irrefreável pelo que não possuem.

Em nossa época, o desejo tem prevalência sobre a necessidade. Segundo Mateus 6.25-32, não precisamos nos preocupar demasiadamente com nossas reais necessidades: sobre o que comeremos, beberemos ou vestiremos. Tal inquietação é infrutífera (v.27), inadequada para o crente e sinônimo de incredulidade (vv.31,32). O Senhor se apraz em suprir todas as nossas necessidades (2 Co 8.9; Ef 1.3; Fp 4.19).

Temos necessidade de qualidade de vida. A ansiedade pode ser prevenida a partir de medidas de qualidade de vida: Exercícios físicos diários; alimentação balanceada, equilibrada e de boa qualidade; cuidar da qualidade do sono; técnicas de relaxamento; religiosidade, arte-terapia-lazer.

4. Reconheça as limitações que você tem e as aceite.

Qual de vocês com todo o seu esforço conseguirá aumentar um côvado à sua altura? (v.27).

5. Ancorando o seu coração no lugar correto e seguro. Onde está o seu coração?

“Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6.21).

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
Marcos 12.30.


CONCLUSÃO

Entrega teu caminho ao Senhor, confia Nele e tudo Ele fará. Cuide-se.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Um Ente, dos mais entes soberano

Bocage

Um Ente, dos mais entes soberano,
Que abrange a Terra, os Céus, a Eternidade;
Que difunde anual fertilidade
E aplana as altas serras do oceano;
Um númen só terrível ao tirano,
Não à triste, mortal fragilidade,
Eis o Deus que consola a humanidade,
Eis o Deus da razão, o Deus de Elmano.
Um déspota de enorme fortaleza,
Pronto sempre o rigor para a ternura,
Raio sempre na mão para a fraqueza;
Um criador funesto à criatura,
Eis o Deus que horroriza a Natureza,
O Deus do fanatismo ou da impostura.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma pequena consideração sobre o bem e o mal.

Ultimante tenho me debruçado sobre alguns princípios da filosofia estoica. Acho que tenho me conduzido pela reflexão ocasionada por grandes perdas e revezes sofridos: lutas, luto,doença, perseguição, frustração etc. Gosto da compreensão estoica de mundo, apesar de nem sempre concordar com ela. 


Entre os conceitos dessa filosofia, vejo com simpatia o princípio da Apatia: qualidade do homem justo e sábio de não resistir à vontade do Logos, princípio divino que a tudo determina com justiça e perfeição absoluta. Para os estoicos, o mundo é ordenado com perfeição, de maneira que todas as coisas acabam contribuindo para um propósito final. Dessa forma, considera-se que, numa perspectiva cósmica, o mal, em absoluto, não existe. Não, não estou dizendo que concordo com qualquer determinismo na ordem do mundo e nas ações humanas, nem que não existe o mal, isso tiraria de nós a responsabilidade por nossos atos. Apenas pego carona em parte do pensamento estoico para dizer que não dá para julgar, de imediato, se qualquer coisa que acontece pode ser reputado como um grande bem ou um grande mal. 

Numa perspectiva cósmica ou mesmo eterna, que circunstâncias poderiam ser  reputadas como um bem ou um mal para nós?  A gente não sabe. Por isso os estoicos nos orientam a que procuremos não sofrer tanto com as circunstâncias. Ou seja: conservar ceta apatia em relação aos acontecimentos. A orientação está de acordo com a declaração tranquilizadora de Jesus que diz: "O que faço, vocês não intendem agora, mas entenderão depois". Aliás, as recomendações bíblicas, principalmente neotestamentárias, vão nesse sentido, às quais também tenho recorrido. Retomando as palavras de Jesus, e
sse "depois", quanto tempo leva? Não sabemos.

Lendo a história de José do Egito, o hebreu que foi cruelmente vendido como escravo pelos irmãos, por causa da predileção que Jacó, o pai, tinha por ele, uma verdade me saltou das páginas.  Vi que o amor e cuidado exagerados de Jacó por José (um suposto grande bem) podiam lhe oferecer uma túnica de várias cores e uma posição de liderança em casa. A inveja dos irmãos ( suposto grande mal) lhe conduziu ao trono do Egito. Cara, a vida é muito louca. Não estou justificando as ações malévolas de seus irmãos nem jogando no demérito o amor de seu pai, só estou dizendo para a gente sofrer menos querendo compreender essas coisas que acontecem. Temos uma tendência a julgar precipitadamente as peripécias da vida. 

Lembro-me de um paciente que me contava as peripécias da vida com muita graça e sabedoria, apesar de eu saber que havia sofrimento. Um dia, lhe propus que a vida era um livro com capítulos ruins e bons e fiz a seguinte pergunta: "Quando você está lendo o livro de sua vida, em que capítulos você costuma empacar, nos capítulos ruins ou nos bons?" Ele deu um meio sorriso e respondeu: "Josafá, ruim é café com sal, coisa que não tem nenhum proveito. Agora no tocante ao que me acontece, não tem como eu definir se é um bem ou um mal". Antes que eu pensasse, ele completou: "O capítulo final do livro ainda não foi escrito".  

terça-feira, 28 de novembro de 2017

De que serviria um mundo sem a graça do evangelho?

Às vezes fico me perguntando como os nossos pais conseguiram viver sem INTERNET e essas tecnologias modernas, da mesma forma que também me questiono como que os nossos antepassados distantes conseguiram viver em um mundo sem o EVANGELHO e a graça que ele opera. Tenho a impressão de que o mundo sem INTERNET era solitário e vazio. Um mundo sem o EVANGELHO seria horroroso.
Li no livro Maravilhosa Graça, do Piliph Yancey, sobre alguém que disse ter saído da igreja porque viu ali pouca graça, mas que voltou para a igreja porque não conseguiu achar graça em lugar nenhum. Perfeito. Somente a igreja é portadora do Evangelho da graça, missão que lhe foi outorgada por Cristo. Mas claro que não estou me referindo essencialmente a denominações, a prédios, não, refiro-me à comunidade cristã espalhada por todo o mundo, mas que ganha visibilidade nas igrejas locais. Somente a igreja tem essa mensagem de um Deus que nos amou a tal ponto de ele mesmo decidir nos salvar pelos seus próprios méritos, não havendo nada de meritório em nós. Essa graça se espalha mundo afora naquilo que alguém denominou nuanças de graça divina sobre um mundo caído, tendo a comunidade dos santos como canalizadora. 
Em certa ocasião alguém questionou: "Para que serve uma cidade se nela não há uma escola ou uma igreja?" Eu pergunto: Para que serviria um mundo sem a GRAÇA  do EVANGELHO? 

sábado, 27 de maio de 2017

Saber ilimitado ou vaidade?

Sempre vi com alguma desconfiança esses intelectuais que opinam excessivamente sobre uma infinidade de assuntos e têm respostas e opiniões assertivas para todos os fenômenos, esses cujas opiniões não têm espaço para expressões como "eu não sei" ou "tenho dúvidas" ou "não falo porque não é da minha alçada".  

Outro dia, olhando esses vídeos virais da internet, em que pessoas bem conceituadas, intelectualmente falando, opinam sobre tudo e todos. voltei a atenção para alguns professores que têm uma opinião “segura” e fechada sobre todos os assuntos acerca  dos quais são questionados, assuntos que vão desde religião até politica nacional e internacional, passando, entre uma coisa e outra, por refugiados, cracolândia, corrupção, felicidade, amor, igrejas neo-pentecostais etc.

        É impressionante o saber desses que a mídia chama de "professor". Tudo bem, não há como não se espantar com a capacidade de armazenamento de memória deles. Citam fatos e nomes históricos, recentes e distantes, fazem referências às teorias mais diversas, nos campos da filosofia, psicologia, sociologia, teologia e política como se estivessem lendo numa enciclopédia. Se você correr para o Google a fim de conferir a veracidade do que estão citando, vai encontrar tudo de acordo com o que disseram. Porém o que me causa espécie é o fato de que esses caras sabem opinar seguramente sobre tudo, o bem e o mal, com possibilidade zero de serem sequer questionados por seus interlocutores. Eles sabem se Dória acertou ou não com a invasão da cracolândia, se o presidente acertou ou não recorrendo ao exército para proteger o patrimônio público de manifestantes enraivecidos, se a decisão do juiz foi ou não acertada em relação ao réu, se Jesus era ou não o Filho de Deus, se a virgem Maria casou ou não virgem e se Maomé deixou ou não descendentes.
  
Meu Deus, é possível saber de tudo o tempo todo com tanta certeza? Ou esses caras são iluminados e estão alumiando multidões com a sua luz ou já perderam, de há muito, os limites da vaidade humana, a  ponto de não terem mais bom senso para reconhecerem que, diante de alguns assuntos, melhor recorrer a especialistas da área do que sair por aí falando sobre coisas que não conhecem só porque a massa ignara aplaude. Entre uma coisa e outra, permito-me o benefício da dúvida.

Lembrei-me do pastor Ezequiel, homem simples e sábio. Eu estava ministrando uma aula de teologia uma vez, e ele era um dos meus alunos voluntários. Confesso que me empolguei na aula. Falei de tudo que me veio à cabeça com convicção e assertividade que a segurança do momento me permitiu. Respondi todas as perguntas que os alunos fizeram e não dei margem para réplica. Senti-me senhor do saber.

No final da aula, pastor Ezequiel se aproximou com o jeito que lhe é peculiar, parabenizou-me pela aula e sussurrou-me que eu havia cometido apenas um erro na ministração. E completou que o grande erro que um professor pode cometer é achar que somente ele sabe das coisas, que toda a sua plateia é ignorante ou menos sapiente. Antes que eu digerisse isso, ele emendou: “Cuidado, tem muita gente boa te ouvindo”. Santo remédio.

Bom, é o que tenho pensado ultimamente ouvindo esses caras que têm resposta para tudo. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Questões sempre inquietantes




Gosto muito dessas tirinhas de Luís Fernando Veríssimo. Na verdade, gosto de tudo o que este autor escreve. O senso crítico e reflexivo de sua abordagem da realidade, além de muito engraçado, desperta reflexões profundas. Ler Veríssimo é uma maneira divertida de se angustiar.

As personagens da tirinha, as cobras, são personagens irreverentes que questionam tudo e fazem de tudo. Deus, o universo, as pessoas, tudo enfim são objetos e sujeitos de sua reflexão e crítica. Nas tirinhas em apreço, gosto de ver a ilustração do quanto nós, humanos, somos irremediavelmente curiosos acerca de tudo, incluindo as questões metafísicas, como a origem de todas as coisas. Desde o homem mais primitivo até o homem moderno, a inquietação e curiosidade com a origem, propósito e sentido da vida estão evidentes.  A necessidade de resposta criou os vários mitos cosmogônicos, as teorias filosóficas e científicas, tudo muito insatisfatórios para dar conta dessa curiosidade insaciável. 

O cosmos nos impressiona, paralisa, desperta questionamentos e busca por sua origem. Todavia, parece tratar-se de uma realidade que foge à compreensão por causa das limitações estruturais de nossa mente. Pensando na grande sacada de Kant acerca da teoria do conhecimento, segundo quem só conseguimos conhecer a partir de estruturas mentais que nos limitam a tempo e espaço, entendemos que a humanidade viverá pelo tempo que lhe convier com essas questões cujas respostas esbarram nas limitações e nossos recursos epistemológicos. Ademais, as tirinhas mostram que nós temos uma capacidade muito grande de abstração, de desenvolver teorias e dar respostas evasivas ao mistério insondável –  por exemplo, a resposta do personagem dizendo que a vida é este hiato de perplexidade entre dois vazios, apenas dando conta de aspectos da multiplicidade da existência, ou uma forma de poetizar a realidade inapreensível pelos meios literais, e aí acho que o mito mostra-se mais satisfatório para tal propósito. 

Noto também que, na tirinha acima, há um retorno à mesma pergunta inicial, depois da incompletude e insatisfação da resposta, ou seja, voltamos sempre a mesma questão depois das respostas insatisfatórias acerca do mistério. Por fim, vemos que questões ontológicas são coisas nossas, que nos perturbam e fascinam, pois o mundo irracional e/ ou inanimado, como as estrelas, não se importam nem se alteram com isso. Acho que foi Francis Bacon que disse que  Galileu fez muito bem em ter renunciado às suas ideias heliocêntricas para escapar com vida, afinal de contas, tivesse sido sacrificado pela Inquisição  por persistir em afirmar suas descobertas, em nada teria alterado a ordem das coisas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A ORAÇÃO DE PAULO PELOS EFÉSIOS (3.16)

Em Efésios tudo é muito superlativo, tipo... do tamanho de Deus.
“O evangelho não é simplesmente uma doutrina, nem um mero padrão de vida; o evangelho proporciona riquezas em medida incalculável.” Davidson, 1997: 1258.

I. VISÃO PANORÂMICA DE EFÉSIOS

1. A cidade de Éfeso: Uma das maiores cidades do império romano, capital da província da Ásia Menor. Cidade próspera por ser portuária e está na rota comercial do império romano, considerada o banco da Ásia. Entre as suas construções estava o templo da deusa Diana ou Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo. A prostituição era prática comum nos rituais dos cultos. Havia em Éfeso uma rica biblioteca e um teatro com lugar para 25 mil pessoas assentadas. Era, portanto, uma cidade singular no mundo antigo.

2. A igreja de Éfeso: Fundada por Paulo por ocasião de sua primeira visita, na sua segunda viagem missionária (At 18.19; 19.1). Paulo ficou lá por dois anos, e aquela igreja tornou-se em centro missionário para o apóstolo (At 19.10). Paulo deixou Éfeso após sua pregação prejudicar o comércio das imagens de Diana (At 19) e consequente perseguição. Timóteo, Apolo, Áquila e Priscila trabalharam naquela igreja (At 18.18). Diz-se que o apóstolo João também exerceu ministério naquela igreja.

3. A epístola aos Efésios: Escrita no período em que Paulo estava preso em Roma (At 28.16, 31; Ef 4.1; 6.20). É um dos picos elevados da revelação bíblica, ocupa lugar único entre as epístolas de Paulo.

II. RIQUEZAS E BÊNÇÃOS NA CARTA AOS EFÉSIOS

1. Riquezas em Cristo. O conteúdo dessa epístola ressalta a profundidade das riquezas de Deus à disposição da igreja. Cristo é a fonte de toda a sorte de bênçãos: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos tornou ricos em Jesus Cristo...” (1.2).  

Paulo fala de riqueza para uma igreja fundada numa cidade considerada o banco da Ásia, dando ênfase à riqueza incalculável à disposição da igreja, mas que esta ainda não conhecia e, por não conhecer, não se apropriava da mesma. E se não se apropriava é porque faltava profundidade de experiência com o Espírito Santo.

A palavra riqueza e correlatos permeiam toda a epístola e têm a ver com suprimento abundante, com a suprema qualidade daquilo que nos é outorgado EM CRISTO. O que nos é outorgado está nas palavras e expressões chaves do livro.

Palavras chave: riquezas, herança, herdeiros e coerdeiros, plenitude, encher, abundância, suprimento graça, glória e mistérios.

Em Efésios tudo é muito superlativo, do tamanho de Deus: você lê: riqueza da graça de Deus, abundantes riquezas da sua graça, abundância para conosco, possessão de Deus, riqueza da glória de sua herança nos santos, sobre-excelente grandeza de seu poder em nós, riquíssimo em misericórdia pelo seu muito amor com que nos amou, riquezas insondáveis, multiforme sabedoria, altura, largura, comprimento e profundidade, cheios de toda a plenitude de Deus, muito mais abundantemente mais...

Essas palavras e expressões são os tijolos do edifício teológico neotestamentário cuja fundação é Cristo.

2. A natureza e dimensão das bênçãos. Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (1.2).  

A abrangência das bênçãos é que temos toda a sorte de bênçãos do Espírito. O Espírito Santo que nos habita canaliza todas as bênçãos do Pai para nós por meio do Filho.

Bênção de Deus, o Pai. Ele nos escolheu (EF 1.4-6).

Bênçãos de Deus, o Filho: Ele nos remiu, nos perdoou e nos revelou a vontade de Deus e nos fez sua herança e nos constituiu seus coerdeiros (Ef 1.7-12).

Bênçãos de Deus Espírito Santo: Ele nos selou e nos deu o penhor (Ef 1.13.14).

A esfera de nossas bênçãos é nas regiões celestiais. Isso porque a vida cristã gira em torno do céu: sua cidadania está no céu (Fl 3.20), seu nome está escrito no céu (Lc 10.20), seu Pai está no céu (Cl 3.1), seu Cristo está entronizado no céu, estamos assentados em lugares celestiais (2.6) e a sua batalha não é conta o sangue, mas sim contra os principados e potestades nos lugares celestiais.

III. UMA ORAÇÃO ARDENTE PARA QUE OS EFÉSIOS ENTENDAM E SE APROPRIEM DAS RIQUEZAS DE CRISTO

1. Uma oração precedida por outra oração. Na primeira oração Paulo ora para que O Espírito Santo ilumine a mente para que os crentes consigam perceber uma realidade que está para além das limitações da mente humana.

Ele não vai pedir que Deus lhes dê aquilo que eles não têm, mas para que Deus lhes revele aquilo que já possuem. Paulo ora para que os crentes não só entendam isso, mas também se apropriem e sintam... sejam realmente ricos.

2. Oração de joelhos  (3.14). De joelhos é rendição, humilhação, reconhecimento de impotência... É desespero de causa.

2.1 De joelhos por uma vida com poder no íntimo (3.16), para que, segundo as riquezas de sua glória, sejais corroborados com poder pelo Espírito no homem interior. (eso anthropon).

Paulo pede “segundo a riqueza de Deus”... é muita coisa. Riqueza em glória é mais ainda. Note que tanto na primeira como na segunda oração, Paulo roga pela ação do Espírito no coração, na primeira pede o conhecimento, na segunda, pede o poder.  Conhecimento e poder no íntimo.

Sejam corroborados: (1) robustecidos, enrijecido, fortalecido nesta verdade; (2) confirmar a existência ou a verdade de; dar provas de; comprovar.

Paulo pede que essas coisas aconteçam no íntimo. É lá no íntimo, onde tudo começa. O segredo é ser mobilizado pelo ES no íntimo. Você pode até fazer alguma coisa por formalidade, obrigação ou conveniência, mas não haverá constância em vc.

O que é o íntimo ou homem interior? Fico me perguntando o que Paulo queria dizer com “homem interior”, ou o que a Bíblia quer dizer quando fala do “íntimo da pessoa”, ou mesmo o que no geral a ciência diz sobre o íntimo? Seria algum lugar inacessível pelos recursos humanos? Seria a alma, a consciência, o espírito, o inconsciente de Freud? Não sei. O que eu sei é que se trata de um lugar onde somente o ES pode penetrar. É o lugar onde tem origem todas as motivações.

“Em Efésios 3.16, o homem interior é a pessoa real, a entidade espiritual que é fortalecida com poder, por meio do Espírito Santo. Nessa referência também está incluída a mente, o intelecto, o que faz desse versículo um paralelo parcial com Rm 12.2, onde se lê que deveríamos ser transformados mediante a renovação da nossa mente. O homem interior também é o homem moral essencial, ou seja, a natureza moral que precisa ser transformada pelo pode do Espírito segundo se vê em Mt 5.48, Rm 7.22, Gl 5.22,23. O homem interior também corresponde à natureza emotiva de cada pessoa”. Champlin, 2015: 151.

2.2 De joelho pela apropriação da habitação de Cristo no coração (3.17). Para que Cristo habite pela fé em vossos corações, a fim de, estando arraigados e fundados em amor...

Arraigar, habitar e alicerçar são palavras que envolvem força e profundidade  do Espírito. Arraigar tem a ver com raízes profundas; habitar tem a ver com sentir-se em casa; alicerçar fala de fundamentos.

Cristo não pode ser apenas um hóspede. Cristo tem que ser a essência da vida, a razão, o sentido. Existe um coração batendo em meu coração: o coração de Cristo.

2.3 De joelhos pela compreensão e apropriação da plenitude do amor de Cristo (18,19). Poderdes perfeitamente compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo que excede todo o entendimento.

Compreensão e plenitude. Compreensão passa a ideia de tomar algo para si. É compreender para sentir. A gente não consegue apreender a compreensão do infinito amor de Cristo pela nossa capacidade mental, cognitiva, Paulo diz que excede todo entendimento, por isso, somente pela ação do Espírito Santo em nós.

No que tange à plenitude, Deus deseja que o experimentemos em plenitude, isto é, ser cheio de Deus. E o Espírito Santo é o meio pelo qual alcançamos essa plenitude.

3. Deus é poderoso para fazer mais que isso (3.20). Aquele que é poderoso para fazer mais tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos segundo o seu poder que em nós opera.


domingo, 5 de março de 2017

Oseias: quando o povo adoece e quando Deus decide curá-lo

          Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Os 6.1-3). 

INTRODUÇÃO

           Oseias começou a profetizar nos últimos anos do reinado de Jeroboão II e terminou no começo do governo do rei Ezequias. Foi o único profeta do Reino do Norte que teve sua profecia escrita e o último profeta deste reino.  
Foi uma época de instabilidade política, crise social e religiosa, Israel desceu aos mais baixos níveis de corrupção moral e espiritual: adoração profana dos cananeus, edificou imagens de escultura e fundição, queimou suas crianças nas chamas do baalismo e lançou-se na abominável prática da prostituição cultual. É nessa conjuntura que Deus levanta o profeta Oseias para mostrar o quanto Deus ama o seu povo, apesar de sua rebeldia e obstinação.
O Reino do Norte reino durou 253 anos, 09 dinastias, 19 reis. Nenhum deles foi piedoso e a maioria teve morte violenta.

I. A doença espiritual de Israel
Em todo o volume do livro de Oseias, encontram-se espalhados os sintomas que caracterizam a morbidade espiritual da nação, os quais estão ajuntados a seguir.

Sintomas:
►Esquecimento de Deus (2.13). Tem sempre um substituto para ele.
►Falta de conhecimento (4.1).
►Falta de verdade (4.1).
►Incontinência (o vinho, o mosto) tirava a inteligência (4.11).
►Indiferença.
►Simpatia por sacrifício e holocausto em lugar de juízo e misericórdia (6.6).
►Os reis e príncipes tinham programado os ouvidos para se alegrarem com a mentira dos súditos (7.3).
►Ingenuidade, pomba enganada, sem entendimento (7.11).
►Dá fruto para si mesmo (10.1).
►Ingratidão (11.1).

Todavia, não obstantes os sintomas supracitados sejam graves, o pior de tudo era o não reconhecimento da doença por parte de Israel (Israel era orgulhoso). Comparando-se com Judá, esta nação irmã tinha lampejos de arrependimento que redundaram em algumas reformas espirituais. Mas Israel adoeceu de maneira irreversível.  Seu orgulho o fazia entender que estava tudo bem. Estavam como a igreja de Laodiceia: achavam que estavam ricos, fartos, e que podiam prescindir dos cuidados de Deus (Ap 3.22).

II. Iniciativa divina de sarar Israel. Alguém já comentou que no livro de Jó Deus parece assentado no banco de réus; em Oseias ele aparece no divã, olhando para Israel e perguntando: “Como pode?”
Ele está clinicando a chaga moral e espiritual de Israel e colhendo nenhum resultado. Ele usa inicialmente três métodos de despertamento de consciência:

1. Deus verbaliza a situação de Israel. Advertência por meio da palavra falada, o ministério dos profetas. Mas quando se está com a consciência cauterizada, não adianta a eloquência do sermão, todas as palavras bonitas se perdem ao vento.  

2. Deus dramatiza para chamar a atenção Israel. O casamento de Oseias com uma mulher da vida duvidosa, por ordem divina, é um retrato da gravidade da situação. Essa mulher, após ter se casado com o profeta, comete infidelidade conjugal indo após seus amantes. Da mesma forma, Yahweh estava se sentido como um marido traído. Parece uma ilustração melodramática? Pode ser. Mas Deus queria chamar a atenção do seu povo. Mas a insensibilidade de Israel não lhe permitia ser atraído por este gesto impressionante de amor divino.

3. A disciplina corretiva. Israel seria duramente punido pela sua rebelião contumaz. Seus filhos seriam levados como cativos para a Assíria de onde nunca mais voltariam, e onde seriam definitivamente curados da idolatria. A disciplina aparece ilustrada nos nomes dos três filhos de Oseias com sua mulher infiel.

Jezreel – Deus espalhará. Israel espalhado entre as nações.
Ló Ruama – Não compadecida. Cessou o tempo da compaixão, o castigo já estava determinado.
Ló Ami – Não meu povo. Aquela nação fora rejeitada por causa da obstinação na idolatria.  
                                                                                       
III. Yahweh é o restaurador de seu povo (Os 6).

1. Um último e desesperado apelo para que Israel volte ao Senhor.
          “Vinde e tornemos para o Senhor” (6.1). A princípio, uma excelente decisão, o que tem conexão com o versículo 15 do capítulo anterior: “Então voltarei ao meu lugar até que eles admitam sua culpa. E eles buscarão a minha face; em sua necessidade eles me buscarão ansiosamente” (5.15). Trata-se, ao que tudo indica, de um apelo do profeta, ao qual o povo não atenderá. Mas a verdade gritante do texto é que a cura só começa com um retorno ao curador e que somente o Senhor pode restaurar o seu povo.
                        
2. O médico que fere para curar.
          Porque ele despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Deus é soberano e vai trazer seu povo a si ainda que use, se preciso, o remédio mais amargo. Ele não desiste. Por isso, entendemos que Ele tem objetivos mesmo nas feridas abertas naquelas que são objetos de seu amor. Mesmo quando Ele fere, faz por amor.A reflexão nos leva aos seguinte enunciados:

Deus é médico de corpo, de alma de espírito. O salmista diz que ele conhece a nossa estrutura... (Sl 103.14).  Ele  é o Senhor que sara (Ex 15. 26), de todas as enfermidades.  
►A cura começa com a manifestação de sintomas e termina com um retorno ao curador. Então é Deus quem começa. Como posto por Jó,  é ele quem abre a ferida, mas ele mesmo a trata; ele fere, mas com suas próprias mãos pode curar (Jó 5.18).
►Uma pessoa ou nação  nunca mais será a mesma após ter uma ferida aberta e fechada pela mão de Deus. Ele mexe nas entranhas.
►Deus, às vezes, tem uma maneira peculiar e paradoxal de curar: ele sara ferindo.  A lição primordial aqui é que Deus fere para curar. Como diria um pensador: “O caminho da cura pode ser a doença”.

3. Um tempo para a cura acontecer. Depois de dois dias nos dará vida; ao terceiro dia nos ressuscitará e viveremos diante dele [...]. Somente depois de manifestados os sintomas, forçado um arrependimento, sarada a ferida, Ele nos dará vida, e só assim...  Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.

4. O conhecimento de Deus como resultado da cura
Não se trata de um conhecimento técnico e intelectual, é conhecimento experimental. Tem a ver com comunhão, fé, obediência e adoração. A falta de conhecimento denunciada pelo profeta significa falta de fidelidade e de temor a Deus.

5. A fidelidade de Deus (v. 3). “Como a alva será a sua saída, e Ele a nós virá como a chuva serôdia que rega a terra. Tão certo como a aurora anuncia a chegada de um novo dia, assim sairá Yahweh para restaurar o seu povo”.

CONCLUSÃO

Oseias nos ensina que a fidelidade de Deus é sempre maior que a capacidade do homem de pecar. Que o Senhor restaura o seu povo, ainda que tenha que usar o remédio mais amargo. Ele faz por amor. “Ele despedaça e sara, faz a ferida e a ligará”.