quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Quero mais que conceito

Tenho muita dificuldade para assimilar os filósofos. Isso não significa que eu não os aprecie. Pelo contrário, acho até que as suas engenhosas elaborações foram imprescindíveis para que a humanidade atingisse o estágio em que se encontra hoje. Também acredito que algumas obras filosóficas deveriam ser de leitura obrigatória para a vida. Mas o grande problema é que as grandes construções filosóficas não são nada práticas. Com razão, já se foi dito que o que todos os filósofos têm em comum é o desejo inconsciente de não serem compreendidos, ou pelo menos de serem compreendidos apenas por uma parcela diminuta de iluminados.

Uma amiga me emprestou uma obra de Kierkegaard intitulada Desespero Humano, achou que o título tinha tudo a ver comigo. Neste caso, ela tinha razão: sempre achei que a condição humana ou leva à alienação ou ao desespero. Peguei o livro com sofreguidão e abri na primeira página, onde li esta mensagem “esclarecedora”: O desespero inconsciente de ter um eu – o que é verdadeiro desespero; o desespero que não quer e o desespero que quer ser ele mesmo. Confesso que fiquei tão desesperado que fechei imediatamente o livro, sem ao menos dar uma olhada na próxima frase. Desesperei por me sentir na obrigação de ler o referido livro – afinal de contas, a amiga disse ter tudo a ver comigo – e não ter disposição suficiente para continuar. Outra vez uma professora contou que demorou dois anos para, numa leitura programada, ler “Ser e Tempo” de Martin Heidegger. Haja vista que ela é da área da fenomenologia, tema central da filosofia Heideggeriana. Seu depoimento ergueu mais uma barreira, agora entre mim e a obra referida, e me convenci mais ainda que os filósofos são construtores de muros, não de pontes; de labirintos, não de estradas. Todavia é inevitável a angústia de saber que há realmente verdadeiros tesouros nos escritos desses autores, mas estão muito bem escondidos. E só alguns conhecem o mapa.

Gosto das coisas práticas, das respostas concisas, dos exemplos precisos. Não faz muito tempo, numa aula sobre soberania de Deus, um aluno perguntou ao professor o que era um déspota. (Ele fez essa pergunta porque o professor havia dito que soberania divina não é sinônimo de tirania ou despotismo e que, portanto, Deus não é um déspota). Aquele mestre poderia, a estilo dos filósofos, ter recorrido a um dicionário para uma definição prolixa e dizer que um déspota é aquele que exerce poder absoluto e arbitrário, ou o que domina tiranicamente, como normalmente fazem os palestrantes do programa Café Filosófico, da TV Cultura. Ele poderia ainda ter recorrido à etimologia da palavra e discorrido sobre as mudanças de significado sofrido pelo vocábulo no decorrer dos séculos, mas não havia tempo para uma resposta tão engenhosamente elaborada, e ninguém garante que ele seria entendido. Respondeu, então, que o Fidel Castro é um déspota e foi imediatamente compreendido – pelo menos é o que imagino. Outro aluno o ajudou citando Hugo Chavez.

Dias atrás, ouvi outro professor falar para um grupo de jovens sobre lealdade. Todos estávamos ansiosos para saber o real significado desta virtude. O palestrante comentou que há conceitos que não podem ser compreendidos à luz de outros conceitos, por isso ele precisava recorrer a factualidade da vida para, como dizia Voltare, definir os termos. Citou a história de Ananias , Misael e Azarias, os três jovens hebreus que desafiaram o grande rei Nabucodonosor e, por se recusarem terminantemente a adorarem outro deus além de Iavé, foram lançados numa fornalha. E finalizou dizendo que o conceito correto de lealdade encontrava-se na atitude arrojada daqueles três jovens. Quem quisesse ser leal deveria agir do mesmo jeito. Os ouvintes ficaram maravilhados com a praticidade da definição. Eu particularmente amei.

Imagino que deva ser por isso que tenho fascínio por Jesus de Nazaré, por sua forma muito particular de definir grandes verdades, recorrendo a fatos ou personagens do cotidiano. Ora o Mestre citava um pescador arrumando as redes, ora se referia a uma mulher procurando sua moeda perdida, e ensinava verdades que as palavras de um dia todo não conseguiriam dizer. Por isso e muito mais, Ele supera, de longe, todos os mestres que já passaram por este mundo. Jesus apelava para o imediatamente vivido e evitava os borbotões de conceitos próprios dos filósofos. Fico imaginado se ele resolvesse conceituar temas profundos como a solicitude doentia pela vida, ansiedade, espiritualidade, o problema do sofrimento e da morte, usando o estilo de Kierkegaard, Russerl, Heidegger e tantos outros, o Cristianismo seria privilégio de poucos iluminados. Mas Jesus era mais que conceito, era praticidade: mostrava pássaros tranquilos voando e dava uma aula profunda sobre ansiedade e solicitude pela vida. Ao referir-se ao sofrimento e à morte, comentava sobre o grão de trigo que precisa morrer no solo para dar muitos frutos; se não morrer, fica sozinho. Sobre a nova religião que veio trazer, contava sobre um homem que achou um tesouro enquanto trabalhava no campo e vendeu tudo o que tinha para comprar a propriedade onde estava o tesouro. O Mestre sabia que um exemplo vale mais que mil palavras e, portanto, revolucionou a história humana com suas parábolas, as quais são amadas por bons leitores até hoje.

A minha dificuldade com os filósofos é a mesma que tenho com alguns pregadores do evangelho da atualidade: simplesmente não consigo compreendê-los. Eles se transformaram em verdadeiros filósofos de púlpitos. Havendo já espremido tanto a Bíblia e não conseguindo mais tirar dela uma mensagem nova todos os dias para atenderem a uma agenda superlotada, muitos começaram a falar coisas tão embaraçosas que parecem mais aula de filosofia heideggeriana do que pregação evangélica. Outro dia, sintonizei uma rádio gospel, um pastor renomado estava pregando sobre os males que a religião causa nas pessoas, e então ele enveredou por uma emaranhado discurso acadêmico sobre o assunto. Sinceramente este academicismo de púlpito me deixa inconvertido. Primeiramente o dileto pastor distorceu a Palavra de Deus atribuindo à região um significado pejorativo, quando, na verdade, a própria Bíblia legitima a religião, discriminando, é claro, a pura e imaculada (Tg 1.27). Ou talvez o mesmo tenha esquecido que o Cristianismo é a maior de todas as religiões. Desconfio que ele não sabia o que estava falando.

Outro tema que tem se tornado em verdadeiros tratados filosóficos é o avivamento espiritual . Ouvi um pregador dar algumas definições de avivamento, e também definir o que o avivamento não é. Ele se valeu da oração de Habacuque para dizer que avivamento é o ato de Deus, causado por Ele mesmo, de ministrar a sua unção sobre o seu povo no decorrer dos anos. O mesmo ainda afirmou que avivamento é um retorno ao princípio - creio que se referiaco à igreja primitiva - ou um retorno à coisa mesma. Dá prara entender isso?

Agora, em relação ao poder miraculoso outorgado pelo Espírito Santo à igreja, já estão falando de duas dimensões de poder: o poder parcial e o poder dinâmico. Um irmão bem intencionado tentou-me explicar a diferença entre ambos, mas – valeu pela intenção – eu não entendi nada. Fico imaginando Jesus ministrando uma aula sobre pregação, ou homilética, o que Ele diria destes pregadores, todos muito eruditos para usarem a simplicidade do “era uma vez” que o Mestre usou a exaustão.

Sinceramente tenho andado preocupado com esta avalanche de definições eruditas, tão parecidas com as construções filosóficas, desacompanhadas de praticidade, irrelevantes para a vida real, e alheias a simplicidade do evangelho que têm inundado algumas igrejas. Lembro-me de uma definição pejorativa de filosofia que alguém, provavelmente enroscado com um desses emaranhados tratados filosóficos, cunhou: “Quando quem fala não sabe bem o que está falando, e quem ouve não sabe bem o que está ouvindo, isto é filosofia”. Pois bem, o universo evangélico também produziu seus filósofos, de sorte que poderíamos usar a definição pejorativa acima para dizer que “quando quem fala não sabe bem o que está falando, e quem ouve não sabe bem o que está ouvindo: é o que tem sido algumas pregações do evangelho na atualidade.













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