sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Eterna Salvação

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).


A doutrina da Salvação (soteriologia) ocupa lugar central na Bíblia Sagrada e, por conseguinte, na religião cristã. Há, portanto, uma necessidade extrema de que a igreja de Cristo a priorize em sua grade de ensino. As Escrituras afirmam que o Senhor Deus previu a queda espiritual do homem desde tempos eternos, bem como as suas deletérias consequências, e, movido de imensurável amor, proveu um meio de salvá-lo. Toda a revelação de Deus na Bíblia gira em torno desta verdade: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Durante todo o período do Antigo Testamento, essa salvação fora anunciada de várias formas, até que, na plenitude dos tempos, concretizou-se no sacrifício expiatório de Cristo. Hoje ela é aplicada nos corações pela pessoa do Espírito Santo.

Objetivamos com este trabalho, ainda que superficialmente: 1) explicar o processo da redenção humana mediante a morte expiatória de Cristo; 2) esclarecer como a regeneração é operada pelo espírito Santo no coração do pecador arrependido; 3) conscientizar que não há nada que o ser humano possa fazer, com seus próprios meios, para ser salvo, pois a salvação é o resultado da graça infinita de Deus.


I. A EXTREMA NECESSIDADE DA SALVAÇÃO

Por que a salvação espiritual é tão importante para o gênero humano? O que a torna possível? Estas questões aparecerão sempre que fizermos uma abordagem profunda sobre o assunto em apreço. E as respostas a elas só podem ser oferecidas relacionadas à maneira correta de se compreender três verdades bíblicas: 1) o caráter de Deus; 2) a natureza da criação humana; 3) a nocividade do pecado. Como observa o teólogo Daniel B Pecota (in Horton, 1994), se Deus não fosse como a Bíblia nos revela, e não tivéssemos sido criados à sua imagem, e não tivéssemos subsequentemente caído, a salvação, conforme a Bíblia nos descreve, não teria sido possível nem necessária. Por isso o drama da redenção tem como pano de fundo o caráter santo de Deus e a natureza pecaminosa da criação humana.


A. PORQUE O HOMEM PRECISA DA SALVAÇÃO ESPIRITUAL.

Sempre que fazemos uso de nosso dicionário cristão, palavras como redenção, expiação e propiciação saltam das páginas, mas nem sempre atentamos para o seu real significado. Todavia, a conceituação correta desses termos carrega toda a dimensão da obra salvífica de Cristo. Redimir, segundo o dicionário Michaelis, significa “libertar do cativeiro mediante pagamento de resgate” e isso pressupõe uma situação em que um opressor cruel cerceia, inclemente, a liberdade de sua vítima e cobra um preço alto para libertá-la. Expiar significa “reparar (crime ou falta) por meio de penitência ou pena” (o Globo), o que pressupõe uma situação em que um réu, cujo crime não pode ficar sem punição, está sendo submetido ao rigor da lei. Ainda segundo o Michaelis, propiciar significa “tornar propício, favorável, aplacar”, e isso pressupõe uma situação em que o direito de alguém foi violado e, por isso, encontra-se em oposição aberta ao infrator em uma querela judicial.

Na Bíblia, as três palavras acima definidas são freqüentemente tradução dos vocábulos hebraico kãphar e grego hilaskomai.1 A primeira tornou-se, entre os hebreus, um termo técnico dos rituais de sacrifício de Israel e encontra alta relevância no Dia da Expiação (Lv 16), quando o sumo sacerdote, depois de oferecer um novilho em favor de si mesmo e de toda sua casa, lançava sorte sobre dois bodes, sendo um enviado para o deserto como expiação (16.10) e o outro era sacrificado, e seu sangue borrifado no propiciatório (kappõret) como expiação pelo povo (16.15-20). Note que a prática de se impor as mãos sobre o sacrifício (Lv 4.15; 1616.21) significava dizer “estou sacrificando isso em meu lugar”, ou seja, como resgate pela minha alma.

A segunda (hilaskomai) era usada entre os gregos com o significado de tornar os deuses favoráveis, por meio de sacrifícios que aplacavam as divindades, uma vez que elas não tinham naturalmente boa vontade para com os homens e precisavam ser conquistadas. No uso do Novo Testamento, a idéia de tornar Deus favorável é a mesma; porém aqui não encontramos uma Divindade rancorosa, indisposta para com os humanos. Não, Deus nunca poderia ser conquistado ou propiciado por qualquer ato de iniciativa nossa, mas Ele mesmo, segundo a sua boa vontade, provê o meio pelo qual viesse a ser torna favorável (Hb 2.17).

1. A natureza humana foi afetada pelo pecado

Os organizadores da Bíblia de referência Thompson, numa análise da carta de Paulo Aos Romanos, explicam a teologia paulina, segundo a qual os seres humanos estão rodeados de, pelo menos, dois muros insuperáveis pelos recursos humanos: O muro da culpabilidade universal (caps 1-3) e o muro das tendências pecaminosas e das concupiscências carnais (7. 15-24).2 Em alguns livros de teologia, os autores usam, respectivamente, as designações culpa herdada e corrupção herdada.

a) Culpa herdada. Diante de Deus todos os homens são culpados, independentemente de qual seja o seu estilo de vida (Rm 3.23). Segundo a teologia de Paulo, trata-se de uma herança que recebemos de nossos primeiros pais. Na carta Aos Romanos, Paulo explica o pecado de Adão e o seu efeito sobre os seus descendentes, dizendo que, em Adão, todos somos pecadores: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

Note que no capítulo 5, Paulo está fazendo uma comparação entre Adão, como representante legítimo da raça humana, e Jesus Cristo, como representante dos remidos: “Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem, muitos serão feitos justos” (5.19). No versículo 12, Paulo deixa claro que, sendo todos culpados, todos estão debaixo de uma punição severa: a morte.

b)Corrupção herdada. Uma frase bem conhecida no meio cristão diz que “nós não somos pecadores porque pecamos: nós pecamos porque somo pecadores”. Esta máxima resume toda a idéia de corrupção herdada. Os seres humanos são pecadores por natureza e têm, portanto, uma inclinação indomável para fazer o mal. Davi disse: “Eis que em iniqüidade fui formado e em pecado me concebeu a minha mãe” (Sl 51.5). O mesmo Davi diz que “os ímpios se alienam desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras (Sl 58.3). Paulo, citando Davi, escreveu aos romanos: “Como está escrito: Não há um justo, nenhum sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”(Rm 3.10-12). Esta é, portanto, a situação do homem natural: está espiritualmente morto (Ef 2.1,5; Cl 2.13), vive num estado de rebelião constante contra Deus por não conseguir fazer o bem diante dEle (ver Rm 7.15-20).

2. As deletérias consequências do pecado.

a) O pecado impossibilitou a comunhão com Deus. Ao pecarem, a primeira atitude de nossos primeiros pais foi esconder-se de Deus, não podendo mais ter comunhão com Ele. Em contrapartida, Deus os expulsou do jardim de sua presença, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.8, 24). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaías, forma automaticamente uma parede de separação entre um Deus santo e a criatura pecadora (59.2).

b) O pecado resultou em morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa instantaneamente a morte espiritual, porque Deus é a vida e a luz dos homens. Morto espiritualmente, o pecador não tem condição sequer de aproximar-se de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3).

c). O pecado resultou em morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é o resultado direto da morte espiritual. Procuramos evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não quer aceitar é o fato de que a morte é uma sentença proferida pelo próprio Deus, como maldição resultante do pecado (Gn 3.19).

d) O pecado causa a morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de segunda morte, a morte eterna é a extensão da morte espiritual na eternidade. É a eterna separação de Deus, com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física (Hb 9.27).

Obs. Quando Paulo diz que o salário do pecado é a morte (Rm 6.23), ele está se referindo à morte nas três dimensões supracitadas. Vale também salientar que a morte física foi uma porta de escape que o bondoso Deus proveu para o homem, a fim de que este não vivesse eternamente uma vida miserável de pecados; pois mesmo depois da queda, ele poderia comer da árvore da vida e viver eternamente. Deus, porém, o privou do acesso à árvore da vida para que ele não fizesse tamanho mal contra si mesmo (Gn 3.22,23).Todavia a cessação da existência – o que consideramos um mal necessário –, providenciado como uma porta de escape, trouxe como efeito colateral a morte eterna. Era triste a situação humana. A sua salvação seria um grande e intricado quebra-cabeça. E Deus conseguiu montá-lo..


II. O PROCESSO DA REDENÇÃO

A. A EXPIAÇÃO

Expiar, como já tivemos a oportunidade de ver, significa reparar (crime ou falta) por meio de penitência ou pena. A idéia de expiação está contida na idéia de sacrifício, e não pode ser compreendida sem um olhar cuidadoso para o Antigo Testamento, quando milhares de animais eram oferecidos anualmente no altar dos hebreus como substitutos (vicários) daqueles que os ofereciam. Como observa Pecota (in Horton, 1984), ninguém que leia as Escrituras de modo perceptivo, pode fugir à realidade de que o sacrifício está no âmago da redenção, tanto no antigo quanto no Novo Testamento.

O termo hebraico kãphar, freqüentemente usado com relação ao sacrifício do culto levítico (Ex 29.36,37; Lv 4.20,31; 10.17) normalmente é traduzido pelas palavras “expiar”, “compensar”, “propiciar” e “resgatar”. Todas essas palavras são em parte sinônimas e lançam luz sobre o fato de que toda vez que um animal era oferecido no altar do holocausto, a ira de Deus era desviada do ofertante e, desta forma, Aquele se tornava favorável a este.

1. O processo da expiação. O escritor da carta Aos hebreus observa que “quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue, e sem derramamento de sangue não há remissão” (9.22). Em Lv 17.11, Deus explica por que o pecado não pode ser expiado sem derramamento de sangue: “Porque a vida da carne está no sangue, pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação pela alma”. Note que sangue aqui é sinônimo de vida e equivale à vida do pecador que seria entregue como meio de expiação pelo pecado. Paulo traduz esta idéia em Rm 6.23: “O salário do pecado é a morte”.

A ideia de expiação já está implícita em Gênesis, quando Deus mata um animal para, de sua pele, providenciar vestes para Adão e Eva, os quais, percebendo que estavam nus, cobriram-se com folhas de figueiras (3.8,21). Pela primeira vez, sangue estava sendo derramado, e Deus estava dizendo: “Sem derramamento de sangue não pode haver expiação”. Porém a figura de um cordeiro sacrificado como parte do drama da redenção humana remonta à páscoa (Ex 121-13), quando Deus veria o sangue aspergido nos umbrais das portas dos filhos de Israel e “passaria por cima” (livraria da morte) daqueles protegidos pela sua marca; ou mais precisamente no dia da Expiação (Lv 16), quando o sacerdote impunha as mãos sobre o sacrifício e, simbolicamente, transferia a culpa dos filhos de Israel para o mesmo. Pecota (in Horton, 1984) observa que quando o crente do Antigo Testamento colocava as mãos no sacrifício, o significado era mais que identificação; era um substituto penal, pois o crente estava querendo dizer: Sacrifico isto em meu lugar.

A figura do animal morto como meio de expiação no Antigo Testamento é transferida a Cristo no Novo. João Batista disse que Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Paulo se refere a Jesus como a nossa páscoa (1 Co 5.7). Pedro declara que fomos redimidos “com o sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pe 1.19). Felipe explica a um eunuco que a passagem de Isaías, que tratava de um servo que seria levado como um cordeiro ao matadouro, era uma referência a Cristo (At 8. 26ss). Nas regiões celestiais, o Leão da tribo de Judá é louvado como o Cordeiro que fora morto (Ap 5.9).

Já vimos no início que estávamos em oposição aberta a Deus numa querela judicial e que a sua ira estava sobre nós. Vimos também que nós merecíamos justamente a morte, que estávamos escravizados pelo pecado, e que não tínhamos recursos para reparar a nossa deplorável situação. Aqui, nós vemos que Deus, na sua infinita misericórdia, tomou a iniciativa e forneceu os meios pelos quais a nossa culpa fosse expiada e a sua ira aplacada, a fim de nos trazer de volta à comunhão com Ele. Note: a parte ofendida tomou a iniciativa. Pecota (in Horton, 1984) observa que Deus não somente forneceu os meios como também veio a sê-los, conforme 1 Jo 4.10: “Nisto está a caridade: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu filho para propiciação pelos nossos pecados”.

2. A causa da expiação. Quando olhamos para a cruz, é impossível conter o espanto. A crucificação foi o maior escândalo de todos os tempos, diante de que os céus e a terra se enrubesceram de vergonha (ver 1 Co 1.23; Gl 5.11). O Deus santo estava morrendo como um dos piores malfeitores. Perguntas inquietantes começam a surgir sempre que olhamos para a cruz: Por que Deus se submeteu a tamanha humilhação? Seria preciso tamanho sacrifício? Primeiramente convém observar que Deus não tinha nenhuma obrigação de salvar a humanidade; mas, uma vez que Ele resolveu salvar, não houve nenhum outro modo de Deus fazer isso senão por meio da morte de seu Filho. Muitas passagens bíblicas mostram que a morte de Cristo não foi um meio entre muitos outros possíveis: foi o único meio dentro da economia divina. O drama da cruz só pode ser compreendido na perspectiva do caráter de Deus.

Dentro do caráter de Deus, não existe uma hierarquia de atributos. A justiça é essência de seu caráter, assim como o é o seu amor, e todas as demais características. A justiça de Deus não permite que Ele deixe a iniqüidade sem punição (Hc 1.13). Constatamos essa verdade quando Ele julgou Adão e Eva com severidade; quando destruiu a raça humana no dilúvio; quando ordenou que os cananeus fossem destruídos, porque a iniqüidade deles já havia atingido uma mediada cheia (Gn 15.16); quando julgou o seu próprio povo, enviando-o ao cativeiro; quando – no caso mais dramático – entregou o seu Filho como sacrifício vicário na cruz. Sim, a justiça de Deus requeria que Ele encontrasse um meio para que a penalidade pelos nossos pecados fosse paga. Como observa Grudem (Grudem, 1999), Deus não poderia nos aceitar em comunhão com Ele a menos que a penalidade fosse paga. Todavia a Bíblia diz que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Sendo assim, a nossa culpa caiu sobre Cristo e, por meio deste, Deus nos perdoou, satisfazendo assim tanto a sua justiça quanto o seu amor. Como disse Paulo: “Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando sua justiça. Em sua tolerância havia deixado impunes os pecados dantes cometidos” (Rm 3.25).

Portanto, a causa da expiação foi o um encontro dramático: o amor e a justiça de Deus se encontraram. Ou: a misericórdia e a verdade se encontraram (Sl 85.10).

3. A satisfação da expiação. De que maneira a morte expiatória de Cristo pode satisfazer as exigências da justiça divina e reverter a situação humana em relação a Deus? No decorrer dos séculos, muitos pensadores cristãos aventaram várias teorias para explica de que forma o escândalo da cruz resolveu o impasse existente entre Deus e os pecadores.

a) Teoria da substituição penal. Ensina que a morte de Cristo foi totalmente vicária, ou seja, em nosso lugar (2 Co 5.14). O Filho de Deus suportou por nós toda a penalidade que devíamos pagar. Essa idéia está em total consonância com a Bíblia, pois leva em conta a santidade e a justiça de Deus, expressa na sua ira judicial. Considera o que está escrito sobre a depravação humana, bem como a incapacidade do homem de salvar-se a si mesmo. Por último concorda com o que é previsto no sistema de sacrifício levítico, na tipologia e profecias do Antigo Testamento.

A terminologia usada, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, mostra que a morte de Cristo foi propiciatória, o que significa que Ele recebeu a ira divina em nosso lugar, como uma forma de satisfazer a justiça de Deus. Os termos gregos hilaskomai (fazer propiciação) e hilasmos (sacrifício de propiciação) usados prodigamente no Novo Testamento denotam um sacrifício que desvia a ira de Deus. Paulo diz que Deus enviou Cristo como sacrifício para propiciação (Rm 3.25,26) e João diz que “Ele é a propiciação pelos nossos pecados (1 Jo 2.2). Como esclarece Wayne Grudem (Grudem, 1999), propiciação significa um sacrifício que recebe a ira de Deus até o fim e, uma vez realizado, muda a ira de Deus para conosco em favor. Grudem observa quatro posições nossas em relação a Deus: 1) nós merecíamos morrer como penalidade pelo pecado; 2) nós merecíamos suportar a ira de Deus pelo pecado; 3)nós estávamos separados de Deus por causa do nosso pecado; 4) nós éramos escravos do pecado e do reino de Satanás. Sendo assim, Cristo foi sacrificado em nosso lugar, levando os nosso pecados (Is 53.12) e, por conseguinte, suportou a ira de Deus (Rm 3.25,26) e, com a sua morte, tornou-se causa de propiciação (1 Jo 4.10), reconciliação (2 Co 5.18,19) e redenção (Cl 1.13). “Sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5.9).

b) Outras teorias

1) Teoria da Influência moral. Ressalta o amor de Deus, rejeitando qualquer idéia de Deus haver feito uma exigência pela liquidação da dívida do pecado. Segundo esta linha de interpretação, Deus não exigiu nenhum pagamento pelo pecado, antes perdoou graciosamente. A encarnação de Cristo e sua morte na cruz foi apenas uma demonstração do amor assoberbador de Deus, com o único propósito de despertar em nós a gratidão e o amor e nos levar ao arrependimento mediante a fé, bem como a um desejo de mudar de conduta.

O exemplarismo não se sustenta, porque ignora totalmente a santidade e justiça de Deus, bem como as declarações bíblicas de que a morte de Cristo teve um caráter vicário, expiatório e propiciador Rm 3.25,26; 1 Jo 2.2).

2) Teoria do resgate. Ensina que, por causa do pecado, a humanidade foi entregue a Satanás, o que levou Deus, por seu grande amor, a entregar seu Filho a Satanás como valor pelo nosso resgate. O diabo teria ficado satisfeito com a troca, porém não sabia que Cristo, o santo de Deus, não podia ser detido na morte. Com a surpreendente ressurreição de Jesus, o maligno perdeu tanto o valor do resgate como seus prisioneiros.

Como observa Pecota (in Horton, 1984), o grande erro dessa teoria é que ela envolve Deus em um logro, ou seja, Ele teria enganado o diabo, pois sabia de antemão os resultados, tendo providenciado a humanidade de Jesus apenas como uma isca que escondia o anzol de sua divindade, e o diabo engoliu.

3) Teoria da satisfação. Propõe que, ao pecar, a criatura humana ofendeu a honra do soberano e infinito Deus, o que exigia uma satisfação e não podia ficar sem punição. Todavia, sendo Deus infinito, nós, humanos finitos, não poderíamos quitar a dívida com Ele, por não termos recursos suficientes. Somente o próprio Deus poderia quitá-la. Logo, como somente Deus poderia pagar a divida, e somente nós deveríamos pagá-la, apenas um Deus-homem poderia resolver esta situação, dando uma satisfação pela ofensa contra Deus e pagando o preço infinito do perdão. Por isso Deus se fez homem.

Esta teoria, apesar de uma ênfase exagerada na exigência de Deus pela punição dos pecados, parece estar em consonância com a Bíblia e, por isso, dispensa aqui objeções.

4) Teoria governamental. Esta teoria apresenta Deus como o grande Legislador do Universo, cujas leis, resultado de sua vontade soberana, são sustentadas por Ele. Uma das leis de Deus é: “A alma que pecar morrerá”. Sendo assim, a justiça rigorosa cobra a morte do pecador. Como, então, poderia Deus perdoar os pecadores e ainda assim respeitar a lei? Se simplesmente perdoasse os pecadores, não sustentaria a lei; se, do contrário, fizesse valer a lei, condenaria os pecadores. Ele resolveu este impasse apresentando a morte de Cristo, no qual ele cobrou a punição pelos pecados, sustentando assim a sua lei. Destarte, a morte de Cristo não teria sido em nosso lugar, somente em nosso favor, pois o objetivo primário de Deus era a guarda da lei.

O grande erro desta teoria é desconsiderar o ensino bíblico, segundo o qual a morte de Cristo foi totalmente vicária (Mt 20.28; Jo 10.14,15; Ef 5.25).

III. A APLICAÇÃO DA SALVAÇÃO, UMA OBRA DO ESPÍRITO SANTO

No tópico I deste estudo, nós falamos que os seres humanos estão rodeados por duas barreiras intransponíveis, quais sejam: culpabilidade universal e tendências pecaminosas. Vimos no mesmo tópico que Cristo morreu em nosso lugar e nos redimiu de toda a culpa, livrando-nos de uma condenação eterna. Onde havia a barreira da culpabilidade universal, ele abriu a porta da justificação pela fé. Todavia, duas questões precisam ser levantadas: 1) Morto em pecado (Ef 2.1,5; Cl 2.13), espiritualmente cego, como seria possível ao pecador reconhecer que havia ofendido a Deus e que, portanto, precisava de um Salvador? 2) Tendo nós uma natureza pecaminosa, seríamos libertos para continuar pecando? Estas perguntas só podem ser respondidas mediante uma compreensão satisfatória do ministério do Espírito Santo como o agente que aplica a salvação nos corações humanos. Como observa o pastor Eliezer Silva, a salvação é o resultado do grandioso propósito da Santíssima Trindade: Deus, o Pai arquitetou a salvação, o Filho a consumou, quando veio ao mundo, e o Espírito Santo a aplica no pecador contrito.3

1. O espírito Santo e o convencimento do pecado. Ao falar sobre o ministério do Espírito Santo, Jesus disse que a sua missão seria convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Esse convencimento dá-se a partir da comunicação da nova vida que a terceira Pessoa da Trindade faz brotar no interior do pecador. Daí depreende-se que ninguém pode vir a Cristo se não houver uma intermediação do Espírito Santo. Pode-se até ser religioso e frequentar uma igreja por muitos anos, mas isso não significa necessariamente ser salvo. Como disse Billy Graham (Graham, 1969), “é possível alguém frequentar a igreja por muitos anos sem nunca ter tido um real encontro com Cristo”. Pois é, ninguém tem condição de vir a Cristo sem uma ação iniciativa do Espírito de Deus.

2. O Espírito Santo e a regeneração. Regenerar significa gerar de novo, nascer outra vez. Em Teologia, é a ação secreta e instantânea de Deus, através da qual Ele comunica nova vida espiritual ao pecador.

No capítulo três do evangelho de João, Jesus trava uma conversa com um doutor da lei, Nicodemos, e o instrui sobre a necessidade de um novo nascimento como condição para se participar do Reino de Deus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus (...) Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (vv 3,5). Jesus estava apresentando para um mestre das Escrituras uma doutrina basilar do Cristianismo: a regeneração, a qual é uma obra exclusiva do Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade. O comentário que o pastor Eliezer Lira faz de 1 João 3.1ss é muito esclarecedor.

O apóstolo João usa, em sua primeira epístola, a expressão “filhos de Deus” para identificar os crentes como criancinhas, nascidas de novo. A referida expressão está relacionada à comunhão e à convivência da criancinha com seus pais. Através da regeneração, Deus colocou em nós uma nova natureza (Jo 3.5,6), sem a qual não teríamos nos tornado novas criaturas (2 Co 5.17). Essa nova natureza, oriunda de Deus, habilita-nos a um novo estilo de vida, que nos conduz à boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Esta divina natureza é completamente estranha aos que não conhecem a Cristo. É por isso que o mundo nos aborrece ([1 Co 2.15,16; 1 Pe 4.3,4] Lições bíblicas CPAD. 1 Jo: Os fundamentos da fé cristã e a perfeita comunhão com o Pai, p. 60).

O ensino da regeneração nos mostra que onde havia o muro das tendências pecaminosas e das concupiscências carnais, Deus abriu a porta da regeneração (Rm 8.1-4; 2 Co 5.17).

3. O Espírito Santo habita no crente. Ao tratar do ministério do Espírito Santo, Jesus disse aos seus discípulos: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (Jo 14.17). É a presença do Espírito Santo dentro do crente que lhe garante a vitória contra o poder do pecado (Gl 5.16ss). Enquanto aqui estivermos, seremos alvo de grandes provações e tentações, por isso Deus nos concedeu o seu Espírito, com dois propósitos primordiais:

a) Consolar os filhos de Deus. Jesus chama o Espírito Santo de Consolador em João 14.16. Neste caso, é a tradução do termo grego parakleto, que significa “alguém chamado para estar com outro, a fim de ajudar”. Paulo, escrevendo aos romanos, disse acerca do Espírito Santo: “Porque não recebestes o Espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filos de Deus” (Rm 8.15,16). Nada mais confortador!

b) O Espírito Santo promove crescimento e fortalecimento espiritual. Através da ação do Espírito Santo, o novo homem, num processo contínuo de santificação vai se tornando cada vez mais parecido com Deus. Em Gálatas 5. 22,23, vemos que o Espírito Santo produz em nós o seu fruto, dando-nos condição de andar em santidade para a glória de Deus.

Adoremos a Deus pela inestimável bênção da salvação que Ele, graciosamente, nos concedeu, enviando-nos o seu Filho. E aguardemos vigilantemente o volta de nosso querido Salvador, para buscar a sua gloriosa igreja, quando então experimentaremos a salvação em sua plenitude, pois a Bíblia diz que “quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque assim como Ele é o veremos” (1 Jo 3.2).