quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Família e prioridades

Algumas vezes sou questionado sobre a real condição da instituição familiar em nossos dias. A pergunta sugere uma resposta abrangente com temáticas como violência doméstica, traíção conjugal, separações, conflitos insustentáveis entre pais e filhos, etc. Não sou nenhum especialista da área, o que me impõe limitações consideráveis para falar do assunto; mas também não sou de todo leigo, pois, além de psicólogo, carrego considerável histórico de orientação e aconselhamento a alguns conhecidos mais próximos na área eclesiástica, e isso, acredito, me permite arriscar algumas opiniões.

As nossas ações são determinadas pelas prioridades que estabelecemos para a vida, e nossas prioridades são ancoradas em valores e crenças que herdamos e construímos socialmente. Criando uma fórmula com o que acabamos de dizer: o que acredito ordena o que priorizo, e o que priorizo é onde gasto todos os meus esforços e energia. Podemos saber muito sobre as pessoas olhando o que elas repetidamente fazem e analisando os objetos de suas preocupações, porque elas só dispendem a maioria de seu tempo e outros recursos naquilo que, para elas, se sobressai em importância sobre as demais coisas. De sorte que, podemos até dizer que damos importância à família, aos amigos, ao trabalho, à igreja ou à religião, mas somente a avaliação de como concentramos nossos recursos em uma coisa ou outra vai dizer se realmente fazemos jus ao que dizemos.

O que estamos assistindo hoje é o solapamento da instituição familiar, por causa de uma cultura ruim que leva as pessoas a conferirem valores exagerados a aspectos secundários da vida e a diminuírem drasticamente aspectos que nunca deveriam ter saído do topo das prioridades, sendo a instituição famimiar a maior vítima dessa inversão de valores.

Todos os dias, alguns amigos, terapeutas familiares,  recebem pessoas se queixando das crises que suas famílias enfrentam, dos relacionamentos ruins com seus cônjuges e filhos, vão em busca de orientação e ajudas mágicas para resolverem os conflitos, porém muitas delas sem disposição para reverem seus valores e prioridade a fim de mudarem de postura para salvar o que nunca deveria ter sido posto em risco. Nas entrevistas terapêuticas, na maoria das vezes, descobre-se que o problema está na ordem invertida das prioridade estabelecidas, constatando-se que a família nunca esteve no topo dessa ordem. Às vezes os pacientes são profissionais bem sucedidos, homens de grande reputação social, grandes líderes religiosos que atingiram a posição onde estão à custa de grandes sacrifícios, situações reveladoras do que sempre foi prioridade na vida deles.  

Será que algum sucesso, em qualquer que seja o segmento social, justifica o sacrifício da própria família? O que mais poderia assumir o topo das prioridades de uma pessoa do que essa instituição sagrada de cuja saúde depende uma sociedade mais saudável? ...Desabafo com colegas psicoterapeutas meu temor de que estejamos numa luta inglória, orientando pessoas a combaterem apenas os efeitos de uma causa que permanece incólume, num verdadeiro processo de enxugar gelo, desconsiderando que as mazelas familiares se originam na implosão total dos valores sociais, na inversão de valores que tira da lista de prioridades fatores que são vitais para a felicidade humana e jogam no topo das prioridades o que é de somenos importância

Daremos apenas um exemplo do que que acabamos de afirmar: Consideremos que o trabalho é essencial na vida das pessoas (o trabalho, não necessariamente o emprego), mas sua importância é relativa à saúde e bem estar do indivíduo e da família (pois imagino que é para isso que trabalhamos), ou seja, o trabalho é um meio e não um fim em si mesmo, mas o que estamos vendo na atualidade é uma inversão de prioridades que leva muita gente a sacrificar tudo em nome da promoção profissional. Lembro-me de um amigo que desejava ser o melhor funcionário da empresa onde trabalhava até que percebeu que não era possível conciliar ser o melhor funcionário com ter uma família saudável. Resultado: contentou-se com uma posição média na empresa e priorizou a família e hoje ganha o suficiente para proporcionar uma vida confortável à esposa e aos filhos.

A graça da vida é que ela é um vasto campo de possibilidades, mas o angustiante é que todas as vezes que investimos recursos em uma escolha, automaticamente desinvestimos nas outras. Posto de outra forma, todas as vezes que fazemos uma escolha, abrimos mão definitivamente das outras possibilidades concorrentes. Sendo assim, para a construção de famílias saudáveis, acima de qualquer coisa, precisamos decidir que vamos ter uma família saudável e feliz, o que exigirá esforço, concentração de investimento e energia e muita paciência, principalmente porque a maneira individualista e competitiva como a sociedade hodierna se comporta só contribui para o solapamento da instituição familiar. Talvez seja preciso mesmo navegar contra a corrente social.

 Veja o exemplo de Josué. Ele disse “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24.15). E ele fez disso a prioridade de sua vida.

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