terça-feira, 12 de março de 2013

Este Deus, esta vida






O mistério, a incompreensão, a finitude absurda... O que se concebe atrás dos limites das palavras e compreensão humanas?  O que se esconde após a linha divisória que a vã ciência não pode transpor? Dá-se o nome de mistério.  Diante da ignorância incomensurável, resta-nos viver, experimentar e se maravilhar com o mistério. Talvez se compreendêssemos a vida, ela perderia a sentido. Da mesma forma que Deus só é Deus porque está envolto em mistério, a vida só é vida porque está cercada de neblina.

Dia destes me impressionei com o título de uma conferência promovida por uma dessas igrejas pentecostais. Numa faixa grande, com letras garrafais, ladeado pelos preletores do evento, eu li o título CAÇADORES DE DEUS. Na primeira impressão, antes de ser controlado pela reflexão, me posicionei otimista em meus sentimentos pela ideia genial de caçar Deus até encontrá-lo. Um amigo até comentou, em tom de brincadeira, que estava preocupado com a integridade física de Deus, pois caçadores costumam ser cruéis. Fiz coro com aqueles que acham que o esforço humano pode forçar uma aproximação e capturamento da Divindade, tentado a simpatizar com a ideia de um Deus capturável, passível de ser analisado, compreendido e, finalmente, espreitado. Todavia, logo que a reflexão me acudiu, matutei como seria um Deus que pode ser caçado como uma presa de quem se pode ficar à espreita, e tudo parecia se chocar com o conceito lógico de Divindade, porque um ser passível de ser compreendido e capturado parece não compatibilizar com a ideia original de DEUS. 

Nenhuma teologia, por mais profunda que seja, dá conta de esclarecer a natureza do Divino. Tudo o que se diz sobre Deus não passa de uma aproximação distante da Supra Realidade Infinita. O pastor Ricardo Gondim expressa melhor o que acabei de dizer: "Teologia não pode ser uma ciência que estuda Deus, porque Deus, por definição, excede a capacidade de qualquer ciência de estudá-lo". Ou como compreende Steiner, "O que está além da palavra humana fala de Deus". É da própria natureza deste Ser Infinito, Criador e Sustentador do Universo, nos escapar e nos pôr diante do mistério inescrutável. Por isso, acho muito divertido ver estudiosos da Bíblia apresentarem uma definição de Deus de tal maneira a colocá-lo dentro de uma forma, apresentando conceitos e parâmetros de como Deus se manifesta e age, como Ele é e se apresenta.

A teologia tradicional e sistemática prescreve uma cartilha de como o fiel deve se relacionar com Deus a partir do entendimento de uma Divindade capturável que se formata à nossa maneira de pensar. Mas a verdade é que Deus, na sua grandeza, nos escapa sempre, porque a gente O conhece dentro dos limites bem estreitos da pequenez de nosso entendimento. Em nosso relacionamento com Ele, vamos como que entrando numa trilha, bosque adentro, e chega um momento em que não dá mais para avançar, quando esbarramos no mistério insondável, que a nossa mente não dá conta,  e então a única saída diante do mistério é poder se maravilhar. Aliás, os mistérios existem para explorar nossa capacidade de se maravilhar, como bem definiu Leonardo Boff, "o ministério nos mantém sempre na admiração até o fascínio, na surpresa até a exaltação".

Entre os orientais, a compreensão de insondabilidade da Divindade está expressa na competição do brahmodya, prática que acontecia entre os brâmanes e consistia em um retiro na floresta entre os participantes, os quais realizavam execícios espirituais que possibilitavam a alteração do nível de consciência. Depois, um desafiante fazia uma pergunta enigmática sobre a Divindade ao seu adversário, e este último teria que dar uma reposta adequada , porém inescrutável. O objetivo do duelo era esgotar todas as possibilidades de encontrar uma forma verbal que definisse o brahman (divindade para eles) e, portanto, colocar o opositor diante do silêncio do inescrutável. Quem reduzisse o oponente ao silêncio venceria a competição. E era somente neste momento de silêncio, quando a insuficiência das palavras e a consequente impotência do discurso humano se faziam evidentes, o brahman se revelava.

O silêncio arrebatador dos brâmanes não dava espaço para interpretação e compreensão conscientes.Talvez seja mesmo o rigor da interpretação que nos afasta da essência dos objetos de nossa visão e relacionamento. Existe uma maneira intuitiva de se capturar as coisas, que nos permite a lisura delas e que dispensa as interpretações racionais que nós, reles mortais, precisamos fazer para dar sentido ao mundo. Talvez possamos dizer que se trata de uma interpretação intuitiva, fora do nível racional da consciência. Bonhoffer, ao descrever sua impressão diante de uma obra de arte, comentou que "uma obra de arte, vista com clareza, inteligência e compreensão, atinge o inconsciente", de sorte que "ou se vê a coisa intuitivamente ou não se vê (...), por isso deve-se esforçar para se entender a obra enquanto se olha para ela, porque interpretação em demasia não significa melhor compreensão artística".**

Temo que o rigor da interpretação nos esteja pondo cada vez mais distante de Deus, pois a apreensão do Divino, segundo a maneira de pensar bonhoffiana, é como se deslumbrar diante de uma obra de arte, independe de quaisquer estratégias  de captura ou de diretrizes que direcionem nossa busca, acontece da maneira mais natural, mais intuitiva, num momento microscópico, no campo do sentimento, na primeira vista do primeiro encontro, como um viajante que, ao virar a curva, se depara com uma árvore frondosa e florida, deslumbrante. Neste encontro repentino, ele apenas sente o objeto de sua visão, ele não pensa sobre, mas passada a primeira e mui rápida impressão, quando ele pensa sobre o objeto de sua visão, aí a informação do objeto já está distorcida por influências de seus preconceitos. Por isso me aproximo da teologia com cuidado, porque ela é apenas um pensar sobre Deus, permeado por séculos de tradições e preconceitos humanos. Chego, às vezes, a desconfiar que o Deus de nossas pregações seja somente o acúmulo de roupagens com que as várias culturas e tradições, cada qual com seus preconceitos e interesses egoístas, vestiram a percepção original, simples e pura da Divindade.

Eu já tive a experiência frustrante de tentar capturar o incapturável, de conter Deus numa forma e entender a maneira como Ele opera. Sai da escola de teologia com uma imagem formatada de Deus e fui para o relacionamento com Ele em oração, pensando que o repertório de conhecimentos que adquiri o tornaria capturável, mas, para minha surpresa, Ele sempre acabava escapando. Com essas experiências, a agente percebe, felizmente, a nossa limitação, restando-nos como única saída adorar, maravilhado ante o mistério insondável.

Deus e mistério têm tudo a ver um com o outro, por isso o mistério é essencial para a concepção de Deus. Isso mesmo: Ele se concebe essencialmente no mistério. O encanto, perplexidades e controvérsias a seu respeito residem no mistério, nas fantasias originadas da curiosidade pelo desconhecido que persiste em não se revelar. Se se revela, desencanta, perde o provocar do suspense e acaba no lugar comum. É lá que Deus se concebe, está e se esconde: no lugar inacessível do mistério mais profundo, revelando aqui e ali apenas uma partícula microscópica de si, para aguçar nossa curiosidade e atiçar nossas fantasias em relação a Ele. Ele se esconde para inspirar sentimento de adoração nos mortais. Porque só se rende adoração ao mistério, ao incapturável, ao inacessível. Se a Divindade se revelasse plenamente, não levaria muito tempo para que fosse desprezada e, talvez, a nossa frustração e intolerância a dependurassem novamente numa cruz.  

Mas eu diria que Deus é incapturável porque a própria vida ou existência que, à minha maneira de enxergar, é o ponto de partida para a busca da compreensão de Deus, é também incapturável.  Às vezes eu me pego angustiado tentando relacionar fatos, experiências, querendo montar um quebra cabeça que revele uma compreensão satisfatória da vida, mas depois de tanto sofrimento, me deparo com um mistério insondável. E concluo que a vida é este quebra-cabeça imontável desfalcado das peças dos   livros que não conseguirei ler, dos lugares que nunca visitarei, das amizades que não farei, das pessoas que não poderei conhecer e... enfim, das possibilidades que nunca conseguirei explorar, para me pôr diante da cruel angústia dessa incapturabilidade da existência.

O nó que não desata é esta perplexidade ante a dimensão infinita de possibilidades que se contrasta com a nossa vil e absurda finitude. O mistério, a incompreensão, a finitude absurda....  Não será essa curiosidade insaciável  que nos move? Diante da ignorância incomensurável, resta-nos viver, experimentar e se maravilhar com o mistério. Talvez se compreendêssemos a vida, ela perderia o sentido. Da mesma forma que Deus só é Deus porque está envolto em mistério, a vida só é vida porque está cercada de neblina.

Mas para dar conta da angústia do mistério, tanto em relação a Deus quanto em relação à vida, nós desenvolvemos a capacidade de recorte/de síntese. O mistério somente se pode desvendar dentro do limitado recorte da realidade que fazemos. Foi assim que os antigos criaram os mitos e as religiões, cada qual com seus dogmas e crenças, como metáforas de uma realidade em si mesma insondável. E nós criamos nossos conceitos em relação à vida, nossos hábitos e crenças que são compartilhados por uma sociedade, grupo ou  então peculiar ao indivíduo. Porque a vida só pode ser compreendida e capturada dentro da metáfora da religião que abraçamos, dos acordos sociais que fazemos, dos mitos e fantasias que constituem os indivíduos que somos. Da mesma forma este Deus, Ele só se pode ser compreendido, amado e capturado dentro do recorte que fazemos, de acordo com as limitações que temos. Se suspendemos o recorte, tudo vira mistério. E de vez em quando é preciso abrir mão do recorte, das metáforas, dos conceitos, dos preconceitos, essas coisas por demais pequenas,  e deixar o mistério nos tocar, nos maravilhar, impressionar... para que possamos dar a verdadeira e devida adoração a Deus e possamos celebrar devidamente a vida.

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