quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

VISÃO PANORÂMICA DO PENTECOSTALISMO

Josafá R. Lima

Natureza do pentecostalismo.

O pentecostalismo é o movimento de ordem religiosa que mais cresce em todas as partes do mundo. Só no Brasil, somam cerca de 25 milhões de pentecostais, o que faz deste país o mais pentecostal do mundo. (Oliveira, 2013). O que caracteriza o pentecostalismo é a crença de que o falar línguas estranhas (glossolalia), fenômeno ocorrido com os discípulos de Jesus no dia de Pentecostes (At 2), sempre esteve a disposição dos crentes de todos os tempos, inclusive os de hoje. Não só o batismo com o Espírito Santo, mas também os dons do Espírito, catalogados por Paulo no capítulo 12 de sua primeira carta aos coríntios, estariam ainda hoje em evidência na vida da igreja de Cristo.
Diferentemente dos protestantes históricos, que defendem a ideia cessacionalista (a concessão do batismo e dons do Espírito Santo aos crentes se restringiu aos dias dos apóstolos), acreditam que Deus continua a agir, por meio de seu Espírito, da mesma forma que agia na igreja primitiva, batizando crentes com o Espírito Santo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo dons e bênçãos espirituais, realizando milagres, dialogando com seus servos, interferindo na história e concedendo evidências gritantes de seu supremo poder no mundo e negócios dos humanos.
      As manifestações desses sinais fazem com que os cultos da maioria dessas igrejas sejam muito barulhentos e movimentados, com saltos, danças, giros, sapateados, carreiras, choros, risos, levantar de mãos, bater de palmas e emissões de sons ininteligíveis. Os pregadores normalmente mostram uma eloquência que parece de ordem sobrenatural na pregação, ministração de curas, exorcismo e declaração de bênçãos. Em casos mais extremos, acontecem arrebatamentos de sentidos e êxtases. Isso faz com que os pentecostais sejam conhecidos como povo barulhento e criticados por alguns seguimentos do cristianismo histórico, alguns chegando mesmo a comparar as manifestações pentecostais com fenômenos ocorridos em trabalhos religiosos afrodescendentes.

Origem do Pentecostalismo.

      O Pentecostalismo como um movimento religioso mundial estende raízes ao evento histórico do Dia de Pentecoste (Atos 2), porém com conotações bem diferentes daquele evento original. Este movimento barulhento que hoje vemos tem relação com o avivamento que varreu a América do Norte no século 19 e teve sua maior expressão no histórico Avivamento da Rua Azusa, tendo como elemento determinante em suas características atuais a presença dos negros e das mulheres (Oliveira, 2004).
     Finda a evangelização do mundo da primeira igreja, com a oficialização do Cristianismo como religião do império romano, houve o arrefecimento das manifestações como alegadas por pentecostais. A igreja começou a se envolver em controvérsias teológicas e escanteou a doutrina do Espírito Santo. Com exceção de fagulhas isoladas de manifestações pentecostais que aconteciam algures, a igreja passou toda a Idade Média desprovida desta experiência. Somente no final do século 18 e início do século 19, um grande movimento fez surgir o movimento pentecostal como nós o conhecemos hoje, o qual por algum tempo se restringiu aos limites das fronteiras norte americanas até que ganhou proporções mundiais a partir do histórico Avivamento da Rua Azusa.

A importância do Movimento da Rua Azusa.

      As manifestações espirituais ocorridas na Rua Azusa entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que se tornou um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).
      Em resposta às orações dos que ali se congregavam, conta-se que os crentes começaram a ser batizados com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o movimento, outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com o Divino, outros eram apenas curiosos. (Araújo, 2007, p. 605).
      Convém atentar para o fato de que o movimento da Rua Azusa tinha a cara daqueles que o começaram. Era um pequeno grupo de afrodescendentes que, sob o suposto poder de Deus, provocava barulhos eletrizantes e estridentes. Ressalte-se o fato de que começou com um pequeno grupo de crentes afro americanos, expulsos da Primeira Igreja Batista de Los Angeles, liderados primeiramente por uma mulher, depois por um humilde pregador, filho de ex-escravos, sem cultura, com limitados dotes de oratória e cego de um olho. Podemos mesmo afirmar que a igreja pentecostal tem uma “origem negra”.

Uma observação cuidadosa permite notar que tanto o pentecostalismo americano quanto o brasileiro abraçaram o povo mais carente – e, como consequência, o povo negro. É importante perceber que, nas várias denominações do pentecostalismo clássico no Brasil, a participação de negros desde sua origem é uma característica marcante. Muitos negros tiveram atividades importantíssimas na formação de várias igrejas, ou mesmo de denominações pentecostais em seus diversos segmentos. (Oliveira, 2004, p. 30).
Citando W. Hollenweger, Florêncio Galindo diz que o pentecostalismo clássico é produto do encontro entre uma espiritualidade especificamente católica e a espiritualidade protestante dos antigos escravos negros do sul dos Estados Unidos. (Oliveira, 2004, p. 26).

A alegria, a irreverência e a extroversão dos negros deram de alguma maneira o tom estridente e barulhento do Movimento Pentecostal. Era o tempo da discriminação racial no sul dos Estados Unidos, e o professor de Seymour era simpatizante deste sistema, permitindo que seu aluno negro assistisse suas reuniões somente no corredor ao lado da sala onde as aulas aconteciam. Como se pode ver, o movimento tem forte influência do negro desde sua origem.
Se imaginarmos que se tratava mesmo de uma ação divina, o interesse da Divindade pode ter sido usar pessoas de costume festivo, que sob a influência deste poder, provocasse barulhento eletrizante, a fim de atrair a atenção de todos para o que estava acontecendo ali. A graciosidade e espírito festivo dos negros eram indispensáveis.
      Ao chegar ao Brasil em 1910, não foi diferente, a mensagem pentecostal encontraria terreno fértil numa nação formada em grande parte por pessoas afrodescendentes, índios, negros e mulatos, de maioria pobre. Alderi de Matos aponta dentre as razões da expansão pentecostal na América Latina, as vicissitudes históricas da obra evangelística e pastoral católica, o limitado trabalho das denominações protestantes, o misticismo das culturas ibero-americanas, os graves problemas econômicos, políticos e sociais. Ou seja, o pentecostalismo vai proliferar a partir da ineficiência de igrejas históricas, dos graves problemas econômicos e sociais, do misticismo característico de nosso povo e de seu caráter festivo. Inicialmente o crescimento se dá lentamente, até que estoura a partir da década de 50.
      Outrossim, como observado por Oliveira (2004), o pentecostalismo que, diferentemente das igrejas protestantes históricas, surgiu do avivamento iniciado por um negro e filho de escravos, ao chegar ao Brasil vai se aproximar dos mais pobres e negros.
Oliveira (2004) esclarece que no Brasil os negros fizeram opção pelo Pentecostalismo, haja vista que a maioria dos negros evangélicos participa do Movimento Pentecostal.  Entre outras razões para a adesão dos negros ao Pentecostalismo, Oliveira cita a religiosidade do negro e o espírito festivo deste.

A primeira dela, embora não hereditária, mas que salta aos olhos, é a religiosidade do negro. Após sofrer todas as atrocidades possíveis no tempo da escravidão, a raça negra no Brasil conseguiu manter uma relação com o sagrado diferente das outras raças imigrantes no país.
[...] a comunidade negra manteve-se coesa na religião. Essa religiosidade tende a ser mais participativa por não se sustentar apenas em conceitos de uma teologia abstrata e metafísica – uma religiosidade na qual a fé torna-se real também pelo fato de o negro ter, em sua negritude e origem, uma relação com a natureza que o faz perceber a ação de Deus em todas as instâncias da vida e do cotidiano. (p. 50).
A outra característica da comunidade negra que favoreceu sua identificação com o Movimento Pentecostal é a espontaneidade e alegria, traduzidas no carisma. Esse é um traço fundamental da negritude. O negro é espontâneo e alegre. O carisma do negro se revela no jeito de ser povo, no modo de viver, sobreviver, dançar e sorrir. (ps. 51,52).

Por falar em caráter festivo e uso do corpo como forma de expressão, é pertinente citar que foram os negros que legaram ao mundo estilos musicais como o rep, o breake e o samba. Ademais, a história dos negros que vieram para o Brasil está intrinsecamente ligada à religiosidade que enfatiza a dança, os ritmos, o batuque e a sensualidade (Oliveira, 2004). Não há, pois, como separar sua cultura de seus rituais religiosos, uma vez que o corpo é muito utilizado nas religiões afro, e não há como estes negros migrarem para outras religiões, como o cristianismo, e não afetá-las com sua cultura e gingado. Por isso que dizemos que muito dos movimentos que ocorrem nos cultos pentecostais, mormente nos êxtases, tem a ver com a influência da cultura negra, talvez por isso haja similitude entre alguns trejeitos dos cultos pentecostais e dos movimentos cultuais afrodescendentes.
Nossa teoria é a de que a influência vem de fontes diferentes, mas a reação ao pode é de ordem cultural.

Postar um comentário