sábado, 29 de maio de 2010

As nuances da alma humana (por Bocage)

Numa conversa sobre belos poemas, uma colega me disse que não gosta de versos tristes, por isso lê apenas os que enaltecem a vida e a põem para cima. Comentei com ela que há aqueles que vão à poesia buscar ajuda terapêutica e há outros que recorrem aos versos a fim de se impressionarem com as nuances da alma humana. Por falar em nuances da alma humana, acho que ninguém as descreveu melhor do que Bocage. Vejam estas pérolas.


A Filosofia Prestes A Ceder Aos Golpes da Adversidade

Tenho assaz conservado o rosto enxuto
Contra as iras do Fado onipotente;
Assaz contigo, ó Socrates, na mente
dor neguei das queixas o tributo:

Sinto engelar-se da constância o fruto,
Cai no meu coração nova semente;
Já não me vale um ânimo inocente;
Gritos da natureza, eu vos escuto.

Jazer mudo entre as garras da amargura,
D'alma estoica aspirar a vã grandeza,
Quando orgulho não for, será loucura.

No espírito maior sempre há fraqueza,
E, abafada no horror da desventura,
Cede a filososfia à natureza.


Conformidade com os decretos da Providência


A frente que de louro ergui vencida,
Ufana do louvor e da inocência,
Jaz por efeito de hórrida aparência,
Curvada pelo opróbrio e denegrida;

De mil gratos objetos guarnecida
Rutilava a meus olhos a existência;
Hoje, amável prazer, na tua ausência
Parece aos olhos meus um ermo a vida.

De quantas cores se matiza o fado!
Nem sempre o homem ri, nem sempre chora,
Mal com bem, bem com mal é temperado;

Os estados variam de hora em hora;
Sábio o mortal que em um, que em outro estado
Dsposto a tudo, a Providência adora.

Bocage.
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