quinta-feira, 24 de junho de 2010

Paulo, um modelo de líder servidor

“E nós, cooperando com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão” (2 Co 6.1).

Como continuação de sua defesa ante as acusações de alguns crentes de Corinto, Paulo apresenta, no capítulo seis de sua segunda carta àquela igreja, um histórico pessoal de dedicação e cuidado para com a igreja de Cristo. Ele relata suas muitas tribulações, que resultaram do seu serviço prestado ao Reino de Deus, como cooperador de Cristo (v. 1), bem como a sua preocupação por viver uma vida ilibada, a fim de evitar censura ao seu ministério (v. 3). Ressalta-se neste capítulo a sua liderança baseada no serviço, que ele copiou do Senhor Jesus, o qual disse que quem quiser liderar tem que primeiramente servir (Mt 20.26). Nesta oportunidade, vamos, portanto, tratar das qualidades de liderança deste homem que tanta influência causou nos cristãos de todos os tempos, aprender com o seu altruísmo, sua prontidão em sofrer as maiores agruras para promover o bem-estar dos servos de Deus, suas fantásticas experiências, enfim com o grande líder- servidor que ele foi.

I. ENTENDENDO LIDERANÇA SERVIDORA

No best-seller O Monge e o Executivo, o consultor James C. Hunter define liderança como habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente na busca dos objetivos identificados como sendo para o bem comum. Hunter apresenta um novo modelo de liderança, já há algum tempo, muito disseminado e praticado por grandes corporações no mundo inteiro, o qual rompe com o velho modelo piramidal que consiste em uma pirâmide dividida em cinco colunas, onde, numa escala decrescente, estão o presidente no topo, o vice-presidente, gerentes e supervisores na sequência, e na base, os empregados. Segundo este velho paradigma, toda a corporação tem o olhar voltado para cima, objetivando fazer o chefe feliz, muitas vezes ignorando as necessidades dos clientes.

No modelo apresentado por Hunter, a pirâmide se inverte, os colaboradores assumem o topo e o presidente assume a base; a idéia é que o objetivo do presidente e de seus auxiliares mais diretos é trabalhar para atender às reais necessidades (necessidades, não vontades)dos colaboradores, a fim de que estes, tendo as suas necessidades atendidas, possam dar o melhor de si aos clientes. Este novo modelo de liderança é denominado pelo autor em apreço de “liderança a serviço” e, segundo ele, foi copiado de Jesus Cristo, o qual ensinou que a influência e a liderança devem ser construídas sobre um espírito de servo (ver Mt 20.26-28).

Como definiríamos um líder servidor? Segundo a visão moderna de administração, um líder-servidor é um indivíduo que, ao invés de liderar tendo por base uma relação superior- subalternos, procura servir aos seus liderados e atender às necessidades destes, e assim os constrange a trabalhar entusiasticamente em prol do bem comum. É um estilo de liderança baseado na “autoridade” que só se constroi com serviço e auto-sacrifício.

O especialista em consultoria Hans Finzel, ao ser questionado sobre qual o maior erro que se comete em liderança, respondeu: “Acredito que o erro número 1 em liderança é a arrogância autocrática do tipo líder-liderado”. Finzel comenta que aquela velha história de liderança autoritária, autocrática, dentro de um modelo líder-liderado, é o maior e mais freqüente pecado que se tem cometido em liderança de geração em geração.

A atitude autocrática X a liderança de servo

Na Bíblia (1Rs cap. 12) , temos um fato bem elucidativo sobre dois modelos de liderança. O povo de Israel se apresentou ao novo rei daquela nação, Roboão, o qual havia acabado de assumir o lugar de Salomão, seu pai, e disse: “Teu pai agravou o nosso jugo; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai e o seu pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos”. O rei foi se aconselhar com os anciãos de Israel sobre como deveria responder aos reclamantes e teve o seguinte conselho: “Se hoje fores servo deste povo, e o servires, e, respondendo-lhe, falares boas palavras, todos os dias serão teus servos”. Deixou, porém, Roboão o conselho dos anciãos e foi se aconselhar com os jovens, os quais lhe disseram: “Assim falarás a este povo: Meu dedo mínimo é mais grosso do que os lombos de meu pai. Assim que, se meu pai vos carregou de um jugo pesado, ainda eu aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, mas eu vos castigarei com escorpiões”. Roboão seguiu o conselho dos jovens e a conseqüência foi a divisão do reino de Israel.

No seu livro 10 Erros que Um Líder não Pode Cometer , Hans Finzel discorre sobre estas duas abordagens atagônicas, e ele endereça a seguinte pergunta a todas as pessoas em posição de liderança: “SUPERIOR OU SERVO?” para, em seguida,definir bem pragmaticamente o que é uma liderança de servo.

Na verdade, parece que todos na nossa organização descansam sobre meus ombros, e eu estou no topo de uma pirâmide invertida. Passo horas a fio ajudando os outros a ser eficientes, fornecendo-lhes os fatos, a energia, os recursos, os meios de trabalho, as informações ou qualquer outra coisa que eles precisam para fazerem um trabalho eficaz. A maior parte do meu dia é gasta deixando de lado minhas prioridades para ajudar os outros a realizarem as suas. Às vezes isso requer horas de trabalho nos mínimos detalhes ao lado desses trabalhadores para ajudá-los a fazer o seu trabalho". A liderança de servo exige que venhamos a sentar e chorar com os que choram dentro de nossas organizações. Requer que nos rebaixemos e nos sujemos quando há necessidade de pegar no pesado. Não há nada na minha organização que qualquer um faça, que eu não esteja disposto a fazê-lo, caso seja para o bem de todos nós.

3. O Modelo Ideal

Quando se trata de liderança servidora, os estudiosos (pelo menos os que eu já li) são unânimes em afirmar que Jesus é o maior exemplo. No capítulo 20 do Evangelho de Mateus, Jesus repreende a mãe dos filhos de Zebedeu, quando ela lhe pede que os seus dois filhos se assentem um à esquerda e outro à direita do Mestre em um eventual reino humano deste. A resposta de Jesus mostra duas abordagens conflitantes em liderança: “Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados e que os grandes exercem autoridade sobre eles [modelo autocrático]. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja o vosso serviçal; e qualquer que, entre vós, quiser ser o primeiro, que seja vosso servo, bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir [liderança de servo] e dar a sua vida em resgate de muitos”.

Todavia O maior exemplo dado pelo Mestre está no capítulo treze do evangelho de João, quando na noite em que foi traído, Jesus tomou uma bacia com água e lavou os pés dos seus discípulos, ato tão baixo na escala social da época, que Pedro recusou inicialmente que o Mestre lavasse seus pés. Mas Jesus aproveita a resistência de Pedro para explicar o seu modelo de liderança de servo: “Eu lhes dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (v 15).

O comentário de Hans Finzel sobre esta atitude de Jesus é muito pertinente.

A primeira coisa que percebo nessa passagem é o alcance estupendo do poder e da autoridade de Jesus. O fundamento de sua servidão foi a verdadeira realização de seu poder, posição e prestígio. Ele era o próprio Deus encarnado e tinha todo o direito de ser ditador. Aliás, ele é o único homem que andou na face da terra com direito de ser um autocrata absoluto. Tendo isso como fundamento, Jesus demonstrou a liderança de servo, ao tirar a túnica, pegar uma toalha e lavar os pés de seus discípulos. Se eu estivesse lá naquela noite, teria ficado encabulado e sem palavras no momento de vê-lo pegar a toalha e começar a lavar os pés da primeira pessoa. Eu teria ficado envergonhado e humilhado, por não estar eu mesmo disposto a rebaixar-me à árdua tarefa do lavar pés. Contudo Jesus demonstrou que ele, podendo ser o maior entre seus discípulos, foi servo de todos.


II. PAULO, O SERVIDOR DE CRISTO

1. Paulo se descreve como cooperador de Deus no ministério da reconciliação.

Após falar sobre o ministério da reconciliação, o qual consiste na obra realizada por Cristo para reconciliar o homem pecador com Deus (2 Co 5.11-21), Paulo faz notório o seu papel de cooperador de Deus. É uma continuação do assunto anterior (o ministério da reconciliação), em que cooperar com Deus significa proclamar a obra expiatória do Senhor Jesus Cristo aos pecadores (1 Co 9.16).

O apóstolo estava muito cônscio de sua chamada para cooperar no serviço do Reino e do grande plano divino de associar pessoas em seu trabalho, como acontecera na igreja de Antioquia, quando o Espírito Santo ordenou que apartassem a Saulo e a Barnabé para a obra da evangelização (At 13. 2).

É importante lembrar que Paulo já havia falado na primeira carta aos coríntios sobre o seu papel de cooperador, juntamente com outros que, como ele, foram chamados para cooperar com Deus. Trata-se de uma dissensão ocorrida naquela igreja em torno dos nomes de Paulo, Pedro e Apolo, quando uns diziam ser de Paulo, outros diziam ser de Apolo, e outros diziam-se de Pedro. Paulo os repreende dizendo que tanto ele, quanto Apolo e também Pedro eram apenas cooperadores no cuidado da lavoura de Deus, a Igreja (1 Co 3.1-9).

O espírito despretensioso do apóstolo Paulo é um grito de alerta para líderes eclesiásticos de nossos dias. Ele poderia muito bem, em sua defesa, ter reivindicado o direito de fundador da igreja de Corinto (At 18.1-17), ou ter-lhes lançado em rosto que tudo o que eles eram devia-se ao trabalho de suas mãos (de Paulo), ter cobrado respeito e usado do poder que tinha, no entanto ele preferiu apresentar-se como um cooperador de Deus. O verdadeiro líder não terá desejo algum de dominar sobre a herança de Deus, mas será humilde, brando, dedicado totalmente ao serviço do Mestre.

A Bíblia de Estudo Pentecostal traz um comentário muito satisfatório sobre a nossa cooperação do serviço de Deus; vale a transcrição.

A obra de Deus envolve muitos indivíduos diferentes com uma variedade de dons e habilidades. Não existem estrelas nessa tarefa, somente membros da equipe executando suas funções específicas. Podemos nos tornar membros úteis da glória de Deus, colocando de lado nosso desejo de receber a glória pelo que fazemos. Não busque o elogio que vem das pessoas – este é comparativamente desprezível. Antes busque a glória de Deus. ( Nota sobre 1 Co 3.7-9; p. 1586).

2. Paulo, um modelo de líder servidor

Paulo aprendeu com Jesus que a essência da liderança é servir (Mt 20.25-28), por isso que procurava imitar em tudo o seu Senhor. Ele chegou a dizer aos crentes de Corinto: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co 11.1).

Já vimos que liderar é influenciar – influenciar por meio de autoridade e não do poder. Então influência é algo que deve ser adquirido com muito trabalho e sacrifício, aliás, servir é sinônimo de auto-sacrifício, é muitas vezes abrir mão dos próprios interesses, a fim de promover o bem dos outros. No que diz respeito a sacrificar-se em prol dos outros, Paulo foi insuperável na história cristã:

“Como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar” (1 Co 10.33).

“Eu, de muito boa vontade, gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Co 12.15).

“Portanto tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Tm 2.10).

“Além das coisas exteriores, me prime cada dia o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece que eu não enfraqueça? Quem se escandaliza que eu não me abrase?” (2 Co 11.28,29).

“E ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós” (Fl 2.17).

O líder servidor não age egoisticamente, antes serve ao povo de Deus com espírito voluntário e solícito. E eu não conheço ninguém que conseguiu superar o apóstolo Paulo em altruísmo e serviço prestado à igreja de Deus. Realmente, ele é um modelo de líder para todos os tempos.


II. A ABNEGAÇÃO DE UM LÍDER SERVIDOR (6.3-10)

1. Os cuidados de um líder servidor

Liderar sobre a herança de Deus implica em muita responsabilidade, porque o líder é sempre um referencial para os seus liderados. Paulo tinha consciência disso, por isso apresenta aos coríntios a sua reputação ilibada, fruto de seu cuidado para em tudo ser o exemplo dos fiéis, como um meio de defender a autenticidade de seu ministério. “Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado” (2 Co 6.3).

Liderar não é só uma questão de habilidade e serviço, é também uma questão de caráter. Como diz o pastor Josué Gonçalves, tematizando uma de suas pregações, não basta ter talento, é indispensável ter[bom] caráter. As escolhas que fazemos no dia-a-dia, a forma como nos comportamos nos lugares aonde vamos, a leitura que as pessoas fazem de nós, acredite, tudo isso vai refletir sobre aqueles que estão sob a nossa influência. Paulo era um homem exemplar e ainda assim estavam questionando o ministério dele, imaginem o que dirão daqueles cuja vida tem sido um antro de escândalos.

2. As experiências de um líder servidor.

Quando Jesus apareceu a Ananias e ordenou que fosse ao encontro de Saulo, a fim de que orasse por ele, tendo Ananias questionado sobre a vida pregressa de Saulo, como ele perseguia a igreja, disse o Senhor a Ananias: “E eu lhe mostrarei o quanto deve padecer pelo meu nome” (At 9.10-16). Agora Paulo estava mostrando aos coríntios o cumprimento daquilo que o Senhor havia falado ao seu respeito: uma bagagem de experiências que encerrava aflições, necessidades, angústias, açoites, prisões, tumultos, trabalhos, vigílias e jejuns, argumentos irrefutáveis para aqueles que estavam questionando a integridade de seu ministério. Exemplos de paciência e abnegação falavam mais alto do que palavras. Por isso a necessidade de um homem de Deus ser experimentado e aprovado para ter que responder, muitas vezes silenciosamente, àqueles que tentam questionar a autenticidade de seu ministério. Aos crentes da Galácia, Paulo já havia dito: “Desde agora ninguém me inquiete, porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus” (Gl 6.17).

3. Os elementos da graça que sustentaram nestas experiências (vv. 7-10)

Os elementos que Paulo cita nos versículos 6 nos remetem para as virtudes do fruto do Espírito em Gl 5.22. Tratam-se dos recursos que o Senhor Jesus colocou a disposição dos seus servos para se manterem firmes ante as agruras da vida e os sofrimentos inerentes ao ministério cristão (Mt 5.11; Fl 1.29). O desejo de Deus é incutir em cada crente o caráter de Cristo, mediante a ação do Espírito Santo em sua vida. Para entendermos a argumentação de Paulo nesta série de versículos, é necessário não perder de vista o versículo quatro, quando ele diz: “Antes como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo...”. A partir daí se compreende que o apóstolo, assim como era um homem profundamente experimentado nas tribulações, era também um homem cuja vida abundava na virtude do Espírito Santo, o que lhe possibilitava uma motivação constante no serviço prestado aos irmãos: “na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na Palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à esquerda e à direita” (2 Co 6.6,7).


CONCLUSÃO

O modelo de liderança a serviço vem ultimamente ganhado força no mundo inteiro. muita literatura tem sido produzida sobre o assunto. Isso é promissor porque de alguma forma estão voltando os olhos para Jesus, o qual, pelo seu próprio sacrifício, conquistou uma multidão incontável de seguidores no decorrer da história. Que esta realidade venha despertar a igreja de Cristo para o fato de que o que ela tem de mais importante são as pessoas, mais importantes do que a própria instituição, e, portanto, tudo o que fizermos deve objetivar a edificação do corpo de Cristo. Se alguns acharem que o exemplo do Mestre de Nazaré é muito alto para ser atingido, que sigam o exemplo de Paulo, que disse: “Sede meus imitadores, assim como eu sou imitador de Cristo (1 Co 11.1).



BIBLIOGRAFIA
Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal.

Bíblia de Referência Thompson.

Lições Bíblicas CPAD/ 1º trimestre de 2010.

FINZEL, Hans. Dez erros que um líder não pode cometer. São Paulo: Vida Nova, 1997.

SANDERS, J. Oswald. Paulo, o líder: uma visão para a liderança cristã hodierna. São Paulo: Editora Vida, 2007.

JONES, Laurie Beth. Jesus, o maior líder que já existiu. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

HUNTERS, James C. O monge e o executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

________ Como se tornar um líder servidor. Rio de Janeiro: Sextante,2006.



Postar um comentário