segunda-feira, 28 de junho de 2010

A soberania de Deus e o Livre Arbítrio Humano

“Pois o Senhor, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno” (Dt 10.17).


Deus é soberano, porém,  apesar de sua soberania, concedeu livre-arbítrio aos homens. Embora estejamos cônscios da complexidade e das controversas que tem gerado na história da Teologia Cristã, buscaremos nesta oportunidade um esclarecimento bíblico sobre o assunto. O que realmente significa “soberania de Deus”? “Qual o grau de liberdade humana?” “Como conciliar soberania divina com liberdade humana? Ou como casar a responsabilidade humana e a graça de Deus no processo da salvação?” São estas e outras questões correlatas que procuraremos esclarecer aqui.

A ONIPOTÊNCIA DE DEUS

A onipotência é um dos atributos naturais de Deus e significa que Ele é poderoso para executar tudo o que a sua soberana vontade conceber. O vocábulo onipotência deriva-se de dois termos latinos: omni, tudo, e potens, poderoso, e significa, portanto, “todo-poderoso”. Realmente, segundo a Bíblia, não há limites quanto ao poder de Deus em fazer o que Ele decide fazer. Sua onipotência encontra-se explicitamente mencionada nas Escrituras: na retórica pergunta que o anjo fez a Abraão: “Existe alguma coisa impossível para o Senhor?” (Gn 18.14); na declaração de Jeremias: “Nada é difícil demais para ti” (Jr 32.17); do anjo Gabriel a Maria: “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1.37); de Jesus aos seus discípulos: “Mas a Deus tudo é possível” (Mt 19.26); na oração de Paulo pelos efésios: “Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera” (Ef 3.20); por fim, naquilo que o próprio Deus disse de si mesmo: “Ainda antes que houvesse dia, eu sou, e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; operando eu, quem impedirá?” (Is 43.13; cf Gn 17.1; Is 14.27; Ap 1.8). A onipotência de Deus está também patente na maneira como Ele criou, preserva e governa o universo. Segundo Hb 1.3, Ele é o Criador e sustentador do universo. Paulo diz que “nele tudo subsiste” (Cl 117); e ainda: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28). Os levitas já diziam: “Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles, e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora” (Ne 9.6).

A VONTADE DE DEUS

A vontade de Deus é a razão última e final pela qual todas as coisas acontecem. Nada neste vasto universo pode fugir do controle de sua soberana vontade. Segundo definição de Wayne Grudem, a vontade de Deus é o atributo pelo qual Ele aprova e determina dar origem a cada ação necessária para a existência e atividade de Si próprio e de toda a criação. As Escrituras afirmam a supremacia da vontade de Deus em muitas passagens. Para começar, todas as coisas foram criadas pela vontade de Deus: “... criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram criadas” (Ap 4.11). Paulo diz que Deus “faz todas as coisas segundo o propósito de sua vontade” (Ef 1.11). Daniel diz que os governos humanos acontecem conforme a vontade de Deus (Dn 4.32). Os eventos relacionados à morte de Cristo aconteceram segundo a vontade de Deus (At 4.27,28). Tiago nos aconselha a que vejamos todos os eventos da vida humana relacionados à vontade de Deus (Tg 4.13-15).

CONCILIANDO ONIPOTÊNCIA E VONTADE

A onipotência de Deus deve ser compreendida dentro da expressão de sua vontade, isso porque, apesar de Ele possuir poder infinito, não pode agir em dissonância com o seu caráter santo. Por isso que tivemos cuidado de definir a onipotência de Deus como a sua capacidade de fazer toda a sua vontade. O caráter santo de Deus delimita suas ações, impossibilitando-o de fazer algumas coisas. Por exemplo: Ele não pode mentir (Tt 1.2) nem pode negar-se a si mesmo (2 Tm 2.13). Embora o seu poder seja infinito, o uso que Ele faz desse poder é qualificado por seus outros atributos, e quando um atributo é isolado da totalidade do caráter divino, ou quando é enfatizado de forma desproporcional, podem surgir muitas compreensões errôneas.

A VONTADE DE DEUS E O LIVRE ARBÍTRIO HUMANO

Quando se afirma que tudo o que existe e acontece obedece à determinação da vontade de Deus, parece que se estar confrontando um outro ensino exarado nas Escrituras: o livre-arbítrio humano, pois se tudo acontece segundo a vontade divina, onde estaria a liberdade humana? Parecem duas premissas excludentes: Deus é soberano, logo o homem não é livre. Todavia, um exame cuidadoso das Escrituras pode nos ajudar a conciliar duas posições aparentemente irreconciliáveis.

Quando Deus criou o homem, Ele o fez segundo a sua imagem e semelhança (Gn 1.27), deu-lhe capacidade para discernir entre o bem e o mal (Gn 2.16), e lhe outorgou o direito de escolha (ver Dt 30.15). Não é contraditório dizer que Deus, soberanamente, delegou livre arbítrio a algumas de suas criaturas. Ele não tinha necessidade de assim fazer, mas o fez soberanamente. Por isso, apesar de ter poder para impedir as ações de quem quer que seja, Deus escolheu não interferir nas escolhas humanas (Gn 2.15-17; 3; 4.7; Dt 30.15). É neste aspecto que fomos feitos à imagem e semelhança do Criador: somos criaturas racionais, com a capacidade de fazer nossas próprias escolhas morais, até mesmo aquelas que contradizem a vontade divina. A esta atitude bondosa e respeitosa do Criador em relação às escolhas de suas criaturas chamamos de vontade permissiva de Deus. É dessa forma, portanto, que a Bíblia casa perfeitamente soberania de Deus e livre-arbítrio-humano.

Uma questão interessante que não podia se omitir aqui é sobre a aplicação da salvação. Paulo diz na carta aos Romanos que Deus nos predestinou a salvação por meio de Cristo (Ver 8.29,30). Alguns objetam que, se Deus predestinou alguns para a salvação, logo estes não são livres para escolherem que posição tomar em relação à oferta graciosa de Deus. Dizem que, neste caso, o livre-arbítrio humano e a soberania de Deus se excluem mutuamente, pois se é por predestinação, não há liberdade de escolha. Esse raciocínio não se sustenta quando analisamos o assunto sob o argumento da onisciência divina. O Eterno sabe de antemão o que cada pessoa fará com a sua liberdade e, se deliberadamente, aceitará ou não a graça salvífica, porém não interfere, apesar de que seu desejo é que todos os homens se salvem ao cheguem ao pleno conhecimento da verdade (ver 1 Tm 2.11).

VONTADE DIRETIVA E PREDESTINAÇÃO

Neste aspecto, a vontade de Deus não transige com o arbítrio humano. Sua soberania garante que todo o seu propósito será minuciosamente executado. Jó disse: “Bem sei eu que tudo podes e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido” (Jó 42.2). Isaías afirma: “Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem pois o invalidará? e a sua mão estendida está; quem pois a fará voltar atrás?” (Is 14.27). É Ele quem governa o universo e determina o que vai acontecer. Vale transcrever aqui um comentário de Wayne Grudem sobre a vontade diretiva de Deus:

Também consideraremos a liberdade de Deus como parte da vontade de Deus, mas ela passa a ser atributo separado. A liberdade de Deus é o atributo pelo qual Deus faz qualquer coisa que lhe agrade. Essa definição sugere que nada em toda a criação pode impedir Deus de fazer a sua vontade. Deus não é forçado por nada externo a Si próprio, e ele é livre para fazer qualquer coisa que deseje fazer. Nenhuma pessoa ou força pode jamais ditar a Deus o que ele deve fazer. Ele não está debaixo de autoridade alguma nem sob compulsão externa (GRUDEM, Wayne A. Manual de teologia sistemática. São Paulo:Vida, 2001, p 103).

É dentro deste contexto que surge a doutrina da predestinação, que permeia toda a Bíblia Sagrada, principalmente o Novo Testamento. O Senhor, em sua soberania, escolheu e predestinou um povo para ser conforme a imagem de seu Filho (Rm 8.29,30). Na carta aos Efésios, Paulo afirma: “Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença” e “ em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo conforme o bom propósito de sua vontade, para o louvor de sua gloriosa graça” (Ef 1.4-6). Todavia, a predestinação só pode ser corretamente compreendida à luz de outra doutrina bíblica: eleição. Eleição é a iniciativa divina de, antes da criação, ter escolhido um povo para Si, não com base em qualquer mérito do povo, mas pelo propósito soberano de Deus. Quando Paulo afirma que Deus escolheu para si um povo, ele está enfatizando que a salvação é obra exclusiva de Deus. Note que em Efésios 1.4, Paulo diz que nós fomos escolhidos nele [em Cristo]. Isso deixa claro que a eleição de Deus ocorre apenas para aqueles que estão unidos a Cristo mediante a aceitação de seu sacrifício vicário por meio da fé. Uma vez que Cristo foi eleito desde a eternidade (Mt 12.18; Is 42.1,6), todos os que se chegam a Ele são com Ele aceitos e predestinados à salvação, conforme a teologia paulina em Romanos 8.29,30. A processo eleição- predestinação não se trata de algo aplicado individualmente, mas coletivamente. Considere que Deus escolheu um povo para si (1 Pe 2.9,10); este povo é a sua igreja que está predestinada à salvação (Mt 26.18). Logo, como no comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal, a eleição de Deus é coletiva e abrange o ser humano como indivíduo somente a medida em que este se identifica e se une ao corpo de Cristo, a igreja verdadeira.

PREDESTINAÇÃO E LIVRE ARBÍTRIO

Predestinar significa destinar de antemão, escolher [os justos] desde toda a eternidade, reservar (dicionário o Globo). A Bíblia freqüentemente usa o verbo grego proorizo, “demarcar de antemão”, determinar antes”, “preordenar”, para traduzir a idéia segundo a qual Deus predestinou um povo para si desde tempos eternos, não com base em qualquer mérito previsto nas pessoas, mas somente por causa de seu beneplácito soberano. Esses versículos têm suscitado muitas controvérsias e mal-entendidos entre os estudiosos das sagradas letras.
Em Rm 8.28-30, lemos: “Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto. Porque os que dantes conheceu, também os predestinou [proorizo] para serem conformes a imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o Primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes também chamou, e aos que chamou, a estes também glorificou”. Na carta Aos Efésios, Paulo diz que Deus nos escolheu em Cristo antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença, e que em amor, Deus nos predestinou (proorizo) para filhos de adoção por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade (ver vv 4-6). Na seqüência, no versículo 11, Paulo reforça dizendo: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados [proorizo], conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho de sua vontade”. No livro do Apocalipse, João fala de pessoas cujos nomes foram escritos no livro da vida desde a fundação do mundo, como também de outras que não tiveram o mesmo privilégio (ver Ap 13.7,8; 17.8).
Para um estudo mais abrangente do assunto, é possível achar muitos outros versículos da mesma natureza, todavia, como nos limitamos à predestinação para a salvação, resta-nos salientar que quando os escritores neotestamentários falam sobre a razão de Deus nos ter salvado e reservado para si, nega totalmente que foi por causa de algum mérito nosso e enfatiza que foi única e exclusivamente pelo propósito soberano de Deus e de sua incomensurável graça que Ele nos concedeu em Cristo Jesus desde os tempos eternos (1 Tm 1.9). Isso é a doutrina da predestinação.

Bom, já vimos que a doutrina da predestinação é fato. Agora vamos para a segunda questão: os seres humanos têm ou não o livre arbítrio? Somos realmente livres? Bom, encontramos em Dt 30.19 o Senhor propondo dois caminhos diante dos filhos de Israel e lhes falando para escolher entre ambos. Nos escritos do Novo Testamento, vemos que Deus deseja que todos os homens se salvem. (1 Tm 2.4). E Pedro diz que “ele [Deus] é paciente com os homens, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pe 3.9). É dentro dessa perspectiva que o evangelho é ofertado a todos. Jesus mesmo lança o convite: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Da mesma forma, vemos um convite no final do livro de Apocalipse: “O Espírito e a noiva dizem: Vem. Quem tiver sede venha; e quem quiser beba de graça da água da vida” (22.17). Vemos então que há um convite constante para que os homens se arrependam (Lc 13.3; At 2.38) e creiam (Jo 3.36; At 16.31). Estes convites só podem ser feitos a pessoas que são capazes de ouvir e respondê-los por uma decisão de suas próprias vontades. Isso significa que fazemos escolhas deliberadas por cujas conseqüências nos responsabilizamos. Em relação a aceitar ou não o convite do evangelho, Jesus diz: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16.16). As Escrituras falam de nossa decisão de crer ou não como o fator que decidirá o nosso destino eterno. Este é o ensino do livre-arbítrio, segundo as Escrituras.

Sendo que a Bíblia enfatiza tanto a doutrina da predestinação como o ensino do livre-arbítrio, parece que estamos diante de um impasse (leia Rm 9.19). Como casar os dois ensinos que parecem mutuamente excludentes? É o que muitos teólogos têm tentado fazer do decorrer da história da Teologia, suscitando discussões e explicações das mais diversas ordens. A seguir mostraremos as interpretações mais conhecidas.

Existem duas teorias sobre a predestinação: a calvinista e a arminiana. A teoria calvinista vem de João Calvino;a teoria arminiana tem sua origem em Armínio, que foi discípulo de Calvino. Segundo os calvinistas, a salvação é algo que depende única e exclusivamente de Deus, e o homem não tem nenhuma participação. Dessa forma, Deus, em sua soberania, escolheu, desde a eternidade, salvar alguns, ao mesmo tempo em que resolveu não salvar outros. Os salvos estão incondicionalmente salvos, e os perdidos, incondicionalmente perdidos. Quando questionados sobre o fato de que, posto desta forma, a doutrina da predestinação exclui totalmente o livre arbítrio, respondem os calvinistas que o livre arbítrio é a capacidade de se fazer o que se quer, mas é Deus quem dá os desejos e afeições que controlam a ação. Esta explicação era apresentada por Jonathan Edwards. Argumentando assim, eles conseguem casar livre-arbítrio com predestinação.

Os arminianos divergem do calvinismo ao dizerem que a salvação é uma realização da livre graça de Deus, mas a pessoa tem a liberdade para rejeitar ou aceitar esta oferta graciosa. Com base no clássico texto de Romanos 8.29-31: Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes também chamou, e aos que chamou, a estes também glorificou”, os arminianos argumentam que Deus, na sua presciência, determinou, desde a eternidade, amar e redimir a raça humana através de Cristo. A predestinação supra referida diz respeito à igreja, passando a fazer parte as pessoas individualmente somente a partir do momento em que elas passam a fazer parte deste corpo coletivo mediante a fé permanente em Jesus. Os arminianos argumentam ainda que a predestinação (v 30) se aplica aos propostos de Deus referentes à eleição. Esta eleição, segundo o conceito arminianista, trata da escolha feita por Deus de um povo para si, porém é uma escolha feita “em Cristo”. O povo escolhido é a “Igreja Verdadeira”, incluindo aí todas as ocorrências que abrangem os indivíduos. Os comentaristas da Bíblia de Estudo Pentecostal apresentam uma interpretação parecida:

A PREDESTINAÇÃO (gr. Proorizo) significa “decidir de antemão” e se aplica aos princípios de Deus inclusos na eleição. A eleição é a escolha feita por Deus, “em Cristo”, de um povo para si mesmo (a igreja verdadeira). A predestinação abrange o que acontecerá ao povo de Deus (todos os crentes genuínos em Cristo).
(1) Deus predestina seus eleitos a serem: (a) chamados (Rm 8.30); (b) justificados (Rm 3.24); (c) glorificados (Rm 8.30); (d) conformados à imagem de seu Filho (Rm 8.29); (e) santos e inculpáveis (1.4); (f) adotados como filhos (1.5); (g) redimidos (1.7); (h) participantes de sua herança (1.13; Gl 3.14); (i) criados em Jesus Cristo para as boas obras (2.10).
(2) A predestinação, assim como a eleição, refere-se ao corpo seletivo de Cristo (i.e., a verdadeira igreja), e abrange indivíduo somente quando incluso neste corpo mediante a fé viva em Jesus Cristo (1.5,13; cf. At 2.38-41; 16.31). (Bíblia de Estudo Pentecostal, p 1808).

OBS. Não foi sem propósito que demos mais ênfase à apresentação da segunda interpretação, deixando assim claro a nossa posição em favor da mesma. Isso não significa que o assunto está fechado e que haja respostas para todas as questões levantadas sobre este difícil assunto. Tanto calvinistas quantos arminianos se acham às vezes em dificuldade diante de algumas objeções levantadas, mas não é o caso de discutirmos aqui, até porque o nosso propósito é esclarecer, não confundir. Paulo, quando tratou do assunto na carta aos Romanos (cap 9), previu questões difíceis de serem respondidas, porém o apóstolo não procurou lançar ainda mais confusão na cabeça de seus leitores com respostas superficiais, antes atribuiu a Deus o direito de agir conforme o seu próprio critério sobre as suas criaturas: “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto quem resiste à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu que a Deus repicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma forma fazer um vaso para a honra e outro para a desonra?” (Rm 9.19,20). Vale salientar ainda neste tópico a recomendação do pastor Elinaldo Renovato para que evitemos os extremos neste assunto: nem uma predestinação fatalista - o que a Bíblia não ensina -, nem uma livre-escolha absoluta, como se a salvação dependesse de algum mérito humano. Por uma questão de segurança, atentemos para a explicação paulina: Deus é soberano e tem o direito de agir como bem lhe convier.

4. A obra redentora e a presciência de Deus. Já vimos que os salvos foram predestinados para a salvação mediante a obra redentora de Cristo desde tempos eternos (1 Tm 1.9; 2 Ts 2.3). Surgem novamente as objeções: se Deus escolheu alguns, Ele rejeitou outros? Como um Deus de amor e de Justiça agiria dessa forma? Uma forma coerente de responder a essa objeção seria entender que Deus pode predeterminar as ações humanas pelo menos de duas maneiras. Primeiro, Ele pode predeterminar com base nas livres escolhas já feitas, esperando para ver o que a pessoa vai fazer. Segundo, Ele pode predeterminar com base na sua onisciência, sabendo de antemão o que a pessoa fará de acordo com o seu pré-conhecimento (1 Pe 1.2). Estas posições são muito coerentes com o livre-arbítrio. Deus sabe antecipadamente como cada pessoa agirá no exercício de sua liberdade, então não seria paradoxal dizer que Deus pode determinar o futuro das pessoas pelo livre-arbítrio delas. Sendo assim, o futuro é determinado do ponto de vista do conhecimento infalível de Deus, mas livre do ponto de vista da escolha humana.
Destarte, Deus enviou seu filho para morrer por todos os homens (1 Tm 4.10) e o seu desejo é que todos se salvem (1 Tm 2.4), apesar de saber de antemão acerca daqueles que rejeitarão a oferta de salvação (cf Jd 4). Constitui-se, pois, uma decisão muito difícil para o Pai de amor, não interferir nas decisões de pessoas que Ele sabe que vão para a perdição. Note: Não é Deus que as envia. Elas escolhem. O Eterno não tem nenhum prazer nisso.


CONCLUSÃO

Louvemos a Deus por nos ter elegido em Cristo desde a fundação do mundo e guardemos diligentemente o que dele alcançamos, a fim de que ninguém tome a nossa coroa (ver Ap 3.11),afinal de contas, o dom vem de Deus, mas a aceitação e a responsabilidade de guardá-lo é nossa.