sábado, 14 de maio de 2011

Assembleia de Deus, Cem anos de Pentecostes

1. OS PRIMÓRDIOS DE UMA GRANDE OBRA

1.1 O Movimento da Fé Apostólica. A fundação da igreja Assembleia de Deus no Brasil contextualiza-se no Movimento da Fé Apostólica, iniciado nos EUA no século dezenove por Charles Parham. Este jovem evangelista, cansado do tradicionalismo da igreja de então e despertado pela ação do Espírito Santo, começou a aspirar por uma igreja restaurada aos padrões da igreja primitiva. A partir daí, começou a pregar entusiasticamente, e entre os seus temas preferidos, constavam a experiência do batismo com o Espírito Santo, com a evidência inicial do falar em línguas, e a cura divina. A influência de suas mensagens espalhou-se em várias regiões dos EUA, atraindo adeptos proeminentes à causa do pentecostalismo e mudando definitivamente a configuração da forma de viver a fé daqueles dias.

Conforme exposto por Araújo (2007), Parham proclamava sua mensagem onde quer que tivesse oportunidade: em lares, escolas e igrejas. A maior parte de seu dia e de seus alunos era preenchida por estudos de passagens bíblicas, orações e rogos a Deus para que se cumprisse o conteúdo escriturístico em suas vidas. A ênfase estava na visão do Novo Testamento, o que Parham considerava tratar-se da fé apostólica, mormente na experiência pentecostal de Atos 2. Em janeiro de 1901, após terem buscado a promessa pentecostal com afinco, os seguidores de Parham começaram a falar em outras línguas. Estes alunos, entusiasmados com a experiência arrebatadora da glossolalia, espalharam-se por toda parte, anunciando a mensagem que eles consideravam a restauração da dimensão da fé apostólica. A mão de Deus começou a operar sinais e prodígios, na media em que aqueles crentes anunciavam a atualidade dos dons do Espírito Santo, como aconteceu com Mary arthur, uma doente crônica, que fora curada pela intercessão de Parham. O milagre abriu uma larga porta para este em Galena, lugar onde a senhora curada residia.

A partir da porta que se abriu em Galena, o ministério de Parham caiu na graça do povo, tanto de galenenses como de moradores de cidades circunvizinhas, e milhares de almas se convertiam ao Senhor, e muitos milagres de cura aconteciam.

Em 1905, em companhia de um pregador metodista, Parham fundou uma escola bíblica que formaria uma série de ministros, os quais se tornariam proeminentes no movimento pentecostal, entre eles, Wlliam Seymour, que levaria o movimento para Los Ângeles, o que culminou com o histórico Avivamento da Rua azusa em 1906. Araújo refere-se a explosão do Movimento da Fé apostólica da seguinte dizendo que O movimento espalhou-se rapidamente nas áreas próximas de Kansas, Missouri e Oklahoma. Por volta de 1905, Parham estava no sul do Texas, onde ele iria ter um de seus mais espetaculares sucessos (Araújo, 2007, p. 600).


1.2 O Avivamento da Rua Azusa. O pastor Emílio Conde, na obra que traz a história da Assembleia de Deus, ressalta que “ os historiadores que se ocupam do avivamento Pentecostal no século 20 são unânimes em mencionar a rua Azusa, em Los Angeles, como o centro irradiador de onde o avivamento se espalhou para outras cidades e nações” (Conde, 2000, p. 21).

Já dissemos que entre os alunos da Escola Bíblica fundada por Parham em Ouston estava William Seymour. Este, tendo sido impactado pela mensagem do Movimento da Fé Apostólica, recebeu o convite para levar a mesma mensagem a Los Angeles. Seymour, ainda que contra a vontade de seu mestre, atendeu imediatamente o chamado e, em Los Angeles, além de continuar com o mesmo propósito do Movimento que o contagiou, qual seja: anunciar a restauração da fé que uma vez foi dada aos santos, a unidade cristã, a santificação e o batismo no Espírito Santo com a evidência inicial do falar noutras línguas, Seymour adotou o mesmo nome do Movimento referido: Movimento da Fé Apostólica. Então o movimento que chegou em Los Angeles era o mesmo começado pelo metodista Parham em Kansas, que agora havia chegado a um cantinho de Los Angeles, na Rua Azusa, 312. As manifestações espirituais ocorridas ali entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que tornou-se um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).

Em resposta às orações sinceras dos que ali se congregavam, Jesus começou a batizar crentes com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o avivamento outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com Deus, outros eram apenas curiosos.

Em Azusa, os cultos eram longos e, de forma geral, espontâneos. Nos seus primeiros dias, a música era à capela, embora um ou dois instrumentos fossem tocados. Os cultos incluíam cânticos, testemunhos dados por visitantes ou lidos daqueles que escreviam para a Missão, oração, momento de apelo para pessoas aceitarem a Cristo, apelo à santificação ou ao batismo no Espírito Santo, e, obviamente, pregação. Os sermões normalmente não eram preparados antecipadamente e eram tipicamente espontâneos (…). A oração pelos enfermos era também uma parte frequente nos cultos. Muitos gritavam. Outros ficavam “rindo no espírito” ou “caídos no poder” Algumas vezes havia momentos de prolongado silêncio ou de cânticos em línguas (…). (Araújo, 2007, p. 605).


1.3 Avivamento em Chicago: as chamas de Los Angeles se espalham


De Azusa Street, as chamas do avivamento se espalham por várias cidades, Pensilvânia, Nova Iorque, Ohio e Chicago. Esta última, considerada a segunda cidade da América do Norte, foi intensamente incendiada pelo fogo pentecostal a partir do avivamento deflagrado em Los Angeles (Araújo, 2007).

O grande diferencial do avivamento de Chicago é que todas as denominações aceitaram a mensagem pentecostal. Por conta disso, ministros, pastores de várias denominações, de regiões circunvizinhas, acorriam a Chicago a fim de receberem a efusão do Espírito Santo. Entre estes pastores, destaca-se o nome Gunnar Vingren, da igreja batista sueca do Michigan, o qual, em 1909, em visita a Chicago, recebeu o batismo no Espírito Santo.

Mais tarde, Gunnar Vingren, numa convenção de igrejas batistas, em Chicago, conheceria outro sueco, Daniel Berg, que também havia sido batizado no Espírito Santo, encontro que mudaria a vida de ambos para sempre. No ano seguinte, os dois viajariam para o Brasil com missionário. É aqui, com a vocação destes dois homens, que começa a História das Assembleias de Deus no Brasil, cujo centenário estamos a comemorar.


2. O CHAMADO MISSIONÁRIO DOS PIONEIROS


2.1 Daniel Berg e sua experiência pentecostal. Filho de pais batistas, Daniel Berg nasceu na pequena cidade de Vargon, na Suécia. Tinha 15 anos de idade quando converteu-se ao evangelho e recebeu o batismo em águas na igreja Batista. Em 1902, grandes dificuldades econômicas na Suécia levaram Daniel Berg a deixar seu país e rumar para os Estados Unidos, mais precisamente para a cidade de Boston. Durante os sete anos em que permaneceu na América, Berg viajou por várias cidades estado-unidenses e reviu muitos de seus patrícios que, como ele, haviam fugido da grande depressão financeira sueca. Primeiramente trabalho numa fazenda, depois especializou-se como fundidor.

Em 1909, resolveu voltar para seu país, a fim de rever os pais. Na sua cidade natal, ao procurar seu melhor amigo de infância, Lewis Pethrus, foi informado pela mãe deste que o mesmo estava morando em outra cidade, onde exercia um poderoso ministério de pregação da Palavra. Soube também que Pethrus havia recebido o batismo com o Espírito Santo, o que era novidade para os crentes suecos daquela época. Resolveu, então, visitar o amigo. Ao chegar à igreja Batista de Lidkoping, encontrou-o pregando entusiasticamente a “nova” doutrina pentecostal, e Daniel mostrou-se favorável a ela. Após conversar longas horas com o amigo sobre o assunto, despediu-se dele e voltou para a casa dos pais, de onde, poucos dias depois, viajaria novamente para os Estados Unidos. Na viajem de volta à América, orou insistentemente, pedindo a Deus o batismo com o Espírito Santo. “Ao aproximar-se das pragas norte-americanas, sua oração foi respondida. A partir de então sua vida mudou. Daniel passou a pregar mais a Palavra de Deus e contar seu testemunho a todos” (Araújo, 2007, p. 123).



2.2 Gunnar Vingren e sua experiência pentecostal. Sueco, filho de um jardineiro, Gunnar Vingren nasceu em Ostra Husby, Ostergotland, em 8 de agosto de 1879. Foi instruído desde cedo nas Sagradas Escrituras, sendo que frequentava assiduamente a Escola Bíblica Dominical de sua igreja, da qual o pai era dirigente. Porém aos doze anos , deixou a igreja e permaneceu afastado até os 17 anos, quando outra vez foi chamado por Deus em um culto de vigília de ano novo. No ano seguinte, recebeu o batismo em águas, quando substituiu seu pai na direção da Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista.

Vingren, desde muito cedo, mostrou propensão para a obra missionária, tanto que, ao se informar sobre as necessidades de tribos nativas no exterior, chorava abundantemente, e um dia prometeu a Deus pertencer-Lhe e por-se sempre à sua disposição. Em outra oportunidade, entregou tudo o que tinha como oferta para ajudar um evangelista que seria enviado para a obra missionária. Logo em seguida, ao voltar para casa, ouviu a voz de Deus lhe falar que ele também seria enviado (Araújo, 2007).

Em 1903, Vingren mudou-se para os Estados Unidos, atraído pelas oportunidade que o país da América proporcionava a jovens como ele. O jovem sueco desembarcou em Boston, depois seguiu de trem até Kansas City, à procura da residência de um tio, onde se estabeleceu. Enquanto morou em Kansas, Vingren congregou na igreja Batista sueca dali, e chegou a trabalhar em funções como foguista, porteiro e jardineiro. Mudo-se para Chicago, a fim de ingressar no Seminário Teológico Batista, de onde pavimentou o caminho para a Universidade da mesma igreja. Os estágios da universidade lhe abriram as portas para pregar em congregações Batista de várias cidades, chegando mesmo, no último estágio, a atuar como pastor em Mountain, Michigan. Terminada a faculdade teológica, assumiu o pastorado da Primeira Igreja Batista em Menominee, Michigan, até o início de 1910. Neste interregno, Vingren começou a sentir forte desejo de se encher do Espírito Santo, foi quando viajou para Chicago, a fim de participar da conferência da Primeira Igreja Batista Sueca em Chicago, ocasião em que foi batizado com o Espírito Santo.


2.3 O encontro em Chicago e a chamada para o Brasil. Já batizados com o Espírito Santo e inflamados pelo ardor missionário, Daniel Berg e Gunnar Vingren se conheceram durante uma convenção de igrejas batistas em Chicago no ano de 1909. Foi, sem dúvida, um encontro providenciado por Deus. Os dois trocaram informações e experiências por vários dias, tempo em que se conheceram melhor e revelaram, um ao outro, as próprias aspirações e paixão pela obra de Deus. Até o ano seguinte, Daniel continuou trabalhando em Chicago, numa quitanda, enquanto Vingren pastoreava a Igreja Batista Sueca de South Bend, Indiana. Naquele mesmo ano, o Espírito Santo orientou Daniel Berg a mudar-se para South Band e procurar o pastorVingren. “Irmão Gunnar”, disse Daneil, “Jesus ordenou-me que eu viesse me encontrar com o irmão, para, juntos, louvarmos o seu nome”, ao que Vingren respondeu:”Está bem” (Araújo, 2007, p. 900).

Foi Vingren quem primeiro recebeu a revelação de Deus sobre sua ida ao Brasil, isso  por meio de Adolf Uldin, membro da mesma Igreja Batista (Araújo, 2007). Porém, em um sábado à tarde, em companhia de Daniel, vai  visitar Uldine. Ali, em oração, o poder de Deus se manifestou mais uma vez sobre este último e ele revelou a chamada de Daniel para acompanhar Vingren. Saindo dali, os dois amigos continuaram orando por direção divina, até que lhes foi revelado que deveriam deixar Nova Iorque com destino ao Pará no dia 05 de novembro de 1910.


3. A VIAGEM AO BRASIL E A FUNDAÇÃO DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS


3.1 A viagem a bordo do navio Clement. Inflamados pelo ardor missionário, Daniel Berg e Gunnar Vingren, decididos a atender ao chamado divino, preparam-se para a viagem ao Brasil. O primeiro abandonou o emprego numa quitanda em Chicago e o segundo renunciou ao pastorado da igreja Batista de South Bend. Ao se despedirem da igreja, esta os ajudou com uma oferta que deu para comprar as passagens de ambos até Nova Iorque e, sob a oração dos fiéis, foram em direção ao desconhecido. Saíram na total dependência de Deus, como observado por Conde:

Quando lá chegassem [em Nova Iorque], eles não sabiam como conseguiriam dinheiro para comprar mais duas passagens até o Pará. Porém esse detalhe não os abalou em nada nem os deteve em Chicago à espera de mais recursos. Tinha convicção de que haviam sido convocados por Deus. Portanto, era de total responsabilidade e especialidade de Deus fazer com que os recursos materiais inexistentes necessários à viagem surgissem (Conde, 2000, p. 24).

Em Nova Iorque, o Senhor Jesus usou um comerciante que já conhecia gunnar Vingren para que enviasse uma oferta de noventa dólares ao amigo. O comerciante ia enviar o dinheiro a Chicago, pois não sabia que Vingren estava em Nova Iorque, e qual não foi a sua surpresa quando, em uma das ruas movimentadas dessa metrópoles, dá de cara com o amigo. Noventa dólares era a quantia exata de duas passagens para Belém do Pará na terceira classe do navio Clement. Deus estava confirmando sua vontade na vida dos dois missionários.

No dia 5 de novembro de 1910, os dois missionários embarcaram no navio Clement rumo ao Brasil, mais precisamente Belém do Pará, para uma viagem que duraria 14 dias, tempo suficiente para que eles evangelizassem os tripulantes e passageiros, chegando mesmo a ganharem dois deles para Cristo, com os quais trocariam correspondência posteriormente.

3.2 A chegada ao Pará e a doutrina pentecostal. Em 19 de novembro de 1910, Daniel Berg e Gunnar Vingren pisaram em solo brasileiro. Não entendiam nada da Língua Portuguesa, apenas lembravam que se tratava do mesmo idioma falado por Adolfo Uldin quando este fora usado por Deus para anunciar a chamada de Vingren ao Pará. Seguiram alguns passageiros até à cidade. Mais tarde, enquanto descansavam em um parque, encontraram uma família que tinha viajado com eles e que falava inglês, a qual os levou para o hotel onde estavam hospedados. No hotel, foram informados sobre o pastor metodista Justus Nelson, que era americano, a quem procuraram e encontraram depois de muitas dificuldades. Nelson, informados de que eram crentes batistas, conduziu-os até a Igreja Batista de Belém e os entregou ao pastor daquela igreja, Jerônimo Teixeira de Souza, que falava bem o Inglês. Comunicaram ao dileto pastor suas dificuldades financeiras de moradia no hotel onde estavam e foram convidados por Jerônimo a morarem em sua casa por um preço simbólico. As instalações disponíveis não eram nada confortáveis, mas a necessidade falou mais alto e os dois missionários aceitaram residir em um porão.

Um dos grandes desafios que Berg e Vingren teriam que enfrentar era aprender falar o Português, ainda mais porque não tinham recursos financeiros suficientes para custear aulas para os dois. Tiveram então uma ideia: Berg arrumou emprego de fundidor e começou a custear as aulas do companheiro. Enquanto um trabalhava, o outro estudava. À noite, quando Berg chegava em casa, Vingren lhe ensinava o que havia aprendido. Dessa forma, conseguiram aprender rapidamente o idioma.

2.2.1Celina alburqueque, primeira experiência do batismo pentecostal em solo brasileiro. A despeito da forte oposição de alguns, os missionários continuaram a pregar com unção, eloquência e oração constante. Como resultado o, o poder de Deus começou a se manifestar e o Espírito Santo a trabalhar nos corações de alguns irmãos , os quais creram na verdade do evangelho completo e começaram a buscar o batismo com o Espírito Santo. Entre os primeiros que creram estavam as irmãs Celina Albuquerque e Maria de Nazaré. A primeira, que tinha uma enfermidade nos lábios, o que a impedia de frequentar os cultos na igreja, fora curada por meio da oração de Gunnar Vingren e tornou-se figura histórica por ser a primeira pessoa a ser batizada com o Espírito Santo em solo brasileiro. A segunda, Maria de Nazaré, era companheira de oração da irmã selina e foi a segunda pessoa que experimentou a experiência de falar línguas espirituais.


Emílio Conde conta os fatos que sucederam a esperiência da irmã Celina de maneira que vale a pena registrar aqui:

Logo que amanheceu, a irmã Nazaré apressou-se em ir à casa de João Batista de Carvalho, na Avenida São Jerônimo, 224, para contar as boas novas de que Celina Albuquerque recebera a promessa. Na casa de João Batista, achavam-se reunidos vários irmãos, entre eles Manoel Rodrigues,que até então era diácono da igreja Batista. Mais tarde, o irmão Manoel testemunharia: “Foi naquele momento que passei a crer no batismo do Espírito Santo”.
O acontecido recebeu imediata divulgação. Na igreja Batista, alguns creram, porém outros não se predispuseram a sequer a compreender a doutrina do Espírito Santo, portanto dois partidos estavam criados.
Durante o culto realizado à noite daquele mesmo dia, o ambiente antes só dedicado a louvores a Deus e à pregação de sua Palavra, foi transformado em verdadeiro campo de batalha, com muitas disputas de pontos de vista e duelo de palavras. Alguns crentes, aferrados a um tradicionalismo sem qualquer base bíblica, ameaçavam exaltadamente punir , castigar ou desprezar os partidários da doutrina que tanto caracterizara a Igreja Primitiva e os grandes avivamentos que se sucederam.
Após o culto, vários irmãos resolveram ir à casa da irmã Celina para verificarem pessoalmente o que estava acontecendo. Entre aqueles que foram à Rua Siqueira Mendes, encontrava-se José Plácido da Costa, Antônio Marcondes Garcia e esposa, Antônio Rodrigues e Raimundo Nobre (Conde, 2000, p. 31).

3.3 Nasce a Assembleia de Deus. As experiências pentecostais com línguas estanhas, hinos espirituais e curas era algo que soava muito esquisito para a igreja da época. Reuniam-se os irmãos na casa dos missionários para buscarem ao Senhor em oração e o movimento que provocavam, apesar de ser em local bem reservado, atraía a atenção também de alguns crentes refratários ao novo movimento, gerando muitas discussões. Por conta disso, a Igreja Batista de Belém entrou em efervescência. Na época, a igreja estava praticamente sem pastor e  um obreiro chamado Raimundo Nobre tomou a dianteira do trabalho e propôs uma reunião extraordinária para o dia 13 do mesmo mês, quando aconteceria a cisão definitiva.

A reunião decisiva do dia 13 aconteceu debaixo de ataques de ambos os lados. Raimundo Nobre, que arbitrariamente assumira o púlpito da igreja, disparou contra os “hereges do falso movimento”. O grupo atacado reage com a leitura de Atos 2 e com línguas estranhas faladas principalmente pela irmã Celina. Era uma celeuma total e a sessão se tornou inviável. Foi quando Raimundo Nobre desafiou a todos que se posicionassem em um dos lados. Deveriam ficar de pé todos os que estavam de acordo com a nova seita. Apesar de a esmagadora maioria ser favorável à doutrina pentecostal, apenas dezoito pessoas se levantaram e foram imediatamente excluídos da igreja. Estes irmãos saíram então da Igreja Batista para nunca mais voltar. Isto aconteceu no dia 13 de junho de 1911. *

O pequeno grupo excluído, no dia 18 se junho de 1911, convidou Daniel Berg e Gunnar Vingren a comparecerem à Rua Siqueira Mendes, 67, em Belém. E assim, com 20 pessoas, incluindo-se os dois missionários, reunidas na casa da irmã Celina, fundava-se, o Movimento da Fé Apostólica, que viria a ser registrado oficialmente como Sociedade Evangélica Assembleia de Deus em 11 de janeiro de 1918.


Nos dias que se seguiram, os inimigos do Movimento Pentecostal fizeram de tudo para sufocar a recém-criada igreja, mas a mão de Deus estava sobre ela. Fecho este tópico com o belo relato de Emílio conde sobre as perseguições contra os pentecostais.

"Os acontecimentos que culminaram com a fundação das Assembleias de Deus repercutiram profundamente entre várias denominações evangélicas. Porém, o que sacudiu mais fortemente os chamados crentes históricos foi a atividade eu zelo dos membros da igreja recém-formada. O medo de que a Assembleia de Deus viesse a absorver as demais denominações fez com que estas se reunissem para combater o movimento pentecostal (…).
(…) Alguns ingênuos dispuseram-se a combater o Movimento Pentecostal em seu nascedouro. Para alcançarem esse intento, não escolhiam os meios: calúnia, intriga, delação e até agressão física, tudo era válido. Tudo era usado contra a igreja que acabava de iniciar suas atividades. Chegaram, inclusive, a levar aos jornais a denúncia de que os pentecostais eram uma seita perigosa, tendo como prática o exorcismo. Enfim, alarmaram a população.
Recebendo o violento artigo contra a Assembleia de Deus, A Folha do Norte, antes de publicar, enviou um repórter disfarçado para averiguar o que realmente acontecia nos cultos pentecostais. O repórter, para causar sensação, endossou os termos do artigo, cujo único objetivo era desmoralizar o trabalho do Senhor. A matéria, todavia, acabou por atrair numerosas pessoas para os cultos da nova igreja. Não poderia haver propaganda melhor.
Por fim o citado repórter resolveu agir com imparcialidade (…) e estão aqui as suas reais impressões acerca dos cultos promovidos pela Assembleia de Deus: “Nunca vi uma reunião tão cheia de fé, fervor, sinceridade e alegria entre os crentes”. Essa confissão repercutiu como dinamite entre as denominações históricas. Daí em diante, todos queriam ver o que estava acontecendo; iam, vinham, ficavam e confessavam que Deus, realmente , estava operando entre os pentecostais" (Conde, 2000, p. 34).


4. AS CHAMAS SE ESPALHAM POR TODO TERRITÓRIO NACIONAL


A nova igreja crescia vertiginosamente com o trabalho incansável dos fiéis. Como informa Conde (2000), os crentes eram como uma colmeia de atividade evangelizadora, em que cada membro era um evangelista a testificar a parentes e amigos. Todavia o trabalho estava estabilizado no Pará. Parecia a repetição do que acontecera com a Igreja Primitiva, quando os discípulos do Mestre, apesar de ter recebido a ordem de evangelizar o mundo inteiro, não se ausentavam de Jerusalém.

Gunnar Vingren se encaregou do pastoreio da igreja, enquanto que Daniel Berg se dedicava intensamente ao trabalho de colportagem. Enquanto vendia Bíblias e evangelhos pelas ruas de Belém, evangelizava e visitava casa por casa “e todos os dias, acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Mas e o restante da nação? Como alcançar as extremidades de um país tão vasto como o nosso? A igreja precisava urgentemente de reforço, de homens preparados, abalizados para traçarem estratégias, planejarem rotas de evangelização e que ajudassem os missionários à frente da obra.

Deus novamente tomou providência. Quando os cristão estacionaram em Jerusalém, Ele permitiu que uma grande perseguição os dispersasse, quando a comunidade cristã brasileira patinava no tradicionalismo religioso, Ele inquietou dois missionários pentecostais para nos trazerem as chamas do Espírito Santo, quando parecia que essa chama ia circunscrever-se à Belém do Pará, o Dono da obra começou novamente a inquietar gente de longe. Outros missionários estrangeiros começaram a chegar para fomentar o trabalho. Otto e Andina Nelson, Samuel e Lina Nystron, Frida Vingren, Joel Carlson são todos nomes que se acham no rol de figuras históricas da Assembleia de Deus.

A igreja foi se organizando, ordenando pastores e evangelistas, os quais se juntaram a missionários estrangeiros e, impelidos pelo ardo do Espírito, começaram a levar a massagem completa do evangelho a outros Estados, esforço que culminaria com a fundação de igrejas em todas as regiões do país.

À medida em que a obra ia crescendo, mais missionários chegavam de vários países, suecos, noruegueses, finlandeses e norte-americanos, alguns deles eram mestres na doutrina bíblica e se encarregaram de promover o desenvolvimento doutrinário da igreja neonata. Desenvolveram as lições bíblicas da Escola Dominical, além de periódicos como O Mensageiro da Paz, hinários como Cantor Pentecostal, Harpa Cristã, e publicaram livros e folhetos evangelísticos. Em 1940, funda-se-ia a Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Destacam-se aqui os nomes Frida Vingren, Samuel Nystron, Otto Nelson, Nels Nelson, Joel Carlson, Eurico Bergstém, Orlando Boyer, N. Lawrence Olson, Bernhad Johnson, dentre outros.

Nos dias atuais, pode-se fazer um balanço das conquistas das Assembleias de Deus usando as palavras do pastor Elienai Cabral*: A igreja chegou ao seu primeiro centenário apresentando crescimento vertiginoso, consolidando-se como a maior expressão do pentecostalismo brasileiro. Numa estimativa feita em 2005, com bases em números do Censo Brasileiro, divulgada no jornal Mensageiro da Paz, as Assembleias de Deus teriam chegado a 20 milhões de fiéis espalhados por todo o país em 2010, e representariam 40% dos evangélicos brasileiros ao completar cem anos de fundação. São mais de trinta mil pastores, mais de seis mil igrejas-sede, mais de 2 mil missionários, milhares de obreiros e mais de 100 mil locais de culto nos mais de cinco mil municípios brasileiros.



CONCLUSÃO

Comemorar o Centenário das Assembleias de Deus no Brasil é louvar ao Senhor Jesus pela sua bondosa providência, é homenagear os pioneiros que se doaram à obra missionária, bem como a tantos outros bons obreiros que a eles sucederam, é aludir à maior expressão do pentecostalismo brasileiro, aos seus 20 milhões de fiéis, incluindo mais de trinta mil pastores, 20 mil missionários e milhares de obreiros, além da multidão de salvos que já partiram para o Senhor e aguardam a Primeira Ressurreição. De fato, “a porta que se abriu nunca mais fechou / Deus multiplicou o seu rebanho”.


Bibliografia

Bíblia de Estudo Pentecostal / CPAD.

Conde, Emílio. História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.
Araujo, Isael de. Dicionáio do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
Lições bíblicas O Movimento Pentecostal, CPAD, 2° trimestre de 2011.



















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