quarta-feira, 2 de novembro de 2011

NEEMIAS LIDERA UM GENUÍNO AVIVAMENTO


“E Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação […] e leu nela […] desde a alva até ao meio-dia, perante homens, mulheres e sábios; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da Lei” (Neemias 8.2,3).

INTRODUÇÃO

Depois de restaurados os muros de Jerusalém, o que representava o real ressurgimento da nação judaica, fazia-se premente a necessidade de uma restauração espiritual. Esdras, sacerdote e escriba, líder espiritual de Judá, juntou-se a Neemias, líder político da recém-restaurada nação, para promover uma restauração de cunho espiritual mediante o ensino sistemático da Palavra de Deus. Por 7 dias seguidos, de manhã cedo até ao meio-dia, Esdras e professores auxiliares ensinaram o Livro da Lei à vista de todo o povo, explicando minunciosamente o significado das Letras Sagradas (Ne 8. 18). O resultado foi um grande avivamento com arrependimento, confissões de pecados e a firme decisão de obedecer à Palavra de Deus. Esse fato, objeto de nosso estudo, vem esclarecer que um genuíno avivamento só é possível mediante o estudo, entendimento e prática da Palavra de Deus.


I. O POVO FORA TOMADO POR UM DESEJO ARDENTE DE OUVIR A ESCRITURA

1. Reunidos para ouvir a Lei

Então todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça diante da porta das águas; e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o livro da lei de Moisés, que o Senhor tinha ordenado a Israel (Ne 8.1).

A disposição do povo para receber o ensinamento da Lei se justifica em três premissas: Primeiramente devemos considerar que, depois de tanto tempo cativos em Babilônia, longe do Templo, do culto e dos oráculos divinos, desprovidos do ministério de ensino que caracterizara a situação pré-exílica, os filhos de Abraão, ante o privilégio de participar deste seminário ministrado por Esdras, foram tomados por grande curiosidade: estavam como o estudante que volta depois de tantos anos, à escola, tudo era novidade. Em segundo lugar, consideremos que foram instigados pelo zelo da dupla Esdras/Neemias, cujo exemplo era como sal a provocar sede pelo retorno a Deus. Em terceiro, consideremos que um avivamento nunca acontece pela iniciativa humana, antes tem o ponto de partida em Deus. Acreditamos que o Espírito do Senhor inundou os corações de desejo pela Santa Palavra. Vejamos o que caracterizou as reuniões de culto.

a) Povo unânime (v. 1). Todos - homens, mulheres, crianças, sábios e indoutos - como um só homem, estavam ávidos por ouvir a Lei. Este desejo coletivo é sempre o resultado da ação do Espírito Santo. O avivamento não veio como resultado daquela escola bíblica, mas aquela escola foi possível devido o avivamento que Deus já havia enviado ao despertar os corações para a sede pela Palavra. Foi assim que aconteceu no grande avivamento de Jerusalém, quando os discípulos de Jesus também estavam unânimes, esperando a promessa de efusão do Espírito Santo ( At 1.14).

b) Povo sedento de Deus. “[...] e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o livro da lei de Moisés, que o Senhor tinha ordenado a Israel” (v. 1). O povo pedia a Bíblia como sedentos que imploram por água. Mais de seis horas diárias, permaneciam ali, atentos a cada palavra. Não se tratava de uma imposição para que os fiéis ficassem horas a fio ouvindo sermões cansativos, recheados de jargões, em que o pregador usa de vários meios para prender o povo; era o povo que desejava ouvir, e o pregador estava ali para satisfazer essa necessidade. Às vezes, gastam-se tantos esforços na tentativa de salvar o povo, trazê-lo para o ministério da oração e cooperação no Reino de Deus e os resultados são pífios. Não podemos perder de vista que a motivação para a entrega na oração, no estudo da Palavra e no serviço vem do céu, não é resultado de técnicas e recursos humanos. No entanto vale salientar que Deus sempre instrumentaliza pessoas para enviar um avivamento ao seu povo, como fez usando Neemias e Esdras.

2. O povo estava atento à leitura da Lei

E leu nela diante da praça que está fronteira à porta das águas, desde a alva até o meio-dia, na presença dos homens e das mulheres, e dos que podiam entender; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da lei.

Já se foi dito que o bom ouvinte é aquele que, além de ouvir calado, demonstra interesse no que está sendo falado. Aquela plateia era de bons ouvintes. “Ouvidos atentos” significa ouvir com interesse, diligência e reverência, foi o que se verificou na reação do povo à exposição da Lei. Todo o ambiente foi trabalhado para facilitar a boa audição. Um púlpito de madeira fora preparado para facilitar a propagação da voz do orador; obreiros auxiliares se distribuíram no meio do povo para desfazer qualquer interferência na comunicação, tirando dúvidas e traduzindo do Hebraico para o Aramaico. Quando Esdras abriu o livro, todo o povo se pôs de pé, levantavam a mão e diziam amém em sinal de aceitação (vv. 5,6). Por sete dias, por seis horas diárias, o povo infatigavelmente ouviu o Livro Santo. Somente um genuíno avivamento provoca essa sede por Deus e por sua Palavra

Há várias promessas bíblicas para os que ouvem diligentemente a Palavra de Deus. Jesus disse que os tais são bem aventurados (Lc 11.27) e os comparou ao homem sensato que edificou a casa sobre a rocha, a qual resiste a qualquer intempérie (Mt 1.24,25).

3. O Culto de Doutrina e a Escola Bíblica Dominical

Oh! quanto amo a tua lei! ela é a minha meditação o dia todo (Sl 119.97)

Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem (1 Tm 4.16)

O culto de doutrina é um espaço para se expor e explicar ao povo as pilastras da fé, bem como para ministrações práticas que desenvolvam e aperfeiçoem o caráter cristão. Em muitas regiões, aparece com nomes diferentes como “culto de instrução” e “culto de ensino”. O que mais caracteriza este culto são as lições práticas extraídas de personagem bíblicos e de princípios básicos das Escrituras. Na realidade, o culto que mais se parece com o acontecimento exarado no capítulo 8 de Neemias é a Escola Bíblica Dominical, porque se propõe a ministrar de forma sistemática as doutrinas basilares da igreja de Cristo. Aliás, o pastor Antonio Gilberto comenta que o avivamento acontecido nos dias de Neemias teve origem num intenso ministério de ensino metódico muito similar à Escola Dominical de hoje.1

Em algumas igrejas, o culto de doutrina já não existe; em outras, acontece de forma precária devido a falta da homens da envergadura de Esdras e seus auxiliares para ensinarem ao povo. A realidade em relação à Escola Dominical também é desanimadora, pois, apesar de ser a principal agência de ensino de que a igreja dispõe, tem a sua importância desprezada pela maioria dos evangélicos. Como resultado dessa realidade, vemos muitas pessoas que, apesar de andarem na luz de Cristo, vivem nas trevas da ignorância doutrinária e, portanto, não conseguem dizer a razão da fé que professam (ver 1 Pe 3.15). Creio que, assim como aconteceu nos dias de Neemias, um real avivamento virá sobre a igreja de Cristo quando dermos (ou quando daremos) o devido valor a esta poderosa agência de ensino: Escola Bíblica Dominical.

II. O ENSINO BÍBLICO

1. Homens preparados para o ensino

Também Jesuá, Bani, Serebias, Jamim, Acube; Sabetai, Hodias, Maaséias, Quelita, Azarias, Jozabade, Hanã, Pelaías e os levitas explicavam ao povo a lei; e o povo estava em pé no seu lugar.(Ne 8.7).


Desde os dias de Moisés, passando pelos reis de Israel, pelas sinagogas no Cativeiro babilônico, até chegar ao avivamento que ora estudamos, o ensino permanente das Escrituras era preocupação de Deus para o seu povo; para isso, Ele vocacionou e levantou muitos mestres dentro de Israel. Os professores podiam ser os reis e sacerdotes (Dt 24.8; 2 Cr 17.7-9) ou os rabinos nas sinagogas do exílio.

Porém somente no pós-cativeiro, através do escriba Esdras, o ensino passou a ser aplicado de forma metódica e popular, algo muito semelhante às escolas bíblicas que temos hoje. Ali, foram designados mestres dentre o povo para ensinar com eficiência a Palavra de Deus em todas as cidades de Judá. O pastor Antonio Gilberto nos ajuda com uma observação muito importante sobre aquela escola.

“Esdras era o superintendente (Ne 8.2); o livro-texto era a Bíblia (Ne 8.3); os alunos eram homens, mulheres e crianças (Ne 8.3; 12.43). Treze auxiliares ajudavam a Esdras na direção dos trabalhos (8.4) e outros treze serviam como professores ministrando o ensino (8.7,8). O horário ia da manhã ao meio dia. Afirma o versículo 8 que os professores liam a palavra de Deus e explicavam o sentido para que o povo entendesse”.2

No Novo Testamento, vemos que pessoas foram dotadas pelo Espírito Santo para o ministério do ensino, os mestres ou doutores (Ef 411). A responsabilidade e importância desses mestres é muito grande diante de Deus e da igreja, pois têm a incumbência de salvaguardar a genuína doutrina bíblica e transmiti-la aos fiéis sem transigência nem corrupção (2Tm 1.11-14). Por isso, além de receberem a vocação de Deus, precisam que seus ministério recebam constante investimento, tanto de si mesmos como da igreja. O conselho do apóstolo Paulo aos tais é que “se [a vocação] é ensinar, haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7).

No avivamento do capítulo 8 de Neemias, Esdras não só lia, mas explicava o sentido e fazia o povo entender o que estava escrito, causando uma comoção geral na plateia. O avivamento genuíno só pode acontecer quando há estudo, entendimento e prática da Palavra de Deus, processo em que é essencial a atuação dos mestres. Não seria nenhum exagero dizer que o avivamento da igreja passa por eles. Este comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal é muito esclarecedor.

Os mestres são essenciais ao propósito de Deus para a igreja. A igreja que rejeita, ou se descuida do ensino dos mestres […] não se preocupará pela autenticidade e qualidade da mensagem bíblica […]. A igreja onde mestres e teólogos estão calados não terá firmeza na verdade. Tal igreja aceitará inovações doutrinárias sem objeção […]. 3

2. A Bíblia é a Palavra de Deus.

“Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16).

“Vivifica-me segundo a tua Palavra” (Sl 119.25)

A Bíblia é a inerrante e infalível Palavra de Deus; sua mensagem é espírito e vida (Jo 6.63). Não se pode conceber a ideia de avivamento sem a pregação, explanação e entendimento das doutrinas bíblicas. Aliás, todos os avivamentos de que temos ciência, tanto os registrados nas Páginas Sagradas quanto os registrados na história da igreja, eclodiram através de um retorno à Bíblia. Na história de Israel, vemos alguns acontecimentos que mostram a estreita relação que existe entre o Livro Santo e o avivamento espiritual. Além do avivamento sob Neemias e Esdras, temos o exemplo do rei judeu Josafá que, preocupado com a situação espiritual de Judá, designou pessoas competentes para que fossem de cidade em cidade anunciando a Lei de Deus, o que resultou em grande despertamento ( 2Cr 17. 7-9); e do rei Josias que herdou uma Judá afundada em idolatria, mas que achou o Livro da Lei e tomou providências para que o povo fosse instruído nele, e o resultado foi um dos maiores avivamentos da história bíblica (2Cr 34: 14-18). E o que dizer das experiências de Lutero e Willian Seymour, dentre outros?

III. O ENTENDIMENTO DA PALAVRA GEROU O AVIVAMENTO

1. O ensino significativo.

Assim leram no livro, na lei de Deus, distintamente; e deram o sentido, de modo que se entendesse a leitura (Ne 8.8)

Além de expôr as Sagradas Letras, Esdras se preocupou em explicá-la de maneira que o povo entendesse. Ao entenderem, caíram em pranto, pois o entendimento do real significado da Revelação Divina funciona como espelho diante do pecador, o qual reflete seu real estado, levando-o ao arrependimento. Aliás, é o que acontece na regeneração do pecador: o Espírito Santo abre-lhe o entendimento para a realidade do pecado e para a justiça e santidade de Deus. Uma vez regenerado, o novo crente precisa passar por um processo de discipulado a fim de entender as verdades das Escrituras e aplicá-las corretamente à sua vida. As lágrimas do povo produziam-se nas entranhas de um coração arrependido, pela consciência de ter ofendido ao Senhor, todavia Esdras e Neemias sugeriram aos seus compatriotas que enxugassem as lágrimas pelos males do passado e passassem a celebrar um tempo de restauração. Deus estava cumprindo suas promessas. O avivamento havia chegado.

2. “Comei a gordura e bebei as doçuras” (Ne 8.10). Era realmente tempo de celebração. O templo e as muralhas da cidade foram reconstruídos, os opositores vencidos e o avivamento havia chegado. A orientação de Neemias e Esdras foi para que o povo saísse por toda a região circunvizinha e celebrassem as vitórias, comendo, bebendo e adorando. Queriam substituir um memorial de erros e fracassos por um memorial de gratidão. Vale também ressaltar que um verdadeiro avivamento se faz acompanhado de gestos de generosidade e amor ao próximo, nivela as pessoas envolvidas, das mais diversas classes sociais e hierarquias, à posição de servos de Deus; ou seja, realça o que as pessoas têm em comum e oblitera as diferenças. Ali os ricos deveriam se juntar aos pobres e repartir com eles a sua porção. Como bem lembrou o pastor Elinaldo Renovato, “a Palavra de Deus ensina-nos a respeito do socorro que se deve prestar aos mais carentes: 'aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa da viúva “' (Is 1.17).4 Qualquer movimento espiritual que não provoca o sentimento de generosidade em direção ao próximo não pode ser considerado avivamento espiritual.

3. A alegria do Senhor é a nossa força

“Portanto não vos entristeçais, pois a alegria do Senhor é a vossa força” (Ne 8.10).

Um dos resultados do avivamento espiritual é a inundação de uma alegria sobrenatural nos corações alcançados; alegria que inspira motivação e vigor. Com a afirmação supracitada, Esdras e Neemias contrastaram toda a tristeza própria da condição humana, de fraqueza, pecado, culpa e desespero, com o gozo sobrenatural que vem de Deus para quem se apropria das riquezas de sua graça. Por isso que nós não sucumbimos diante de nossa própria condição, porque a alegria do Senhor é a nossa força. Se a tua Palavra não fora toda a minha recreação, então eu teria perecido na minha angústia (Sl 119.92).

“A proclamação da Palavra de Deus, juntamente com um propósito sincero de obedecer aos seus ensinos, resultará em verdadeira alegria na alma. Essa 'alegria do Senhor' vem de nossa reconciliação com Deus e da presença do Espírito em nossa vida. É mantida pela certeza de que fomos perdoados em Cristo e restaurados à comunhão com Deus, e que agora vivemos em harmonia com sua vontade (vv. 10-13; cf. Lc 7.50). Essa alegria age (1) como uma fonte para nos guardar das aflições e tentações de todos os dias (cf. Sl 119.165; Gl 5.22; Fl 4.4); e (2) como poder e motivação para perseverarmos na fé até o fim”.5

CONCLUSÃO

Aprendemos por meio do fato narrada no capítulo oito do livro de Neemias que somente o ensino, entendimento e prática da Palavra de Deus podem propiciar um genuíno avivamento espiritual. Como observa o pastor Elinaldo Renovato, o povo se alegrou com o Templo construído, jubilou com a restauração dos muros da cidade, mas o avivamento somente veio quando a Palavra foi ensinada.

Postar um comentário