segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Psicologia hospitalar - Relação com a hospitalização

Durante todo um ano letivo em que atuei como estagiário do curso de Psicologia no Hospital São Paulo, prestando atendimento psicológico a pacientes do setor de ortopedia, fui especialmente despertado pela curiosidade de analisar como se dá a relação dos pacientes com a hospitalização, dos elementos envolvidos nesta relação e de como essa relação depende não somente dos recursos da instituição hospitalar, mas também, e principalmente, do repertório de recursos que os pacientes trazem de suas próprias vivências, como visão de mundo, história de vida, estrutura familiar, religiosidade, etc., e como esse recursos ajudam ou prejudicam na relação com a hospitalização e interferem no enfrentamento da doença. O interesse em escrever sobre o assunto em apreço me surgiu a partir da percepção de diferenças gritantes que percebi entre as reações à doença e ao ambiente hospitalar de diversos pacientes que atendi, bem como nas implicações dessas reações na adesão ao tratamento e consequente recuperação.

A experiência com estes pacientes e as discussões sobre suas reações ao internamento com alguns profissionais da equipe interdisciplinar ampliaram a minha compreensão sobre a necessidade de olhar além do doente e do ambiente hospitalar para atingir a integralidade do indivíduo. Resolvi olhar o tema em apreço sob três perspectivas: 1) As implicações da doença e da hospitalização na vida do sujeito; 2) O repertório de recursos internos do doente como facilitador ou inibidor de sua relação com a hospitalização e enfrentamento da doença; 3) Estratégicas psicoterápicas.


1. As implicações da doença e da hospitalização na vida do sujeito

Primeiramente, deve-se considerar que o ambiente hospitalar é desconcertante e gerador de muita ansiedade, independente de qual seja a estrutura do indivíduo hospitalizado. Como observa Fighera e Viero (2005), a internação hospitalar pode contribuir para o sentimento de ruptura com a vida diária e como a perda da autonomia do paciente […], implicando numa série de sentimentos de desconforto e propiciando um processo de despersonalização. Há ansiedade pela incerteza, tanto relacionada à doença como ao desenrolar do tratamento, e pela sensação de solidão, impotência e desesperança, temor e auto-desvalorização. Feridas emocionais mal cicatrizadas podem se abrir e fantasmas persecutórios podem se agigantar, dificultando o engajamento no tratamento e o enfrentamento da situação.

Em segundo lugar, consideremos que a qualidade do atendimento hospitalar pode encorajar ou desencorajar a boa relação do paciente com a hospitalização, uma vez que cuidar do doente demanda trabalho diligente de uma equipe multidisciplinar, a fim de que o indivíduo tenha acolhimento integral nos aspectos médicos, subjetivos e sociais.

Para Silva, Garcia e Farias (1990), as dificuldades de adaptação [ao ambiente hospitalar] acontecem no momento em que o paciente não é atendido adequadamente em suas necessidades básicas, agravando com isso as sensações de isolamento e angústia pré-existentes. Portanto, nem sempre a relação ruim do paciente com a hospitalização deve-se à própria estrutura deste, mas pode ter origem na precariedade do serviço prestado.

Em terceiro lugar, não podemos desconsiderar que a qualidade e intensidade das reações dos indivíduos à hospitalização tendem a variar conforme as características das doenças e suas implicações psicológicas no comportamento do indivíduo. Há diagnósticos que são avassaladores e, portanto, lançam o indivíduo numa prostração total, podendo ativar mecanismos de defesa próprios da situação de luto e da natureza da enfermidade – entre esses mecanismos estão o de negação, que pode levar o paciente a negar a realidade da situação; minimização, que pode levar a reduzir a gravidade da doença; e pensamento mágico, que o faz acreditar que um ritual reverterá seu quadro – isso nos leva a ponderar que nem todo otimismo e engajamento correspondem à realidade, alguns têm origem patológica.

Sendo assim, um passo importante para se analisar a relação do paciente como a hospitalização e seu consequente engajamento no enfrentamento da doença consiste em lançar o olhar sobre aspectos objetivos da hospitalização e natureza da enfermidade, como os considerados acima.

2. O repertório de recursos internos como facilitador ou inibidor da relação paciente/hospitalização.

Fongaro e Sebastiani (2000), ao proporem um roteiro de avaliação psicológica aplicada ao hospital geral, abordam a importância do levantamento de dados sobre a estrutura psicodinâmica da personalidade da pessoa (tendências biófilas ou necrófilas), bem como de sua história de vida, considerando que o sujeito doente não se circunscreve a um diagnóstico, prognóstico ou técnicas de intervenção, mas sim de indivíduos doentes. Um olhar atento para historicidade deste indivíduo dará a perspectiva da relação ser-em-si e ser-no mundo, o que possibilitará a compreensão do conteúdo latente e manifesto das queixas do paciente.

A partir da perspectiva aclarada pelos autores supramencionados, durante os atendimentos ao pacientes do setor de ortopedia, permiti-me lançar o olhar para além do doente, da hospitalização, dos sintomas e natureza da doença, para alcançar o indivíduo contextualizado e então compreender a dinâmica singular do paciente na relação com a hospitalização. Notei em dois pacientes que atendi uma bagagem de recursos internos que trouxeram para a internação que se somaram aos recursos do hospital; esses pacientes se agigantavam diante da situação (um fala da religiosidade e estrutura familiar, outro se vale do vasto conhecimento, de sonhos ainda não realizados, etc.) e demonstravam ótima relação com a hospitalização, que se traduzia no bom convívio tanto com os colegas de quarto, como com a equipe multidisciplinar de saúde.

Em contrapartida, atendi três pacientes que apresentavam uma pobreza muito grande de recursos internos, com discurso muito objetivante e um sistema imunológico prejudicado por profundas feridas emocionais, o que os lançava numa vala de desmotivação, dependentes dos recursos hospitalares somente. A relação com a hospitalização era precária, aliás, havia recomendação da equipe médica para que se prestasse atendimento psicológico especial àqueles pacientes. Lancei-me numa verdadeira caminhada com esses pacientes por entre suas vivências para tentar descobrir a razão da dificuldade de relacionamento na situação hospitalar e de adesão ao tratamento, e descobri uma paisagem nada motivadora de famílias desbaratadas, relacionamentos pessoais ruins, características anti-sociais, descrença na vida e ausência de espiritualidade.

3. Estratégia psicoterápica

A partir da experiência acima referida, comecei a aquilatar o real valor do psicólogo no contexto hospitalar, assinalando que ao psicoterapeuta cabe resgatar a integralidade do indivíduo, perdida no recorte de sua condição de doente hospitalizado, que tende a reduzi-lo a mero conjunto de sintomas, reaver a historicidade de suas vivências, distinguir e avaliar os pontos positivos e negativos que possam influenciar na relação com a hospitalização e na consequente adesão ao tratamento, bem como fortalecer aspectos positivos, levando o paciente a ressignificar suas vivências de maneira que favoreça o enfrentamento da situação e o torne corresponsável no processo de restauração de sua saúde.

Conclusão

Um dia, um médico, ao comentar sobre uma paciente, exclamou: “É impressionante a força e entusiamo que ela tem ante as adversidades, o que ajuda muito no combate à doença”. Passei a pensar nessa afirmação em cada atendimento que fazia. Os recursos internos dos pacientes são, de fato, um forte aliado dos recursos hospitalares no combate à doença.  Feitas essas considerações, podemos discorrer sobre a importância da boa relação com a hospitalização no enfrentamento da doença e da consequente recuperação, bem como sobre o quanto o repertório interno que o indivíduo traz de fora do hospital, o que abrange sua maneira de significar o mundo e as suas vivências, pode ser um poderoso aliado ou inibidor dos recursos hospitalares no enfrentamento da doença, o que pressupõe que o tratamento do doente, além da objetividade dos recursos tecnicos-medicinais, envolve repertório muito grande de recursos subjetivos.

Bibliografia

♦Fongaro e Sebastiani, RW. Roteiro de Avaliação Psicológica Aplicado ao Hospital Geral . In: ANGERAMI, Camon (org). E a Psicologia Entrou no Hospital. São Paulo: Pioneira, 2000.

♦FIGHERA, Jossiele; VIERO, Eliani Venturini. Vivências do paciente com relação ao procedimento cirúrgico: fantasias e sentimentos mais presentes. Rev. SBPH, Rio de Janeiro, v 8, n. 2, Dec 2005.

♦Silva, M.L.; Garcia, E. & Farias, F. (1990). A Doença - Aspectos Psicossociais e Culturais - Manifestações e Significados Para a Equipe de Saúde. Revista Enfoque, 18 (2), 31-33.
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