segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Na encruzilhada Vieira de Morais – Gil Eanes*

O dia de hoje é um rol de normalidades que acontecem mecanicamente, assim como o de ontem, anteontem e daí por diante. A única coisa que aparece nova é a motivação para a crônica de cada dia, não o ato em si, porque escrever sobre qualquer coisa já virou algo corriqueiro, mas refiro-me ao movimento da percepção afinada em busca do inusual que se esconde no prosaico. Escrever crônica é este movimento ocular para além da superfície; nas palavras de Sabino, “é buscar o pitoresco e o irrisório no cotidiano de cada um, ou de nós mesmos”. Deveras, encontrar o pitoresco nos fatos cotidianos é a arte de atribuir aos fatos o pitoresco de nossas próprias interpretações. Nossas próprias interpretações: é só isso que aparece como novidade.

Sete da manhã. Estou numa guarita malcheirosa de um prédio da Telefônica para trocar a farda da empresa por minhas próprias roupas e encerrar mais uma noite longa de trabalho. Seu Nélson, companheiro que todas as manhãs tem a incumbência de me soltar, ainda não chegou; aliás, de há muito tempo, ele só chega atrasado. Faz um frio danado. O vento gélido entra pelas frestas da janela à minha frente. Eu já estou aqui há bastante tempo, imóvel, sem coragem para me trocar, parado em frente à pequena janela que propicia boa visão da Rua Vieira de Moraes. Olho as pessoas passarem, apressadas, transitando na encruzilhada Vieira/Gil Eanes, todas bem agasalhadas, trajando casacos de frio, algumas de meias e toucas, andam apressadamente como que fugindo de algum mal e logo se dispersam em várias direções na busca dos mais diversos objetivos. Juntam-se e se dispersam. Não se cumprimentam, não parecem se importar com o destino uns dos outros, ou porque são indiferentes mesmo ou porque, no fundo, já sabem aonde levarão os caminhos que todos palmilham. O curioso é que, dali a algumas horas, a maior parte deles voltará pelo mesmo caminho e no dia seguinte todo o processo se repetirá, e nos dias posteriores, como se estivessem andando em círculo. Aliás, viver é isso mesmo: este andar em círculo que começa e termina no mesmo ponto da estrada.

O que vejo é uma diminuta parcela da enorme máquina de trabalho que produz e movimenta a riqueza da imponente Cidade de São Paulo. Massa automatizada, heterogênica e disforme, não se define por esta ou aquela nacionalidade e naturalidade. É possível, em uma única encruzilhada, ver representações de todas as partes do Brasil e outras regiões do mundo. Aliás, Se eu tivesse a capacidade de diferenciar os transeunte pelas características locais de cada um , apontaria brasileiros de todos os cantos deste grande país no cruzamento Vieira/Gil Eanes: nordestinos, sulistas, gente do Leste e do Oeste , identificáveis por seus traços peculiares. Mas o intrigante é que, ao mesmo tempo que se podem distinguir na individualidade, misturam-se e se perdem no coletivo, como no paradoxo “pessoas impessoais”, de sorte que somente por grande esforço, pode-se apreender que aquele indivíduo é jovem , velho, homem ou mulher; e esta senhora arrastando uma criança , e aquele senhor de pasta na mão, e aquele cidadão de bengala. A atenção involuntária só vê massa. Os indivíduos são traços quase imperceptíveis de uma grande figura geométrica.

O que significa este caminhar em círculo? Será que o indivíduo que se perde na massa tem alguma importãncia e faz qualquer diferença? Não gosto de perder a oportunidade de lembrar o sábio Salomão. Foi ele quem disse, há cerca de três mil anos, ao atentar para o absurdo da existência : “Vaidade de vaidade, tudo é vaidade. Que proveito o homem tem de todo o seu trabalho que faz debaixo do sol, se uma geração vai e a outra vem, mas a terra para sempre permanece?”. Parece-me que o sábio tinha razão, porque, neste ciclo inevitável de vida, células se transformam, se debelam e morrem; e essa geração que transita a encruzilhada Vieira-Gil dará lugar a outra geração que por sua vez dará lugar a outra e outras... Mas, por hora, todos preferem se ocupar desse corre-corre para não dar conta disso.

Absorto nesses pensamentos, sou despertado pelo ranger da porta da guarita. Seu Nélson chegara para me libertar das agruras de mais uma noite de trabalho. Daqui a pouco, eu também me juntarei à massa, para logo me dispersar. Também sou parte.


* Viera de Moraes e Gil Eanes são duas ruas da Cidade de São Paulo.
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