segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os Frutos da Obediência na Vida de Israel

Quando os filhos de Abraão se libertaram do Egito, eram politica, social e espiritualmente como uma criança (Os 11.1-3), com grandes dificuldades no tocante à maneira correta de se conduzir e se relacionar com Deus, entre si e com as nações em sua volta. Por isso, dependiam absolutamente do cuidado de Deus, como um infante depende dos cuidados dos pais. Como uma criança, Israel precisava de estreitos limites em suas ações (Ex 19,20).

Foi na Aliança firmada no Sinai que Deus atestou Israel como seu povo peculiar , externou sua intenção de abençoá-lo ricamente e expôs as diretrizes em que os eleitos deveriam conduzir suas vidas. A Aliança era clara sobre como Israel deveria proceder em relação a Deus, prenunciava ricas bênçãos em resultado da obediência e maldições terríveis caso desobedecessem, o que Israel aceitou prontamente. Era uma relação que tinha viés contratual, diferente de todas as outras alianças já firmadas entre o Senhor e os predecessores de Israel. No caso de Abraão, por exemplo, Deus prometeu abençoá-lo e, para isso, cobrou obediência e fé, mas não prevê punições tão severas no caso de suas exigências não serem cumpridas. De fato, ao analisar a partir de Gênesis 15, vemos se tratar de decisão unilateral em que Deus promete abençoar Abraão simplesmente, diferente da Aliança do Sinai, que se dá por meio de um acordo entre duas partes. A quebra da Aliança resultaria em punições. É que, apesar de Deus amar Israel com indescritível amor, aquele povo não era adulto para uma relação baseada no amor, gratidão e liberdade, tanto é que, em todo o Antigo Testamento, Deus sempre prometeu um tempo em que se relacionaria de maneira diferente com o seu povo, não a partir da observação de regras externas, mas de uma espontaneidade resultante da implantação da Lei no coração (Jr 31.31-33).

Nos quarenta anos de peregrinação no deserto, Israel protagonizou uma história triste de desobediência e consequentes punições. De toda aquela geração que saíra do Egito, apenas Josué e Calebe conseguiram entrar na terra da promessa, todos os demais pereceram no trajeto Em razão de seus pecados. Todavia, enquanto palmilharam nas areias quentes do deserto e no frio intenso da noite, aqueles israelitas nunca deixaram de ver o cuidado amoroso de Deus com eles, fruto de sua infinita misericórdia. Agora Israel está na fronteira de Canaã para possuir a terra prometida. O grande líder Moisés está a um passo da morte. Ele já sabe que não vai conseguir entrar na Nova Terra. Precisa fazer um discurso de despedida para aquela geração que nascera durante a peregrinação desértica e que, agora, vai se estabelecer em Canaã. Moisés vai trazer à memória deles a bondosa intenção de Deus em relação a eles, as experiências amargas durante a peregrinação, pontuar o que podiam aprender de tudo, os amargos resultados da desobediência e os frutos salutares da obediência ao Senhor. É disso que trata o livro de Deuteronômio. É disso que trata a aula de hoje.
 
I. OBEDIÊNCIA, UM FIRME FUNDAMENTO

1. Deus fala e quer ser ouvido. Quando encontramos Deus exigindo obediência do seu povo na Bíblia, não imaginemos um Deus caprichoso que gosta de criar regras e impô-las a subalternos, a fim de mostrar quem tem o poder e a autoridade, de maneira nenhuma. Imaginemos, sim, um Deus cujo desejo é promover e preservar o bem-estar físico, social, emocional e espiritual de suas criaturas, bem como o de relacionar-se pessoalmente com elas. Mas somente Ele conhece os procedimentos necessários e a maneira correta de vivermos para que seus objetivos em relação a nós sejam atingidos, o que resultará numa vida ricamente abençoada aqui e na eternidade. Rick Warren compara Deus a um inventor de um equipamento cuja utilidade correta pode ser achada somente no manual do fabricante que o acompanha.1 Por isso, ler e obedecer o manual é condição imprescindível para a preservação do mesmo. Somos criaturas complexas criadas por Deus e tudo o que carecemos para a felicidade estão exarados nas Sagradas Escrituras. Portanto, obedecer a Deus é uma exigência de Seu amor e santidade (Lv 11.14; Jo 14.15), condição intransigente para uma vida abençoada.

Por isso, Moisés introduz as promessas de bênçãos do capítulo 28 com a expressão “se ouvires a voz do Senhor teu Deus”, oração que permeia todo o livro de Deuteronômio, esclarecendo o princípio fundamental da obediência, segundo o qual todas as bênçãos do Senhor estão fundamentadas na sua Palavra e disponíveis somente para os que se propõem a obedecê-la. Sendo assim, não adianta inventar novas técnicas de ser abençoado ou dar aquele “jeitinho” tradicional: “Se não andarmos segundo esta Palavra, nunca veremos a alva” (ver Is 8.20).

2. A obediência e suas reais motivações. “Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas ao Senhor e que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para teu bem” (Dt 10.12,13).

Repetidas vezes, Deus ressaltou que a obediência à sua Palavra deveria se motivar no amor a Ele e na expressão de corações agradecidos (ver Dt 4.29). Note em Deuteronômio que o chamado à obediência frequentemente aparece precedido por uma reflexão sobre o cuidado de Deus e do seu desejo de ser amado por seu povo. Aliás, amar o Senhor é o primeiro mandamento com promessa (Dt 6.5; Mt 22.37). Ademais, devemos obedecer-lhe por ser este o dever de todos os homens, como observou Salomão (Ec 12. 13), e porque há grande recompensa nisso (Sl 19.11). Difícil foi levar Israel a este entendimento. Mais tarde, muitos iriam enveredar pelo caminho da idolatria, e boa parte dos que obedeceriam o fariam por meras formalidades religiosas externas , o que levou o próprio Deus a se queixar muitas vezes (Is 29.13). Obedecer é uma atitude louvável. Mas com que motivação estamos obedecendo? Não esqueçamos que Deus conhece e considera as intenções por trás dos atos.

II. DESOBEDIÊNCIA, A CAUSA DA MALDIÇÃO

1. A quebra da aliança. “Será, porém, que, se não deres ouvido à voz do Senhor, teu Deus […], então sobre ti virão todas estas maldições e te alcançarão: [...]” (Dt 28.15ss). As pragas descritas no capítulo 28 de Deuteronômio causam arrepios a qualquer leitor e incluem horrores sociais e morais, doenças físicas e psicológicas, tudo previsto para acontecer na comunidade israelita caso quebrassem a aliança desobedecendo a Deus. Como já comentei acima, era uma ralação bem contratual: as ricas bênçãos já estavam previstas e viriam automaticamente em caso de obediência, mas, por outro lado, as maldições viriam naturalmente caso os mandamentos divinos fossem infringidos. Era a lei da retribuição, tanto no sentido positivo quanto no negativo.

2. A maldição da idolatria. A idolatria é o pecado mais grave cometido contra Deus. Este pecado consiste em atribuir a outrem a honra que é só Dele (ver Is 42.8). A nação de Israel foi constante e severamente advertida a este respeito, porém incorria frequentemente no absurdo da idolatria e só deixou definitivamente de praticá-lo depois do Cativeiro Babilônico. Existem várias maneiras de se praticar idolatria, aberta ou sutilmente, porém a mais atual é praticada pelos adeptos da Teologia da Prosperidade e consiste em “tirar Deus do seu lugar de Soberano”, querendo fazer Dele um meio para se atingir um fim. Ou seja, Deus não é buscado pelo que é , como um fim em si mesmo, mas é buscado para se atingir um fim qualquer que, nesta lógica, teria mais importância que Ele. Essa teologia é blasfema e deve ser rechaçada, porque oferece a ideia de um Deus instrumentalizado.

III. A OBEDIÊNCIA E SUAS LIÇÕES

1. A Bênção como instrumento de proteção. Enquanto obedecessem a Deus, a bênção do Senhor protegeria Israel contra doenças, pragas, pestes e contra todos os seus inimigos (28.7). Porém a proteção prometida por Deus precisa ser cuidadosamente analisada, para ser compreendida dentro de todo o Contexto Escriturístico, para não lançar o devoto na fantasia de que o temor a Deus pode ser usado como um escudo hermético contra todos os males inerentes a esta vida. Primeiramente consideremos que as promessas de Deuteronômio 28, da maneira como estão definidas ali, só podem se restringir àquela nação, para aquele momento, pois a Bíblia inteira é categórica em afirmar que os justos não estão isentos de provações (Sl 34.19; Jo 16.33). E também se imaginarmos que Deus contemplará com todas aquelas bênçãos aos que obedecem à Sua Palavra, estaremos pressupondo que as terríveis maldições do mesmo capítulo acometerão, hoje, aos desobedientes, e não é o que temos visto. Aliás, mesmo naquela época, havia nações, como o Egito por exemplo, que, apesar de serem pagãs e idólatras, eram muito prósperas.

Decerto que os que andam em desobediência a Deus estão debaixo de sua justa indignação e sofrerão consequências terríveis (Rm 1.18), porém não é possível precisar a dimensão disso nem dizer que acontecerá nesta vida. O que temos visto no presente século é que tudo sucede a todos do mesmo jeito; e mesmo situações intrigantes em que, muitas vezes, ímpios prosperam na sua impiedade, e justos perecem na sua justiça, como já acontecia nos tempos de Salomão (Ec 8.14; 9.1,2) e de Asafe (Sl 73). Porém, no Novo Testamento, temos a maravilhosa promessa de Jesus que compara quem ouve e pratica sua Palavra ao homem sensato que edificou sua casa sobre a rocha, resistente contra todos os vendavais da vida (Mt 7.24,25). Em contrapartida, o Mestre compara os que não Lhe obedecem ao homem insensato que edificou sua casa na areia, a qual não tardará a ruir (Mt 7.26,27).

2. No período tribal e monárquico. Após a morte de Josué, uma nova geração que não conhecia experiencialmente ao Senhor começou a andar segundo os seus próprios caminhos e cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos (Jz 2.10,11; 21.25). O Livro dos Juízes começa o período tribal e registra cerca de 325 anos em que a história de Israel transita entre períodos de desobediência ao Senhor, o que resultava em punições por meio de nações opressoras, e períodos de arrependimento nacional com a consequente intervenção divina para livrá-los de seu inimigos. Os juízes, homens que Deus levantava para livrar Israel, funcionavam como chefes militares e magistrados civis.

No período monárquico, mormente a partir do final do reino de Salomão, Israel vive um tempo de intensa idolatria e injustiças sociais, é quando entra em evidência um intenso ministério profético. Como observa o pastor José Gonçalves, os profetas bradavam ao povo e aos governantes num combate ferrenho contra os pecados sociais e religiosos de Israel, pois, para eles, nenhuma prosperidade era legítima se fosse alcançada às custas dos menos favorecidos (Is 58.7)2.

Nos dias atuais, com a vergonhosa concentração de renda que assola o nosso país e o mundo, em que as injustiças sociais são gritantes, a missão da igreja não deve se circunscrever à pregação do evangelho, mas também precisa denunciar as injustiças sociais como grandes promotoras de bolsões de pobreza e atraidoras da indignação divina.

3. A falsa ideia sobre maldição. O ensino heterodoxo da “maldição hereditária” tornou-se uma epidemia no meio evangélico brasileiro e tem sido duramente combatido por renomados apologistas da fé. Hoje, não tem a mesma força de antes, mas ainda continua aí. A ideia central desse ensino é a crença de que alguma maldição não quebrada seria a causa da falta de prosperidade na vida do crente, sendo, portanto, necessária uma libertação plena através de rituais inventados para este fim - em alguns casos, chega-se a recorrer à regressão psicológica ou espiritual. O texto áureo dos defensores da ideia é Êxodo 20.5 onde Deus afirma que visita a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração. Este ensino tem gerado muita paranoia em em alguns cristãos. Qualquer coisa de ruim que acontece na vida, vão procurar uma maldição como provável causa. Entre os renomados contestadores dessa heresia, está o pastor Ricardo Gondim, cuja refutação transcrita abaixo nos basta.

Uma das mais insidiosas heresias que tem surgido nas igrejas nesses últimos dias diz respeito à quebra de maldições familiares. Acredita-se que os pecados, alianças e padrões estabelecidos pelos antepassados podem exercer maldições sobre filho, netos até a terceira ou quarta geração. Alguns,mais cautelosos, quebram regressão regredindo até a décima geração. O texto mais usado é Êxodo 20.5 […]. Ora, se é Deus quem age, visitando a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração, como se quebra a maldição de Deus? Certamente não é com uma repreensão verbal. A maldição da lei foi quebrada na cruz do Calvário e todos os que se apropriam da vitória de Cristo ficam livres de todos os débitos que tinham acumulados contra eles (Cl 2.14-15). (Ricardo Gondim. O Evangelho da Nova Era, apud Gonçalves, Josué. A Prosperidade à Luz da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 44).

CONCLUSÃO

O mundo onde habitamos é um grande campo de possibilidades para todas as pessoas: coisas ruins ou boas podem nos acontecer a qualquer momento. A Bíblia, porém, não nos dá respaldo para afirmamos que o sofrimento é sempre resultado de desobediência e maldição nem que prosperidade material é sempre sinal de bênção de Deus. O que temos visto no presente século é que tudo sucede a todos do mesmo jeito; e mesmo situações intrigantes em que, muitas vezes, ímpios prosperam na sua impiedade, e justos perecem na sua justiça, como já acontecia nos tempos de Salomão (Ec 8.14; 9.1,2) e de Asafe (Sl 73). Porém, no Novo Testamento, temos a maravilhosa promessa de Jesus que compara quem ouve e pratica sua Palavra ao homem sensato que edificou sua casa sobre a rocha, resistente contra todos os vendavais da vida (Mt 7.24,25). Em contrapartida, o Mestre compara os que não Lhe obedecem ao homem insensato que edificou sua casa na areia, a qual não tardará a ruir (Mt 7.26,27).
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