terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Prosperidade em o Novo Testamento

Antes de me lançar numa análise bíblica sobre o conceito de prosperidade no Novo Testamento, a fim de contrastar com o conceito de prosperidade predatoriamente capitalista e consumista da sociedade  hodierna, preciso considerar que, de alguma maneira, somos todos condicionados pelos padrões estabelecidos socialmente e damos nossa contribuição para a construção da realidade que nos cerca; não estamos isentos do processo.  E cada sociedade, à sua época, desenvolve os seus próprios padrões de comportamento. Na época em que iniciou-se o Novo Testamento, o estado de pobreza do mundo era alarmante, bem diferente do momento de excessiva produção de riqueza do mundo de hoje. As pessoas normalmente viviam pouco, afetadas por vários tipos de moléstias incuráveis, constantemente sob opressão de todo tipo e com parcos recursos para lidarem com elas. Por isso que a mensagem de esperança que Jesus começou a pregar caiu em terreno fértil, e as pessoas abraçaram desesperadamente a mensagem do Reino de Deus, que garantia dias melhores na eternidade, a fim de darem sentido para as agruras da existência.

Na contramão do entendimento de muitos judeus da época, de que riqueza era sinal da bênção de Deus, enquanto pobreza era a evidência de falta de fé e desaprovação divina, Jesus começou a apresentar um evangelho em que os pobres são bem-aventurados (Mt 5.3), em que os ricos dificilmente entrarão no Reino de Deus (Lc 18.24,25) e que desestimulava o acúmulo de bens terrenos em favor do acúmulo de um tesouro no céu (Mt 6.19). De fato, para Jesus, a vida de um homem não consistia na abundância de bens que possuía (Lc 12.15), esclarecendo que há um valor intrínseco na vida humana que a faz preciosa em si mesma. Por isso, o Mestre orienta os seus seguidores a renunciarem ao desejo de acumularem bens terrenos, optando por viverem sobriamente aqui, para terem um tesouro no céu (Mt 6.19). Ademais, como observado no comentário da Bíblia Pentecostal (p.1547), Jesus compreende a riqueza como um obstáculo quase intransponível à salvação e ao discipulado (Mt 19.24; 13.22), além de poder enganar o coração com um senso fantasioso de segurança (Mt 12.15ss; 13.22) e exigir total lealdade do coração de quem a possui (Mt 6.21). Isso caiu como o estouro de uma bomba nos ouvidos da época, princialmente dos ricos opressores, e conferiu lenitivo aos pobres que se sentiam desamparados por tudo e todos.

É claro que as palavras de Jesus eram bem direcionadas. Ele não estava condenando indiscriminadamente as riquezas, mas primeiramente martelando o conceito falso de riqueza disseminado na época; segundo, libertando os pobre da ideia opressora de que pobreza tem ligação com maldição divina e incutindo neles uma maravilhosa esperança ao mostrar que, independente de qualquer situação, eles eram objetos do amor de Deus e poderiam ser muito úteis no seu Reino ; terceiro, convidando pessoas a se alistarem no serviço de promoção do Reino de Deus, as quais, caso aceitassem o desafio, padeceriam toda sorte de oposição e perseguição do mundo de então, porém teriam como recompensa um glorioso galardão no céu (Mt 5.11,12; 10.22). Muitos cristãos da época aceitaram de tal maneira o desafio de Jesus que não só renunciaram à busca natural pelos bens deste mundo, mas também se desfizeram das riquezas que possuíam para promoverem o Reino de Deus (At 4.35,36).

Os apóstolos, seguindo o exemplo de seu Mestre, foram ainda mais contundentes na condenação da cobiça pelos bens materiais, enfatizaram as tentações próprias das riquezas e os riscos de se deixar dominar por elas; chegaram mesmo a desestimular a busca pelos tesouros deste mundo. Paulo, na segunda carta a Timóteo, comenta que os que querem ser ricos caem em tentação e laços que acabam por levar à ruína, e adverte que o amor ao dinheiro é raiz de toda espécie de males, inclusive a causa de muitos abandonarem a fé (ver 1 Tm 6.9,10). Também o apóstolo Tiago denuncia a prática comum dos ricos que exploram os pobres e lembra aos cristãos que Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino de Deus (ver Tg 2.5,6).

Então, a prosperidade que apresentada no Novo Testamento não consiste em realização material, promoção social e crescimento econômico ou poder aquisitivo, mas numa vida de desprendimento que promova a inteira comunhão com Deus e o amor sacrificial ao próximo. É ter a paz de Cristo, que excede a todo entendimento (Fl 4.7), poder descansar na sua palavra, na certeza de que tudo contribuirá para o bem daqueles que o amam. É se apropriar da posição que, nele, nós estamos: abençoados com toda sorte de bênçãos nos lugares celestiais (Ef 1.3). O comentário do pastor José Gonçalves a este respeito é muito pertinente: “Se para o homem moderno, prosperar implica galgar os degraus do sucesso e da fama, para a Bíblia tais coisas não têm valor algum. Aliás, ela até incentiva a perda desses bens” (Fl 3.7,8; Lc 18.22; 192,8).


Prosperidade tem a ver com futuridade. Sabemos que todos estamos neste mundo por um brevíssimo tempo, um ínfimo tempo se comparado à eternidade para a qual voaremos um dia. A Bíblia não garante a ninguém uma vida isenta de sofrimento e privações aqui, muito pelo contrário, ela assinala que passaremos por aflições (Jo 16.33). Aliás, a história do homem sobre a terra é uma história de sofrimento. Como dizia um pensador, “nascemos chorando, e todos os dias nos mostram o porquê”. Porém temos a promessa de que haverá um estado de plena felicidade para aqueles que fizerem a vontade de Deus (Ts 4.17; 2 Co 5.8; 2 Tm 4.8), o que nos possibilita a enfrentar com coragem e esperança todas as intempéries da vida, sabendo que a nossa leve e momentânia tribulação produz para nós um peso de glória mui excelente (2 Co 4.16,17). Ser próspero é se apropriar dessas promessas e viver uma esperança tão viva que nos possibilite experimentar, já aqui, os gozos da eternidade. As coisa que o ouvido não viu, o olho não viu e não subiu ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam (1 Co 2.9).

Quando comparo  este ensino neotestamentário com a maneira como a igreja se comporta hoje, fico sobremodo perturbado, porque, a julgar pela importância que se dá às finanças e ao acúmulo de bens materiais na atualidade, ou Jesus exagerou no seu ensino (e eu duvido que Ele tenha feito isso), ou aquelas instruções apostólicas eram algo restrito ao mundo de então e cabe, portanto, flexibilização que acompanha as mudanças sociais, ou a gente está andando na contramão da Bíblia. Por favor, gostaria que você, ao terminar de ler este texto, deixasse sua opinião, porque eu também preciso de uma resposta.

Obs. Não deixe de acompanhar, durante esta semana, mais comentário que acrescentaremos a este texto.
         Leia a crônica  São as finanças, estúpido.  que é uma crítica bem humorada ao comportamento consumista da sociedade, inclusive da igreja.
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