terça-feira, 27 de setembro de 2011

PEDRO, O DISCÍPULO

Pois também eu te digo que tu és Pedro... (Mt 16.18)

 
INTRODUÇÃO

Numa sequência de estudos sobre personagens da Bíblia Sagrada, objetivando o aperfeiçoamento do caráter cristão, achei imprescindível estudar  o apóstolo Pedro, um dos grandes vultos do Novo Testamento. Homem inicialmente rude e de temperamento impulsivo, Pedro seria alistado por Jesus, passaria por profunda transformação e se tornaria figura proeminente na história da igreja.


DADOS PESSOAIS DO APÓSTOLO

●Nome original: Simão. Esse era o nome de registro de Pedro (Mt 10.2), que parece ser uma forma grega do nome hebraico Simeão (ouvindo), nome muito comum na época (Mc 6.3; 14.3; Lc 7.40; At 1.13, etc.). Mais tarde, Jesus mudaria seu nome para Pedro (do gr. Petros), ou Cefas (do aram. Kepha), cujo significado é pedra, rocha (Jo 1.42, 1 Co 1.12). O nome Pedro é dado, na Bíblia, exclusivamente ao personagem que no momento estudamos, e não era conhecido como nome pessoal até aquele momento.

●Filiação: Pedro era filho de Jonas, um pescador que vivia na região da Galiléia (Jo 1.42; 21.15-17; Mt 16.16).

●Profissão: Assim como seu pai, Pedro era pescador, profissão que geralmente exercia na companhia de seu irmão, André, e de outros dois irmãos, Tiago e João (Mt 4.18).

●Estado civil: Pedro era casado (Mc 1.30), e, do que podemos inferir de alguns textos bíblicos, sua mulher o acompanhava sempre no seu ministério itinerante (1 Co 9.5).

●Terra natal: Pedro era natural de Betsaida - uma aldeia nas praias nortistas da Galiléia, perto do Jordão, de fortes influências gregas. O nome é aramaico e tem o sentido de casa de pesca ou então casa de pescadores. Mas Pedro tinha também residência em Cafarnaum, na Galiléia (Mc 1.21 e segs.).Ambos os lugares se situavam à margem do lago, onde ele exercia a função de pescador.

Obs. A Galiléia fica na parte norte da palestina. Na época dos Macabeus, a influência dos gentios sobre os judeus se tornou tão intensa naquela região, que estes foram empurrados para o sul, onde permaneceram por meio século. Sendo assim, a Galiléia teve de ser colonizada, e esse fato, juntamente com a diversidade de sua população, contribuía para o desprezo em que os galileus eram tidos (Jo 7.52). É interessante o fato de Isaías falar “a Galiléia dos Gentios” (Is 9.2). Habitando aquela região, Simão tinha contato permanente com os gentios.

●Escolaridade: Pedro nunca frequentou alguma academia rabínica, não teve educação especial em teologia e retórica, nem educação formal na lei judaica, por isso era considerado homem sem letras ou indouto (At 4.13).

Obs. Não estamos descartando a erudição pessoal de Simão, pois temos ciência de que ele aprendeu durante três anos com Jesus e parece ter sido alcançado pelo movimento de João Batista (At 1.22). Naquela esfera de ansiedade pela chegada do Messias, Pedro, como um genuíno judeu que era, procura estar inteirado acerca das coisa espirituais, mormente acerca da chegada do Reino de Deus.

●Posição sócio-econômica: os filhos de Jonas, André e Pedro, trabalhavam na pescaria com o pai, embora tudo leva a crer que Simão tinha o seu barco próprio. A pesca era um dos negócios rentáveis naqueles dias; possuir barcos e redes para a indústria pesqueira não era para pessoas pobres e, portanto, estes homens eram considerados classe média alta; possuidores de suas casas próprias e viviam bem, para os padrões da época. A indústria da pesca era uma das mais importantes naqueles dias…” (Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade (São Paulo:s.e., 2001), v.6, p.22-3).


CHAMADO PARA SER  PESCADOR DE HOMENS (Lc 5.8-10)

Já vimos no currículo acima que Simão era pescador. É pertinente, portanto, o fato de que pela primeira vez que ele aparece no cenário bíblico, encontramo-lo lançando a rede, junto com seu irmão André e mais dois companheiros, os irmãos Tiago e João, no mar da Galileia (Mt 4.18). Aquele seria um dia como qualquer outro, não fosse o seu encontro com um homem de Nazaré, chamado Jesus, que mudaria a sua vida para sempre e o tornaria figura proeminente na história da igreja. Simão deixaria de pescar peixes para pescar homens. A Bíblia fala de três encontros entre Simão e Jesus, sendo o último deles definitivo.

Do que podemos depreender dos evangelhos de João, é provável que Simão tenha sido apresentado a Jesus ainda antes do início oficial do ministério deste. O dileto evangelista  nos conta que Pedro foi levado a Jesus por intermédio de seu irmão André, que era discípulo de João Batista e seguiu a Jesus quando o Batista se reportou a Jesus dizendo: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Tendo André, mais tarde, encontrado Simão, contou-lhe que havia achado o Messias, e então o conduziu a Jesus (Jo 1.35-42).

O evangelista Mateus nos conta sobre outro encontro: Simão e André estavam lançando a rede no mar, quando Jesus aparece andando junto ao mar da Galiléia e, vendo-os, disse-lhes: ‘“Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens’. Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no” (Mt 4.18-20). O relato de Mateus é endossado pelo evangelista Marcos no evangelho que este escreveu (Mc 1.14). O fato de terem deixado tudo e seguido a Jesus sem nenhum questionamento nos faz entender que já tinham sido apresentados.

Do relato de Lucas, todavia, inferimos que Simão e os demais que foram chamados voltaram á atividade da pesca, e que houve um terceiro e decisivo encontro de Jesus com eles. Precisavam de uma evidência clara da ação de Deus no carpinteiro de Nazaré. E aconteceu. Lucas registra que Simão e seus companheiros pescaram durante toda a noite e não pescaram nada. Por conseguinte, retornaram mais cedo à praia. Chegados à praia, viram Jesus ensinando uma grande multidão. O Mestre, de imediato, reconhece Simão e entra no barco dele. Em seguida, pede para que ele afaste o barco um pouco da margem e começa a ensinar à multidão. Simão ouve, maravilhado. Acabado o discurso, Jesus ordena que ele volte ao alto mar e novamente lance as redes. Simão relutou em fazê-lo, pois estava frustrado com os resultados da noite anterior. Mesmo assim cedeu e, sob a palavra do Mestre, lançou a rede. O resultado foi uma multidão tão grande de peixes que a rede se rompia, e o barco teria naufragado caso não tivessem pedido ajuda aos seus companheiros Tiago e João. Era a evidência de que Simão precisava. O espanto se apoderou dele, de sorte que se prostrou aos pés de Jesus e confessou-se pecador. Simão estava confessando Jesus como Senhor. É assim que acontece a chamada específica. Jesus diz-lhe: “Não temas, pois de agora em diante, serás pescador de homens”. Iniciar-se-ia uma nova vida.

“- Já aqui vemos que Pedro precisou de um sinal para compreender que deveria seguir a Cristo. Não fora suficiente o encontro que tivera em Betânia, além do Jordão, que lhe tivesse sido mudado o nome. Pedro mostra-se aqui como um típico representante dos “crentes da circuncisão”, pois, como bom judeu, movia-se através de sinais (I Co.1:22). Diante do sinal, porém, rende-se ao Senhor Jesus, o que não foi algo fácil para um homem como Pedro, que, ao longo da narrativa dos Evangelhos, revela ser um homem impulsivo, violento e que, assim agindo, demonstrava certa simpatia para com o partido dos zelotes, os radicais judeus que entendiam que a libertação de Israel deveria se dar pela revolta ao domínio romano” (Caramuru Francisco, em www.escoladominical.com.br/ dicas da semana).

ESCOLHIDO PARA FAZER PARTE DOS AMIGOS ÍNTIMOS

Mais tarde, Pedro seria chamado para fazer parte do círculo íntimo do Senhor, juntamente com Tiago e João. Esse trio presenciaria os momentos mais gloriosos do ministério do Senhor, como no caso da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5.37), na cena da transfiguração (Mc 9.9), na agonia de Jesus no Getsêmani (Mc 14.32), além de que seriam chamados por Paulo de “as colunas” entre os apóstolos (Gl 2.9).


MUDANÇA DE NOME

Jesus muda o nome de Simão. Já vimos que o nome do filho de Jonas anteriormente era Simão, abreviatura de Simeão, um dos doze filhos de Jacó, cujo temperamento impulsivo foi reprovado e censurado por seu pai (Gn 34.25-31; 49.5-7). Jesus, sabedor do temperamento de Simão e da necessidade de transformação de seu caráter, mudou-lhe o nome para Pedro (grego) ou Cefas (aramaico), o que fora o ponto de partida para uma profunda renovação de seu caráter e temperamento.

Essa mudança de nome está carregada de forte implicação teológica. Jesus não mudou o nome de Simão para Pedro apenas porque achava este mais bonito que aquele,  a troca de nome representou uma transformação que, paulatinamente, seria efetuada no seu ser mais profundo, e culminaria naquilo que a Bíblia chama de regeneração. Para um melhor entendimento do que estamos a afirmar, vejamos, ainda que superficialmente, a importância da outorga de um nome na Bíblia.

Para nós, dos tempos modernos, o nome não passa de um título pessoal, que serve para identificar um indivíduo. Esse não era o caso da Bíblia, onde o conceito de nome era ao mesmo tempo profundo e claramente concebido. Vamos a alguns exemplos.

• Primeiramente vemos que muitos nomes bíblicos estavam relacionados às circunstâncias do nascimento do indivíduo (Gn 10.25; 19; 19.22; 25.30). Essas circunstâncias poderiam ser proféticas (Gn 25.26).

• Outro motivo para a outorga de um nome era a esperança ou profecia. Deus usava nomes para que agissem como provas positivas sobre acontecimentos vindouros (Os 1.4; Is 8.14; cf 8.18). Quando eram os pais que nomeavam, eles podiam apenas expressar esperança, como, por exemplo, fazia a triste Leia (Gn 29.32,33). Outros nomes eram orações subentendidas (Gn 30.24). Nomes compostos com Yahweh e ’el devem ser compreendidos como sendo orações (ex. Josué significa Jeová é salvação).

• Muito freqüentemente, porém, a doação de um nome tinha um significado mais profundo e mais pessoal: a outorga positiva de um novo caráter e capacidade. No caso de homens nomearem a outros, isso poderia ser apenas uma esperança piedosa (2 Rs 24.17). No caso de Deus nomear alguém, tal nome era equivalente ou à regeneração, o que implicava numa mudança profunda no caráter (Gn 17.5,15; 32.28), ou à condenação (Jr 20.3).

A mudança do nome de Simão parece encaixar-se perfeitamente no caso de regeneração, pois tal fato acompanharia uma transformação constante em seu caráter.


O CARÁTER DE PEDRO

Grandes gênios normalmente são pessoas que têm grandes defeitos.

Quem não se envolve não sofre, mas também fecha todas as potencialidades e possibilidades. Pedro sofreu muito porque se envolveu muito. E por se envolver muito, Pedro cresceu mais que todos. 

O caráter de um indivíduo é o conjunto de suas qualidades boas ou más que determinam a sua conduta. A Bíblia salienta os traços principais do caráter de Pedro, os quais iam se revelando em suas ações.

Pedro era um homem sincero. Desde os primeiros instantes em que esteve com Jesus, Pedro mostrou-se uma pessoa transparente e verdadeira, como no momento em que, maravilhado pelo milagre da pesca maravilhosa, prostrou-se aos pés do Mestre e confessou-se pecador, pedindo-lhe que se afastasse dele.

Pedro era dinâmico. Dinamismo é qualidade daquele que é enérgico, ativo, bem disposto, que tem iniciativa. Foi com essa disposição que Pedro decidiu sair do barco e ir ao encontro de Jesus por sobre as águas, levantou-se contra os homens que intentavam prender seu Mestre e cortou a orelha de um deles, e, no dia de pentecostes, teve a iniciativa de sair do cenáculo e pregar o primeiro sermão, arrebatando quase três mil almas.

Pedro era um homem volúvel. Uma pessoa volúvel é alguém instável, ambivalente, que gira facilmente; numa linguagem bem prosaica, quando não é oito, é oitenta. No capítulo 16 do evangelho de Mateus, vemos uma sequência de fatos que mostram bem essa realidade. O homem que ainda há pouco tinha dado lugar para Deus usá-lo, agora dava lugar para o diabo (vv 16,17,22,23). O mesmo homem que arriscou a sua vida para salvar seu Mestre, arremetendo-se contra seus algozes, e feito a promessa de que iria com Ele até a morte, mais tarde, nega-o diante de uma criada (Jo 18.10, 17,25-27). O mesmo Pedro que um minuto antes não aceitava que Jesus lhe lavasse os pés, agora diz ao Mestre: “Senhor, lava não só meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13.6-9). Que extremos!

Pedro era impulsivo e impetuoso. Impulsividade é qualidade de quem reage irrefletidamente, sob as emoções do momento. Pedro era guiado por uma forte impulsividade, conforme podemos ver nos casos já citados, quando ele cortou a orelha de Malco, ou então quando prometeu que iria com Jesus até à morte se preciso, sem nem sequer ter ideia da grandeza da promessa que estava fazendo.

JESUS CONHECIA PEDRO

"Por isso eu digo que tu é Pedro."

Quando uma pessoa diz: "Eu sou Pedro", qual o significado disso para ela? Quando uma outra pessoa diz: "Ele é Pedro", qual o real significado disso para quem está falando? Quando Jesus diz: "Por isso eu digo que tu és Pedro", qual a profundidade e dimensão do significado disso?  

Jesus conhecia muito bem as qualidades, potencialidades e possibilidade de Pedro, quando o chamou para o ministério. O mestre via além das fraquezas daquele homem: visava as suas potencialidades. Para citar o lugar comum, vale lembrar que Deus não chama capacitados, mas capacita os chamados. A ousadia, impulsividade e dinamismo de Pedro seriam muito úteis quando a serviço de Deus (At 1.13,15; 2.4). Antes disso, todavia, Pedro passaria por uma experiência que foi decisiva para uma transformação profunda no seu caráter. Ele precisava olhar para si mesmo e se descobrir. 


GRANDE FRACASSO E RENOVAÇÃO

Pedro nega a Jesus. No capítulo 26 do evangelho de Mateus está registrada a mais importante e mais amarga experiência da vida de Pedro. Por três vezes ele negaria seu Mestre. Logo ele que havia prometido ir com Jesus até à morte, se preciso (v 35). O acontecimento se dá no pátio da casa do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e anciãos estão reunidos. Jesus está preso. Todos buscam acusações contra ele. Depois de um interrogatório breve, cospem-lhe o rosto e o esbofeteiam. Pedro observa. De repente, uma criada se aproxima e lhe diz: “Tu estavas Com Jesus, o Galileu”. Ele responde: “Não sei o que dizes”. Amedrontado, sai para o vestíbulo, quando uma outra criada diz para os que ali se encontram: Este também estava com Jesus, o nazareno”. “Eu juro que não conheço tal homem”, Pedro responde, irrefletidamente. Ah! mas o sotaque dele o denuncia. “Verdadeiramente tu és um deles, pois a tua fala te denuncia”, acusam-no de novo. Pedro se indigna, começa a praguejar e jurar: “Não conheço esse homem”. O galo começa a cantar. Imediatamente Pedro lembra o que Jesus havia dito, e qual não foi sua dor quando, naquele mesmo momento, Cristo o olha de forma penetrante. Só lhe resta chorar, chorar amargamente. Era a tristeza segundo Deus, que opera o arrependimento para a salvação (2 Co 7.10). Ali Pedro é despido de todo sentimento de orgulho, prepotência e superioridade que o caracterizou nos três anos de discipulado. Sem dúvida alguma, o fato de fazer parte do círculo íntimo de Jesus e as revelações que recebera de Deus fizeram-no pensar que era melhor que os demais. Agora se sentia o pior de Todos. Começava a conversão de Pedro.

Procurado por Jesus. Os dias que se seguiram à morte de Cristo foram sombrios para Pedro. Ele ainda podia ouvir o cantar do galo e ver o olhar penetrante de Jesus. Os pensamentos que campeavam sua cabeça eram de desilusão, frustração e pesar. Negar seu Mestre, não, aquilo seria irreparável. De repente, as mulheres lhe trazem a notícia de que Jesus havia ressuscitado e mandara um recado para ele: “Mas ide, dizei a seus discípulos [de Jesus] E A PEDRO que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis como ele disse” (Mc 16.7). Ali começava a restauração de Pedro. Mais tarde, Jesus lhe aparece, ressurreto, em circunstâncias desconhecidas (Lc 24.34).

Foi no mar de Tiberíades que se deu o último estágio da restauração. João conta que, mesmo depois de todas as experiências que tivera com o Senhor, Pedro resolve voltar à pesca (cap 21). Alguns dias se haviam passado desde que Jesus aparecera pela segunda vez aos discípulos no Cenáculo – naquela ocasião, Ele lançou em rosto a incredulidade de Tomé (Jo 20.27). Junto com Tomé, Natanael, Tiago e João, Pedro tem uma ideia que revela mais uma vez a inconstância de seu caráter. Ele diz: “Vou Pescar”. Naquela noite, nada apanharam. De manhã, Jesus aparece na praia, mas não é, a princípio, reconhecido por eles. “Filhos, tendes alguma coisa que comer?”, pergunta o “desconhecido”. “Não”, é a resposta que tem. “Lançai a rede à direita do barco e achareis”, continuou. Obedeceram a ordem e uma multidão de peixes emergiu na rede. Estava se repetindo o milagre da pesca maravilhosa. Acredito que Jesus queria lembrar-lhes alguma coisa a: que em uma circunstância bem parecida como aquela, ele fora chamado para abandonar a pescaria para ser pescador de homens. Por que então estava voltando ao mar?

Foi João quem primeiro percebeu que era Jesus e abriu os olhos de Pedro: “É o Senhor” (v7). Quando Simão Pedro reconheceu Jesus, cingiu-se (estava nu) e lançou-se no mar. Na praia, depois de jantarem, Jesus se dirige a Pedro com a seguinte Pergunta: “Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que a estes?” “Sim, Senhor; tu sabes que eu te amo”, respondeu Simão. “Apascenta as minhas ovelhas”, continuou Jesus. Simão seria questionado mais duas vezes com a mesma pergunta. Pela terceira vez, ele responde, agora entristecido, “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”. “Apascenta as minhas ovelhas”, Jesus lhe pede pela terceira vez. Pronto: Pedro estava restaurado, convertido, transformado; pronto a ir até à morte por Jesus. Tanto é que, logo em seguida, o Senhor vaticina sobre o tipo de morte que Pedro teria, com que glorificaria a Deus (vv 18,19).


TOTALMENTE TRANSFORMADO

Pedro no Pentecostes. Jesus já havia voltado para o céu. Antes, porém, ordenou que os discípulos não se ausentassem de Jerusalém até que do alto fosse revestidos de poder (At 1.8). Cinqüenta dias depois da ressurreição de Jesus, acontece o cumprimento da promessa e os discípulos são batizados com o Espírito Santo (At 2.1-5). Os sinais resultantes do batismo chamam a atenção de judeus de todo o mundo que estão ali reunidos para celebrarem a festa de Pentecostes e querem saber o que era aquilo. Pronto. Pedro, cheio do Espírito Santo, levanta-se e prega o seu primeiro sermão com tanta ousadia e destemor que quase três mil almas se converteram. Seu temperamento destemido, impulsivo e ousado estava agora a serviço de Deus, sob total controle do Espírito Santo. Imaginem só alguém que negara Jesus diante de simples criados, agora o confessando diante de grandes autoridades.

Pedro após o Pentecostes. O comentarista deste trimestre fala de dois elementos que marcaram o ministério de Pedro: graça para resistir à perseguição e zelo pela integridade da igreja.

a) Resistindo à perseguição. O homem inconstante que não conseguia velar sequer uma ora em oração com seu Mestre, agora é um crente de constante oração. E estava indo orar, juntamente com João, quando curaram um coxo à porta do templo (At 3.1-9). Naquela oportunidade, Pedro pregou seu segundo sermão, resultando na conversão de quase cinco mil almas (At 4.4). O tumulto chamou a atenção dos sacerdotes e dos capitães do templo, os quais conduziram Pedro e João ao Sinédrio, o mesmo tribunal que julgara Jesus. Pedro agora está convertido, está seguro e convicto, a ponto de defender com toda a ousadia a causa do Mestre e regozijar-se por se haver digno de sofrer pelo seu Senhor (At 5.42). Nem mesmo os grandes interpretes da lei judaica conseguiram calar o homem, muito pelo contrário, ficaram impressionados com a sabedoria co que Pedro falava, sabendo que este era homem indouto. Pressionado para que parar-se de pregar, Pedro se saiu com esta pérola: “Porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At 4.20).

b) Zelando pela integridade. A igreja recém-formada crescia de forma impressionante. Grande era o entusiasmo entre aqueles primeiros crentes. Ele vendiam suas propriedades e traziam aos pés dos apóstolos. É nessa conjuntura que Pedro, como um líder na igreja, tem que lidar com os ardis de Ananias e Safira, um casal que usou de falsidade para com a comunidade dos santos. Eles venderam voluntariamente uma propriedade, a fim de que o dinheiro fosse doado para a realização de obras sociais na igreja. Mas não entregaram o valor combinado, guardaram uma parte, tentando assim enganar o homem de Deus. A desonestidade do casal foi revelada a Pedro pelo Espírito Santo. Não, a igreja não podia abrir aquela fissura logo de início. Pedro precisava tomar uma posição. E agiu. Por uma questão de integridade – isso não se negocia –, ministrou uma punição extrema – a morte - sobre Ananias e Safira (At 5.1-10).

É importante notar o papel de liderança desempenhado por Pedro naqueles dias. Foi ele que sugeriu que se escolhesse um outro apóstolo para preencher o lugar de Judas, o traidor, e que resultou na escolha de Matias. Foi ele quem respondeu aos judeus atônitos o que significava os sinais no dia de Pentecostes, quem se insurgiu contra a desonestidade de Ananias e Safira; mais tarde daria palavra decisiva sobre os gentios, ordenando que não impusessem sobre eles o jugo dos ritos judaicos (At 15.7.-10).


CONCLUSÃO

Pedro foi um homem notável por sua sinceridade e forte desejo de servir a Jesus em quaisquer circunstâncias. Com sua história, aprendemos que Deus chama o homem, apesar dos seus defeitos, a fim de projetar nele o seu caráter santo mediante a obra do Espírito Santo. Pois ele conhece a estrutura de cada um de nós, sabe de nossas imperfeições e nos entende. Há, porém, uma virtude que não pode faltar ao servo do Senhor: sinceridade. Se formos sinceros e desejarmos realmente servi-lo com toda a dedicação, a porta estará aberta para o Espírito Santo efetuar as transformações necessárias em nosso caráter.


BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Estudo pentecostal/ CPAD.

Lições bíblicas CPAD/ A busca do caráter cristão (3º trimestre, 2007).

GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 1990

O Novo Dicionário da Bíblia. Editado por R. P. Shedd. São Paulo: Vida Nova, 1995

Comentário Bíblico Pentecostal. Editado por French L. Arrington e Roger Strostad. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

BUCKANDE, M. A. Dicionário Bíblico Universal. São Paulo: Editora Vida, 1981.


sábado, 24 de setembro de 2011

Davi, homem segundo o coração de Deus


E, quando este foi retirado, levantou-lhes como rei a Davi, ao qual também deu testemunho, e disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade..." ATOS 13:20-22
Davi era o filho mais novo dos oito filhos de Jessé, o belemita, da tribo de Judá (1 Sm 17.11,12), bisneto de Boaz e Rute, a moabita (Rt 4.18-22), e o segundo rei de Israel. Sua história, realizações e problemas ocupam uma parte extensa das páginas sagradas, de 1 Sm 16 a 2 Reis 1 e em 1 Crônicas 2 a 29. O nome Davi parece significar amado (raiz hebraica dwd – amor) e é aplicado nas escrituras unicamente ao filho de Jessé, talvez para acentuar o eminente lugar que ocupa, como o ancestral, precursor e figura do Messias (Sl 22; R 1.3). Para se ter uma ideia da grandeza desse homem, o Novo Testamento se refere a ele 58 vezes, incluindo-se aí o título constantemente atribuído a Cristo: Jesus, filho de Davi. E, em uma revelação formidável a João, o próprio Jesus diz: “Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã” (Ap 22.16).

Davi era uma pessoa segundo o coração de Deus (1 Sm 13.14). Sem dúvida esse espantoso elogio feito por Deus a Davi é o principal motivo por que ele se tornou objeto de tanta curiosidade. Em um momento de crise na vida do povo de Israel, quando Deus havia rejeitado Saul por causa dos pecados deste, ordenou que o profeta Samuel ungisse o filho de Jessé rei sobre o seu povo, e ele se tornaria o maior de todos os reis de Israel.


UM SERVO FIEL E RESPONSÁVEL

A primeira vez que Davi aparece no cenário de Israel, encontramo-lo nas colinas de Judá, pastoreando as ovelhas de seu pai. (1 Sm 16.11). Temos então parte importante de sua biografia, a de que seu primeiro emprego foi como pastor de ovelhas, função que ele, paulatinamente, foi deixando para servir ao rei Saul, primeiramente como músico no palácio, depois como pajem de armas do rei (1 Sm 16.21-23). A maneira como ele serviu é objeto de nosso estudo neste primeiro tópico. Num rápido passeio pelos campos de Judá, e depois numa visita ao palácio de Saul, veremos por que Davi chamou a atenção de Deus.
  
1. No pastoreio das ovelhas. O que Deus viu nesse rapaz que o identificou como rei de seu povo em potencial? Primeiro, ele tinha um espírito de servo. A sua prontidão para o serviço está clara no fato de que, ainda muito jovem, foi encarregado de cuidar das ovelhas de seu pai, trabalho que não era visto com bons olhos pelos seus irmãos (1 Sm 17.28). Segundo, ao lermos 1 Sm 17.34,35, saltam aos olhos a responsabilidade e fidelidade com que servia. Davi devotava tanta dedicação e desvelo às ovelhas que era capaz de arriscar a própria vida para arrebatá-las das garras de ursos e leões famintos (1 Sm 17.34,35). Tamanho comprometimento com a tarefa que lhe fora conferida por Jessé, sem dúvida alguma foi um dos fatores pelos quais Davi foi escolhido para rei de Israel.

Vemos ainda, no salmo 23, o quão dedicado ao rebanho era o filho de Jessé. Ele compara o cuidado de Deus para com os seus filhos aos cuidados que um pastor, diligente como ele, dispensa às ovelhas. Deus só pode ser comparado a um pastor responsável e zeloso. Bem a propósito, Davi, consumido de zelo pelo rebanho, viu no cuidado que ele procurava dispensar ao rebanho um retrato do cuidado do Senhor para com os seus. O que Davi procurava ser para o seu rebanho, Deus era para ele. Note a importância disso. Ao comparar “o Senhor é meu pastor e nada me faltará / Deitar-me faz em verdes pastos/ Guia-me mansamente a águas tranquilas / Refrigera minha alma...”, o filho de Jessé dá uma ideia do tamanho de seu compromisso e desvelo para com as ovelhas.

A quem Deus está procurando para engrossar sua fileira nos dias hodiernos? Pessoas formadas, capacitadas, belas, adestradas? Não. A história do chamado de Davi e rejeição de seus irmãos contradiz este mito. O Senhor procura sobretudo pessoas que tenham o que o doutor Caramuru, no site da Escola Dominical, chamou de consciência do compromisso assumido, no texto que transcrevemos abaixo.

- Devemos, desde já, verificar que a consciência do compromisso assumido, que a disposição para cumprir com as tarefas que são cometidas por quem de direito é um traço de caráter indispensável para quem quer servir a Deus. Davi foi chamado por Deus como “um homem segundo o coração de Deus” (I Sm.13:14), precisamente porque, no silêncio, no anonimato, fazia questão de honrar o compromisso de cuidar do rebanho que lhe fora confiado. Este mesmo sentimento de dedicação e de consciência do compromisso nas mínimas coisas continua a ser observado por Deus, que conhece os corações (I Sm.16:7 “in fine”). Jesus fez questão de lembrar, na parábola dos talentos, que um requisito para que alguém alcance o gozo do Senhor é o de ter sido fiel sobre o pouco (Mt.25:21,23). Por isso, o profeta nos aconselha a jamais desprezarmos o dia das pequenas coisas (Zc.4:10a). A dedicação de Davi era tanta que seu pai, mesmo sem sequer saber onde se encontrava o pequeno, sabia que ele estava a apascentar as ovelhas, tanto que não houve dificuldade em achá-lo (I Sm.16:12). Esta dedicação e este compromisso são, pois, fatores importantíssimos aos olhos do Senhor. Davi era um homem agradável a Deus por causa deste seu comportamento. Não foram as guerras que fizeram Davi agradável ao Senhor, nem tampouco os salmos ou os esforços em prol da obtenção de materiais para o templo, mas, sim, este sentimento de serviço, de submissão. Este foi o fator que fez com que Deus escolhesse a Davi. E nós, será que temos este mesmo sentimento? Jesus, o Filho de Davi, tinha-o, como nos mostra o apóstolo Paulo (Fp.2:5-8) e o escritor aos hebreus (Hb.10:7-9), que, de resto, apenas confirmam aquilo que o próprio Senhor publicamente afirmou (Mt.5:17), sendo testificado pelo Pai (Mt.3:17). Estamos imitando a Cristo? Temos aprendido esta lição com Davi?

2. Na corte do rei. Davi estava certo de que Deus o faria rei de Israel. Todavia, enquanto o tempo determinado pelo Senhor não chegara, ele continuou demonstrando um espírito de servo fiel e responsável, dessa vez na casa de Saul, o rei que havia sido rejeitado por Deus. Diz-nos a Bíblia que aquele monarca estava sendo atormentado por um espírito maligno e que precisava de alguém que tocasse bem a harpa para trazer-lhe alívio. Buscaram a Davi. Este o fez como tanta dedicação e desvelo que caiu na graça do eminente rei de Israel (1 Sm 16.21,23). Mais tarde, o futuro rei se tornaria pajem de armas de Saul, o que também procurou fazer com a mesma dedicação que havia servido a Jessé no pastoreio das ovelhas. O espírito prestimoso de Davi se traduz de forma precisa nas palavras do escritor sacro: “E saía Davi aonde quer que Saul o enviava, e conduzia-se com prudência, e Saul o pôs sobre a gente de guerra, e era aceito aos olhos de todo o povo, e até aos olhos dos servos de Saul” (1 Sm 18.5). E apesar das posteriores perseguições de Saul contra o futuro rei, este nunca empreendeu esforço algum para usurpar-lhe o trono, pelo contrário, recusou-se terminantemente a dar cabo da vida de seu monarca, quando este caiu em suas mãos (1 Sm 24; 26), e sempre se reportava a ele como “teu servo” (1 Sm 26.19). A disposição para o serviço era, portanto, uma marca registrada do filho de Jessé. Tanta disposição, acrescida de sua grande responsabilidade, contribuiu para que Deus o escolhesse para pastorear as ovelhas da casa de Israel (Sl 78.70-72).


ASPECTOS DO CARÁTER DE DAVI

Esta história é contada e recontada, sempre com uma emoção nova. Deus já havia rejeitado Saul para que não fosse mais rei sobre o seu povo. Então Ele ordena ao profeta Samuel que encha o seu vaso de azeite e vá à casa de Jessé, o belemita, a fim de ungir um de seus filhos como o novo rei de Israel. É interessante notar que o Senhor não antecipa para o seu profeta quem seria o escolhido, como aconteceu no caso de Saul (1 Sm 9.16). Seria uma revelação instantânea. Quereria o Senhor colocar o discernimento de seu servo a prova? Não se tem certeza. De qualquer maneira fica a lição para nós. Os homens de Deus também estamos sujeitos a julgar segundo a aparência das coisas.

Chegado Samuel à casa de Jessé, este faz passar todos os seus belos filhos diante do profeta. Eram sete no momento. Fisicamente, todos eram fortes concorrentes ao cargo, tanto que Samuel teria elegido Eliabe, enquanto que Jessé elegeria Abinadabe ou Samá. Desta vez o critério usado na escolha seria diferente, todavia. Não consoante a aparência física, como no caso da escolha de Saul, mas segundo os valores arraigados no coração.

O Eterno não se impressiona com a aparência dos homens, diria Paulo (Gl 2.6), porque ele enxerga o que está nos recônditos da alma. “Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a altura da sua estatura, porque o tenho rejeitado, porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Sm 16.7). “Acabaram-se os moços?”, pergunta o profeta. “Ainda falta o menor, e eis que apascenta as ovelhas”, responde Jessé, um tanto confuso. Pois é: aquele pastor de ovelhas seria o escolhido e se tornaria o maior rei de Israel. Mas o que havia de tão importante no coração dele para vencer a forte concorrência? Vejamos.

1. Coração de servo. Já vimos que Davi ganhara certa notoriedade após ser ungido por Samuel. Ele estava servindo a Saul, no palácio real. Todavia tal notoriedade não o impediu de continuar cuidando das ovelhas do pai. Diz-nos a Bíblia que “Davi ia e voltava de Saul para apascentar as ovelhas de seu pai em Belém (1 Sm 17.15). Veio a guerra com os filisteus, e Jessé precisou enviar mantimento para os seus filhos que estavam em campo de batalha. Buscou, então, a Davi lá no meio das ovelhas. “Então Davi de madrugada se levantou pela manhã, e deixou as ovelhas a um guarda, e carregou-se e partiu, como Jessé lhe ordenara...” (1 Sm 17.20). Realmente, Davi tinha um coração de servo, pois servia prazerosamente. Usando uma expressão atual, o nome de Davi era Trabalho, sobrenome era Dedicação.

Há três tipos de servos: a) os inferiores são aqueles que vivem cheios de apatia e descontentamento com o que fazem, por isso estão sempre cometendo atos desabonadores sem refletir nos prejuízos que possam causar aos outros; b) os ordinários vêem o serviço apenas como obrigação, dele esperando lucros, riquezas e posições; c) os verdadeiros servem por prazer e amor. Davi não pertence à primeira categoria, porque não o encontramos em lugar algum se queixando do seu laborioso trabalho. Também não pertence ao segundo grupo, porque, em termos de lucro financeiro e posição social, o seu trabalho lhe rendia muito pouco. Davi pertencia ao último grupo, porque amava o que fazia. Jesus também fazia parte desse último grupo (Jo 4.34; Fl 2.5-8). A que categoria você pertence?

2. Humildade. A humildade é a virtude que nos dá o sentimento de nossas fraquezas e limitações; é demonstração de respeito e submissão. Vamos primeiramente encaixar Davi na primeira definição. Ele atribuía todas as suas vitórias ao Senhor. Ao chegar no arraial, onde seus irmãos estavam, viu o campeão dos filisteus, Golias, de Gate, desafiar vergonhosamente o exército de Israel, enchendo os israelitas de pavor. Golias queria um homem para lutar com ele, mas ninguém do exército de Saul se dispunha. Davi se oferece para pelejar contra o incircunciso filisteu, o que despertou a ira de seu irmão contra ele. Diante de Saul, questionado se podia ir contra Golias, homem adestrado na guerra, respondeu: “Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; e vinha um leão e um urso, e tomava uma ovelha o seu rebanho; e eu saí após eles, e os feri, e livrei-a de sua boca. Levantando-se eles contra mim, lancei-lhe mão da barba, e o feri, e o matei... O Senhor me livrou da mão do leão e da do urso; ele me livrará da mão desse filisteu (ler 1 Sm 17.32-37). Mais tarde, diante do descomunal guerreiro, Davi diria: “Eu venho a ti em nome do Senhor dos exércitos... hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão...”. Note: Davi não confiava nas suas habilidades, atribuía todas as suas vitórias ao Senhor”, sentimento que ele melhor traduziu nos salmos que compôs (Sl 131; 40; 124 etc.). A quem você tem atribuído as suas vitórias?

Em se tratando de submissão e respeito aos seus superiores, o filho de Jessé sempre foi um exemplo. Era um filho totalmente submisso ao seu pai. Era um súdito totalmente submisso ao rei, apesar da patente aleivosia deste contra ele (diga-se de passagem o fato de Saul não ter-lhe dado a filha mais velha por esposa, conforme prometera ao que vencesse Golias – 1 Sm 17.25; 18.17). Mais tarde, como o grande rei de Israel, foi um servo submisso em tudo ao Senhor e aos seus profetas – Natã que o diga. Terminado este subtópico, seria um desperdício não transcrever aqui as palavras do pastor Eliezer de Lira e Silva: “Quanto mais o homem se aproxima da bondade, santidade e grandeza do altíssimo, mas consciente se torna de seus pecados, mazelas e misérias” ( [Rm 7.24,25; 12.3] revista de mestre da escola dominical/ 3º trimestre 2007/ p 14).

3. Sincero. Davi sabia que todas as coisas estão diante do Senhor (Sl 139), por isso nunca quis ser uma pessoa diferente do que realmente era. No salmo 15, ele põe a sinceridade entre as características dos que andam com Deus, bem como define o caráter de uma pessoa sincera. “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? quem morará no teu santo monte? Aquele que anda em sinceridade e pratica a justiça, e fala verazmente segundo o seu coração”. Não podemos esquecer que a nossa  sociedade valoriza excessivamente o exterior, mas Deus olha para a essência do indivíduo. Por isso, ser sincero é requisito indispensável para quem quer andar com Deus
4. Coragem. A coragem de Davi fez dele um guerreiro sem par, o maior de todos os conquistadores da história de Israel (1 Sm 18.5). As mulheres israelitas reconheceram isso quando cantaram: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares” (1 Sm 18.7). Essa virtude começou aflorar logo cedo, quando, ainda pastor, se arremeteu contra um leão e um urso e os matou, e foi crescendo na mesma proporção em que cresciam os desafios. Mais tarde, arrostaria o incircunciso gigante que causava pavor até aos mais adestrados guerreiros de Israel. Em outra ocasião, matou, com seus homens, duzentos filisteus e trouxe os prepúcios de cem deles ao rei Saul. Este condicionou dar sua filha Mical a Davi ao sucesso dessa empreitada (1 Sm 18.20-27). Note a progressão dos atos de bravura do filho de Jessé. De onde vinha tanta coragem? Ele mesmo responde: “Com a tua ajuda passo pelo meio dum esquadrão; com o meu Deus salto uma muralha” (Sl 19.29). Sua coragem, portanto, se afirmava na autêntica fé em seu Deus (Sl 17.37,45-47).

5. Gratidão. “Mede-se o caráter de um homem pelo tamanho da sua gratidão”, disse alguém. A gratidão de Davi a Deus diz muito sobre a grandeza de seu caráter. Os salmos que escreveu (São ao menos 73 salmos) estão repletos de gratidão ao Senhor. Ele é considerado “o suave em salmos”, porque seu louvor emana das profundezas de um coração agradecido. Expressões do tipo “Eu te louvarei, Senhor”, “Exaltar-te-ei, ó Deus”, “Em todo tempo louvarei ao Senhor”, são copiosas em seus poemas (Sl 9; 30; 34;145, etc.).

Gratidão implica em reconhecimento por todos as dádivas recebidas. No salmo 124, numa festa solene, Davi externa seus mais profundos sentimentos ao dizer: “Se não fora o Senhor que esteve ao nosso lado, ora diga Israel: se não fora o Senhor que esteve ao nosso lado quando os homens se levantaram contra nós, eles então nos teriam engolido vivos”. Acredito que naquele momento passavam pela cabeça do salmista os vários livramentos da parte do Senhor - quando enfrentou Golias (1 Sm 17.48); quando implacavelmente perseguido por Saul, teve que fugir para Áquis, rei de Gate e ali se fingiu de louco para não ser morto, ou quando se refugiou na caverna de Adulão e habitou entre homens proscritos, os quais conquistou de forma tal que se tornaram os valentes de seu reinado (1 Sm 22.1,2); quando teve que perseguir os amalequitas para recuperar os seus bens, inclusive suas mulheres que foram levadas por eles (1 Sm 30.1-17); quando estourou a guerra civil em Israel, no tempo em que Absalão, seu filho, intentou contra seu reino ( 2 Sm 15.1-18.22). Seria desnecessário e até enfadonho anotar aqui todas as dádivas e livramentos de Deus ao seu servo Davi. Isso o leitor pode encontrar na Bíblia. Por ora, é importante anotar que Davi era todo gratidão, tanto que encerra os seus dias com dois cânticos (2 Sm 22; 23.1-7), em um dos quais, ele se derrama : “Por isso, Senhor, te louvarei entre as gentes, e entoarei louvores ao teu nome” (22.49).

6. Dependência de Deus. Davi aprendeu a depender totalmente de Deus mediante as fortes intempéries da vida. Quando Saul o expulsou como proscrito e começou uma caçada implacável contra ele, o filho de Jessé buscou um relacionamento ainda mais profundo com o seu Pastor, a fim de suportar a rejeição e a hostilidade do rei. Alguns de seus salmos externam os pensamentos e sentimentos de seu coração nessa época, revelando sua total dependência de Deus. Quão maravilhoso é o salmo 18, que ele escreveu quando escapava de Saul: “Eu te amarei do coração, ó Senhor, fortaleza minha. O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio...” (vv 1,2). Veja também alguns versos do salmo 3, que ele compôs quando fugia da face de Absalão, seu filho: “Muitos dizem da minha alma ‘não há salvação para ele em Deus’. Mas tu, Senhor és um escudo para mim, a minha glória, e o que exalta a minha cabeça...” (vv 2,3). Convém lembrar ainda que Davi, apesar de ser um guerreiro excelente, não fazia coisa alguma sem antes consultar ao Senhor. Por diversas vezes, vemo-lo consultando a Deus a respeito de como se deveria conduzir nas batalhas (1 Sm 22.10; 23.2; 30.8; 2 Sm 5.19). Em todas as vicissitudes da vida, ele confiava e dependia do Senhor. Num mundo de tantas incertezas e fatalidades como o nosso, “feliz é o homem que tem o Deus de Jacó por seu auxílio e cuja esperança está posta no Senhor seu Deus” (Sl 146.5).

7. Arrependimento. Nesse espaço, veremos uma fase de declínio na vida do grande rei de Israel. Sua história ficaria manchada para sempre pela mácula de um adultério e, conseqüentemente, um homicídio. No capítulo 11 de 2 Sm, encontramos o relato de um crime brutal. Está escrito que, nos tempo em que os reis saem para a guerra, Davi enviou Joabe e seus servos para destruírem os filhos de Amom. Davi, porém, ficou em Jerusalém. Passeando no terraço do palácio real, ele viu Bat-seba, mulher de Urias, um de seus homens valentes, lavando-se. Davi, consumido por um desejo carnal desenfreado, mandou que buscassem a mulher e se deitou com ela. Para desespero do rei, a mulher ficou grávida. Ele então mandou buscar Urias, seu marido, no campo de batalha para que ficasse com sua mulher algum tempo, a fim de imputar-lhe aquela concepção. Como Urias se recusou a proceder conforme Davi ordenara, este arquitetou a sua morte, ordenando a Joabe que o colocasse à frente do campo de batalha, em local indefensável, para que morresse. Morto Urias, Davi tomou sua viúva como esposa. Como ninguém mais sabia do ocorrido, o rei se comportou como se nada houvera acontecido.

A Bíblia é categórica em afirmar que aquilo parece mal aos olhos do Senhor, o qual enviou o profeta Natã para repreender a Davi. Após contar uma parábola que dimensionou a gravidade do ato, o profeta declara a sentença de Deus para o rei. É aí que aflora uma característica fantástica de Davi: a sua capacidade para reconhecer seus erros e arrepender-se. Ele não mandou prender o profeta como se esperava e como fez Asa (2 Cr 16.10), também não transferiu responsabilidades, nem procurou justificar-se como fez Saul (1 Sm 13.13-14; 15.1-3,9,15-31), todavia arrependeu-se profundamente e disse: “Pequei contra o Senhor”. A Palavra de Deus afirma que “o que encobre suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcança misericórdia” (Pv 28.13). Um dos grandes legados de Davi para os cristãos de todos os tempos é o salmo 51, que mostra a oração de um homem profundamente arrependido. Tal arrependimento levou o Senhor a perdoá-lo, apesar de que as conseqüências de seus pecados não tardariam chegar (2 Sm 12.10-12).


CONCLUSÃO

Davi morreu com idade entre 70 e 80 anos, sendo que quarenta deles reinou sobre o povo de Deus. Foi um personagem singular na história bíblica. Seus erros e fracassos não sepultaram as glórias de suas virtudes, virtudes que lhe asseguraram um lugar proeminente no plano divino de salvação para a humanidade, tanto que recebeu a promessa messiânica, ou seja, que não faltaria rei sobre o trono de Israel da casa de Davi (2 Sm 7.16). A sua grade diferença residia no fato de que ele desejava ardentemente o coração do Eterno. E isso lhe rendeu o título “um homem segundo o coração de Deus”, o que significa dizer que o coração do altíssimo se reproduzia no coração de Davi na medida em que este ansiava pela presença do Santo de Israel e primava por uma vida de intensa devoção e comunhão com Ele. Assim sendo, um crente segundo o coração de Deus é alguém que deseja ardente e constantemente a presença do Eterno. Finda essa aula, a nossa oração é para que o Espírito Santo faça brotar no coração de cada cristão um propósito básico: ser uma pessoa conforme o coração de Deus. Amém.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Jesus, Mestre dos Mestres

“E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se admiravam dizendo: De onde lhe vêm essas coisas? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?” (Mc 6.2).


“Nunca homem algum falou como este homem”. Com essa frase dois servidores testemunharam acerca do impacto dos ensinos de Jesus sobre seus alunos. A clareza, autoridade e originalidade com que o Mestre de Nazaré ensinava encantavam até os seus adversários e lhe renderam o título de maior Mestre de todos os tempos. Nos dias de Jesus, Sócrates, o grande mestre grego, já havia passado por aqui; Moisés, o grande legislador de Israel também; Esdras, o mestre do pós-cativeiro também – sem falar de outros grandes nomes como Platão, Aristóteles, etc.; mas foi do homem de Nazaré que alguém comentou: NUNCA HOMEM ALGUM FALOU ASSIM COMO ESTE HOMEM. Só prara se ter uma ideia mais clara do reconhecimento do magistério deste homem, das 90 vezes que alguém se dirige a Ele, em 60 Ele é chamado de Mestre

Ensinar era algo  que estava no âmago da missão de Jesus, a maior parte do seu ministério foi ocupada pelo ensino. O Mestre de Nazaré deu importância e dimensão ao ministério do ensino como ninguém jamais houvera feito. Ele começou seu ministério ensinando (Mt 4.5), passou seus últimos dias entre os homens ensinando (Jo caps 14;15;16) e a sua última comissão á igreja foi: “Ide e ensinai” (Mt 28.19,20). ! Era impossível ouvi-lo e ficar indiferente ou inerte. Os que o ouviam, ou o amavam profundamente ou o odiavam com ódio cruel, isso porque ele quebrou os paradigmas de sua época. Em uma ocasião, após ouvirem um de seus discursos, muitos dos seus discípulos o abandonaram dizendo: "Duro é este discurso; quem o pode ouvir?" (Jo 6.60). João tem o cuidado de registrar que a partir daquele momento, muitos de seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele (Jo 6.66). Mas qual o grande diferencial do Mestre de Nazaré? Que predicados o consagraram como o maior de todos os tempos? Vejamos alguns.

1. Jesus ensinava com autoridade . É comum, em um texto dissertativo, para ser convincente, alguém usar “argumento de autoridade”. Por exemplo, se queremos defender uma tese de cunho científico, citamos as palavras de um grande cientista; se a tese é de cunho religioso, citamos um grande religioso; se é de cunho econômico, citamos um grande economista, e daí por diante. Os mestres de Israel, a fim de endossar seus ensinos, citavam as tradições e a autoridade destas para apoiar seus argumentos e interpretações. Outrossim, citavam Moisés, cuja autoridade impunha respeito sobre o povo. Afinal de contas, até o momento, nunca havia se levantado em Israel um profeta ou legislador da envergadura de Moisés. Por isso era comum se ouvir “assim como escreveu Moisés” ou “como nos ensinou Moisés”. Dessa sorte, a autoridade que calcava o discurso pertencia ás tradições ou àquele que era citado. De repente aparece Jesus com uma forma argumentativa centrada nele próprio, dizendo “ouviste o que foi dito... eu, porém, vos digo” (Mt 5.21,22,27,28, 31-34, 38,39, 43, 44). Essa forma inédita de argumentar causou espanto nos ouvintes de Jesus. A autoridade em que ele alicerçava seu ensino era nele mesmo, não nos antigos. O Mestre não precisava citar outras fontes, pois ele mesmo era a Palavra de Deus e o Verbo vivo. Por isso que Lucas observa que a multidão se maravilhava de seus ensinos, porque ele ensinava com autoridade, e não como os escribas e fariseus (Mt 7.29).

2. Jesus ensinava em todos os lugares, a todas as pessoas. Ninguém era tão sábio ou indouto que pudesse ser dispensado dos ensinos de Jesus. Ele lecionou para um mestre de Israel chamado Nicodemos (Jo 3.1-21); como também lecionou para uma mulher simples de Samaria (Jo 4.1-30). Ele ensinava a grandes multidões (Mc 6.34), a pequenos grupos e também individualmente (Lc 24.27; Jo caps 3 e 4). Em todos os lugares, eis o incansável Mestre ensinando: nas sinagogas (Mc 6.2), em casas particulares (Mc 2.1; Lc 5.17), no templo (Mc 12.35) e nas aldeias (Mc 6.6). Para ser aluno de Cristo, bastava está em seu caminho em qualquer lugar onde Ele estivesse.

3. Usava e abusava dos mais variados métodos de ensino. O Mestre se valeu de vários métodos pedagógicos, de acordo com a capacidade cognitiva de seus ouvintes, a fim de comunicar com eficiência. Ele criava condições favoráveis ao aprendizado de seus alunos, adaptando a lição ao aluno, não ao contrário. Ele analisava as condições psicológicas das pessoas, atentava para suas necessidades, interesses problemas pessoais e, a partir daí, mostrava caminhos e meios. Vejamos alguns métodos usados por Jesus.

a) Método expositivo (Mt 5.1,2; Lc 4.22).
b)Método socrático (Mt 22.42-45; ver Mt 13.51; 22.20; Mc 13.2; Lc 10.26).
c) Método de discussão (Lc 24.15-27,32; ver At 17.3,17; 18.4).
d) Método audiovisual (Mt 6.26, 28; Mc 12.15,16).
e) O método narrativo (Mt caps 13, 25; Lc caps 10, 15).
f) O método de leitura (Lc 4.16).
g) O método demonstrativo (ver Jo 13.15; At 1.1).

4. Jesus era pertinente. Ser pertinente significa ser próprio, concernente, adequado. Jesus arrebatava as multidões porque tinha uma mensagem que satisfazia a necessidade espiritual das pessoas. Ele tinha um método eficientíssimo de comunicar sua mensagem e uma vida que a endossava. Então o seu sucesso devia-se a junção destes três elementos: uma mensagem (que ensina e satisfaz), um método (que comunica) e uma vida (que conserva). Uma vez o Mestre disse aos seus discípulos: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu fiz, façais vós também” (Jo 13.15). Em outra oportunidade advertiu-os: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). Mais tarde, o escritor aos hebreus traduz a coerência entre os ensinos de Jesus e a sua vida exemplar ao dizer: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa se compadecer de nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15); e “... naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (Hb 2.18). Por isso que até mesmo os que não gostavam de Jesus voltavam dizendo: Nunca homem algum falou como este homem(Jo 7.46).

5. Ilustrava sua mensagem com belas parábolas. O termo parábola significa, etimologicamente, colocar uma coisa do lado da outra, a fim de comparar. Segundo a hermenêutica bíblica, parábola é uma narrativa alegórica constituída de personagens, coisas, incidentes e atitudes que, através de comparações, facilita a compreensão de realidade que se acham além do nosso entendimento.

Dos vários métodos usados por Jesus a fim de favorecer a compreensão, o que se sobressaiu foi o método narrativo, que consiste em contar histórias do cotidiano para ilustrar verdades que, de outra forma, seria de muito difícil compreensão. Dessa forma, as parábolas foram um recurso didático abundantemente usado pelo Mestre de Nazaré. Jesus era um excelente contador de histórias. Suas parábolas até hoje são apreciadas por leitores de todo o mundo, tanto adultos como crianças. Dentre as mais conhecidas, temos a Parábola do bom samaritano (Lc 10), da ovelha perdida (Lc 15), das dez virgens (Mt 25), do filho pródigo (Lc 15). Além de que Jesus era um exímio observador. Tudo em seu campo de visão podia ser usado como objeto ilustrativo para comunicar seu pensamento.

Ao ensinar verdades profundas por meio de parábolas, Jesus tinha objetivos bem definidos: Ele queria esclarecer o Reino de Deus aos pequeninos e ocultá-lo daqueles que, julgando-se mestres, recusavam a sua doutrina. Em certa ocasião, ele mesmo disse: “Por isso vos falo por parábolas, porque eles [os religiosos de Israel], vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem” (Mt 13.13). Aliás, essa atitude do Mestre já havia sido predita pelo profeta Isaías (Is 6.9,10). Achamos por bem transcrever abaixo o comentário preciso do pastor Ezequias Soares a respeito do assunto em apreço.

“Nem todos os que seguiam a Jesus estavam preocupados com o Reino de Deus e muito menos interessados em aprender. O propósito do Mestre era atrair os verdadeiros interessados por sua mensagem, pois, não entendendo, iam pedir-lhe explicações (Mt 13.10). Como toda a Palavra de Deus, as parábolas do Senhor Jesus eram como espadas de dois gumes. Se por um lado explicavam os mistérios do Reino de Deus aos pequenos e humildes (Lc 10.21), por outro, ocultava esses mesmos mistérios aos sábios e inteligentes. Se quisermos aprender os mistérios do Reino de Deus, devemos nos prostrar aos pés do Mestre divino e, assim, em profunda humildade, guardar seu ensinamentos em nosso coração”.

6. O ensino de Jesus era prático e desafiador. Ao proferir seus magistrais ensinamentos, Jesus não tinha como objetivo embevecer seus ouvintes com a sua incrível sabedoria ou encher-lhes o coração e a mente com princípios impraticáveis, absolutamente não, ele tencionava transformar-lhes a vida através da prática de tudo o que ele ensinava. Em certa ocasião, uma mulher ficou tão maravilhada com as palavras do Mestre que exclamou: “Bendito o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste!” (Jo 11.27). Jesus, porém, a corrige, dizendo: “Antes, bendito os que ouvem a Palavra de Deus e as guarda” (Jo 11.28).

O Mestre foi muito pertinente em encerrar o Sermão do Monte com a parábola dos dois construtores. Ele queria advertir a multidão sobre o fato de que de nada adiantaria ouvi-lo, maravilhar-se de sua doutrina e em seguida lançar para trás tudo o que fora aprendido. Assim ele apresenta a figura do insensato, o qual ouve, mas não se dá ao trabalho de praticar, este é o que edifica na areia, cuja construção não resiste às intempéries da vida. Da mesma forma, o Senhor apresenta a figura o homem prudente, o qual, não só ouve, mas pratica o que ouviu, este é comparado ao homem que edificou sobre a rocha, cuja construção resistiu firmemente contra as tempestades. Tiago, mais tarde, aconselharia aos irmãos: “E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1.22).


CONCLUSÃO

Já li muitos dos grandes mestre, pensadores de projeção universal que mudaram culturas e  influenciaram sociedades inteiras; todavia, ao compará-los a Jesus, só me resta fazer uso das palavras dos servos do sacerdote, citadas no início do texto: “Nunca homem algum falou como este homem”. Sinceramente, não tem "pra" ninguém.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A ATUAÇÃO SOCIAL DA IGREJA

3º trimestre de 2011
Subsídio para lição 10

Leitura bíblica: Isaías 58.6-8,10, 11; Tiago 2.14-17


TEXTO ÁUREO

“[...]Vinde, benditos de meu Pai […], porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedaste-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).

INTRODUÇÃO

A preocupação com o bem-estar de todo ser humano é uma constante na Bíblia Sagrada desde os dias do Antigo Testamento (Lv 23.22; Dt 15.11; Sl 41.1). No Novo Testamento, se evidencia de forma gritante nas ações de Jesus, o qual andou fazendo o bem e libertando todos os oprimidos (Lc 4.18; At 10.38). Finda a sua missão terrena, o Filho de Deus transferiu à sua igreja, como parte de sua missão, o auxílio aos carentes, ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós”, e seus seguidores imediatos não descuidaram de sua responsabilidade social. Portanto a atuação social da igreja, socorrendo os pobres em suas diversas necessidades e promovendo meios de transformação da realidade social, diferente do que pensam muitos, não é um desvio de sua missão, mas parte intrínseca dela. Nos ensinos e ações de Jesus, está patente que seus seguidores têm o dever (não a opção) de minorar o sofrimento humano, considerando o homem em sua totalidade: corpo e alma-espírito. Uma igreja que apenas se importa com a salvação da alma, não atentando para outras necessidades básicas dos indivíduos, sem dúvida é uma igreja alienada de sua real missão.

POBREZA: UMA REALIDADE SEMPRE PRESENTE NO MUNDO



O fenômeno da pobreza é universal e atemporal, presente em todas as nações, apesar de se manifestar mais severamente hoje nos países subdesenvolvidos. Apesar do considerável desenvolvimento econômico mundial nas últimas décadas, de uma conscientização geral por melhor distribuição de renda e das mobilizações de ativistas em países desenvolvidos em favor de nações extremamente pobres, a pobreza ainda atinge proporções dramáticas no cenário mundial. Estima-se que 1 bilhão e 100 milhões de indivíduos vivam em pobreza extrema, passando com menos de um dólar por dia. Cerca de um bilhão de pessoas passam fome e mais de 800 milhões vivem subnutridas. Anualmente, cerca de 18 milhões de vidas são ceifadas por razões relacionadas com à pobreza, sendo a maioria mulheres e crianças. Todos os anos, cerca de 11 milhões de crianças morrem antes de completarem 5 anos. 1

No Brasil, segundo o Censo do IBGE 2010, somam-se 16,27 milhões de pessoas os que vivem em situação de extrema pobreza, o que representa 8,5% da população, numa taxa de extrema pobreza que atinge quase um brasileiro a cada dez”.2 São pessoas sem acesso mínimo a serviços que ofereçam qualidade de vida, como saúde, moradia e educação, sem um mínimo de dignidade.

Esse quadro social pintado no Brasil e no mundo, com desníveis sociais tão perversos, de extremos alarmantes em que alguns enriquecem cada vez mais enquanto muitos vivem à margem da sociedade em total indigência, tenta nos fazer pensar que Deus não se importa, que o mundo está entregue à ganância dos poderosos. Mas Deus se importa tanto que deixou seu representante neste mundo, a igreja, coluna e firmeza da verdade, para denunciar as injustiças e influenciar as sociedades. Ele não está indiferente, Ele está esperando a igreja agir.

MEIOS DE EXERCER A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No livro Ação Social Cristã, o pastor Hélcio da Silva Lessa classifica a responsabilidade social em três categorias: assistência social, serviço social e ação social. Para melhor compreensão da aula, vamos ver sucintamente a definição de cada uma delas.

1) Assistencialismo. Busca atender às necessidades emergentes das pessoas. A pessoa atendida, objeto da ação, encontra-se numa situação de total dependência e, mesmo havendo o suprimento de suas necessidades, as suas carências continuam.

2) Serviço Social. Aqui, a pessoa carente recebe condição para interagir e melhorar sua situação, recuperando a dignidade e confiança. Projetos sociais tendo como alvo o ensino, a orientação, o apoio e a profissionalização promovem a capacitação do indivíduo a fim de que este se torne responsável pela solução de seus problemas.

3) Ação Social. Procura transformar as estruturas da sociedade, buscando a criação de bases mais justas. Neste sentido, é muito importante que seja criada uma consciência cívica no meio evangélico, que leve cristãos aos órgãos públicos que estão diretamente relacionados com a infra-estrutura sócio política do país (do Manual de Ação Social/ Igreja Metodista).

Então, quando falamos de atuação social, isso não se restringe apenas ao campo do assistencialismo (assistência social), mas tem a ver também com educação, saúde, distribuição de renda e emprego.

QUESTÕES SOCIAIS NO ANTIGO TESTAMENTO

Havia na comunidade israelita do antigo Testamento um profundo senso de responsabilidade social. A Palavra de Deus determinava que os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos fossem assistidos e socorridos em suas necessidades básicas (Dt 15.7-10; Lv 19.10; 23.22; Ex 23.11). Vejamos como Deus, que nunca deixou de se preocupar com a dignidade humana, estabeleceu medidas econômicas e sociais para o seu povo, a fim de que os mais abastados assistissem os pobres, visando relações justas entre eles.

1) O ano Sabático (Lv 25.1-17). A cada sete anos, o solo deveria ser liberado para descanso e renovação da terra, os escravos seriam libertados, os endividados, perdoados, os trabalhadores tinham direito a descanso e os pobres tinham o direito de colher para eles mesmos do fruto da terra (23.10,11).

2) A lei do jubileu (Lv 25.8-34). Entre outras coisas, determinava que, a cada cinquenta anos, os escravos seriam libertados, todas as dívidas seriam perdoadas e as terras seriam devolvidas aos seus antigos donos. Essas medidas evitavam a concentração de riquezas (diga-se de terra), promoviam a redistribuição dos meios de produção e evitavam situações extremas de dívidas, pobrezas, desapropriação e miséria.

3) Dízimos e colheitas (Dt 14.22-29; Lv 19.9,10). Os dízimos de toda a produção agrícola se destinavam, entre outras coisas, para o sustento dos órfãos, viúvas e estrangeiros. Em relação a colheita, a Palavra de Deus determinava: “E quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás...” (Lv 23. 22). Tais procedimentos protegiam os estrangeiros e evitavam a pobreza extrema no meio do povo. Rute, nora de Noemi, foi beneficiada por esta lei (Rt 2.2,3).

O NOVO TESTAMENTO E A AÇÃO SOCIAL DA IGREJA

Na palestina do Novo Testamento, a situação sócio-econômica da maioria das pessoas era deplorável. Quando Jesus se tornou notícia na região por seus ensinos milagres, uma turba de necessitados acorria a Ele, a fim de serem ajudados, muitos apenas para matar a fome (Jo 6.26). Eram pobres, enfermos, deficientes físicos, viúvas, crianças, idosos, desamparados, desabrigados e maltratados (Lc 14.13,14).

Destarte, a maior parte dos evangelhos ocupa-se com as ações magnânimas do Mestre de Nazaré. Ele foi, de longe, o maior exemplo de preocupação e auxílio aos necessitados, o que se evidencia tanto em seus ensinos quanto em suas obras. Pedro o apresenta como “aquele que andou fazendo o bem”. Uma de suas ricas parábolas é a do bom samaritano, o bondoso homem que arriscou sua vida para cuidar de um necessitado desconhecido com quem nem o sacerdote nem o levita se importaram (Lc10.25-37). Essa parábola ainda hoje exerce grande influência nas civilizações. Em outra parábola – sobre as ovelhas e os bodes – Jesus se identifica tanto com os pobres a ponto de dizer: “O que vocês fizeram a um destes pequeninos irmãos [os pobres necessitados], a mim o fizeram” (Mt 25.40). Ele Não podia ver os miseráveis sem se compadecer (Mt 9.36; 14.14; 20.34; Mc 10.45). Uma vez, chegou a convidar um homem rico a vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mt 19.21).

“Jesus se preocupou com o homem enquanto unidade bio-psiquica-social-espiritual. Ele curou, ensinou, salvou, consolou e devolveu a muitos a dignidade. Cuidou do ser humano por inteiro. A prática de Jesus segue uma sequência marcada pelo ver, sentir e agir. Nesse sentido, é interessante notar que nos vários encontros de Jesus com as pessoas, indivíduos ou grupos, a ação de Jesus foi marcada por uma completa coerência com seus ensinos. Por isso Pedro apresenta Jesus como ‘aquele que andou fazendo o bem”’.3

Jesus encarnou a plenitude do amor e preocupação de Deus com os pobres tão nitidamente manifesta no Antigo Testamento. A sua compaixão com os miseráveis responde a uma pergunta que é constante no coração de quem sofre: “Deus se importa?” Jesus responde que sim.

Como não poderia ser diferente, a igreja primitiva seguiu o exemplo de Jesus, seu Mestre. A grande sensibilidade de Deste para com as necessidades humanas, vemos agora nas ações daquela primeira comunidade cristã, traduzida no cuidado de uns para com os outros. Após o grande despertamento promovido pela descida do Espírito Santo (At 2), os discípulos do Senhor anunciaram veementemente o Evangelho, o que resultou num crescimento frenético do número de convertidos, os quais se organizaram numa comunidade fiel, calcada na doutrina, na comunhão, fraternidade e oração (At 2.42; 4.31; 5.42). Aqueles discípulos souberam conjugar a prática da evangelização com a prática do serviço social, esta última, parte integrante daquela.

Segundo a narrativa de Lucas, uma ação usual entre os primeiros cristãos era a partilha de bens para atender os mais necessitados (At 2.44,45; 4.34,35). Alguns deles, voluntariamente, vendiam suas propriedades para suprir as necessidades dos mais carentes, como foi o caso de Barnabé (At 4.37). Por isso, “todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum (…), não havia entre eles necessitado algum” (At 2.44; 4.34).

Na medida em que a igreja se expandia por várias regiões distantes, os apóstolos, nas cartas que escreveram às congregações, não descuidaram de incentivar o compromisso social cristão. Paulo trata da liberdade da contribuição (1Co 9.7) e elogia os macedônios por darem na medida de suas posses e ainda acima delas (2 Co 8.3). Tiago fala da assistência aos necessitados como característica inerente à religião pura (Tg 1.27) e condena abertamente os ricos que oprimem os pobres (Tg 5.1-6). João fala do socorro aos necessitados como a materialização da caridade de Deus em nós (1 Jo 3.17,18).

CONCLUSÃO

Há uma frase do famoso orador romano, Cícero, que diz: “É impossível conhecer a verdade e não ser responsabilizado”. A igreja de hoje não poderá alegar ignorância de sua missão, porque esta está muito clara no Livro Sagrado, nos ensinos e ações de Jesus, bem como nas recomendações e exortações dos apóstolos. Nós somos responsáveis.





terça-feira, 26 de julho de 2011

O REINO DE DEUS ATREVÉS DA IGREJA

Por Renato Oliveira


INTRODUÇÃO

Estamos estudando neste trimestre sobre o a Missão integral da Igreja, o reino de Deus esta entre vós. Um assunto muito importante, pois vem nos conscientizar sobre a necessidade da igreja cumprir integralmente suas funções. Aprendemos que Reino de Deus significa o “Senhor intervindo e predominando no mundo, para manifestar seu poder, sua gloria e suas prerrogativas contra o domínio de satanás e a condição atual deste mundo” (Bíblia Pentecostal). Podemos definir também como “a soma de todas as bênçãos, promessas e alianças que o Todo Poderoso destinou aos que recebem a Cristo Jesus”. Logo entendemos que Reino de Deus é algo além da salvação, é Deus revelando-se com poder na execução de todas as suas obras. Partindo deste principio compreendemos que missão integral é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e a fé, para acesso ao Reino de Deus. Posteriormente a pessoa e tudo quanto produz passam a servir aos interesses do Reino de Deus, existindo e funcionando em alinhamento ao caráter perfeito de Deus. No entanto para que haja esta manifestação de poder, domínio e realização das obras descritas na definição do Reino de Deus é necessário ter um agente e para tanto o Senhor Jesus criou uma instituição e comissionou para tal responsabilidade. Logo o Reino de Deus, no presente tempo, deve ser manifestado através da igreja.

1-O REINO DE DEUS E A IGREJA.

1.1-Igreja, representante do Reino.

No antigo testamento o Senhor Deus escolheu e delegou ao povo de Israel a tarefa de fazê-lo ser conhecido diante dos outros povos “E andarei o meio de vós e eu vos serei por Deus, e vós me sereis por povo” (Lv 26.12). Observamos que as manifestações de Deus, do seu poder, autoridade, domínio sempre era manifesta através de Israel. Quando da ocasião da retirado do povo de Israel do Egito o próprio Deus endureceu o coração de faraó para mostrar seu domínio “E eis que endurecei o coração dos egípcios para que entrem nele atrás deles; e eu serei glorificado em Faraó, e em todo o seu exército, e nos seus carros, e nos seus cavaleiros. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor , quando for glorificado em Faraó, e nos seus carros, e nos seus cavaleiros.” (Ex 14.17,18). No novo testamento vemos Jesus Cristo após sua ressurreição vemos delegar a igreja a ser o representante de Deus aqui na terra. Não há outra instituição que deve cumprir este papel, senão a igreja. O termo igreja significa ekkesia, que por sua vez significa Assembleia do povo de Deus, ou seja, corpo místico de Cristo, formado pelos que recebem a Cristo como único e suficiente salvador e também ajuntamento dos fiéis com o objetivo de adorar a Deus. No primeiro caso, temos a igreja invisível, pois somente o Senhor Jesus pode distinguir os verdadeiros dos falsos crentes e isto será manifesto no dia do arrebatamento. No segundo caso temos a igreja visível ou institucional que é representada diante da sociedade politicamente organizada. Observe que quando se trata de ser representante de Deus não se refere a quatro paredes, más de pessoas, pois esta representação não é material e nem política, más sim espiritual. Apóstolo Paulo disse “O reino de Deus não é comida e nem bebida, más justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).

1.2-A igreja é comissionada por Cristo.

Durante seu ministério terreno Jesus pregou o evangelho do Reino, curou as enfermidades e moléstias entre o povo (Mt 4.23) , expulsou demônio (Mt 8.28-32), alimentou os famintos ( Lc 910-17), ressuscitou mortos (Jo 11. 38-45), más também organizou e preparou um grupo de pessoas , homens que eram simples pescadores más que receberam a incumbência de serem pescadores de homens “vinde após mim e eu os farei pescadores de homens” (Mt 4.19). Mesmo sem saber o que o mestre Jesus estava dizendo, deixaram as redes e seguiram-no (Mt 4.20).Observe que desde o princípio a incumbência foi que proclamassem a mensagem do Reino de Deus. Destes simples pescadores nasceu a igreja, sob muito poder e virtude para que a eficácia da pregação do evangelho fosse alcançada “Más recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunha tanto em Jerusalém, como na Judéia e em toda a Samaria e até os confins da terra” (Atos 1.8). O escritor Marcos relata que quando Jesus apareceu aos seus onze discípulos após sua ressurreição disse: “Ide por todo o mundo pregai o evangelho a toda criatura” ”(Mc 16.16) “E estes sinais seguirão ao que crerem em meu nome, expulsarão demônio, falarão em novas línguas; pegarão em serpentes e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes farão dano algum, imporão as mão sobre os enfermos e os curarão”(Mc 16.17-18). Fomos comissionados a gerar uma nova cultura debaixo do senhorio de Cristo Jesus.

1.3-A igreja na sociedade.

Ter convivência com a comunidade sem se envolver-se com as praticas do mundo ou associar-se a ele em suas ações é o maior desafia da igreja dos dias atuais. Jesus disse que somos “luz deste mundo e sal desta terra”. Como luz deste mundo a igreja é como um farol em meio a tanta escuridão. Deus se importa não só com a redenção das almas, más também com a restauração de sua criação. Ele nos chama para sermos agentes não apenas da graça salvadora más também da graça comum. A igreja deve influenciar e envolver e nunca ser influenciada ou ser envolvida pelas coisas deste mundo. A igreja também não pode tomar a postura de ficar neutra, inerte, pois a grande comissão de Jesus foi: “Ide”. É praticamente impossível expandir o Reino de Deus sem interagir com as pessoas, e interagir aqui significa agir com o outro sem perder suas particularidades. A igreja é um agente transformador comissionado pelo Senhor Jesus. É dela a responsabilidade de frear a degradação dos valores na família e na sociedade, de minimizar o sofrimento do povo, principalmente daqueles que mais sofrem, pois foi exatamente isto que fez o nosso Senhor Jesus. Ele era amorosamente amistoso, relacionava com os marginalizados e desprezados, enfermos e oprimidos pelo nosso adversário, seu alvo principal era conduzir o pecador ao Reino de Deus. Enquanto este mundo mergulha no abismo da imoralidade a igreja apresenta a justiça do Reino de Deus como solução; no esfriamento do afeto, compreensão, comunhão e amor a igreja de Cristo exala amor, pois seu Senhor e Rei é amor.

Enquanto a igreja permanecer neste mundo seremos agente da graça de Deus, seremos a fonte de alegria , paz , amor , justiça e esperança.

2. O REINO DE DEUS PRESENTE NA IGREJA

2.1 Na pregação cristocêntrica.

Embora a igreja pode e deve usar de todos os meios legais para expandir o Reino de Deus no mundo atual, tendo sempre a visão total do homem, a mesma não deve deixar de pregar o Cristo ressuscitado. A pregação cristocêntrica deve ser uma das principais características da igreja de Cristo. Pregar a palavra tendo como tema principal Jesus Cristo é ir de encontro à causa de todos os males desta sociedade, que é a falta do conhecimento de Deus e do seu plano de salvação. Ter atividades na igreja é importante, más o que transforma o homem e mantém a igreja edificada e com crescimento quantitativo e principalmente qualitativo é a pregação da palavra tendo como assunto principal Jesus Cristo. Foi por este caminho que a igreja primitiva percorreu e alcançou em pouco tendo muitas almas para o Reino de Deus (Atos 2.36).

Paulo escrevendo a igreja aos Coríntios disse que “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da gloria de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4.4) e o remédio ou antídoto contra esta cegueira é a revelação de Jesus Cristo através da sua palavra. Por estarmos vivendo em um mundo onde a necessidade material a cada dia é mais ardente, multidões estão indo a igreja para sanar esta necessidade e igreja não pode correr o risco de se tornar uma fonte de benção material. O teor da mensagem não pode ter o objetivo de atenuar a aflição da humanidade causada pela escassez material, más de revelar o grande propósito de Deus que é a salvação do homem através de Jesus Cristo. A igreja deve mostrar a humanidade que se buscarmos o Reino de Deus e sua justiça todas as demais coisas o Senhor Jesus garante que nos concederá, ou seja, quem estiver sob o Senhorio do nosso Senhor Jesus terá o cuidado que somente ele pode conceder (Mt 6.25-34).

2.2Na comunhão.

Um dos pilares da missão da igreja aqui neste mundo é promover a comunhão dos que vivem a partir do evangelho (Koinonia). Jesus quando da sua última reunião com seus discípulos antes da sua crucificação disse “um novo mandamento vos dou: “que vos ameis uns aos outros, como eu vós amei, que também vós uns aos outros vos ameis; nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.33.34). Observe que Jesus classificou amor como um mandamento e não um sentimento e única característica que o mundo deve ver em nós e nos classificar como verdadeiro seguidor de Cristo. O amor deve ser a marca distintiva dos seguidores de Cristo e este amor é abnegado e sacrificial e visa o bem do próximo e isto implica em ajudar uns aos outros nas provações, evitar ferir os sentimentos e a reputação uns dos outros e principalmente negar-se a si mesmo para promover o mútuo bem estar. Paulo classifica este amor como uma característica do Fruto do Espírito , uma interessante e ardente busca do bem maior de outra pessoa sem nada querer em troca (Gl 5.22). João chega a dizer que é uma característica do novo nascimento “Amados, amemos uns aos outros , porque o amor de de Deus, e qualquer que ama é nascido de Deus e conheça Deus;aquele que não ama não conhece a Deus , porque Deus é amor”(1 Jo 4.7,8).Por ter uma compreensão errada sobre o texto que Jesus disse “que por se multiplicar a iniquidade , o amor de muitos se esfriará” alguns crentes lamentavelmente estão aceitando e até praticando a falta de amor no meio da igreja assemelhando-se ao mundo. Neste texto Jesus estava se referindo ao aumento incrível da imoralidade, desrespeito ao próximo , rebelião contra Deus e que tudo isto faria minguar o verdadeiro amor, ou seja, todas as práticas do mundo faz o homem afastar-se mais de Deus e por conseguintemente do seu amor . Devemos amar nosso próximo porque é uma característica do fruto do Espirito e que através da nossa comunhão com Deus ,que é amor , o Espirito Santo faz derramar em nossos corações este amor ( Rm 5.5). Amor é a maior marca do cristianismo e a igreja deve ser a fonte inesgotável de amor . O mundo deve ver na igreja este amor manifestado pela comunhão entre os membros do corpo de Cristo e por esta característica ser atraído. O mundo não pode exalar amor, somente a igreja, pois temos a essência de Deus em nós. E este amor não é estático é progressivo, Deus dia-a-dia aperfeiçoa este amor em nós “… Deus está em nós, e em nós é perfeita a sua caridade” (1 Jo 4.12b). A igreja (local) que mais manifesta esta característica é a que mais cresce, pois assim procedeu a igreja primitiva “E perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração; louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo e todo o dia acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2.46,47).

2.3No serviço.

Como já vimos, a igreja na sua missão integral tem a incumbência de expandir o Reino de Deus aqui na terra e isto implica em atender as necessidades espirituais do homem e também em atender as necessidades do próximo. Deus por ser um Deus cuidadoso e zeloso com seus filhos tem o prazer de suprir as necessidades dos mesmos e uns dos meios que este cuidado é manifesto é através da igreja. A igreja primitiva tinha esta preocupação de cuidar uns dos outros, socorrer os necessitados, as viúvas e os desamparados, tanto que instituiu o diaconato com objetivo de escolher pessoas que fossem cheio do Espirito Santo para cuidar das necessidades dos crentes e o resultado foi que “crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé” (Atos 6.7).Logo, estar inserido no Reino de Deus significa estar sob o cuidado de Deus e também da igreja. O Pr. José do prado Veiga, diz que diaconia envolve todo o entendimento social e espiritual da igreja no que concerne ao socorro, ao tratamento, à cura, ao fortalecimento das fraquezas do ser humano, à libertação, a visitação e à pregação da Palavra e muito mais” (Ensinador Cristão Ano 12 – 47). A manifestação do Reino de Deus esta vinculado com o serviço cristão. Tiago trata este assunto com tanta relevância que chega a dizer que a “fé cooperou com as suas obras e que pela fé, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2.22). Tiago estava dizendo que a fé e as obras nunca poderão estar separadas, uma vez que as obras procedem naturalmente da fé. Ele vai mais profundo no assunto quando diz que “o homem é justificado pelas obras” (Tg 2.24).

3 QUEM É O MAIOR NO REINO DE DEUS

3.1O “maior” em humildade.

No inicio do seu ministério terreno Jesus expôs um requisito para aqueles que quisessem segui-lo teria que negar a si mesmo. Negar a nós mesmos não implica somente em sofrer por causa do evangelho de Cristo, más também deixar de lado o egoismo e o orgulho que faz parte da natureza pecaminosa do homem e viver uma vida debaixo do senhorio de Cristo. Por diversas vezes Jesus atacou este mal. Os discípulos de Jesus deixaram manifestaram este desejo de ser maior no Reino de Deus e Jesus ensinou que o maior deve ser em humildade e amor ao próximo. Como vimos o desejo de grandeza esta inserido na natureza do homem e por conta disto é que o homem ao aceitar a Jesus como seu salvador o Espirito Santo começa a gerar nele fruto e uma desta características é a temperança que é o domínio próprio. Infelizmente vemos em nossos dias igrejas locais, departamentos e principalmente entre os obreiros esta ânsia de ser grande ser manifestada , más a grandeza que Deus requer daqueles que desejam viver no Reino Dele é a a humildade. E para ser verdadeiramente humilde e não hipócrita tem que estar sob o domínio de Cristo Jesus “e vivo, não mais eu, más Crito vive em mim” (Gal 2.20). Que o senhorio de Jesus Cristo possa fazer com que nossos anseios sejam mortificados pela graça de Cristo Jesus que em nós é manifesta.

3.2O maior deve ser como uma criança.
Por Renato Oliveira


Uma das características que deve ser manifestado nos seguidores de Cristo é a humildade e para tanto Jesus deixou claro como deve ser o modelo de humildade dos seus súditos. Esta humildade não deve ser algo imposto ou sob uma ordenança de uma liderança eclesiástica, mas deve ser manifestada do interior do homem transformado por Jesus Cristo, ou seja, esta humildade que os filhos de Deus devem manifestar deve ser pura e sincera, e foi por isto que Jesus usou uma Criança como modelo de humildade, pureza e sinceridade.

Ao requerer atos e atitudes como de uma criança, Jesus não estava dizendo que o crente deve ser meninos no entendimento ou na firmeza ou até mesmo no conhecimento da palavra. Jesus estava exigindo que nossos atos e atitudes devem ser sem malicia e Paulo ratificou esta exigência quando disse a igreja de corintios “irmãos não sejais meninos no entendimento, más sede meninos na malicia e adultos no entendimento” ( 1 Co 14.20) . A humildade que procede da temperança do fruto do Espirito faz com que o cristão consiga “ser unânimes e não ambicionar coisas altas, más acomodar nas humildes” (Rm 12.16). Esta acomodação nas coisas humildes como fruto da atuação do Espirito Santo não deixa o cristão na acomodação ou na inércia, más provoca no crente um desejo ardente pela “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

3.3O maior deve ser servos de todos.

Na sua última noite terrena Jesus fez um ato que comoveu todos os discípulos que estava com Ele. O mestre de posse de uma bacia com água começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha que estava cingida ( Jo 13 1-13). E esta atitude não só demostrava o quanto que Ele os amava más também de demonstrar a eles que foram chamados para servirem uns aos outros em humildade. Jesus estava ensinando que a cultura do seu reino é diferente deste mundo. No mundo onde nosso adversário atua ser servo é sinônimo de fraqueza, de inferioridade, más no seu Reino, servir é um sinônimo de grandeza. Ser servo no Reino de Deus constitui em honra. O sábio Salomão disse que “diante da honra vai a humildade” (Pv.15.33). O escritor aos Hebreus diz que todo nosso serviço como servo não é esquecido por Deus (Hb 6.10), e que não precisamos buscar as recompensas neste mundo, pois Deus um dia nós recompensará (Mt 25.23).

CONCLUSÃO

A igreja de Cristo tem a árdua e ao mesmo tempo prazerosa responsabilidade de influenciar este mundo com a cultura e princípios do Reino de Deus. Uma vez que fomos transformados e estamos sob o domínio do Senhorio de Cristo devemos com as nossas atitudes atrair pessoas para o Reino de Deus. O Escritor Charles Colson fez um comentário que vale a pena ser exposto “Como agentes da graça comum de Deus, somos chamados a ajudar a manter e renovar sua criação, a sustentar as instituições formadas da família e da sociedade, buscar a ciência e a sabedoria, curar e ajudar aqueles que sofrem com o resultado da queda” (Charles Colson em E Agora Como Viveremos-CPAP). Que possamos ser impactados por esta vontade de Deus e possamos cumprir fielmente nossa missão como representanto de Deus aqui na terra.


Renato Oliveira é engenheiro, pastor evangélico, membro da Igeja Assembleia de Deus do Belém em São Paulo.





sábado, 25 de junho de 2011

Profetas Maiores e Menores

“E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as escrituras” (Lc 24.27).


Desde Moisés até João Batista, levantaram-se muitos profetas em Israel. Alguns não escreveram suas mensagens, os profetas orais; outros deixaram suas profecias e experiências registradas para a posteridade, os profetas literários. Estes últimos encontram-se divididos na Bíblia Sagrada em dois grupos: Profetas Maiores (cinco) e Profetas Menores (doze). Foram classificados assim por Agostinho em razão do volume de seus escritos. Porém, independente de classificação, todos os profetas, orais ou literários, exerceram o seu ministério debaixo da inspiração e autoridade divinas e foram o referencial constante dos ensinadores do Novo Testamento. Amiúde citados por Jesus e por seu apóstolos, estes gigantes da fé lançaram todo o alicerce sobre o qual a Nova Aliança seria edificada. Neste espaço, além de fazermos uma explanação sobre os dois grupos dos profetas literários, apresentaremos um breve estudo sobre o texto de Romanos 9.25-29, onde o apóstolo Paulo menciona os profetas Oseias e Isaías - um do grupo dos Maiores e outro do grupo dos Menores - para defender uma verdade central da fé cristã: o novo povo de Deus seria formado por gentios convertidos ao evangelho e pelo remanescente fiel de Israel, conforme predito pelos dois profetas supracitados.

I. CLASSIFICAÇÃO DOS LIVROS PROFÉTICOS

1. No Cânon Hebraico.

A Bíblia dos judeus é o Antigo Testamento hebraico, chamada por eles de Tanach, sigla que vem das palavras hebraicas Torah, Neviym, Kethuvym, e significam respectivamente Lei, Profetas e Escritos, as três principais divisões do Antigo Testamento. A Torah compõe-se dos cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), todos escritos por Moisés. Os Neviym estão divididos em duas partes: os profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis); e os profetas posteriores (Isaías, Jeremias e Ezequiel mais os doze profetas menores). Os Kethuvym compõe-se da terceira seção e estão subdivididos em três partes, representadas pelos livros poéticos ( Salmos, Provérbios e Jó); os Megilloth, ou Cinco Rolos (Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester); e os Livros Históricos (Daniel, Esdras-Nemias e Crônicas). Como os doze profetas menores formam um só livro, e da mesma forma, os dois livros de Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, e Esdras e Nemias, o Cânon Hebraico somam apenas 24 livros.

Esta disposição da Bíblia hebraica foi ratificada por Jesus no capítulo 24.44 do Evangelho de Lucas. Naquela ocasião, instruindo dois de seus discípulos no caminho para Emaús, o Mestre disse: “Convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés [Torah], e nos Profetas [Neviym], e nos Salmos [ Kethuvym]”.

2. No Cânon Cristão.

O Cânon Cristão corresponde ao Antigo Testamento hebraico mais o Novo Testamento. Em nossa Bíblia, o Antigo Testamento está dividido em quatro grupos: Lei - Parte correspondente aos cinco primeiros livros (Torah hebraico); Livros históricos – que correspondem a 12 livros (Josué, juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Nemias e Ester); Livros poéticos (Jó, Salmo, Provérbios, Eclesiastes e cantares de Salomão); e Os livros proféticos – que estão subdivididos em dois grupos, conforme vemos a seguir.

a) Os Profetas Maiores. Designação usada para identificar o primeiro conjunto de cinco livros dos profetas. São chamados de maiores por causa do volume de seu conteúdo literário, não porque são mais importantes que os demais. São eles: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel.

Isaías e Jeremias profetizaram a partir de Judá, durante um longo período de mais de quarenta anos. O primeiro é considerado o mais ilustre dos profetas literários e também como o profeta messiânico pelo fato de seu livro ser o que mais faz menção do Messias. O segundo, Jeremias intercala sua própria história com a história de seu povo numa sequência que abrange desde o reinado de Josias até o cativeiro babilônico. Jeremias foi perseguido pela casa real em Jerusalém muitas vezes (37.15) e, após a destruição da Cidade Santa, foi levado ao Egito contra a sua vontade. Devido o seu sofrimento intenso durante seu ministério profético, ficou conhecido como o profeta das lágrimas.

Ezequiel e Daniel são os profetas do exílio. Foram levados para Babilônia na primeira deportação. O primeiro profetizou por 22 anos junto ao rio Quebar (1.1; 43.3). Sua mensagem profética prevê a invasão da Terra Santa por Gogue e sua consequente derrota antes da restauração espiritual de Israel. O segundo, Daniel, foi levado muito jovem para Babilônia, serviu diretamente no palácio real. Após a queda de Babilônia, continuou no reino da Pérsia como ministro de e morreu no exílio.

b) Os Profetas Menores. Os Profetas menores do nosso Antigo Testamento estão na mesma sequência do Cânon judaico: Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. A designação Profetas Menores deve-se ao seu pequeno volume literário em comparação aos de Isaías, Jeremias, não se refere a grau de importância dentro do Cânon ou à qualidade da inspiração divina.

Os livros destes profetas levam os nomes de seus respectivos autores, cujos ministérios abrangem o tempo que vai de 800 a 435 a. C. Jonas e Joel são os primeiros profetas literários na ordem cronológica dos Menores, e profetizaram no Reino do Norte. O primeiro viveu na época de Jeroboão II, quando os assírios atormentavam o Reino de Israel. Foi incumbido, contra a sua vontade, de pregar aos assírios, em Nínive, para que estes se arrependessem. Joel é chamado de o profeta pentecostal por ter previsto o derramamento do Espírito Santo para nos últimos dias. É também conhecido como o profeta do Dia do Senhor.

Oseias, Amós Miqueias foram contemporâneos, sendo que os dois primeiros profetizaram Em Israel, e o terceiro em Judá. Junto com Isaías, formaram o quarteto áureo da profecia hebraica (790 – 695).

Com apenas um capítulo, Obadias profetizou a condenação de Edom, porque coligara-se aos caldeus durante o cerco de Jerusalém. Naum é um poema que antecipa o fim do cativeiro assírio cerca de 150 anos depois de Jonas. Habacuque é o registro de sua própria experiência com Deus, enquanto Sofonias, que não é citado no Novo Testamento, prega contra a injustiça, idolatria e hipocrisia, bem como sobre o iminente juízo divino.

Zacarias e Ageu são os profetas pós-cativeiro, os quais se empenharam junto a Zorobabel na reconstrução do templo e, impelidos pelo Espírito do Senhor, despertaram no povo acomodado o interesse pela obra.

II. OSEIAS, O PROFETA MENOR

Oseias foi chamado por Deus para profetizar ao Reino de Israel no reinado de Jeroboão II, quando aquele povo desmoronava espiritualmente nos últimos quarenta anos de sua existência. Quando Oseias começou seu ministério, Israel desfrutava de uma temporária prosperidade econômica e de paz política, que acabariam por produzir um falso senso de segurança. Logo após a morte de Jeroboão II, porém, a nação começa a deteriorar-se, e caminha velozmente à destruição em 722 a. C.

O que muito impressiona neste livro foi a ordem de Deus para Oseias se casasse com uma mulher de prostituição, a fim de exemplificar a infidelidade espiritual de Israel (Os 1.2). Por outro lado, o amor perseverante do profeta por sua mulher adúltera (3.1), serviria de ilustração do amor constante de Deus pelos filhos de Abrão. Deste casamento, o profeta tem três filhos, cujos nomes são sinais proféticos a Israel: Jezreel (Deus espalha), Lo-Ruama (Não compadecida) e Lo-Ami (Não meu povo).

1. Oseias no Novo Testamento. Os apóstolos e discípulos de Jesus fundamentavam suas pregações e ensinos na autoridade dos profetas. Até porque o que estava acontecendo em seus dias era o cumprimento da Lei e dos Profetas (Mt 11.13; Lc 24.44; At 26.22). Eles explicavam fatos curiosos, como a crucificação, o derramamento do Espírito e a conversão dos gentios, recorrendo aos vaticínios de Isaías, Joel, Oseias e outros. O livro de Oseias, especialmente, é muito citado no Novo Testamento. Há referência ao Filho de Deus chamado do Egito (11.1; cf Mt 2.15); ao desejo de Deus de que a misericórdia prevaleça sobre o sacrifício (6.6; cf Mt 9.13); e à vitória de Cristo sobre a morte (13.14; cf 1 Co 15.55).

O apóstolo Paulo menciona os nomes de dois grandes profetas, Oseias e Isaías, no capítulo 9 de Romanos, para explicar a salvação de um remanescente judeu e a inclusão dos gentios na igreja de Cristo. O contexto é formado pelos capítulos 9-11, em que Paulo mostra por que os judeus foram rejeitados e cortados por Deus, bem como por que os gentios foram chamados e eleitos para participar dos benefícios do evangelho. É notável o fato de ele ter citado os dois profetas exatamente na ordem em que aparecem em nossa Bíblia: Isaías, o primeiro livro dos Profestas Maiores, e Oseias, o primeiro dos Profetas menores.

2. A vocação dos gentios na profecia de Oseias

"Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo" (Rm 9.25,26).

Como já tivemos a oportunidade de ver, o terceiro filho do casamento de Oseias com Gômer é Lo-Ami, cujo nome significa “Não meu povo”. Há quem diga que essa criança não era filho legítimo do profeta. Essa situação constrangedora do profeta retrataria mais uma mensagem divina a Israel. Portanto, Lo-Ami denotaria (i) a rejeição de Deus a Israel por todos os seus pecados de idolatria: “E ele disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami, porque vós não sois o meu povo, nem eu serei o vosso Deus” (1.9); e Segundo a interpretação apostólica, (ii) a não participação dos gentios na família de Deus.

Entretanto, o mesmo Deus que rejeitou seu povo, entregando-o mais tarde ao rei da Assíria (2 Rs 17.6ss), promete reverter a situação e recebê-lo novamente como o seu para sempre: “Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que não pode medir-se nem contar-se (…)”. “E a Lo-Ami direi: Tu és meu povo. E ele dirá: Tu és o meu Deus” (2.23).

Note o paradoxo da frase: “Eu direi a Não-meu-povo (Lo- Ami): Tu és meu povo”. Deus reverteria uma situação irreversível enunciada na profecia. O apóstolo Paulo parte dessa compreensão, quando usa o mesmo oráculo para explicar o fato de os gentios estarem ingressando na igreja. Deus agora recebe os gentios, povo que não lhe pertencia (Lo-Ami), como seus filhos: “(...) e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo” (1.10).

Vale ressaltar que as duas referências do livro de Oseias utilizada por Paulo para mostrar a chamada dos gentios referem-se à redenção das tribos do norte de Israel. Por isso ele não está sugerindo que a salvação dos gentios seja o cumprimento direto dessas profecias. Ele apenas aplica o mesmo princípio, segundo o qual Deus reúne pessoas que não eram do seu povo, as que estavam alienadas Dele, para estabelecer uma relação com Ele, através de sua chamada graciosa.

III. ISAÍAS, O PROFETA MAIOR

Também Isaías clamava acerca de israel: ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a terra completando-a e abreviando-a. E como antes disse Isaías: Se o senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma e seríamos semelhantes a Gomorra (Rm 9.27-29).

Isaías profetizou por cerca de cinquenta anos no Reino do Sul durante o reinado de quatro reis: Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Seu ministério se deu no período de expansão do império assírio, do colapso de Israel e do declínio moral e espiritual de Judá. O seu livro é o mais citado no Novo Testamento depois dos Salmos e considerado a obra mais teológica e extensa de todos os livros proféticos do Antigo Testamento. Isaías ficou conhecido como o profeta messiânico ou profeta evangélico, porque de toda a literatura do Velho Testamento, suas profecias contêm as declarações mais plenas e claras sobre Jesus Cristo.

1. Explanação apostólica. No capítulo 9 de Romanos, o apóstolo Paulo cita o profeta Isaías, referindo-se a duas passagens de seu livro – 1.9 e 10.22,23 –, para aludir ao remanescente fiel dos judeus de sua geração, os quais estavam aderindo à fé cristã. Na verdade, nos capítulos 9-11 da carta referida, Paulo trata da eleição de Israel no passado, da sua rejeição do evangelho no presente e da sua salvação futura. Ele estava respondendo a algumas questões levantadas pelos crentes judeus, por exemplo: Como as promessas de Deus a Abraão e seus filhos poderiam permanecer válidas se a nação de Israel, como um todo, não parece ter parte no evangelho?

O apóstolo dos gentios recorre, então, à afirmação de Isaías que diz: “ Se o Senhor dos Exércitos não nos deixara algum remanescente, já como Sodoma seríamos e semelhantes a Gomorra”. O profeta Isaías aludia ao que restaria de Israel e Judá, depois do cativeiro de ambos, como resultado da infinita misericórdia de de Deus e de sua fidelidade com a promessa feita a Abraão. Paulo, por analogia, aplica o vaticínio do profeta a uma parcela de judeus (remanescente fiel) que estava aceitando o evangelho naqueles dias, os quais eram testemunho de que a promessa de Deus não havia falhado, pois ela visava somente o verdadeiro Israel, aqueles que eram fiéis à promessa (Ver Gn 12.1-3; 17.19). A ideia passada tanto por Isaías como por Paulo é que sempre há um Israel dentro de Israel .

Paulo também usa a afirmação de Isaías que diz: “Ainda que os filhos de Israel sejam como a Areia do mar, o remanescente é que será salvo”. A partir desta afirmativa do profeta, Paulo explica que a rejeição de Israel é temporária e parcial, que por fim eles aceitarão a salvação em Cristo. Isso se dará na segundo vinda do Senhor, quando todos os judeus que estiverem vivos – o que Isaías chamou de remanescente – se converterão ao seu Deus (ver Zc 12.10-14).

2. O cumprimento das promessas de Deus. A real intenção de Paulo nos capítulos 9-11 de Romanos é mostrar que mesmo a crônica desobediência dos israelitas durante toda a sua história, bem como as consequentes provações e castigos por que passaram, não anularam a fidelidade de Deus. Muitos judeus da época podiam pensar que tudo o que fora anunciado sobre o futuro glorioso dos filhos de Abraão não passara de falácia. Mas Deus age na história, fazendo com os fatos e até mesmo os erros humanos venham a convergir para o cumprimento de suas promessas. Apesar de a rejeição de Israel e da inclusão dos gentios na família de Deus serem um fato consumado, a promessa feita ao patriarca Abraão, sob juramento (Gn 22.16; Hb 6.13), não falhou, ela se cumprirá no remanescente fiel.

CONCLUSÃO

Todos os profeta, Maiores e Menores, foram inspirados e usados pelo Espírito Santo, independente do volume do livro escrito por cada um deles. Somente pelo conhecimento do ministério destes santos homens, foi possível aos primeiros seguidores de Cristo a compreensão do plano de Deus relacionado a toda a sua criação, mediante a obra expiatória de Cristo.