sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Depressão e luz no fundo do túnel

                                                                 

"A depressão paralisa todas as forças vitais que nos fazem humanos, deixando em troca um estado árido, desesperante e entorpecido. E uma condição estéril, fatigante e agitada, sem esperança ou capacidade; um mundo que é [...] abafado e sem saídas.  Todos os apoios estão perdidos; todas as coisas são sóbrias e vazias de sentimento. ." Kay Redfield
O horror da depressão profunda e a desesperança que costuma acompanhá-la são difíceis de ser imaginados por aqueles que nunca vivenciaram. Idem

“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença” (Sl 42.5).

 
ESTATÍSTICAS ALARMANTES

Lembro-me de ter lido uma matéria da revista ÉPOCA informando que a época em que estamos vivendo é considerada "a era da melancolia", dado o número cada vez maior de pessoas deprimidas. A interação de vários fatores sociais, psicológicos e biológicos, como guerras, epidemias, desemprego, drogas, divórcio, violência generalizada, incerteza, estresse e doenças físicas, tem sido determinante para que a depressão seja considerada um caso de saúde pública e o mal do século 21.

Em seu livro “Depressão: tem luz no fim do túnel”, a psicóloga Esther Carrenho cita um artigo da associação médica americana que sugere que o homem hodierno tem sofrido mais com o resultado da depressão do que de qualquer outra doença que já tenha afetado a humanidade. Tamanha é a gravidade do problema que, segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão é hoje a quarta maior causa de incapacitação ao trabalho e ficará na segunda posição  até 2020. De acordo com Baptista (2004), de todas as pessoas que são afastadas de seus compromissos profissionais/educacionais, 12% o são em razão de diagnóstico de depressão, o que provoca grandes prejuízos econômicos às sociedades.

As estatísticas são atualizadas continuamente e trazem números cada vez mais alarmantes. Estudo realizado pela OMS recentemente (2012) por conta do Dia mundial da Saúde Mental, deu conta de que mais de 350 milhões de pessoas no mundo sofrem atualmente de desordem depressiva e que mais de 5% da população mundial foram afetados por esse mal em 2011. Em 2030, informa ainda a OMS, a depressão será o maior problema de saúde do planeta, chegando a superar os problemas de câncer e de outras doenças infecciosas. Aproxima-se de um milhão o número de pessoas que se suicidam anualmente por causa de transtornos depressivos , o que equivale a 50% do casos de suicídios. 

Todavia, apesar de a depressão ser considerada o mal de nosso tempo, há indícios de que homens de todos os tempos tenham  sido acometidos por esta patologia. Na Bíblia, por exemplo, vemos homens como Davi, Jó, Moisés e Elias vivenciando sintomas  indicadores de um quadro depressivo. E tantos poetas, artistas e filósofos no decorrer da história deixaram impregnada nas suas obras a expressão de corações profundamente deprimidos, muitos dos quais chegaram ao extremo de darem cabo da própria vida. 

Alguns dos grandes obstáculos ao combate da depressão  são os seguintes: a ignorância acerca do assunto, pois a maioria das pessoas não veem como uma doença, pensando se tratar de mera tristeza, falta de coragem e falta de fé, isso agravado pelos tabus de uma sociedade moderna que exalta um triunfalismo tal que parece não ter lugar para pessoas emocional e mentalmente doentes / falta de oportunidades, pois o acesso da pessoa comum a tratamentos psicológicos e psiquiátricos ainda é muito precário em países como o Brasil / e em grande parte dos caos, rejeição ou recusa do próprio indivíduo enfermo. 

Por conta destes obstáculos, muitas pessoas que poderiam ter uma qualidade de vida bem melhor passam a vida toda amargando um sofrimento mental-emocional e física por falta de tratamento, o que acarreta prejuízos incalculáveis, no trabalho, na família e nos relacionamentos em geral. 

Mas afinal de conta, o que é este mal que tem vitimado pessoas de todos os tempos e se exacerbado em nossos dias? Quais as suas causas e sintomas? Como podemos vencê-lo ou ajudar suas vítimas? São essas as questões que propomos abordar no trabalho que segue.


O QUE É DEPRESSÃO

Recorro a Baptista (2004) para esclarecer que a depressão tem sido discutida por várias teorias no decorrer da história, desde a ideia da Bile negra, um fluído básico do corpo que, emitido em excesso, causaria depressão, passando também pela ideia de possessão demoníaca até chegar no desenvolvimento das explicações atuais segundo as quais a depressão tem a ver com desordem em alguns neurotransmissores responsáveis pelo estado de humor, sendo os principais a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. 

É consenso entre os especialistas em saúde mental, entre eles o doutor Marco André Mezzasalma, que a depressão é uma doença que afeta o indivíduo como um todo, altera desde o sono e o apetite, passando pela disposição física, e terminando nas alterações psicológicas como diminuição da auto-estima e da autoconfiança, conferindo um tom cinzento e pessimista a tudo o que a pessoa percebe, sente e faz. Ela pode durar de semanas a anos, e pode aparecer simultaneamente a outras doenças ou pode ser desencadeada por situações estressantes, ou até mesmo pode aparecer do nada, sem motivo aparente.

É claro que a definição acima, ainda que consensual entre os especialistas do assunto, mostra-se superficial quando comparada aos horrores, desespero e desesperança que caracterizam o sofrimento que somente uma pessoa que já viveu uma crise depressiva tem ideias claras do que seja . A distinta psicóloga Kay Redfield, que tem um profundo histórico de doença maníaco-depressiva, refere-se aos sintomas da depressão como horror privado, resistente a qualquer esclarecimento e definição forçados. Na sua compreensão, um especialista pode detectar os sintomas e medicar o paciente, mas nunca ter clara noção das agonias que a pessoa sente. Kay Redfield esforça-se por dar uma definição mais prática e sintomática de depressão a partir da descrição de suas próprias agonias:

“Nas suas formas graves, a depressão paralisa todas as forças vitais que nos fazem humanos, deixando em troca um estado árido, desesperante e entorpecido. E uma condição estéril, fatigante e agitada, sem esperança ou capacidade; um mundo que é [...] abafado e sem saídas. A vida é exangue, sem pulso e ainda assim, capaz de permitir horror e dores sufocantes. Todos os apoios estão perdidos; todas as coisas são sóbrias e vazias de sentimento. A derrapagem para a futilidade é de início gradual, depois completa. O raciocínio, tão profundamente, afetado pela depressão quanto o ânimo, é mórbido, confuso e entorpecedor. É também vacilante, ruminativo, indeciso e autopunitivo. O Corpo tem ossos fracos; não há vontade; não merece um esforço e nada afinal parece valer a pena. O sono é fragmentado, esquivo e consumidor. Como um gás instável, uma exaustão irritável penetra em cada fenda de pensamento e ação.”
 
Ou seja, a depressão, na sua forma mais grave, é o ápice do desespero que não permite a mínima fagulha de esperança. "Todos os apoios estão perdidos", e na percepção do deprimido, a vida se resume aos males do presente que se acumularão aos males do futuro, como nas palavras do poeta Bocage : Curto mil males, e entre sombras noto/ Outros com que me espera ao longe o fado. Por isso que a ideia de suicídio se apresenta ao deprimido como a única possibilidade de alívio.

Bom, do que já lemos até aqui, podemos constatar que depressão não é uma simples tristeza, como alguns imaginam. A tristeza é apenas um dos sintomas que a depressão possui. O problema é que, devido a saturação da palavra depressão e de outras correlatas, hoje as pessoas não dizem mais que estão tristes, mas que estão deprimidas; não dizem mais que têm medo, mas que estão com fobia; não dizem que estão cansadas, mas estressadas”. A palavra tristeza vai pouco a pouco caindo em desuso. Por isso, faz-se importante reconhecer os sintomas que, invariavelmente, caracterizam um quadro depressivo para não confundirmos depressão com uma simples tristeza. Vale salientar também o fato de que não existe um quadro único para todas as pessoas deprimidas, mas existe uma variação tão grande de quadros quanto o número de pessoas afetadas.


SINTOMAS

Os sintomas da depressão são muitos e variados. Vão desde sensação persistente de tristeza, passando por padrões de pensamentos pessimistas e alterações nas sensações corporais, até sintomas psicóticos como delírio e alucinações. A presença no indivíduo de qualquer um do sintomas listados abaixo não significa necessariamente um caso de depressão,  mas a persistência da maioria deles por mais de duas semanas é forte indicador da instauração de um quadro depressivo e sinaliza a necessidade de se buscar ajuda.

1. Sintomas afetivos

►Autodesvalorização, sentimento de inutilidade.
►Perda do interesse ou prazer em atividades anteriormente prazerosas.
►Tristeza persistente, choro fácil e/ou frequente.
►Apatia (indiferença afetiva - tanto faz como tanto fez).
►Sentimento de tédio, aborrecimento crônico.
►Desejo de morrer, idéias suicidas.
►Inquietação, irritabilidade.
►Desânimo, sentimento de desespero, desesperança.

2. Sintomas somáticos

►Distúrbio no sono:  insônia, despertar matinal precoce com sonolência excessiva.
►Distúrbio nos hábitos alimentares: perda ou aumento do apetite como consequente emagrecimento ou ganho de peso.
►Cansaço, fadiga excessiva, sensação de corpo pesado.
►Dores físicas persistentes que não respondem a tratamentos (Ex. dores de cabeça, distúrbios digestivos).
►Diminuição do desejo sexual, bem como da resposta sexual (disfunção erétil, orgasmo retardado, etc.).

3. Sintomas psicomotores

►Letargia; ou
►Agitação.

4. Sintomas psicológicos

►Autocomiseração, baixa auto-estima.
►Espírito crítico excessivo, pessimismo.
►Dificuldade para concentrar-se.
►Indecisão, insegurança.
►Desinteresse, apatia.
►Sensação de vazio.
►Ideia de arrependimento com sentimento de culpa exagerado.

Nos casos de gravidade extrema, há ocorrências de sintomas psicóticos: delírio de ruína ou culpa (podem ocorrer auto-punições); delírio hipocondríaco (mania de doença) ou de perseguição; alucinações visuais e auditivas com conteúdo depreciativo (por exemplo, ouvir vozes e ver vultos).


CAUSAS

Considerado um transtorno de ordem multifatorial, são muitas as variáveis responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento da depressão. Mas nem todos os fatores desencadeante são bem definidos. Muitos permanecem desconhecidos. Mas sabemos que há fatores biológicos, genéticos e neuroquímicos, fatores de peso na síndrome depressiva, e causas ambientais, psicológicas, emocionais dentre muitas outras.  Ester Carrenho joga ênfase sobre a predisposição genética e as alterações de funções cerebrais. No tocante à causa genética, ela observa: “A causa genética está relacionada à hereditariedade, embora a maioria dos estudiosos pareça deter-se mais nas outras causas de depressão, porque ainda se discute se filhos de pais depressivos serão também depressivos simplesmente porque herdaram um gene depressivo ou porque aprenderam a ser depressivos em função do ambiente em que foram criados”.

A predisposição psíquica do indivíduo também pode favorecer o desenvolvimento do estado depressivo: padrões de pensamento negativo, culpas, mágoa, ressentimento, desejos e necessidades intensamente reprimidos, excesso de introversão, dependência e outros.

O estresse também é apontado como causa de depressão. Muitas pessoas, vivendo em uma cidade grande como São Paulo, têm se submetido às mais intensas e desgastantes atividades, de sorte que não param para ouvir o sinal de alerta do corpo, informando que os limites estão sendo ultrapassados. A necessidade de sobrevivência e mesmo as necessidades emocionais levam os indivíduos a viverem em situações em que o organismo é submetido a ambientes inadequados à vida. Por isso alguns entram em exaustão e daí vários distúrbios podem ocorrer, físicos , emocionais ou psíquicos.

Acrescente-se ainda que a maneira insalubre como a nossa sociedade se configura, favorecendo uma concorrência acirrada entre os indivíduos por espaço em detrimento do espírito cooperativo, a forma individualista de ser em detrimento do coletivo, a falta de absolutos moriais e éticos que lança as pessoas num espiral de incertezas, a abertura para uma infinitude de possibilidades que insta o indivíduo a ter que fazer suas próprias escolhas e ser o responsável pelos resultados, tudo isso coopera para um ambiente adoecedor. Makilim Baptista adverte sobre a implosão de valores essenciais como a amizade e respeito que têm sido deixados de lado por um sociedade coisificada, obcecada pelo ideal de negócios, consumo e mercado, uma sociedade adoeciada em seus princípios.
Em um mundo em que tudo pode ser comprado, negociado ou barganhado, parece que as pessoas perderam a noção de alguns fenômenos que são incomensuráveis, como o amor, o carinho, a amizade e o respeito, que podem ser considerados como componentes fundamentais da saúde mental. Talvez devêssemos pensar que uma sociedade doente nos seus princípios acaba favorecendo a seus integrantes uma falsa ideia de sanidade mental. *
Há ainda outros desencadeantes, como opressão social, solidão, oposição, frustração, medo e angústia. Outras causas são secundárias, dentre elas, algumas enfermidades clínicas como câncer, esclerose múltipla, doença de Alzheimer, disfunção da tiroide, diabetes e artrite que, associadas ao uso de determinados medicamentos podem ser apontadas como fatores desencadeadores.


COMO AJUDAR UMA PESSOA DEPRIMIDA

Como educadores cristãos, algumas vezes somos procurados por pessoas, principalmente membros da igreja, profundamente deprimidas, e demonstramos impaciência para ouvir a pessoa; por outro lado, nos apressamos em prescrever alguns versículos bíblicos, lançamos algumas palavras otimistas, frases de efeito, e pensamos que já cumprimos a nossa parte. Não deveria ser assim. A ajuda às pessoas deprimidas é um trabalho que exige paciência, compreensão, acolhimento e acompanhamento que deve ser feito em equipe. Um conselheiro atento primeiramente ouve com atenção as queixas de seu "paciente", ora com a pessoa e pela pessoa, demonstrando interesse pela vida dela, e então, em parceria com a mesma, busca as possíveis saídas. Dependendo da gravidade do caso, é extremamente importante analisar se há alguma causa fisiológica ou alterações de funções cerebrais que poderiam desencadear a síndrome depressiva, e isso só pode ser feito orientando-a a procurar um médico especializado. Este procedimento também ajudará a verificar se a depressão não está interferindo na saúde física do indivíduo. É sabido que algumas doenças físicas e determinados medicamentos podem desencadear um quadro depressivo. Somente o médico pode, através de exames clínicos e físicos, verificar o equilíbrio hormonal e químico do paciente. Não esqueça, o processo de cura começa com bons ouvidos, passando por empatia, aceitação, acolhimento e, em último caso, medicação.


COMO VENCER A DEPRESSÃO

Não temos a pretensão de prescrever uma receita pronta para curar o mal da depressão, isso seria ignorar a singularidade de cada caso, bem como a variação de gravidades dos quadros depressivos. Aliás, o que de pior se pode fazer para uma pessoa deprimida é simplificar a situação dela, fazendo generalizações e apresentando saídas mágicas. O que orientamos a seguir são passos importantes que servem para evitar o agravamento da doença e possibilitar a restauração paulatina da saúde.

1. Não se isole, compartilhe sua dor com pessoas de sua confiança. Uma pessoa deprimida normalmente quer ficar sozinha, isolar-se, cortar relacionamentos e comunhão. Aliás, não há nada mais difícil para uma pessoa deprimida do que conseguir relacionar-se pessoalmente. Temos lidado com alguns irmãos e amigos que evitam encontros nas ruas, mudando de caminho, não atendem o telefone e diminuem drasticamente a frequência nos lugares aonde normalmente vão. Todavia, isolar-se é a decisão mais desacertada que alguém pode tomar quando está deprimido, pois este é o momento quando mais se precisa de companhia.

Não é surpresa a constatação de uma pesquisa sobre suicídio que mostrou um índice maior de tentativa de suicídio na zona rural do que na zona urbana, sugerindo que na vida isolada do campo, além da pequena probabilidade de suporte social e cuidado com a saúde mental, o isolamento social pode ser um fator de grande risco para o agravamento da doença mental e consequentemente para o suicídio (Grandin et al. (2001).

O ser humano é um ser gregário e, portanto, isolado torna-se vulnerável aos perigos das próprias imaginações e fantasmas, uma vez que a solidão joga o foco do indivíduo para dentro de si mesmo. Foi Rubem Alves quem disse que, no silêncio, quando os bichos de fora silenciam, os bichos de dentro começam a uivar. É assim que acontece com a pessoa que fecha a porta para o mundo, imediatamente ela começa a ser confrontada com seus próprios fantasmas, os quais são sempre agigantados pela visão distorcida de mundo sintomática da depressão. É necessário que alguém com uma visão de fora pacientemente aclare a realidade e oriente sobre procedimentos a serem tomados, como procurar ajuda profissional por exemplo.

O caso do profeta Elias é bem emblemático. No momento em que mais precisava de companhia, ele escolheu ficar sozinho. É isso o que muitos têm feito. Como observa o pastor Michael Yosef, um dos propósitos de se estar ativo na igreja é a comunhão mútua, encorajamento e confirmação da Palavra de Deus. Somos membros de um corpo, feitos para trabalhar juntos. Precisamos uns dos outros. Portanto, se você está tentando se virar sozinho no meio dessas densas trevas, pare agora. Jesus não foi sozinho ao Monte das Oliveiras na noite de sua agonia. Ele levou consigo Pedro, Tiago e João. O Mestre contava tanto com eles que se incomodou ao encontrá-los dormindo (Mt 26.36-46). O apóstolo Paulo era um homem que não dispensava o auxílio de bons amigos com quem compartilhava as suas aflições e tribulações (2 Co 2.13; 7.6; Cl 4.7-14). O exercício da verdadeira amizade é uma terapia eficientíssima. Às vezes bastam dois ouvidos dispostos para levantar o deprimido.

2. Procure ajuda profissional especializada

"Quando a tristeza toma conta de tudo e a vida se torna um fardo insuportável, procure ajuda psiquiátrica para saber se há necessidade de psicoterapia e medicamentos (...). Não deixe para mais tarde. Não descuide de sua saúde mental."[1] Dr. Dráuzio Varella.

Todo processo de cura começa com o reconhecimento da doença, que mobiliza à procura de auxílio especializado.  Saiba que depressão é uma doença e seu tratamento exige um trabalho em equipe multiprofissional. Um paciente testemunhou: “Eu mesmo já sofri terrivelmente deste mal e me curei quando entendi que estava doente e que precisava urgentemente de cuidados de profissionais especializados. Compreendi que não era frescura, moleza, uma simples tristeza ou mesmo as consequências passageiras de alguma perda ou frustração, como alguns imaginavam. Também percebi que a oração do pastor, o apoio da família e a conversa com bons amigos, apesar de muito importantes, não bastavam para dar conta de meu tormento. Era mesmo uma doença como qualquer outra, e como tal, exigia cuidados médicos”.

É verdade que vivemos num mundo gerador de angústia e desespero, e o angustiar-se diante das intempéries da existência é prova de que estamos vivos e sentimos a vida, mas também é verdade que carregamos em nossas entranhas a capacidade de superação, resiliência, que mobiliza ao prosseguimento com a própria vida. Portanto se as angústias tomarem proporções tão profundas e duradoras a ponto de inviabilizar a própria vida, procure ajuda de um psiquiatra e/ou psicólogo urgentemente.

3. A importância da espiritualidade Talvez você não seja cristão, não vai à igreja, mas pode ser que você acredite em alguma realidade transcendental, num poder sobre-humano. E mesmo que você seja ateu, com meu sincero respeito, o que importa agora, não é? Nas trincheiras, a fé é uma necessidade vital. Como disse alguém, não existem ateus nas trincheiras. Coloque sua descrença à prova e desafie este "suposto" Deus a revelar-se a você.

3.1 Confie firmemente no caráter bondoso de Deus.  Àqueles que acreditam em Deus, quero dizer que todas as pessoas estão sujeitas a deprimir-se, cristão ou não. O apóstolo Paulo, nas várias cartas que escreveu às igrejas de sua época, fala de suas crises depressivas, principalmente na carta que escreveu aos efésios, quando estava preso. Em Co 1.8, o apóstolo diz que fora agravado de tal forma, mais do que podia suportar, ao ponto que chegou a desesperar da vida. Temos muitos outros casos como os de Moisés, Elias, Davi (Sl 22) e Asafe (Sl 73). Nós somos homens como eles, sujeitos às mesmas paixões, e hoje somos submetidos a pressões ainda maiores. Como aqueles homens fizeram no passado, é imprescindível que confiemos firmemente em Deus. Ele é poderoso para guardar a nossa mente sã. Isaías, lá do rol dos heróis da fé, manda-nos uma receita: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti, porque ele confia em ti; confiai no Senhor perpetuamente, porque o Senhor Deus é uma rocha eterna” (Is 26.3,4).

Entregue sua vida e o seu futuro a Deus, como José o fez. Apesar das contrariedades sofridas pelo filho de Jacó, ele não deixou de acreditar que o Senhor estava no controle de tudo e que guiaria sua nau por entre as vagas revoltas. Dependendo da gravidade do caso, a pessoa deprimida não tem condição de gerir sua própria vida, tomar decisões importantes e não sabe para onde está indo a embarcação de sua vida. Ele apenas se vê envolto em uma nuvem espessa de incertezas. Por isso, Pedro nos aconselha a que lancemos sobre Ele [Deus] toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós (1 Pe 5.7).

3.2 Recorra ao poder da oração. Eu não acredito que exista terapia mais eficaz do que a oração para trazer cura e alívio ao coração abatido. É bem verdade que se trata de prática intimamente relacionada à espiritualidade, mas tem implicações em todos os seguimentos da vida do sujeito e provoca mudanças de ordem emocional, psíquica e até física, porque um ambiente emocional saudável reflete no funcionamento do corpo. "Um coração alegre aformoseia o rosto".

Lendo a Bíblia, principalmente nos salmos, vamos encontrar homens afundados em aflições rasgando a sua alma perante o Senhor (Sl 22; 86; 88), o maior de todos os psicólogos. O maior exemplo, sem dúvida, é o de Jesus que, em indescritível agonia, clamava intensamente ao Pai, que o podia confortar (Mt 26.36-46). Atente para a promessa de Deus no Salmo 50: "E invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás" (v 15).

Um amigo, em grande aflição, perguntou-me se a oração tem o poder de mudar qualquer situação. Respondi-lhe que num sentido objetivo não, mas num sentido subjetivo sim. Ao perceber sua cara de quem não entendeu, expliquei que nem sempre é possível mudar a realidade objetiva em nossa volta, mas a oração muda o sujeito, levando-o a conferir um significado diferente à realidade. A oração, como a boa psicoterapia, altera a visão que o indivíduo tem sobre os fatos. E a mudança de visão do indivíduo sobre os fatos vai alterar a sua ação sobre a realidade. Quando a nossa leitura da situação muda, a partir de uma transformação profunda que aconteceu em nós, a realidade externa também já não é a mesma. Na vida, mazelas como preconceitos, discriminação, disparidade social, doenças, violência, injustiça, etc. serão sempre uma realidade presente. Como diz um poeta: "A gente reza, ora, chora, e continuam sempre os mesmos problemas". Mas o olhar e a disposição do indivíduo sobre toda essa realidade farão toda a diferença.  
Ore!

4. A importância das ações preventivas – hábitos saudáveis. A gente poderia acrescentar muitas outras orientações, algumas de caráter preventivo, como mudanças de hábito, cuidado com a saúde, o que consiste, entre outras coisas, numa alimentação saudável, prática de exercício físico, dormir bem e reservar tempo para laser. As cobranças e pressões da vida moderna são insuportáveis, e o organismo começa a se ressentir, alarmando que precisamos mudar. De tanto expor nossa saúde a ambientes e rotina insalubres, acabamos por adoecer. Como dizia o poeta: o sol queima se você ficar exposto por muito tempo. São orientações e mudanças que se podem obter a partir de um acompanhamento por uma equipe de saúde multidisciplinar.  




[1]   In http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/v/depressao-atinge-350-milhoes-de-pessoas-no-mundo/2411751/. Acesso em 03/07/2017.     

* Baptista, Makilim Nunes. Suicídio e Depressão: Atualizações. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 2004, p. 10. 

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