segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sobre resiliência

Resiliência: Uma perspectiva de esperança na superação das adversidades*

Resiliência: entrei em contato com esse conceito nas aulas de psicologia hospitalar e de lá para cá tem sido assunto onipresente em minhas experiências, na vida pessoal, como terapeuta e nos sermões e orientações que tenho ministrado no âmbito eclesiástico. Gosto muito de observar esta virtude na vida das pessoas e motivá-las a partir do esclarecimento desse potencial humano; para isso, tenho lido frequentemente sobre o assunto.

O último texto que li sobre resiliência foi o de  L. Susana M. ROCCA*, o qual me tocou especialmente por fazer uma abordagem do assunto a partir duma perpectiva religiosa-espiritual, elucidando a importância da compreensão e utilização desse conheciemnto no meio eclesiástico, porém sem deixar escapar  a compreensão geral do conceito. Portanto, o que se segue é um pequeno comentário a partir da copreensão do texto de Rocca.

RESILIÊNCIA é um conceito relativamente novo na área da saúde, porém bem comentado hoje no contexto das ciências humanas, principalmente no âmbito da Psicologia: . Digo relativamente novo porque os estudos que deram origem a este ramo do saber começaram há três décadas apenas, com Michael Rutter, na Inglaterra, e Emmy Werner, nos Estados Unidos, o que posteriormente se espalhou por vários países, chegando à América Latina.

O conceito de RESILIÊNCIA foi emprestado da física e refere-se originalmente à capacidade de alguns materiais de retomar sua forma original depois de terem sido submetidos a uma pressão deformadora, e foi apropriado pela psicologia para caracterizar a capacidade que têm a pessoa humana de se recompor e seguir com sua vida depois de ter passado por situações extremamente estressantes e traumatizantes. Portanto, trata-se da capacidade do indivíduo desenvolver-se bem, para continuar se projetando para o futuro, apesar de acontecimentos presentes desestabilizadores.

Segundo Rocca, as pesquisas e descobertas sobre o assunto vieram trazer um novo paradigma nas relações de cuidado, ao jogar luz numa necessidade de se focarem os recursos que a pessoa  possui, com o intuito de potencializá-la ao máximo. E, apesar das limitações inerentes ao gênero humano, cujo limiar pode variar de indivíduo para indivíduo, é fato que todas as pessoas possuem recursos positivos que, se potencializados, podem ser determinantes na recuperação dos traumas e na força para prosseguir com a vida. E não é algo que se limita ao indivíduo, mas que engloba também a capacidade de uma comunidade, cidade ou nação de superar com determinação as tragédias que lhes acontecem.

Em relação à natureza dessa capacidade humana de superação, propõe-se que não se trata de uma característica exclusivamente inata no indivíduo, muito menos uma qualidade absoluta ou um esquema fechado: é algo dinâmico, que todo ser humano tem em maior ou menor medida, que acontece durante todo o ciclo vital humano e é estimulada ou inibida de acordo com as pressões do ambiente. Logo, é possível a prática consciente da promoção de resiliência nas pessoas, o que, ainda segundo Rocca, pode ser feito, entre outros âmbitos, por meio de redes de apoio social, apropriação do sentido da vida e fé religiosa. Todavia, o aspecto mais importante de promoção da resiliência é a necessidade de um outro como ponto de sustentação e apoio na superação da adversidade; sustentação que só acontece através de uma aceitação incondicional da pessoa que sofre. O outro aqui referido pode ser pai, mãe, amigo, professor, pastor ou toda uma rede de proteção. Ou seja, qualquer pessoa capaz de estabelecer um vínculo com a pessoa necessitada.

É fato que algumas pessoas são mais resilientes que outras, e isso porque o nível de resiliência de uma pessoa está muito ligado a algumas aptidões pessoais. Pessoas que gozam de boa auto-estima, que são mais sociáveis e costumam compartilhar suas preocupações e solicitudes, principalmente em grupos de apoio a pessoas que padecem do mesmo tipo de sofrimento, tendem a ser mais resilientes. Outro fator importante é o senso de humor de alguns, capaz de encontrar a comicidade em sofrimentos lancinantes. Isso não significa evasão, negação patológica do sofrimento, mas si um realismo otimista que possibilita uma incorporação da realidade e sua transformação em algo menos doloroso.

Por fim, o texto trata de resiliência e espiritualidade, ao considerar o quanto o sentido existencial encontrado na religiosidade prática pode ser um grande promotor de resiliência. Com recursos argumentativos convincentes, a autora mostra que a crença em Deus, traduzida em ações práticas, como a participação na igreja, pode ajudar o fiel a assumir as suas adversidades, engendrar um sentido para elas, até mesmo para os resquícios que ficarem, e ter coragem para lutar por recuperação e transformação, levando-o a crescer e se fortalecer por meio das intempéries.

Nesta perspectiva, o texto vem ao encontro da necessidade de que a liderança eclesiástica da qual alguns estudantes deste curso de teologia fazem parte, se apropriem deste conhecimento a fim de que tenham discernimento das reais necessidades dos indivíduos sob sua influência e tenham sensibilidade para olhar a pessoa em sua singularidade, cada uma com seu próprio potencial e limitações. Confesso que, apesar de já ter algum conhecimento sobre o tema, nunca tinha me apercebido da importância do mesmo no âmbito religioso, ou seja, como este conhecimento pode ser útil aliado aos recursos consoladores e motivadores da Palavra de Deus.

Todas as pessoas têm essa capacidade de superação, de continuar com a própria vida, de achar sentido, durante e depois de sofrerem situações sobremodo traumáticas. Todavia esta capacidade não é ilimitada, considerando que as limitações são inerentes à condição humana, e há intempéries que extrapolam os limites, apesar de não sabermos quais os reais limites de uma pessoa. Senti-me especialmente tocado pela ideia da necessidade do outro como ponto imprescindível de apoio e sustentação, isso, indubitavelmente, fará toda a diferença em meu ministério. E por falar em ministério (eclesiástico), o último parágrafo, em que foi falado de religiosidade como promotora de resiliência, sensibilizou-me muito. Este sentido existencial que se pode encontrar na fé talvez se configure mesmo um conhecimento novo para mim.

O texto de ROCCa me encantou pela clareza dos argumentos, pela objetividade e simplicidade da autora na abordagem de um conceito que é tão profundo e tocante. Mostrou-me que é possível ser simples e profundo ao mesmo tempo na comunicação de um tema.


*ROCCA L. Susana M. Resiliência: Uma perspectiva de esperança na superação das adversidades. In: Sofrimentos, Resiliência e Fé: Implicações para as relações de cuidado. São Leopoldo: Sinodal e EST. 2007. P. 9-27.







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