quinta-feira, 19 de abril de 2012

Introdução à Filosofia

Resumo

Livro: Introdução a Filosofia, Uma Perspectiva Cristã.
Autoria: Norman L. Geisler e Paul D. Feinbeerg.
Publicado no Brasil pela editora Vida Nova.

 
Obra que objetiva analisar os fundamentos da filosofia numa perspectiva cristã. Os autores discutem as questões filosóficas de há muito debatidas e lançam luz sobre algumas controvérsias que pairam entre filósofos modernos. Poderíamos mesmo dizer que se trata de uma obra de cunho apologético, porque se destaca de outras desta natureza, pelo fato de que os pilares da filosofia são examinados a partir de uma ótica cristã, com refutações ao que contrasta com essa visão,  todavia sem desconsiderar a grande importância da filosofia entre as ciências humanas e o reconhecimento de que o pensamento filosófico pode contribuir de modo relevante à compreensão teológica.

Divisão do livro: Introdução à filosofia/ O que é o conhecimento? / O que é a realidade?/ O que é a realidade ulterior?/ O que é bom ou certo? Nos capítulos que se distribuem por entre essas seções, são discutidas as principais questões de que se ocupa a filosofia e que englobam seis áreas do conhecimento humano: ética, estética, política, metafísica, lógica e epistemologia.

Na primeira seção, são apresentadas as disciplinas, a metodologia, as ferramentas e os desafios da filosofia. Os autores, antes de darem uma definição para o termo filosofia, fazem uma consideração sobre a dificuldade de tal tarefa, dificuldade que se deve ao desacordo entre os filósofos no tocante à questão sobre de que efetivamente a filosofia se ocupa. A partir desta reflexão, são apresentadas duas abordagens da filososfia: a filosofia analítica e a especulativa. Após a explicação da natureza das duas abordagens, vemos as objeções levantadas pelos estudiosos do assunto sobre cada uma delas, elencadas as principais características da pesquisa filosófica e aquilatada a real importância da filosofia como um instrumento que possibilita uma compreensão da sociedade e uma libertação de preconceitos.

O capítulo três trata dos métodos da filosofia, os mecanismos de que se valeram e ainda se valem os filósofos para chegarem à verdade sobre os fenômenos. Primeiramente os métodos do mundo antigo: a maiêutica de Sócrates e o método dedutivo de Aristóteles; em seguida os métodos modernos e contemporâneos: o método indutivo de Bacon e os métodos existencial e fenomenológico de Kierkegaard e Husserl, respectivamente.

Na sequência, o leitor tem diante de si as ferramentas da filosofia (os argumentos). São apresentadas a definição, natureza e importância dos argumentos, chamados de a ferramenta indispensável dos filósofos.
E encerra-se a primeira parte com considerações dos autores sobre os desafios da filosofia ante as grandes questões da existência e sobre o grande desafio que esta ciência representa para os cristãos.

A segunda parte trata da natureza do conhecimento (epistemologia). Inicialmente são abordadas duas questões: O que é o conhecimento? e Podemos conhecer? Essas questões dão ensejo à análise e crítica  do Ceticismo - de David Hume e Immanuel Kant. a questão seguinte é como podemos conhecer? São apresentados cinco veículos capazes de transportar o indivíduo ao saber prático ou mesmo teórico: a fé, o subjetivismo, o racionalismo, o empirismo e o pragmatismo, e feita uma avaliação destes canais para o conhecimento com os prós e contras atinentes a cada um deles.

Outras três questões levantadas nesta parte são: A certeza é possível?/ Como percebemos o mundo externo?/ Como são justificadas as crenças? Em função da primeira pergunta, são apresentados os tipos de certeza (apodítica, psicológica, convencional, pragmática) e os tipos de conhecimentos (os mandamentos morais, o conhecimento acerca do mundo externo, a autoconsciência, o conhecimento lógico e matemático), cada ponto de vista com sua peculiaridade e principais representantes.

A segunda pergunta dessa série - como percebemos o mundo externo? – destina-se a saber se aquilo que percebemos retém sua existência independente do olhar do observador, ou não. Há três posições filosóficas que se propõem a resolver esta questão. O realismo, o dualismo e o idealismo. O primeiro sustenta que os objetos existem independentes de um observador. O segundo defende que existem duas ordens distintas e independentes na existência: as ideias, que são impressões ou atos dos sentidos, e o mundo independente e externo que inferimos como sendo a causa dos dados dos sentidos percebidos por nossas consciências. O idealismo sustenta que os objetos, principalmente os materiais, não podem existir independentes de alguma consciência deles. São apresentados os mais eminentes defensores de cada uma das posições e as objeções a cada uma delas.

A terceira questão - como são justificadas as crenças? – investiga a maneira como justificamos nossas alegações de conhecimento. Aparecem, então, duas estruturas de justificativa epistemológicas: a fundamentação e o coerentismo.  A primeira afirma que há uma estrutura de conhecimento, cujos fundamentos, embora sustentem todo o resto, não precisam de apoio algum, pois são por si só justificadas. O segundo defende que inexistem crenças epistemologicamente anteriores ou básicas, auto-sustentáveis, o que há é uma teia de crenças que se relacionam e que se sustentam apenas dentro desta relação, sendo que as crenças que encontram-se mais no centro da teia são mais dificilmente abandonadas.

A parte três da obra referida traz a questão: o que é realidade? Primeiramente se discute um dos problemas mais persistentes na filosofia, se a realidade é una ou múltipla.  Quatro teorias propõem resposta a esta pergunta: monismo, pluralismo, o modelo de Plotino e o modelo cristão da Trindade. Para a primeira teoria, cujo representante maior foi o filósofo grego antigo Parmênides, toda a realidade é una. A segunda, em contraposição ao monismo, argumenta pela multiplicidade da realidade. Para a terceira, cujo  representante foi o  filósofo grego Plotino, toda a multiplicidade e todo ser fluem de uma unidade ulterior. Por último, o modelo cristão da Trindade, com a ideia de um só Deus em três pessoas, concilia unidade e multiplicidade ao afirmar que, na Deidade, há tanto a pluralidade (de pessoas), como a unidade (de essência).

Outra questão é sobre o relacionamento entre a mente e o corpo. As teorias que tratam desse assunto estão organizadas em duas categorias: as teorias monistas e as teorias dualistas. A primeira categoria engloba o materialismo, o qual propõe que o homem é apenas o seu corpo; o idealismo, que advoga que a mente e suas percepções são a única coisa que existe; a teoria do aspecto duplo, segundo a qual o físico e o mental são simplesmente aspectos diferentes de alguma coisa que, em si mesma, não é nem físico nem mental. A segunda categoria engloba o interacionismo, que defende que a mente e o corpo agem casualmente um sobre o outro, sendo que eventos mentais podem causar eventos corporais e vice-versa; o paralelismo, que sustenta que a mente e o corpo são correlacionados de maneira sistemática, mas que não há interação direta ou indireta entre os dois; o ocasionalismo, que propõe que Deus é o único elo entre a mente e o corpo; o epifenomenalismo, que sustenta que há um relacionamento ou interação causal que vai numa só direção, do corpo para a mente, sendo que os eventos físicos têm efeitos mentais, mas não ao contrário.

Na sequência, levanta-se a questão da liberdade. O desafio é responder à pergunta: O homem é livre? A resposta negativa vem do determinismo, entendimento de que todos os eventos, inclusive o comportamento humano, são governados por leis que os determinam inexoravelmente. Em antagonismo ao determinismo, encontramos o indeterminismo simples e o livre arbítrio. O primeiro advoga a ideia de liberdade total das ações humanas, as quais não dependem de nenhuma causa externa. O segundo tenta vencer as dificuldades tanto do indeterminismo quanto do determinismo, advogando a ideia de que o homem é um ser auto-determinate, ou seja, as nossas ações livres nem são causadas por outras ações nem estão sem causa, são causadas por si mesmas.

No capítulo 14, os autores discutem a questão O homem sobrevive à morte? São colocadas duas posições: 1) os mortalistas defendem que o ser humano é mortal, entre cujos defensores está a figura de David Hume; 2) os imortalistas, cujos argumentos em favor da imortalidade da alma humana se mostram bem diversos, entre os quais está o argumento da doutrina do homem sombra, a qual defende que a pessoa real é um homem sombra ou pessoa mínima, suficientemente humano e corpóreo para que os problemas perenes da identificação e da individuação possam ser vencidos. O homem sombra é suficientemente incorpóreo e imaterial para escapar ileso do corpo terrestre comum quando é enterrado. A riqueza especial deste capítulo é a presença de vários nomes do pensamento cristão, como Tertuliano e Tomás de Aquino.

O capítulo 15 se propõe a responder à pergunta Existem outras mentes? Aqui somos primeiramente apresentados ao Argumento da analogia, cujos adeptos advogam que, a partir de nossa própria mente, observamos que há um correlacionamento entre nossos estados mentais, de um lado, e de nosso estado físico e/ou comportamentais de outro; também há outros corpos como o nosso, e que exibem os mesmos comportamentos. Logo, por analogia, compreende-se que estados mentais como aqueles que experimentamos estão associados com outros corpos, da mesma maneira que o nosso estado mental é associado com o nosso corpo, o que prova que existem outras mentes além da nossa. Em contraposição ao argumento da analogia aparecem o Behaviorismo, que defende que todas as atitudes mentais ou as expressões psicológicas são plenamente redutíveis ao comportamento ou a estados físicos, e os pontos de vista de filósofos como Wittgenstein e Strawson, os quais, cada um ao seu modo, rechaçam o ceticismo acerca da existência de outras mentes.

No último capítulo desta seção, a questão levantada é O que é a verdade?, Há várias teorias para responder essa pergunta: Teoria da Coerência da Verdade, Teoria Pragmática, Teoria do desempenho da Verdade e a Teoria da correspondência da Verdade. Os autores explicam essas teorias, mostram os pensadores que as defendem e expõem os pontos fracos e fortes de cada uma.

A quarta parte deste livro – O Que é a Realidade Ulterior – começa com a questão do relacionamento entre a fé e a razão, ou qual delas é fonte fidedigna do conhecimento. Os autores apresentam quatro concepções sobre este impasse que tem desafiado pensadores de todos os tempos: 1) A Revelação Somente, teoria defendida por Kierkegaard e Karl Barth, os quais, cada um ao seu modo, argumentavam que a mente humana, por si só, é incapaz de descobrir o conhecimento divino; 2) A Razão Somente propõe que a verdade só pode ser descoberta pela razão, cujo grupo de defensores inclui Kant e Spinoza; 3) A Razão sobre a Revelação considera tanto a razão quanto a revelação como fontes fidedignas de conhecimento, sendo, porém, a primeira sobreposta à segunda; 4) A Revelação Acima da Razão considera que a razão e a revelação não são excludentes, mas a revelação se sobrepõe a razão, defendida por Tertuliano e Cornelius Van Til; 5) A Revelação e a Razão, teoria que propõe que há um inter-relacionamento entre a razão e a revelação, defendida por Santo Agostinho e Tomás de Aquino.

Os outros capítulos subsequentes se desenvolvem a partir de quatro perguntas relacionadas a Pessoa de Deus: O que se quer dizer com “Deus”? Deus existe? Como podemos falar acerca de Deus? Podemos ter experiência com Deus? Para a primeira pergunta, os autores mostram várias concepções sobre a Pessoa Divina, como o Teísmo, o Deísmo, o Panteísmo e o Paneteísmo. Em relação à segunda pergunta, temos vários argumentos de pensadores teístas, ateus e agnósticos, em favor da existência ou não-existência de Deus, ou da falta de capacidade humana para saber se Deus existe ou não (agnosticismo). Defensores do ponto de vista teísta, os autores dão uma resposta a partir da perspectiva cristão às outras teorias divergentes.

Na terceira pergunta – como podemos falar acerca de Deus? – pretende-se investigar como, sendo Deus finito, e a nossa linguagem finita, seria possível a comunicação com Ele. Três concepções procuram resolver o impasse: 1) A Conversa Sobre Deus é Equívoca – advoga que um Deus infinito sempre transcende a capacidade de linguagem finita e que, portanto, a conversa acerca de Deus não descreve a maneira que Ele é, apenas descreve aquilo que Ele não é ou o que ele faz; 2) Conversa Unívoca Acerca de Deus – defende que só podemos saber a verdade acerca de Deus se os termos que aplicamos a Ele tiverem o mesmo significado quando atribuímos os mesmos termos às pessoas, caso contrário, o Agnosticismo será o resultado. Na quarta questão, os autores definem o que é uma experiência religiosa, diferenciam uma experiência religiosa de outras experiências, mostram os ataques de alguns filósofos a essas experiências e apresentam meios de se verificar se a experiência religiosa é ou não real.

A última seção – O Que é Bom ou Certo? – se propõe a discutir quatro questões: O que é certo? Como sabemos o que é certo? O certo é universal? Os deveres morais conflitam às vezes? O relacionamento entre regras e resultados. Para a primeira questão, primeiramente são apresentas as concepções não cristãs: o certo é definido em termos de poder; a moralidade é costume; o homem é a medida; a raça tem razão; o certo é a moderação; não existe certo; o certo é o que traz prazer. Em seguida vem a concepção cristã de certo e errado, a qual está ancorada na natureza imutável de um Deus de perfeito amor e justiça(sic), cujo caráter santo Ele revelou de duas maneiras: no seu mundo natural e através das Escrituras. Portanto, para a visão cristã, a revelação de Deus e de sua vontade é o padrão final do que é certo e do que é errado.

Na resposta à segunda questão, primeiramente são examinadas as teorias não cristãs: justificativas pelos resultados, entre cujos defensores encontra-se William James; justificativa pela autoridade divina, resposta simplista de algumas religiões que, diante da pergunta “como posso saber o que é ceto?” , normalmente respondem que “Deus disse assim”.

Na segunda questão aparecem duas abordagens no tocante à Ética: a que se centraliza nas regras (deontológica) e a que se centraliza na finalidade (teleológica). A partir daí, esboçam-se duas teoria: a dos que defendem que o ceto é determinado pelos resultados(utilitarismo), e os que defendem um relacionamento entre o certo e o resultados. Esta última posição rechaça a primeira ao advogar que tanto as regras quantos os resultados desempenham um papel fundamental num esquema ético compreensivo. Os autores desta obra concordam com esta última teoria.

No capítulo 26, ao discutirem a questão sobre se o certo é universal ou não, os autores apresentam duas posições antagônicas: o relativismo, ideia de que os princípios éticos têm uma aplicação local e normalmente mudam com o passar do tempo, ou seja, são relativos a tempo, circunstância e localidade. Em contraposição, apresenta-se o conceito universal do certo, entendimento segundo o qual há princípios que são para todas as pessoas, em todas as épocas. Na conclusão dos autores, “a negação de todo valor absoluto é mal-sucedida e inconsistente”, e, para os cristãos, “as normas éticas universais estão ancoradas no caráter imutável de Deus”.

Por fim, no último capítulo do livro em apreço, os autores discutem a questão dos deveres morais, se eles podem às vezes conflitarem entre si, apresentando três conceitos sobre o assunto: 1) o conceito da terceira via, segundo o qual sempre há uma saída moral de cada dilema ético; 2) o conceito do mal menor, que sustenta que há alguns dilemas morais genuínos em que as duas alternativas estão erradas, então a pessoa é obrigada a cometer o mal menor; 3) o conceito do bem maior, que significa obedecer à lei superior, conforme é revelada por Deus nas Escrituras. Os autores estão de acordo com esta última posição.

Comentário

Introdução à filosofia, uma perspectiva cristã é uma obra que vem suprir uma grande necessidade dos cristãos deste século do conhecimento. As muitas concepções de vida , de homem e de Deus têm se difundido por todas as camadas sociais, principalmente nas escolas, interferindo na forma de se posicionar no mundo de todas as pessoas. Tentar se proteger numa redoma hermética não funciona, porque esta é a realidade que temos e não podemos romper com ela. A saída, portanto, é usar lentes bíblicas para fazer a leitura presseletiva de todas as informações que nos são passadas.

Além disso a obra se destaca em relação a outras que já li do mesmo gênero, primeiro pela forma clara e sintética que Geisler e Feinberg usam para abordar a disciplina complexa da filosofia, segundo pelo fato de fazer uma leitura das grandes questões filosóficas por intermédio de lentes cristãs. Por isso mesmo, acho que deveria ser de leitura obrigatória para todos os estudantes da Bíblia.


Os autores

NORMAN L. GEISLER é professor de Teologia Sistemática no Seminário Teológico de Dallas e presidente da Divisão de Filosofia da Religião na Trinity Evangelical Divinity School. Recebeu o seu MA da Faculdade de Wheaton e seu Ph.D. Da Universidade de Loyola. Ele já tem vários volumes publicados em português, incluindo Ética cristã e Introdução à filosofia: uma perspectiva cristã (Vida Nova) e, em co-autoria, Resposta às seitas (CPAD), Reencarnação (Mundo Cristão) e Amar é sempre certo (Candeia).

PAUL D. FEINBERG é professor de Teologia Bíblica e Sistemática na Trinity Evangelical Divinity School. Recebeu os graus de BD e de ThM só Seminário Teológico Talbot e o MA em Teologia Sistemática no Seminário Teológico de Dallas.

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