quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Perfil de Três Reis

Resenha

Livro voltado para o ensinamento prático a partir na análise e exploração dos perfis e das experiências de vida de três figuras bem importantes da história da nação Israel: Saul, o primeiro rei da nação referida; Davi, sucessor de Saul no trono; e Absalão, filho de Davi que, por um momento, usurpou o trono de seu pai. O autor divide a obra em duas partes. Na primeira, aborda os dois primeiros personagens, o rei Saul e Davi, o homem que fora ungido por Deus para suceder-lhe no trono, bem como a relação conturbada entre eles. Na segunda, Saul sai de cena e a atenção se volta para o agora rei de Israel, Davi, e o seu subversivo filho Absalão.  

Edwards inicia pela história de Davi, retomando os dias tenros em que o filho de Jessé ainda pastorava o rebanho do pai. Destacam-se a solidão em que vivia enquanto, isolado de todos, cuidava diligentemente daqueles animais, e a maneira como usou aqueles momentos para aprofundar sua comunhão com Deus por meio do louvor incessante que saia de seus lábios. Também é levantada a possibilidade de que foi ali, na solidão, que o futuro rei aprendeu a manejar a funda como ninguém, habilidade que seria muito importante em um momento crucial de sua vida.

De pastor de ovelhas para o ungido rei. Segundo a ideia desenvolvida no livro, a devoção daquele pastor chamou de tal modo a atenção de Deus que foi escolhido por Este para ser pastor do grande rebanho de Israel, unção que ficou a cargo do profeta Samuel. Logo após receber a unção, Davi é comissionado por seu pai para levar comida aos seus irmãos no acampamento do exército de Israel, onde tem o primeiro contato com as tropas do rei Saul e com a realidade da guerra.

A partir de então entra em cena o rei Saul, segundo o autor, o instrumento usado por Deus para preparar o "infante" Davi para a grande missão que lhe esperava. Tudo começa quando Davi é convidado para tocar seu instrumento musical a fim de acalmar a alma de Saul, um rei enlouquecido e doente de ciúmes a ponto de repelir violentamente qualquer rumor de ameaça ao seu trono. E Davi começou, com o passar do tempo, a parecer uma ameaça para Saul, o que resultou em muita perseguição, ameaça e tentativa de morte contra o ex pastor de ovelhas.

Agora, as lições apreendidas pelo autor dos perfis de Saul e Davi são entremeadas com o desenrolar da própria história. E ressalta-se o fato de Saul não reconhecer que era Deus quem deveria decidir o destino do trono de Israel e não a sua lança, a qual arremessou contra Davi algumas vezes. O reconhecimento que faltava em Saul marcará o perfil de Davi por toda sua vida, ou seja, desde cedo, o filho de Jessé reconhecerá que cabia a Deus conduzi-lo ou não ao trono de Israel, o que o poupou de perpetrar qualquer violência vingativa contra Saul. Apesar de ter consciência dos atos insanos do rei, de sofrer várias tentativas de assassinato, Davi não deixava de reconhecer que Saul havia sido ungido por Deus e, portanto, cabia somente ao Senhor o direito de depô-lo. Tanto é que, nas ocasiões em que teve a oportunidade de acabar com a vida de Saul, preferiu poupá-lo. Então, uma das idéias centrais do livro é este reconhecimento de que Deus é quem determina e dirige o destino do seu povo, e nós precisamos aprender com Davi a reconhecer tal realidade.

No capítulo 15, é descrita a personalidade paradoxal de Saul. Paradoxal porque, no registro de sua história de vida, são inescapáveis suas impressionantes prerrogativas, como aquele que foi ungido por Deus, filho de excelente família, libertador de Israel, vencedor de muitas guerras, batizado com o Espírito Santo, porém, apesar de tudo isso, um homem corroído pela inveja, ciumento e irascível. A intenção do autor do livro em apreço parece ser demonstrar, com o exemplo deste monarca, que essas características podem fazer parte de uma mesma pessoa. Ademais, pretende mostrar a diferença entre homens dotados e homens quebrantados, contrastando Saul e Davi. Edwards considera que aqueles que são ungidos por Deus podem ser ou da ordem de Saul – os dotados, revestidos exteriormente – ou da ordem Davi – os quebrantados, revestidos interiormente. O contraste entre os dois monarcas é realçado no capítulo 17 onde o autor descreve um diálogo fictício entre um ex soldado de Davi e um neto deste, ocasião em que o soldado relata a maneira peculiar de governar do segundo rei de Israel que priorizava uma vida de submissão a Deus  e desprovida de qualquer autoritarismo. No diálogo está resumidamente implícita a maneira como Davi chegou ao trono sem fazer uso da violência um só momento.

Na segunda parte do livro, segundo a perspectiva do autor, a história parece se repetir, agora com Davi no lugar de rei e tendo seu trono ameaçado por um usurpador, seu próprio filho Absalão.  É importante notar que, no momento, Davi estava no mesmo lugar do rei Saul quando este o via como ameaça ao seu reino; por outro lado, Absalão estava na mesma posição de Davi quando representava uma ameaça ao trono de Saul. Cabia, portanto, ao rei de Israel escolher entre agir como Saul agira uma vez contra ele a fim de defender seu trono ou deixar a cargo de Deus de quem seria o reino. Era uma questão de ser coerente ou não com os princípios de sua mocidade. O que é mais notável nesta parte do livro são os diálogos altamente instrutivos imaginados pelo autor entre Davi e algumas figuras importantes de seu reinado. Nos colóquios, ora ele era instado a repelir violentamente a rebelião de Absalão, ora era instruído com o exemplo de homens como Moisés a deixar Deus resolver a situação. E o livro termina com a questão sobre a decisão de Davi em aberto. O importante, porém, é atentar para o princípio essencial que o autor quer ensinar nos diálogos que criou: que há homens segundo Davi e homens segundo Saul, porém discernir entre uma classificação e outra é muito difícil, senão impossível, só Deus conhece perfeitamente quem é quem.

Perfil de três reis é uma obra admirável pelo estilo simples do autor e pela clareza com que aborda assunto tão profundo. Sinceramente nunca tinha lido um livro que apresentasse lições tão importantes a partir dos três homens referidos nesta obra. Lições como desprendimento, resignação e confiança absoluta nos desígnio de Deus estão presentes em todo o livro. Outrossim, fiquei maravilhado com o tratado sobre as nuances da natureza humana apreendias pelo autor a partir dos personagens estudados.

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