sexta-feira, 15 de março de 2013

O Pentecostalismo e o perigo do emocionalismo

Josafá R. Lima

O pentecostalismo é o movimento de ordem religiosa que mais cresce em todas as partes do mundo. Só no Brasil, são 24 milhões de fiéis, o que faz deste país o mais pentecostal do mundo.  O que caracteriza  o pentecostalismo é a crença de que o falar línguas estranhas, fenômeno ocorrido com os discípulos de Jesus no dia de Pentecostes (At 2), está à disposição dos crentes de hoje, ou melhor, esteve à disposição dos crentes de todos os tempos. Para a maioria dos pentecostais, o fenômeno das línguas acontece como evidência do batismo com o Espírito Santo, que consiste no revestimento de poder para evangelizar (At 1.8). Não só o batismo com o Espírito Santo, mas também os dons do Espírito, catalogados por Paulo no capítulo 12 de sua primeira carta aos coríntios, estão ainda hoje em evidência na igreja de Cristo.

Os pentecostais, diferentemente dos protestantes históricos, que defendem a ideia cessacionista (A concessão do batismo e dons do Espírito Santo aos crentes se restringiu aos dias dos apóstolos), acreditam que Deus continua a agir por meio de seu Espírito, da mesma forma que agia na igreja primitiva, batizando crentes com o Espírito Santo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo dons e bênçãos espirituais, realizando milagres, dialogando com seus servos, interferindo na história e concedendo evidências gritantes de seu supremo poder nos negócios humanos.

Portanto, a ênfase pentecostal está na experiência pós-conversão do batismo com o Espírito Santo (At 2.1ss), com a posterior concessão dos dons espirituais (1Co 12), sendo os principais deles o falar noutras línguas (glossolalia) e os dons de curar. As manifestações desses sinais fazem com que os cultos pentecostais normalmente sejam barulhentos, com movimentos espalhafatosos como saltos, danças, sapateados, carreiras, choros, risos, levantar de mãos e bater de palmas. Os pregadores normalmente mostram uma eloquência que parecem de ordem sobrenatural na pregação, ministram curas, expulsam demônios e declaram  bênçãos.  Em casos mais extremos, acontecem arrebatamentos de sentidos e êxtases. Não é sem razões, portanto, que os pentecostais são  conhecidos como povo barulhento e criticados por alguns seguimentos do cristianismo histórico, alguns chegando mesmo a comparar as manifestações pentecostais com fenômenos ocorridos em trabalhos religiosos afrodescendentes.




ORIGEM DO PENTECOSTALISMO


"Estes sinais seguirão os que creem" (Mc 16.15). E assim, todo indivíduo, independente de seu grau de maturidade, teria o privilégio de se relacionar diretamente com Deus e ser portador dos oráculos divinos. 
A gente pode começar analisando a grande diferença entre o culto do Antigo Testamento e o culto do Novo Testamento. Dois fatores básicos diferenciam um do outro. O primeiro acontece em relação ao número limitado de pessoas que tinham acesso aos oráculos divinos. Lembremos que numa ocasião, quando  dois homens leigos profetizaram no arraial de Israel, o fato causou escândalo entre o povo (Nm 11.25-29). Isso porque apenas alguns "iluminados" recebiam este poder. Então, como se pode ver, alguns gozavam de um relacionamento mais estreito com Deus e eram encarregados de transmitir ao povo a vontade divina. O povo se relacionava com Deus indiretamente por meio do relacionamento dos escolhidos. Invariavelmente, estes escolhidos eram pessoas bem preparadas no que respeitava às suas atribuições e sobre elas pesava grande responsabilidade. Não podiam ser neófitos. No Novo Testamento, porém, de acordo com a profecia de Joel (Jl 2.28,29), o poder do Espírito Santo seria derramado indiscriminadamente sobre todos, até sobre os filhos e os servos. E Deus fez isso para que cada crente se tornasse numa testemunha poderosa do evangelho, para que este mesmo evangelho se disseminasse em todo o mundo (At 1.8). Sem essa descentralização geradora da explosão de poder vista no livro de Atos, a igreja de Cristo não teria alcançado o mundo de então com as boas novas de salvação. Os sinais  deveriam seguir todos os que cressem (Mc 16.15), e assim, todo indivíduo, independente de seu grau de maturidade, teria o privilégio de se relacionar diretamente com Deus e ser portador dos oráculos divinos.

O segundo fator diz respeito ao culto veterotestamentário concentrado em três figuras: 1) numa só pessoa (o sacerdote); 2) um só lugar (o templo); 3) um único dia (o sábado). A ideia de culto concentrado carrega a ideia de culto controlado, uniforme e ordeiro. Um único homem, o sacerdote, arbitrava em relação à manifestação do sagrado, no único lugar que propiciava a manifestação do divino, o Templo, no único dia reservado para tal, o sábado. Com o advento da Nova Aliança, Jesus descentraliza o culto, faz de cada crente um sacerdote do sacerdócio real de Deus (1 Pe 2.9), estabelece que qualquer lugar é lugar de culto (Jo 4.21-24), bastando que dois ou três estejam reunidos em seu nome, em qualquer dia da semana (Mt 18.20). Ademais, o poder extraordinário do Espírito Santo foi conferido a todos os crentes. Desta forma, cada um é árbitro de si mesmo no que se refere à manifestação do divino sobre a sua própria vida. Repito que somente essa concessão indiscriminada do poder do Espírito Santo cumpriria o propósito de Deus de encher o mundo com o conhecimento de sua Palavra (ver At 1.8).


Destarte, na Antiga Aliança, o culto era configurado a partir da compreensão, visão e experiência com Deus de poucos indivíduos. Hoje, cada um tem sua própria experiência com o sagrado, porque na Nova Aliança, cada crente faz um recorte do sagrado de acordo com sua própria experiência, visão e compreensão. Logo, o culto carrega elementos da cultura peculiar de cada indivíduo, de maneira que a manifestação do sagrado é filtrada pela peculiar compreensão e visão de mundo do sujeito envolvido. É a manifestação do Deus infinito pelos multicanais humanos. 


Descentralizado o culto, extrapolando os limites veterotestamentário do Templo, do sábado e do sacerdote, ele tende a ser menos formal e menos racional e cede a uma espiral de emoções fortes que caminha para um emocionalismo preocupante. No culto pentecostal, os rituais acontecem dentro de certa informalidade, com espaços para os leigos catarem, darem testemunhos e fazerem outras apresentações. Por isso, apesar de celebrarmos a descentralização que possibilita que cada um tenha a sua própria experiência com o divino, urge uma necessidade de trazer o culto de volta às rédeas do racionalismo a fim de que as emoções descontroladas, originadas no coração que segundo o profeta Jeremias é enganoso, não lancem as pessoas num emaranhado de enganos. 


A necessidade de limites e ordem no culto (1Co 14).

Os crentes de Corinto começaram a misturar elementos da cultura com as manifestações do divino, gerando um culto exótico e desordenado

 Em um culto em que todos manifestam a dom do Espírito simultaneamente, e as emoções estão nas alturas, faz-se necessário o estabelecimento de diretrizes que tragam o povo de volta à razão mantenedora da ordem.  Na igreja de Corinto, temos um episódio que mostra que os elementos pentecostais podem ser filtrados pela cultura e costumes de um povo. A cidade de Corinto era constituída de um povo festivo, idólatra e irreverente. Quando o evangelho de Cristo chegou ali, formando a primeira igreja, os crentes, batizados com o Espírito Santo e agraciados pelos dons, começaram a misturar elementos da cultura com as manifestações do divino, gerando um culto exótico e desordenado, o que levou o apóstolo Paulo a falar sobre a necessidade de ordem no culto. O que mereceu a correção de Paulo é que cada um fazia o que bem entendia com a graça que havia recebido, cada um ao seu jeito, irracionalmente, totalmente controlados pelas emoções. Paulo os advertiu de que cada um devia ter controle sobre si mesmo, lembrando que o espírito do profeta é sujeito ao profeta (v 32).

O pentecostalismo pós igreja primitiva.

Com exceção de fagulhas isoladas de manifestações pentecostais que aconteciam algures, a igreja passou toda a Idade Média desprovida do poder do Espírito Santo.

Finda a evangelização do mundo de então, com a oficialização do Cristianismo como religião do Império Romano, houve o arrefecimento total das manifestações pentecostais. A igreja começou a se envolver em controvérsias teológicas e escanteou  a doutrina do Espírito Santo. Parecia mesmo razoável que com a instituição de igrejas espalhadas por toda a parte e com o grande triunfo do Cristianismo, poderia-se prescindir dos dons do Espírito Santo. Sendo assim, com exceção de fagulhas isoladas de manifestações pentecostais que aconteciam algures, a igreja passou toda a Idade Média desprovida do poder revestidor do Espírito Santo. Somente no final do século 18 e início do século 19, um grande avivamento fez ressurgir o movimento pentecostal como nós o conhecemos hoje, o qual por algum tempo se restringiu aos limites das fronteiras norte americanas, até que ganhou proporções mundiais a partir do histórico Avivamento da Rua Azusa.

O Movimento da Rua Azusa 

O movimento pentecostal na Rua azusa se configura conforme as características do grupo que o iniciou devido a sua capacidade de reinventar.

As manifestações espirituais ocorridas na Rua Azusa entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que tornou-se um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).

Em resposta às orações sinceras dos que ali se congregavam, Jesus começou a batizar crentes com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o avivamento, outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com Deus, outros apenas por curiosidade.

Em Azusa, os cultos eram longos e, de forma geral, espontâneos. Nos seus primeiros dias, a música era à capela, embora um ou dois instrumentos fossem tocados. Os cultos incluíam cânticos, testemunhos dados por visitantes ou lidos daqueles que escreviam para a Missão, oração, momento de apelo para pessoas aceitarem a Cristo, apelo à santificação ou ao batismo no Espírito Santo, e, obviamente, pregação. Os sermões normalmente não eram preparados antecipadamente e eram tipicamente espontâneos (…). A oração pelos enfermos era também uma parte frequente nos cultos. Muitos gritavam. Outros ficavam “rindo no espírito” ou “caídos no poder” Algumas vezes havia momentos de prolongado silêncio ou de cânticos em línguas (…). (Araújo, 2007, p. 605). 

Convém atentar para o fato de que o movimento da Rua Azusa tinha a cara daqueles que o começaram. Era um pequeno grupo de afro descendentes que, sob o poder de Deus, provocavam barulhos eletrizantes e estridentes. Atente para o fato de que começou com um pequeno grupo de crentes afro americanos, expulsos da Primeira Igreja Batista de Los Angeles, liderados primeiramente por uma mulher, depois  por um humilde pregador, filho de ex escravos, sem cultura, com limitados dotes de oratória e cego de um olho. Como observa Aderi Souza de Matos, era o tempo da discriminação racial no sul dos Estados Unidos, e o professor de Seymour era simpatizante deste sistema, permitindo que seu aluno negro assistisse suas reuniões somente no corredor ao lado da sala onde as aulas aconteciam.  

Ou seja, o fenômeno sofre um processo de aculturação, de alguma forma se manifesta muito de acordo com a maneira de ser de um grupo ou povo. O interesse de Deus com o movimento barulhento era atrair a atenção de todos para o que estava acontecendo ali. Deus não faz nada sem propósito. A semente do pentecostalismo havia encontrado terreno fértil para se propagar. 

O Movimento Pentecostal goza de uma diversidade impressionante, por causa de sua capacidade de se reinventar de acordo com a época e as características da comunidade que o recebe. 

Ao chegar no Brasil em 1910, não foi diferente, a mensagem pentecostal encontraria terreno fértil numa nação formada em grande parte por pessoas afro descendente, índios, negros e mulatos, de maioria pobre. Alderi de Matos aponta dentre as razões da expansão pentecostal na América Latina, as vicissitudes históricas da obra evangelística e pastoral católica, o limitado trabalho das denominações protestantes, o misticismo das culturas ibero-americanas, os graves problemas econômicos, políticos e sociais, ou seja, o pentecostalismo vai proliferar a partir da ineficiência de igrejas históricas, dos graves problemas econômicos e sociais, do misticismo característico de nosso povo e de seu caráter festivo. Inicialmente o crescimento se dá lentamente, até que estoura a partir da década de 50. 

Logo, logo, as manifestações pentecostais chamariam a atenção de igrejas históricas que já estavam por aqui e acabaria por gerar cismas e perseguições. 

O movimento pentecostal na esteira da pós modernidade

O Pentecostalismo se prolifera no terreno fértil do pluralismo e hibridismo religioso de nossa época. Estamos também na esteira da Pós modernidade.

Neste novo século, o Movimento Pentecostal vem ganhado proporções impressionantes na esteira de um fenômeno chamado Pós Modernidade. As principais características desta nova época: o pragmatismo, a ênfase no aspecto subjetivo em detrimento da objetividade, a relativização da verdade em detrimentos de valores absolutos, o pluralismo que facilita a troca de ideias, ritos e doutrinas levadas de um lado para outro pela mídia, impossibilitando discernir quais elementos pertencem a qual movimento religioso, a explosão da espiritualidade que chega a lembrar os tempos primitivos, a ênfase no emocionalismo e o paulatino abandono da razão que caracterizou a Idade Moderna, a facilidade de transmissão de informações que mistura costumes e práticas de várias crenças num caldeirão de cultura numa velocidade tão grande que se torna impossível monitorar, a ascensão do movimento Nova Era que dissemina o hibridismo religioso, o misticismo. 

Como podemos ver, todas essas características têm afetado, como não poderia deixar de ser, a igreja de Cristo, principalmente o Movimento Pentecostal que tem vestido roupagem nova de tempos em tempos com a sua capacidade de se reinventar. Precisamos estar atentos e estabelecer limites. É verdade que não tem como não sermos afetados, pois este é o nosso mundo, a nossa época, mas a gente pode e deve estabelecer limites. 

O CULTO PENTECOSTAL E A ÊNFASE NA EMOÇÃO

A religiosidade pentecostal enfatiza ao extremo o aspecto afetivo, a sugestão, as emoções e interpretam com muita facilidade os acontecimentos como intervenções milagrosas de Deus. Isso leva ao risco constante de as fantasias humanas se apresentarem como revelações divinas e de os oráculos se misturarem com compreensões, preconceitos e tendências humanos. São os riscos do emocionalismo.

Há um esforço deliberado no sentido de estimular as emoções por meio de cânticos, fundo musical , danças e outros procedimentos, algo bem parecido com rituais religiosos de povos primitivos. 



“Emocionalismo, segundo Martin Lloyd-Jones, é um estado e uma condição em que as emoções estão descontroladas. As emoções estão no controle. Estão numa espécie de êxtase. E se emocionalismo é ruim, muito pior é a tentativa deliberada de produzi-lo. Portanto, qualquer esforço que deliberadamente tenta estimular as emoções, seja através de cânticos, ou fórmulas, ou qualquer outra coisa, ou, como vemos nos povos primitivos, através de danças e coisas assim – tudo isso, naturalmente é condenado pelo Novo Testamento. Jogar com as emoções é errado. É algo que é condenado através da Bíblia toda. As emoções devem ser constatadas através da compreensão, através da mente, da verdade. E qualquer assalto direto sobre as emoções é necessariamente falso e inevitavelmente resultará em problemas”.



É verdade que a experiência com Deus afeta o indivíduo como um todo, corpo, mente e emoções. Seria bobagem pensar uma religiosidade extremamente racional, pois seria a fragmentação do indivíduo. Como não se emocionar diante da grandeza de Deus, de seu poder, do contato direto com o Espírito Santo? A Bíblia mostra que Davi, diante da Arca de Deus, foi tomado por uma avalanche tão forte de emoções que causou escândalo em Mical, sua esposa. Também no dia de Pentecostes, os discípulos de Jesus, após receberem o batismo com o Espírito Santo, estavam como que embriagados e falavam todos, de uma vez, várias línguas conhecidas daqueles que os ouviam. Jesus se emocionou várias vezes no seu ministério. E sem dúvida, Deus usa essas coisas para chamar a atenção para a obra que Ele realiza. Agora o que não podemos esquecer é que as emoções devem ser sempre controladas pela razão, não o contrário. Quando a ênfase é deliberadamente posta nas emoções e elas ficam descontroladas, perde-se a razão e abre-se caminho para o fanatismo de pessoas que se julgam inspiradas por Deus e para mercenários que promovem essas coisas com o intuito de fazerem os crentes de reféns.  Tomemos cuidado, porque a espiritualidade anda lado a lado e, às vezes, se confunde com emocionalismo, impulsividade e fanatismo.




CUIDADO COM NOSSAS EMOÇÕES


O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? (Jr 17.9).


1. Nossas emoções podem nos levar a confundir o que é nosso com aquilo que é de Deus. Nossas frustrações, questões e ansiedades vão querer aparecer como sendo expressão da vontade de Deus e revelação do Espírito.


2. Nossos preconceitos vão querer aparecer como verdade absoluta vinda da parte de Deus mediante iluminação do Espírito. Pedro em 10 de Atos.


3. Nossos interesses vão querer aparecer como expressão da vontade e interesse de Deus. Exemplo da jovem que pede uma orientação sobre seu relacionamento ou o desejo de querer ver alguém curado. Um rosto triste é um chamariz de profecias.


4. Nossa sede de poder e necessidade de se impor vão querer buscar endossamento nos dons do Espírito Santo.


5. Muitos dos movimentos repetidos no culto podem ser comportamentos aprendidos e condicionados que respondem automaticamente a determinados estímulos, principalmente os musicais, o que muitos pregadores conhecem muito bem e usam e abusam disso. 


6. A exploração de nossas emoções pode nos tornar vulneráveis a toda sorte de mercenários (técnica de hipnose, sugestionabilidade, etc.).


Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo (Cl 2.8).

7. A ênfase nas emoções faz dos pentecostais uma massa facilmente manipulável. Nós, pentecostais, somos mais movidos a paixões que à razão.  Os que têm mais esclarecimento entre eles jogam com as emoções, abusam de ideologia e de supostas revelações para manipular um povo simples cuja maioria é constituída por gente de baixíssima instrução.



CONCLUSÃO

Precisamos estar atentos para não prescindir do poder que Deus colocou à disposição de sua igreja com o intuito de promover seu Reino, mas também para não virarmos reféns dos enganos de nosso próprio coração, confundindo aquilo que é nosso com o que é de Deus. Cuidemos para que nossas emoções não nos façam presas dos mercenários de plantão que entendem das técnicas psicológicas adequadas de manipulação das massas. É verdade que se emocionar faz parte da constituição do indivíduo, principalmente quando da experiência com o divino, mas a razão tem que estar sempre no controle, aliás, o espírito do profeta deve estar sempre sujeito ao próprio profeta (1 Co 14.32).  


Por isso que o movimento pentecostal goza de uma diversidade impressionante, por causa de sua capacidade de se reinventar de acordo com a época e as características da comunidade que o recebe. 



terça-feira, 12 de março de 2013

Este Deus, esta vida






O mistério, a incompreensão, a finitude absurda... O que se concebe atrás dos limites das palavras e compreensão humanas?  O que se esconde após a linha divisória que a vã ciência não pode transpor? Dá-se o nome de mistério.  Diante da ignorância incomensurável, resta-nos viver, experimentar e se maravilhar com o mistério. Talvez se compreendêssemos a vida, ela perderia a sentido. Da mesma forma que Deus só é Deus porque está envolto em mistério, a vida só é vida porque está cercada de neblina.

Dia destes me impressionei com o título de uma conferência promovida por uma dessas igrejas pentecostais. Numa faixa grande, com letras garrafais, ladeado pelos preletores do evento, eu li o título CAÇADORES DE DEUS. Na primeira impressão, antes de ser controlado pela reflexão, me posicionei otimista em meus sentimentos pela ideia genial de caçar Deus até encontrá-lo. Um amigo até comentou, em tom de brincadeira, que estava preocupado com a integridade física de Deus, pois caçadores costumam ser cruéis. Fiz coro com aqueles que acham que o esforço humano pode forçar uma aproximação e capturamento da Divindade, tentado a simpatizar com a ideia de um Deus capturável, passível de ser analisado, compreendido e, finalmente, espreitado. Todavia, logo que a reflexão me acudiu, matutei como seria um Deus que pode ser caçado como uma presa de quem se pode ficar à espreita, e tudo parecia se chocar com o conceito lógico de Divindade, porque um ser passível de ser compreendido e capturado parece não compatibilizar com a ideia original de DEUS. 

Nenhuma teologia, por mais profunda que seja, dá conta de esclarecer a natureza do Divino. Tudo o que se diz sobre Deus não passa de uma aproximação distante da Supra Realidade Infinita. O pastor Ricardo Gondim expressa melhor o que acabei de dizer: "Teologia não pode ser uma ciência que estuda Deus, porque Deus, por definição, excede a capacidade de qualquer ciência de estudá-lo". Ou como compreende Steiner, "O que está além da palavra humana fala de Deus". É da própria natureza deste Ser Infinito, Criador e Sustentador do Universo, nos escapar e nos pôr diante do mistério inescrutável. Por isso, acho muito divertido ver estudiosos da Bíblia apresentarem uma definição de Deus de tal maneira a colocá-lo dentro de uma forma, apresentando conceitos e parâmetros de como Deus se manifesta e age, como Ele é e se apresenta.

A teologia tradicional e sistemática prescreve uma cartilha de como o fiel deve se relacionar com Deus a partir do entendimento de uma Divindade capturável que se formata à nossa maneira de pensar. Mas a verdade é que Deus, na sua grandeza, nos escapa sempre, porque a gente O conhece dentro dos limites bem estreitos da pequenez de nosso entendimento. Em nosso relacionamento com Ele, vamos como que entrando numa trilha, bosque adentro, e chega um momento em que não dá mais para avançar, quando esbarramos no mistério insondável, que a nossa mente não dá conta,  e então a única saída diante do mistério é poder se maravilhar. Aliás, os mistérios existem para explorar nossa capacidade de se maravilhar, como bem definiu Leonardo Boff, "o ministério nos mantém sempre na admiração até o fascínio, na surpresa até a exaltação".

Entre os orientais, a compreensão de insondabilidade da Divindade está expressa na competição do brahmodya, prática que acontecia entre os brâmanes e consistia em um retiro na floresta entre os participantes, os quais realizavam execícios espirituais que possibilitavam a alteração do nível de consciência. Depois, um desafiante fazia uma pergunta enigmática sobre a Divindade ao seu adversário, e este último teria que dar uma reposta adequada , porém inescrutável. O objetivo do duelo era esgotar todas as possibilidades de encontrar uma forma verbal que definisse o brahman (divindade para eles) e, portanto, colocar o opositor diante do silêncio do inescrutável. Quem reduzisse o oponente ao silêncio venceria a competição. E era somente neste momento de silêncio, quando a insuficiência das palavras e a consequente impotência do discurso humano se faziam evidentes, o brahman se revelava.

O silêncio arrebatador dos brâmanes não dava espaço para interpretação e compreensão conscientes.Talvez seja mesmo o rigor da interpretação que nos afasta da essência dos objetos de nossa visão e relacionamento. Existe uma maneira intuitiva de se capturar as coisas, que nos permite a lisura delas e que dispensa as interpretações racionais que nós, reles mortais, precisamos fazer para dar sentido ao mundo. Talvez possamos dizer que se trata de uma interpretação intuitiva, fora do nível racional da consciência. Bonhoffer, ao descrever sua impressão diante de uma obra de arte, comentou que "uma obra de arte, vista com clareza, inteligência e compreensão, atinge o inconsciente", de sorte que "ou se vê a coisa intuitivamente ou não se vê (...), por isso deve-se esforçar para se entender a obra enquanto se olha para ela, porque interpretação em demasia não significa melhor compreensão artística".**

Temo que o rigor da interpretação nos esteja pondo cada vez mais distante de Deus, pois a apreensão do Divino, segundo a maneira de pensar bonhoffiana, é como se deslumbrar diante de uma obra de arte, independe de quaisquer estratégias  de captura ou de diretrizes que direcionem nossa busca, acontece da maneira mais natural, mais intuitiva, num momento microscópico, no campo do sentimento, na primeira vista do primeiro encontro, como um viajante que, ao virar a curva, se depara com uma árvore frondosa e florida, deslumbrante. Neste encontro repentino, ele apenas sente o objeto de sua visão, ele não pensa sobre, mas passada a primeira e mui rápida impressão, quando ele pensa sobre o objeto de sua visão, aí a informação do objeto já está distorcida por influências de seus preconceitos. Por isso me aproximo da teologia com cuidado, porque ela é apenas um pensar sobre Deus, permeado por séculos de tradições e preconceitos humanos. Chego, às vezes, a desconfiar que o Deus de nossas pregações seja somente o acúmulo de roupagens com que as várias culturas e tradições, cada qual com seus preconceitos e interesses egoístas, vestiram a percepção original, simples e pura da Divindade.

Eu já tive a experiência frustrante de tentar capturar o incapturável, de conter Deus numa forma e entender a maneira como Ele opera. Sai da escola de teologia com uma imagem formatada de Deus e fui para o relacionamento com Ele em oração, pensando que o repertório de conhecimentos que adquiri o tornaria capturável, mas, para minha surpresa, Ele sempre acabava escapando. Com essas experiências, a agente percebe, felizmente, a nossa limitação, restando-nos como única saída adorar, maravilhado ante o mistério insondável.

Deus e mistério têm tudo a ver um com o outro, por isso o mistério é essencial para a concepção de Deus. Isso mesmo: Ele se concebe essencialmente no mistério. O encanto, perplexidades e controvérsias a seu respeito residem no mistério, nas fantasias originadas da curiosidade pelo desconhecido que persiste em não se revelar. Se se revela, desencanta, perde o provocar do suspense e acaba no lugar comum. É lá que Deus se concebe, está e se esconde: no lugar inacessível do mistério mais profundo, revelando aqui e ali apenas uma partícula microscópica de si, para aguçar nossa curiosidade e atiçar nossas fantasias em relação a Ele. Ele se esconde para inspirar sentimento de adoração nos mortais. Porque só se rende adoração ao mistério, ao incapturável, ao inacessível. Se a Divindade se revelasse plenamente, não levaria muito tempo para que fosse desprezada e, talvez, a nossa frustração e intolerância a dependurassem novamente numa cruz.  

Mas eu diria que Deus é incapturável porque a própria vida ou existência que, à minha maneira de enxergar, é o ponto de partida para a busca da compreensão de Deus, é também incapturável.  Às vezes eu me pego angustiado tentando relacionar fatos, experiências, querendo montar um quebra cabeça que revele uma compreensão satisfatória da vida, mas depois de tanto sofrimento, me deparo com um mistério insondável. E concluo que a vida é este quebra-cabeça imontável desfalcado das peças dos   livros que não conseguirei ler, dos lugares que nunca visitarei, das amizades que não farei, das pessoas que não poderei conhecer e... enfim, das possibilidades que nunca conseguirei explorar, para me pôr diante da cruel angústia dessa incapturabilidade da existência.

O nó que não desata é esta perplexidade ante a dimensão infinita de possibilidades que se contrasta com a nossa vil e absurda finitude. O mistério, a incompreensão, a finitude absurda....  Não será essa curiosidade insaciável  que nos move? Diante da ignorância incomensurável, resta-nos viver, experimentar e se maravilhar com o mistério. Talvez se compreendêssemos a vida, ela perderia o sentido. Da mesma forma que Deus só é Deus porque está envolto em mistério, a vida só é vida porque está cercada de neblina.

Mas para dar conta da angústia do mistério, tanto em relação a Deus quanto em relação à vida, nós desenvolvemos a capacidade de recorte/de síntese. O mistério somente se pode desvendar dentro do limitado recorte da realidade que fazemos. Foi assim que os antigos criaram os mitos e as religiões, cada qual com seus dogmas e crenças, como metáforas de uma realidade em si mesma insondável. E nós criamos nossos conceitos em relação à vida, nossos hábitos e crenças que são compartilhados por uma sociedade, grupo ou  então peculiar ao indivíduo. Porque a vida só pode ser compreendida e capturada dentro da metáfora da religião que abraçamos, dos acordos sociais que fazemos, dos mitos e fantasias que constituem os indivíduos que somos. Da mesma forma este Deus, Ele só se pode ser compreendido, amado e capturado dentro do recorte que fazemos, de acordo com as limitações que temos. Se suspendemos o recorte, tudo vira mistério. E de vez em quando é preciso abrir mão do recorte, das metáforas, dos conceitos, dos preconceitos, essas coisas por demais pequenas,  e deixar o mistério nos tocar, nos maravilhar, impressionar... para que possamos dar a verdadeira e devida adoração a Deus e possamos celebrar devidamente a vida.

domingo, 27 de janeiro de 2013

O jogador da vida

Ele nunca ganhara dinheiro algum no jogo e era muito consciente de suas pouquíssimas possibilidades de ganhar. Jogava pelo prazer da disputa, pela adrenalina das partidas acirradas e pela sensação extasiante de matar, de vez em quando, uma partida. Adorava olhar a cara de apreensão dos adversários que, à espera da última carta, seguravam, ligeiramente trêmulos, as nove cartas na mão, engenhosamente organizadas.

Entre as partidas que acertava e as que perdia, dizia com certa resignação ou cinismo, havia um prejuízo financeiro irreparável. Repetia que as cartas nunca foram favoráveis a ele e gostava de se referir ao que chamava de deuses da sorte e do azar, os quais pelejavam em favor de seus pupilos e contra seus desafetos no jogo. Mas era do tipo que, lá no recôndito da alma, tinha a impressão, ainda que pálida, de que um dia a persistência vence os deuses, o azar, e a vida dá uma virada.

Gostava de comparar o jogo à própria vida, ou a vida ao próprio jogo. “Tantas vezes a gente espera um ás de copa e se decepciona ao se deparar com um ás de ouro. E novamente se tem um vislumbre de um ás vermelho, e a gente confia que agora é o ás de copa tão esperado, mas, por ironia do destino, repete-se o que a gente não deseja, e mesmo diante da probabilidade duas vezes maior de acerto, dá errado”. “Mas nem tudo é negativo na vida”, ele continuava, “ o jogo também surpreende positivamente com cartas inesperadas que se encaixam entre duas outras, numa trinca apertadíssima, para formar uma sequência de jogo que, no pife, chamamos de jogo seguido. E quantas vezes, sem esperança de matar o jogo por depender de um única carta, somos surpreendidos pela sua repentina aparição na mesa, e a vida retoma alento. Para ele, aí reside a graça do jogo, essas surpresas desconcertantes de tanta semelhança com a vida. Assim era ele: só conseguia explicar a vida por meio das cartas, ou gostava de explicar as cartas por meio da vida, sei lá, era tão viciado no jogo que a vida e as cartas se confundiam.

Mas ele contava uma história muito engraçada quando alguma coisa saía errado na vida - na dele e na dos outros. Era uma história fantasiosa demais para ser verdadeira, mas eu via sinceridade em seus olhos toda vez que contava. E o que mais importava não era a verossimilhança do caso, era a perfeição da ilustração. Dizia que um dia, num jogo que durou a noite inteira, não ganhou uma partida sequer e, àquela altura, todo o suor de uma semana de trabalho tinha-lhe escapado por entre as cartas. Eram cinco horas da manhã e ele disputava a última partida com o único dinheiro que restava, partida que decidiria se ele voltaria a pé para casa ou pegaria um táxis. “Todo jogador de pife sabe que juntam-se dois baralhos para que quatro pessoas possam jogar, e que a junção de dois baralhos resulta na repetição de cada uma das cartas: duas damas de espada, duas de copa, dois sete de espada, dois de copa, e assim sucessivamente. "Porém um jogo não pode ser formado por cartas repetidas”, ele explicava aos iniciantes. A aposta da última partida era o último dinheiro que ele tinha, se perdesse, teria que andar dez quilômetros, se ganhasse, pelo menos poderia pegar um táxis.

Disse que estava com duas damas na mão: uma vermelha (de copa) e outra preta (de espada), esperando outra dama vermelha ou preta para matar o jogo, com a vantagem de que qualquer dama que caísse sobre a mesa ou que ele puxasse do baralho não poderia se repetir, pois ambas as damas, de copa e de espada, que formavam pares repetidos com as que ele tinha na mão, já haviam passado pela mesa e não podiam voltar. E ele contou com graça que, àquela altura, pensando na possibilidade de ir a pé para casa, depois da exaustão daquela noite insone, com o agravante de ter perdido todo o dinheiro, puxou, devagar, uma carta do baralho pela pontinha, repetindo aquele ritual que os que jogamos chamamos de chorinho, um apelo quase supersticioso para que a carta atenda à necessidade do momento, e vislumbrou a pontinha de uma dama vermelha. Pronto, era a carta que ele precisava, pois como não poderia se repetir a dama de copa, aquela era indubitavelmente a dama de ouro, carta com que ele bateria o jogo.

E ele terminava sua história com um tom de cinismo nobre, de uma resignação filosófica: “Puxei a carta com arrogância, na certeza inabalável de que era a dama de ouro e, para minha surpresa, era a dama de copa. Havia alguma coisa errada com aquele baralho, com a minha vida, com a vida enfim, mas nem questionei, pois àquela hora, nada importava mais. Eu teria que andar das cinco até às oito da manhã para chegar em casa".

Incrédulo no tocante à história - apesar da convicção desenhada em seu rosto quase não deixar chance para a dúvida - perguntei qual foi sua reação quando viu a carta “impossivelmente” repetida. Ele disse que olhou para cima, como que para o vazio, soltou um sorriso cínico, deu uma banana para o ar e murmurou por entre os lábios um “dane-se”. Depois vinha a parte mais importante. Ele aplicava aquela experiência à vida, dizendo que "há momentos na vida em que somente o cinismo nos possibilita dar conta da realidade, das ironias do destino, da galhofa dos deuses. É preciso rir muito, ser elegantemente cínico e fazer piadas da própria desventura se não quiser enlouquecer.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

"Ao Deus desconhecido" / Paulo na cidade de Sócrates




CIRCUNSTÂNCIA QUE PROPICIARAM A PREGAÇÃO DE PAULO EM ATENAS

1. Paulo empreende sua segunda viagem missionária na companhia de Silas após a Assembleia de Jerusalém, começando pela Síria e Filícia, onde confirma algumas igrejas já instaladas ali. Depois passa por Derbe e Listra, onde encontra pela primeira vez o crente Timóteo, que Paulo circuncida e leva consigo.

Em seguida, o trio de evangelistas vai a Trôade, passando antes pela Frígia e pela Galácia, onde foram impedidos pelo Espírito Santo de pregarem o evangelho. De Trôade, vem a revelação para que Paulo e seus companheiros vão à Macedônia, o que fizeram, passando pela Samotrácia, logo depois Neápolis, e chegaram a Filipos, onde aconteceu a libertação de uma pitonisa, a conversão de Lídia e do carcereiro.

De Filipos, foram para Tessalônica, passando por Anfílopes e Apolônia. Em Tessalônica, Paulo prega numa sinagoga de judeus por três sábados, resultando num bom número de conversos. Mas judeus invejosos denunciaram-no ao governador dizendo que “aqueles que alvoroçam o mundo chegaram até nós”, o que forçou uma fuga para a Bereia.

Tendo os judeus de Tessalônica informação de que Paulo estava apregoando Jesus na Bereia, foram em busca dele, obrigando alguns irmãos bereanos a fugirem com Paulo para o mar. Porém Timóteo e Silas ficaram na Bereia. Então os que acompanhavam Paulo o levaram até Atenas, navegando pelo mar da Bereia. Ele ficaria ali apenas para esperar Silas e Timóteo que estavam atrasados em dois dias, antes de seguir viagem.

2. Paulo ficou perturbado ao ver a situação espiritual e moral de Atenas

Antenas era o centro intelectual do mundo de então, berço da filosofia e da democracia, a cidade de Sócrates, Platão e Aristóteles. Apesar de não ostentar mais as glórias de outros tempos, ainda era objeto de admiração e devoção, principalmente dos governantes romanos.

Paulo estava muito cansado e precisava descansar, mas resolveu dar uma volta pelas ruas da cidade de Sócrates. Na medida em que caminhava pelas ruas, o que ele via o deixava perturbado, indignado, horrorizado, irado. Paulo sentiu-se desafiado com o que viu. Ele viu a corrupção moral e as centenas de ídolos de Atenas.

Como observou o reverendo Billy Graham, numa mensagem pregada no Madison Square Garden, “os antigos divinizavam suas paixões. Baco era a deificação do desejo. Vênus e Afrodite eram as deificações do sexo. Marte e Júpiter representavam o instinto de luta, eram os deuses da guerra. Hoje, o homem superou a imagem de Baco, mas ainda é governado por seus apetites. O templo de Vênus já não existe, mas ainda somos dominados pelas paixões. Dispensamos Marte como fruto da superstição, mas os deuses da guerra ainda estão conosco, e o home continua lutando. Assim, todos os velhos deuses ainda estão por aí”.

Matthew Henry destaca que havia mais ídolos em Atenas que em toda a Grécia reunida. Todo deus estranho que lhes fosse recomendado, eles o aceitavam e lhe concediam um templo e um altar, de modo que eles tinham quase tantos deuses quanto homens. Mesmo quando o império romano se tornou cristão, Atenas continuou idólatra. E Henry continua destacando que onde a cultura humana mais floresceu, foi onde a idolatria mais abundou, O povo era influenciado à idolatria mais horrorosa por sacerdotes pagãos vendidos ás próprias conveniências, e permanecia neste estado de ignorância devido ao silêncio dos filósofos que se mostravam indiferentes, tanto aos deuses, quanto à idolatria do povo. Isso endossa as palavras de Paulo na carta aos romanos: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” ( 1.22).


3. Capacidade de se horrorizar

A Bíblia diz que Paulo se horrorizou ao ver a situação de Atenas. Ele se sentiu desafiado. E esta é uma das características de Paulo que me prendem a atenção: a sensibilidade para se horrorizar. Os atenienses estavam anestesiados pela prática constante da idolatria e imoralidade, anestesiados pela exposição constante ao vício, por séculos de tradição. Temo que a exposição contínua aos pecados de nossos dias tire de nós a capacidade de se horrorizar com o mal. Tudo o que temos é essa capacidade de se sensibilizar. E é essa capacidade que nos move à ação, na tentativa de mudar o estado de coisas.

Nós estamos vivendo dias de anestesiamento. Estamos muito embevecidos com os movimentos espirituais e com o crescimento desse movimento e não conseguimos ver a real situação do mundo a nossa volta. Estamos como os discípulos no monte da transfiguração. Eles disseram: ”Senhor, aqui está tudo muito bom. Vamos fazer cabanas para nós e fiquemos por aqui”. Ou então como observa Marvin Stone:

Encolhemos, indiferentes, os ombros diante de quase tudo. Seguimos adiante e buscamos a próxima emoção. É como se já tivéssemos ultrapassado o ponto de fazer distinção e de nos importarmos. Finalmente alcançamos um consenso de indiferença.

A Bíblia diz que Jesus viu uma multidão perdida como ovelhas sem pastor e se comoveu. Eu confesso que às vezes me comovo e me perturbo com o que vejo.

Ao olharmos grandes cidades como a cidade de São Paulo, é muito difícil não sentir-se desafiado, vendo a obsessão do sexo, o incentivo á exacerbação da sexualidade infantil, os narcóticos que escravizam crianças, adolescentes e jovens, os apetites desenfreados, o consumismo, o materialismo, (usando uma frase do Billy Graham), todas essas coisas que a sociedade moderna tem transformado em deuses.

Temo que a exposição constante a essas coisas nos leve a vê-las como algo natural, tirando de nós a capacidade de horrorizar.

4. Então Paulo começou a pregar nas ruas

A pregação precisa ser motivada por um particular estado de espírito, pela comoção resultante da percepção de uma profunda necessidade do indivíduo, da comunidade, da sociedade. Pregar por pregar, ou então pelo interesse de divulgar e defender as próprias ideias é teatralização, pura poesia.

Ao se sentir consternado com a situação de Atenas, Paulo abriu mão do descanso e começou a pregar. Ele disputava com todos os que encontrava em seu caminho: nas sinagogas, nas praças e nas ruas. Ele dizia: Atenção atenienses e residentes, trago-lhes uma excelente mensagem: Jesus Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. Ele é a luz do mundo. Quem o segue não andará em trevas. Ele pode trazer luz à vida e à cidade de vocês.

A maioria deles não dava importância à sua pregação, principalmente os da sinagoga. Sendo então evitado pelos judeus, Paulo seguiu o costume helênico e começou pregar aos transeuntes. “Jesus Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”.

Alguns intelectuais o olharam com desprezo, acharam graça e zombaram dele. “É um falastrão, um santarrão que não sabe o que está dizendo”, comentaram outros. Ainda outros pensavam que Paulo era um pregador de deuses estranhos e que anunciava um casal de divindades: Jesus e Anastásia, palavra grega para ressurreição. Mas havia alguns membros da Academia que ficaram curiosos e quiseram ouvir a Paulo. Queriam saber o que ele tinha a dizer. E não é sem propósito que Lucas ressalta que os epicureus e os estoicos estavam lá e contendiam com Paulo.

OS ILUSTRES OUVINTES DE PAULO

1. Os epicureus acreditavam que o universo não foi criado por ninguém, que a vida veio à existência por acaso, num universo mecânico, e que a morte põe fim a tudo. Concebiam a divindade como alguém despreocupado e indiferente a tudo o que diz respeito ao mundo, distante demais da terra para ter interesse nas ações humanas e, portanto, em vão se faziam orações e sacrifícios a ele. Segundo o epicurismo, não havia critério divino algum para diferenciar entre o bem e o mal, então os humanos não tinham o que temer nem esperar em relação ao futuro, nem castigo nem recompensa. Para eles, os deuses eram perfeitamente felizes, devendo ser este o alvo principal da vida dos humanos. Por isso viam os prazeres como o supremo bem da vida. Notem que o cristianismo vem na contramão ensinando a que renunciemos a nós mesmos.

À luz do precedente, pode-se reconhecer por que havia filósofos epicureus entre aqueles que passaram a conversar polemicamente com Paulo, na praça do mercado em Atenas, e que disseram: “O que é que este paroleiro quer contar?” “Ele parece ser publicador de deidades estrangeiras.” (At 17:17, 18) A filosofia dos epicureus, com a sua ideia de “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”, negava a esperança da ressurreição ensinada pelos cristãos no seu ministério. — 1Co 15:32. ( ver Biblioteca Online da Torre de Vigia).

2. Os estoicos descartavam totalmente a ideia de um Deus pessoal e defendiam que todas as cosia eram parte integrante de uma divindade impessoal, de onde emanava também a alma humana. Criam na propriedade da alma de sobreviver à morte do indivíduo, porém esta mesma alma sobrevivente seria reabsorvida à deidade. Sustentavam ainda que, para alcançar a verdadeira felicidade, o homem precisava raciocinar para compreender as leis que governam o universo e se harmonizar com elas. Seguindo as leis da natureza, portanto, o indivíduo era considerado virtuoso e seria capaz de atingir um nível de indiferença à dor e ao prazer, independente de quaisquer condições ou circunstâncias. Adaptar-se as leis naturais significava entender e aceitar que o destino governa as contingências humanas, e o homem pode fazer pouco ou nada para mudar o estado de coisas.

Como os epicureus, os estoicos reputavam como absurda a ideia de ressurreição dos mortos, o que nos faz entender o motivo por que chamaram Paulo de paroleiro e anunciador de divindades estrangeiras quando o ouviram pregar sobre Jesus e a ressurreição. Di-ze que se consideravam os melhores dos homens e se entregavam tanto à soberba da vida quanto os epicureus aos prazeres. Notem que o cristianismo vem na contramão, ensinando que a humildade é o caminho da exaltação. O cristianismo nos ensina a que refutemos toda confiança em nós mesmos para que Cristo seja tudo em todos (Cl 3.11).

O SERMÃO NO AERÓPAGO

1. Ponto de partida do sermão: o Deus insondável, criador, sustentador e Senhor do universo.

No Areópago Paulo vai adaptar o discurso ao ambiente intelectual. Sua mensagem tem endereço certo. Ele vai começar apresentando um Deus pessoal, em contraponto à impessoalidade da divindade de seus ilustres ouvintes. E ele o faz a partir da única coisa que ele percebe em comum entre aqueles pagãos e o cristianismo: o Deus insondável (ou desconhecido). E ele vai apresentar este Deus tendo como pano de fundo uma teologia natural, numa consideração acerca da origem do universo que os gregos atribuía ao acaso.

A adoração do Antigo Testamento está permeada por uma teologia natural que argumenta a ideia de um Deus grande, infinitamente sábio, que formou tudo o que existe, e cuja criação testemunha contra os ímpios.

Tu só és Senhor. Tu fizeste os céus, e o céu dos céus; a terra e tudo o que nela há, os mares e tudo o que neles há; e tu os preservas a todos com vida; e o exército do céu te adora (Ne 9.6).

Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparastes; quem é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? (Sl 8.3,4).

Os céus manifestam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem e sem fala, ouvem-se as suas vozes (Sl 19. 1-4).


Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas; foi aquele que faz sair o exército delas segundo o seu número; ele as chama a todas pelos seus nomes; por causa da grandeza das suas forças, e porquanto é forte em poder, nenhuma delas faltará (Is 40.26).

2. Uma teologia da dependência total como contraponto à ideia de que Deus não se importa com os assuntos humanos e que a felicidade depende do próprio homem, Paulo apresenta a teologia da dependência total, a qual está exarada nas páginas da Bíblia Sagrada:

“Ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas (...), porque nele vivemos nos movemos e existimos” (At 17.25, 28).

“Todos esperam de ti que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lhes tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respirarão, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.27).

3. Um Deus que toma, Ele mesmo, a iniciativa de se revelar. "(...) para que buscassem ao Senho, se porventura tateando o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós" (At 17.27).

4. Uma teologia da inter-relação de todos os homens em resposta ao orgulho étnico dos gregos. "(...) e de um só fez todas as gerações dos homens para habitar a face da terra". Todos estamos relacionados a Adão pelo sangue, logo todos somos pecadores. Deus não divide os homens entre ricos e pobres, letrados e indoutos, preto e branco, bonito e feio. Para Deus todos são pecadores e precisam da redenção que há em Cristo Jesus.

5. Deus há de julgar o mundo por meio do varão que destinou. Notem que Deus julga o mundo tendo como fundamento a crucificação e ressurreição de seu Filho. Deus suportou os pecados da ignorância dos ímpios até o dia em que uma grande luz brilhou na escuridão e Alguém disse: “Eu sou a luz do mundo” Jo 8.12). Agora não há mais lugar para a ignorância, por isso se diz que a manifestação de Cristo é para a elevação de muitos, porém pedra de tropeço para outros. "Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse" (Is 28.16). 

5.1 O tempo da ignorância. Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todos os lugares, que se arrependam, porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-os dos mortos (At 17.30,31). 

5.2 Deus há de julgar o mundo tendo como fundamento a crucificação e ressurreição de seu Filho. A ressurreição é a prova incontestável que Deus há de julgar o mundo e o supremo argumento da justiça de divina. Doravante, todos os planos de Deus para a humanidade, bem como o seu trato com os homens têm como base a ressurreição de Jesus. O que seria daqueles intelectuais que não criam em ressurreição se tudo o que hoje existe e o que se estenderá pela eternidade afora só acha sentido neste fato: Jesus ressuscitou e está vivo para sempre.

Continua...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dúvidas sobre o fim do mundo

Assisti certa vez uma versão do filme Sansão e Dalila, onde o verdadeiro herói não foi o poderoso Sansão, que derrubou, com sua estupenda força, o templo de Dagom e subjugou seus inimigos. O herói foi um filisteu que garantiu a continuação da semente de seu povo por meio de um conselho que deu ao seu jovem filho.

Na hora em que levaram Sansão para o Templo de Dagom, todos começaram a zombar dele, céticos quanto à possibilidade de aquele homem, agora cego e "sem forças", fazer-lhes algum mal. Quando Sansão pediu ao moço que o conduzia para que o levasse à coluna principal do prédio, os que o ouviram multiplicaram as vaias. Mas um homem, dos filisteus, chamou seu jovem filho e disse-lhe: "Quando Sansão chegar à coluna, esteja fora do templo,  e se ouvir ruídos, fuja para bem longe". O moço olhou o velho pai com olhar de dó, como que percebendo nele os primeiros sinais de caduquice, e perguntou: "O senhor acredita mesmo nesse boato ridículo de que um homem cego e agora sem forças pode derrubar sozinho este templo?" Ao que o pai respondeu: "Não, meu filho, não acredito, apenas tenho dúvida, e, na dúvida, prefiro que você fique fora do templo".

O filme acaba com a imagem de um jovem caminhando sozinho no deserto e uma voz de fundo dizendo: E assim a semente dos filisteus não foi extirpada da terra, porque entre eles havia um homem que duvidava.

Muitas pessoas, no decorrer da história,  têm preconizado um fim dramático para o nosso mundo, e alguns chegam mesmo a ousadia de estipularem datas para o evento, causando pavor em meia dúzia de crédulos -a última delas   para o dia 21/12/2002, com base em interpretação do calendário maia. Sinceramente não creio nessas previsões malucas, muito menos em datas estipuladas por "profetas do fim", mas, às vezes, só em pensar neste mundo sendo tragado por um cataclismo, me dá um gelo na barriga. Penso que esse frio na barriga é indicador de um filete de dúvida que persiste, apesar da absurdez da história. Logo, como aquele filisteu do filme, sempre achei que, na dúvida, é melhor colocar as barbas de molho. Quem sabe um dia a história relatará: "E assim a raça humana não pereceu, porque lá em São Paulo havia um homem que duvidava".

"Os tolos estão cheios de certeza. Os sábios estão cheios de dúvida." (não lembro bem quem foi que disse).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O que já não faz sentido

Acho que quase todas as pessoas têm o costume de guardar um amontoado de coisas em algum canto da casa. Imaginam que tais coisas podem ser úteis um dia, ou então lembram bons momentos distantes, ou porque simplesmente acham-se incapazes de se livrar delas por causa do fascínio que exercem. Assim, há quem faça coleção de chaves, cartões de aniversário, cartas, canetas, cadernos e agendas antigos, ferramentas gastas, etc. Antes que me esqueça, acrescento a essa lista os textos, documentos e recortes de jornais que são as coisas que sou viciado em guardar. Guardo-os com a mais sincera intenção de relê-los um dia.

Mas o danado é que o espaço vai se apertando e o tempo se exaurindo na medida em que o acúmulo anoso dos objetos de nossa devoção se expande, forçando a gente a fazer uma limpeza de vez em quando. Não que um dia o espaço nos falte totalmente, pois o imagino infinito, mas porque, à semelhança da memória do computador, quanto mais espaço livre tivermos, mais agilidade teremos na execução de tarefas. Em relação ao tempo, não posso dizer o mesmo, pois o tempo fica mais escasso na proporção inversa em que aumentam as velas em nosso bolo de aniversário.

Foi com esse pensamento que resolvi rever todos aqueles textos que guardei ao longo dos anos no fundo da gaveta com a intenção de retomá-los sabe-se lá quando. Passei um por um, apreensivo pela seleção que teria que fazer, determinando o que ficaria e o que iria embora. O resultado foi surpreendente: joguei quase todos fora. Primeiramente porque conclui não haver mais tempo para retomá-los, pois tenho menos dias para gastar e, por conseguinte, preciso focar o que é rigorosamente essencial. Segundo, percebi que a maioria daqueles escritos, que já li com tanto entusiasmo, já não fazia sentido para mim. Ou eu não fazia mais sentido para eles. E pensar que há poucos anos, eu não abriria mão desses textos por nada. Mas agora foi tão fácil jogá-los. Os textos eram os mesmos, dos mesmos autores, sobre aquelas mesmas circunstâncias e temas, mas eu era outra pessoa.

Nossos baús e bagagens não se restringem a coisas apenas. Nós também guardamos pensamentos, sentimentos e emoções que cavaram sulcos profundos na alma. Conservamos lembranças de pessoas e de momentos que não queremos esquecer, porque exercem um fascínio muito grande sobre nosso espírito. Mas ,semelhante à limpeza que precisamos fazer, às vezes, em relação às coisas guardadas, há uma necessidade de, vez por outra, nos desprendermos de algumas lembranças, sentimentos e emoções, bagagens que apenas ocupam espaço, visto que não será mais possível retomá-las. E isso também por uma questão de tempo e de sentido.

Acredito que toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor, com juras eternas de lealdade, quando houve a necessidade de mudar de uma cidade para outra. Mas o tempo passa e, quando volta, não consegue mais se relacionar como antes, tudo é tão estranho. Isso acontece porque as pessoas mudaram, principalmente por causa do contato de uma das partes com novos ambientes e relações, e torna-se impossível retomar a convivência do jeito que já fora. Já dizia um filósofo que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio nem da mesma pessoa.

A mudança do indivíduo acarreta mudanças significativas em todas as suas relações e tira todas as coisas de sua posição original, alterando toda a realidade à sua volta. É a partir dessa compreensão que podemos discutir a questão do significado inconstante de tudo o que existe. A questão sobre o sentido da vida com todas as suas nuances é muito abordada na psicologia. A existência é uma roda que gira o tempo todo, tirando e trocando tudo de lugar. E neste vai-e-vem, tudo o que existe troca de papel, assume novas roupagens e muda de significado para os elementos relacionados. Logo, na dinâmica da vida, o que um dia foi importante pode deixar de sê-lo e o que era irrelevante pode vir a assumir valor fundamental, mas tudo dentro de um processo que quase nunca acontece de forma clara para nós. É necessário, portanto, discernimento para avaliar, de acordo com o momento, qual o grau de importância que não somente as coisas, mas também as relações ainda têm para a vida. Somente assim, podemos nos desprender de tudo que já não tem sentido para propiciar uma vida fluida e feliz e buscar novos caminhos, novos significados, num exercício de seleção que evitará o acúmulo de resíduos que servem apenas para ocupar espaço e obstruir o sistema, causando preocupações desnecessárias. Ouvi de uma professora que " a gente se agarra a sentidos fixos para não dar conta da angústia". Penso que agarrar-se a sentidos fixos é não reconhecer que algo, outrora muito significativo, pode estar destituído de importância hoje.

Finalizando, para uma vida feliz, precisamos entender que é próprio das coisas e das relações, na roda do tempo, adquirirem novos significados. Desse modo, umas deixam de fazer sentido para nós, enquanto que outras, outrora sem importância, passam a fazer sentido. Nós mudamos o tempo todo, alterando a compreensão e visão que temos de tudo, por isso, todo mundo precisa de vez em quando desprender-se das coisas, relações e comportamentos que deixaram de fazer sentido para a vida, que já foram muito importantes um dia, mas que, com o passar dos anos, foram destituídos do significado inicial e agora são apenas entulhos impedindo a absorção de novas experiências que resultem em novas possibilidades.

Cara, é preciso ter desprendimento e humildade.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Salvação, a maior de todas as promessas bíblicas

E ela conceberá e dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1.21)

A gloriosa promessa da salvação feita por Deus à humanidade é a maior e mais importante dentre todas as da Bíblia Sagrada, é a chave que abre a porta para a concretização de todas as demais promessas divinas. Foi proferida pela primeira vez pelo próprio Deus no livro de Gênesis (3.15), permeia todo o Antigo Testamento nos tipos e símbolos dos rituais levíticos e na voz dos profetas, reis e sacerdotes. Na plenitude dos tempos, a promessa de salvação teve seu cabal cumprimento na pessoa bendita de Jesus Cristo (Jo 3.16) e tem sido anunciada pela igreja no decorrer dos séculos. É uma excelente oportunidade discorrer sobre esse assunto tão enriquecedor.


A RAZÃO DA PROMESSA

Para entendermos satisfatoriamente a promessa de salvação, sua razão e necessidade, faz-se necessário entendermos a queda do homem e as sua deletérias conseqüências. Afinal de contas, Deus nos promete salvar de quê? Vejamos. No capitulo 3 do livro de Gênesis, encontra-se o registro da maior tragédia da história humana. Adão e Eva, representantes de toda a humanidade, induzidos por Satanás, desobedeceram a ordem de Deus, o qual, havendo-os criado, colocou-os no jardim do Éden e ordenou a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 3.16,17). Após desobedecer a ordem divina, aquele primeiro casal percebeu que Deus estava falando sério e as conseqüências terríveis vieram.

1.Separação de Deus/ perda da comunhão com Ele. Ao pecarem, a primeira atitude de Adão e Eva foi esconder-se de Deus, não podendo mais se relacionar com Ele por causa do pecado. Como contrapartida, o Senhor os expulsou do jardim do Éden, não podendo também se relacionar com eles (Gn 3.23). O pecado, segundo o próprio Deus explicou no livro de Isaias, é uma parede de separação entre o Deus santo e o homem pecador (59.2).

2. Morte espiritual (Gn 2.17; Ef 2.1-3). A separação de Deus causa, instantaneamente, a morte espiritual. Morto espiritualmente, o homem não tem condição de se aproximar de seu Criador, muito menos de fazer a sua vontade (Ef 2.1-3). Acreditamos, como a grande maioria dos pensadores cristãos, que a sentença dada por Deus a Adão – a de que morreria se pecasse – alude diretamente à morte espiritual, uma vez que este não morreu fisicamente logo após ter pecado, mas somente depois de muitos anos (Gn 5.3-5).

3. Morte física (Hb 9.27; Gn 3.19; Rm 5.17). A morte física é o maior pesadelo dos homens e o maior enigma da humanidade. Ela é resultado direto da morte espiritual. Procuramos sempre evitar o assunto, mas a realidade da morte está aí: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). O que muita gente não quer aceitar é o fato de que ela é o resultado direto do pecado de Adão, uma sentença proferida pelo próprio Deus: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3.19).

4 Morte eterna (Ap 20.6, 13,14). Chamada por João de a segunda morte, a morte eterna é a expansão e continuação, na eternidade, da morte espiritual. É a eterna separação de Deus com todos os males que esta separação acarreta (Ap 20.13,14). O transporte que conduz da morte espiritual à morte eterna é a morte física.

Obs. Não deixe de atentar para a reação em cadeia que o pecado provoca, num processo que começa com a separação de Deus e culmina com a morte eterna.

Diante de um quadro tão deplorável como o descrito acima, a maior e mais premente necessidade do homem seria salvar-se das conseqüências horrendas do pecado; mas ele não teria recursos próprios para isso, estando, portanto, eternamente condenado. Por esta razão, Deus, no seu infinito amor, resolveu usar os seus recursos, provendo um meio pelo qual o homem pudesse ser salvo. Depois de pronunciar uma dura sentença sobre o homem, a mulher e a serpente, o Criador vaticina: “E porei inimizade entre ti [a serpente] e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Anunciava-se pela primeira vez a o plano da redenção. O diabo, que dera um grande golpe derrubando o primeiro homem, mais tarde sofreria um golpe fatal desferido por outro Homem.

Obs. Atente para a definição grifada acima. A promessa de salvação diz respeito ao meio projetado por Deus, através do qual o homem pudesse ser liberto de todos os males resultantes do pecado.


ORIGEM DA PROMESSA

Consoante a infinita sabedoria de Deus, a salvação humana se daria por meio de um Cordeiro. Em Apocalipse 13.8, João diz que muitos há cujos nomes não estão escritos no livro do cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Esta afirmação remonta ao livro de Gênesis, quando Adão e Eva, como resultado da desobediência ao Criador, perceberam que estavam nus; teceram, então, roupas de folhas de figueira, a fim de cobrirem as suas vergonhas. O Senhor, porém, matou um animal, rasgou sua pele e dela teceu roupas para o casal envergonhado (Gn 3.21). Pela primeira vez, sangue estava sendo derramado, e Deus estava querendo dizer que o derramamento de sangue seria o único meio para a redenção, ou seja: “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb .22; cf Lv 17.11). A era dos tipos estava-se iniciando ali e permearia todo o Antigo Testamento, quando centenas de milhares de animais seriam sacrificados (Gn 22.13; Ex 12.3-13; Lv cap 16), com um único propósito: apontar para o momento da encarnação do verdadeiro Cordeiro de Deus que, centenas de anos mais tarde, seria decantado por João Batista, quando este, vendo Jesus aproximar-se do Jordão, exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

Deus foi justo e imparcial na aplicação da pena pelo pecado (Gn 3.15-21), mas manifestou, sem medida, a sua misericórdia ao prover o meio para a salvação de todos os homens, o Cordeiro santo, exaltado em Ap 5. 9. “E cantavam um novo cântico dizendo: digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação”.


O PROPÓSITO DA PROMESSA

A promessa divina da salvação compreende um tríplice propósito.

1. Redenção. Redimir significa livrar da escravidão mediante o pagamento de um preço. Na antiguidade, os prisioneiros de guerra podiam ser soltos mediante o pagamento de um preço, o qual era chamado de resgate (gr lytron). Da mesma sorte, os escravos poderiam ser soltos mediante um processo de resgate.

Entre os hebreus, temos uma ideia de redenção em Ex 21.28-30. Se o boi perigoso de alguém se soltasse e chifrasse uma pessoa, levando-a à morte, segundo a lei, o boi e seu dono seriam mortos por apedrejamento. No entanto, como não se tratava de um homicídio doloso, era imposto um resgate (heb kõpher) ao dono do boi, o qual podia pagar certa soma em dinheiro e assim redimir a sua vida.

Vemos que a idéia comum nos três possíveis casos acima é a de aquisição de liberdade mediante o pagamento de um preço. Isso tem uma aplicação espiritual. Jesus disse que todo o que comete pecado é escravo do pecado (Jo 8.34). Paulo disse ser, ele mesmo, alguém carnal vendido sob o pecado (Rm 7.14), como também lembrou aos cristãos romanos que, outrora, eles haviam sido escravos do pecado (Rm. 6,17). Como conseqüência da escravidão do pecado, os homens estão debaixo de uma sentença de morte (Rm 6.23). Tão deplorável situação grita por uma redenção. Foi exatamente isto que Deus propôs na promessa de salvação: a redenção pelo sangue de Cristo. Sim, o sangue do Cordeiro de Deus foi o preço da redenção, conforme atesta Paulo: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue” (Ef 1.7) / “Sendo pois justificados pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24).

2. A restauração da comunhão entre Deus e os homens. Deus criou o homem para andar na sua presença e ter comunhão com Ele. Todavia, o resultado imediato da sua transgressão foi a separação entre criatura e Criador, com a conseqüente perda da comunhão entre ambos. Isso está evidente na atitude imediata de Adão e Eva ao se esconderem de Deus por entre as árvores, logo após terem desobedecido a ordem divina. O Senhor, então, os lançou fora do jardim do Éden (Gn 3.23), o lugar da sua presença. A queda não causou apenas a quebra de comunhão entre criatura e Criador, mas até mesmo uma inimizade entre ambos. Foi o que Tiago declarou na sua carta universal (Tg 4.4). No entanto, a promessa assegurava que a parede de separação seria derrubada e a inimizade desfeita pelo sangue da cruz de Cristo (Cl 1.20; Rm 5.1). Como bem se expressou o sacro poeta: Sim, Jesus amou-me/ com amor buscou-me/ Ele mesmo restaurou-me a Deus/ Com seu sangue restaurou-me a Deus (Harpa Cristã, 156).

3. A segurança de vida eterna. Como já tivemos a oportunidade de ver supra, a drástica conseqüência do pecado é a morte (espiritual,física e eterna). Mas a promessa de salvação mediante o sacrifício substituto de Cristo compreende a vida eterna para todos quantos o aceitam, conforme enuncia o texto áureo da Bíblia: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).


TRAJETÓRIA DA PROMESSA

1. A promessa através da Bíblia. As páginas do Antigo Testamento são pródigas na apresentação da promessa de salvação, utilizando-se especialmente de dois tipos de linguagem:a tipologia e a profecia falada.

a) Tipologia bíblica. A tipologia é o estudo das figuras e símbolos da Bíblia (os tipos), com os quais Deus procura mostrar, por meio de coisas terrestres, as coisas espirituais. Geralmente constituído de pessoa, coisa ou evento, um TIPO é um meio usado por Deus para comunicar verdades divinas, através de ilustrações e figuras, e aponta para o futuro, quando ocorrerá a manifestação da verdade prefigurada – o ANTITIPO. No que tange à salvação, a tipologia bíblica veterotestamentaria é riquíssima, abrangendo tanto a obra da salvação quanto a pessoa do Salvador, que a executou. Vejamos alguns exemplos no Pentateuco.

•O sacrifício de Isaque (Gn 22.1-13). Era um pai oferecendo um filho em sacrifício, mas aparece um carneiro substituto e é oferecido em lugar do filho. Compare com Jo 3.16.

•O Êxodo - saído do povo de Israel do Egito (Ex 12.37-51). O Egito tipifica o mundo; Faraó, Satanás; Moisés, Jesus, o libertador; a passagem pelo mar, a libertação da escravidão (cf Lc 9.28-32).

•A Páscoa. Note ainda que na noite que precedeu a saída dos filhos de Israel do Egito, quando foi celebrada a primeira páscoa, cada uma das famílias israelitas foi protegida da morte através do sangue de um cordeiro – o cordeiro pascal. Mais tarde Paulo diria que Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1 Co 5.7b).

•Os rituais do culto levíticos/ o dia da expiação (Lv cap 16). Não entraremos em detalhes sobre a forma como eram realizadas as cerimônias levíticas - isso o leitor pode ver na referencia supracitada -, apenas queremos salientar que milhares de animais eram sacrificados todo ano pelos hebreus como expiação pelos pecados. Tudo isso era sombra das coisas futuras (He 10.1) e apontava para o cordeiro de Deus que seria sacrificado definitivamente para expiar o pecado do mundo (cf Hb caps 8-10).

•O levantamento da serpente no deserto (Nm 21.4-9). Naquela ocasião, os filhos de Israel estavam sendo atacados por serpentes venenosas e muitos deles morreram. Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de metal e a levantasse no meio do povo, a fim de que todos os que fossem picados olhassem para aquela serpente e fossem sarados. Mais tarde, Jesus diria: “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.14,15).

Há muito mais pessoas, eventos e objetos no AT que prefiguram cristo e a sua obra redentora - o maná que caiu do céu, a água que brotou da rocha, o tabernáculo com os seus pertences, o sumo sacerdote, o sacerdócio de Melquisedeque, Josué, o livramento de Raabe por intermédio de um fio escarlate em sua janela, a saga do casamento de Rute com Boaz, etc. Para o nosso estudo, todavia, que não tem a pretensão de ser extenso, os casos exarados acima são suficientes.

b) A profecia falada ou predições diretas. Após anunciar a salvação pelos seus próprios lábios, o Senhor Deus, através dos profetas, começou a revelar o caminho mediante o qual o Messias executaria o seu glorioso projeto. Este caminho, traçado por entre as páginas do Antigo Testamento, é, na íntegra, concretizado no Novo. Vejamos.

•O próprio Deus anuncia, pela primeira vez, o Salvador (Gn 3.15).

•Ele nasceria de um virgem (Is 7.14), na cidade de Belém (Mq 5.2). Cumprimento: Mt 1.18-25; 2.4-6.

•Seria o próprio Deus (Is 7.14; 9.6). Cumprimento: Mt 1.18ss.

•Seu nome seria “Salvador” (=Jesus) (Is 49:1-8; 63:8): cumprido em Mt 1:21;

•Ele entraria triunfalmente em Jerusalém (Zc 9. 9). Cumprimento: Mt 21.1-4.

•Seria traído por seu amigo e vendido por trinta moedas de prata (Sl 41. 9; Zc 11.12). Cumprimento: Mt 26.14,15.

•Ele tomaria sobre si as nossas enfermidades, carregaria as nossas dores, seria ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades (Is 53.4,5). Cumprimento: Lc caps 22,23.

•Iria como um cordeiro mudo ao matadouro (Is 53.7). Cumprimento: Mc 15.3.

•Seria humilhado e morto de forma brutal (Sl 22). Cumprimento: Jo cap 19.

•O Salvador ressuscitaria, subiria ao céu, assentar-se-ia à direita de Deus e derramaria o seu Espírito sobre os seus discípulos (Sl 16. 9,10; 24.7-9; 110.1; Jl 2.28). Cumprimento: Mt 28.1-10; At 1. 9-11; 2.1-13; Hb 1.13).

O que acabamos de descrever acima são apenas algumas profecias referentes ao Salvador e a sua esplêndida salvação, pois seria impossível citar todas elas - são mais de duas mil predições, sendo a maior parte no Livro dos Salmos e no profeta Isaías. Se tivesse que resumir todas em apenas uma, eu diria que “o povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu a luz” (Is 9.2).

2. Promessa concretizada. “O Novo Testamento está oculto no Velho Testamento, e o Antigo Testamento é revelado no Novo”. Agostinho foi muito feliz em enunciar essa frase. Tudo o que fora predito em relação à salvação no Antigo Testamento teve seu cabal cumprimento no Novo. Na plenitude dos tempos, aparece o Cordeiro de Deus, que foi morto desde a fundação do mundo, a Semente da mulher, para remir os pecadores (qv Gl 4.4,5). O evangelista Mateus é cuidadoso em começar o seu evangelho com a genealogia de Jesus, retratando a sua linhagem ancestral até Abraão, passando por Davi e Judá, e isso fez a fim de demonstrar aos judeus que realmente se tratava do Messias, pois estava previsto que ele seria descendente de Davi (2 Sm 7.12-19; Jr 23.5), bem como de Judá (Gn 4y.10) e Abraão (Gn 12.3).

Creio não ser necessário detalhar aqui a forma precisa como cada fato descrito no Novo Testamento cumpriu as profecias e os tipos do Antigo, pois o leitor pode ter uma visão panorâmica disso no subtópico anterior. Basta aqui o registro feito por Lucas no capítulo 24 de seu Evangelho. Jesus, depois de ressuscitar, encontrou dois dos seus discípulos, incrédulos e entristecidos, no caminho de Emaús, porque o Mestre havia morrido. “E ele lhes disse:Ó néscios e tardos de coração para crê tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na glória?” (vv 25,26). Lucas completa: “E, começando por Moisés [o Pentateuco] e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (v 27). Jesus é, segundo Ele mesmo, a concretização de toda a lei e dos profetas, a salvação do Senhor manifestada na plenitude dos tempos.


ABRANGÊNCIA DA PROMESSA

1. O caráter peculiar da promessa.  A promessa de salvação não se constitui de um complexo conceito teológico que mais serve para afastar o homem de Deus do que Dele o aproxima, mas trata-se do recomeço de um relacionamento com Deus que foi perdido lá no Éden. Uma vez religado à comunhão com o Criador, o homem passa a desfrutar, gradativamente, de todas as bênçãos que o Senhor, originalmente, pretendia para a sua especial criatura.

Como ensina o pastor Geremias de Couto:

“A salvação implica, portanto, viver continuamente na presença de Deus, experimentar sua graça aqui e agora e permanecer desfrutando de comunhão perfeita quando chegarmos ao céu. Desse modo, o contínuo e crescente relacionamento com Deus é o ponto culminante da promessa da salvação”.“Este relacionamento começa a partir do momento em que livremente reconhecemos a promessa e aceitamos a Cristo como o meio de nossa reconciliação com Deus (Os 6.3; Rm 5.8-11). É o instante em que somos justificados (Rm 5.1), regenerados (Tt 3.5) e nos tornamos santos, segundo Deus (1 Co 1.2; Fl 1.1) e, ao mesmo tempo, buscamos, segundo a Palavra, a santificação diária pelo poder da graça de Deus (Rm 6.1-22; 2 Co 6.14-18). Fujamos, portanto, de todo e qualquer movimento que retira a eficácia da maravilhosa promessa da salvação em Cristo para pô-la em ritos que nada mais são do que fruto de corações vaidosos e arrogantes” (página 24 da revista de mestre).

2. O caráter universal da promessa. A promessa da salvação inclui-se no grupo das promessas gerais (ver a lição 1) , porque foi feita a todos indistintamente. Eis por que o Senhor ordenou que o Evangelho da salvação fosse pregado em todo o mundo, a todos os povos (Mt 28.19; Mc 16.15; At 1.8). Na carta aos romanos, Paulo diz que assim como pela ofensa de adão veio o juízo sobre todos os homens para a condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação (5.18; grifo nosso). Foi este o projeto salvífico de Deus: que, assim como todos os habitantes da terra foram representados por Adão na sua queda espiritual, também todos seriam representados por Cristo no seu ato de justiça (1 Jo 2.2; 2 Co 5.14; Hb 2. 9; Rm 5.12,17,18).

A argumentação usada acima não é, em absoluto, a validação da doutrina universalista, a qual sustenta que todos os homens serão salvos, independente de qual seja sua posição em relação a Deus. Os universalistas dizem que seria impossível um Deus de amor lançar homens no inferno. Mas Paulo, na carta aos romanos, diz: “Pois esperamos no Deus vivo, que é Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” (4.10; grifo nosso). Deduzimos daí que a promessa de salvação está efetivamente à disposição de todos, mas só pode ser aplicada, de forma experimental, àqueles que creem e a aceitam.


CONCLUSÃO

Uma vez alcançado pela maravilhosa promessa de salvação, o crente se torna receptáculo de todas as demais promessas de Deus e vive continuamente um intimo relacionamento com Ele. Como bem escreveu Paulo aos efésios, "bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (1.3). A propósito: você já é salvo?


BIBLIOLOGIA

Bíblia de Estudo pentecostal/ CPAD.
Lições bíblicas CPAD/ As promessas de Deus para sua vida (4º trim, 2007).
HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2001
O Novo Dicionário da Bíblia. Editado por R. Shedd. São Paulo: Vida Nova, 1995.
GRUDEN, Wayne A. Manual de teologia sistemática. São Paulo: Editora Vida, 2001.
SILVA, Antonio Gilberto da. Manual da Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

sábado, 17 de novembro de 2012

A importância da oração


“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim se sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.16).


A oração é o único canal de comunicação pelo qual o crente pode desenvolver um relacionamento íntimo com Deus. Sua importância pode ser avaliada na ênfase com que os santos homens da Bíblia a abordaram, tanto praticando como ensinando, sendo Jesus o principal deles. Estes santos nos legaram a lição de que falar com Deus é uma dádiva inestimável que não pode ser preterida sem sérios prejuízos para a vida cristã. Nesta oportunidade buscaremos o real valor da oração, explicar a ação do Espírito Santo no processo de comunicação com Deus e promover a conscientização de que ao nos aproximarmos do Pai celeste, devemos adotar uma postura honesta, reverente e confiante.


O VALOR DA ORAÇÃO

A importância que tem a comunicação para as relações humanas tem a oração para o relacionamento com Deus. Na Bíblia Sagrada, a importância da prática da oração pode ser mensurada nas experiências que grandes vultos daz fé tiveram com Deus em oração, bem como pelos benefícios que receberam.

1. Oração, comunhão e intimidade com Deus.

Não podemos esquecer nunca a equação: a comunhão é fruto do relacionamento. O relacionamento só acontece na comunicação. A oração é o único meio de comunicação com Deus. J. R. Lima

“Comunhão” é o vínculo que une duas pessoas diferentes, é ter algo em comum. Pode referir-se a bens, opiniões, modo de vida, de sentir e agir. Mas viver em comunhão pressupõe a ideia de relacionamentos interpessoais, intermediados pelo processo de comunicação. O resultado de um relacionamento constante entre duas pessoas é a intimidade cada vez mais estreita entre elas. Por isso acredito que o significado mais profundo de oração deva encontrar-se no termo “relacionamento”. A oração é o único meio de comunicação com Deus pelo qual o homem se chega a Ele e se mantém num relacionamento contínuo, em que ambos, criatura e Criador, se afetam mutuamente. Devo dizer que a oração é o diálogo mais íntimo e apaixonante entre duas pessoas, que se caracterizar pelo esforço de cada uma das partes por expor seu coração e captar o coração do outro, por desvelar seus pensamentos e apreender, no contra fluxo, os pensamentos do outro, num vai-e-vem de pensamentos e sentimentos que resulta em novos pensamentos e sentimentos, na medida em que se cruzam, e afeta irreversivelmente as partes envolvidas.

Destarte,quem deseja conhecer a Deus não pode descuidar do exercício da oração. Somente ir à igreja e cumprir a risca os compromissos ministeriais e religiosos não basta. Como observa Warren, “você jamais cultivará um relacionamento íntimo com Deus apenas indo à igreja uma vez por semana […]. Uma amizade com Deus é construída ao partilharmos com Ele todas as nossas experiências”.1 Por isso o conselho do apóstolo Paulo: “Orai sem cessar” (1Ts 5.17). Isso não significa necessariamente estar sempre engajado em retiros espirituais. “Você pode manter uma conversa contínua e ilimitada com Deus ao longo do dia, conversando sobre o que quer que você esteja fazendo ou pensando no momento. […] significa conversar com Deus enquanto faço compras, trabalho ou realizo qualquer outra tarefa diária”.2 Em contrapartida, acontece um desvelamento constante de Deus para a alma que o busca (Sl 55.17).

Portanto, “estreitar a comunhão com Deus” significa conhecê-lo cada vez mais experiencialmente, num relacionamento diário, e isso não se faz simplesmente através do estudo sistemático da Bíblia ou de outros meios, somente por intermédio da oração. Como disse o profeta Oseias: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor”. E este é o propósito final de Deus para os seus filhos, que nos aproximemos cada vez mais Dele, como acontecia no jardim do Éden, quando Adão tinha perfeita comunhão com o Criador, pois ambos se comunicavam constantemente (Gn 2.15; 3.8).

Em toda a Bíblia Sagrada, vamos encontrar exemplos de homens que gozaram de íntima comunhão com Deus por meio da oração: Enoque, quando estava com 65 anos, passou a ter comunhão com o Senhor, através da oração. A cada dia, ele se aproximava mais e mais do seu Criador. Trezentos anos depois, não foi mais visto, pois o Senhor o tomou para si (Gn 5.24).

Moisés passava horas a fio com Deus e falava com Ele face a face, como qualquer fala com o seu amigo (Ex 33.11). Este relacionamento devia-se ao fato de que Moisés vivia totalmente dedicado aos propósitos e vontade divinos. Ele compartilhava dos próprios sentimentos de Deus, a ponto de padecer quando Ele padecia e de entristecer-se quando Deus ficava entristecido (Ex 32.19).

Abraão tinha tanta comunhão com Deus que travava diálogos extensos com Ele (Gn 18.23-33) e foi chamado por Este de meu amigo (Is 41.8). Daniel, chamado de homem mui amado e desejado (Dn 9.23;10.11,19) costumava orar três vezes ao dia (Dn 6.10).

Lembro-me de ter ouvido o pastor da maior igreja da Coreia do Sul, David Yonggi Cho, afirmar que, se tivesse que dizer uma última palavra aos seus ouvintes, ele lhes diria: “Orem”. Não foi essa a mesma mensagem que Moisés, Davi, Jesus, Paulo e tantos outros heróis da fé nos transmitiram com o seu exemplo de vida?. O que estamos esperando então? Comecemos a orar agora.

2. Oração e ações de graça

Ações de graça são expressões gerais de gratidão a Deus por todas as Suas realizações em nossa vida, passadas, presentes ou mesmo futuras. Nesta atitude, o fiel faz menção daquilo que o Senhor fez em seu favor, salienta os dons recebidos, os quais constitui-se prova cabal do amor individual que o Pai celeste dedica a cada um de seus filhos. As páginas sagradas estão repletas de exemplos de piedosos homens que nunca descuidaram da importância do agradecimento:

Os salmistas

“Louvarei com cânticos o nome de Deus e exaltarei com ações de graças” (Sl 69.30).
“Cantai ao Senhor com ações de graças” (Sl 147.7).
“Perseverai na oração, vigiando com ações de graças” (Cl 4.2).

O apóstolo Paulo

"[…] dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 1.8).
“Perseverai na oração, vigiando com ações de graças” (Cl 4.2).

O próprio Jesus

"Então Jesus tomou os pães, deu graças e os repartiu entre os que estavam assentados, tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes" (João 6:11) .

"Pai, eu te agradeço porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves, mas disse isso por causa do povo que está aqui, para que creia que tu me enviaste." (João 11:41-42).

Portanto a orientação bíblica é que entremos na presença do Senhor com ações de graça: “Entrai pelas portas Dele com ações de graças, e em seus átrios com louvor, rendei-lhe graças e louvai ao seu nome” (Sl 100.5); e também: “Em tudo dai graças” (1Ts 5.18). Acredito que razões não faltam para sermos agradecidos – na prosperidade, reconhecemos que todas as bênçãos vêm de Deus; na adversidade, sabemos que Deus pode tirar algo bom daquilo que julgamos ruim. Essas verdades foram sintetizadas por August Ludwig Storm no poema que se segue:


Graças dou por esta esta vida, pelo bem que revelou
Graças dou pelo futuro e por tudo que passou.
Pelas bênçãos derramadas, pelo amor pela aflição,
Pelas graças reveladas, graças dou pelo perdão.

Graças pelo azul celeste e por nuvens que há também;
Pelas rosas do caminho e os espinhos que elas têm.
Pelas noites desta vida, pela estrela que brilhou,
Pela prece respondida e a esperança que falhou..

Pela cruz e o sofrimento e, afinal, ressurreição;
Pelo amor que é sem medida, pela paz no coração;
Pela lágrima vertida, e o consolo que é sem par,
Pelo dom da eterna vida,sempre graça hei de dar.


COMO DEVEMOS CHEGAR A DEUS EM ORAÇÃO

1. Reverentemente. A maneira como nós apreendemos uma pessoa determina a nossa forma de se relacionar com ela. Já vimos em outras lições que Deus é Pai, o que nos encoraja a irmos a Ele como filhos. A Bíblia ensina que Deus é também Senhor, o que exige de nós a postura de servos. Ele é ainda o Criador, o que exige de nós a postura de criaturas. Em suma, tudo o que Deus é em relação a nós, exige em contrapartida uma postura de reverência diante Dele. Por isso as nossas palavras na oração devem ser delimitadas por uma atitude de respeito, obediência e gratidão. Afinal de contas, encontramo-nos diante Daquele a quem é devida toda honra, glória, louvor e exaltação , o Santo, Eterno, Todo-poderoso, justo e bom.

Outrossim, somente o reconhecimento grandeza de Deus revela as limitações e fraquezas humanas, um antídoto contra a soberba. Como bem observou o pastor Eliezer Silva, “A reverência voluntária a Deus e o seu santo temor em nós sufocam o orgulho , que é tão comum no homem e muitas vezes se encontra disfarçado extremamente nele, mas latente em seu interior”. 1

2. Honestamente. Ser honesto é proceder com decência, dignidade e compostura. O pastor Eliezer Silva foi feliz ao dizer que “quando o crente, convicto pelo Espírito Santo, e segundo a Palavra de Deus, arrependido confessa seus pecados, erros, faltas e fraquezas, os impedimentos são removidos para Deus agir em seu favor”.2 Para Deus, um coração honesto é aquele que reconhece as suas fraquezas e erros, e não busca meios nebulosos de escondê-los. Aliás, a honestidade é a virtude que marcou os profetas e salmistas. Como observa Yancey, “nos salmos aprendi que tenho o direito de levar a Deus qualquer tipo de sentimentos que tenha em relação a Ele. Não preciso disfarçar meus fracassos nem tentar limpar minha podridão; é bem melhor levar essas fraquezas a Deus, pois só Ele tem o poder de curá-las”.3 A Bíblia afirma que o crente torna-se alvo das misericórdia divinas, quando desnuda a sua alma perante Aquele que se compraz em perdoar o coração arrependido (Pv 28.13). Li em algum lugar que Deus ouve mais pessoas honestas do que pessoas “santas”. Temos um exemplo disso na parábola sobre o fariseu e o publicano (Lc 18.9-14), em que a sinceridade do publicano em pedir misericórdia pela sua condição de pecador contrastava com a hipocrisia do fariseu ao dizer que era justo. E Jesus conta que Deus atentou para a oração do publicando e desprezou a do fariseu.

O servo do Senhor, sempre que recorrer a Deus em oração, precisa estar no mesmo espírito do salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eteno” (Sl 139).

3. Confiantemente. A confiança em Deus é a admissão de nossas limitações e o reconhecimento de Seu poder ilimitado, bem como de seu caráter santo, justo e bom. Só se pode confiar em alguém a partir do conhecimento sólido de seu caráter e potencial, conhecimento que só se consegue dentro de um relacionamento estreito e permanente. Ao entrarmos na presença do Pai celeste, precisamos estar cônscios de que Ele nos ama (Sl 145.9), nunca nos perde de vista, preocupa-se com cada detalhe de nossas vidas e é galardoador dos que O buscam (Hb 11.6). O Senhor já nos deu uma prova gritante de que é confiável quando entregou o Seu Filho por nós: “Aquele que nem mesmo o seu próprio filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas” (Rm 8.23). “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.6).


CONCLUSÃO

A plenitude da vida cristã reside numa vida de constante oração. Somente por meio do hábito de orar é possível ao homem desenvolver um relacionamento íntimo com Deus e se agigantar diante dos problemas da vida. Vivemos numa época em que a igreja discursa muito e ora pouco. Mas nosso pedido ao Pai das luzes é que esta lição, repleta de princípios e exemplos maravilhosos de homens que entregaram a vida no altar da oração - pois a entendiam como uma necessidade premente - já tenha começado a nos pôr de joelho.

A importância da oração II

Os ensinos e exemplo de Jesus ressaltam o valor da oração

"E Jesus contou-lhes uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer (...)." Lc 18.1

O ministério de Jesus foi marcado por um exemplo singular de oração. Do início ao fim de sua vida, Ele ressalta a importância da prática de conversar com Deus, primeiramente através de sua própria vida de constante oração (Mt 14.22-25), segundo, por meio de abundante ensino aos seus seguidores sobre por que eles deveriam orar (Mt 26.41), como eles deveriam orar (Lc 6.9-13) e o que deveriam evitar na oração (Lc 6.5-13).

Em Lucas 11.5-8, o Mestre cita uma curiosa parábola, conhecida como a do amigo importuno, onde o tema central é a oração. Uma pessoa vai à casa do amigo, à meia-noite, pedir três pães emprestados; e conclui dizendo: “se o amigo não se levantar para atender, levando em conta a amizade, o fará por causa da importunação, atendendo prontamente”. O mesmo Lucas, no capítulo 18 de seu evangelho, afirma que “[Jesus] contou-lhes uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer” para introduzir a história de uma viúva pobre que, sentido-se injustiçada, pede justiça a um juiz iníquo que, a princípio não lhe deu importância, mas, devido a persistência da viúva, a socorreu, a fim de se livrar da importunação dela.

No tocante à sua própria experiência de oração, vemos que o Mestre, antes da difícil tarefa de escolher seus apóstolos, subiu ao monte e passou toda a noite em oração. Quando o dia raiou, Ele se levantou, e, além de escolher os doze apóstolos” (Lc 6.12,13), curou muitos enfermos (vv. 17-19) e pregou seus sermões mais conhecidos (vv. 20-49).

Antes de ir ao Calvário, Jesus orou insistentemente em favor de seus discípulos (Jo 17.1,9,20). Horas depois, na iminência de encarar a crucificação, o Filho de Deus subiu ao monte das Oliveiras, como costumava fazer, e lá no Guetsêmani, orou fervorosamente, submetendo-se à vontade do Pai (Lc 22.39-42).

Numa situação difícil, diante do sepulcro de Lázaro, morto há quatro dias, Jesus orou ao Pai, agradecendo-Lhe por sempre o haver ouvido (Jo 11.41,42). Jesus não tomava decisões importantes de improviso, nem apelava para os critérios humanos, de sorte que, do início ao fim de seu ministério, temos Nele um exemplo marcante de oração.

Lembro-me de ter ouvido o pastor da maior igreja da Coreia do Sul, David Yonggi Cho, afirmar que, se tivesse que dizer uma última palavra aos seus ouvintes, ele lhes diria: “Orem”. Não foi essa mesma mensagem que o homem de Nazaré nos transmitiu com o seu exemplo de vida?

PENSE NISTO: Se a oração não fosse tão importante, Jesus não a teria enfatizado tanto.

A importância da oração III

A oração e a ação do Espírito Santo na vida do crente

Toda vez que orava, o Espírito vinha ajudar-me a orar, tomando minha linguagem coreana e substituindo-a por uma linguagem celestial que eu jamais aprendera. Sabia que o meu espírito se tornara um com o Espírito Santo, e eu podia orar durante uma hora inteira ou mais com a maior facilidade.    David Yonggi Cho.

O Espírito Santo é o intercessor que nos socorre na oração. A comunicação entre o Deus infinito e a criatura finita seria impossível se não fosse a intervenção da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É Ele quem nos guia neste processo, inspirando e comunicando vida às nossas orações, de forma a expressarmos ao Pai celeste os profundos sentimentos de nossos corações, inexprimíveis pelos recursos humanos. Se o Consolador não nos ajudasse a falar com Deus, nossas preces seriam como as dos fariseus, totalmente desprovidas de vida. Por isso é importante que, ao entrar na presença de Deus em oração, o crente esteja consciente de que não está sozinho, pois a Bíblia ensina que temos um intercessor, o qual orienta-nos a falar com o Pai celeste e intervém em nosso favor com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26).

Precisamos considerar que as nossas orações são motivadas por uma montanha russa de emoções. Também po ação de graças e louvores, mas principalmente por embate (Gn 32.24-31), conflitos internos (Sl 73.16,17) e confronto com forças espirituais (Dn 10.12,13). Às vezes traduz uma tentativa desesperada de apaziguar o conflito entre a carne e o espírito, ou a procura de proteção e armadura contra as hostes espirituais da maldade (Ef 6.12ss), até mesmo a busca de força para conformar a própria vontade à vontade de Deus (Lc 22.41,42).

O escritor Philip Yancey apreende esse estado de espírito flutuante em seu comentário sobre as orações no livro dos Salmos:

O livro de Salmos dá exemplos de pessoas comuns, lutando freneticamente para harmonizar a crença que nutrem a respeito de Deus com o que estão experimentando no dia a dia. […] Este livro contém os diários angustiantes de pessoas que queriam crer num Deus bom, amoroso e fiel, enquanto o mundo continuava desabando à sua volta.
Em momentos assim, o Espírito Santo nos assiste em nossas orações: “Da mesma maneira também os Espírito ajuda as nossas fraquezas, porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Normalmente períodos de grandes aflições redundam em experiências profundas para o crente, quando ele sente bem de perto a ação intercessória do Consolador.

Nos momentos derradeiros do ministério de Cristo, Ele confortou os seus discípulos, garantido que eles não estariam sozinhos depois de sua partida, mas haveria de enviar o Espírito Santo, o qual – disse Jesus – “habita convosco e estará em vós” (1Jo 14.17). Depois da ressurreição, o Senhor Jesus cumpriu a promessa integralmente quando assoprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).

Finalizando, o crente salvo em Jesus é templo do Espírito Santo (1Co 6.19). Isso significa uma intimidade que excede em profundidade qualquer outra relação humana, porque o que está em nós conhece todas as nossas necessidades, anseios, pensamentos, falhas, sentimentos, desejos, frustrações e intenções, e é Sua ação que promove as características de Cristo em nós (Gl 5.22-25), renovando o nosso entendimento e nos conformando à boa, perfeita e agradável vontade (ver Rm 122).