quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

VISÃO PANORÂMICA DO PENTECOSTALISMO

Josafá R. Lima

Natureza do pentecostalismo.

O pentecostalismo é o movimento de ordem religiosa que mais cresce em todas as partes do mundo. Só no Brasil, somam cerca de 25 milhões de pentecostais, o que faz deste país o mais pentecostal do mundo. (Oliveira, 2013). O que caracteriza o pentecostalismo é a crença de que o falar línguas estranhas (glossolalia), fenômeno ocorrido com os discípulos de Jesus no dia de Pentecostes (At 2), sempre esteve a disposição dos crentes de todos os tempos, inclusive os de hoje. Não só o batismo com o Espírito Santo, mas também os dons do Espírito, catalogados por Paulo no capítulo 12 de sua primeira carta aos coríntios, estariam ainda hoje em evidência na vida da igreja de Cristo.
Diferentemente dos protestantes históricos, que defendem a ideia cessacionalista (a concessão do batismo e dons do Espírito Santo aos crentes se restringiu aos dias dos apóstolos), acreditam que Deus continua a agir, por meio de seu Espírito, da mesma forma que agia na igreja primitiva, batizando crentes com o Espírito Santo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo dons e bênçãos espirituais, realizando milagres, dialogando com seus servos, interferindo na história e concedendo evidências gritantes de seu supremo poder no mundo e negócios dos humanos.
      As manifestações desses sinais fazem com que os cultos da maioria dessas igrejas sejam muito barulhentos e movimentados, com saltos, danças, giros, sapateados, carreiras, choros, risos, levantar de mãos, bater de palmas e emissões de sons ininteligíveis. Os pregadores normalmente mostram uma eloquência que parece de ordem sobrenatural na pregação, ministração de curas, exorcismo e declaração de bênçãos. Em casos mais extremos, acontecem arrebatamentos de sentidos e êxtases. Isso faz com que os pentecostais sejam conhecidos como povo barulhento e criticados por alguns seguimentos do cristianismo histórico, alguns chegando mesmo a comparar as manifestações pentecostais com fenômenos ocorridos em trabalhos religiosos afrodescendentes.

Origem do Pentecostalismo.

      O Pentecostalismo como um movimento religioso mundial estende raízes ao evento histórico do Dia de Pentecoste (Atos 2), porém com conotações bem diferentes daquele evento original. Este movimento barulhento que hoje vemos tem relação com o avivamento que varreu a América do Norte no século 19 e teve sua maior expressão no histórico Avivamento da Rua Azusa, tendo como elemento determinante em suas características atuais a presença dos negros e das mulheres (Oliveira, 2004).
     Finda a evangelização do mundo da primeira igreja, com a oficialização do Cristianismo como religião do império romano, houve o arrefecimento das manifestações como alegadas por pentecostais. A igreja começou a se envolver em controvérsias teológicas e escanteou a doutrina do Espírito Santo. Com exceção de fagulhas isoladas de manifestações pentecostais que aconteciam algures, a igreja passou toda a Idade Média desprovida desta experiência. Somente no final do século 18 e início do século 19, um grande movimento fez surgir o movimento pentecostal como nós o conhecemos hoje, o qual por algum tempo se restringiu aos limites das fronteiras norte americanas até que ganhou proporções mundiais a partir do histórico Avivamento da Rua Azusa.

A importância do Movimento da Rua Azusa.

      As manifestações espirituais ocorridas na Rua Azusa entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que se tornou um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).
      Em resposta às orações dos que ali se congregavam, conta-se que os crentes começaram a ser batizados com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o movimento, outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com o Divino, outros eram apenas curiosos. (Araújo, 2007, p. 605).
      Convém atentar para o fato de que o movimento da Rua Azusa tinha a cara daqueles que o começaram. Era um pequeno grupo de afrodescendentes que, sob o suposto poder de Deus, provocava barulhos eletrizantes e estridentes. Ressalte-se o fato de que começou com um pequeno grupo de crentes afro americanos, expulsos da Primeira Igreja Batista de Los Angeles, liderados primeiramente por uma mulher, depois por um humilde pregador, filho de ex-escravos, sem cultura, com limitados dotes de oratória e cego de um olho. Podemos mesmo afirmar que a igreja pentecostal tem uma “origem negra”.

Uma observação cuidadosa permite notar que tanto o pentecostalismo americano quanto o brasileiro abraçaram o povo mais carente – e, como consequência, o povo negro. É importante perceber que, nas várias denominações do pentecostalismo clássico no Brasil, a participação de negros desde sua origem é uma característica marcante. Muitos negros tiveram atividades importantíssimas na formação de várias igrejas, ou mesmo de denominações pentecostais em seus diversos segmentos. (Oliveira, 2004, p. 30).
Citando W. Hollenweger, Florêncio Galindo diz que o pentecostalismo clássico é produto do encontro entre uma espiritualidade especificamente católica e a espiritualidade protestante dos antigos escravos negros do sul dos Estados Unidos. (Oliveira, 2004, p. 26).

A alegria, a irreverência e a extroversão dos negros deram de alguma maneira o tom estridente e barulhento do Movimento Pentecostal. Era o tempo da discriminação racial no sul dos Estados Unidos, e o professor de Seymour era simpatizante deste sistema, permitindo que seu aluno negro assistisse suas reuniões somente no corredor ao lado da sala onde as aulas aconteciam. Como se pode ver, o movimento tem forte influência do negro desde sua origem.
Se imaginarmos que se tratava mesmo de uma ação divina, o interesse da Divindade pode ter sido usar pessoas de costume festivo, que sob a influência deste poder, provocasse barulhento eletrizante, a fim de atrair a atenção de todos para o que estava acontecendo ali. A graciosidade e espírito festivo dos negros eram indispensáveis.
      Ao chegar ao Brasil em 1910, não foi diferente, a mensagem pentecostal encontraria terreno fértil numa nação formada em grande parte por pessoas afrodescendentes, índios, negros e mulatos, de maioria pobre. Alderi de Matos aponta dentre as razões da expansão pentecostal na América Latina, as vicissitudes históricas da obra evangelística e pastoral católica, o limitado trabalho das denominações protestantes, o misticismo das culturas ibero-americanas, os graves problemas econômicos, políticos e sociais. Ou seja, o pentecostalismo vai proliferar a partir da ineficiência de igrejas históricas, dos graves problemas econômicos e sociais, do misticismo característico de nosso povo e de seu caráter festivo. Inicialmente o crescimento se dá lentamente, até que estoura a partir da década de 50.
      Outrossim, como observado por Oliveira (2004), o pentecostalismo que, diferentemente das igrejas protestantes históricas, surgiu do avivamento iniciado por um negro e filho de escravos, ao chegar ao Brasil vai se aproximar dos mais pobres e negros.
Oliveira (2004) esclarece que no Brasil os negros fizeram opção pelo Pentecostalismo, haja vista que a maioria dos negros evangélicos participa do Movimento Pentecostal.  Entre outras razões para a adesão dos negros ao Pentecostalismo, Oliveira cita a religiosidade do negro e o espírito festivo deste.

A primeira dela, embora não hereditária, mas que salta aos olhos, é a religiosidade do negro. Após sofrer todas as atrocidades possíveis no tempo da escravidão, a raça negra no Brasil conseguiu manter uma relação com o sagrado diferente das outras raças imigrantes no país.
[...] a comunidade negra manteve-se coesa na religião. Essa religiosidade tende a ser mais participativa por não se sustentar apenas em conceitos de uma teologia abstrata e metafísica – uma religiosidade na qual a fé torna-se real também pelo fato de o negro ter, em sua negritude e origem, uma relação com a natureza que o faz perceber a ação de Deus em todas as instâncias da vida e do cotidiano. (p. 50).
A outra característica da comunidade negra que favoreceu sua identificação com o Movimento Pentecostal é a espontaneidade e alegria, traduzidas no carisma. Esse é um traço fundamental da negritude. O negro é espontâneo e alegre. O carisma do negro se revela no jeito de ser povo, no modo de viver, sobreviver, dançar e sorrir. (ps. 51,52).

Por falar em caráter festivo e uso do corpo como forma de expressão, é pertinente citar que foram os negros que legaram ao mundo estilos musicais como o rep, o breake e o samba. Ademais, a história dos negros que vieram para o Brasil está intrinsecamente ligada à religiosidade que enfatiza a dança, os ritmos, o batuque e a sensualidade (Oliveira, 2004). Não há, pois, como separar sua cultura de seus rituais religiosos, uma vez que o corpo é muito utilizado nas religiões afro, e não há como estes negros migrarem para outras religiões, como o cristianismo, e não afetá-las com sua cultura e gingado. Por isso que dizemos que muito dos movimentos que ocorrem nos cultos pentecostais, mormente nos êxtases, tem a ver com a influência da cultura negra, talvez por isso haja similitude entre alguns trejeitos dos cultos pentecostais e dos movimentos cultuais afrodescendentes.
Nossa teoria é a de que a influência vem de fontes diferentes, mas a reação ao pode é de ordem cultural.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sacrifício aos ídolos

Josafá R. Lima

Em resposta aos irmãos que quiseram saber se podiam participar de festas de pessoas de outras religiões e se deveriam comer as comidas de natureza e origem duvidosas.

“As coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios” (1 Co 10.20).

     Entre os vários problemas que dividiam a igreja de Corinto estava a questão das coisas sacrificadas aos ídolos. Havia muitas controvérsias entre os irmãos daquela igreja, formada por judeus e gentios, sobre se era ou não correto participar das refeições nas festas pagãs, ou então comer a carne que, antes de ser posta à venda no açougue, passava pelas cerimônias religiosas dos pagãos como oferta aos seus deuses. A fim de dirimir as dúvidas concernentes a este assunto, a liderança daquela igreja comunica a situação ao apóstolo Paulo através de uma carta e lhe pede instrução. O apóstolo dos gentios vai esclarecer as dúvidas dos irmãos nos capítulos oito e dez de sua primeira epístola àquela igreja, o que é o assunto de nossa avaliação e apreciação neste texto. Objetivamos explicar o ensino bíblico sobre os ídolos, descrever os costumes pagãos da época e admoestar os santos a se guardarem da idolatria e das festividades pagãs.


1. CONCEITUAÇÃO DE “ÍDOLO”

     O termo grego para “ídolo” é eidõlon e significa primariamente fantasma ou semelhança, ideia ou imaginação. O emprego de eidõlon no Novo Testamento denota uma imagem que representa um falso deus (At 17.41; 1 Co 12.2) ou o falso deus adorado numa imagem (At 15.20; Rm 2.22). Os vocábulos hebraicos correspondentes são ’elîl (vaidade, futilidade, coisa de nada - Lv 19.4; Jr 14.22; 18.15), teraphin (ídolo, ídolo do lar, máscara cultual, demônio, símbolo divino – Gn 31.19; 1 Sm 19.13; Jz 17.15), gillûlîm (ídolos, originalmente tem o significado de “pelota de esterco” – Lv 26.30). Sendo assim, o que para os pagãos era uma divindade, para Paulo significava uma coisa vã (At 14.15), nada no mundo (1 Co 8.4; 10.19) e objeto de sarcasmo para Isaías (Is 44.9-20), Habacuque (Hc 2.18,19) e o salmista (Sl 115.4-8).

     No uso comum, a palavra ídolo significa (1) estátua, figura ou imagem que representa uma divindade e que é objeto de adoração; (2) Objeto de grande amor ou de extraordinário respeito; (3) pessoa a quem se dedica grande adoração ou admiração. Teologicamente, qualquer objeto, pessoa, instituição ou ambição que tome o lugar devido a Deus no coração humano é um ídolo.

     No Antigo Testamento, os ídolos ou deuses das nações pagãs eram abundantes e representavam uma ameaça constante à pureza e santidade do povo de Deus. Numa época predominantemente mitológica, quando tudo o que acontecia tinha uma justificativa na vontade dos deuses, cada nação pagã tinha o seu panteão, deuses pra tudo quanto era gosto, os quais eram representados por imagens. Entre os mais conhecidos, estavam Astarote - deusa dos fenícios (Jz 2.13), Baal – deus das tribos cananeias (1 Rs 16.32), Baal Peor, Moloque e Camos – deuses dos moabitas (Js 22.17), Dagom – deus dos filisteus (Jz 16.23). Além desses deuses patronos das nações, havia outros objetos de adoração, como o bezerro de ouro feito por Arão (Ex 32.4), o bezerro de ouro de Jeroboão (1 Rs 12.28), os corpos celestes (Dt 4.19) e os terafins (Gn 31.19). A adoração a essas divindades envolvia um sangrento sistema de sacrifícios realizados nos altares e templos idólatras (1 Sm 5.2; 1 Rs 16.32), nos lugares altos e nos postes-ídolos (Nm 22.41; Dt 12.2).

     No Novo Testamento, os ídolos não representavam mais um laço para os judeus, cristãos ou não, pois estes foram totalmente libertos da propensão à idolatria no histórico Cativeiro babilônico (ver Is 2.18; 31.7). A preocupação eram os gentios recém-convertidos á fé cristã. Nos dias de Paulo, o ambiente não era menos idólatra que os dias do Antigo Testamento. Os gregos tinham um vasto panteão, com deuses que representavam as mais diversas paixões humanas. Os romanos por sua vez, ao conquistarem o mundo de então, adotaram muitas das divindades gregas, às quais prestavam cultos e sacrifícios naqueles dias. Benjamim Scott (1923) relata que, com as suas armas, Roma levava seus deuses a outras nações e promovia-lhes cultos e, por conveniência política, adotava deuses de nações conquistadas e os agregava ao seu panteão. Prestava-se culto aos deuses que habitavam o monte Olimpo - Júpiter, Marte, Mercúrio, Netuno, Baco, Vulcano, Juno, Vênus e outros que eram os advogados da guerra, do roubo, do deboche e da embriaguez. Adorava-se a reis divinizados juntamente com deuses estrangeiros, bem como a semideuses que presidiam a países, cidades, rios, estações e colheitas. Todo este sistema idólatra era irrigado pelo sangue de incontáveis sacrifícios, de sorte que era difícil desassociar a carne que se comprava no açougue dos sacrifícios dedicados aos deuses.

     É de suma importância atentar para o fato de que os gentios crentes vinham de uma história longa de envolvimento com muitas dessas divindades, como também uma forte identificação com os cultos prestados a elas. Por isso, na assembléia de Jerusalém, ficou decidido que os crentes deveriam abster-se da carne sacrificada aos ídolos.


II. O PANO DE FUNDO DA QUESTÃO EM CORÍNTIO

     O antigo sistema de sacrifício era o centro da vida doméstica, social e religiosa do império greco-romano do primeiro século. Os sacrifícios cruentos, oferecidos indiscriminadamente a uma multidão de ídolos, eram normalmente acompanhados de uma cerimônia religiosa, quando o alimento que sobrava dos sacrifícios eram consumidos em casa ou no templo. Boa parte, porém, era enviada ao mercado para ser vendida, conforme podemos constatar em 1 Co 10.25. De acordo com o Novo Dicionário da Bíblia (1962, p 733), era comum, naquela época, pessoas convidarem amigos e parentes para refeições, tanto no templo como em casa particular. Não era algo que acontecia esporádica e isoladamente, ou mesmo que fosse privativo da vida religiosa, era uma cultura geral, até porque a religiosidade era o ponto central das sociedades antigas. Tais aspectos da vida social representavam três grandes desafios para os novos crentes, sendo o primeiro o fato de, como cidadãos, terem amigos e parentes que também os convidavam em algumas ocasiões para as festas e refeições, tanto em suas casas como em locais públicos. E a frequência aos festivais públicos, inaugurados com adorações e sacrifícios pagãos, significava muito na situação socioeconômica do indivíduo. Todavia, aceitar tais convites significava “sentar à mesa, em templo de ídolos” (Co 8.10).

     O segundo desafio para os crentes meditativos de Corinto era que, não só o participar das festas pagãs, mas até mesmo as compras diárias no mercado constituía-se em um problema, uma vez que muito da carne posta à venda poderia ter passado pelas mãos dos sacerdotes dos templos para as mãos dos açougueiros. E o pior: normalmente era a melhor carne posta à venda, visto que vinha de animais sem defeito, uma exigência do sistema de sacrifício. E isso propiciou o levantamento da questão, entre os cristãos, sobre se a dona de casa crente tinha a liberdade de comprar tal carne.

     O terceiro desafio era a questão dos pobres, para quem os banquetes gratuitos, oferecidos nos recintos dos templos, eram a tábua de salvação. Sendo a igreja de Corinto   constituída por pessoas das mais diversas classes sociais (1 Co 1.26), ricos e pobre, gentios e judeus, imagine as controvérsias que essa situação deve ter causado.

     Dois grupos, duas opiniões. A questão da carne oferecida aos ídolos dividia a igreja de Corinto em dois grupos: o primeiro era o grupo “forte”, cujos crentes apresentavam a liberdade cristã (6.12; 10.23; cf 8.9) e um suposto conhecimento superior sobre os ídolos (8.12) para defenderem a idéia de que não havia nenhum mal na aceitação de um convite para participar de uma refeição religiosa, muito menos no fato de o alimento, anteriormente dedicado no templo, ser comprado e consumido. Alegavam ainda que a refeição tomada no recinto do templo não passava de uma ocasião social e, para eles, não tinha nenhuma significação religiosa. Outrossim, parece que era expressão corrente entre eles – o que reforçava sua posição - que “o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo, e que não há senão um só Deus”, conforme podemos ver no cap 8.4 (esta citação de Paulo parece ter sido tirada da própria carta que os coríntios lhe enviaram).

     O segundo era o grupo “fraco” (8.9; ver Rm 15.1), que se opunha terminantemente ao primeiro. Aborreciam qualquer suspeita de idolatria e acreditavam que por trás dos ídolos estavam os demônios, os quais exerciam influência maligna sobre os alimentos, e assim os contaminavam, tornando-os impróprios para o consumo (8.7; ver At 10.14). Parece mesmo que alguns chegavam, em seu escrúpulo, até a ponto de dizer que não era próprio comer nenhuma carne, para se evitar qualquer risco de comê-la contaminada (cf Rm 14.2,3).

     Paulo responde às questões. Paulo, em sua resposta, lembra-lhes que existe somente um Deus verdadeiro, e que, portanto, o ídolo nada é no mundo. Porém ressalta que existem os chamados deuses e senhores que exercem influência demoníaca no mundo, mormente sobre o sistema de sacrifício pagão. Para nós, todavia, que reconhecemos o único Deus, nosso único Senhor, o poder desses demônios foi eliminado pela cruz de Cristo; sendo assim, não haveria razão para os coríntios continuarem escravizados pelos mesmos (cf Cl 2.15, 16; Gl 4.3,8,9). O apóstolo afirma ainda que o manjar, em si mesmo, não representa mal algum, seja lá de que procedência for: “se comemos, nada temos de mais, e, se não comemos, nada nos falta” (8.8), o que ratifica as palavras de Jesus, segundo quem “o que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem” (Mt 15.11). É sabido, porém, que boa parte dos crentes de Corinto desconheciam a liberdade que há em Cristo, e tinham consciências fracas, que não deviam ser ultrajadas por ações imprudentes dos outros crentes que viviam a liberdade do evangelho. Então Paulo não vai responder às perguntas dos crentes de Corinto usando como critério a legalidade ou não do ato, mas baseado na lei do amor e abnegação. Conforme comentário da Bíblia de estudo pentecostal, “abnegação significa limitar nossa própria liberdade e deixar de lado todas as atividades questionáveis, a fim de não ofender ou enfraquecer as convicções sinceras de outros cristãos que se consideram firmados em princípios bíblicos” (p 1747, nota: 18.1). Este princípio deveria nortear os cristãos de todos os tempos, ser aplicado em qualquer atividade que seja questionável e possa levar outros crentes a pecarem e arruinarem sua vida. E isso implica dizer que, apesar de sermos livres, temos o dever de usar a nossa liberdade com responsabilidade. “Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos” (8.9).

     Nos capítulos nove e dez da carta em apreço, Paulo apresenta dois exemplos eloqüentes, um positivo e outro negativo, para em seguida retomar o assunto da carne sacrificada aos ídolos (10.14). Primeiro ele se apresenta como exemplo de abnegação, pois abriu mão de seus direitos pessoais de apóstolo para não pôr impedimento ao progresso do evangelho (9. 12), como também abriu mão da própria liberdade em consideração às convicções dos outros (ver Rm 14.15-21), para ganhá-los para Cristo: “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais...” (v 19ss). No segundo caso, ele cita o povo de Israel como exemplo negativo, o qual, por entrar pelo caminho da idolatria, pereceu no deserto (10.1ss). Após citar esses dois exemplos, Paulo arremata dizendo que tudo isso foi deixado para aviso nosso (10.11).

     A partir do versículo 14 (cap 10), o apóstolo dos gentios volta à questão da carne sacrificada aos ídolos, advertindo de forma séria os crentes sobre o perigo da idolatria. Ele faz uma comparação entre a comunhão dos santos com Cristo, mediante a Santa Ceia, e a comunhão dos pagãos com os demônios, mediante os rituais de sacrifício aos ídolos, considerando que, assim como a nossa participação na Mesa do Senhor implica em nossa comunhão no corpo e no sangue de Cristo, a participação deliberada dos pagãos nas festas idólatras implicava em sua comunhão com os demônios, os quais, segundo o mesmo apóstolo, estavam por trás de todo o sistema de sacrifício pagão (v 20). Paulo fecha esta advertência, observando que não se pode beber o cálice do Senhor e dos demônios, ou então, não se pode participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (v 21). Como dissera o Mestre: “Não se pode servir a Deus e a Mamom” (Mt 6.24).

     Com base nas proposições acima, Paulo proíbe terminantemente os crentes de Corinto de freqüentarem os banquetes idólatras: “não quero que sejais participantes com os demônios” (v 20).
No tocante ao alimento anteriormente oferecido no templo e depois posto à venda, Paulo se vale de outro postulado para responder aos coríntios. Ele recorre ao salmo 24 para dizer que a terra é do Senhor e toda a sua plenitude. Por isso todo o alimento dedicado no templo e, posteriormente, posto à venda no mercado, podia ser livremente comido em virtude de ser criação de Deus (ver 1 Tm 4.4,5). O conselho de Paulo parece diferir ligeiramente das regras cerimoniais rabínicas, como também do conselho apostólico em At 15.28,29, e se traduz numa aplicação prática da instrução dada por Jesus em Mc 7.19, 20: “Não compreendeis que tudo que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não entra no seu coração, mas no ventre, e é lançado fora, ficando pura todas as comidas?”

     Todavia, a liberdade para comer de tudo, segundo a instrução de Paulo, deve ser delineada pela lei do amor. Isso significa que a própria liberdade do crente para consumir qualquer alimento deve ser posta de lado se a consciência de um irmão mais fraco, por esse motivo, correr o risco de ficar danificada e assim ser levado a tropeçar (10.32. Parece ter sido esse o motivo da proibição no concílio de Jerusalém, conforme At 15.28,29). Essa advertência se insere apenas na situação de um crente ser convidado para participar de uma refeição idólatra em uma casa particular. Neste caso, o crente pode comer de tudo o que se puser sobre a mesa sem, todavia, perguntar qual a procedência do alimento (10.27). Entretanto, se algum indivíduo pagão comunicar ao crente que o alimento sobre a mesa foi oferecido em sacrifício, deve ser imediatamente rejeitado, não porque esteja contaminado e vá causar algum mal ao consumidor, mas porque, caso coma, o crente confundirá a consciência dos outros, porá tropeço em seu caminho e causará escândalo (10.28,32). Veja o comentário da Bíblia de estudo pentecostal sobre o dever do amor.

     Aqueles que baseiam seu direito de participar das coisas duvidosas conforme o seu conhecimento ou entendimento amadurecido demonstram que, na realidade, nada sabem como convém saber. Nosso conhecimento nessa vida é sempre completo e imperfeito. Por isso nossas ações devem sempre basear-se primeiramente no amor a Deus e ao próximo. Se o amor for o nosso elemento determinante, recusaremos participar de qualquer atividade que possa fazer um único crente tropeçar e caminhar para a sua ruína eterna. Aqueles que vivem segundo a lei do amor são os conhecidos por Ele [Deus] (1 Co 8.3). “O Senhor conhece os que são seus” (2 Tm 2.19 [página 1747; nota de 8.2]).


III. O CRISTÃO E AS FESTIVIDADES RELIGIOSAS PAGÃS

     As festas pagãs. As festas na antiguidade tinham uma conotação puramente religiosa. Na verdade, eram cultos constituídos dos mais depravados elementos, entre eles os sacrifícios e a prostituição “sagrada”. Nos templos dos antigos cananeus, praticava-se a “adoração do sexo degradante” e o sacrifício de crianças. Os seus templos eram lugar de encontro para a depravação. Veja uma descrição dos elementos do culto cananeu, feita pelo arqueólogo W. F. Albright.

Em país algum se encontrou um número tão elevado de estatuetas de divindades da fertilidade nuas, sendo algumas particularmente obscenas. Em nenhum lugar, o culto de serpentes aparece tão fortemente. As duas deusas, Astarote e Anate, são chamadas de as grandes deusas que concebem, mas não dão à luz! Prostitutas sagradas e sacerdotes eunucos eram extremamente comuns. O sacrifício humano era notório [...] os aspectos eróticos de seu culto devem ter penetrado nas mais sórdidas profundezas da depravação social.[1]

     As práticas festivas dos cananeus não eram diferentes dos outros povos. O Egito, a Fenícia, os gregos e romanos também praticavam a “prostituição sagrada”, onde o homossexualismo era muito comum. Lembremos o templo de Afrodite em Corinto, onde mil sacerdotisas prostitutas ofereciam religiosamente seus corpos à luxúria e aos demônios.

     É por isso que, antes de Israel entrar em Canaã, O Senhor Deus lhe fez sérias advertências para que não se associassem àqueles povos (Ex 20.3-5; 22.20; 23.24,32). Mas o fascínio dos cultos idólatras penetrava profundamente no coração dos hebreus e estes se prostituíram nas festas depravadas daqueles povos (Jz 2.7-13; Ex 32.8). Devemos, portanto, tomar cuidado, pois qualquer aproximação pode representar uma ameaça. Vale a advertência do apóstolo: “Pelo que saí do meio deles...” (2 Co 617).

     A idolatria do coração. O coração humano tem uma propensão natural para a idolatria. Estudos antropológicos confirmam essa assertiva. Por isso que o Senhor Deus foi taxativo na advertência ao seu povo: “Eu sou o Senhor, teu Deus (...), não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20.2,3). É uma advertência que vale para os crentes de todos os tempos, e permeia toda a Bíblia Sagrada. No concílio de Jerusalém, Tiago advertiu que os crentes se guardassem das coisas sacrificadas aos ídolos (At 15.29) e Paulo vai perguntar aos crentes de Corinto: “Que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?” (2 Co 6.16). Considerando-se que o homem ainda é o mesmo - veste-se de forma diferente, fala uma língua diferente, tem costumes e hábitos diferentes, mas em seu coração ele ainda é o mesmo. É por isso que a Bíblia fala aos homens de todos os tempos. Os antigos divinizavam suas paixões e as transformavam em ídolos. Baco era o Deus do vinho, Vênus e Afrodite eram deusas do amor, Marte era o Deus da guerra. Hoje, a imagem de Baco foi superada, mas os homens continuam dominados pelo vício; a imagem de Vênus e Afrodite foram superadas, mas os homens continuam dominados por paixões infames; a imagem de Marte já não existe, mas os homens, em sua ambição desenfreada, continuam promovendo a guerra. Sim, os deuses da antiguidade continuam por aqui, de forma disfarçada, até porque eles não têm significado em si mesmos, mas são a materialização das paixões e desvarios humanos.

    Mamom era o deus do dinheiro (ver Mt 6.24). A imagem de Mamom foi superada, mas a busca pelo lucro nunca foi tão forte como dos dias hodiernos. O dinheiro é, sem dúvida, o grande ídolo de nossa sociedade capitalista. Lembro-me de um presidente norte-americano que ganhou a eleição com o seguinte slogan: “É a economia, estúpido”. A frase do presidente, muito pertinente para o objetivo de se ganhar uma eleição, é muito apropriada para os nossos dias. Não são as pessoas, os valores, a dignidade: é o lucro; tudo gira em torno disso.  Não estamos falando mal do dinheiro, mas do amor a ele que, segundo Paulo, é a raiz de todos os males (1 Tm 6.10).

     Baal Peor era o deus dos pecados sexuais (Ver Nm 25.1,2; Ap 2.14.17). A imagem de Baal Peor foi superada, mas os homens continuam dominados pela busca de todos os tipos de prazeres, principalmente os de ordem sexuais. Hoje existem verdadeiras indústrias do prazer, como também literaturas que ensinam e estimulam as mais diversas formas, redundando e aberrações diversas. É a chamada sociedade hedonista, ou seja, do vale tudo pelo prazer. Convém lembrar que os prazeres que a vida proporciona são uma dádiva de Deus, desde que usados de forma natural e controlada.

     Nesta mesma sequência, nós temos a busca desenfreada pelo poder e pelo sucesso, objetivos que, quando não são conseguidos por meios ilícitos, buscam-se através da intensa jornada de trabalho. Todas essas coisas, a nossa sociedade tem transformado e deuses.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

     Já sabemos que o ídolo em si mesmo nada é no mundo (Is 44.9-17; 1 Co 8.4). São insensíveis, perecíveis, degradantes, impotentes e indignos de adoração. Todavia, o que a Bíblia deixa claro é que por trás de todo o sistema idolátrico estavam Satanás e seus demônios (Lv 17.7; 2 Cr 11.15), de sorte que todas as ofertas sacrificadas aos ídolos eram, na verdade, oferendas aos demônios. O Senhor Deus tem aversão à idolatria, por isso proibiu terminantemente qualquer envolvimento dos filhos de Israel com as festas das nações pagãs (Lv 261; Dt 7.25; Is 42.8). Eles não podiam, sequer, fazer uma imagem de quaisquer coisas dos céus ou da terra, ainda que com outros motivos (Ex 20.4). Porém, apesar de todas as advertências divinas, a história de Israel pré-cativeiro foi quase sempre uma história de idolatria (ver Dt 32.17; Co 10.7,8; Is 2.18).
     Deus não divide sua glória com nada nem ninguém. Ele exige exclusividade de seus adoradores. Por isso, lembremos da recomendação do apóstolo João: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”. É uma advertência que vale para a igreja de todas as épocas, porque, apesar de as imagens dos antigos ídolos terem sido superadas, e os seus cultos banidos, as paixões que inspiram a idolatria continuam alojadas  nos corações humanos. Tenhamos cuidado, porque, como dizia Jung, os males do homem primitivo continuam à espreita de todos nós, vivos e medonhos  (...), somente a Palavra de Deus os mantém refreados; se a Bíblia for negligenciada, os velhos horrores nos sobrevirão novamente.*

*Apud Grahan, Billy. O desafio. São Paulo: Record, 1969, p 123.


Bibliografia

Bíblia de Estudo pentecostal/ CPAD.
------------------ aplicação pessoal/ CPAD.
Bíblia de referência Thompson/ Vida.
GILBERTO, Antônio. Lições bíblicas – I Coríntios: os problemas da igreja e suas soluções.  CPAD, 2º trim de 2009.
ANDRADE. Claudionor Correia de. Lições Bíblica: Não terás outros deuses diante de mim. CPAD, 4º trimestre de 2000.
Comentário Bíblico Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
Dicionário VINE. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
HENRY, Matthew. Comentário bíblico Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
O Novo Dicionário da Bíblia. Editora Vida Nova, 1995.
KENNEDY. D. James. E se Jesus não tivesse nascido? São Paulo: Vida, 2003.
SCOTT, Benjamim. As Catacumbas de Roma. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Respondendo às respostas da vida

"Orgulho, preconceito, intolerância, pavio curto...  essas coisas que nos impedem de descobrir o que há de melhor em nós,o que há melhor no outro, o que há de melhor na vida."   J. R. Lima.  

“De que maneira você responde às respostas que a vida te dá?” Comecei perguntando assim para aquela plateia curiosa. Percebi que quase ninguém entendeu. Reforcei que uma das grandes questões da vida é como reagimos, ou respondemos, às respostas que a vida concede às nossas buscas e expectativas. Notei que ainda havia gente boiando. “Há pessoas que respondem positivamente a uma resposta negativa. Outras respondem negativamente a uma resposta positiva. E ainda outros são negativos em todos os sentidos. (Não que as pessoas sejam determinantemente assim, elas podem mudar, tanto é que me propus pregar esta mensagem).

Ao perceber que não conseguiria ser entendido por meio de frases e conceitos, expliquei com dois casos extraídos da Bíblia. O primeiro é o caso de Naamã (2 Rs 5). Era um general do rei da Síria que, apesar de todas as suas condecorações, era leproso. Um dia disseram a ele que se fosse até a presença do profeta Eliseu, em Samaria, este o curaria de sua lepra. Prontamente Naamã se paramentou com tudo o que precisava para a viagem, inclusive com presentes caros para o profeta, e partiu. Estava disposto a qualquer sacrifício pela cura.

Estava ainda a uma distância considerável da casa de Eliseu, quando, sabendo  que Naamã estava vindo, o profeta mandou dizer-lhe que nem precisava chegar à sua casa, apenas fosse ao rio Jordão e mergulhasse sete vezes. “Nossa, não pensei que fosse tão fácil assim”, Naamã poderia ter pensado. Mas, pelo contrário, se encheu de furor, pois pensou que o profeta estava de brincadeira com ele e resmungou que lá na Síria tinha rios mais limpos que o Jordão. E começou a voltar para casa.

Pense comigo: a gente até entende a perplexidade de Naamã, não sou tão simplório a ponto de não entender, mas que o profeta facilitou muito a vida dele, disso a gente não pode discordar. Então, a sua perplexidade o levou a responder de maneira altamente negativa a uma resposta que parece ter sido positiva da parte do profeta.

        Neste mesmo caso aparece o servo de Naamã. Já de volta, decepcionado pelo caminho, o general leproso ouve o servo pedindo a oportunidade de falar-lhe. Concedida a oportunidade, disse-lhe: “Meu senhor, se o profeta tivesse pedido alguma coisa extremamente difícil, o senhor não faria para se ver livre desse mal?” Ao ouvir um sim de Naamã, o servo continuou: “Então, ele apenas ordenou que o senhor mergulhasse no Jordão sete vezes, custa tentar?” Ainda bem que Naamã ouviu o conselho. Voltou curado para casa.

Note que o servo de Naamã respondeu de forma altamente positiva à mesma resposta que o general respondeu de forma negativa. A retribuição foi a cura de seu senhor, além de algumas benesses que recebeu posteriormente, é claro.  

A esta altura, as pessoas já estavam entendendo. Continuei então. O segundo caso, narrado também na Bíblia, é o de Ana (1 Sm 1). O grande sonho de sua vida era ser mãe, mas era estéril. Em um dia de culto, desceu à igreja e começou, em grande amargura, a tão somente balbuciar uma oração, de maneira incompreensível. O sacerdote Eli aproximou-se e, interpretando-a mal, ordenou estupidamente que ela parasse de entrar no culto bêbada. “Estúpido, desviado”, xingariam alguns crentes. Bem que Eli merecia. Mas Ana respondeu: “Não, meu senhor, a tua serva não está bêbada, ela apenas está falando da angústia de sua alma perante o Senhor”.

Note a reação altamente positiva de Ana a uma atitude tão negativa, mortífera, do sacerdote. Ela viu agora a oportunidade não só de falar a Deus, mas também ao sacerdote, em um momento propício a causar forte comoção neste. Ainda bem que Eli corrigiu a tempo. Ele disse: “Vá em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição”. Poucos dias depois, Ana apareceu grávida. A resposta altamente positiva de Ana a uma resposta altamente negativa do sacerdote eliciou neste último outra resposta altamente positiva.

Acho que a gente poderia construir com isso uma fórmula matemática para vida. Porque se a gente quiser, de falto, alcançar alguns objetivos que traçamos para vida, precisamos agora nos despir do orgulho, intolerância e pavio curto e ir com muita humildade e persistência ao objeto de nosso desejo.

O povo estava começando a gostar do assunto. Então repetimos: Uma das grandes questões da vida é como respondemos às respostas que a vida nos dá.


Os exemplos e personagens que apresentamos acima são apenas amadores, aspirantes, que abrem o show para o grande referencial no assunto tratado. Falo da mulher cananeia (Mt 15).  Aquela que tinha uma filha terrivelmente endemoniada e foi buscar Jesus.  Vou contar sobre ela em breve. 

sábado, 20 de dezembro de 2014

Visão panorâmica do protestantismo brasileiro

Josafá R. Lima

A chegada do protestantismo ao Brasil está primeiramente relacionada aos grandes fluxos migratórios de pessoas vindas da Europa, estimuladas por uma série de questões, mas principalmente políticas e religiosas, que caracterizaram o início do século 15. Com as grandes navegações que caracterizaram o século 15 e as brigas e perseguições religiosas que também tumultuaram a Europa de então, muitas pessoas deixaram sua pátria debaixo de perseguição e carregando seus sonhos de viver em paz numa nova terra, onde pudessem trabalhar, reconstruir suas vidas e professar livremente a sua fé. 

Dentro deste contexto, o Brasil é um país que tem muito para contar, pois, após ser descoberto, por causa de suas riquezas naturais e de suas grandes possibilidades econômicas, habitantes de muitos países Europeus se dirigiram para esta terra, estimulados, em muitos casos pelo próprio governo de sua nação, com fins de explorarem as riquezas brasileiras. Cada um trazia sua fé protestante de seus países de origem. E assim, o Protestantismo foi se espalhando na terra brasileira.

Inicialmente, os protestantes tiveram muita oposição do catolicismo, que era a igreja soberana no Brasil, haja vista que, conta-se, o acesso ao serviço público era negado aos protestantes , bem como o reconhecimento legal ao casamento, por serem atribuições da Igreja Católica, além de que só os mortos católicos tinham direito de ser legalmente sepultados.

As questões políticas continuaram por longos anos a influenciar a disseminação do protestantismo no Brasil, tanto é que em 1824, por causa das restrições feitas pela Inglaterra ao tráfico negreiro brasileiro, houve uma necessidade de se encontrar mão de obra não-escrava que substituísse os negros nas fazendas, foi então que um grande leva de luteranos migrou para o Brasil.

Vale salientar que, na medida em que mais protestantes iam chegando, ainda que por outras razões que não o espírito missionário, certa aceitação ia sendo imposta. Com o passar dos anos, outros protestantes foram chegando, agora já com um objetivo evangelístico-missionário, como o caso do pastor presbiteriano James Cooly Fletcher, enviado pela Sociedade Bíblica Americana em 1851. Posteriormente, acontece também a chegada do casal Robert e Sara Kelly ao Rio de Janeiro, que organizou uma igreja que de à luz o trabalho de ensino que muitos evangélicos consideram a fundação da Escola Bíblica Dominical no Brasil.

Registre-se ainda que em 15 de outubro de 1882 foi iniciado a primeira igreja batista brasileira, em Salvador. Esta igreja foi iniciada a partir de um evangelismo de missão, diferente do protestantismo que chegou por aqui embalado por questões políticas, a partir de movimentos migratórios (evangelismo de migração), que resvalaria paulatinamente  para motivações missionárias.

E enquanto o protestantismo se disseminava lentamente no Brasil, um movimento que os crentes pentecostais de hoje chamam de O Grande Avivamento varria a América do Norte, o Movimento Pentecostal. O Pentecostalismo é considerado uma grande visitação de Deus por aqueles que acreditam que o fenômeno do falar em línguas, como resultado do batismo com o Espírito Santo, conforme aconteceu em no capítulo 2 do livro de Atos, é para os crentes de todos os tempos, ou seja, acreditam na atualidade do batismo com o Espírito Santo.

O Movimento Pentecostal começou a espalhar suas influências por lugares distantes, haja vista que dois missionários suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, que experimentaram o avivamento em terra norte-americana, vieram ao Brasil em 1910 e começaram, no estado do Pará, o que se considera hoje o início do Pentecostalismo no Brasil.

O Pentecostalismo pareceu se adaptar bem a realidade brasileira, começou a atingir pessoas e regiões que dificilmente as igrejas tradicionais conseguiriam, houve muitas discórdias entre os tradicionais e pentecostais. Algumas igrejas tradicionais importantes começaram a perceber que o Pentecostalismo era uma tendência e precisavam, portanto, fazer algumas mudanças nas suas liturgias para, de alguma maneira, “fazerem frente a este movimento”, isso foi muito importante para a rápida disseminação do evangelho no Brasil.


Alguns aspectos positivos e negativos

          O protestantismo brasileiro, abrangendo tanto os protestantes tradicionais como os pentecostais e neo pentecostais, é hoje uma força que, de há muito já saiu das fronteiras religiosas e descambou para um movimento político-social que tem influenciado todas as áreas da nação brasileira. Vejo isso como algo, até certo ponto, positivo, pois uma nação precisa de uma consciência moral oriunda da fé professada pela maioria de seus cidadãos. O ponto negativo é que o nosso protestantismo, desde que foi importado da Europa e, posteriormente, dos Estados Unidos, como Movimento Pentecostal, não conseguiu ainda se despir da roupagem que recebeu daquelas nações e continua sendo um protestantismo à moda americana. Uma grande necessidade da igreja brasileira é responder, em matéria de fé, às questões de nosso povo, de acordo como a nossa realidade. 

         Em relação ao Movimento Pentecostal, é o grande responsável por este boom dos evangélicos no Brasil. Hoje somos um número consideravelmente grande, e não seria assim se dependêssemos sempre da maneira tradicional de vivenciar a fé das igrejas tradicionais. Outrossim, o Pentecostalismo deu o ponto de partida para um evangelho mais adaptado à nossa realidade, porém, com o passar do tempo, acabou resvalando para outro extremo: com seu grande poder de adaptação e absorção das culturas regionais, deu à luz movimentações estranhas aos padrões bíblicos, com a cara dos cultos afrodescendentes, além de se de adaptar-se demais ao capitalismo selvagem de nossos tempos, criando uma mercantilização da fé. Hoje, é a grande crítica que se faz a este movimento.


Para finalizar , vale uma palavra sobre a importância dos batistas. Sua origem aqui no Brasil, desde a igreja fundada na Colônia de Santa Bárbara, a partir dum evangelismo de imigração, passando mais tarde pela igreja em Salvador, e toda a sua história de dedicação ao evangelismo em solo brasileiro, sua ênfase no ensino teológico, tudo isso tem um poso enorme no estabelecimento e crescimento do Protestantismo no Brasil. Além de que, é bom não esquecer, que a história do Pentecostalismo no Brasil passa obrigatoriamente pela igreja batista.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O prenúncio do tempo do fim

Josafá R. Lima

Leitura bíblica: Daniel 8.1,3-11

“E disse: Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque ela se exercerá no determinado tempo do fim” (Dn 19).
  
No capítulo 8 de seu livro, o profeta Daniel registra uma de suas visões sobrenaturais acerca do destino dos reinos do mundo e do fim dos tempos. O profeta vê um carneiro de dois chifres, forte e implacável contra seus adversários.  Mas depois surge um bode com um chifre enorme entre os olhos, ataca furiosamente o carneiro e o destrói.

Após a vitória contra o carneiro, e tendo crescido muitíssimo, o chifre do bode é quebrado e quatro outros chifres surgem no seu lugar. De um dos quatro novos chifres, surge um pequeno chifre, que logo cresce para fazer coisas espantosas e abomináveis.  

Ambos os animais representam dois grandes impérios mundiais: respectivamente o império medo-persa e o império grego, que surgiriam no cenário mundial após a ruína do império babilônico.  A visão repete parcialmente a revelação que fora feita ao profeta no capítulo sete, quando ele viu quatro animais, os quais representavam quatro impérios mundiais, entre os quais, os impérios persa e grego. Porém agora, nesta visão, a riqueza de detalhes sobre os dois impérios referidos é impressionante, além de que lança luz sobre eventos proféticos do fim dos tempos, entre eles, o personagem histórico Antíoco IV Epifânio, cuja ação ultrajante contra o povo de Deus o habilita como um tipo do Anticristo (ver Dan 11; Mt 24.15; 2Ts 2.3-12). 


I. O CARNEIRO, UMA FIGURA DO IMPÉRIO MEDO-PERSA

E levantei os meus olhos e vi, e eis que um carneiro estava diante do rio, o qual tinha duas pontas, e as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra; e a mais alta subiu por último (Dn 8.3).

Os detalhes desta profecia são de impressionantes quando comparados com os relatos do surgimento e queda das nações referidas. Vamos recorrer ao relato do historiador Antonio Pedro, no livro História Antiga e Medieval, onde relata a decadência do império babilônico que possibilitou a ascensão do império medo-persa representado pela visão do carneiro.

Depois da morte de Nabucodonosor, o império babilônico começou a entrar em decadência. Os sacerdotes passaram a exercer grande poder, diminuindo a autoridade do rei. Ao mesmo tempo, as fronteiras começaram a ser ameaçadas pelos persas e medos, que se uniram. A Babilônia acabou sendo conquistado pelo famoso rei persa Ciro, o grande, em 539 a. C. (Pedro, 1985, p. 50).  

Começava o domínio do império representado pelo carneiro da visão profética.

Os dois chifres do carneiro representam os dois povos unidos neste império, os medos e os persas. Note que o profeta afirma que as duas pontas eram altas, mas uma era mais alta do que a outra, sendo que a ponta mais alta subiu por último. Isso daria a entender, como proposto pelo pastor Cabral (2014), que Ciro, o grande, teria substituído a Dario no governo do império. Este último, rei medo, teria recebido o governo por ocasião da morte de Belsazar, com a idade de 62 anos. (5. 30,31) (Douglas, 1995).
           
Na verdade, não há evidência histórica de que um suposto Dario tenha antecedido Ciro como rei de Babilônia. Por isso, existem muitas controvérsias acerca do tal rei Dario interposto entre os reinados de Belsazar e a ascensão Ciro. O Dario da história é um rei persa, Dario I, ou o grande, sucessor de Cambises, que governou entre 521 e 486. C. (Douglas, 1995).
            
O Dario contemporâneo de Daniel, que não deve ser confundido com o rei Dario citado em Daniel 9.1, talvez tenha governado sob as ordens de Ciro, o fundador do império persa. Alguns teólogos, no entanto, o identificam com o próprio Ciro; outros acreditam ter sido ele um governador descendente dos medos, conhecido como Gubaru (Gardner, 1995).
           
Todavia, à parte as controvérsias, a narrativa de Daniel tem toda a aparência de escrito histórico genuíno e, na ausência de muitos registros históricos sobre este período, não há razão pela qual a história não deva ser aceita. (Douglas, 1995).
  
II. O BODE DA VISÃO PROFÉTICA, UMA FIGURA DO IMPÉRIO GREGO

[...] eis que um bode vinha do Ocidente sobre toda a terra, mas sem tocar no chão; e aquele bode tinha uma ponta notável entre os olhos; [...] dirigiu-se ao carneiro de duas pontas e correu contra ele com grande ímpeto da sua força. [...] e feriu o carneiro e lhe quebrou as duas pontas.

Uma leitura comparativa da narrativa da queda do império persa, representado pelo carneiro de duas pontas, e ascensão do império Greco-macedônico, ilustrado pelo bode impetuoso, prende a atenção novamente na precisão impressionante da profecia. Vejamos a narrativa de Antonio Pedro.  

A tomada do estreito de Bósforo e Dardanelos no Mar Negro pelas forças persas prejudicou o intenso comércio grego na região. Grande parte do trigo consumido na Grécia era produzida por suas colônias nas margens do mar Negro, agora nas mãos dos Persas. Os gregos estavam, portanto, com seus interesses prejudicados pelo domínio dos persas na região.

Havia uma espécie de tensão entre várias cidades gregas e o império persa. Esta tensão se transformou em longa guerra depois que os persas reprimiram violentamente a rebelião da cidade grega de Mileto, na Ásia Menor.

Em 490, o exército de Dario tentou invadir a Grécia, mas foi derrotado pelos gregos na famosa batalha de Maratona. Depois da morte de Dario, o império persa passou a ser governado por seu filho Xerxes, que continuou a campanha contra a Grécia. Novamente os persas foram derrotados na batalha naval de Salamina, em 478-479 a. C.
Com uma derrota após outra, os persas foram obrigados a se retirar e a reconhecer a supremacia grega no mar Egeu e na Ásia Menor (Lídia).

Aproveitando-se das derrotas persas frente aos gregos, várias satrapias se revoltaram contra o longo domínio do império. Internamente a luta pelo poder era cada vez mais violenta. Os persas, no entanto, logo retomaram sua influência sobre a Ásia Menor durante a guerra entre Esparta e Atenas, a chamada guerra do Peloponeso. Mas algum tempo depois, Dario III, um dos últimos sucessores do império, foi assassinado e, em 330 a. C., todo o império caiu nas mãos de Alexandre Magno e passou a fazer parte do império grego-macedônico (Pedro, 1985, p. 72).

O bode da visão profética tinha, de fato, triunfado sobre o carneiro.  

1.  A grande ponta do bode, uma figura de Alexandre Magno.

E o bode se engrandeceu em grande maneira; mas, estando na sua maior força, aquela grande ponta foi quebrada (Dn 8.8).

Alexandre Magno, filho de Felipe, rei macedônico, conquistou, com grande velocidade (sem toca no chão) o mundo conhecido em seus dias. Vejamos uma apreciável narração histórica sobre suas proezas.

Alexandre já havia exercido o governo interinamente durante a ausência de seu pai Filipe. Também, demonstrado suas qualidades militares durante a batalha de Queronésia, quando os gregos foram derrotados pelo exercito macedônio.
Logo que assumiu o poder, teve de enfrentar forte oposição de outros pretendentes, principalmente de seus irmãos. Com o auxílio dos generais Antípatro e Parmenion, Alexandre elimino seus adversários e imediatamente foi reconhecido como chefe da liga de Corinto.

Um dos primeiros problemas que Alexandre teve que enfrentar foi dos tebanos. O jovem rei atacou rapidamente os rebeldes, destruindo totalmente a cidade de Tebas e transformando seus habitantes em escravos.

A Pérsia, depois das derrotas frente aos gregos, recomeçou sua política expansionista, recuperando quase toda a costa menor e varais ilhas do mar Egeu. No período em que Alexandre iniciou seu governo, o rei da Pérsia era Dario III.

Na primavera do ano 334 a. C., um exercito composto de gregos e, principalmente de macedônios, iniciou uma guerra contra a Pérsia, invadindo o helesponto (estreito do mar negro). A vitória do exercito de Alexandre foi rápida. Os gregos da Ásia Menor recebiam Alexandre como o grande libertador do domínio persa. Em pouco tempo, toda a Ásia Menor encontrava-se sobre o seu domínio.

Em seguida Alexandre marchou sobre a Fenícia, enquanto o exercito de Dario III batia em retirada. Somente a cidade de Tiro resistiu, durante sete meses, as forças de Alexandre, depois dos quais também caiu em poder do jovem conquistador.

O Egito era, sem dúvida, um dos mais ricos domínios do império persa, o que levou Alexandre a invadi-lo. No ano 332 a. C., fundou no delta do rio Nilo, a cidade de Alexandria, que se transformou no mais importante centro comercial de todo Mediterrâneo.

Alexandre tinha grande habilidade para tratar os povos que ia dominando. O Egito, por exemplo, era administrado pelos próprios egípcios, mas o comando militar ficava nas mãos de militares macedônios.

A derrota definitiva dos persas deu-se em Gaugamela, na Mesopotâmia, no ano 331 a. C. Apesar da superioridade numérica do exercito persa, os soldados macedônios os venceram novamente. A partir daí o império dos Aquemênida deixou de existir.
Para consolidar o seu domínio sobre o império persa, Alexandre, em rápida e violenta marcha, tomou as mais importantes capitais do império Aquemênida: Susa, Persépolis e Parsagadas. Persépolis foi totalmente destruída como vingança da destruição da cidade de Antenas, praticado mais de 1000 anos antes.

O território conquistado por Alexandre em dez anos de expansão atingia proporções enormes: ia desde o Helesponto até o rio Indus; desde o Cáucaso até a Núbia, no Egito. (Pedro, 1985, ps. 135-138).

2. Mas aquela grande ponta foi quebrada estando na sua grande força.

Em junho de 324 a. C., depois de passar dez dias sofrendo as consequências de uma febre, Alexandre Magno morreu, aos 33 anos de idade, sem deixar organizado um claro sistema de sucessão. Seus generais passaram então a disputar o poder do vasto império deixado pelo conquistador. (Pedro, 1985, p. 138).
       
A profecia de Daniel estava se cumprindo literalmente apenas 200 anos depois (A visão aconteceu em 551 a. C.). (Nigh, 1995).

 3. E no lugar da grande ponta, surgiram quatro também notáveis pontas (8.8)
Depois de lutas ferrenhas entre os súditos de Alexandre pelo poder, seu império foi dividido em quatro grandes regiões: a Mesopotâmia, o Egito, a Ásia Menor e a Grécia, governadas por reis diferentes, ex-generais do exército de Alexandre, que deram origem a 4 dinastias: Ptolomeu tinha o Egito, Palestina e parte de Síria; Cassandro dominava Macedônia com soberania nominal sobre Grécia; Lisímaco tinha Trácia e uma grande parte do Ásia Menor; e Seleuco possuía a maior parte do que tinha sido o Império Persa: parte do Ásia Menor, o norte de Síria, Mesopotâmia. Começava civilização helenística.

III. ANTÍOCO EPIFÂNIO, O PROTÓTIPO DO ANTICRISTO

1. De uma das quatro pontas surgiu um chifre pequeno

“E de uma das pontas, surgiu uma ponta mui pequena, a qual cresceu muito para o meio-dia, e para o oriente, e para a terra formosa. E se engrandeceu até o exército do céu; e a alguns dos exércitos das estrelas deitou por terra e os pisou e se engrandeceu até ao príncipe do exército; e por ele foi tirado o contínuo sacrifício, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra” (8.9-11).

Coube à região formada pela Mesopotâmia e a Síria a administração da dinastia Selêucida, entre cujos representantes, sobressai-se a figura de Antíoco IV Epifânio, que governou o reino selêucida de175 a164, cujo caráter maligno e procedimento histórico de opressão contra os judeus encontram correspondência perfeita na profecia de Daniel:

Em 168 a. C., Epifânio tentou invadir o Egito. Esta iniciativa terminou em fiasco. Ele quis compensar-se conquistando o reino de Jerusalém. Milhares de Judeus foram decapitados. Epifânio profanou o templo. Realizou oferta de um porco sobre o altar. Depois derramou o sangue por todo o templo de Deus. Acabou com os postos de sacerdócio e vendeu centenas de judeus à escravidão. (Nigh, 1995). 

2. A visão é para o tempo do fim. Daniel fez um grande esforço para entender o significado da visão e somente pôde entendê-la por meio da explicação do anjo Gabriel. Gabriel disse que a visão era para o tempo do fim. De acordo com o calendário profético, “o tempo do fim” diz respeito ao período entre o final do exílio e a segunda vinda.

De acordo com a elucidação feita por Gabriel, O cumprimento histórico em Antíoco Epifânio é uma figura do que virá. Dos quatro reinos surgidos dos espólios de Alexandre, surgirá um rei feroz de semblante e entendido em enigma (Dn 8.23).

“No final do reinado deles, quando a rebelião dos ímpios tiver chegado ao máximo, surgirá um rei de duro semblante, mestre em astúcia. Ele se tornará muito forte, mas não pelo seu próprio poder. Provocará devastações terríveis e será bem sucedido em tudo quanto fizer. Destruirá os homens poderosos e o povo santo. Com o intuito de prosperar, ele enganará a muitos e se considerará superior aos outros. Destruirá muitos dos que nele confiam e se insurgirá contra o Príncipe dos príncipes. Apesar disso, ele será destruído,mas não pelo poder dos homens” (Dn 8 23-25).

Apesar de a profecia acerca do chifre pequeno que cresceu ter tido cumprimento histórico em Antíoco IV Epifânio, está claro que o mesmo não corresponde a todos os predicados descritos na profecia supramencionada. Portanto, o cumprimento cabal da visão se dará com a aparição do Anticristo, no final dos tempos. Veja  Dn 7.7,8; 1Jo 2.22; 2Ts 2.3,8; Mt 24.15; Ap 19.20 e note que os detalhes da profecia corresponde precisamente a este personagem escatológico.

CONCLUSÃO

O livro de Daniel foi encerrado em 535 a. C. A profecia do capítulo 8 teve seu cumprimento histórico mais de 300 anos depois. Esta profecia, entre tantas outras distribuídas no mesmo livro e por toda a Bíblia Sagrada, somente confirma a verdade exarada pelo mesmo profeta em apreço: O altíssimo tem o domínio sobre os reinos dos homens e o dá a quem quer (Dn 4.17). Ele é o soberano Senhor da História.

BIBLIOGRAFIA

PEDRO, Antonio. História antiga e medieval. São Paulo: Editora Moderna, 1985.
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 1999.
JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990.
DOUGLAS, J.D. (org.). O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
NIGH, Kepler. Manual de estudos proféticos. São Paulo: Editora Vida, 1995.
A Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus.
Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
Bíblia de Estudo DAKE. CPAD / Atos, 2009.
Bíblia de Estudo Arqueológico. Editora Vida.
CABRAL, Elienai. Integridade Moral e Espiritual, o legado espiritual de Daniel para a igreja atual. Lições bíblicas, 4º trimestre de 2014. Riso de Janeiro: CPAD, 2014.