domingo, 7 de abril de 2013

Um pouco de filosofia versus teologia

A negação da doutrina do pecado no existencialismo de Sartre

Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês cujo pensamento influenciou fortemente a cultura ocidental do século XX, um dos principais ícones do Existencialismo, acreditava que tudo o que existe vem à existência contingencialmente, ou seja, sem razão ou propósito predefinido, prolonga-se por causa da fraqueza e morre por acaso.

"A existência precede a essência" é a frase que tornou-se uma espécie de emblema do Existencialismo sartriano. Para compreender melhor o que significa, precisamos compreender bem o significado de essência. Essência é o que faz com que uma coisa seja o que é - e não outra coisa. Exemplificando, temos que a essência de de uma mesa é o ser próprio da mesa, sua natureza íntima que faz com que ela seja mesa e não cadeira. Há algo intrínseco nela que, indiferente de ser de madeira, fórmica ou vidro, pequena ou grande, a identifica como mesa. A partir deste entendimento, no texto O existencialismo é um humanismo, Sartre usa como exemplo um objeto qualquer, fabricado a partir da concepção da mente humana, algo como um livro, alicate, um corta papel, etc. Neles, diferente do que acontece com o homem, a essência precede a existência, porque primeiramente foram concebidos com um propósito previamente definido e somente depois da sua concepção, estes objetos vieram a existir. É dessa forma que a cultura judaico-cristã entende a existência humana, ou seja, um Deus Criador concebeu um modelo de criatura e, como sua mente o concebeu, o executou, como o artífice que corta o papel para dar forma a uma figura.. Sendo assim, segundo a cosmovisão judaico-cristã, o homem teria uma natureza humana encontrada igualmente em todos os homens, ou seja, apesar de todas as pessoas serem diferentes umas das outas, todas possuem um núcleo em comum: uma natureza humana. Dentro dessa concepção, seria a essência que precederia a existência.

A ideia de uma essência determinante do que somos permeou toda a filosofia moderna ocidental desde descartes. Mas o existencialismo sartriano vem na contramão desta visão afirmando que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define como alguma coisa pelas escolhas que fizer. Ou seja, o homem primeiramente não é nada, ou é apenas uma massa de modelar, informe, e só será alguma coisa depois, da maneira como a si próprio se fizer, seguindo seu próprio projeto. Destarte, segundo a filosofia da existência, não há uma natureza humana comum a todas as pessoas, visto que não há Deus para concebê-la. 

Em relação aos valores universais, cuja origem a cosmovisão judaico-cristã atribui a um Deus pessoal , justo  e santo, Sartre defendia que os valores não são nem nunca foram dados ao homem previamente, mas cabe a  ele criá-los. Para isso se utiliza da frase de Dostoiévski, Se Deus não existe, tudo é permitido (em Os irmãos Karamazov) para afirmar uma autonomia absoluta do homem para criar seus próprios valores, em oposição à ideia de valores universais preestabelecidos, e para negar a existência de qualquer realidade sobrenatural. Portanto, a negação da existência de um Deus pessoal  exclui a crença em valores sagrados e universais preestabelecidos, o que por sua vez elimina qualquer ideia de pecado e de culpa. 

Outra questão interessante discutida no existencialismo é o fenômeno da morte. Para Sartre, a morte deixa a vida órfã de qualquer sentido. São dele estas palavras: "A morte é a nadificação dos nossos projetos, a certeza de que um nada total nos espera". Com base nesse pressuposto, Sartre conclui que a existência é um absurdo e que tudo não passa de uma paixão inútil: "Se nós temos de morrer, a nossa vida não tem sentido, porque os problemas não têm qualquer solução", concepção retratada no seu famoso romance sartriano  A náusea. 

Portanto, a ideia de que a existência precede a essência, de que os princípios morais que regem o comportamento humano são criação do próprio homem e de que a morte tira qualquer sentido da vida  se soma  a uma tentativa histórica de desacreditar as principais doutrinas da Bíblia. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

A morte de Eliseu


E sucedeu que, enterrando eles um homem, eis que viram um bando e lançaram o homem na sepultura de Eliseu; e, caindo nela o homem e tocando os ossos de Eliseu, reviveu e se levantou sobre seus pés (2 Rs 13.21).  

 INTRODUÇÃO

Na lição de hoje, acompanharemos os últimos momentos da vida desse gigante da fé que foi o profeta Eliseu. Aprenderemos com sua velhice, enfermidade e morte algumas lições sobre a brevidade da vida terrena e as vicissitudes por que todos os mortais estão destinados a passar: nascer, crescer e morrer, independente da posição espiritual que ocupa. Veremos também qual propósito de Deus em realizar o último milagre por meio do profeta Eliseu quando este já estava morto e qual o inestimável legado deixado pelo profeta de Abel-meolá.

I. A DOENÇA TERMINAL DE ELISEU

A vida é o dever que trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas. Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal! Quando se vê, já terminou o ano! Quando se vê, já se passaram cinquenta anos (...). Mário Quintana.

1.  A velhice de Eliseu, sua doença e sofrimento.

Cerca de cinquenta anos haviam se passado desde que o jovem Eliseu fora escolhido para suceder Elias. Meio século de ministério frutífero havia impactado nada menos que quatro nações: Israel, Judá, Moabe e Síria,  ministério diferenciado por manifestações extraordinárias do poder Deus. “Mas o tempo”, frase que costumamos ouvir das pessoas no dia-a-dia, “passa rápido” e Eliseu já tinha cerca de oitenta anos. A velhice havia chegado para o profeta, e com a velhice os problemas e saúde, o sofrimento e a iminência da morte.

Com a velhice a doença e o sofrimento. A Bíblia afirma que Eliseu encontrava-se doente de sua doença de que morreu, passando por sofrimento tamanho que comoveu o coração de Joás, rei de Israel. “E Joás, rei de Israel, desceu a ele, e chorou sobre o seu rosto, e disse: “Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros!” O grande profeta de Israel experimentou plenamente as agonias próprias do envelhecimento e morte, fato comum a todos os mortais.

1.1 A experiência de Eliseu nos mostra que, por mais nobres e grandes que os homens sejam, eles não se livram de sua condição de mortais. Homem de reputação irrepreensível, Eliseu gozava de comunhão singular com Deus evidenciada nos milagres que realizou, sempre em favor de pessoas extremamente necessitadas. De fato, Eliseu foi um homem singular na história de Israel. Pessoas assim são amadas, reverenciadas e idealizadas como se fossem sobre-humanas, e soa inconsequente que elas passem pelo mesmo processo natural da vida por que passam o comum dos homens. Mas a velhice e a doença chegam para todos, e com a doença a morte. Lembro-me de um colega que precisava apresentar um trabalho acadêmico diante de grandes vultos do saber de uma renomada universidade de São Paulo. Na hora da apresentação, o seu temor e nervosismo se faziam perceber nos tremores de suas mãos. Um amigo dele se aproximou e cochichou no seu ouvido: “Não esqueça que seus avaliadores são da mesma espécie que você. Eles e nós temos muita coisa em comum, acredite”.  Pois é isso mesmo. Por maior que seja o homem, por incríveis que sejam as suas realizações, ainda são meros mortais, fadados à lei inexorável do processo natural da vida: nascemos, crescemos e morremos. A grande diferença está no como vivemos e não no como morremos. Como bem lembra o pastor José Gonçalves, “às vezes idealizamos de tal forma os homens de Deus que acabamos nos esquecendo de que eles também são humanos. Envelhecem, adoecem e também morrem. Eliseu fora um grande homem de Deus e ainda era nos dias de sua enfermidade, mas ainda assim era um homem”.

1.2 A experiência de Eliseu nos alerta sobre a brevidade da vida e a eternidade de Deus.

“Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo assim floresce. Passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não será mais conhecido.” (Salmo 103.15-16).

“Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e a medida dos meus dias qual é, para que eu sinta o quanto sou frágil” (Sl 34.9).

“Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento” (Eclesiastes 12.1).


Os homens de todas as épocas e lugares se debateram com a angústia de pensar sobre a rapidez com que a vida passa. Por outro lado, a coletânea de pensamentos que nos legaram sobre a própria finitude é uma advertência contra a tentação de nos esquecermos desta realidade: A vida passa muito rapidamente. Tiago a comparou a um simples vapor (Tg 4.14), o profeta Isaías à erva do campo (Is 40:6), o rei Davi a comparou a um sopro (Sl 144.4), e  Moisés a compara a um conto ligeiro (Sl 90:9,10). Mas, em contraste com a brevidade da vida humana, há uma eternidade que se desenrola por trás das cortinas da existência terrena. A Bíblia afirma que Deus colocou a eternidade no coração do homem (Ec 3.11). Cada dia vivido aqui nos põe mais perto do fim desta dimensão e nos projeta para mais perto da eternidade (ver 2Co 5.1; 1Jo 2.7). A maneira como vivemos esta vida, como gastamos nossos dias e talentos, como nos relacionamos com Deus determinará o estado de nosso futuro eterno. Eliseu foi um grande exemplo de alguém que em sua curta existência viveu para servir a Deus a ao próximo. 

II. A PROFECIA FINAL DE ELISEU

1. A ação de Deus na profecia. É muito comum vermos nos cultos pentecostais de hoje uma onda de otimismo que leva ministros a profetizarem toda sorte de bênçãos e vitórias sobre os fiéis da igreja, principalmente sobre aqueles que mais contribuem financeiramente com os projetos da igreja. Muitos usam como referencial o relato bíblico em que Elias profetizou que não choveria em Israel “segundo a minha palavra”, disse o profeta. Já ouvi muitos pregadores, num arroubo de emoções, dizerem no púlpito que, se Elias profetizou segundo a sua própria palavra, e Deus cumpriu o que disse o profeta, ele também tinha autoridade para determinar a bênção sobre o seu ouvinte, crente de que Deus assinaria embaixo. Todavia, do que podemos aprender da Bíblia sagrada, nenhum ministro tem autoridade para determinar o que quer que seja na vida de alguém se não houver recebido determinação do próprio Deus. O caso de Elias não foge a esta regra.  Como informa o pastor José Gonçalves, nenhuma profecia que se ajuste ao modelo bíblico tem seu ponto de partida no querer humano, mas na vontade soberana de Deus (2 Pe 1.20,21).

No caso do profeta Eliseu, ao profetizar a vitória do rei Joás sobre os sírios, ele apenas expressa a vontade do coração de Deus, não a sua própria vontade. Isso está bem evidenciado na expressão “flecha do livramento do Senhor” (2Rs 13.17). A expressão “Assim diz o Senhor”, amiúde usada pelos profetas veterotestamentários, inclusive pelo profeta Eliseu (2Rs 2.21; 3.16), reflete o desígnio divino na profecia e mostra que a origem da profecia está na vontade soberana de Deus e não no homem.

2. A participação humana na profecia (2Rs 13.17-19). Eliseu revelou o desígnio de Deus de que Joás venceria os sírios, mas a profecia dependia da obediência de Joás em atender a ordem do profeta, Primeiramente a ordem para atirar com sua flecha pela janela a esmo, sem ainda mesmo saber do que se tratava. Segundo, a intensidade com que feriria seus inimigos dependeria do número de vezes que o rei, atendendo uma segunda ordem de Eliseu, feriria a terra com seu arco.  Isso nos mostra que, a despeito de a profecia ter sua origem na vontade soberana de Deus, a participação humana de obediência a Palavra profética, empenho e dedicação a causa de Deus, discernimento e perseverança é de fundamental importância. O relato bíblico mostra que Eliseu muito se indignou com Joás porque este feriu a terra poucas vezes, demonstrando pouquíssimo discernimento, falta de fé e perseverança. Mais uma vez recorremos ao comentário feliz do Pastor José Gonçalves para dizer que uma fé tímida obtém uma vitória igualmente tímida, verdade ressaltada por Jesus no Novo Testamento (Mt 9.9).


III. O ÚLTIMO MILAGRE DE ELISEU

1. A eternidade e a fidelidade de Deus. Deus é soberano e eterno e faz coisas que a razão humana não consegue atingir. No texto bíblico da lição de hoje temos o caso de um milagre realizado postumamente por Eliseu. Depois de morto o homem de Deus, e já sepultado, um defunto foi lançado na cova do profeta e, entrando em contato com seus ossos, ressuscitou (2Rs 13.19,20).
É claro que Deus não faz nada sem um propósito firme relacionado às suas criaturas.  Deus não brinca de fazer milagres. Essa passagem revela dois atributos de Deus e está relacionada à promessa feita a Joás antes de Eliseu morrer (2 Rs 13.14-21). Contra o desespero do rei em razão da morte do profeta (sempre fica uma sensação de desamparo quando morre alguém que servia de suporte espiritual para nós), Deus mostra com este último milagre que o encerramento da vida do profeta não põe fim às suas ações, pois o seu poder subsiste a tudo e a todos (Hb 1.8).


“A incondicional prioridade de Deus em seu universo é uma verdade no Antigo e no Novo Testamento. O profeta cantou essa verdade em linguagem de êxtase: ‘Não és tu desde a eternidade, ó Senhor meu Deus, ó meu Santo?’ O apóstolo João a expõe com cuidadosas palavras de denso significado: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.’[...] Não podemos pensar certo sobre Deus enquanto não começamos a pensar nele como estando sempre ali, e ali primeiro, sempre existente antes de tudo mais. Josué teve que aprender isso. Ele fora servo de Moisés, servo de Deus, e com tanta segurança recebera em sua boca a Palavra de Deus, que Moisés e o Deus de Moisés se fundiram na mente dele, em fusão tal que ele mal podia separar os dois pensamentos; por associação sempre apareciam juntos em sua mente. Agora Moisés estava morto e, para que o jovem Josué não seja abatido pelo desespero, Deus lhe fala para dar-lhe segurança: ‘Como fui com Moisés, assim serei contigo.’ Moisés estava morto, mas o Deus de Moisés continuava vivo. Nada mudara e nada se perdera. De Deus nada morre quando morre um homem de Deus.” (A. W.Tozer ,2000, pp.l 1,12) 

Em segundo lugar, este último milagre evidencia a fidelidade de Deus. Ele não depende de circunstância, profeta A ou profeta B para cumprir seus propósitos. É verdade que ele instrumentaliza pessoas, algumas de maneira extraordinária, mas é Ele quem opera tudo em todos. Morrendo o profeta, trocando-se o sacerdócio, mudando-se os tempos e os reinos, suas promessas continuam de pé.  Portanto, “ao permitir que o toque nos restos mortais de Eliseu desse vida a um morto, Deus mostrava ao rei Joás que a morte de Eliseu não iria impedir aquilo que há algum tempo ele havia prometido a ele” - palavras do pastor José Gonçalves.

2. A honra de Eliseu. Há homens que deixam marcas indeléveis na história e são honrados, lembrados e amados séculos depois de sua morte. Em se tratando de grandes homens de Deus, como Eliseu, o próprio Deus dá testemunho deles depois de finda a sua vida aqui. É assim que o eterno dá testemunho de Noé, Moisés, Samuel, Daniel e Jó, séculos depois da morte destes:

“Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, não estaria a minha alma com este povo” ( Jeremias 15:1)

“(...) ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles pela sua justiça, livrariam apenas a sua própria vida, diz o Senhor Deu” (. Ezequiel 14:14).

No caso do milagre póstumo realizado por Eliseu, além do objetivo de mostrar sua fidelidade e eternidade, Deus objetivava honrar a memória de seu servo, honrando-o mesmo depois de morto. Séculos depois de sua morte, o nome de Eliseu continuaria sendo lembrado como um homem de Deus. Existem sempre algumas peculiaridades envolvendo a vida e a morte de grandes homens de Deus. Como destacado pelo pastor José Gonçalves, Elias subiu ao céu vivo, Eliseu deu vida mesmo estando morto. Os intérpretes destacam que esse milagre de Eliseu mostra que o Senhor possui planos diferenciados para cada um de seus filhos e que, portanto, não devemos fazer comparações nem questionar os atos divinos (Jo 21.19-23). A Bíblia fala de homens cujas ações continuam falando mesmo depois de suas mortes (Hb 11.4).

IV. O LEGADO DE ELISEU

1. Legado sociocultural. O legado sociocultural de Eliseu está bem apresentado nas palavras do pastor José Gonçalves. Já estudamos que Eliseu supervisionava a escola de profetas (2 Rs 6.1). Esse sem dúvida foi um dos seus grandes legados. Todavia Eliseu fez muito mais. Ele teve uma participação ativa na vida social da nação. Enquanto Elias era um profeta do deserto, Eliseu teve uma atuação mais urbana. Eliseu tinha acesso aos reis e comandantes militares e possuía influência suficiente para deles pedir algum favor (2 Rs 4.13). Como povo de Deus não podemos viver isolados da vida social da nação, mas aproveitar as oportunidades para abençoar os menos favorecidos.

2. Legado espiritual. As façanhas realizadas por Eliseu em nome do Deus de Israel seriam contadas e recontadas no decorrer da história, para fortalecer e enlevar a fé  dos crentes. Tais façanhas enunciam o legado espiritual de um homem que viveu para fazer a vontades de Deus. Ouvi de certo pregador a seguinte afirmativa: “O mundo precisa ver o que Deus pode fazer com um homem totalmente entregue em suas mãos”. Os contemporâneos de Eliseu viram Abertura do Jordão (2 Rs 2.13,14); a purificação da nascente de água (2 Rs 2.19-22); a multiplicação do azeite da viúva (2 Rs 4.1-7); a ressurreição do filho da sunamita (2 Rs 4.8-37); a cura da panela envenenada (2 Rs 4.38-41); A multiplicação dos pães e das sementes (2 Rs 4.42-44); a cura de Naamã (2 Rs 5); o machado que flutuou (2 RS 6.1-7); o caso de Dotã (2 Rs 6.11-23); escassez e festa em Samaria (2 Rs 6.24—7.20); revelação a Hazael (2 Rs 8.7-15); profecia ao rei Jeoás (2 Rs 13.14-19) e a ressurreição de um homem (2 Rs 13.21). É, de fato, um grande legado espiritual.


CONCLUSÃO
Foi o evangelista Moody que ouviu certa vez de um pregador: “O mundo precisa ver o que Deus pode fazer com um homem totalmente entregue em suas mãos”. Os contemporâneos de Eliseu viram de perto. Nós vemos através do relato bíblico. 

BIBLIOLOGIA
GRUDEM, Wayne. O Dom de Profecia — do Novo Testamento ao nossos dias. Editora Vida.
SORMS, C. Samuel. In: Cessaram os Dons Espirituais? — quatro pontos de vista. Org. Wayne Grudem. Editora Vida.
TOZER, A. W. A Conquista Divina: a necessidade de ter Cristo como Senhor na vida. Editor Mundo Cristão, São Paulo, 2000.
Lições Bíblica CPAD / Elias e Eliseu, um ministério de poder para a igreja / 1° trimestre de 2013.


sexta-feira, 15 de março de 2013

O Pentecostalismo e o perigo do emocionalismo

Josafá R. Lima

O pentecostalismo é o movimento de ordem religiosa que mais cresce em todas as partes do mundo. Só no Brasil, são 24 milhões de fiéis, o que faz deste país o mais pentecostal do mundo.  O que caracteriza  o pentecostalismo é a crença de que o falar línguas estranhas, fenômeno ocorrido com os discípulos de Jesus no dia de Pentecostes (At 2), está à disposição dos crentes de hoje, ou melhor, esteve à disposição dos crentes de todos os tempos. Para a maioria dos pentecostais, o fenômeno das línguas acontece como evidência do batismo com o Espírito Santo, que consiste no revestimento de poder para evangelizar (At 1.8). Não só o batismo com o Espírito Santo, mas também os dons do Espírito, catalogados por Paulo no capítulo 12 de sua primeira carta aos coríntios, estão ainda hoje em evidência na igreja de Cristo.

Os pentecostais, diferentemente dos protestantes históricos, que defendem a ideia cessacionista (A concessão do batismo e dons do Espírito Santo aos crentes se restringiu aos dias dos apóstolos), acreditam que Deus continua a agir por meio de seu Espírito, da mesma forma que agia na igreja primitiva, batizando crentes com o Espírito Santo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo dons e bênçãos espirituais, realizando milagres, dialogando com seus servos, interferindo na história e concedendo evidências gritantes de seu supremo poder nos negócios humanos.

Portanto, a ênfase pentecostal está na experiência pós-conversão do batismo com o Espírito Santo (At 2.1ss), com a posterior concessão dos dons espirituais (1Co 12), sendo os principais deles o falar noutras línguas (glossolalia) e os dons de curar. As manifestações desses sinais fazem com que os cultos pentecostais normalmente sejam barulhentos, com movimentos espalhafatosos como saltos, danças, sapateados, carreiras, choros, risos, levantar de mãos e bater de palmas. Os pregadores normalmente mostram uma eloquência que parecem de ordem sobrenatural na pregação, ministram curas, expulsam demônios e declaram  bênçãos.  Em casos mais extremos, acontecem arrebatamentos de sentidos e êxtases. Não é sem razões, portanto, que os pentecostais são  conhecidos como povo barulhento e criticados por alguns seguimentos do cristianismo histórico, alguns chegando mesmo a comparar as manifestações pentecostais com fenômenos ocorridos em trabalhos religiosos afrodescendentes.




ORIGEM DO PENTECOSTALISMO


"Estes sinais seguirão os que creem" (Mc 16.15). E assim, todo indivíduo, independente de seu grau de maturidade, teria o privilégio de se relacionar diretamente com Deus e ser portador dos oráculos divinos. 
A gente pode começar analisando a grande diferença entre o culto do Antigo Testamento e o culto do Novo Testamento. Dois fatores básicos diferenciam um do outro. O primeiro acontece em relação ao número limitado de pessoas que tinham acesso aos oráculos divinos. Lembremos que numa ocasião, quando  dois homens leigos profetizaram no arraial de Israel, o fato causou escândalo entre o povo (Nm 11.25-29). Isso porque apenas alguns "iluminados" recebiam este poder. Então, como se pode ver, alguns gozavam de um relacionamento mais estreito com Deus e eram encarregados de transmitir ao povo a vontade divina. O povo se relacionava com Deus indiretamente por meio do relacionamento dos escolhidos. Invariavelmente, estes escolhidos eram pessoas bem preparadas no que respeitava às suas atribuições e sobre elas pesava grande responsabilidade. Não podiam ser neófitos. No Novo Testamento, porém, de acordo com a profecia de Joel (Jl 2.28,29), o poder do Espírito Santo seria derramado indiscriminadamente sobre todos, até sobre os filhos e os servos. E Deus fez isso para que cada crente se tornasse numa testemunha poderosa do evangelho, para que este mesmo evangelho se disseminasse em todo o mundo (At 1.8). Sem essa descentralização geradora da explosão de poder vista no livro de Atos, a igreja de Cristo não teria alcançado o mundo de então com as boas novas de salvação. Os sinais  deveriam seguir todos os que cressem (Mc 16.15), e assim, todo indivíduo, independente de seu grau de maturidade, teria o privilégio de se relacionar diretamente com Deus e ser portador dos oráculos divinos.

O segundo fator diz respeito ao culto veterotestamentário concentrado em três figuras: 1) numa só pessoa (o sacerdote); 2) um só lugar (o templo); 3) um único dia (o sábado). A ideia de culto concentrado carrega a ideia de culto controlado, uniforme e ordeiro. Um único homem, o sacerdote, arbitrava em relação à manifestação do sagrado, no único lugar que propiciava a manifestação do divino, o Templo, no único dia reservado para tal, o sábado. Com o advento da Nova Aliança, Jesus descentraliza o culto, faz de cada crente um sacerdote do sacerdócio real de Deus (1 Pe 2.9), estabelece que qualquer lugar é lugar de culto (Jo 4.21-24), bastando que dois ou três estejam reunidos em seu nome, em qualquer dia da semana (Mt 18.20). Ademais, o poder extraordinário do Espírito Santo foi conferido a todos os crentes. Desta forma, cada um é árbitro de si mesmo no que se refere à manifestação do divino sobre a sua própria vida. Repito que somente essa concessão indiscriminada do poder do Espírito Santo cumpriria o propósito de Deus de encher o mundo com o conhecimento de sua Palavra (ver At 1.8).


Destarte, na Antiga Aliança, o culto era configurado a partir da compreensão, visão e experiência com Deus de poucos indivíduos. Hoje, cada um tem sua própria experiência com o sagrado, porque na Nova Aliança, cada crente faz um recorte do sagrado de acordo com sua própria experiência, visão e compreensão. Logo, o culto carrega elementos da cultura peculiar de cada indivíduo, de maneira que a manifestação do sagrado é filtrada pela peculiar compreensão e visão de mundo do sujeito envolvido. É a manifestação do Deus infinito pelos multicanais humanos. 


Descentralizado o culto, extrapolando os limites veterotestamentário do Templo, do sábado e do sacerdote, ele tende a ser menos formal e menos racional e cede a uma espiral de emoções fortes que caminha para um emocionalismo preocupante. No culto pentecostal, os rituais acontecem dentro de certa informalidade, com espaços para os leigos catarem, darem testemunhos e fazerem outras apresentações. Por isso, apesar de celebrarmos a descentralização que possibilita que cada um tenha a sua própria experiência com o divino, urge uma necessidade de trazer o culto de volta às rédeas do racionalismo a fim de que as emoções descontroladas, originadas no coração que segundo o profeta Jeremias é enganoso, não lancem as pessoas num emaranhado de enganos. 


A necessidade de limites e ordem no culto (1Co 14).

Os crentes de Corinto começaram a misturar elementos da cultura com as manifestações do divino, gerando um culto exótico e desordenado

 Em um culto em que todos manifestam a dom do Espírito simultaneamente, e as emoções estão nas alturas, faz-se necessário o estabelecimento de diretrizes que tragam o povo de volta à razão mantenedora da ordem.  Na igreja de Corinto, temos um episódio que mostra que os elementos pentecostais podem ser filtrados pela cultura e costumes de um povo. A cidade de Corinto era constituída de um povo festivo, idólatra e irreverente. Quando o evangelho de Cristo chegou ali, formando a primeira igreja, os crentes, batizados com o Espírito Santo e agraciados pelos dons, começaram a misturar elementos da cultura com as manifestações do divino, gerando um culto exótico e desordenado, o que levou o apóstolo Paulo a falar sobre a necessidade de ordem no culto. O que mereceu a correção de Paulo é que cada um fazia o que bem entendia com a graça que havia recebido, cada um ao seu jeito, irracionalmente, totalmente controlados pelas emoções. Paulo os advertiu de que cada um devia ter controle sobre si mesmo, lembrando que o espírito do profeta é sujeito ao profeta (v 32).

O pentecostalismo pós igreja primitiva.

Com exceção de fagulhas isoladas de manifestações pentecostais que aconteciam algures, a igreja passou toda a Idade Média desprovida do poder do Espírito Santo.

Finda a evangelização do mundo de então, com a oficialização do Cristianismo como religião do Império Romano, houve o arrefecimento total das manifestações pentecostais. A igreja começou a se envolver em controvérsias teológicas e escanteou  a doutrina do Espírito Santo. Parecia mesmo razoável que com a instituição de igrejas espalhadas por toda a parte e com o grande triunfo do Cristianismo, poderia-se prescindir dos dons do Espírito Santo. Sendo assim, com exceção de fagulhas isoladas de manifestações pentecostais que aconteciam algures, a igreja passou toda a Idade Média desprovida do poder revestidor do Espírito Santo. Somente no final do século 18 e início do século 19, um grande avivamento fez ressurgir o movimento pentecostal como nós o conhecemos hoje, o qual por algum tempo se restringiu aos limites das fronteiras norte americanas, até que ganhou proporções mundiais a partir do histórico Avivamento da Rua Azusa.

O Movimento da Rua Azusa 

O movimento pentecostal na Rua azusa se configura conforme as características do grupo que o iniciou devido a sua capacidade de reinventar.

As manifestações espirituais ocorridas na Rua Azusa entre 1906 e 1913 foram tão intensas e tiveram tanta repercussão que tornou-se um referencial histórico conhecido como O Avivamento da Rua Azusa. Em Azusa street, em um edifício quadrangular, outrora um depósito de cereais, homens e mulheres começaram a se reunir, sob a liderança de W. J. Seymour, para interceder pelos pecadores e clamar por um avivamento (Conde, 2000).

Em resposta às orações sinceras dos que ali se congregavam, Jesus começou a batizar crentes com o Espírito Santo, os quais falavam em outras línguas, chamando a atenção da imprensa local, por se tratar de uma novidade na época. Um repórter do Los Angeles Times foi enviado a Azusa para reportar o que estava acontecendo. A matéria que escreveu tornou-se uma semente em solo fértil. Informados sobre o avivamento, outras pessoas começaram acorrer ao local, alguns desejosos de experiências mais profundas com Deus, outros apenas por curiosidade.

Em Azusa, os cultos eram longos e, de forma geral, espontâneos. Nos seus primeiros dias, a música era à capela, embora um ou dois instrumentos fossem tocados. Os cultos incluíam cânticos, testemunhos dados por visitantes ou lidos daqueles que escreviam para a Missão, oração, momento de apelo para pessoas aceitarem a Cristo, apelo à santificação ou ao batismo no Espírito Santo, e, obviamente, pregação. Os sermões normalmente não eram preparados antecipadamente e eram tipicamente espontâneos (…). A oração pelos enfermos era também uma parte frequente nos cultos. Muitos gritavam. Outros ficavam “rindo no espírito” ou “caídos no poder” Algumas vezes havia momentos de prolongado silêncio ou de cânticos em línguas (…). (Araújo, 2007, p. 605). 

Convém atentar para o fato de que o movimento da Rua Azusa tinha a cara daqueles que o começaram. Era um pequeno grupo de afro descendentes que, sob o poder de Deus, provocavam barulhos eletrizantes e estridentes. Atente para o fato de que começou com um pequeno grupo de crentes afro americanos, expulsos da Primeira Igreja Batista de Los Angeles, liderados primeiramente por uma mulher, depois  por um humilde pregador, filho de ex escravos, sem cultura, com limitados dotes de oratória e cego de um olho. Como observa Aderi Souza de Matos, era o tempo da discriminação racial no sul dos Estados Unidos, e o professor de Seymour era simpatizante deste sistema, permitindo que seu aluno negro assistisse suas reuniões somente no corredor ao lado da sala onde as aulas aconteciam.  

Ou seja, o fenômeno sofre um processo de aculturação, de alguma forma se manifesta muito de acordo com a maneira de ser de um grupo ou povo. O interesse de Deus com o movimento barulhento era atrair a atenção de todos para o que estava acontecendo ali. Deus não faz nada sem propósito. A semente do pentecostalismo havia encontrado terreno fértil para se propagar. 

O Movimento Pentecostal goza de uma diversidade impressionante, por causa de sua capacidade de se reinventar de acordo com a época e as características da comunidade que o recebe. 

Ao chegar no Brasil em 1910, não foi diferente, a mensagem pentecostal encontraria terreno fértil numa nação formada em grande parte por pessoas afro descendente, índios, negros e mulatos, de maioria pobre. Alderi de Matos aponta dentre as razões da expansão pentecostal na América Latina, as vicissitudes históricas da obra evangelística e pastoral católica, o limitado trabalho das denominações protestantes, o misticismo das culturas ibero-americanas, os graves problemas econômicos, políticos e sociais, ou seja, o pentecostalismo vai proliferar a partir da ineficiência de igrejas históricas, dos graves problemas econômicos e sociais, do misticismo característico de nosso povo e de seu caráter festivo. Inicialmente o crescimento se dá lentamente, até que estoura a partir da década de 50. 

Logo, logo, as manifestações pentecostais chamariam a atenção de igrejas históricas que já estavam por aqui e acabaria por gerar cismas e perseguições. 

O movimento pentecostal na esteira da pós modernidade

O Pentecostalismo se prolifera no terreno fértil do pluralismo e hibridismo religioso de nossa época. Estamos também na esteira da Pós modernidade.

Neste novo século, o Movimento Pentecostal vem ganhado proporções impressionantes na esteira de um fenômeno chamado Pós Modernidade. As principais características desta nova época: o pragmatismo, a ênfase no aspecto subjetivo em detrimento da objetividade, a relativização da verdade em detrimentos de valores absolutos, o pluralismo que facilita a troca de ideias, ritos e doutrinas levadas de um lado para outro pela mídia, impossibilitando discernir quais elementos pertencem a qual movimento religioso, a explosão da espiritualidade que chega a lembrar os tempos primitivos, a ênfase no emocionalismo e o paulatino abandono da razão que caracterizou a Idade Moderna, a facilidade de transmissão de informações que mistura costumes e práticas de várias crenças num caldeirão de cultura numa velocidade tão grande que se torna impossível monitorar, a ascensão do movimento Nova Era que dissemina o hibridismo religioso, o misticismo. 

Como podemos ver, todas essas características têm afetado, como não poderia deixar de ser, a igreja de Cristo, principalmente o Movimento Pentecostal que tem vestido roupagem nova de tempos em tempos com a sua capacidade de se reinventar. Precisamos estar atentos e estabelecer limites. É verdade que não tem como não sermos afetados, pois este é o nosso mundo, a nossa época, mas a gente pode e deve estabelecer limites. 

O CULTO PENTECOSTAL E A ÊNFASE NA EMOÇÃO

A religiosidade pentecostal enfatiza ao extremo o aspecto afetivo, a sugestão, as emoções e interpretam com muita facilidade os acontecimentos como intervenções milagrosas de Deus. Isso leva ao risco constante de as fantasias humanas se apresentarem como revelações divinas e de os oráculos se misturarem com compreensões, preconceitos e tendências humanos. São os riscos do emocionalismo.

Há um esforço deliberado no sentido de estimular as emoções por meio de cânticos, fundo musical , danças e outros procedimentos, algo bem parecido com rituais religiosos de povos primitivos. 



“Emocionalismo, segundo Martin Lloyd-Jones, é um estado e uma condição em que as emoções estão descontroladas. As emoções estão no controle. Estão numa espécie de êxtase. E se emocionalismo é ruim, muito pior é a tentativa deliberada de produzi-lo. Portanto, qualquer esforço que deliberadamente tenta estimular as emoções, seja através de cânticos, ou fórmulas, ou qualquer outra coisa, ou, como vemos nos povos primitivos, através de danças e coisas assim – tudo isso, naturalmente é condenado pelo Novo Testamento. Jogar com as emoções é errado. É algo que é condenado através da Bíblia toda. As emoções devem ser constatadas através da compreensão, através da mente, da verdade. E qualquer assalto direto sobre as emoções é necessariamente falso e inevitavelmente resultará em problemas”.



É verdade que a experiência com Deus afeta o indivíduo como um todo, corpo, mente e emoções. Seria bobagem pensar uma religiosidade extremamente racional, pois seria a fragmentação do indivíduo. Como não se emocionar diante da grandeza de Deus, de seu poder, do contato direto com o Espírito Santo? A Bíblia mostra que Davi, diante da Arca de Deus, foi tomado por uma avalanche tão forte de emoções que causou escândalo em Mical, sua esposa. Também no dia de Pentecostes, os discípulos de Jesus, após receberem o batismo com o Espírito Santo, estavam como que embriagados e falavam todos, de uma vez, várias línguas conhecidas daqueles que os ouviam. Jesus se emocionou várias vezes no seu ministério. E sem dúvida, Deus usa essas coisas para chamar a atenção para a obra que Ele realiza. Agora o que não podemos esquecer é que as emoções devem ser sempre controladas pela razão, não o contrário. Quando a ênfase é deliberadamente posta nas emoções e elas ficam descontroladas, perde-se a razão e abre-se caminho para o fanatismo de pessoas que se julgam inspiradas por Deus e para mercenários que promovem essas coisas com o intuito de fazerem os crentes de reféns.  Tomemos cuidado, porque a espiritualidade anda lado a lado e, às vezes, se confunde com emocionalismo, impulsividade e fanatismo.




CUIDADO COM NOSSAS EMOÇÕES


O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? (Jr 17.9).


1. Nossas emoções podem nos levar a confundir o que é nosso com aquilo que é de Deus. Nossas frustrações, questões e ansiedades vão querer aparecer como sendo expressão da vontade de Deus e revelação do Espírito.


2. Nossos preconceitos vão querer aparecer como verdade absoluta vinda da parte de Deus mediante iluminação do Espírito. Pedro em 10 de Atos.


3. Nossos interesses vão querer aparecer como expressão da vontade e interesse de Deus. Exemplo da jovem que pede uma orientação sobre seu relacionamento ou o desejo de querer ver alguém curado. Um rosto triste é um chamariz de profecias.


4. Nossa sede de poder e necessidade de se impor vão querer buscar endossamento nos dons do Espírito Santo.


5. Muitos dos movimentos repetidos no culto podem ser comportamentos aprendidos e condicionados que respondem automaticamente a determinados estímulos, principalmente os musicais, o que muitos pregadores conhecem muito bem e usam e abusam disso. 


6. A exploração de nossas emoções pode nos tornar vulneráveis a toda sorte de mercenários (técnica de hipnose, sugestionabilidade, etc.).


Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo (Cl 2.8).

7. A ênfase nas emoções faz dos pentecostais uma massa facilmente manipulável. Nós, pentecostais, somos mais movidos a paixões que à razão.  Os que têm mais esclarecimento entre eles jogam com as emoções, abusam de ideologia e de supostas revelações para manipular um povo simples cuja maioria é constituída por gente de baixíssima instrução.



CONCLUSÃO

Precisamos estar atentos para não prescindir do poder que Deus colocou à disposição de sua igreja com o intuito de promover seu Reino, mas também para não virarmos reféns dos enganos de nosso próprio coração, confundindo aquilo que é nosso com o que é de Deus. Cuidemos para que nossas emoções não nos façam presas dos mercenários de plantão que entendem das técnicas psicológicas adequadas de manipulação das massas. É verdade que se emocionar faz parte da constituição do indivíduo, principalmente quando da experiência com o divino, mas a razão tem que estar sempre no controle, aliás, o espírito do profeta deve estar sempre sujeito ao próprio profeta (1 Co 14.32).  


Por isso que o movimento pentecostal goza de uma diversidade impressionante, por causa de sua capacidade de se reinventar de acordo com a época e as características da comunidade que o recebe. 



terça-feira, 12 de março de 2013

Este Deus, esta vida






O mistério, a incompreensão, a finitude absurda... O que se concebe atrás dos limites das palavras e compreensão humanas?  O que se esconde após a linha divisória que a vã ciência não pode transpor? Dá-se o nome de mistério.  Diante da ignorância incomensurável, resta-nos viver, experimentar e se maravilhar com o mistério. Talvez se compreendêssemos a vida, ela perderia a sentido. Da mesma forma que Deus só é Deus porque está envolto em mistério, a vida só é vida porque está cercada de neblina.

Dia destes me impressionei com o título de uma conferência promovida por uma dessas igrejas pentecostais. Numa faixa grande, com letras garrafais, ladeado pelos preletores do evento, eu li o título CAÇADORES DE DEUS. Na primeira impressão, antes de ser controlado pela reflexão, me posicionei otimista em meus sentimentos pela ideia genial de caçar Deus até encontrá-lo. Um amigo até comentou, em tom de brincadeira, que estava preocupado com a integridade física de Deus, pois caçadores costumam ser cruéis. Fiz coro com aqueles que acham que o esforço humano pode forçar uma aproximação e capturamento da Divindade, tentado a simpatizar com a ideia de um Deus capturável, passível de ser analisado, compreendido e, finalmente, espreitado. Todavia, logo que a reflexão me acudiu, matutei como seria um Deus que pode ser caçado como uma presa de quem se pode ficar à espreita, e tudo parecia se chocar com o conceito lógico de Divindade, porque um ser passível de ser compreendido e capturado parece não compatibilizar com a ideia original de DEUS. 

Nenhuma teologia, por mais profunda que seja, dá conta de esclarecer a natureza do Divino. Tudo o que se diz sobre Deus não passa de uma aproximação distante da Supra Realidade Infinita. O pastor Ricardo Gondim expressa melhor o que acabei de dizer: "Teologia não pode ser uma ciência que estuda Deus, porque Deus, por definição, excede a capacidade de qualquer ciência de estudá-lo". Ou como compreende Steiner, "O que está além da palavra humana fala de Deus". É da própria natureza deste Ser Infinito, Criador e Sustentador do Universo, nos escapar e nos pôr diante do mistério inescrutável. Por isso, acho muito divertido ver estudiosos da Bíblia apresentarem uma definição de Deus de tal maneira a colocá-lo dentro de uma forma, apresentando conceitos e parâmetros de como Deus se manifesta e age, como Ele é e se apresenta.

A teologia tradicional e sistemática prescreve uma cartilha de como o fiel deve se relacionar com Deus a partir do entendimento de uma Divindade capturável que se formata à nossa maneira de pensar. Mas a verdade é que Deus, na sua grandeza, nos escapa sempre, porque a gente O conhece dentro dos limites bem estreitos da pequenez de nosso entendimento. Em nosso relacionamento com Ele, vamos como que entrando numa trilha, bosque adentro, e chega um momento em que não dá mais para avançar, quando esbarramos no mistério insondável, que a nossa mente não dá conta,  e então a única saída diante do mistério é poder se maravilhar. Aliás, os mistérios existem para explorar nossa capacidade de se maravilhar, como bem definiu Leonardo Boff, "o ministério nos mantém sempre na admiração até o fascínio, na surpresa até a exaltação".

Entre os orientais, a compreensão de insondabilidade da Divindade está expressa na competição do brahmodya, prática que acontecia entre os brâmanes e consistia em um retiro na floresta entre os participantes, os quais realizavam execícios espirituais que possibilitavam a alteração do nível de consciência. Depois, um desafiante fazia uma pergunta enigmática sobre a Divindade ao seu adversário, e este último teria que dar uma reposta adequada , porém inescrutável. O objetivo do duelo era esgotar todas as possibilidades de encontrar uma forma verbal que definisse o brahman (divindade para eles) e, portanto, colocar o opositor diante do silêncio do inescrutável. Quem reduzisse o oponente ao silêncio venceria a competição. E era somente neste momento de silêncio, quando a insuficiência das palavras e a consequente impotência do discurso humano se faziam evidentes, o brahman se revelava.

O silêncio arrebatador dos brâmanes não dava espaço para interpretação e compreensão conscientes.Talvez seja mesmo o rigor da interpretação que nos afasta da essência dos objetos de nossa visão e relacionamento. Existe uma maneira intuitiva de se capturar as coisas, que nos permite a lisura delas e que dispensa as interpretações racionais que nós, reles mortais, precisamos fazer para dar sentido ao mundo. Talvez possamos dizer que se trata de uma interpretação intuitiva, fora do nível racional da consciência. Bonhoffer, ao descrever sua impressão diante de uma obra de arte, comentou que "uma obra de arte, vista com clareza, inteligência e compreensão, atinge o inconsciente", de sorte que "ou se vê a coisa intuitivamente ou não se vê (...), por isso deve-se esforçar para se entender a obra enquanto se olha para ela, porque interpretação em demasia não significa melhor compreensão artística".**

Temo que o rigor da interpretação nos esteja pondo cada vez mais distante de Deus, pois a apreensão do Divino, segundo a maneira de pensar bonhoffiana, é como se deslumbrar diante de uma obra de arte, independe de quaisquer estratégias  de captura ou de diretrizes que direcionem nossa busca, acontece da maneira mais natural, mais intuitiva, num momento microscópico, no campo do sentimento, na primeira vista do primeiro encontro, como um viajante que, ao virar a curva, se depara com uma árvore frondosa e florida, deslumbrante. Neste encontro repentino, ele apenas sente o objeto de sua visão, ele não pensa sobre, mas passada a primeira e mui rápida impressão, quando ele pensa sobre o objeto de sua visão, aí a informação do objeto já está distorcida por influências de seus preconceitos. Por isso me aproximo da teologia com cuidado, porque ela é apenas um pensar sobre Deus, permeado por séculos de tradições e preconceitos humanos. Chego, às vezes, a desconfiar que o Deus de nossas pregações seja somente o acúmulo de roupagens com que as várias culturas e tradições, cada qual com seus preconceitos e interesses egoístas, vestiram a percepção original, simples e pura da Divindade.

Eu já tive a experiência frustrante de tentar capturar o incapturável, de conter Deus numa forma e entender a maneira como Ele opera. Sai da escola de teologia com uma imagem formatada de Deus e fui para o relacionamento com Ele em oração, pensando que o repertório de conhecimentos que adquiri o tornaria capturável, mas, para minha surpresa, Ele sempre acabava escapando. Com essas experiências, a agente percebe, felizmente, a nossa limitação, restando-nos como única saída adorar, maravilhado ante o mistério insondável.

Deus e mistério têm tudo a ver um com o outro, por isso o mistério é essencial para a concepção de Deus. Isso mesmo: Ele se concebe essencialmente no mistério. O encanto, perplexidades e controvérsias a seu respeito residem no mistério, nas fantasias originadas da curiosidade pelo desconhecido que persiste em não se revelar. Se se revela, desencanta, perde o provocar do suspense e acaba no lugar comum. É lá que Deus se concebe, está e se esconde: no lugar inacessível do mistério mais profundo, revelando aqui e ali apenas uma partícula microscópica de si, para aguçar nossa curiosidade e atiçar nossas fantasias em relação a Ele. Ele se esconde para inspirar sentimento de adoração nos mortais. Porque só se rende adoração ao mistério, ao incapturável, ao inacessível. Se a Divindade se revelasse plenamente, não levaria muito tempo para que fosse desprezada e, talvez, a nossa frustração e intolerância a dependurassem novamente numa cruz.  

Mas eu diria que Deus é incapturável porque a própria vida ou existência que, à minha maneira de enxergar, é o ponto de partida para a busca da compreensão de Deus, é também incapturável.  Às vezes eu me pego angustiado tentando relacionar fatos, experiências, querendo montar um quebra cabeça que revele uma compreensão satisfatória da vida, mas depois de tanto sofrimento, me deparo com um mistério insondável. E concluo que a vida é este quebra-cabeça imontável desfalcado das peças dos   livros que não conseguirei ler, dos lugares que nunca visitarei, das amizades que não farei, das pessoas que não poderei conhecer e... enfim, das possibilidades que nunca conseguirei explorar, para me pôr diante da cruel angústia dessa incapturabilidade da existência.

O nó que não desata é esta perplexidade ante a dimensão infinita de possibilidades que se contrasta com a nossa vil e absurda finitude. O mistério, a incompreensão, a finitude absurda....  Não será essa curiosidade insaciável  que nos move? Diante da ignorância incomensurável, resta-nos viver, experimentar e se maravilhar com o mistério. Talvez se compreendêssemos a vida, ela perderia o sentido. Da mesma forma que Deus só é Deus porque está envolto em mistério, a vida só é vida porque está cercada de neblina.

Mas para dar conta da angústia do mistério, tanto em relação a Deus quanto em relação à vida, nós desenvolvemos a capacidade de recorte/de síntese. O mistério somente se pode desvendar dentro do limitado recorte da realidade que fazemos. Foi assim que os antigos criaram os mitos e as religiões, cada qual com seus dogmas e crenças, como metáforas de uma realidade em si mesma insondável. E nós criamos nossos conceitos em relação à vida, nossos hábitos e crenças que são compartilhados por uma sociedade, grupo ou  então peculiar ao indivíduo. Porque a vida só pode ser compreendida e capturada dentro da metáfora da religião que abraçamos, dos acordos sociais que fazemos, dos mitos e fantasias que constituem os indivíduos que somos. Da mesma forma este Deus, Ele só se pode ser compreendido, amado e capturado dentro do recorte que fazemos, de acordo com as limitações que temos. Se suspendemos o recorte, tudo vira mistério. E de vez em quando é preciso abrir mão do recorte, das metáforas, dos conceitos, dos preconceitos, essas coisas por demais pequenas,  e deixar o mistério nos tocar, nos maravilhar, impressionar... para que possamos dar a verdadeira e devida adoração a Deus e possamos celebrar devidamente a vida.

domingo, 27 de janeiro de 2013

O jogador da vida

Ele nunca ganhara dinheiro algum no jogo e era muito consciente de suas pouquíssimas possibilidades de ganhar. Jogava pelo prazer da disputa, pela adrenalina das partidas acirradas e pela sensação extasiante de matar, de vez em quando, uma partida. Adorava olhar a cara de apreensão dos adversários que, à espera da última carta, seguravam, ligeiramente trêmulos, as nove cartas na mão, engenhosamente organizadas.

Entre as partidas que acertava e as que perdia, dizia com certa resignação ou cinismo, havia um prejuízo financeiro irreparável. Repetia que as cartas nunca foram favoráveis a ele e gostava de se referir ao que chamava de deuses da sorte e do azar, os quais pelejavam em favor de seus pupilos e contra seus desafetos no jogo. Mas era do tipo que, lá no recôndito da alma, tinha a impressão, ainda que pálida, de que um dia a persistência vence os deuses, o azar, e a vida dá uma virada.

Gostava de comparar o jogo à própria vida, ou a vida ao próprio jogo. “Tantas vezes a gente espera um ás de copa e se decepciona ao se deparar com um ás de ouro. E novamente se tem um vislumbre de um ás vermelho, e a gente confia que agora é o ás de copa tão esperado, mas, por ironia do destino, repete-se o que a gente não deseja, e mesmo diante da probabilidade duas vezes maior de acerto, dá errado”. “Mas nem tudo é negativo na vida”, ele continuava, “ o jogo também surpreende positivamente com cartas inesperadas que se encaixam entre duas outras, numa trinca apertadíssima, para formar uma sequência de jogo que, no pife, chamamos de jogo seguido. E quantas vezes, sem esperança de matar o jogo por depender de um única carta, somos surpreendidos pela sua repentina aparição na mesa, e a vida retoma alento. Para ele, aí reside a graça do jogo, essas surpresas desconcertantes de tanta semelhança com a vida. Assim era ele: só conseguia explicar a vida por meio das cartas, ou gostava de explicar as cartas por meio da vida, sei lá, era tão viciado no jogo que a vida e as cartas se confundiam.

Mas ele contava uma história muito engraçada quando alguma coisa saía errado na vida - na dele e na dos outros. Era uma história fantasiosa demais para ser verdadeira, mas eu via sinceridade em seus olhos toda vez que contava. E o que mais importava não era a verossimilhança do caso, era a perfeição da ilustração. Dizia que um dia, num jogo que durou a noite inteira, não ganhou uma partida sequer e, àquela altura, todo o suor de uma semana de trabalho tinha-lhe escapado por entre as cartas. Eram cinco horas da manhã e ele disputava a última partida com o único dinheiro que restava, partida que decidiria se ele voltaria a pé para casa ou pegaria um táxis. “Todo jogador de pife sabe que juntam-se dois baralhos para que quatro pessoas possam jogar, e que a junção de dois baralhos resulta na repetição de cada uma das cartas: duas damas de espada, duas de copa, dois sete de espada, dois de copa, e assim sucessivamente. "Porém um jogo não pode ser formado por cartas repetidas”, ele explicava aos iniciantes. A aposta da última partida era o último dinheiro que ele tinha, se perdesse, teria que andar dez quilômetros, se ganhasse, pelo menos poderia pegar um táxis.

Disse que estava com duas damas na mão: uma vermelha (de copa) e outra preta (de espada), esperando outra dama vermelha ou preta para matar o jogo, com a vantagem de que qualquer dama que caísse sobre a mesa ou que ele puxasse do baralho não poderia se repetir, pois ambas as damas, de copa e de espada, que formavam pares repetidos com as que ele tinha na mão, já haviam passado pela mesa e não podiam voltar. E ele contou com graça que, àquela altura, pensando na possibilidade de ir a pé para casa, depois da exaustão daquela noite insone, com o agravante de ter perdido todo o dinheiro, puxou, devagar, uma carta do baralho pela pontinha, repetindo aquele ritual que os que jogamos chamamos de chorinho, um apelo quase supersticioso para que a carta atenda à necessidade do momento, e vislumbrou a pontinha de uma dama vermelha. Pronto, era a carta que ele precisava, pois como não poderia se repetir a dama de copa, aquela era indubitavelmente a dama de ouro, carta com que ele bateria o jogo.

E ele terminava sua história com um tom de cinismo nobre, de uma resignação filosófica: “Puxei a carta com arrogância, na certeza inabalável de que era a dama de ouro e, para minha surpresa, era a dama de copa. Havia alguma coisa errada com aquele baralho, com a minha vida, com a vida enfim, mas nem questionei, pois àquela hora, nada importava mais. Eu teria que andar das cinco até às oito da manhã para chegar em casa".

Incrédulo no tocante à história - apesar da convicção desenhada em seu rosto quase não deixar chance para a dúvida - perguntei qual foi sua reação quando viu a carta “impossivelmente” repetida. Ele disse que olhou para cima, como que para o vazio, soltou um sorriso cínico, deu uma banana para o ar e murmurou por entre os lábios um “dane-se”. Depois vinha a parte mais importante. Ele aplicava aquela experiência à vida, dizendo que "há momentos na vida em que somente o cinismo nos possibilita dar conta da realidade, das ironias do destino, da galhofa dos deuses. É preciso rir muito, ser elegantemente cínico e fazer piadas da própria desventura se não quiser enlouquecer.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

"Ao Deus desconhecido" / Paulo na cidade de Sócrates




CIRCUNSTÂNCIA QUE PROPICIARAM A PREGAÇÃO DE PAULO EM ATENAS

1. Paulo empreende sua segunda viagem missionária na companhia de Silas após a Assembleia de Jerusalém, começando pela Síria e Filícia, onde confirma algumas igrejas já instaladas ali. Depois passa por Derbe e Listra, onde encontra pela primeira vez o crente Timóteo, que Paulo circuncida e leva consigo.

Em seguida, o trio de evangelistas vai a Trôade, passando antes pela Frígia e pela Galácia, onde foram impedidos pelo Espírito Santo de pregarem o evangelho. De Trôade, vem a revelação para que Paulo e seus companheiros vão à Macedônia, o que fizeram, passando pela Samotrácia, logo depois Neápolis, e chegaram a Filipos, onde aconteceu a libertação de uma pitonisa, a conversão de Lídia e do carcereiro.

De Filipos, foram para Tessalônica, passando por Anfílopes e Apolônia. Em Tessalônica, Paulo prega numa sinagoga de judeus por três sábados, resultando num bom número de conversos. Mas judeus invejosos denunciaram-no ao governador dizendo que “aqueles que alvoroçam o mundo chegaram até nós”, o que forçou uma fuga para a Bereia.

Tendo os judeus de Tessalônica informação de que Paulo estava apregoando Jesus na Bereia, foram em busca dele, obrigando alguns irmãos bereanos a fugirem com Paulo para o mar. Porém Timóteo e Silas ficaram na Bereia. Então os que acompanhavam Paulo o levaram até Atenas, navegando pelo mar da Bereia. Ele ficaria ali apenas para esperar Silas e Timóteo que estavam atrasados em dois dias, antes de seguir viagem.

2. Paulo ficou perturbado ao ver a situação espiritual e moral de Atenas

Antenas era o centro intelectual do mundo de então, berço da filosofia e da democracia, a cidade de Sócrates, Platão e Aristóteles. Apesar de não ostentar mais as glórias de outros tempos, ainda era objeto de admiração e devoção, principalmente dos governantes romanos.

Paulo estava muito cansado e precisava descansar, mas resolveu dar uma volta pelas ruas da cidade de Sócrates. Na medida em que caminhava pelas ruas, o que ele via o deixava perturbado, indignado, horrorizado, irado. Paulo sentiu-se desafiado com o que viu. Ele viu a corrupção moral e as centenas de ídolos de Atenas.

Como observou o reverendo Billy Graham, numa mensagem pregada no Madison Square Garden, “os antigos divinizavam suas paixões. Baco era a deificação do desejo. Vênus e Afrodite eram as deificações do sexo. Marte e Júpiter representavam o instinto de luta, eram os deuses da guerra. Hoje, o homem superou a imagem de Baco, mas ainda é governado por seus apetites. O templo de Vênus já não existe, mas ainda somos dominados pelas paixões. Dispensamos Marte como fruto da superstição, mas os deuses da guerra ainda estão conosco, e o home continua lutando. Assim, todos os velhos deuses ainda estão por aí”.

Matthew Henry destaca que havia mais ídolos em Atenas que em toda a Grécia reunida. Todo deus estranho que lhes fosse recomendado, eles o aceitavam e lhe concediam um templo e um altar, de modo que eles tinham quase tantos deuses quanto homens. Mesmo quando o império romano se tornou cristão, Atenas continuou idólatra. E Henry continua destacando que onde a cultura humana mais floresceu, foi onde a idolatria mais abundou, O povo era influenciado à idolatria mais horrorosa por sacerdotes pagãos vendidos ás próprias conveniências, e permanecia neste estado de ignorância devido ao silêncio dos filósofos que se mostravam indiferentes, tanto aos deuses, quanto à idolatria do povo. Isso endossa as palavras de Paulo na carta aos romanos: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” ( 1.22).


3. Capacidade de se horrorizar

A Bíblia diz que Paulo se horrorizou ao ver a situação de Atenas. Ele se sentiu desafiado. E esta é uma das características de Paulo que me prendem a atenção: a sensibilidade para se horrorizar. Os atenienses estavam anestesiados pela prática constante da idolatria e imoralidade, anestesiados pela exposição constante ao vício, por séculos de tradição. Temo que a exposição contínua aos pecados de nossos dias tire de nós a capacidade de se horrorizar com o mal. Tudo o que temos é essa capacidade de se sensibilizar. E é essa capacidade que nos move à ação, na tentativa de mudar o estado de coisas.

Nós estamos vivendo dias de anestesiamento. Estamos muito embevecidos com os movimentos espirituais e com o crescimento desse movimento e não conseguimos ver a real situação do mundo a nossa volta. Estamos como os discípulos no monte da transfiguração. Eles disseram: ”Senhor, aqui está tudo muito bom. Vamos fazer cabanas para nós e fiquemos por aqui”. Ou então como observa Marvin Stone:

Encolhemos, indiferentes, os ombros diante de quase tudo. Seguimos adiante e buscamos a próxima emoção. É como se já tivéssemos ultrapassado o ponto de fazer distinção e de nos importarmos. Finalmente alcançamos um consenso de indiferença.

A Bíblia diz que Jesus viu uma multidão perdida como ovelhas sem pastor e se comoveu. Eu confesso que às vezes me comovo e me perturbo com o que vejo.

Ao olharmos grandes cidades como a cidade de São Paulo, é muito difícil não sentir-se desafiado, vendo a obsessão do sexo, o incentivo á exacerbação da sexualidade infantil, os narcóticos que escravizam crianças, adolescentes e jovens, os apetites desenfreados, o consumismo, o materialismo, (usando uma frase do Billy Graham), todas essas coisas que a sociedade moderna tem transformado em deuses.

Temo que a exposição constante a essas coisas nos leve a vê-las como algo natural, tirando de nós a capacidade de horrorizar.

4. Então Paulo começou a pregar nas ruas

A pregação precisa ser motivada por um particular estado de espírito, pela comoção resultante da percepção de uma profunda necessidade do indivíduo, da comunidade, da sociedade. Pregar por pregar, ou então pelo interesse de divulgar e defender as próprias ideias é teatralização, pura poesia.

Ao se sentir consternado com a situação de Atenas, Paulo abriu mão do descanso e começou a pregar. Ele disputava com todos os que encontrava em seu caminho: nas sinagogas, nas praças e nas ruas. Ele dizia: Atenção atenienses e residentes, trago-lhes uma excelente mensagem: Jesus Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. Ele é a luz do mundo. Quem o segue não andará em trevas. Ele pode trazer luz à vida e à cidade de vocês.

A maioria deles não dava importância à sua pregação, principalmente os da sinagoga. Sendo então evitado pelos judeus, Paulo seguiu o costume helênico e começou pregar aos transeuntes. “Jesus Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”.

Alguns intelectuais o olharam com desprezo, acharam graça e zombaram dele. “É um falastrão, um santarrão que não sabe o que está dizendo”, comentaram outros. Ainda outros pensavam que Paulo era um pregador de deuses estranhos e que anunciava um casal de divindades: Jesus e Anastásia, palavra grega para ressurreição. Mas havia alguns membros da Academia que ficaram curiosos e quiseram ouvir a Paulo. Queriam saber o que ele tinha a dizer. E não é sem propósito que Lucas ressalta que os epicureus e os estoicos estavam lá e contendiam com Paulo.

OS ILUSTRES OUVINTES DE PAULO

1. Os epicureus acreditavam que o universo não foi criado por ninguém, que a vida veio à existência por acaso, num universo mecânico, e que a morte põe fim a tudo. Concebiam a divindade como alguém despreocupado e indiferente a tudo o que diz respeito ao mundo, distante demais da terra para ter interesse nas ações humanas e, portanto, em vão se faziam orações e sacrifícios a ele. Segundo o epicurismo, não havia critério divino algum para diferenciar entre o bem e o mal, então os humanos não tinham o que temer nem esperar em relação ao futuro, nem castigo nem recompensa. Para eles, os deuses eram perfeitamente felizes, devendo ser este o alvo principal da vida dos humanos. Por isso viam os prazeres como o supremo bem da vida. Notem que o cristianismo vem na contramão ensinando a que renunciemos a nós mesmos.

À luz do precedente, pode-se reconhecer por que havia filósofos epicureus entre aqueles que passaram a conversar polemicamente com Paulo, na praça do mercado em Atenas, e que disseram: “O que é que este paroleiro quer contar?” “Ele parece ser publicador de deidades estrangeiras.” (At 17:17, 18) A filosofia dos epicureus, com a sua ideia de “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”, negava a esperança da ressurreição ensinada pelos cristãos no seu ministério. — 1Co 15:32. ( ver Biblioteca Online da Torre de Vigia).

2. Os estoicos descartavam totalmente a ideia de um Deus pessoal e defendiam que todas as cosia eram parte integrante de uma divindade impessoal, de onde emanava também a alma humana. Criam na propriedade da alma de sobreviver à morte do indivíduo, porém esta mesma alma sobrevivente seria reabsorvida à deidade. Sustentavam ainda que, para alcançar a verdadeira felicidade, o homem precisava raciocinar para compreender as leis que governam o universo e se harmonizar com elas. Seguindo as leis da natureza, portanto, o indivíduo era considerado virtuoso e seria capaz de atingir um nível de indiferença à dor e ao prazer, independente de quaisquer condições ou circunstâncias. Adaptar-se as leis naturais significava entender e aceitar que o destino governa as contingências humanas, e o homem pode fazer pouco ou nada para mudar o estado de coisas.

Como os epicureus, os estoicos reputavam como absurda a ideia de ressurreição dos mortos, o que nos faz entender o motivo por que chamaram Paulo de paroleiro e anunciador de divindades estrangeiras quando o ouviram pregar sobre Jesus e a ressurreição. Di-ze que se consideravam os melhores dos homens e se entregavam tanto à soberba da vida quanto os epicureus aos prazeres. Notem que o cristianismo vem na contramão, ensinando que a humildade é o caminho da exaltação. O cristianismo nos ensina a que refutemos toda confiança em nós mesmos para que Cristo seja tudo em todos (Cl 3.11).

O SERMÃO NO AERÓPAGO

1. Ponto de partida do sermão: o Deus insondável, criador, sustentador e Senhor do universo.

No Areópago Paulo vai adaptar o discurso ao ambiente intelectual. Sua mensagem tem endereço certo. Ele vai começar apresentando um Deus pessoal, em contraponto à impessoalidade da divindade de seus ilustres ouvintes. E ele o faz a partir da única coisa que ele percebe em comum entre aqueles pagãos e o cristianismo: o Deus insondável (ou desconhecido). E ele vai apresentar este Deus tendo como pano de fundo uma teologia natural, numa consideração acerca da origem do universo que os gregos atribuía ao acaso.

A adoração do Antigo Testamento está permeada por uma teologia natural que argumenta a ideia de um Deus grande, infinitamente sábio, que formou tudo o que existe, e cuja criação testemunha contra os ímpios.

Tu só és Senhor. Tu fizeste os céus, e o céu dos céus; a terra e tudo o que nela há, os mares e tudo o que neles há; e tu os preservas a todos com vida; e o exército do céu te adora (Ne 9.6).

Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparastes; quem é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? (Sl 8.3,4).

Os céus manifestam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem e sem fala, ouvem-se as suas vozes (Sl 19. 1-4).


Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas; foi aquele que faz sair o exército delas segundo o seu número; ele as chama a todas pelos seus nomes; por causa da grandeza das suas forças, e porquanto é forte em poder, nenhuma delas faltará (Is 40.26).

2. Uma teologia da dependência total como contraponto à ideia de que Deus não se importa com os assuntos humanos e que a felicidade depende do próprio homem, Paulo apresenta a teologia da dependência total, a qual está exarada nas páginas da Bíblia Sagrada:

“Ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas (...), porque nele vivemos nos movemos e existimos” (At 17.25, 28).

“Todos esperam de ti que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lhes tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respirarão, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.27).

3. Um Deus que toma, Ele mesmo, a iniciativa de se revelar. "(...) para que buscassem ao Senho, se porventura tateando o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós" (At 17.27).

4. Uma teologia da inter-relação de todos os homens em resposta ao orgulho étnico dos gregos. "(...) e de um só fez todas as gerações dos homens para habitar a face da terra". Todos estamos relacionados a Adão pelo sangue, logo todos somos pecadores. Deus não divide os homens entre ricos e pobres, letrados e indoutos, preto e branco, bonito e feio. Para Deus todos são pecadores e precisam da redenção que há em Cristo Jesus.

5. Deus há de julgar o mundo por meio do varão que destinou. Notem que Deus julga o mundo tendo como fundamento a crucificação e ressurreição de seu Filho. Deus suportou os pecados da ignorância dos ímpios até o dia em que uma grande luz brilhou na escuridão e Alguém disse: “Eu sou a luz do mundo” Jo 8.12). Agora não há mais lugar para a ignorância, por isso se diz que a manifestação de Cristo é para a elevação de muitos, porém pedra de tropeço para outros. "Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse" (Is 28.16). 

5.1 O tempo da ignorância. Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todos os lugares, que se arrependam, porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-os dos mortos (At 17.30,31). 

5.2 Deus há de julgar o mundo tendo como fundamento a crucificação e ressurreição de seu Filho. A ressurreição é a prova incontestável que Deus há de julgar o mundo e o supremo argumento da justiça de divina. Doravante, todos os planos de Deus para a humanidade, bem como o seu trato com os homens têm como base a ressurreição de Jesus. O que seria daqueles intelectuais que não criam em ressurreição se tudo o que hoje existe e o que se estenderá pela eternidade afora só acha sentido neste fato: Jesus ressuscitou e está vivo para sempre.

Continua...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dúvidas sobre o fim do mundo

Assisti certa vez uma versão do filme Sansão e Dalila, onde o verdadeiro herói não foi o poderoso Sansão, que derrubou, com sua estupenda força, o templo de Dagom e subjugou seus inimigos. O herói foi um filisteu que garantiu a continuação da semente de seu povo por meio de um conselho que deu ao seu jovem filho.

Na hora em que levaram Sansão para o Templo de Dagom, todos começaram a zombar dele, céticos quanto à possibilidade de aquele homem, agora cego e "sem forças", fazer-lhes algum mal. Quando Sansão pediu ao moço que o conduzia para que o levasse à coluna principal do prédio, os que o ouviram multiplicaram as vaias. Mas um homem, dos filisteus, chamou seu jovem filho e disse-lhe: "Quando Sansão chegar à coluna, esteja fora do templo,  e se ouvir ruídos, fuja para bem longe". O moço olhou o velho pai com olhar de dó, como que percebendo nele os primeiros sinais de caduquice, e perguntou: "O senhor acredita mesmo nesse boato ridículo de que um homem cego e agora sem forças pode derrubar sozinho este templo?" Ao que o pai respondeu: "Não, meu filho, não acredito, apenas tenho dúvida, e, na dúvida, prefiro que você fique fora do templo".

O filme acaba com a imagem de um jovem caminhando sozinho no deserto e uma voz de fundo dizendo: E assim a semente dos filisteus não foi extirpada da terra, porque entre eles havia um homem que duvidava.

Muitas pessoas, no decorrer da história,  têm preconizado um fim dramático para o nosso mundo, e alguns chegam mesmo a ousadia de estipularem datas para o evento, causando pavor em meia dúzia de crédulos -a última delas   para o dia 21/12/2002, com base em interpretação do calendário maia. Sinceramente não creio nessas previsões malucas, muito menos em datas estipuladas por "profetas do fim", mas, às vezes, só em pensar neste mundo sendo tragado por um cataclismo, me dá um gelo na barriga. Penso que esse frio na barriga é indicador de um filete de dúvida que persiste, apesar da absurdez da história. Logo, como aquele filisteu do filme, sempre achei que, na dúvida, é melhor colocar as barbas de molho. Quem sabe um dia a história relatará: "E assim a raça humana não pereceu, porque lá em São Paulo havia um homem que duvidava".

"Os tolos estão cheios de certeza. Os sábios estão cheios de dúvida." (não lembro bem quem foi que disse).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O que já não faz sentido

Acho que quase todas as pessoas têm o costume de guardar um amontoado de coisas em algum canto da casa. Imaginam que tais coisas podem ser úteis um dia, ou então lembram bons momentos distantes, ou porque simplesmente acham-se incapazes de se livrar delas por causa do fascínio que exercem. Assim, há quem faça coleção de chaves, cartões de aniversário, cartas, canetas, cadernos e agendas antigos, ferramentas gastas, etc. Antes que me esqueça, acrescento a essa lista os textos, documentos e recortes de jornais que são as coisas que sou viciado em guardar. Guardo-os com a mais sincera intenção de relê-los um dia.

Mas o danado é que o espaço vai se apertando e o tempo se exaurindo na medida em que o acúmulo anoso dos objetos de nossa devoção se expande, forçando a gente a fazer uma limpeza de vez em quando. Não que um dia o espaço nos falte totalmente, pois o imagino infinito, mas porque, à semelhança da memória do computador, quanto mais espaço livre tivermos, mais agilidade teremos na execução de tarefas. Em relação ao tempo, não posso dizer o mesmo, pois o tempo fica mais escasso na proporção inversa em que aumentam as velas em nosso bolo de aniversário.

Foi com esse pensamento que resolvi rever todos aqueles textos que guardei ao longo dos anos no fundo da gaveta com a intenção de retomá-los sabe-se lá quando. Passei um por um, apreensivo pela seleção que teria que fazer, determinando o que ficaria e o que iria embora. O resultado foi surpreendente: joguei quase todos fora. Primeiramente porque conclui não haver mais tempo para retomá-los, pois tenho menos dias para gastar e, por conseguinte, preciso focar o que é rigorosamente essencial. Segundo, percebi que a maioria daqueles escritos, que já li com tanto entusiasmo, já não fazia sentido para mim. Ou eu não fazia mais sentido para eles. E pensar que há poucos anos, eu não abriria mão desses textos por nada. Mas agora foi tão fácil jogá-los. Os textos eram os mesmos, dos mesmos autores, sobre aquelas mesmas circunstâncias e temas, mas eu era outra pessoa.

Nossos baús e bagagens não se restringem a coisas apenas. Nós também guardamos pensamentos, sentimentos e emoções que cavaram sulcos profundos na alma. Conservamos lembranças de pessoas e de momentos que não queremos esquecer, porque exercem um fascínio muito grande sobre nosso espírito. Mas ,semelhante à limpeza que precisamos fazer, às vezes, em relação às coisas guardadas, há uma necessidade de, vez por outra, nos desprendermos de algumas lembranças, sentimentos e emoções, bagagens que apenas ocupam espaço, visto que não será mais possível retomá-las. E isso também por uma questão de tempo e de sentido.

Acredito que toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor, com juras eternas de lealdade, quando houve a necessidade de mudar de uma cidade para outra. Mas o tempo passa e, quando volta, não consegue mais se relacionar como antes, tudo é tão estranho. Isso acontece porque as pessoas mudaram, principalmente por causa do contato de uma das partes com novos ambientes e relações, e torna-se impossível retomar a convivência do jeito que já fora. Já dizia um filósofo que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio nem da mesma pessoa.

A mudança do indivíduo acarreta mudanças significativas em todas as suas relações e tira todas as coisas de sua posição original, alterando toda a realidade à sua volta. É a partir dessa compreensão que podemos discutir a questão do significado inconstante de tudo o que existe. A questão sobre o sentido da vida com todas as suas nuances é muito abordada na psicologia. A existência é uma roda que gira o tempo todo, tirando e trocando tudo de lugar. E neste vai-e-vem, tudo o que existe troca de papel, assume novas roupagens e muda de significado para os elementos relacionados. Logo, na dinâmica da vida, o que um dia foi importante pode deixar de sê-lo e o que era irrelevante pode vir a assumir valor fundamental, mas tudo dentro de um processo que quase nunca acontece de forma clara para nós. É necessário, portanto, discernimento para avaliar, de acordo com o momento, qual o grau de importância que não somente as coisas, mas também as relações ainda têm para a vida. Somente assim, podemos nos desprender de tudo que já não tem sentido para propiciar uma vida fluida e feliz e buscar novos caminhos, novos significados, num exercício de seleção que evitará o acúmulo de resíduos que servem apenas para ocupar espaço e obstruir o sistema, causando preocupações desnecessárias. Ouvi de uma professora que " a gente se agarra a sentidos fixos para não dar conta da angústia". Penso que agarrar-se a sentidos fixos é não reconhecer que algo, outrora muito significativo, pode estar destituído de importância hoje.

Finalizando, para uma vida feliz, precisamos entender que é próprio das coisas e das relações, na roda do tempo, adquirirem novos significados. Desse modo, umas deixam de fazer sentido para nós, enquanto que outras, outrora sem importância, passam a fazer sentido. Nós mudamos o tempo todo, alterando a compreensão e visão que temos de tudo, por isso, todo mundo precisa de vez em quando desprender-se das coisas, relações e comportamentos que deixaram de fazer sentido para a vida, que já foram muito importantes um dia, mas que, com o passar dos anos, foram destituídos do significado inicial e agora são apenas entulhos impedindo a absorção de novas experiências que resultem em novas possibilidades.

Cara, é preciso ter desprendimento e humildade.