segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ruídos na comunicação com o céu

Um esforço por atingir o coração de Deus

Antes, Deus fala uma e duas vezes, porém ninguém atenta para isso (Jó 33.14).
 Dia desses, li uma algo que impactou minha vida. Alguém escreveu: “Ore, não até que Deus te ouça, mas até que você possa ouvir a Deus”. A frase estava sobreposta a um pano de fundo formado pela imagem de uma criança africana esquelética, e mais do que pela frase em si, fiquei maravilhado com a MENSAGEM transmitida através da correspondência perfeita entre a imagem de fundo e a sugestão ATÉ QUE VOCÊ POSSA OUVIR A DEUS.

Impressionei-me primeiramente porque isso diz muito acerca daquele que é o destinatário de nossas orações. Foi como se, de repente, eu houvesse descoberto que, como nós, Deus tem um coração onde residem vontades, sentimentos e emoções, tem seus próprios pensamentos, compreensão de vida e visão de mundo, e, por conseguinte, deve ter seu próprio sonho para este mesmo mundo, o qual deseja compartilhar com pessoas e realizá-lo através delas.

Segundo, pus-me a refletir sobre a natureza da oração e repensar o processo pelo qual ela ocorre. Penso que a maioria dos cristãos se comporta no processo da oração como num monólogo em que são expressos os próprios sentimentos, emoções, vontades, pensamentos e necessidades a um expectador sem voz, indiferente em relação a comunicar, como contrapartida, seus pensamentos, sentimentos e vontade, mas apenas desejoso de ver e ouvir o espetáculo do outro lado. Neste caso, Deus é expectador que apenas se emociona e reage às expressões do coração do fiel, porém sem meios de lhe transmitir, pela mesma linha de comunicação, os desejos e pensamentos de seu próprio coração.

Acho que a oração é o diálogo mais íntimo e apaixonante entre duas pessoas, e um diálogo íntimo e apaixonante deve caracterizar-se pelo esforço de cada uma das partes por expor seu coração e captar o coração do outro, por desvelar seus pensamentos e apreender, no contra-fluxo,  os pensamentos do outro, num vai-e-vem de pensamentos e sentimentos, o que resulta em novos pensamentos e sentimentos, na medida em que se cruzam, e afeta irreversivelmente as partes envolvidas. Mas não é assim que comumente acontece na oração. Habitualmente apressamo-nos em desnudar um coração egoísta diante de Deus, sem nenhuma preocupação em atingir o coração dele, em acessar seus sentimentos e apreender os seus pensamentos acerca da realidade.

Atingir o coração de Deus. Acessar os sentimentos de Deus. Apreender os pensamentos de Deus. Sinceramente, eu nunca tinha parado para analisar a dimensão e profundidade disso. Quais os pensamentos de Deus acerca da realidade que o cerca? E como Ele se sente ao contemplar a realidade e pensar sobre ela? A partir de seu pensar e sentir, o que Ele deseja comunicar? O que pretende fazer? E por meio de quem? Será que o que tem sido feito em nome de Deus por aqueles que se intitulam seus representantes atuais corresponde, de fato, à expressão da vontade divina? Será que estas afirmações que temos ouvido amiúde: Deus disse, Deus determinou, Deus orientou, Deus prometeu, mesmo que às vezes pronunciadas por pessoas bem intencionadas, são, de fato, expressões da vontade de Deus? Ou estamos num tempo de fortes ruídos na comunicação entre terra e céu? Tenho um amigo que, sempre que saímos do culto de uma grande igreja, me desconcerta com esta pergunta: "E se não for nada disso que Deus quer?"

Estudando o processo de comunicação verbal, percebendo os meios que o possibilitam e as barreiras que podem dificultá-lo, pus-me a pensar se a comunicação com o céu se daria a partir de mecanismos semelhantes e se também estaria sujeita a interferências parecidas. Questionei-me se poderia acontecer de eventualmente a linha de transmissão entre céu e terra sofrer interferências capazes de distorcer as mensagens enviadas e exigir grande esforço dos interlocutores para se entenderem mutuamente. Pode até parecer maluquice minha, mas ultimamente tenho sido afetado por uma desconfiança persistente de que Deus tem feito um esforço “tremendo” para se comunicar com o que ainda chamamos de igreja, porém com pouco resultado. Desconfio que até mesmo sua mensagem escrita, em grande parte, tem sido distorcida por fortes ruídos na comunicação.
Como se daria satisfatoriamente a comunicação entre o finito e o infinito, entre o temporal e o eterno?  Abrindo uma ilustração dentro da comunicação humana, imagine se você pudesse voltar no tempo cinco séculos e conversar com alguém daquela época sobre o mundo de hoje. Você e seu interlocutor estariam diante de barreiras quase intransponíveis, como a cultura, tempo, visão e compreensão de mundo diferentes. Você, de uma cultura supostamente mais evoluída, que talvez já tenha pego aulas de antropologia para entender o indivíduo em seu próprio meio, época e cultura, poderia até compreender tudo o que fosse comunicado pelo seu interlocutor, mas ele teria sérias dificuldades para compreender você. Imagino que ficaria mesmo escandalizado se ouvisse de sua boca tudo o que acontece por aqui hoje. Você quereria falar sobre muitas coisas empolgantes, mas pensaria duas vezes antes ao perceber que o outro lado estaria de antemão fechado para acreditar em muito do que você quereria dizer. Sendo assim, para que a comunicação fosse o menos prejudicada possível, ou você teria que se submeter a rigorosa adaptação comunicativa, o que empobreceria bastante o processo de comunicação, ou seu interlocutor teria que passar por uma espécie de desarmamento, de desnudamento, para permitir suficiente abertura para o novo que você tivesse para comunicar. Ou seja, suspender os próprios conceitos, razão, idéias, para se deixar tocar, influenciar e direcionar pelo outro, o que requereria dele confiança, desprendimento, renúncia, humildade e confiança. Numa terceira opção, as duas coisas poderiam ser feitas em conjunto, havendo adaptações de ambas as partes.

Pois bem, aplicando a ilustração no que estamos discutindo, Deus está anos luz tanto à nossa frente como atrás de nós na história, porque sua mente abarca passado, presente e futuro, constituindo-se num ponto de encontro onde se cruzam as culturas de todas as épocas, com seus conceitos, ideias e tabus os mais diversos. Para se comunicar com o humano, ou Ele se submete a uma adaptação rigorosa ou exige de nós uma abertura confiante, humildade, reconhecimento das próprias limitações, suspensão dos próprios conceitos e tabus, o que chamamos de processo de desarmamento cognitivo. Isso é fé.  

Penso que, de nossa parte, precisamos  passar por um processo de desarmamento que facilite nossa comunicação com o céu para que Deus diga o que Ele, de fato, quer dizer e não o que queremos ouvir; expresse o que Ele verdadeiramente pensa e sente sobre determinada situação e sobre nós mesmos e não o que queremos que Ele pense ou sinta. Precisamos de abertura confiante para a expressão da vontade de Deus. Até porque a Bíblia nos diz que os nossos pensamentos são uns, os de Deus são outros; os nossos sentimentos são uns, os de Deus quase sempre são outros; a nossa compreensão é uma, a de Deus quase sempre é outra; nossa vontade quase nunca é a vontade de Deus. Por isso que o escritor sagrado nos orienta a que apresentemos nossa vida consagrada a Deus para, só assim, experimentarmos sua boa, perfeita e agradável vontade (Rm 12.1,2). O que seria este consagrar-se a Deus senão chegar diante Dele aberto, receptivo e esvaziado para receber, sem reservas, aquilo que Ele tem a dizer? 

Segundo a Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Criado à imagem e semelhança divina, o homem herdou de Deus também esse desejo de criar segundo a própria semelhança, e então, no decorrer dos séculos, sempre tentou imitar o Criador no ato de criar-segundo-a-própria-semelhança, e conseguiu, quando muito, a capacidade de formatar segundo à própria semelhança. É sintomático no humano que cada um quer formatar o outro à sua própria imagem. Temos uma tendência a sugerir que o outro deva pensar como nós, sentir como nós e enxergar o mundo como nós enxergamos. Como se isso não bastasse, começaram a construir um Deus à imagem e semelhança humana. Projetamos em Deus nossa forma de pensar, sentir, fazer e compreender o mundo. De sorte que vamos a Deus, determinando de antemão, o que ele deve pensar, como deve sentir, como deve compreender o mundo e o que tem que fazer. Ou seja: Deus somos nós mesmos. 

O lado negativo da história da igreja mostra uma tendência de projetar em Deus também a nossa maneira preconceituosa de compreender as pessoas e o mundo. Por isso, desconfio que muito do que é apregoado nas igrejas como sendo a expressão última da vontade de Deus nada mais é do que expressão das vaidades humanas, do desejo doentio de poder e manipulação das massas, projetados em uma divindade deslocada de seu lugar, criada à imagem e semelhança de homens presunçosos (ver 2 Tm 3.1-9).

Quase sempre as nossas orações são movidas pelo desejo de que Deus nos ouça e nos faça algum favor. Por isso abundamos em preces rápidas e sem pausa, apressados em descarregar as nossas solicitudes aos pés da Divindade. E Deus nos ouve, porque a linha de comunicação que vai daqui para lá é boa. Ele consegue ouvir e entender até o filho do corvo pedindo comida (Jó 38.41). Porém, o segredo, o mais importante é que nós estejamos abertos para ouvir o que Ele tem a dizer, abertos à revelação de sua soberana vontade. E é aqui que reside a dificuldade, porque a linha que transmite a comunicação de lá para cá vai encontrar grandes bloqueios, por causa de nossas limitações. Deus anseia por uma oportunidade de nos falar, porém nossas distrações internas e externas quase sempre abafam a voz do céu antes que ela chegue a nós.

Até que Você possa ouvir a Deus...

Deus tem sua própria vontade. Paulo disse que devemos apresentar os nossos corpos em sacrifícios vivos para que possamos experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12.2).

Deus tem seus próprios pensamentos acerca da realidade. Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e os meus caminhos são mais altos que os vossos caminhos (Is 55.8,9).

Em relação aos sentimentos, às vezes encontramos Deus como se estivesse no divã, querendo abrir seu coração com alguém. "Espantai-vos disso, ó céus, ficai estupefato. O meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retém as águas" (Is 2.12,13).

Barreiras na comunicação com o céu 

Sendo assim, Deus deseja comunicar seu Ser conosco, mas as barreiras na comunicação não permitem. Seleciono abaixo algumas dessas barreiras.


Seletividade: O interlocutor só atenta para ouvir o que é do seu interesse ou o que coincide com a sua opinião. Consciente ou (quase sempre) inconscientemente, ele condiciona os ouvidos para captar apenas o que lhe cai bem. Há um sistema defensivo nos humanos que vai sempre na direção de evitar tudo o que causa desconforto e, por outro lado, orienta na direção do que parece confortável. É por isso que a Bíblia diz que Deus fala uma e duas vezes, e ninguém atenta para isso. É insuportável para nós ouvirmos alguém dizer que precisamos mudar de hábitos, reavaliar conceitos e abrir mão de coisas que não fazem mais sentido, ainda que esse alguém seja Deus. Por isso levantamos barreiras, porque não queremos entrar em contado com nós mesmos, com a realidade nua e crua, por medo de sofrer, ou então por orgulho. 

Na Bíblia, temos o caso do rei Acabe, cujos profetas, todos cuidadosamente selecionados por ele, só falavam o que o monarca queria ouvir. Qualquer voz destoante, como a do profeta Micaías, não era bem-vinda, não podia ser de Deus, porque Acabe tinha condicionado os ouvidos para ouvir só o que lhe era conveniente. O espírito de Acabe continua agindo na história do povo de Deus, principalmente nos dias hodiernos, quando vivencia-se uma fé de conveniência, cujos pregoeiros estudam cuidadosamente o que os fiéis querem ouvir, para inflar seus egos com promessas infundadas atribuídas falsamente a Deus.

Preconceito: A percepção indevida das diferenças socioculturais, raciais, religiosas, hierárquicas, entre outras. Como isso aqui é muito abrangente, vamos fazer um recorte, referindo-nos ao preconceito engendrado pelas crenças. Há pessoas que estão tão arraigadas a um sistema de crendice que tudo o que destoa dela deve ser imediatamente rechaçado como mentira inaceitável. São tão confiantes que não se dão sequer ao trabalho de ponderar, comparar os fundamentos desse ou daquele conceito.

Jesus teve muito trabalho com os fariseus de seu tempo, cuja tradição servia de barreira entre seus ouvidos e a voz de Deus.  Todavia, o caso bíblico mais emblemático é o de Pedro. No capítulo oito de Atos, este apóstolo quase se recusou a obedecer a uma ordem divina por entender que a mensagem do céu se chocava com uma crendice de Israel. É bem provável que, inicialmente, ele nem tenha aceitado que a voz vinha mesmo do céu. Ou seja, se não está de acordo com tudo o que aprendi, só pode ser do diabo e não de Deus. A ordem era para que ele tomasse alguns animais, impuros segundo a crença judaica, e comesse. Pedro disse: “Senhor, não posso comer, nunca comi coisa imunda”. Deus disse: “Quem te falou que é imunda? Eu sei o que estou fazendo, se eu mandei matar e comer, mata e come”. A visão e a ordem apontavam para o desejo de Deus de salvar os gentios, que os judeus consideravam imundos, e que logo Pedro deveria visitar o gentio Cornélio a fim de evangelizá-lo. Mais tarde Pedro precisou dar explicação à igreja sobre o fato de ter ido à casa de Cornélio. Ele deve ter pensado: “Senhor, vou ficar mal perante a tradição religiosa”. Imagino Deus lhe dizendo: “Que importa o que vai dizer a tradição religiosa, se eu mandei ir lá, vá”.

Para aqueles que consideram meu texto subversivo, “defendo-me dizendo que congrego na mesma igreja há quase vinte anos, nunca a desabonei e sei da importância que a denominação tem para o crente, mas também sei que o Reino de Deus não se resume a templos, denominações e tradições eclesiásticas: o Reino de Deus pode ser dois ou três reunidos em nome de Cristo. É a irmã Maria junto com a irmã Francisca reunidas em algum lugar, numa campanha de oração, e Deu revelando a sua vontade para tirar o mundo do eixo” e desbaratar tradições humanas que bloqueiam a promoção de Seu Reino.

Tradicionalismo. Parece que foi Cipriano de Cartago quem disse: "Às vezes, uma antiga tradição não passa de um antigo erro." Ademais disso, há costumes que já fizeram muito sentido, mas que deixaram de fazer com o tempo. Todavia alguns se agarram à tradição apenas por uma questão de conveniência, porque o viver segundo preceitos e preconceitos confere status e, em nome de manter um status, sacrificam a verdade descoberta no altar da conveniência. Foi assim que os fariseus se comportaram em relação à verdade de Deus materializada no ministério de Jesus. Trocaram o ministério persuasivo do mestre pela tradição vazia de seus pais e ficaram surdos para as boas novas que Deus queria comunicar (ver Mc 7.1-13).

Espírito de religiosidade. O espírito de religiosidade é o resultado desta equação: zelo de Deus + orgulho = religiosidade. Na verdade onde se lê zelo de Deus, leia-se zelo por uma tradição cujo cumprimento confere status. As pessoas buscam se promover de muitas formas, entre essas formas, diferenciando-se das demais por meio de sacrifícios que as façam superiores. Os fariseus do tempo de Jesus se achavam diferentes dos outros homens, tanto de sua própria nação como dos gentios. Seu orgulho era tão grande que não permitia uma abertura para a revelação gritante de Deus por meio dos ensinos e milagres realizados por Jesus (ver Mc 3.1ss).

Coração endurecido. Em Marcos 8.14-21, vemos que os próprios discípulos de Jesus não conseguiam entendê-lo, porque tinham o coração endurecido, o que resultou numa reprimenda do mestre: "E Jesus, percebendo a discussão, perguntou-lhes: Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem percebem? O coração de vocês está endurecido. Vocês têm olhos, mas não veem? Têm ouvidos, mas não ouvem? (17-19). 

Continua...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Por um pacto matrimonial

Um aluno, assustado com o alto índice de divórcio atual, pediu minha opinião sobre a importância do casamento hoje, quis saber se a tradição de ir ao altar, diante de testemunhas, para pronunciar os votos de respeito, amor e fidelidade mútuos ainda tem alguma relevância real para o casal. Antes que eu começasse a responder, ele pediu mais um tempo e citou o projeto de lei do Estado norte-americano do México, onde a Assembleia Legislativa discute uma mudança no código civil que consiste em substituir a tradicional aliança matrimonial por contratos de casamento que possam ser renovados ou não, de dois em dois anos, segundo a decisão dos cônjuges. O objetivo é evitar os altos custos, tanto de ordem financeira como emocional, dos divórcios que acontecem aos borbotões naquele Estado. Apesar de reconhecer as próprias limitações para responder a uma questão tão inteligente sobre assunto de natureza tão complexa, senti-me na obrigação de emitir minha opinião. Pensei que podia recorrer a bons livros, escritos por especialistas do assunto.

"Apesar da atual banalização do casamento e do consequente flagelo do divórcio, com todos os deletérios resultados, entendo que o nosso esforço deve ser por um pacto matrimonial que dure a vida inteira, mas que dure prazerosamente, apesar das dificuldades que, sem dúvida, surgirão." Foram as palavras que imediatamente saíram de minha boca, resposta inspirada nas ideias de Dennis Rainey, a cuja obra* recorro agora para desenvolver uma resposta mais completa para meu aluno.

Vamos desmembrar a frase acima em fatores para que nos apropriemos da profundidade dela. Sendo assim, falemos primeiramente de PACTO MATRIMONIAL QUE DURE A VIDA INTEIRA. Segundo Rainey, o significado da palavra pacto (cortar) na Bíblia representa uma decisão séria entre duas partes que selam mutuamente uma promessa por meio de um ato de dilaceramento de animais que envolve sangue, e a Bíblia refere-se frequentemente a pactos como meio que Deus escolheu para firmar promessas inabaláveis com o seu povo.

É muito esclarecedor ver que o primeiro pacto registrado na Bíblia refere-se ao primeiro casamento da história humana, quando Deus casou Adão e Eva, atribuindo valor essencial ao ato de um homem e uma mulher manterem fidelidade um ao outro por toda vida, o que é tema recorrente em toda a Bíblia Sagrada.

Por que a aliança do casamento foi investida de tanta importância? Porque, dentre outras razões, Deus estava criando ali no Éden o modelo primeiro e último, mais adequado, do que seria o relacionamento entre ele e seu povo, dentro de um modelo pactual, de corpo e alma, isso primeiramente entre Deus e Israel, no Antigo Testamento, e depois entre Cristo e sua igreja no Novo Testamento. Isso é muito sério. O relacionamento de Deus como o seu povo é um envolvimento de almas e é ilustrado pelo casamento. Será que os cristãos pensam nisso quando vão ao altar? Enquanto namoramos, estamos apaixonados demais, ou pressionados demais, para pensar nisso. No dia do casamento, estamos exaustos e ansiosos demais para pensarmos nas palavras pactuais pronunciadas pelo pastor. A preparação da festa, a roupa da nova, o salão, os convidados etc. A cerimônia ocorre rápido, muitas delas nem enfatizam a questão do pacto, e os votos parecem mais um mero acordo.

Renovação da aliança

A aliança matrimonial é a figura perfeita usada pela Bíblia para ilustrar a aliança entre Deus e seu povo, e convém lembrar que, da mesma forma que Deus costumava renovar frequentemente o pacto firmado com Israel (Gn 12, 15,16), numa prevenção contra a memória curta e o desgaste do tempo, o pacto matrimonial precisa ser periodicamente renovado. Ademais, monumentos memoráveis eram erguidos por ordem de Deus a fim de refrescar a memória dos seus escolhidos em relação ao pacto, ideia que pode ser muito edificante se aplicada ao casamento.

A prática de renovação de aliança matrimonial está em ascensão atualmente. Várias celebridades têm reafirmado a lealdade ao parceiro em festas pomposas com direito a todos os rituais próprios do casamento. Sou da opinião de que, desde que se tenham recursos para tal, o ato é muito importante para reestruturar a relação a partir da memória das juras feitas um dia no altar. Aos que não dispõem de tanto recursos, poder-se-iam aproveitar datas especiais como o aniversário do casamento para renovar a aliança e relembrar compromissos.

Sou a favor de que haja memoriais em cada canto estratégico de nosso espaço para nos lembrar de nosso pacto matrimonial. Num lugar bem destacado da casa ou do escritório, um quadro com fotografia dos noivos no momento solene do matrimônio, bem como das testemunhas, como a olharem em nossa direção exigindo de nós o cumprimento das promessas firmadas no altar. No lugar onde eu passo maior parte do tempo em minha casa tem uma fotografia minha ao lado de minha esposa com a frase que colocamos no nosso convite de casamento há onze anos. Toda vez que olho para aquele quadro na parede, lembro-me de que jurei fidelidade eterna a uma mulher, e isso descarta qualquer possibilidade de rompimento em minhas motivações. Nós não conduzimos nossa relação matrimonial dentro de uma possibilidade de rompimento. Portanto, nos momentos de tensão, nosso esforço deve ir sempre no sentido de resolver e superar, por mais difícil que pareça ser.

Muitos dos desgastes que acontecem nos casamentos acontecem porque os cônjuges trabalham, consciente ou inconscientemente, com a ideia de que se não der certo... a fila anda, como se um pacto pudesse se desfazer facilmente. Todo casamento cujos membros têm a consciência permeada pela possibilidade de separação tem grandes chances de não dar certo, porque cada um dos cônjuges, nas horas de tensão, vai enxergar o fim do relacionamento como uma possível saída, boicotando as medidas corretas para pôr fim à crise. Ficam sempre em cima do muro e nunca tomam a real decisão de serem felizes a qualquer custo.

Nosso esforço para que dure prazerosamente.

Consiste num plano que faça o amor entre ambos perdurar até que a morte os separe.

Toda terapia de casal deve começar com a decisão firme de ambos os cônjuges de que terão um casamento saudável. Decidir, de antemão, que terá um casamento saudável e feliz é o passo mais importante para ser feliz no casamento. Porque casamento feliz não é fruto do ocaso. Casamento é uma instituição que, como qualquer relação na vida, precisa de investimento.

Você pode escolher amar seu esposo (a) ou rejeitá-lo (a), porque amar não é um sentimento, é uma escolha. Não me venha com este papo de dizer “eu não a amo mais”. Você pode até não estar sentindo atração sexual por seu cônjuge, e pode ser que ele esteja contribuindo muito para isso, mas se você decidir prontamente amá-lo (a), você amará.

O padre João Mohana** se vale do desabafo de uma mulher que comentou com ele: “Pensei que aquele amor nunca acabaria”, para falar sobre a inconstância do coração humano. E então ele exalta a importância de uma sólida consciência para dirigir o barco nos momentos de oscilação do amor. Para o padre, o amor humano tem dois componentes, 1) sensorial, proveniente da sensibilidade, que é sensação; 2) espiritual, que brota da liberdade da vontade de querer amar, do querer do homem e da mulher que livremente se amam – é decisão, é opção. "Só o homem ama porque quer amar e quando quer amar, e quando decide amar. E quando não quer, tranca o amor, volta as costas ao amor, foge, bane, recua", afirma Mohana.

Para que o casamento dure prazerosamente, a agente precisa priorizar o casamento. 

Se você estabelecer uma lista de prioridades em sua vida, digamos o  que você quer para daqui a dez anos, qual lugar da lista seu casamento ocupa? 


•A gente só é determinado a gastar recursos e energia naquilo que se sobressaia em importância sobre todas as demais coisas. E existem setores da vida que, devido à importância gigantesca que tem para que atinjamos o sucesso, não podem ser relegados a segundo plano. Acredito que o casamento deva encabeçar essa lista.

 •Vejo pessoas se queixando continuadamente das crises que enfrentam no relacionamento conjugal em busca de orientação e ajudas mágicas para resolverem os conflitos, porém sem disposição para mudarem de postura para salvar o que nunca deveria ter sido posto em risco.

•A vida é um vasto campo de possibilidades, mas o angustiante é que todas as vezes que investimos recursos em uma escolha, automaticamente desinvestimos nas outras. Ou todas as vezes que fazemos uma escolha, abrimos mão definitivamente das outras possibilidades concorrentes. Lembro de um amigo que desejava ser o melhor funcionário da empresa onde trabalhava até que percebeu que não era possível conciliar ser o melhor funcionário com ter uma família saudável. Resultado: contentou-se com uma posição média na empresa e priorizou a família.

•Sendo assim, para a construção de um relacionamento conjugal saudável, acima de qualquer coisa, precisamos priorizar o casamento, decidir que vai amar o cônjuge e ter um casamento feliz. Agora, para atingir aquilo que priorizamos, será necessário muito esforço, investimento, energia e paciência, principalmente porque a maneira individualista e competitiva como a sociedade hodierna se comporta só contribui para o solapamento da instituição familiar.



*Rainey, Dennis. Ministério com famílias no século 21: oito grandes ideias para pastores e líderes. São Paulo: Vida, 2003.

** Mohana, João. Não basta amar para ser feliz no casamento. São Paulo: Edições loyola, 1994, p 87.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Família e prioridades

Algumas vezes sou questionado sobre a real condição da instituição familiar em nossos dias. A pergunta sugere uma resposta abrangente com temáticas como violência doméstica, traíção conjugal, separações, conflitos insustentáveis entre pais e filhos, etc. Não sou nenhum especialista da área, o que me impõe limitações consideráveis para falar do assunto; mas também não sou de todo leigo, pois, além de psicólogo, carrego considerável histórico de orientação e aconselhamento a alguns conhecidos mais próximos na área eclesiástica, e isso, acredito, me permite arriscar algumas opiniões.

As nossas ações são determinadas pelas prioridades que estabelecemos para a vida, e nossas prioridades são ancoradas em valores e crenças que herdamos e construímos socialmente. Criando uma fórmula com o que acabamos de dizer: o que acredito ordena o que priorizo, e o que priorizo é onde gasto todos os meus esforços e energia. Podemos saber muito sobre as pessoas olhando o que elas repetidamente fazem e analisando os objetos de suas preocupações, porque elas só dispendem a maioria de seu tempo e outros recursos naquilo que, para elas, se sobressai em importância sobre as demais coisas. De sorte que, podemos até dizer que damos importância à família, aos amigos, ao trabalho, à igreja ou à religião, mas somente a avaliação de como concentramos nossos recursos em uma coisa ou outra vai dizer se realmente fazemos jus ao que dizemos.

O que estamos assistindo hoje é o solapamento da instituição familiar, por causa de uma cultura ruim que leva as pessoas a conferirem valores exagerados a aspectos secundários da vida e a diminuírem drasticamente aspectos que nunca deveriam ter saído do topo das prioridades, sendo a instituição famimiar a maior vítima dessa inversão de valores.

Todos os dias, alguns amigos, terapeutas familiares,  recebem pessoas se queixando das crises que suas famílias enfrentam, dos relacionamentos ruins com seus cônjuges e filhos, vão em busca de orientação e ajudas mágicas para resolverem os conflitos, porém muitas delas sem disposição para reverem seus valores e prioridade a fim de mudarem de postura para salvar o que nunca deveria ter sido posto em risco. Nas entrevistas terapêuticas, na maoria das vezes, descobre-se que o problema está na ordem invertida das prioridade estabelecidas, constatando-se que a família nunca esteve no topo dessa ordem. Às vezes os pacientes são profissionais bem sucedidos, homens de grande reputação social, grandes líderes religiosos que atingiram a posição onde estão à custa de grandes sacrifícios, situações reveladoras do que sempre foi prioridade na vida deles.  

Será que algum sucesso, em qualquer que seja o segmento social, justifica o sacrifício da própria família? O que mais poderia assumir o topo das prioridades de uma pessoa do que essa instituição sagrada de cuja saúde depende uma sociedade mais saudável? ...Desabafo com colegas psicoterapeutas meu temor de que estejamos numa luta inglória, orientando pessoas a combaterem apenas os efeitos de uma causa que permanece incólume, num verdadeiro processo de enxugar gelo, desconsiderando que as mazelas familiares se originam na implosão total dos valores sociais, na inversão de valores que tira da lista de prioridades fatores que são vitais para a felicidade humana e jogam no topo das prioridades o que é de somenos importância

Daremos apenas um exemplo do que que acabamos de afirmar: Consideremos que o trabalho é essencial na vida das pessoas (o trabalho, não necessariamente o emprego), mas sua importância é relativa à saúde e bem estar do indivíduo e da família (pois imagino que é para isso que trabalhamos), ou seja, o trabalho é um meio e não um fim em si mesmo, mas o que estamos vendo na atualidade é uma inversão de prioridades que leva muita gente a sacrificar tudo em nome da promoção profissional. Lembro-me de um amigo que desejava ser o melhor funcionário da empresa onde trabalhava até que percebeu que não era possível conciliar ser o melhor funcionário com ter uma família saudável. Resultado: contentou-se com uma posição média na empresa e priorizou a família e hoje ganha o suficiente para proporcionar uma vida confortável à esposa e aos filhos.

A graça da vida é que ela é um vasto campo de possibilidades, mas o angustiante é que todas as vezes que investimos recursos em uma escolha, automaticamente desinvestimos nas outras. Posto de outra forma, todas as vezes que fazemos uma escolha, abrimos mão definitivamente das outras possibilidades concorrentes. Sendo assim, para a construção de famílias saudáveis, acima de qualquer coisa, precisamos decidir que vamos ter uma família saudável e feliz, o que exigirá esforço, concentração de investimento e energia e muita paciência, principalmente porque a maneira individualista e competitiva como a sociedade hodierna se comporta só contribui para o solapamento da instituição familiar. Talvez seja preciso mesmo navegar contra a corrente social.

 Veja o exemplo de Josué. Ele disse “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24.15). E ele fez disso a prioridade de sua vida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PENSAR é o exercício de se perder com o objetivo de se encontrar

Perguntaram a razão de este blog receber este nome: PENSAR FAZ MUITO BEM,uma vez  que a sua mensagem é majoritariamente destinada a um público cristão que, ao que parece, tem pensamento bem definido acerca de si mesmo, da vida, de Deus... de tudo, e qualquer ação fora dos limites de seu mundo signica uma transgressão.  Eis o que respondi:

Por isso mesmo!Há muitos que, no afã de se guardarem, se perderam. Eles não sabem quem são, ou pensam ser apenas aquilo que sua estreita e míope visão lhes permite ver. 

Mas é preciso se permitir perder-se para poder se achar. Perder-se nos labirintos da dúvida, da incerteza, dos questionamentos aos princípios mais arraigados, da abertura para as versões diferentes, do contraditório a tudo o que se construiu em matéria de princípios.... permitir-se olhar a vida com o olhar de váriosoutros...Enfim, poder aprender coisasimpressionantes sobre si mesmo, sobre o outro, sobre a vida e sobre Deus.
 
O PENSAR FAZ MUITO BEM que dá título a esse blog é tudo isso aí. E é claro que o processo dói, mas faz um bem inestimável.
   

domingo, 26 de agosto de 2012

Josué, um líder engrandecido por Deus

“Mais digno de ser escolhido é o bom nome do que as muitas riquezas; e a graça é melhor do que a riqueza e o ouro”(Pv 22.1).

A Bíblia diz que o Senhor, como havia prometido, engrandeceu seu servo Josué diante de todo o povo de Israel (Js 3.7; 4.14) e fez de tal forma que o temor dele caiu até sobre seus inimigos. A promessa de Deus era a esse abnegado servo era: “Assim como fui com Moisés, serei contigo”. De posse da promessa, Josué transformou-se num excelente estrategista de guerra (Js 8.3-22). Os reis de Canaã nunca tinham conhecido estratégias tão eficientes, embora excêntricas, como a que Josué usara em Jericó. Viram a forma espetacular como o grande líder se insurgiu contra os habitantes da cidade de Ai. E o mais interessante: ouviram sobre a devoção de Josué a um Deus capaz de abrir o Jordão, ou antes o mar Vermelho, ao meio para fazer passar o seu povo. Por tudo isso, o temor caiu sobremodo sobre aquele povo. É obvio que o respeito a Josué devia-se ao fato de o Senhor Deus estar à sua frente, operando grandes sinais por meio dele. Aliás, é pertinente perceber o sentimento dos cananeus nas palavras de Raabe.

Bem sei que o Senhor vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiado diante de vós. Porquanto temos ouvido que o Senhor secou as águas do mar Vermelho diante de vós quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Seon e a Ogue, que estavam dalém do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isso desmaiou o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2.9-11).

Os anos de dedicação ao Senhor e a Moisés contribuíram muito para conferir honra e respeito ao bom nome de Josué. Aliás, respeito e honra não é algo que se impõe, mas algo que se conquista. A fé do servo de Moisés em Deus fê-lo tornar-se um líder de grande projeção para todo o povo (Js 1.16-18). Vale aqui transcrever o comentário do pastor Elienai Cabral sobre o bom nome de Josué.

O grande sábio Salomão declarou que mais “digno de ser escolhido é o bom nome do que as muitas riquezas; e a graça é melhor do que a riqueza e o ouro”(Pv 22.1). Josué tinha um bom nome que se destacou pela fidelidade a Deus e a Moisés. Quando ele e Calebe deram seu relatório diferente dos demais, enfrentaram resistência. Eles tentaram convencer a Israel de que deveriam entrar na terra prometida, mas ninguém deu muita atenção ao seu relatório. Eles ainda não tinham construído um nome que influenciasse suficientemente o povo para decidir entrar na terra. Aquele povo temia o futuro e estavam acomodados com as coisas do presente. Porém os anos se passaram e Josué conquistou o seu espaço de liderança, porque era um homem temente a Deus; era correto nas suas atitudes e procurou viver de acordo com um padrão que o tornou conhecido e influente. Ele ganhou bom nome porque sabia obedecer a Deus, sendo servo, guerreiro e líder do povo. Diante do desafio do Jordão, por sua liderança convenceu o povo de que Deus estava com ele e lhe daria vitória. Seu caráter era um referencial. Ele valorizava o que era certo, mesmo que, politicamente, não agradasse a todos. Essa postura tornou-se conhecida entre todos e tornou-se uma imagem positiva de influência. Por isso seu nome ganhou respeito, não só entre o seu povo, mas expandiu-se entre as nações (CABRAL, Elienai. Josué: um líder que fez a diferença. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p 94).

Antigos habitantes de Canaã


Quando os filhos de Israel chegaram à terra de Canaã, a região era habitada por um povo misto, descendente de Cã, um dos três filhos de Noé. Aliás, o nome da região vem de Canaã, um dos quatro filhos de Cã. No capítulo 10 de Gênesis, a Bíblia mostra que os filhos de Cã são: Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã (v 6). “E Canaã gerou a sidom, seu primogênito, e a Hete, e ao jebuseu, e ao amorreu, e ao girgaseu, e ao heveu, e ao arqueu, e ao sineu, e ao avardeu, e ao zerameu, e ao hamateu, e depois se espalharam a família dos cananeus” (15-18). Seis desses povos se juntaram numa confederação para guerrear contra Josué. No livro Josué, um líder que faz a diferença (cap 5), o pastor Elienai Cabral faz um levantamento muito claro das principais características desses povos. Reproduzimos a seguir o levantamento feito pelo dileto pastor, com apenas algumas adaptações.

1. amorreus. Os “amorreus” eram um povo montanhês que vivia em terras altas a oeste do mar morto, até Hebrom (Gn 13.18; 14.7,13), vindo a habitar, posteriormente, no planalto, a leste do Jordão, desde Arnon até Jaboque (Nm 21.13,27). Eles tinham grande domínio das montanhas de sua habitação e, por conseguinte, difíceis de serem surpreendidos e vencidos. Era um povo famoso pelas suas guerras (Nm 13. 29). Este povo tinha como característica principal a pilhagem e a destruição que suas tropas faziam com as cidades e reinos conquistados por eles. Quando atacados, reagiam com ferocidade e utilizavam o fogo como elemento destruidor (Nm 21.28).

2. cananeus. A palavra cananeu na língua hebraica refere-se à terra baixa. A Bíblia diz que os cananeus eram especialistas em artefatos de ferro (Jz 4.1-3). Afirmam os lingüistas que os cananeus tinham um idioma o qual falavam e escreviam, muito relacionado à língua hebraica. As provas dessas afirmações são oferecidas por arqueólogos que descobriram um dialeto cananeu escrito em inscrições feitas nas minas de turquesa no Sinai. Eram inscrições adaptadas de hieroglíficos feitos por símbolos fonéticos do dialeto cananeu. A civilização cananéia é identificada pela existência de uma biblioteca de literatura religiosa encontrada num local chamado Ugarite. A religiosidade pagã dos cananeus é uma mistura de mitologia e tinha como deus principal a Asera, mãe de Baal, deus da fertilidade.

3. Heteus. Descendentes de Hete, quarto filho de Cam. Habitavam nas regiões centrais da Palestina. Era um povo sem fixação certa, porque vivia em constante migração. Este povo foi listado como um que devia ser banido da terra de Canaã. Posteriormente vimos os heteus tomarem parte de uma guerra contra Israel (Js 9.1,2).

4. Heveus. São antigos moradores da terra de Canaã (Jz 3.1-3) e eram conhecidos pelas sutilezas criadas nas suas guerras, armando ciladas para os seus inimigos. Viviam nas montanhas do Líbano, desde o monte de Baal-hermom até à entrada de Hamate (Jz 3.3), que ficava na faixa das colinas do Líbano e do Hermom. Os heveus eram um povo astucioso, não necessariamente violento. Sua atividade econômica consistia no comércio de várias especiarias.

5. Girgaseus. Pode-se dizer que eram uma ramificação dos heveus, uma vez que estavam, segundo os historiadores, muito ligados a eles. Os girgaseus viviam em uma região de Canaã que era muito argilosa, ou seja, arenosa. Daí o significado do nome “girgaseu” que é “terra argilosa ou arenosa”.

6. Jebuseus. Os jebuseus habitavam a região mais tarde associada à tribo de Benjamim, especialmente a cidade de Jerusalém que, na época, chamava-se Jebus, (Js 18.28; Jz 19.10). Eram descendentes do terceiro filho de Canaã (Gn 10.16) e viviam nas montanhas ao redor de Jerusalém, entre os heteus e os amorreus (Nm 13.29).

7. Ferezeus. Eles aparecem como um povo agrícola na terra de Canaã, cujo nome pode significar “aldeões” ou “rústicos”, porque habitavam em lugares não murados, ao ar livre. Era um povo pobre que se preocupava apenas com as coisas que podia tirar da terra para sobreviver.

Obs. Gn 10.15 não menciona os ferezeus entre o grupo de cananeus.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Josué e os gibeonitas: ingenuidade e sagacidade


“Então, aqueles homens israelitas tomaram de sua provisão e não pediram conselho à boca do Senhor”.

Os homens vão nos surpreender sempre, às vezes pela grandeza de sua força, às vezes por sua fraqueza, ora por sua sagacidade, ora por sua ingenuidade. Ao ler sobre este fato fico me perguntando como foi possível um líder da envergadura de Josué precipitar-se tão ingenuamente em um acordo com os gibeonitas, incorrendo em três erros, no mínimo primários, para um grande líder. J. R. Lima.

Desde que Josué assumira o comando dos filhos de Israel, a nação eleita já tinha superado grandes obstáculos: haviam vencido as águas impetuosas do Jordão, desbaratado Jericó com seus muros imponentes e subjugado os corajosos habitantes de Ai. Os reis de Canaã, diante da incursão firme dos hebreus nessa terra, estavam assombrados com as proezas realizadas pelo exército destes. Parecia que nenhuma arma podia prosperar contra Israel, nenhum inimigo podia se suster diante de sua força. E a ordem de Deus era clara: os habitantes de Canaã teriam que ser eliminados, sem exceção. Mas eis que surge um inimigo diferente no caminho de Israel, usando armas mais sofisticadas e perigosas.  E o que seus compatriotas não puderam alcançar pela força, os gibeonitas tentaram pela astúcia. E funcionou. Josué e os anciãos de seu povo deixaram-se enganar pelos artifícios dos heveus, engano que traria deletérias e permanentes conseqüências ao povo de Deus. Uma análise dessa história nos advertirá sobre o perigo do engano e da falsa aparência no meio do povo de Deus.


A CONFEDERAÇÃO DOS REIS DE CANAÃ

Após as vitórias espetaculares de Josué sobre os habitantes de Jericó e Ai, Os demais reis da terra de Canaã concluíram que deviam agir imediatamente se não quisessem ter o mesmo destino daqueles. Imagino que, como acontece nos dias atuais, quando líderes de várias nações se juntam para tratar de assuntos comuns a todos, os reis de Canaã se reuniram em caráter emergencial, e Adoni-zedeque, rei de Jerusalém, abriu aquela sessão dizendo:

“Bom, imagino que todos sabemos o motivo por que estamos aqui. As notícias que estão nas páginas dos últimos jornais não são boas. Os hebreus intentam se apossar de nossas terras, dizendo tratar-se de uma promessa de seu Deus a eles. Por onde este povo tem passado, o terror se abate sobre todos, devido às proezas que vem realizando em nome de seu Deus. Não podemos mais esperar, precisamos agir rapidamente. É bem verdade que, entre nós, temos nossas diferenças, mas, em um caso como este, em que nós e nossos filhos estamos sob ameaça, deixemos de lado as diferenças e nos unamos, ou então seremos todos destruídos. Precisamos sair da defensiva já e partir para o ataque”.

Formou-se, então, uma coalizão entre heteus, amorreus, cananeus, ferezeus, heveus e jebuseus  para lutar contra Israel. Não sabiam aqueles reis que à frente de Israel estava o príncipe do exercito do Senhor (Js 5.14), que, portanto, nada nem ninguém poderia se suster diante de Josué. O G6 (grupo dos seis) começaria atacando a cidade de Jibeão, cujos moradores vão se aliar à nação santa. Ali aconteceu o primeiro e decisivo confronto (ver Js 10.6-14).


O ARDIL DOS GIBEONITAS (9.315)

Os gibeonitas eram heveus habitantes de Gibeom (Js 9.7), cidade governada por um concílio de anciãos (Js 9.11). Dados históricos mostram que os heveus eram um povo ardiloso e conhecido pelas armadilhas que preparavam para os seus inimigos. Aliás, era comum povos antigos e beligerantes apelarem para a astúcia, quando a força não era suficiente para vencer um exército inimigo. O povo de Gibeom soube das espetaculares vitórias de Josué contra Ai e Jericó. Ainda mais assustados estavam pelo fato de que fenômenos sobrenaturais acompanhavam as batalhas, prova da presença de um Deus terrível entre eles. Pelos cálculos que fizeram, não tinham nenhuma chance de subjugar os israelitas. Sabiam que seriam mortos com seus filhos e mulheres, pois a ordem de Deus era clara: deveriam ser banidos da terra prometida (Dt 7.1-6). Concluíram, então, que o único meio de se salvarem era forçar a nação eleita a fazer um pacto de não agressão com eles. Para isso aproveitariam a empolgação dos filhos de Israel com a recente vitória sobre Ai. Estes ainda comemoravam. Quem sabe haviam se estribado por um momento na própria destreza, esquecendo que à frente daquela batalha estivera o anjo do Senhor para guerrear e orientá-los, como foi feito contra Jericó. O gibeonitas então entenderam que era hora de agir. Agir rápido, pois Israel estava sob forte emoção. E a razão diz que decidir sob forte emoção é extremamente arriscado.

Pode-se, em plena guerra, subestimar os ardis do inimigo? Paulo, falando de nosso arquiinimigo, salientou que nós não ignoramos os seus ardis (2 Co 2.11). Por isso, o mesmo apóstolo nos adverte a que vigiemos e oremos em todo o tempo (Ef 618). Mas Israel descuidou-se. E pagou um preço alto por isso.

Os homens vão nos surpreender sempre, às vezes por sua força, às vezes por sua fraqueza, ora por sua sagacidade, ora por sua ingenuidade. Ao ler sobre este fato fico me perguntando como foi possível o grande líder Josué precipitar-se tão ingenuamente em um acordo com seus inimigos, incorrendo em três erros, no mínimo primários, para um grande líder.

A tentação das palavras lisonjeiras. Note que os gibeonitas se apresentaram a Josué dizendo “nós somos os teus servos” (9.8). Quando instados por Josué a dizerem quem realmente eram, eles continuaram: “Teus servos vieram de uma terra bem distante por causa do nome do Senhor, teu Deus; porquanto ouvimos a sua fama e tudo quanto fez no Egito; e tudo quanto fez aos dois reis dos amorreus que estavam dalém do Jordão...” (9.9,10). É inescapável o apelo que fizeram ao orgulho dos filhos de Israel, apresentando como motivo de sua vinda os extraordinários feitos do Senhor, o de que Israel mais se “orgulhava”. Parafraseando os gibeonitas: “Rapaz, que Deus tremendo é esse vosso. A gente acompanha a notícia de seus feitos desde o mar Vermelho, passando pelas suas proezas no deserto. Ouvimos de como Ele abriu o rio Jordão e venceu os reis de Jericó e de Ai! Nós não víamos a hora de nos encontrarmos convosco e fazer parte do vosso povo tão especial, e servir a este Deus invencível”. Funcionou. Faltou a Josué a clarividência de Paulo, para entender que nem todos que falam bem de nós são dos nossos (ver At 16.17,18). Na verdade, não era devoção, admiração ou temor ao Senhor que motivavam os gibeonitas, mas medo de perder a vida.

Agiram sob forte emoção. Haviam saído de uma derrota vergonhosa, por causa do pecado de Acã, para uma vitória espetacular depois do sacrifício deste. A perda de alguns homens na guerra contra Ai, acrescida da morte de Acã com toda a sua família, causou, sem dúvida, grande comoção sobre o povo. Logo em seguida, o Senhor os lidera numa espetacular vitória sobre Ai. Transitaram brevemente entre um extremo e outro. Este misto de emoções - luto e júbilo - causa um grande desgaste emocional, levando a um estado considerável de vulnerabilidade. O ambiente estava propício às ações ardilosas do inimigo. Em momentos de forte emoção, é perigoso tomar qualquer decisão sem consultar ao Senhor. E por falar em consultar ao Senhor...

Não consultaram ao Senhor. O versículo 14 (cap 9) é taxativo: “Então, aqueles homens israelitas tomaram de sua provisão e não pediram conselho à boca do Senhor”. Talvez o tempo que tomassem para a oração seria o suficiente para descobrirem a trapaça. Mas Josué e os anciãos não oraram. Entraram presunçosamente em um irrevogável concerto com os gibeonitas. E o fizeram jurando pelo nome do Senhor, o qual eles nem sequer consultaram (V 18). Que tragédia: esta decisão trouxe para dentro da comunidade Israelita aqueles que, segundo a ordem de Deus, deveriam ser destruídos (ver Dt 7).

Os ardis ocultam males destruidores (9.3,4). Aqueles homens, aparentemente bem intencionados, escondiam a sua verdadeira identidade, com o propósito de escaparem de uma sentença que já havia sido determinada para eles. A medida de suas iniquidades já havia enchido (ver Gn 15.15). Deus não os pouparia (ver Dt 7.1-6). Até porque o Eterno sabia que, se alguns daqueles povos fossem poupados, serviriam como pedra de tropeço e inspiração de idolatria para Israel. Sem dúvida, eles ponderaram que os israelitas eram um povo que tinha a justiça e a lealdade em alto conceito, e que serviam a um Deus justo. Então eles procuraram enredar Israel no seu próprio conceito de justiça e lealdade. Sabiam, é claro, que logo a sua verdadeira identidade seria descoberta, “ mas”, cogitaram, “apenas depois de fazermos um pacto com Israel, o qual, seguindo o seu alto conceito moral, não poderá invalidar”. Notemos, então, que a intenção por trás do ardil era primeiramente levar a nação santa a desobedecer à ordem de Deus, o que abre as portas para males destruidores; segundo: enredar Israel no seu próprio conceito de justiça. Tanto é que, descobrindo Josué que havia sido enganado, apesar da indignação do povo, nada pôde fazer contra os gibeonitas, pois os anciãos de Israel já haviam feito aliança com eles, havendo jurado em nome do Senhor. Seria cômico se não fosse trágico: mais tarde Israel se sentiu na obrigação de defender numa guerra aqueles a quem receberam ordens claras de Deus para destruir (Js 10.6-11). Por muitos anos depois, Israel ainda sofreria as conseqüências de sua decisão inconsequente, pois, em muitas ocasiões, os heveus causaram grandes angústias aos filhos de Abraão (Jz 3.1-3; 2 Sm 21. 1, 2).

A estratégia dolosa dos gibeonitas. Agir com dolo é planejar, deliberadamente, cada etapa do próprio ato criminoso. Os gibeonitas foram precisos. O primeiro passo de sua estratégia era fazer Josué acreditar que eles eram moradores de uma terra distante. Se errassem aqui, estariam perdidos. A Bíblia mostra com detalhes a maneira ardilosa e “inteligente” como teceram a rede que enlearia Israel. “Tomaram sacos velhos sobre os seus jumentos e odres de vinho velhos, e rotos, e remendados; e nos pés sapatos velhos e remendados e vestes velhas sobre si; e todo o pão que traziam para o caminho era seco e bolorento” (Js 9.4,5). Em seguida, fizeram a nação santa acreditar que eles estavam encantados com o Deus de Israel. Foi uma conjugação de aparência e lisonja.

Tomemos cuidado! Os nossos inimigos sabem tecer suas redes. Lembra a arapuca que Balaão armou para os filhos de Israel? (ver Nm 22.5-24.25; Dt 23.4; Jd 11). E o que armaram para Daniel na Babilônia? (ver Dn 6). Para encerrar, veja a armadilha que Semaías perpetrou para Neemias (Ne 6.10-13). Estes dois últimos escaparam porque não se deixaram levar pela falsa aparência das coisas, pois buscavam sempre a orientação de Deus.

O perigo da convivência com o engano. Pior do que ser enganado uma vez é a sensação de estar habitando nos meio de enganadores. O salmista Davi já dizia: “Livra-nos, Senhor, porque faltam os homens benignos; porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens. Cada um fala com falsidade ao seu próximo: falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado” (Sl 12.1,2). Veja a preocupação de Paulo com o perigo do engano: “...em perigo dos da minha nação, em perigo dos gentios... em perigo entre os falsos irmãos (2 Co 11.26). Depois de haver feito um pacto com os gibeonitas, Israel foi forçado a conviver com eles. Isso não era nada confortável. Já experimentou conviver com alguém em quem você não confia pelo fato de já ter sido enganado por ele? Pois é, o fermento já havia sido lançado no meio da massa. E o apóstolo Paulo disse que “um pouco de fermento faz levedar toda a massa” (1 Co 5.6). Israel teria que carregar aquele fardo por longos anos. Para nós, que somos os destinatários de tudo quanto foi escrito, o que é para o nosso ensino (Rm 15.4), fica o conselho do apóstolo: “Não durmamos, pois, como os demais [ os israelitas?], mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1 Ts 5.6).


A FARSA DESCOBERTA (9.16-22)

Ao cabo de três dias, a verdade sobre os gibeonitas veio à superfície. Aqueles “moradores de terra longínqua” eram, na verdade, vizinhos de Gilgal, das cidades de Gibeom, Cefira, Beerote e Quiriate-Jearim. Sinceramente acredito que os gibeonitas não se surpreenderam com a rapidez com que Israel descobriu a farsa, já esperavam por isso. Como já dissemos algures, eles queriam apenas forçar um pacto de não agressão, o qual, por uma questão de fidelidade, a nação santa dificilmente quebraria.

É notável aqui a indignação do povo. Havia murmurações e, provavelmente, questionamentos: como puderam os príncipes de Israel cometer um erro primário e tão infantil como este? A história sempre se repete porque o homem ainda é o mesmo. Ainda hoje somos surpreendidos por grandes líderes tomando atitudes infantis e tresloucadas no seio de muitas igrejas. Tantas vezes nos deparamos com situações em que a congregação está estupefata diante de decisões que se mostraram danosas. E, se os crentes se mostram surpresos, é porque nunca esperavam tal comportamento de um líder que pautou toda a sua vida em um relacionamento estreito com Deus e que nunca havia descuidado de buscar as orientações divinas.

A Josué não restava outra saída que não honrar o acordo com os enganadores. Segundo um ditado popular, um erro não concerta o outro. Apesar de agora saber que os gibeonitas o haviam enganado, Josué não podia invalidar o acordo que fizera com eles em nome do Senhor. Seria agravar ainda mais a situação. Então, apesar da pressão do povo, os príncipes de Israel se mantiveram firmes e leais ao concerto que haviam feito. “Estão todos os príncipes disseram à congregação: Nós juramos-lhes em nome do Senhor, Deus de Israel; pelo que não podemos tocar-lhes” (Js 9.19). Eugene Merrill faz uma observação que vale a pena reproduzir.

É claro que os gibeonitas eram alvo do herem [anátema], juntamente com os demais cananeus, e por isso deveriam ser destruídos (Dt 20.16,17). Em vez disso, despercebido como estava Josué, o pacto teve que vigorar e os gibeonitas com seus amigos heveus de Quefira (Tel Kefireh), Beerote (Nebi Samwil?) e Quiriate-jearim (Qiryat Ye’arim) conseguiram sobreviver, e todas as vilas que ficaram nos oitos quilômetros de Gibeão foram permitidas viver (Merrill, E. H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, pp. 112-3. In CABRAL, Elienai. Lições bíblicas – livro de Josué: as conquistas e as promessas do povo de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 4º trim de 2008, p. 61).

Nós vemos a responsabilidade dessa aliança pesar nos ombros de Israel até nos dias de Saul e Davi (2 Sm 21. 1-9). Analise esses versículos com cuidado e veja a seriedade do juramento feito em nome do Senhor.

Depois do erro cometido, a melhor atitude é reconhecê-lo, assumi-lo e procurar amenizar as conseqüências dele. Foi o que fizeram humildemente Josué e os príncipes de Israel. Pouparam os gibeonitas da morte, imposta a seguinte condição: seriam rachadores de lenha e tiradores de água para toda a congregação e para o altar do Senhor. Começaram a viver uma situação análoga à escravidão, de qualquer maneira, uma condição melhor que a morte.

Sendo a igreja de Cristo o novo Israel de Deus e militando para tomar posse da cidade que lhe fora prometida, ainda hoje é alvo de ardis perpetrados pelos gibeonitas atuais, cuja roupagem pode não ser rota e cujo pão pode não ser velho, mas continuam vindo disfarçados para enganar o povo de Deus. Paulo avisara a Timóteo que, nos últimos tempos, espíritos enganadores se introduzirão na igreja e semearão doutrinas destruidoras (ver 1 Tm 4.1). É preocupante o que estamos vendo nos dias atuais, muitos líderes e pregadores comprometidos consigo mesmos, desviando o povo de Deus da verdade do evangelho por suas mentiras e operação do erro. É a época do vale tudo pelo sucesso. E, no afã de atingirem seus objetivos, muitos desprezam a exegese bíblica e usam e abusam de seu antônimo, a eisegese, introduzindo nas santas Escrituras aquilo que ela nunca disse, a fim de atingirem seus propósitos. A igreja de Cristo, como nunca, precisa estar atenta. Vale reproduzir aqui o comentário do pastor Elienai Cabral sobre esses falsos mestres.

De vez em quando nos deparamos com os disfarces de algumas pessoas que se dizem pastores, pregadores e líderes, os quais trazem para dentro da igreja os seus costumes mundanos. São pessoas que fingem ser possuidores de unção especial, que ostenta uma falsa espiritualidade e acabam por contaminarem o povo de Deus (Tt 1.16). A mistura no seio do povo de Deus, como fermento na massa, sempre será maléfica (1 Co 5.5-7). Essa mistura do verdadeiros com o falsos irmãos é perniciosa (2 Co 11.26). No ministério cristão aparecem os lobos cruéis vestidos de ovelhas (At 20.29) e “obreiros fraudulentos” (2 Co 11.13). Esses “rachadores de lenha” não fazem o trabalho por amor, mas porque não podem fazer outra coisa, por isso, podem ser aqueles que procuram “rachar” (dividir) o Corpo de Cristo, produzindo dissensões e divisões (CABRAL, Elienai. Josué: um líder que fez a diferença. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p 98).


CONCLUSÃO

A Bíblia diz que tudo quanto foi escrito, para o nosso ensino foi escrito (Rm 15.4). Os tempos mudaram. Mas o novo Israel de Deus ainda luta para conquistar a terra prometida (Gl 5.16; Hb 11.14-16). E os gibeonitas ainda estão aí, vestindo outras vestes, é claro, usando outros artifícios, porém com o mesmo objetivo: enredar o povo de Deus. Devemos estar, pois, atentos, buscando sempre a orientação do Senhor para que não incorramos no mesmo erro em que Josué e os anciãos de Israel incorreram. Satanás, nosso adversário, está ao nosso derredor, bramando como leão, procurando a quem possa tragar (1 Pe 5.8). Sejamos sóbrios e vigiemos.

BLIOGRAFIA

Bíblia de Estudo pentecostal/ CPAD.

------------------ aplicação pessoal/ CPAD.

Bíblia de referência Thompson/ Vida.

CABRAL, Elienai. Lições bíblicas – livro de Josué: as conquistas e as promessas do povo de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 4º trim de 2008.

------------------ Josué, um líder que fez a diferença. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.

MERRILL, E. H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

OLSON, Nels Lawrence. O plano divino através dos séculos. Rio de Janeiro: CPAD, 1981.

MONEY, Netta Kemp de. Geografia histórica do mundo bíblico. São Paulo: Editora Vida, 1977.

O Novo Dicionário da Bíblia. Editado por R. Shedd. São Paulo: Vida Nova, 1995.

A missão social da igreja

“Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o Senhor o livrará no dia do mal” (Sl 41.1).

O engajamento da igreja no serviço social, socorrendo os pobres em suas diversas necessidades, diferente do que pensam muitos, não é um desvio de sua missão, mas parte intrínseca dela. Segundo podemos inferir da Palavra de Deus, a igreja tem a obrigação (não a opção) de minorar o sofrimento humano, seguindo assim o exemplo de seu grande Mestre (At 10. 38, Lc 4.18; ver Tg 1.27). Muito boa esta oportunidade em que trataremos da responsabilidade social da igreja de Cristo.


MEIOS DE SE EXERCER A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No livro Ação Social Cristã, o pr. Hélcio da Silva Lessa classifica a responsabilidade social em três categorias: assistência social, serviço social e ação social. Para melhor compreensão da aula, vamos ver sucintamente a definição de cada uma delas.


Assistencialismo. Conhecido como assistencialismo ou paternalismo, busca atender às necessidades emergentes das pessoas. A pessoa atendida, objeto da ação, encontra-se numa situação de total dependência e, mesmo havendo o suprimento de suas necessidades, as suas carências continuam.

Serviço Social. Aqui, a pessoa carente recebe condição para interagir e melhorar sua situação, recuperando a dignidade e confiança. Projetos sociais tendo como alvo o ensino, a orientação, o apoio, a profissionalização promovem a capacitação do indivíduo a fim de que este se torne responsável pela solução de seus problemas.

Ação Social. Procura transformar as estruturas da sociedade, buscando a criação de bases mais justas. Neste sentido, é muito importante que seja criada uma consciência cívica no meio evangélico, que leve cristãos aos órgãos públicos que estão diretamente relacionados com a infra-estrutura sócio política do país (do Manual de Ação Social/ Igreja Metodista).


A BÍBLIA E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

No Antigo Testamento (Dt 15.10,11). Havia na comunidade israelita do antigo Testamento um profundo senso de responsabilidade social como resultado da obediência à Palavra de Deus que determinava que os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos fossem assistidos e socorridos em suas necessidades básicas (Dt 15.7-10; Lv 19.10; 23.22; Ex 23.11). Vejamos como Deus, que nunca deixou de se preocupar com a dignidade humana, estabeleceu medidas econômicas e sociais para o seu povo, visando relações justas entre eles.

O ano sabático (Lv 25.1-17). A cada sete anos, o solo deveria ser liberado para descanso e renovação da terra, os escravos seriam libertados, os endividados, perdoados e os trabalhadores tinham direito a descanso. Outrossim: os pobres tinham o direito de colher por si mesmo do fruto da terra (23.10,11).

A lei do jubileu (Lv 25.8-34). Entre outras coisas, determinava que, a cada cinqüenta anos, (1) os escravos seriam libertados; (2) todas as dívidas seriam perdoadas; (3) as terras seriam devolvidas aos seus antigos donos. Essas medidas evitavam a concentração de riquezas (diga-se de terra), promoviam a redistribuição dos meios de produção e evitavam situações extremas de dívidas, pobrezas, desapropriação e miséria.

Dízimos e colheitas (Dt 14.22-29; Lv 19.9,10). Os dízimos de toda a produção agrícola se destinavam, entre outras coisas, para o sustento dos órfãos, viúvas e estrangeiros. Em relação a colheita, a palavra de Deus determinava: “E quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás...” (Lv 23. 22). Tais procedimentos protegiam os estrangeiros e evitavam a pobreza extrema no meio do povo. Rute, nora de Noemi, foi beneficiada por esta lei (Rt 2.2,3).


No Novo Testamento (Mt 26.11; Gl 2.10). Na palestina do Novo Testamento, a situação sócio-econômica da maioria das pessoas era deplorável. É tanto que os necessitados acorriam, aos borbotões, à presença do homem de Nazaré, a fim de serem ajudados, muitos apenas para matar a fome (Jo 6.26). Eles eram pobres, enfermos, deficientes físicos, viúvas, crianças, idosos, desamparados, desabrigados e maltratados (Lc 14.13,14).

O exemplo de Jesus. Jesus foi, sem dúvida, o maior exemplo de preocupação e auxílio aos necessitados. Seus ensinos e obras o demonstraram. Uma de suas ricas parábolas é a do bom samaritano, o bondoso homem que arriscou sua vida para cuidar de um necessitado desconhecido, com quem nem o sacerdote nem o levita se importaram (Lc 10.25-37). Essa parábola ainda hoje exerce grande influência nas civilizações. Em outra parábola – sobre as ovelhas e os bodes – Jesus se identifica tanto com os pobres a ponto de dizer: “O que vocês fizeram a um destes pequeninos irmãos [os pobres necessitados], a mim o fizeram” (Mt 25.40). Ele Não podia ver os miseráveis sem se compadecer (Mt 9.36; 14.14; 20.34; Mc 10.45). Uma vez, chegou a convidar um homem rico a vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mt 19.21).

Jesus encarnou o amor e preocupação de Deus com os pobres tão nitidamente manifesta no Antigo Testamento. A sua compaixão com os miseráveis responde a uma pergunta que é constante no coração de quem sofre: “Deus se importa?” Jesus responde que sim.

“Jesus se preocupou com o homem enquanto unidade física-psiquica-espiritual. Ele curou, ensinou, salvou, consolou. Cuidou do ser humano por inteiro, rejeitando totalmente a visão grega que valoriza a dimensão espiritual em detrimento da material. A prática de Jesus segue uma seqüência marcada pelo ver, sentir e agir. Nesse sentido, é interessante notar que nos vários encontros de Jesus com as pessoas, indivíduos ou grupos, a ação de Jesus foi marcada por uma completa coerência com seus ensinos. Por isso Pedro apresenta Jesus como ‘aquele que andou fazendo o bem”’ (Manual de Ação Social / Igreja Metodista Livre / www.metodistalivre.org.br).

O exemplo da igreja primitiva. Ainda que vamos tratar mais detalhadamente sobre a igreja primitiva no próximo tópico, vale acrescentar aqui que aquela igreja seguiu em tudo o exemplo de Jesus no seu cuidado para com os necessitados. Segundo a narrativa de Lucas, uma ação usual entre os primeiros cristãos era a partilha de bens para atender os mais necessitados (At 2.44,45; 4.34,35). Alguns irmãos, voluntariamente, vendiam suas propriedades para suprir as necessidades dos mais carentes. Por isso, “todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum... não havia entre eles necessitado algum” (At 2.44; 4.34).

O incentivo apostólico. Os apóstolos, nas cartas que escreveram às várias congregações, também incentivaram o compromisso social cristão. Paulo trata da liberdade da contribuição (I Co 9.7) e elogia os macedônios por darem na medida de suas posses e ainda acima delas (II C 8.3). Tiago fala da assistência aos necessitados como característica inerente à religião pura (Tg 1.27) e condena abertamente os ricos que oprimem os pobres (Tg 5.1-6). João fala do socorro aos necessitados como a materialização da caridade de Deus em nós (1 Jo 3.17,18).

A IGREJA PRIMITIVA E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

Como não poderia ser diferente, a igreja primitiva seguiu o exemplo de Jesus, seu Mestre. A grande sensibilidade de Jesus para com as necessidades humanas, vemo-la agora nas ações daquela primeira comunidade cristã, traduzida no cuidado de uns para com os outros. Após o grande despertamento promovido pela descida do Espírito Santo (At 2), os discípulos do Senhor anunciaram veementemente o Evangelho, o que resultou num crescimento frenético do número de fiéis, os quais se organizaram numa comunidade fiel, calcada na doutrina, na comunhão, fraternidade e oração (At 2.42; 4.31; 5.42). Aqueles discípulos souberam conjugar a prática da evangelização com a prática do serviço social, esta última, parte integrante daquela.

Doutrina dos apóstolos. “E perseveravam na doutrina dos apóstolos”. Compreende-se por “doutrina dos apóstolos” o conjunto de ensinamentos que Jesus passou para os doze apóstolos nos seus três anos de ministério. O Espírito santo estaria encarregado de fazê-los lembrar de tudo o que ouviram (Jo 14.26). Nos seus últimos dias de ministério terreno, a ênfase de Cristo recai sobre dois assuntos imprescindíveis à vida da igreja: evangelização e amor ao próximo (Mc 16.15-19; Mt 28.18,19; Lc 24.47,48; Jo 13.12-15; 34,35; 15.12,17). Foi nessa doutrina que a igreja perseverou, o que é a causa do seu extraordinário êxito.

Comunhão. Lucas nos conta que os primeiros discípulo de Cristo “perseveravam na comunhão...e era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (At 2.42, 44-46; 4.32-35). Comunhão significa partilhar juntos do mesmo propósito. Como bem expressou o comentarista da lição em apreço, “ [comunhão] é relacionamento íntimo e fraternal entre os irmãos”. Essa foi uma marca da igreja primitiva, que se traduzia na forte sensibilidade dos crentes pelas necessidades uns dos outros.

Solidariedade. “E perseveravam no partir do pão”. *Em Atos 2.42, pode referir-se tanto às refeições comuns quanto à ceia do Senhor. Era costume, entre os judeus, representar a comunhão entre as pessoas, segurando com as mãos o pão e partido-o em pedaços, em vez de corta-lo (Lc 22.19; 1 Co 11.24). Era um ato de fraternidade e solidariedade entre irmãos. Essa prática sugere a necessidade de a igreja partilhar, por meio do serviço social, o pão material com os necessitados.

Oração. “E perseveravam na oração”. Os crentes primitivos estavam juntos também em oração. Eles estavam em um mesmo espírito, fé e amor, por isso havia uma assídua participação nas reuniões de oração. A oração em conjunto também é uma maneira de desfrutar da comunhão. Os crente podem orar pelos problemas da comunidade à sua volta e pelas necessidades uns dos outros. Essa era uma prática constante na igreja primitiva.

* Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º trimestre: 2007.


IGREJA E SENSO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL.

Para a igreja primitiva, atender às necessidades dos mais pobres não era uma opção, era uma necessidade. O amor de Deus, derramado no coração dos crentes, os constrangia. No entender do apóstolo João, “Conhecemos a caridade nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar o seu coração, como estará nele a caridade de Deus?” (1 Jo 3.16,17). Logo, a o senso de responsabilidade social daquela igreja não era o resultado de plebiscito que optou por assim fazer, mas era o resultado de valores espirituais e morais profundamente arraigados naquela comunidade cristã.

A igreja era caridosa (At 2.45). A caridade é o amor em ação. É o fruto do Espírito (Gl 4.22). A igreja era - e ainda deveria ser - a materialização do amor de Deus. Lucas nos conta que aqueles primeiros crentes “vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade”. Era muito mais que palavras. Era ação. O apóstolo João, mais tarde, lembraria aqueles dias na sua carta universal, ao dizer: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Alguém disse certa vez que as pessoas podem até duvidar daquilo que você diz, mas nunca daquilo que você faz. A igreja daqueles dias era uma igreja que fazia, por isso caía na graça de todo o povo (At 2.47).

Consciência das necessidades materiais dos cristãos (At 11.27-30). Lucas relata a profecia de Ágabo acerca da grande fome que viria sobre todo o mundo, o que, de fato, ocorreu no governo de Cláudio César entre 45 e 54 d.C. Esse fato também é relatado pelo historiador judeu Flávio Josefo. Agora, a igreja de Jerusalém padecia de grande necessidade. A igreja de Antioquia não perde tempo. Está consciente de suas das necessidades de seus irmãos e de suas responsabilidades. Por mãos de Paulo e Barnabé, os discípulos antioquenses mandaram, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos em Jerusalém. Em outras passagens bíblicas, vemos Paulo levantando ofertas na Acaia e na Galácia para suprir as necessidades daqueles irmãos (Rm 15.26; 1 Co 16.1-3).

A igreja primitiva cumpria sua missão social. * A igreja não apenas pregava o Evangelho, mas também atendia àqueles que necessitavam de socorro físico e material. Os seguintes princípios devem nortear o serviço social da igreja:

Mutualidade – isto é, ser generoso, recíproco, solidário.

Responsabilidade – trata-se de privilégio e não obrigação (2 Co 8.4; 9.7).

Proporcionalidade – contribuição de acordo com as possibilidades individuais (2 Co 9.6,7).

* Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º trimestre: 2007.


CONCLUSÃO

A preocupação com o bem-estar da pessoa humana é uma constante na Palavra de Deus, desde os dias do Antigo Testamento (Lv 23.22; Dt 15.11; Sl 41.1). No Novo Testamento, se evidencia de forma gritante nas ações de Jesus, o qual andou fazendo o bem e libertando todos os oprimidos (Lc 4.18; At 10.38). Finda a sua missão terrena, o Filho de Deus transferiu à sua igreja, como parte de sua missão, o cuidado com os pobres ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós”. Uma igreja que apenas se importa com a salvação da alma, não atentando para as outras necessidades básicas dos pecadores, sem dúvida é uma igreja que não tem consciência de sua real missão.


BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Estudo Pentecostal/ CPAD.

Gianastacio, Vanderlei/ Uma igreja que faz e acontece: responsabilidade social, cidadania e serviço à luz do Novo Testamento/ São Paulo: Vida Nova, 2006.

Kennedy, D. James / E se Jesus não tivesse nascido? / Editora Vida.

Stott, John / Evangelização e Responsabilidade Social / São Paulo, ABU, 1983.

O Novo Dicionário da Bíblia/ Editado por J. D. Douglas/ Vida Nova.

Manual de Ação Social da Igreja Metodista Livre / Editado por Yuri Kikuti, Vera Takamura e pra. Kátia Okada.

Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º trimestre: 2007.

Lições Bíblicas CPAD/ Comentário da carta aos Romanos/ 2º trimestre: 1998.

Lições Bíblicas CPAD/ Atos, o padrão para a igreja da última hora/ 3º trimestre: 1996.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O que não faz mais sentido

Acho que quase todas as pessoas têm o costume de guardar um amontoado de coisas em algum canto da casa. Imaginam que  podem ser úteis um dia, ou então porque lembram bons momentos distantes, ou simplesmente porque se acham incapazes de se livrar delas por causa do fascínio que exercem. Assim, há quem faça coleção de chaves, cartões de aniversário, canetas, cadernos e agendas antigos, ferramentas gastas, roupas desbotadas etc. Antes que me esqueça, acrescento a essa lista os textos, documentos e recortes de jornais que são as coisas que sou viciado em guardar. Guardo-os com a mais sincera intenção de relê-los um dia. 

Mas o danado é que o espaço vai se apertando, e o tempo se exaurindo na medida em que  o acúmulo anoso dos objetos de nossa devoção se expande, forçando a gente fazer uma limpeza de vez em quando. Não que um dia o espaço nos falte totalmente, pois o imagino infinito   mas porque, à semelhança da memória do computador, quanto mais espaço livre tivermos, mais agilidade teremos na execução de tarefas. Em relação ao tempo, não posso dizer o mesmo, pois o tempo fica mais escasso na proporção inversa em que aumentam as velas em nosso bolo de aniversário.

Refletindo assim, resolvi rever todos aqueles textos que guardei ao longo dos anos no fundo da gaveta com a intenção de retomá-los sabe-se lá quando. Passei um por um, apreensivo pela seleção  angustiante que teria que fazer, determinando o que ficaria e o que iria embora. O resultado foi surpreendente: joguei quase todos fora. Primeiramente porque conclui não haver mais tempo para retomá-los, pois tenho menos dias para gastar e, por conseguinte, preciso focar o que é rigorosamente essencial. Ouvi de alguém que depois de alguns aniversários, o trivial e o importante vão ter que dar lugar ao indispensável. Segundo, percebi que a maioria daqueles escritos, que já li com tanto entusiasmo, já não fazia sentido para mim. Ou eu não fazia mais sentido para eles. E pensar que há poucos anos, eu não abriria mão desses textos por nada. Mas agora foi tão fácil jogá-los. Os textos eram os mesmos, dos mesmos autores, sobre aquelas mesmas circunstâncias e temas, mas eu era outra pessoa.

Mas nossos baús e bagagens não se restringem a coisas apenas. Nós também guardamos pensamentos, sentimentos e emoções que cavaram sulcos profundos na alma. Conservamos lembranças de pessoas e momentos que não queremos esquecer, porque exercem fascínio muito grande sobre nosso espírito. E semelhante à limpeza que precisamos fazer em relação às coisas guardadas, há uma necessidade de, vez por outra, nos desprendermos de algumas lembranças, sentimentos e emoções, bagagens que apenas ocupam espaço, visto que não será mais possível retomá-las. E isso também por uma questão de tempo e de sentido. Acredito que toda pessoa já passou pela experiência de despedir-se de um amigo ou de um amor com juras eternas de lealdade, quando houve a necessidade de mudar de uma cidade para outra. Mas o tempo passa e, quando volta, não consegue mais se relacionar como antes, tudo é tão estranho. Isso acontece porque as pessoas mudaram, principalmente por causa do contato de uma das partes com novos ambientes e relações, e torna-se impossível retomar a convivência do jeito que já fora. Já dizia Heráclito, filósofo grego, que "é impossível pisar no mesmo rio duas vezes". Na segunda pisada, já não se trata do mesmo rio, nem da mesma pessoa.

Mudamos o tempo todo, na medida em que o mundo nos afeta. Essas mudanças tiram todas as coisas de sua posição anterior, alterando toda a realidade. E é a partir dessa compreensão que podemos discutir a questão do significado inconstante de tudo o que existe, e do sentido da vida.  A questão sobre o sentido da vida com todas as suas nuances é muito abordada na filosofia e psicologia. A existência é uma roda que gira o tempo todo, tirando e trocando tudo de lugar, o que Chico Buarque traduziu brilhantemente na música Roda Viva. Neste vai-e-vem, tudo o que existe troca de papel, assume novas roupagens e muda de significado para os elementos relacionados.

Na roda da vida, o que um dia foi importante pode deixar de sê-lo, e o que era irrelevante pode vir a assumir valor fundamental, mas tudo dentro de um processo que  quase nunca acontece de forma clara para nós. É necessário, portanto, discernimento para avaliar, de acordo com o momento, qual o grau de importância que não somente as coisas, mas também as relações ainda têm para a vida. Somente assim, podemos nos desprender de tudo que já não tem sentido para propiciar uma vida fluida e feliz, e buscar novos caminhos, novos significados, num exercício de seleção que evitará o acúmulo de resíduos que servem apenas para ocupar espaço e obstruir o sistema, causando preocupações desnecessárias.  Ouvi de uma professora que " a gente se agarra a sentidos fixos para não dar conta da angústia". Agarrar-se a sentidos fixos é fugir do desespero por perceber que algo, outrora muito significativo, pode estar destituído de importância hoje.

O danado é que quase nunca temos lucidez  na avaliação daquilo que ainda é ou não importante. O que ainda é ou não insignificante. Muitas coisas que conservamos porque nos traz algum conforto pode ser um entrave ao nosso crescimento.  Li em algum lugar que o guardião dum mosteiro zen-morreu e foi preciso encontrar um substituto para ele. Assim, o grande mestre convocou todos os discípulos para determinar quem seria o novo sentinela. Então, com muita tranquilidade, falou: "Assumirá o posto o primeiro monge que resolver o problema que vou apresentar". Em seguida, colocou uma mesa magnífica no centro da sala em que estavam reunidos e pôs sobre ela um vaso de porcelana muito raro com uma rosa amarela de extraordinária beleza a enfeitá-lo. Então disse: "Aqui está o problema!" Os presentes ficaram olhando a cena sem entender o significado. De repente, um dos discípulos aproximou-se da mesa, pegou resolutamente o vaso e o espatifou no chão. Tão logo o discípulo retornou ao seu lugar, sob o olhar perplexo dos outros, o mestre disse: "Você é o novo guardião do castelo." Os demais discípulos não conseguiam entender: "Nós não estamos entendendo nada. Ele quebrou o vaso!" Ao que o mestre respondeu: "Eu disse que proporia um problema. E não importa qual a aparência de um problema, o grau de conforto que proporcione. É um problema e, como tal, precisa ser eliminado. Pode ser que se trate de uma mulher maravilhosa, um homem espetacular, um amor ou amizade que não fazem mais sentido, mas que insistimos neles por uma questão de conveniência".

Eu acrescentaria às palavras do mestre que podem ser lembranças vívidas de momentos que foram muitos bons, mas que agora deveriam ser páginas viradas, ou o apego a coisas que não têm mais o mesmo valor e significância de outrora e, portanto, prender-se a elas é interromper a dinâmica própria da vida e estagnar-se.

Finalizando, para uma vida feliz, precisamos entender que é próprio das coisas e das relações, na roda do tempo, adquirirem novos significados. Desse modo, umas deixam de fazer sentido para nós, enquanto que outras, outrora sem importância, passam a fazer sentido. Mudamos o tempo todo. Altera-se a compreensão e visão que temos de tudo. Por isso, todo mundo precisa de vez em quando desprender-se de coisas, relações e comportamentos que deixaram de fazer sentido para a vida, que já foram muito importantes um dia, mas que, com o passar dos anos, foram destituídos do significado original e agora são apenas entulhos impedindo a aquisição de novas experiências e a abertura para novas possibilidades.

Cara, é preciso ter desprendimento e humildade.