sábado, 27 de maio de 2017

Saber ilimitado ou vaidade?

Sempre vi com alguma desconfiança esses intelectuais que opinam excessivamente sobre uma infinidade de assuntos e têm respostas e opiniões assertivas para todos os fenômenos, esses cujas opiniões não têm espaço para expressões como "eu não sei" ou "tenho dúvidas" ou "não falo porque não é da minha alçada".  

Outro dia, olhando esses vídeos virais da internet, em que pessoas bem conceituadas, intelectualmente falando, opinam sobre tudo e todos. voltei a atenção para alguns professores que têm uma opinião “segura” e fechada sobre todos os assuntos acerca  dos quais são questionados, assuntos que vão desde religião até politica nacional e internacional, passando, entre uma coisa e outra, por refugiados, cracolândia, corrupção, felicidade, amor, igrejas neo-pentecostais etc.

        É impressionante o saber desses que a mídia chama de "professor". Tudo bem, não há como não se espantar com a capacidade de armazenamento de memória deles. Citam fatos e nomes históricos, recentes e distantes, fazem referências às teorias mais diversas, nos campos da filosofia, psicologia, sociologia, teologia e política como se estivessem lendo numa enciclopédia. Se você correr para o Google a fim de conferir a veracidade do que estão citando, vai encontrar tudo de acordo com o que disseram. Porém o que me causa espécie é o fato de que esses caras sabem opinar seguramente sobre tudo, o bem e o mal, com possibilidade zero de serem sequer questionados por seus interlocutores. Eles sabem se Dória acertou ou não com a invasão da cracolândia, se o presidente acertou ou não recorrendo ao exército para proteger o patrimônio público de manifestantes enraivecidos, se a decisão do juiz foi ou não acertada em relação ao réu, se Jesus era ou não o Filho de Deus, se a virgem Maria casou ou não virgem e se Maomé deixou ou não descendentes.
  
Meu Deus, é possível saber de tudo o tempo todo com tanta certeza? Ou esses caras são iluminados e estão alumiando multidões com a sua luz ou já perderam, de há muito, os limites da vaidade humana, a  ponto de não terem mais bom senso para reconhecerem que, diante de alguns assuntos, melhor recorrer a especialistas da área do que sair por aí falando sobre coisas que não conhecem só porque a massa ignara aplaude. Entre uma coisa e outra, permito-me o benefício da dúvida.

Lembrei-me do pastor Ezequiel, homem simples e sábio. Eu estava ministrando uma aula de teologia uma vez, e ele era um dos meus alunos voluntários. Confesso que me empolguei na aula. Falei de tudo que me veio à cabeça com convicção e assertividade que a segurança do momento me permitiu. Respondi todas as perguntas que os alunos fizeram e não dei margem para réplica. Senti-me senhor do saber.

No final da aula, pastor Ezequiel se aproximou com o jeito que lhe é peculiar, parabenizou-me pela aula e sussurrou-me que eu havia cometido apenas um erro na ministração. E completou que o grande erro que um professor pode cometer é achar que somente ele sabe das coisas, que toda a sua plateia é ignorante ou menos sapiente. Antes que eu digerisse isso, ele emendou: “Cuidado, tem muita gente boa te ouvindo”. Santo remédio.

Bom, é o que tenho pensado ultimamente ouvindo esses caras que têm resposta para tudo. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Questões sempre inquietantes




Gosto muito dessas tirinhas de Luís Fernando Veríssimo. Na verdade, gosto de tudo o que este autor escreve. O senso crítico e reflexivo de sua abordagem da realidade, além de muito engraçado, desperta reflexões profundas. Ler Veríssimo é uma maneira divertida de se angustiar.

As personagens da tirinha, as cobras, são personagens irreverentes que questionam tudo e fazem de tudo. Deus, o universo, as pessoas, tudo enfim são objetos e sujeitos de sua reflexão e crítica. Nas tirinhas em apreço, gosto de ver a ilustração do quanto nós, humanos, somos irremediavelmente curiosos acerca de tudo, incluindo as questões metafísicas, como a origem de todas as coisas. Desde o homem mais primitivo até o homem moderno, a inquietação e curiosidade com a origem, propósito e sentido da vida estão evidentes.  A necessidade de resposta criou os vários mitos cosmogônicos, as teorias filosóficas e científicas, tudo muito insatisfatórios para dar conta dessa curiosidade insaciável. 

O cosmos nos impressiona, paralisa, desperta questionamentos e busca por sua origem. Todavia, parece tratar-se de uma realidade que foge à compreensão por causa das limitações estruturais de nossa mente. Pensando na grande sacada de Kant acerca da teoria do conhecimento, segundo quem só conseguimos conhecer a partir de estruturas mentais que nos limitam a tempo e espaço, entendemos que a humanidade viverá pelo tempo que lhe convier com essas questões cujas respostas esbarram nas limitações e nossos recursos epistemológicos. Ademais, as tirinhas mostram que nós temos uma capacidade muito grande de abstração, de desenvolver teorias e dar respostas evasivas ao mistério insondável –  por exemplo, a resposta do personagem dizendo que a vida é este hiato de perplexidade entre dois vazios, apenas dando conta de aspectos da multiplicidade da existência, ou uma forma de poetizar a realidade inapreensível pelos meios literais, e aí acho que o mito mostra-se mais satisfatório para tal propósito. 

Noto também que, na tirinha acima, há um retorno à mesma pergunta inicial, depois da incompletude e insatisfação da resposta, ou seja, voltamos sempre a mesma questão depois das respostas insatisfatórias acerca do mistério. Por fim, vemos que questões ontológicas são coisas nossas, que nos perturbam e fascinam, pois o mundo irracional e/ ou inanimado, como as estrelas, não se importam nem se alteram com isso. Acho que foi Francis Bacon que disse que  Galileu fez muito bem em ter renunciado às suas ideias heliocêntricas para escapar com vida, afinal de contas, tivesse sido sacrificado pela Inquisição  por persistir em afirmar suas descobertas, em nada teria alterado a ordem das coisas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A ORAÇÃO DE PAULO PELOS EFÉSIOS (3.16)

Em Efésios tudo é muito superlativo, tipo... do tamanho de Deus.
“O evangelho não é simplesmente uma doutrina, nem um mero padrão de vida; o evangelho proporciona riquezas em medida incalculável.” Davidson, 1997: 1258.

I. VISÃO PANORÂMICA DE EFÉSIOS

1. A cidade de Éfeso: Uma das maiores cidades do império romano, capital da província da Ásia Menor. Cidade próspera por ser portuária e está na rota comercial do império romano, considerada o banco da Ásia. Entre as suas construções estava o templo da deusa Diana ou Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo. A prostituição era prática comum nos rituais dos cultos. Havia em Éfeso uma rica biblioteca e um teatro com lugar para 25 mil pessoas assentadas. Era, portanto, uma cidade singular no mundo antigo.

2. A igreja de Éfeso: Fundada por Paulo por ocasião de sua primeira visita, na sua segunda viagem missionária (At 18.19; 19.1). Paulo ficou lá por dois anos, e aquela igreja tornou-se em centro missionário para o apóstolo (At 19.10). Paulo deixou Éfeso após sua pregação prejudicar o comércio das imagens de Diana (At 19) e consequente perseguição. Timóteo, Apolo, Áquila e Priscila trabalharam naquela igreja (At 18.18). Diz-se que o apóstolo João também exerceu ministério naquela igreja.

3. A epístola aos Efésios: Escrita no período em que Paulo estava preso em Roma (At 28.16, 31; Ef 4.1; 6.20). É um dos picos elevados da revelação bíblica, ocupa lugar único entre as epístolas de Paulo.

II. RIQUEZAS E BÊNÇÃOS NA CARTA AOS EFÉSIOS

1. Riquezas em Cristo. O conteúdo dessa epístola ressalta a profundidade das riquezas de Deus à disposição da igreja. Cristo é a fonte de toda a sorte de bênçãos: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos tornou ricos em Jesus Cristo...” (1.2).  

Paulo fala de riqueza para uma igreja fundada numa cidade considerada o banco da Ásia, dando ênfase à riqueza incalculável à disposição da igreja, mas que esta ainda não conhecia e, por não conhecer, não se apropriava da mesma. E se não se apropriava é porque faltava profundidade de experiência com o Espírito Santo.

A palavra riqueza e correlatos permeiam toda a epístola e têm a ver com suprimento abundante, com a suprema qualidade daquilo que nos é outorgado EM CRISTO. O que nos é outorgado está nas palavras e expressões chaves do livro.

Palavras chave: riquezas, herança, herdeiros e coerdeiros, plenitude, encher, abundância, suprimento graça, glória e mistérios.

Em Efésios tudo é muito superlativo, do tamanho de Deus: você lê: riqueza da graça de Deus, abundantes riquezas da sua graça, abundância para conosco, possessão de Deus, riqueza da glória de sua herança nos santos, sobre-excelente grandeza de seu poder em nós, riquíssimo em misericórdia pelo seu muito amor com que nos amou, riquezas insondáveis, multiforme sabedoria, altura, largura, comprimento e profundidade, cheios de toda a plenitude de Deus, muito mais abundantemente mais...

Essas palavras e expressões são os tijolos do edifício teológico neotestamentário cuja fundação é Cristo.

2. A natureza e dimensão das bênçãos. Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (1.2).  

A abrangência das bênçãos é que temos toda a sorte de bênçãos do Espírito. O Espírito Santo que nos habita canaliza todas as bênçãos do Pai para nós por meio do Filho.

Bênção de Deus, o Pai. Ele nos escolheu (EF 1.4-6).

Bênçãos de Deus, o Filho: Ele nos remiu, nos perdoou e nos revelou a vontade de Deus e nos fez sua herança e nos constituiu seus coerdeiros (Ef 1.7-12).

Bênçãos de Deus Espírito Santo: Ele nos selou e nos deu o penhor (Ef 1.13.14).

A esfera de nossas bênçãos é nas regiões celestiais. Isso porque a vida cristã gira em torno do céu: sua cidadania está no céu (Fl 3.20), seu nome está escrito no céu (Lc 10.20), seu Pai está no céu (Cl 3.1), seu Cristo está entronizado no céu, estamos assentados em lugares celestiais (2.6) e a sua batalha não é conta o sangue, mas sim contra os principados e potestades nos lugares celestiais.

III. UMA ORAÇÃO ARDENTE PARA QUE OS EFÉSIOS ENTENDAM E SE APROPRIEM DAS RIQUEZAS DE CRISTO

1. Uma oração precedida por outra oração. Na primeira oração Paulo ora para que O Espírito Santo ilumine a mente para que os crentes consigam perceber uma realidade que está para além das limitações da mente humana.

Ele não vai pedir que Deus lhes dê aquilo que eles não têm, mas para que Deus lhes revele aquilo que já possuem. Paulo ora para que os crentes não só entendam isso, mas também se apropriem e sintam... sejam realmente ricos.

2. Oração de joelhos  (3.14). De joelhos é rendição, humilhação, reconhecimento de impotência... É desespero de causa.

2.1 De joelhos por uma vida com poder no íntimo (3.16), para que, segundo as riquezas de sua glória, sejais corroborados com poder pelo Espírito no homem interior. (eso anthropon).

Paulo pede “segundo a riqueza de Deus”... é muita coisa. Riqueza em glória é mais ainda. Note que tanto na primeira como na segunda oração, Paulo roga pela ação do Espírito no coração, na primeira pede o conhecimento, na segunda, pede o poder.  Conhecimento e poder no íntimo.

Sejam corroborados: (1) robustecidos, enrijecido, fortalecido nesta verdade; (2) confirmar a existência ou a verdade de; dar provas de; comprovar.

Paulo pede que essas coisas aconteçam no íntimo. É lá no íntimo, onde tudo começa. O segredo é ser mobilizado pelo ES no íntimo. Você pode até fazer alguma coisa por formalidade, obrigação ou conveniência, mas não haverá constância em vc.

O que é o íntimo ou homem interior? Fico me perguntando o que Paulo queria dizer com “homem interior”, ou o que a Bíblia quer dizer quando fala do “íntimo da pessoa”, ou mesmo o que no geral a ciência diz sobre o íntimo? Seria algum lugar inacessível pelos recursos humanos? Seria a alma, a consciência, o espírito, o inconsciente de Freud? Não sei. O que eu sei é que se trata de um lugar onde somente o ES pode penetrar. É o lugar onde tem origem todas as motivações.

“Em Efésios 3.16, o homem interior é a pessoa real, a entidade espiritual que é fortalecida com poder, por meio do Espírito Santo. Nessa referência também está incluída a mente, o intelecto, o que faz desse versículo um paralelo parcial com Rm 12.2, onde se lê que deveríamos ser transformados mediante a renovação da nossa mente. O homem interior também é o homem moral essencial, ou seja, a natureza moral que precisa ser transformada pelo pode do Espírito segundo se vê em Mt 5.48, Rm 7.22, Gl 5.22,23. O homem interior também corresponde à natureza emotiva de cada pessoa”. Champlin, 2015: 151.

2.2 De joelho pela apropriação da habitação de Cristo no coração (3.17). Para que Cristo habite pela fé em vossos corações, a fim de, estando arraigados e fundados em amor...

Arraigar, habitar e alicerçar são palavras que envolvem força e profundidade  do Espírito. Arraigar tem a ver com raízes profundas; habitar tem a ver com sentir-se em casa; alicerçar fala de fundamentos.

Cristo não pode ser apenas um hóspede. Cristo tem que ser a essência da vida, a razão, o sentido. Existe um coração batendo em meu coração: o coração de Cristo.

2.3 De joelhos pela compreensão e apropriação da plenitude do amor de Cristo (18,19). Poderdes perfeitamente compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo que excede todo o entendimento.

Compreensão e plenitude. Compreensão passa a ideia de tomar algo para si. É compreender para sentir. A gente não consegue apreender a compreensão do infinito amor de Cristo pela nossa capacidade mental, cognitiva, Paulo diz que excede todo entendimento, por isso, somente pela ação do Espírito Santo em nós.

No que tange à plenitude, Deus deseja que o experimentemos em plenitude, isto é, ser cheio de Deus. E o Espírito Santo é o meio pelo qual alcançamos essa plenitude.

3. Deus é poderoso para fazer mais que isso (3.20). Aquele que é poderoso para fazer mais tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos segundo o seu poder que em nós opera.


domingo, 5 de março de 2017

Oseias: quando o povo adoece e quando Deus decide curá-lo

          Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Os 6.1-3). 

INTRODUÇÃO

           Oseias começou a profetizar nos últimos anos do reinado de Jeroboão II e terminou no começo do governo do rei Ezequias. Foi o único profeta do Reino do Norte que teve sua profecia escrita e o último profeta deste reino.  
Foi uma época de instabilidade política, crise social e religiosa, Israel desceu aos mais baixos níveis de corrupção moral e espiritual: adoração profana dos cananeus, edificou imagens de escultura e fundição, queimou suas crianças nas chamas do baalismo e lançou-se na abominável prática da prostituição cultual. É nessa conjuntura que Deus levanta o profeta Oseias para mostrar o quanto Deus ama o seu povo, apesar de sua rebeldia e obstinação.
O Reino do Norte reino durou 253 anos, 09 dinastias, 19 reis. Nenhum deles foi piedoso e a maioria teve morte violenta.

I. A doença espiritual de Israel
Em todo o volume do livro de Oseias, encontram-se espalhados os sintomas que caracterizam a morbidade espiritual da nação, os quais estão ajuntados a seguir.

Sintomas:
►Esquecimento de Deus (2.13). Tem sempre um substituto para ele.
►Falta de conhecimento (4.1).
►Falta de verdade (4.1).
►Incontinência (o vinho, o mosto) tirava a inteligência (4.11).
►Indiferença.
►Simpatia por sacrifício e holocausto em lugar de juízo e misericórdia (6.6).
►Os reis e príncipes tinham programado os ouvidos para se alegrarem com a mentira dos súditos (7.3).
►Ingenuidade, pomba enganada, sem entendimento (7.11).
►Dá fruto para si mesmo (10.1).
►Ingratidão (11.1).

Todavia, não obstantes os sintomas supracitados sejam graves, o pior de tudo era o não reconhecimento da doença por parte de Israel (Israel era orgulhoso). Comparando-se com Judá, esta nação irmã tinha lampejos de arrependimento que redundaram em algumas reformas espirituais. Mas Israel adoeceu de maneira irreversível.  Seu orgulho o fazia entender que estava tudo bem. Estavam como a igreja de Laodiceia: achavam que estavam ricos, fartos, e que podiam prescindir dos cuidados de Deus (Ap 3.22).

II. Iniciativa divina de sarar Israel. Alguém já comentou que no livro de Jó Deus parece assentado no banco de réus; em Oseias ele aparece no divã, olhando para Israel e perguntando: “Como pode?”
Ele está clinicando a chaga moral e espiritual de Israel e colhendo nenhum resultado. Ele usa inicialmente três métodos de despertamento de consciência:

1. Deus verbaliza a situação de Israel. Advertência por meio da palavra falada, o ministério dos profetas. Mas quando se está com a consciência cauterizada, não adianta a eloquência do sermão, todas as palavras bonitas se perdem ao vento.  

2. Deus dramatiza para chamar a atenção Israel. O casamento de Oseias com uma mulher da vida duvidosa, por ordem divina, é um retrato da gravidade da situação. Essa mulher, após ter se casado com o profeta, comete infidelidade conjugal indo após seus amantes. Da mesma forma, Yahweh estava se sentido como um marido traído. Parece uma ilustração melodramática? Pode ser. Mas Deus queria chamar a atenção do seu povo. Mas a insensibilidade de Israel não lhe permitia ser atraído por este gesto impressionante de amor divino.

3. A disciplina corretiva. Israel seria duramente punido pela sua rebelião contumaz. Seus filhos seriam levados como cativos para a Assíria de onde nunca mais voltariam, e onde seriam definitivamente curados da idolatria. A disciplina aparece ilustrada nos nomes dos três filhos de Oseias com sua mulher infiel.

Jezreel – Deus espalhará. Israel espalhado entre as nações.
Ló Ruama – Não compadecida. Cessou o tempo da compaixão, o castigo já estava determinado.
Ló Ami – Não meu povo. Aquela nação fora rejeitada por causa da obstinação na idolatria.  
                                                                                       
III. Yahweh é o restaurador de seu povo (Os 6).

1. Um último e desesperado apelo para que Israel volte ao Senhor.
          “Vinde e tornemos para o Senhor” (6.1). A princípio, uma excelente decisão, o que tem conexão com o versículo 15 do capítulo anterior: “Então voltarei ao meu lugar até que eles admitam sua culpa. E eles buscarão a minha face; em sua necessidade eles me buscarão ansiosamente” (5.15). Trata-se, ao que tudo indica, de um apelo do profeta, ao qual o povo não atenderá. Mas a verdade gritante do texto é que a cura só começa com um retorno ao curador e que somente o Senhor pode restaurar o seu povo.
                        
2. O médico que fere para curar.
          Porque ele despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Deus é soberano e vai trazer seu povo a si ainda que use, se preciso, o remédio mais amargo. Ele não desiste. Por isso, entendemos que Ele tem objetivos mesmo nas feridas abertas naquelas que são objetos de seu amor. Mesmo quando Ele fere, faz por amor.A reflexão nos leva aos seguinte enunciados:

Deus é médico de corpo, de alma de espírito. O salmista diz que ele conhece a nossa estrutura... (Sl 103.14).  Ele  é o Senhor que sara (Ex 15. 26), de todas as enfermidades.  
►A cura começa com a manifestação de sintomas e termina com um retorno ao curador. Então é Deus quem começa. Como posto por Jó,  é ele quem abre a ferida, mas ele mesmo a trata; ele fere, mas com suas próprias mãos pode curar (Jó 5.18).
►Uma pessoa ou nação  nunca mais será a mesma após ter uma ferida aberta e fechada pela mão de Deus. Ele mexe nas entranhas.
►Deus, às vezes, tem uma maneira peculiar e paradoxal de curar: ele sara ferindo.  A lição primordial aqui é que Deus fere para curar. Como diria um pensador: “O caminho da cura pode ser a doença”.

3. Um tempo para a cura acontecer. Depois de dois dias nos dará vida; ao terceiro dia nos ressuscitará e viveremos diante dele [...]. Somente depois de manifestados os sintomas, forçado um arrependimento, sarada a ferida, Ele nos dará vida, e só assim...  Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.

4. O conhecimento de Deus como resultado da cura
Não se trata de um conhecimento técnico e intelectual, é conhecimento experimental. Tem a ver com comunhão, fé, obediência e adoração. A falta de conhecimento denunciada pelo profeta significa falta de fidelidade e de temor a Deus.

5. A fidelidade de Deus (v. 3). “Como a alva será a sua saída, e Ele a nós virá como a chuva serôdia que rega a terra. Tão certo como a aurora anuncia a chegada de um novo dia, assim sairá Yahweh para restaurar o seu povo”.

CONCLUSÃO

Oseias nos ensina que a fidelidade de Deus é sempre maior que a capacidade do homem de pecar. Que o Senhor restaura o seu povo, ainda que tenha que usar o remédio mais amargo. Ele faz por amor. “Ele despedaça e sara, faz a ferida e a ligará”.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Sobre a condição humana e a misericórdia de Deus

Hoje, falando para um grupo de jovens, consideramos o quanto a condição humana é desesperadora e o quanto é grande a misericórdia divina. A gente precisa se apropriar dessa verdade, reconhecendo esta nossa condição e apelando para o grande amor de Deus, para nos libertar de um perfeccionismo obsessivo que nos fizeram acreditar ser o meio para um grau inatingível de pureza. Não que a gente não deva primar por viver de forma correta, mas é que o tentar viver uma vida correta não pode descambar para uma aversão doentia àquilo que nós mesmos somos,sentimento muito em voga no universo religioso-cristão. Dentro dessa perspectiva inatingível de santidade, se pisarmos na bola, não faltará castigo divino.

Há pessoas que compreendem o Criador do universo como se ele fosse uma daquelas divindades belicosas gregas, com raios nas mãos para, num surto de mau humor, massacrar os humanos. Não consigo imaginar uma Divindade assim por uma simples razão: que louvor teria Deus em subir ao pódio por ganhar uma luta contra mim?  Acho que qualquer pessoa ganharia de mim sem muita dificuldade. A glória na luta está em se nocautear um adversário à altura. Quem estaria à altura de Deus? "Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele? Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se reto me disser, então, me declarará perverso" (Jó 9.19, 20).

Essa divindade belicosa, em guerra com os humanos, é uma criação da igreja influenciada pela mitologia pagã, mormente a grega. Acredito em um Deus justo sim, que não tem o culpado por inocente, mas sem essa predisposição alardeada por alguns para confrontar e abater seres humanos cuja condição é tão miserável. Aliás, Jesus apresentou este Deus nas páginas do Novo Testamento, que nós podemos chamar de Pai nosso, um Deus que espera ansiosamente pelo filho pródigo-ingrato que arrebentou o coração do Pai quando preferiu o mundo a Sua casa. Quando o pródigo retorna, este Pai corre e pula no pescoço do filho numa explosão de alegria (Lc 15.11 ss). 

Por isso que Jesus exalta a súplica humilde do publicano e censura, por outro lado, a oração do autoconfiante fariseu (Lc 18.9). Enquanto este agradecia orgulhosamente por não ser como os demais homens, aquele esmurrava o próprio peito em reconhecimento das próprias misérias e pedindo misericórdia ao Pai. O que caracteriza a oração do publicano é reconhecimento do que Deus é em relação a nós,  e do que nós somos em relação a Deus. É a oração sincera do desespero com a própria condição. Ela não chega a ser pensada e articulada, ela explode do peito, rasga a gargante e ecoa. Vai na mesma direção da Súplica cearense, do compositor Gordurinha, uma das mais belas orações de todos os tempos: [...] "Senhor, eu 'pidi' para o sol se esconder um 'tiquinho'/ 'Pidi' 'pra' chover, mas chover de mansinho / 'Pra' ver se nascia uma planta no chão [...]". Relata o desespero do agricultor por uma chuva que nunca vem e o seu lancinante desabafo diante de uma Divindade que não responde, sem meias palavras. 

Por falar em orações belas, porque tiradas do fundo de um coração sincero que conhece a própria condição desesperadora e se joga nos braços da misericórdia divina, transcrevo abaixo uma das preces mais lindas que já vi, talvez só perca para o salmo 51. Chama-se confiança na misericórdia divina, do poeta português Bocage. O poeta, no desespero de não conseguir vencer a si mesmo, aos próprios sentimentos e pensamentos, à beira do precipício moral (porém ainda lutando contra si), apela para a compaixão de um Deus justo, misericordioso e bom, conhecedor profundo da complicada condição humana. Cada verso ecoa fragilidade versus misericórdia. 

Confiança na misericórdia divina

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada.

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza:
Fingem-Te então com ímpeto, e braveza
Erguendo contra nós a destra armada.

Ó almas sem acordo, e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!… Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.

Bocage


  

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A PROVISÃO DE DEUS NO MONTE DO SACRIFÍCIO

INTRODUÇÃO

O capítulo 22 do livro de Gênesis relata, de forma dramática, a experiência mais difícil da vida de Abraão. O patriarca foi provado no limite de sua capacidade quando Deus lhe ordenou que oferecesse seu filho Isaque em holocausto.  Sua fé, amor e obediência seriam testados como o ouro no forno, revelando muito mais da grandiosidade deste homem e do caráter providencial de seu Deus. O resultado dessa extrema prova de Abraão que o levou a cunhar uma das expressões mais bonitas da Bíblia, o que viraria ditado em Israel depois dele, ditado para ser evocado em tempos difíceis: Deus proverá. Na aula de hoje, extrairemos preciosas lições a partir de três verdades factuais no episódio de Moriá: A primeira é a prova suprema da fé e obediência de Abraão; a segunda é a teologia da providência divina; a terceira é a constatação de que existe uma ponte entre o Moriá e o Calvário.

I.                    FÉ PARA SUBIR O MONTE DO SACRIFÍCIO

1. Abraão é provado. 

E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui (Gn 22:1).

Lloyd Ogilvie, ao discorrer sobre a história de Abraão, divide didaticamente a vida deste patriarca em três fases: 1) uma chamada à fé, 2) o exercício dessa fé e 3) a prova definitiva dessa fé. A terceira fase foi o mais severo teste na vida de Abrão. Após longos anos de amizade com Deus, das muitas experiências de livramentos miraculosos, da constante insistência divina para que Abraão cresse na promessa de que teria um filho por meio do qual se cumpriria a promessa de que Abraão seria pai de multidões, depois do cumprimento dessa promessa na gravidez de uma Sara estéril e idosa, com o posterior nascimento de Isaque, estranhamente Deus ordena a Abraão que suba o monte do sacrifício para imolar seu filho em holocausto. Nestas lancinantes palavras:

“Tome o seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali em holocausto num dos montes que lhe indicarei” (Gn 22.2).

Fico imaginando as indagações que permearam a cabeça do velho Abraão. O que significa isso? Pedir-se-ia tamanho sacrifício de alguém? Deus também compactua com as práticas de sacrifício humano dos cananeus? Incorreria o Senhor num contrassenso, pedindo em sacrifício aquele que é o cumprimento da promessa que me fez?  A dilaceração emocional, a confusão psíquica e o desafio à fé eram demais para suportar. Todavia, Abraão vai, contrariando toda lógica humana, obedecer a ordem divina, dando prova de sua inquestionável fidelidade e devoção ao Seu Amigo e legará com seu ato a beleza e grandiosidade de uma afirmação reveladora  de uma das mais belas manifestações nominais de Deus: YHWHjireh, ou seja, O Senhor Proverá.

Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos (Gn 22:7,8).

Você pode notar que Abraão não entendia nada do que estava acontecendo, mas ele se guiava pela convicção de que Deus tinha controle absoluto da situação e proveria todas as coisas ao seu tempo. Esta é a natureza da fé que leva a subir ao monte do sacrifício. Esta fé é também uma provisão-presente de Deus. Nas palavras de Lloyd Ogilvie:

Abraão e Sarai teriam um filho. Abraão achou muito difícil acreditar em tal coisa. Sua idade já atingia a casa dos cem anos, e a de Sarai, a dos 90 anos. Foi então que o Senhor que lhe providenciou um presente, que é dado com liberalidade a todos os que ousam arriscar-se: o dom da fé.[1]

2. Um pedido que beira o limite da capacidade humana. Qual o limite da capacidade e fé de um crente para lidar com as duras provações da vida? Qual o potencial que ainda guardamos após acharmos que não podemos mais? A experiência de Abraão lança luz sobre essas questões fundamentais da vida de fé. Deus estava pedindo o que ele tinha de mais importante (seu único filho), para que ele oferecesse da forma mais dilacerante possível (holocausto), em circunstância totalmente confusa (Isaque era o cumprimento da promessa). Deus deu um presente e depois o pediu de volta.

Ouvi alguém dizer que Deus gosta de exercitar grande fé por meio de grandes provas. Como posto pelo pastor Elienai Cabral, a prova a que Abraão foi submetido fez com que ele chegasse ao máximo de sua capacidade espiritual e emocional. [2] Mas Deus não permite que seu servo seja tentado acima de sua capacidade (1Co 10.13). Quando ele pede é porque sabe que o fiel tem condição de dar. Quando prova, faz porque sabe que o crente tem condição de suportar. Ele sempre providencia o escape em companhia da tentação.

II.                PROVA NO MONTE DO SACRIFÍCIO

1. Amor, obediência e fé no monte do sacrifício. Abraão foi provado em três aspectos de seu caráter em relação a Deus: amor, fé e obediência. Primeiramente em relação ao seu amor a Deus. Ele amava o Senhor acima de todas as coisas? Será que Isaque, filho de sua velhice, tinha um lugar proeminente em seu coração? Havia, porventura, o patriarca esquecido que a sua amizade com Deus precedia o amor que tinha pelo filho? O grande desafio da prova de Abraão era mostrar para Deus e para ele mesmo o que era o centro de sua vida. Mais tarde, o grande mandamento da lei seria: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento” (Lc 10:27). 

O segundo elemento era a obediência do patriarca que estava sendo testada. Obediência é um ato que envolve reconhecimento de dependência, de soberania e senhorio do outro a quem se deve obediência. Nem sempre entendemos ou concordamos com a ordem recebida, mas somos movidos pelo princípio de que o servo obedece, porque teme, ama e confia no seu Senhor. O velho Abraão não compreendeu nada, estava confuso, o coração fora traspassado pelo pedido de Deus, mas ele não tinha alternativa, só podia obedecer.

Em terceiro lugar, o pedido divino era a prova definitiva da fé de Abraão. O patriarca já havia vacilado na fé em alguns momentos. Quando desceu ao Egito, pôs em risco a integridade de Sarai dizendo que ela era sua irmã e não esposa. Posteriormente, atropelou o plano de Deus para a sua vida, tendo um filho com sua escrava Hagar, imaginando que a promessa se cumpriria por meio deste filho ilegítimo. Mas as  experiências o haviam feito crescer e amadurecer na fé, pois em todos os momentos, as intervenções de Deus o salvaram. Por fim, o que parecia impossível e irrisório aconteceu: Deus lhe deu um filho na velhice. Tudo isso contribuiu para a percepção do patriarca de que Deus é absolutamente confiável. Agora, diante da ordem divina para imolar o seu filho, Abraão não podia vacilar. Mesmo não compreendendo, mesmo dilacerado, diante da aparente confusão e paradoxo, precisava confiar que o Eterno sabia o que estava fazendo, que tudo fazia parte do plano. E aí vale ressaltar que a verdadeira fé resulta em obediência. Tiago afirma que Abraão foi justificado por este ato de obediência (Tg 2.21).

2. O clímax da prova. A viagem até a região de Moriá durou cerca de três dias. Quantos pensamentos, quantas indagações, angústias permeavam o coração de Abraão a cada passo do caminho. Quanto clamor silencioso por uma intervenção de Deus. “Abraão, era só um teste, pode voltar”. Mas nada da voz divina. Finalmente a chegada ao local indicado. A separação dos moços que o acompanhavam. A justificativa que usou para aquela separação.

“Eu e o jovem vamos subir para adorar e depois tornaremos a vocês”. Adorar naqueles idos primitivos significava fazer um culto que envolvia sacrifícios cruentos. Um rito em que a garganta de Isaque seria cortada, seu corpo despedaçado, os pedaços do corpo seriam arrumados sobre a lenha e queimados até virar cinzas.

Agora somente pai e filho começam a subir o monte em silêncio. “E tomou Abraão a lenha do holocausto, pô-la sobre Isaque, seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos” (Gn 22:6).

De repente, Isaque quebra o silêncio com a pergunta mais dilacerante que um filho poderia fazer a um pai naquele momento. Acostumado ver a maneira como os sacrifícios de animais aconteciam, percebeu, inocentemente, que havia alguma coisa errada: “Meu pai! eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” (Gn 22:7). 

Acredito que Abraão respondeu como que impensadamente. É aquela resposta que vem do coração e não da mente. Ele não teria coragem de dizer ao menino que ele, o filho, seria o sacrifício. Era pedir demais para um pai. Então sua resposta saiu automática, dramática, das entranhas de um coração permeado por confiança, perplexidade e angústia: “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Gn 22:8).

Costumo chamar de “uma resposta para quando não se tem reposta”. Como uma frase que virou praticamente um mantra no meio cristão: “Deus sabe de todas as coisas”.  A gente fala isso quando está dilacerado pela dor da perda, sem entender nada do que está acontecendo. Champlin observa que os intérpretes judeus consideram que Abraão falou como profeta, pois sabia no seu subconsciente que Isaque seria poupado, enquanto que outros entendem que Abraão falou em tom de desespero, como se quisesse dizer: “Logo descobrirás, meu filho, que tu mesmo serás o sacrifício”.

3. O momento decisivo da prova. Às vezes acontece de a gente está indo para algum lugar, mas não querer chegar. Enquanto caminhava monte acima, ainda havia um resquício de esperança em Abraão de que uma intervenção radical de Deus poria fim àquela caminhada horrorosa, que ele não chegaria ao lugar crítico e dramático do sacrifício. Mas cada passo encurtada a distância e, numa proporção inversa, sua angústia e ansiedade cresciam. Finalmente chegaram. Vai começar o ritual horrendo. O pai prepara o altar, arruma a lenha, amarra o filho querido sobre o mesmo, examina o cutelo reluzente e o move ao alto, para finalmente descer sobre o pescoço do menino. Os animais do sacrifício eram amarrados para que não fugissem, mas Isaque não ofereceu nenhuma resistência. Naquele último segundo, pareceu, de fato, ao velho patriarca que a esperança de uma intervenção divina que permeou seu coração durante todo o macabro trajeto acabara ali. Mas eis que, no último momento, no limite, na linha tênue entre a morte e a vida, surge a intervenção de YHWHjireh, o Senhor que provê. Com que excepcional graça o sacro escritor narra a intervenção divina!

Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde os céus, e disse: Abraão, Abraão! E ele disse: Eis-me aqui. Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho. Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho. E chamou Abraão o nome daquele lugar: o Senhor proverá; donde se diz até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá. (Gn 22:11-14).

Consigo imaginar o rosto de Abrão. A explosão. O êxtase. A prostração depois de uma pressão quase insuportável. É como se a ficha houvesse caído: “Ah, era isso! No fundo eu sabia”. Será mesmo que Abraão sabia que nunca fora a intenção de Deus que um ato tão horrendo fosse executado? Claro que ele não sabia. E é nisso que reside o fato de que a sua fé foi provada no limite de sua capacidade. Mas, o que dá mais graça ainda à história é que, no fundo, ele sabia. A vida com Deus é assim mesmo, meio paradoxal: é “um não saber consciente” misturado com “um saber que procede do coração”.

III.             JESUS, O CORDEIRO DE DEUS NO MONTE DO SACRIFÍCIO

Havia uma cruz no coração de Deus quando ele interveio em favor de em favor de Abraão e curou a síndrome do pecado através do sacrifício de Jesus Cristo na cruz.[3]

Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se (Jo 8:56).

1. O sacrifício do Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Existe uma ponte entre o Moriá e o Calvário. O escritor aos hebreus afirma que os rituais do Antigo Testamento eram sombra da realidade futura (Hb 8.5. 10.1). Na verdade, tudo apontava para Cristo, o assunto central das Escrituras. No caso específico aqui estudado, Deus tinha um propósito muito grande em submeter Abraão àquela experiência dramática: queria retratar o drama da cruz, ou seja, o sacrifício de seu Filho, Jesus, no monte Calvário em favor da humanidade (Jo 3.16). Ademais, há os que acreditam que a resposta de Abraão a Isaque foi profética. Sendo assim, Deus cumpriu o “Deus proverá” de Abraão no Calvário, quando proveu o Salvador.

Moriá é um tipo do Calvário. Abraão é uma figura do Pai eterno levando seu único Filho, Jesus, para o sacrifício. Isaque é uma figura do Filho de Deus que, calado, deixou-se conduzir ao local do sacrifício. Há quem diga que Isaque é também uma figura da humanidade poupada, substituída na morte do Cordeiro de Deus. O animal preso pelas pontas é figura da provisão de Deus, que providenciou o Cordeiro para morrer em nosso lugar. Por isso dizemos que o sacrifício de Cristo foi vicário. Decerto, a grande diferença que separa Moriá – a sombra, do Calvário – a realidade concreta, é que o filho de Abraão foi poupado, mas o Filho de Deus não. O que ele não permitiu a Abraão fazer, ele mesmo o fez, conforme atesta Ogilvie:

“Acima de tudo, nossa atenção se volta para outro monte: o Calvário. Ali, Deus fez o que era na realidade impossível. Ele deu o seu próprio Filho como sacrifício pelos pecados de todos os povos, em todas as gerações. O que Ele não exigiu de Abraão exigiu de si mesmo, oferecendo Jesus para que pudéssemos conhecer o seu supremo amor e perdão.”  [4]
2. A justificação e reconciliação mediante o sacrifício do Cordeiro. Toda a teologia veterotestamentária aponta na direção de um Cordeiro que seria morto para propiciação pelos pecados. Essa teologia já está em Gênesis, quando Deus mata um animal para, de sua pele, providenciar vestes para Adão e Eva (3.8,21). Porém a figura de um cordeiro sacrificado como parte do drama da redenção humana remonta à páscoa (Ex 121-13), quando Deus veria o sangue aspergido nos umbrais das portas dos filhos de Israel e “passaria por cima” (livraria da morte) daqueles protegidos pela sua marca; ou mais precisamente no dia da Expiação (Lv 16), quando o sacerdote impunha as mãos sobre o sacrifício e, simbolicamente, transferia a culpa dos filhos de Israel para o mesmo.

A figura do animal morto como meio de expiação no Antigo Testamento é transferida a Cristo no Novo. João Batista disse que Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Paulo se refere a Jesus como a nossa páscoa (1 Co 5.7). Pedro declara que fomos redimidos “com o sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pe 1.19). Felipe explica a um eunuco que a passagem de Isaías, que tratava de um servo que seria levado como um cordeiro ao matadouro, era uma referência a Cristo (At 8. 26ss). Nas regiões celestiais, o Leão da tribo de Judá é louvado como o Cordeiro que fora morto (Ap 5.9). Portanto, por meio do sangue de Cristo, fomos reconciliados, perdoados e justificados (Rm 5.1). Jesus é a providência de Deus no Calvário. 

CONCLUSÃO

Moriá só pode ser compreendido olhando-se para o Calvário. No primeiro monte, Deus providenciou um animal para morrer em lugar de Isaque. No segundo, Deus proveu o Cordeiro, seu próprio Filho, para morrer em favor da humanidade. Há uma ponte entre Moriá e o Calvário.  




[1] OGILVIE, Lloyd John. O Senhor do Impossível. São Paulo: Vida, 2009. P. 25.
[2] In Revista CPAD (professor): O Deus de toda a provisão. 4º trimestre 2016, p. 29.
[3] OGILVIE, Lloyd John. O Senhor do Impossível. São Paulo: Vida, 2009, p. 33.
[4] Ibidem. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O TRABALHO E ATRIBUTOS DO GANHADOR DE ALMAS

Leitura bíblica: Atos 8.26-40

TEXTO ÁUREO
“Mas tu sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre teu ministério” (2Tm 4.5).  

VERDADE PRÁTICA
A missão do evangelista é falar de Cristo a todos, em todo lugar e tempo, por todos os meios possíveis.


INTRODUÇÃO

Todos os crentes salvos em Jesus têm a responsabilidades de ganhar almas e fazer discípulos. Mas, para o bom desempenho de sua igreja, o Espírito Santo distribuiu capacidades especiais e diversas para os seus servos realizarem obras diferentes. Segundo Paulo escreveu aos efésios, 4.11, entre os dons ministeriais que foram outorgados à igreja, está o de evangelista, aquele que foi vocacionado e capacitado por Deus para ser um exímio ganhador de almas. A aula de hoje, termos a oportunidade de discorrer sobre este obreiro indispensável para a promoção do Reino de Deus.

I. EVANGELISTA, GANHADOR DE ALMAS

1. Definição. Evangelista é aquele que tem como atribuição primordial na vida anunciar o evangelho. Não se trata apenas de um título, mas de uma vocação. Hoje, quando se ouve a palavra “evangelista”, pode-se pensar em três acepções: (i) aquele obreiro que foi promovido de presbítero para evangelista e está hierarquicamente abaixo da função pastor, conforme o modelo de algumas denominações, a Assembleias de Deus, por exemplo. (ii) Pode-se pensar também naquele crente que simplesmente anuncia o evangelho, consciente de que é o seu dever, sendo assim todo crente deve ser um evangelista. (iii) A terceira acepção, da qual tratamos nesta aula, diz respeito aquele crente que recebeu o dom do Espírito Santo para ser um ganhador de almas por excelência, conforme esclarecido por Paulo em Efésios 4.11. O tal vai se destacar no Reino de Deus pelo seu amor irresistível pelas almas, a fim de conduzi-las a Cristo.

2. O evangelista no Novo Testamento.
 Efésios 4.11 - “E ele mesmo deu uns para... evangelistas...”.

II Timóteo 4.5 – “Mas tu sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério”.

Atos 8.5-6 – “E, descendo Filipe à acidade de Samaria, lhes pregava a Cristo. E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouvia e via os sinais que ele fazia”.

Atos 21.8 – “No dia seguinte, partindo dali Paulo e nós que com ele estávamos, chegamos a cesárea; e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele”.

Romanos 10.14-15 – “Como, pois, invocarão aquele a quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não foram enviados? Como esta escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas”.

No Novo Testamento, toda a igreja de Cristo estava dentro de um movimento cuja ênfase era a anunciação do evangelho. Não podia ser diferente uma vez que a igreja estava no seu nascedouro, com todo o trabalho voltado para a Grande Comissão determinada pelo Senhor Jesus (Mc16. 15; Mt 28.18; At1.8). Na dispersão que houve com a morte de Estêvão, por onde os crentes fugitivos iam passando, iam anunciando o evangelho de Cristo (At8.4). Como resultado da grande campanha inicial de evangelização e resultante colheitas de almas, igrejas seriam estabelecidas, abrindo demanda para pastores, mestres e outros. Todavia, vale observar, que desde o início, alguns já se destacavam por sua habilidade extraordinária na tarefa de ganhar almas, sendo Felipe o principal, o qual chegou a ser chamado de evangelista ( At 21.8). Muito pertinente o comentário abaixo.

A palavra grega que é traduzida por "evangelista" nesses versículos é euaggelistes que significa literalmente "um bom mensageiro”, ou "mensageiro do bem”, ou "boas novas”. Desde o início ela foi usada em referência àqueles que pregavam o evangelho”.

“Nesse sentido, todos os apóstolos foram também evangelistas. Apesar disso, essa era somente uma de suas muitas obrigações. Havia aqueles cujos ministérios eram totalmente voltados a pregar o evangelho para trazer a oportunidade de salvação aos não salvos. Filipe, que foi nomeado com Estevão como um dos sete diáconos em Jerusalém, é um exemplo que temos desse ministério no Novo Testamento. Desde Atos oito, o vemos operando, e seu ministério foi conduzir as pessoas à salvação. Nós então vemos no apogeu desse avivamento na cidade, Filipe sendo levado a pregar o evangelho a somente um homem no deserto. Isso requereria uma notável sensibilidade e obediência ao Espírito, assim como uma submissão ao ministério que Deus havia dado a outros, isto é, aos apóstolos”.[1]

3. O evangelista na era da igreja. Na história da igreja, houve, de tempos em tempos, grandes colheitas de almas, quando o Espírito Santo usou poderosamente pessoas comissionadas e preparadas com o dom de ganhar almas. Só para ficar com alguns, citaremos abaixo uma lista de nomes cujas biografias o aluno fará bem em conhecer a fundo.

John Wesley – séc. XVIII -
Evangelista inglês. Revolucionou sua época com pregações e apelos públicos à santidade.

Jônatas Edwards – sé XVIII.
Teólogo e filósofo estadunidense. É muito conhecido no meio cristão pelo seu famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. Conta-se que enquanto pregava em Enfield, onnecticut, a convicção acaiu de tal forma sobre o público que muitos se agarravam às colunas do prédio, suplicando que os livrassem do inferno.

D. L. Moody – séc XIX.
Evangelista batista norte-americano, pregava a salvação em Cristo de modo diferente. Pregava a plenitude do Espírito Santo e uma vida cristã cheia do poder do alto. Acerca da sua marcante cruzada cristã evangelística de Londres, em 1873 escreveu Robert Boyd: “Moody pregou à tarde no Auditório da Associação Cristã de Moços, em Sunderland. Em pleno culto houve manifestação de línguas estranhas e profecia”.

C. H. Spurgeon - séc. XIX    
Pastor Batista. Inicia jornada de pregação aos 17 anos, pregando nos EUA e Inglaterra, não somente em igrejas, mas, teatros, escolas, e praças livres.

Billy Graham – séc. XX
Pastor Batista, conhecido por suas cruzadas internacionais, falando a mais de 2 bilhões de pessoas em muitos países no mundo.

II. ATRIBUTOS DE UM EVANGELISTA

1.      Amor às almas.
O que primariamente caracteriza um evangelista é seu desejo ardente de ganhar almas. Se o cristão não tem desejo dessa natureza, pode ser tudo menos evangelista. O evangelista vocacionado arde de desejo pelas almas a fim de trazê-las a Cristo. Ele faz disso seu grande objetivo da vida, porque o Espírito Santo assim o despertou (Ef 4.11).

Jesus é um exemplo fantástico de paixão pelas almas: “E Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Ao ver as multidões, Jesus sentiu grande compaixão pelas pessoas, pois que estavam aflitas e desamparadas como ovelhas que não têm pastor. Então, falou aos seus discípulos: “De fato a colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9.35-37).

Paulo, grande ganhador de almas da igreja primitiva, chega mesmo a sentir dores como que de parto como se estivesse a dar filhos à luz (Gl 4.19). Numa compulsão que só pode ser provocada pela ação do Espírito, o apóstolo dos gentios disse que não poderia, de maneira nenhuma, deixar de pregar o evangelho. O sentido da expressão paulina em 1Co 9.16 dá  a entender que o apóstolo em apreço vivia consumido pelo desejo de pregar: “[...] me é imposta essa obrigação, e ai de mim se não anunciar o evangelho”.

O evangelista pensa em almas para dormir e acorda para pensar em almas. Foi este sentimento que moveu também os grandes avivalistas da história da igreja. Veja as orações e declarações “desesperadas” de alguns por almas.

Paulo: E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. (1 Coríntios 9:20-22)

John Knox orou: "Senhor, dá-me a Escócia ou eu morro!".

Whitefield orava com afinco: "Se não queres dar-me almas, retira a minha!"

John Bunyan declarou: "Na pregação não podia contentar-me sem ver o fruto do meu trabalho".

Matheus Henry: "Sinto o maior gozo em ganhar uma alma para Cristo, do que em ganhar montanhas de ouro e de prata, para mim mesmo".

D. L. Moody: "Usa-me, então meu Salvador, para qualquer alvo em qualquer maneira que precisares. Aqui está meu pobre coração, uma vasilha vazia, enche-a com tua graça".

Henrique Martyn, ajoelhado na praia da Índia, onde fora como missionária, dizia: "Aqui quero ser inteiramente gasto por Deus".

John Mckenzie, ajoelhado a beira do Lossie, clamava: "Ó Senhor, manda-me para o lugar mais escuro da terra!".

Prayine Hyde, missionário na Índia, suplicava: "Ó Deus, dá-me almas ou eu morrerei!".

David Brainerd: "Eis-me aqui, Senhor. Envia-me a mim! Envia-me até os confins da terra: Envia-me aos selvagens habitantes das selvas; envia-me para longe de todo conforto terrestre; envia-me mesmo para morte, se for para teu serviço e para progresso do Teu reino".  "Lutei pela colheita de almas, multidões de pobres almas. Lutei para ganhar cada uma, e isto em muitos lugares. Sentia tanta agonia, desde o nascente do sol até o anoitecer, que ficava molhado de suor por todo o corpo. Mas, ó meu querido Senhor suou sangue pelas pobres almas. Com grande ânsia eu desejava ter mais compaixão".

João Wesley, não raro ficava prostrado no chão, chorando e lutando com o Senhor, por seu povo. Quando sua esposa implorava que explicasse a razão da sua ânsia, respondia: "Tenho que dar conta de três mil almas e não sei como estão".

D.L. Moody ouviu alguém dizer: "Nossa época ainda está para ver o que Deus pode fazer usando um homem cuja vida seja inteiramente comprometida com Ele". Moody disse: "Eu serei esse homem". E foi assim que multidões se converteram a Cristo por meio de Moody.

É muito tocante ler a história desses homens. Melhor ainda é construirmos a nossa própria história. Os nossos desafios hoje são bem maiores. Ganhemos almas.

2. Conhecimento da Palavra de Deus. O evangelista não precisa ser um exímio, mas precisa conhecer a fundo as doutrinas basilares da soteriologia que foi chamado para anunciar. Este conhecimento não consiste em apenas saber intelectual, mas também e, principalmente, experiencial.  Sendo assim, ele precisa primeiramente conhecer a natureza do evangelho, cujo pano de fundo abrange desde a queda do homem (Gn 3), a consequente pecaminosidade universal (Rm 3.23), a consequente morte eterna (Mt 25.46), e cuja figura central  é a providência de Deus para a salvação da humanidade por meio de seu Filho (Jo 3.16).

Para a igreja primitiva e, principalmente para Paulo, o evangelho é uma pessoa: Cristo crucificado e ressurreto, assunto ao céu, assentado à direita de Deus, de onde intercede por sua igreja e de onde voltará para buscá-la (ver 1Co 15.3; Mc 4.62; Rm 1.1-3; Hb 4.14).

Segundo, precisa ter sido transformado pela mensagem que prega. Nesse particular, temos em Paulo um grande modelo. Primeiro, a mensagem dele era Cristo crucificado (1Co 2.2). Segundo, ele mesmo já havia tido sua própria experiência com o evangelho, o que lhe rendia convicção inabalável na pregação (Rm 15.18).

Destarte, precisa-se manejar bem a Palavra de Deus (1Tm 2.15) para que, como Felipe, tenha a habilidade para conduzir as pessoas a Cristo (At 8.35) e responder, com mansidão e temor, àqueles que pedirem a razão de nossa esperança (1Pe 3.15).

3. Espiritualidade plena. Precisa saber que o oxigênio de sua mensagem, que a propaga e a torna poderosa é o poder do Espírito Santo. Por isso que o batismo com o Espírito Santo é imprescindível para o exercício deste ministério. Foi Jesus mesmo quem orientou seus discípulos a não se ausentarem de Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder para serem testemunhas (At 1.8).
Vemos que Filipe era homem cheio do Espírito Santo (At 6.2-4), por isso tinha um ministério com pregação acompanhada de sinais extraordinários (At 8.6-7). Estêvão pregava a mensagem de Cristo com tanta unção e graça que aqueles que o ouviam não podiam lhe resistir (At 6.10). Paulo declarou aos romanos que a sua pregação não consistiu em palavras de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e em poder (Rm 2.4). Somente para fechar a lista, visto ser muito intensa, Pedro, em um só sermão, arrebanhou quase três mil almas, isso porque os que o ouviam se compungiram em seus corações, pois não podiam resistir àquelas palavras (At 2.37).

Portanto, quem evangeliza precisa ter uma vida plena, resultado de uma busca constante pelo poder do Espírito para que sua pregação não consista em meras palavras de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e poder. Para um pregador de vida vazia, a mensagem da cruz pode soar como mais um conto entre tantos da imaginação humana.

4. Disponibilidade. Claro está que o evangelista, para ter um ministério maximizado, precisa de tempo disponível. Até porque ganhar almas tornou-se a grande prioridade de sua vida. Ele precisa estar à disposição do Espírito Santo. Isso não significa descuidar de outras áreas importantes da vida. Na verdade, disponibilidade tem mais a ver com prontidão para, abertura para... É criar oportunidades e estar atento a cada uma que surgir para falar do amor de Deus. Há pessoas que vivem integralmente para a obra de Deus, outras que não, pois tem de se ocupar com o trabalho secular e outras atividades. Todavia, vale ressaltar, muitos que tem o dom de evangelista e estão exercendo vários papéis sociais, onde aproveitam as oportunidades que têm e ganham muitas almas para Jesus.

Jesus nunca desperdiçou uma oportunidade de pregar. Jesus pregava em todos os lugares, a todas as pessoas. Ninguém era tão sábio ou indouto que pudesse ser dispensado de sua pregação. Ele pregou para um mestre de Israel chamado Nicodemos (Jo 3.1-21); como também para uma mulher simples de Samaria (Jo 4.1-30). Ele pregava a grandes multidões (Mc 6.34), a pequenos grupos e também individualmente (Lc 24.27; Jo 3 e 4). Em todos os lugares, eis o incansável Mestre pregando: nas sinagogas (Mc 6.2), em casas particulares (Mc 2.1; Lc 5.17), no templo (Mc 12.35) e nas aldeias (Mc 6.6). Para ser alvo de sua pregação, bastava está em seu caminho.

III. O TRABALHO DE UM EVANGELISTA

1. Proclamação do evangelho. Todo obreiro do Senhor precisar ter consciência plena de sua vocação no corpo ministerial da igreja. Não dá para fazer tudo e com profundidade. Por isso que Deus chamou cada um com uma vocação. Assim como ao mestre deve haver dedicação ao ensino, ao evangelista cabe dedicação na proclamação do evangelho de Cristo. Ele não pode se perder em firulas, em controvérsias teológicas, coisas que podem gerar embaraços no exercício de seu ministério. A orientação de Paulo ao evangelista Timóteo é para que este faça, de fato, o trabalho de um evangelista (1Tm 4.5).

2. Apologia da fé cristã. No próprio exercício ministerial de anunciar a Cristo, o evangelista se deparará, não raro, com ocasiões em que precisará apresentar uma defesa inteligente e sistemática da fé, ou seja, atuará como apologista. Tal desafio acontecerá quando se deparar com corações mais reticentes, inclinados a debates e questionamentos.  Jesus fez muito isso (Jo 3.1-13; Lc 10.33). Paulo várias vezes teve que apresentar uma defesa sistemática da fé (At 17; ver Fl 1.15). Ressalte-se também o fato de que muitos trabalham na evangelização de pessoas de outras religiões e seitas e, portanto, ficam diante dos mesmos desafios que a igreja primitiva enfrentava em relação aos judeus e gregos (ver 1 Co 1.23).
Destarte, o evangelista deve estar pronto, a partir do exercício constante do estudo e da oração para apresentar, sempre que necessário a defesa inteligente e sistemática da fé que prega.

3. Integração do novo convertido. O evangelista não é pastor, mas ele trabalha em conjunto com este, pois cabe a ele ganhar as almas e integrá-la a uma igreja local a fim de que as mesmas sejam discipuladas e se tornem outros obreiros eficientes na promoção do reino de Deus.  Pegando Paulo como modelo, ele, onde passava, ganhava almas, estabelecia igrejas, entrega-as a pastores e seguia sua jornada missionária. De tempos e tempos, visitava aquelas igrejas e ou lhes escrevia cartas. É isso.

CONCLUSÃO
Vimo na aula de hoje que o Espírito Santo vocaciona alguns na igreja para serem grandes ganhadores de almas, os evangelistas. Também vimos a história de homens que, sendo vocacionados por Deus, fizeram a diferença na obra da evangelização, com destaque para Felipe, arrebanhado muitas almas para o aprisco do Salvador. Mas não podemos ficar só nisso. Cabe a nós, em nossa geração tão carente, usar as armas do Espírito para anunciar o evangelho de Jesus e fazer a diferença em nossa geração.

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Claudionor. O desafio da evangelização: obedecendo ao ide do Senhor Jesus de levar as boas novas a toda a criatura. Lições Bíblicas CPAD, 3º trimestre de 2016.
MACARTNEY, Clarence E. (org.). Grandes Sermões do mundo. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
BOYER, Orlando. Heróis da fé: vinte homens extraordinários que incendiaram o mundo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
DUEWEL, Wesley. Heróis da vida cristã: a inspiradora trajetória de grandes nomes do cristianismo. São Paulo: Vida, 2004.



[1] Ministério Profético e apostólico. A função do evangelista. Disponível em http://quadrangularmedeiros.blogspot.com.br/2010/03/funcao-do-evangelista.html. Acesso em 16.07.2016.