quarta-feira, 19 de maio de 2010

Condenados à Liberdade (?)

artigos | artigo cientifico

Hoje, logo cedo, resolvi reler as páginas do Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia). Para ser mais preciso, li o livro de Números, dando sequência a uma leitura exaustiva que tenho empreendido há algum tempo para ler toda a Bíblia. Em Números, há o registro da contagem dos filhos de Israel, um recenseamento ordenado por Deus (por isso que o livro leva este nome na versão grega), e o relato das constantes rebeliões dos israelitas contra a autoridade de Moisés, de suas murmurações contra Deus e das punições aplicadas por Este como forma de inibir o espírito subversivo do povo.


Dentre as rebeliões mais contundentes, estão a que foi promovida por Corá e uma outra perpetrada por Arão e Miriã, ambas em momentos e situações diferentes, questionando a autoridade de Moisés, o que resultou em punições severas aos subversivos. No caso de Corá, a terra se abriu milagrosamente e o tragou juntamente com os seus parentes. No segundo caso, Miriã ficou repentinamente leprosa.

Em episódios menos notórios de desobediência, dois filhos de Arão foram consumidos pelo fogo de Deus, por terem apresentado um culto de forma indevida. Outros subversivos foram punidos com a peste, porque desejaram comer carne ao lembrarem as guloseimas do Egito. Em todas essas situações, o Senhor Deus se mostrou inclemente com os amotinados.

Escapuliu-me à compreensão o motivo por que o bondoso Deus de Abraão tratou com tanta severidade o seu povo. Em quase todas as páginas de Números, o que pude ver foram criaturas assustadas e revoltadas, sob um jugo insuportável, e um Deus irado, frustrado e profundamente entristecido por não conseguir a lealdade voluntária daqueles que eram objeto de seu incomensurável amor. 

A ideia de liberdade como algo inerente à natureza humana permeia toda a epopeia de Israel rumo à terra prometida e estende raízes retroativas até a época de escravidão no Egito. Pode parecer paradoxal capturar este conceito em páginas que registram uma história de cerca de 200 anos de escravidão, seguida por um regime draconiano no deserto, mas é evidente que, enquanto estiveram sob a escravidão de Faraó, os israelitas organizaram toda a sua vida ao redor do sonho de libertação e brigaram por isso. Moisés tornou-se a expressão maior deste desejo, quando se arremeteu contra um egípcio que maltratava seu irmão hebreu e o matou, o que culminou com a sua fuga para as terras de Midiã, onde passou quarenta anos e de onde voltou com ordens claras de Deus para ser o líder da libertação.

Liberto o povo do jugo egípcio, Moisés o guiou pelo deserto, rumo a Canaã, terra que Deus lhes havia prometido. Como uma forma de organizá-los numa nação diferenciada pela santidade, estabeleceu leis severas a fim de delinear o comportamento e a relação dos hebreus, tanto entre eles mesmos, como entre eles e Deus. O menor desrespeito era punido com a morte. Temos como exemplo que se um homem fosse pego apanhando cavacos no dia de sábado para acender o fogo e derreter a gordura do leite, seria inclementemente apedrejado por desrespeitar o quinto mandamento do decálogo.

Mas é importante notar, sem nenhum juízo de valor, que nem o fogo, nem os trovões, nem todas as ameaças da Divindade conseguiram arrefecer o anseio dos israelitas pelo direito de escolher qual rumo dar para a sua própria vida, o direito de se pronunciar, discordar e questionar tudo o que se lhes estava sendo apresentado como meio de se viver feliz. Neste embate, dá-se relevo a um Deus "angustiado", usando de meios que causam pavor ao olhar do leitor hodierno, valendo-se de um absolutismo insuportável, como também vemos homens obstinados na luta pelo direito de serem eles mesmos, digladiando-se com a Divindade.

Sartre escreveu que os homens estamos condenados à liberdade. Aliás, este é o pensamento central do Existencialismo. Apesar de saber que a frase do filósofo tem originalmente conotações diferentes da abordagem prática feita aqui, ela também me serve para expressar a verdade que me saltou das páginas do Pentateuco. Lá em Gênesis, um casal se rebela contra a vida regrada de um paraíso, para tristeza do coração da Divindade. Em êxodo, um povo decide não ser mais escravo e arrebenta as algemas, para tristeza do coração do Faraó. No deserto, durante quarenta anos, este mesmo povo se rebela contra Aquele que o libertou por entender que outra algema lhe fora posta.

Eu não entendo por que Deus insistiu tanto, já que Ele conhece melhor que ninguém a estrutura humana e sabe que ser livre é essência da própria natureza deles. Foi assim no decorrer de todo o Antigo Testamento. Assim tem sido no decorrer da história humana. Todos os que fizeram uso das algemas perderam a guerra, porque ser livre é o que constitui o humano, de sorte que nem mesmo a repressão em nome de Deus conseguiu abafar este grito de liberdade de um povo. Realmente, o filósofo tinha razão em todos os sentidos: “Estamos condenados à liberdade”, para o nosso bem ou para o nosso mal. Foi o que constatei neste dia.

Não estou fazendo juízo algum sobre os propósitos de Deus e as suas atitudes em relação ao seu povo. Na dúvida, perplexo diante de tanta brutalidade no Antigo Testamento, prefiro acreditar que o entendimento de Deus está muito elevado e que, por isso, há coisas que não entendemos. Apenas relato minhas impressões. E a impressão que tive é que Deus não venceu esta batalha, talvez a única que não ganhou, quando declarou guerra ao anseio humano de liberdade. A história de Israel no Antigo Testamento é a história de homens e mulheres rebelados contra um regime severo que se opunha à própria natureza deles.

Mas pulo para as páginas no Novo Testamento e vejo Deus dar uma cartada de Mestre. Ele parece mudar de estratégia, quando abandona o caminho do absolutismo severo e entrou pelas veredas do auto sacrifício. Foi bom que a Divindade tenha se humanizado na pessoa de Cristo e podido sentir as misérias humanas e as nossas dificuldades de submeter-nos a uma lei que somente a natureza divina pode cumprir. A encarnação foi um golpe de mestre porque, através do auto sacrifício, Deus atraiu a lealdade de uma multidão incontável de seguidores, os quais estavam e estão dispostos a darem sua vida por Ele. Quase dois mil anos se passaram e os seguidores de Cristo hoje são mais que em qualquer outro tempo. Eu acho que isso ensina alguma lição: o coração humano só se pode conquistar com empatia e auto sacrifício. Quando a empatia e o auto sacrifício são o cetro do governo, o povo deposita, espontaneamente, sua liberdade aos pés dele.


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